Blogs e Colunistas

União Européia

19/11/2012

às 11:59 \ Oriente Médio

Mais uma rodada sangrenta no ciclo macabro apesar de você

Dirigentes palestinos e israelenses sentem ciúmes das questões que realmente determinam os destinos do planeta e, em efeito, o cotidiano da maioria dos demais terráqueos. Quando a pendenga entre eles que já dura mais de meio século sai do radar das atenções, ambos dão um jeito de colocar a disputa em pauta – invariavelmente com mortes, destruição e dramas. A encrenca tem importância, mas não é necessariamente o mais premente a ser resolvido nem impedirá o sol de se levantar na linha do horizonte. Aliás, entre eles mesmos, sozinhos, sem que ninguém meta o bico ou a colher de pau, formam a melhor configuração para avançar no diferente que os separa.

O Quarteto – Nações Unidas, União Européia, Estados Unidos e Rússia – vem tentando em vão desde 2002 catalizar entendimentos entre as partes. Desta vez, há também mediador adicional, o novo presidente do Egito, Mohamed Mursi, líder histórico da Irmandade Muçulmana. Alguns acreditam que ele possa costurar uma trégua efetiva e durável. Isso pela sua proximidade ideológica com o grupo terrorista Hamas e o interesse de preservar o tratado de paz entre Egito e Israel, atualmente sob governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e com eleições legislativas marcadas para 22 de janeiro de 2013. O tratado selado 33 anos atrás é domesticamente impopular, mas condição incontornável da ajuda econômica dos EUA ao seu país – 1,5 bilhão de dólares anuais.

Contudo, os beligerantes ainda acham que podem vencer pela força o vizinho com quem precisam irremediavelmente conviver para o resto dos tempos. Neste ciclo macabro, os radicais – envenenam as questões para criar ambiente onde se sentem mais à vontade – são os principais colaboradores. Resultado: lá vamos nós para mais uma rodada sangrenta tentando ser persuadidos que o Apocalipse está há duas polegadas de distância. Não está. Olhe bem a sua volta e note em que fundamentalmente o conflito entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo afeta a sua vida. Ocorre sim, uma vez mais, o de sempre, o sofrimento das populações locais.

Atualização: Depois 8 dias de conflito com mais de 150 de mortes, destruição e dramas, uma vez mais, atraindo a atenção do planeta para si, palestinos e israelenses anunciaram um cessar-fogo. Uma trégua até a próxima rodada sangrenta de um ciclo macabro que já dura mais de meio século apesar de você.


Por Antonio Ribeiro

27/09/2012

às 15:42 \ França

Homenagem à derrota

Nem todos presentes viram a cabeçada no Estádio Olímpico de Berlim. A maioria estava com os olhos fixos na disputa da bola, do ouro lado do gramado. Mas o mundo inteiro viu porque a TV mostrou o replay de um dos momentos mais infames do futebol. Quem passar em frente ao Centro Georges Pompidou, o Museu Nacional de Arte Moderna, em Paris, não corre o risco perder o lance.

O artista plástico argelino Adel Abdessemed recriou em tamanho monumental – 5 metros de altura – o instante em que o atacante francês de origem cabila Zinedine Zidade agrediu o zagueiro italiano Marco Materazzi durante prorrogação da partida final da Copa do Mundo de 2006. O escultor diz que fez uma “ode à derrota”. A criação vai no sentido contrário dos monumentos que celebram a glória. O Arco do Triunfo, por exemplo.

Trata-se de uma triste lembrança com 2 toneladas de bronze para os franceses. Isso em um momento em que, no meio da maior crise econômica do país desde a Segunda Guerra Mundial, eles andam azedando o humor com o acúmulo recente de notícias ruins. Esta semana, por exemplo, o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (INSEE, na sigla em francês) revelou que a França ultrapassou a marca simbólica de 3 milhões de desempregados.

Grandes empresas como é o caso das Sanofi, AcelorMittal e Petroplus. As empresas estão na iminência de anunciar “planos sociais”. Todos juntos, eles significam a perda de 5.000 empregos a curto prazo. O governo do socialista François “Normal” Hollande cujo índice de aprovação despencou para 43% – nenhum presidente da Quinta República teve queda tão rápida seguida à posse – promete aumento de impostos que totalizam 20 bilhões de euros a menos no poder aquisitivo dos contribuintes individuais e nos recursos das empresas privadas. Menos poder aquisitivo, menos consumo. Menos recursos, menos investimento e criação de empregos.

A expectativa otimista de crescimento da França em 2013, segundo o governo, gira em torno de medíocres 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Economistas independentes prevêem a metade disso. Para criar empregos o país cuja  dívida pública acumulada está prevista para chegar a 91,3 do PIB este ano, precisa crescer, no mínimo, 1%.  E 1,5% se quiser diminuir o desemprego. Neste contexto, ganha corpo entre os ministros do governo desrespeitar a promessa de cumprir uma regra de ouro da União Européia, a de manter o  déficit público anual em 3% do PIB. Na França, ele representa  4,5% do PIB  –  83,6 bilhões de euros.

Faltando 10 minutos para fim de sua brilhante carreira, Zidane deu a famosa cabeçada no peito de Materazzi. O presidente da França Hollande vem dando cabeçadas contra a realidade desde o dia em que assumiu o governo. No orçamento deste ano de 37 bilhões de euros, por exemplo, apenas 10% representam redução nas despesas do governo. O resto vem de impostos. Serão criados mais 6 000 postos de trabalho na eduçação, polícia e Justiça. Evidentemente. pagos com dinheiro do contribuinte inclusive a aposentadoria. A tendência da redução do funcinários públicos se inverteu pela primeira vez desde 2003. Talvez não seja o fim de uma “brilhante carreira”, certamente não merece monumento comemorativo, mas em breve, muitos farão “odes à derrota”.

Por Antonio Ribeiro

05/09/2012

às 12:51 \ Europa

Super Mario aposta em jogo de arcada

Tudo indica que desta vez o dia será diferente. Pelo menos no que diz respeito à crise do euro. Na questão, são mais freqüente as conversas, da alta esfera ao baixo escalão, em sucessivas reuniões, sem resultados concretos. Não há exemplo mais eloquente no planeta de procrastinação camuflada por meias medidas sem efeito, salvo a de mostrar notável falta de coragem. Agora haverá fato determinante, para o bem ou mal, quando o presidente do Banco Central Europeu (BCE), o italiano Mario Draghi, anunciar um programa de compra de títulos do Tesouro para aliviar os dois grandes países da União Européia (UE) com mais dificuldade em financiar-se no mercado: a Espanha e a Itália.

O que isso significa? Em um primeiro momento, a medida levantou a suspeita de uma transgressão na regra do BCE que proíbe o financiamento direto dos 17 países que utilizam a moeda única européia. O “Super Mário”, apelido de Draghi, sustenta que devido a rápida expiração dos prazos, a compra de bônus soberanos com vencimento em dois ou três anos no mercado secundário é tão legítimo quanto lutar no Reino do Cogumelo contra o vilão Bowser para salvar a Princesa Peach, como acontece no videogame mais popular produzido pela Nitendo. É isso que confirmou ao Blog de Paris, Jean-Paul Gauzès, deputado francês da Comissão de Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento Europeu. Gauzés participou de uma reunião a portas fechadas com o presidente do BCE na qual foi abordado o assunto. Na semana passada, Draghi, em entrevista ao semanário alemão Die Zeit, não deixou dúvidas sobre a sua disposição de tomar “medidas excepcionais” para salvar o euro.

Embora o italiano conte com o apoio da chanceler Angela Merkel e do presidente François Hollande, representantes das duas principais economias da zona do euro, encontra forte resistência por parte dos dirigentes do Bundesbank, o Banco Central alemão. Eles prevêem que a medida audaciosa do BCE provocará o retorno da inflação.  E não só. A intervenção do BCE reduziria o estímulo para os países – de déficits colossais, desemprego massivo e crescimento anêmico – seguirem os rigorosos planos de consolidação orçamental e reformas estruturais que, em última instancia, é o que os salvará do colapso.

Depois de três anos da crise do euro – fundamentalmente um problema mais político do que financeiro ou monetário – o mercado aprendeu a desconfiar dos hesitantes governantes europeus. Quem poderia culpá-lo? O independente BCE com recursos para agir de forma efetiva transformou-se na última trincheira da credibilidade. O papel de guardião do euro prima sobre os interesses nacionais dos países membros.  Contudo, o BCE não tem capacidade para salvar sozinho o euro. O banco sediado em Frankfurt pode sim, ajudar as economias depauperadas a ganhar tempo. A ver se a ação do Super Mario vai neste sentido, se é a “bala de prata” ou se causará a perda de confiança no BCE. É uma aposta e tanto.

Atualização:  De fato o dia foi diferente em Frankfurt. Mario Draghi anunciou que o Banco Central Europeu irá comprar títulos soberanos de países dividados da zona do euro e cuja maturidade vai de um a três anos, “sem limite”. A taxa básica de juro da foi mantida em 0,75% ao ano. O BCE irá divulgar semanalmente o montante das compras. Super Mario pediu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que reforce as condições para efetivar a nova intervenção do BCE. As compras serão no entanto submetidas a uma “rigorosa condicionalidade”: os países que pretenderem beneficiar deverão pedir com a devida antecedência ajuda ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. O anúncio do BCE diminuiu os juros das dívidas. O mercado reagiu favoravelmente até agora.

Por Antonio Ribeiro

18/06/2012

às 10:14 \ Europa

Grécia: sem milho não tem pipoca

Determinados, bem à sua maneira, os gregos agiram para afrontar a Alemanha de igual para igual. Calma. Estamos falando da Eurocopa, na qual depois de vencerem o bonito futebol dos russos, o time do novo herói da resistência helênica, Giorgos Karagounis, vai enfrentar a Alemanha do boleiro com melhor desempenho da competição, Bastian Schweinsteiger, “O Porquinho”. Fora das quatro linhas, a maioria dos gregos mostrou-se menos audaciosa. Foi ajuizada.

Desta vez, os eleitores gregos colocaram no colo de Antonis Samaras, líder do partido conservador Nova Democracia (ND), a oportunidade de formar um governo de coalizão que cumpra os acordos com a troika (Comissão Européia , Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu) e, em efeito, permanecer na zona do euro. Samaras já iniciou tratativas com o Partido Socialista, terceiro colocado nas eleições, atrás da Esquerda Radical liderada por Alexis Tsipras, para consolidar um governo de “salvação nacional” de um país onde a dívida é de 165% do Produto Interno Bruto (PIB), 22% da população ecomicamente ativa está desempregada e um entre dois jovens gregos está na mesma condição.

Nas eleições parlamentares de maio, os gregos votaram para dar força aos seus partidos extremistas que apregoam não cumprir os acordos. Foi uma espécie de blefe eleitoral para tentar amedrontar os europeus e com isso, atenuar as medidas de rigor orçamentário, a contrapartida de uma ajuda de 380 bilhões de euros até 2014, quase três vezes superior ao Plano Marshall, responsável pela reconstrução da Europa Ocidental mais a Turquia após a Segunda Guerra Mundial.

Por que os gregos mudaram de posição? Fundamentalmente, porque a chanceler alemã manteve a dela. No entreatos das eleições na Grécia, Angela Merkel fez saber: sem milho não tem pipoca. Ou seja, sem o cumprimento dos acordos não há ajuda. Os radicais gregos apostaram na vitória de François Hollande na França, a segunda maior economia da Europa, como a chegada de “novos ares” no Velho Continente. Comemoram a derrota do partido de Merkel nas eleições regionais na Renânia do Norte-Vestfália, o estado mais populoso da Alemanha. Em Camp David, quando os chefes de estado dos países do G7 encurralaram Merkel com pires nas mãos, os extremistas gregos acharam que roteiro seguia seus conformes.

Mas diferente de Margaret Thatcher, tantas vezes isolada e sem complexo da situação, Merkel usa linguagem branda, faz concessões cosméticas para não despertar lembranças de um passado hegemônico e negro do seu país, mas não arreda de suas convicções. Ela crê que a prosperidade européia vem com a produtividade e respeito às regras do jogo, os pilares que fizeram da Alemanha a economia mais pujante do continente. Pelo que se viu até agora, muito pouco provável que seu curso, respaldado pelos alemães, tome rota inversa.

O novo voto grego não é o fim da crise nem o princípio do fim. Ele só afasta a possibilidade de uma catástrofe imediata. Ademais, ela está condicionada a formação de um governo com alguma estabilidade para conduzir o país no rumo do bom senso de reformas ficais e estruturais. A situação que não é indolor nem menos dramática foi inexistente nos dois últimos meses e conturbada há bem mais tempo.

Por Antonio Ribeiro

06/06/2012

às 14:27 \ Europa, Futebol

O euro agoniza, viva o Euro!

 

Durante três semanas, a maioria dos europeus – e não só eles – vão acompanhar 16 equipes disputarem 31 partidas de futebol através de 31 câmeras de televisão de alta definição nos estádios da Polônia e da Ucrânia, antigos satélites soviéticos descongelados pela adoção da economia de mercado, onde a cerveja é a mais barata da Europa. O pint, pouco mais da metade do litro, custa 58 centavos de euro em Kiev e 1, 55 euros, nos bares de Varsóvia.

A mini copa sem o Brasil, Argentina, Uruguai e fora a melhor seleção africana do momento deve trazer benefício médio de 7 bilhões de euros para os países sede. Mas nem todos vão lucrar com a Eurocopa 2012. Durante a Copa do Mundo 2010, na África do Sul, por exemplo, a economia inglesa teve queda de produtividade da ordem de 6 bilhões de euros. Os torcedores da ilha devem saber que, quanto mais a equipe inglesa avançar na competição, maior será o prejuízo para o reino de Elizabeth II. “A glória não se calcula assim”, diria Charles de Gaulle, um dos piores amigos e melhores inimigos da Inglaterra.

Quem não gosta do esporte bretão pode encontrar outro atrativo. Contrário ao que acontecia na Inglaterra pela ação de marmanjos despudorados, as partidas do Euro 2012 correm risco de serem interrompidas pela entrada no gramado de feministas seminuas – ou totalmente –  para protestar contra o turismo sexual administrado pela oligarquia mafiosa local. E quem também não gosta dessas surpresas, pode encontrar sempre bom programa nas páginas dos suplementos VEJA Rio, São Paulo, etc. Diga-se de passagem, editadas sob o comando do talentoso jornalista Carlos Maranhão, veterano de todas as copas desde a criação da revista PLACAR.

Quais são os favoritos para erguer os 8 quilos de prata da Taça Henri Delaunay? Antes da bola rolar, a Espanha, atual campeã do mundo, a Alemanha e a Holanda recebem maior numero de apostas. Depois, pode ser qualquer outra seleção. Até a Grécia é capaz de fazer estragos ainda que a competição não seja economia e o euro, por mais valorizado, não tem nenhuma equivalência com a dracma.

A grande questão é saber se Xavi, Inesta e seus companheiros estão realmente tão cansados quanto se mostram e portanto, ansiosos pela chegada das ferias do verão europeu. Ou se vão conseguir, como a França de Zidane, a proeza de ganhar a Eurocopa depois de ter vencido a Copa.

Os governos da Península Ibérica e Itálica bem que gostariam de viver o dilema de La Roja em relação à crise do euro. Porém, seu adversário é bem mais forte que a simpática e multicultural Mannschaft do merengue de origem turca Mesut Ozil. Os teutos jogam como se deve: a linha de meio-campistas nunca está distante dos zagueiros e atacantes, mas eficiência ainda não trouxe títulos para Berlim. Os países endividados do sul da Europa, enfrentam o rigor orçamentário defendido pela chanceler alemã. Frau  Merkel, ainda que pouco apreciada, é quem apita.

O melhor jogador da Europa, o continente que sabiamente transferiu as disputas dos campos de batalha para as arenas esportivas, estará fora das quatro linhas do Euro 2012. Entretanto, Lionel Messi tentará ajudar sua Argentina a classificar para a Copa no Brasil. A maior atração individual, também antes da bola rolar, é o  português Cristiano Ronaldo. Na última temporada, o atacante teve melhor desempenho que Messi.  A vida como ela é. Mas para ganhar, CR7 terá que fazer  esforço de Hercules. Isso porque a Seleção das Quinas – se classificou empatando com Chipre e com a ajuda de derrota norueguesa – é ele mais nove, considerando que Pepe e  Fábio Coentrão entram, cada um, com meio.

A Polônia virou o jogo

Quando os cartolas da União das Federações Européias de Futebol (UEFA) escolheram  Ucrânia e Polônia para sediar o Euro 2012, o binômio parecia o sucesso abraçado com a encrenca. Em plena Revolução Laranja, crescimento econômico superior a 7% do Produto Interno Bruto (PIB), a Ucrânia demonstrava apreço, popular e por parte das elites governantes, pela democracia. O país achegava-se da candidatura para ingressar na União Européia (UE).  À época, a Polônia era governada pelo primeiro-ministro nacionalista Jaroslaw Kaczynski. O polaco marginalizou seu país em disputas estéreis com rivais históricos, a Alemanha e a Rússia. Jogo ruim de assistir.

Cinco anos depois, a situação se inverteu. A Polônia tornou-se a mais recente história de sucesso político e econômico da Europa. O governo do primeiro-ministro Donald Tusk, o único a ser reeleito desde a queda do comunismo, é estável. O país driblou bonito a recessão de 2009 – também desempenho único no Velho Continente. Tem um dos mais rápidos crescimentos econômicos da UE. A Polônia investiu, sem PAC e Delta, 30 bilhões de euros para acolher o Euro 2012. A maior parte do dinheiro serviu para criar infraestruturas e melhorar os transportes dilapidados, em sua maioria, de origem soviética. Só 5% da bolada foi usado diretamente para construção de novos estádios, como o de 58.000 lugares à beira do Rio Vístula, em Varsóvia – será palco inaugural da competição com o Polônia x Grécia, 8 de junho, às 15h45m  (Brasília), um jogo cheio de simbolismos de uma Europa a duas velocidades.

O esforço polonês se insere na ampla tentativa de mudar a imagem de país cinzento que emergiu da era comunista para a modernidade. Resta um grande desafio que vem de outros tempos: controlar as manifestações de grupos racistas e xenófobos nos estádios. Já inciou antes de começar. Durante treino em Cracóvia, um coro de torcedores fascistas insultaram os jogadores holandeses negros. Foram chamados de “macacos”. Isso depois da equipe ter visitado o campo de concentração de Auschwitz para render homenagem às vítimas da barbarie nazista.

Em contrapartida, a Ucrânia ainda tenta recuperar-se de uma contração econômica de 15% devido à recessão da década passada. Mesmo assim, aplicou 8 bilhões de euros nas suas quatro cidades sedes: Kiev, Lviv, Donetsy e Kharkiv. Em apenas 18 meses, foram construídos 4 aeroportos. Para receber os torcedores a Ucrânia tem doravante, 70 novos hotéis. Estima-se que 80% dos visitantes nunca pisaram antes no país. A esperança é que voltem.  Contudo, a imagem da Ucrânia está cada vez mais associada a de uma autocracia com corrupção disseminada.

Os deputados ucranianos vão além dos insultos pesados que acontecem durante as CPIs em Brasília. Trocam sopapos no Parlamento sem complexos. A ex-primeira-ministra e líder da Revolução Laranja, Yulia Tymoshenko, de 51 anos de idade, foi condenada a sete anos de prisão por apropriação de fundos públicos. Ela iniciou greve de fome contra o que alega ser uma vingança pessoal do atual presidente, Viktor Yanukovitch que lhe deu uma surra eleitoral. A situação chegou a suscitar ameaças de boicote ao Euro 2012. Suspeita-se que madame terá que tentar outra ocasião. O pessoal aqui, gosta de bola como ao sul do Equador, embora não manifeste da mesma maneira.

Atualização enviada pela leitora Paula Barcellos: “Os deputados gregos tambem aderiram aos sopapos sem complexos em pleno Parlamento.”

Por Antonio Ribeiro

17/05/2012

às 7:43 \ Europa

Novo herói da tragédia grega é um assassino em série

Ele é falso como as contas que a Grécia apresentou para ingressar na União Européia (UE). Mas tão admirado, embora em segredo, que o seu criador,  o escritor Petros Markaris, avisa na lapela do livro mais vendido atualmente em seu país: “Este romance não deve ser imitado.”

I Pairaiosi, ou A Liquidação, conta a história de um homicida cujas vítimas são, invariavelmente, gregos endinheirados que não pagam impostos. O criminoso age nos subúrbios ricos de Atenas. As mortes acontecem por envenenamento com cicuta, o método escolhido para matar Sócrates. Em seguida, os corpos são espalhados nas ruínas da cidade antiga, um dos berços da civilização ocidental.

E por que os gregos simpatizam tanto com o protagonista do romance narrado pelo investigador de polícia Costas Haritos? A explicação passa certamente pelo codinome que o herói escolheu, ele se autoproclama, O Cobrador de Impostos Nacional. Trata-se de uma espécie de Robin Hood helênico que antes de matar, rouba membros da detestada elite grega, acusada de responsável pela profunda crise econômica. O fruto do roubo não é em benefício do ladrão, mas serve para encher os depauperados cofres públicos do país.

“O assassino foi construído baseando-se no desejo inconsciente e coletivo da camada mais modesta da população grega atual”, diz Markaris ao Blog de Paris. Apesar de viverem em mansões e possuírem carros luxuosos, a maioria dos ricos gregos declaram rendimentos ligeiramente abaixo do limite mínimo coletável de 12 000 euros.

O comportamento não é novo, ele data do século XIX, mas se agravou com da entrada da Grécia na União Européia. Desde então, a máquina do estado ampliou sua engrenagens e, em efeito, as despesas públicas multiplicaram. Apesar da falta de coleta de impostos, a ajuda das UE jorrava em abundância para pagar as contas elevadas e obter empréstimos. Quando o país deixou de conseguir financiar os seus maus hábitos aos mercados, não havia mais como acobertar a condição insustentável. A descoberta foi espetacular. O drama ficou nu.

No grego arcaico, I Pairaiosi quer dizer a prestação de contas no fim vida.  Em tempos modernos, significa um método de aumento da receita fiscal. Em troca de um pagamento às finanças – A Liquidação – o estado concede uma anistia a quem não pagou os seus impostos. Muitas vezes, a anistia é obtida junto ao governo não quitando as dívidas com o fisco, mas contribuindo para o financiamento dos grandes partidos políticos. E não é raro na Grécia que o sistema corrupto bonifique com cargo público para um parente ou amigo do “contribuinte.”

No romance, o investigador Haritos sutenta que se todos os gregos que fogem aos impostos fossem assassinados a população ficaria reduzida a uns poucos assalariados, desempregados e donas de casa. Na vida real, a questão agora é saber se a eurozona sobrevive com o colapso da Grécia.

Leia o post do Blog de Paris: “Tédio voltou e decepção bate na porta” ou “Monsieur, é por aqui

Por Antonio Ribeiro

16/05/2012

às 7:56 \ Europa

Tédio voltou e decepção bate na porta

Monsieur, é por aqui.

A chanceler alemã Angela Merkel recebeu para jantar o novo presidente da França, François Hollande, duas horas atrasado devido à turbulência aérea, melhor dizendo, um raio.  Prato de resistência do cardápio: aspargos da primavera regado a creme holandês. Hollande chegou ao Kanzleramt, a Chancelaria em Berlim, a bordo de uma Mercedes Benz,  carro da marca que seus compatriotas franceses – e não só eles –  dividem preferência com a BMW.

Merkel abriu sorriso e ofereceu sua mão “de ferro” para o primeiro cumprimento do casal, sempre renovado pelo voto, símbolo do motor econômico e político da União Européia (UE) desde o inicio do jogo, quando Charles de Gaulle e Konrad Adenauer trocaram os primeiros passes. Nada de amor à primeira vista, beijos nas bochechas, tapinhas nas costas ou empatia imediata. O encontro foi educado e cordial como o início dos casamentos arranjados entre velhas famílias para uma irremediável convivência, vital para os descendentes.

A banda alemã entoou os hinos nacionais. A Marselhesa foi trilha sonora justa para a missão de Hollande, descrita pelo autor como a de “apresentar suas condições” para seguir na velha aliança. Ela passa atualmente por um pacto de austeridade fiscal assinado por 25 membros da UE. “Para quem são esses ignóbeis entraves / Esses grilhões há muito tempo preparados?”  O novo presidente francês quer rever o acordo para introduzir  uma “dimensão de crescimento” “atos tangíveis”. Leia-se, mais recursos para os países endividados da eurozona. Dinheiro de fundos do Banco Europeu de Investimentos, por exemplo. A chanceler não é contra o crescimerto econõmico. (Imagine!)  Frau Merkel sustenta, no entanto – e está certíssima – que ele deve ser feito via controle orçamentário e redução de gastos públicos ou se volta para casa um, o início do problema. Os franceses que operam no vermelho desde 1975, naturalmente, não gostam do aperto. Quem gosta?

A Canção dos Alemães, “Alemanha, Alemanha acima de tudo”, lembrou que o país da chanceler Merkel cresceu apenas nos primeiros três meses de 2012 o que se prevê para França durante o ano inteiro. Ou seja, 0,5% do Produto Interno Bruto. O desempenho da Alemanha livrou da recessão os 17 países que usam a moeda comum do Velho Continente. No mesmo período, a França estagnou com crescimento econômico nulo – 0,5% do PIB. Hollande mostrou uma certa dificuldade para caminhar em linha reta no tapete vermelho, Merkel com um jogo de ombro, ajeitou a rota.

Como era esperado e rege a tradição, o casal franco-alemão convidou os desabusados dirigentes gregos a respeitar as medidas de austeridade da UE  que até 2014, deve transferir para Grécia 380 bilhões de euros entre ajuda financeira, hair cut do setor privado e fundos europeus. Isso corresponde a 33.600 euros para cada grego. Equivale a cinco anos de salário mínimo para todos os habitantes do país, incluindo as crianças e os aposentados. Ainda assim é cada vez menos sustentável a permanência na zona do euro de um país incapaz de formar um governo nos nove últimos meses e com a perspectiva não conseguir exportar uma azeitona.

O primeiro encontro não foi momento para decisões. Como bom aluno da Escola Nacional de Administração (ENA), François Hollande anunciou que uma comissão de especialistas foi convocada para estudar a situação da França. É sempre enfadonhamente assim com os enarques quando surge um problema grave. Não é nenhuma garantia, longe disso, mas quem sabe dia 23 de maio, na reunião de cúpula semestral da UE se possa ter algo mais claro. Até lá, nota-se que o tédio voltou e a decepção pode vir por aí, em breve.

Por Antonio Ribeiro

07/05/2012

às 8:40 \ França

Monsieur Normal: “A França não é um país qualquer”

Apreciado o tamanho da multidão que ocupou a Praça da Bastilha em Paris após a vitória de François Hollande, constata-se fácil, ela esteve à altura para comemorar a volta dos socialistas, ausentes da Presidência da França durante 17 anos. A julgar pela efervescência – lembrou a conquista do campeonato mundial de futebol em 1998 – o momento pode se matricular como mais uma tomada de um lugar repleto de simbolismos para os nativos e povos alhures. Isso antes do protagonista da noite subir ao palco. Quando Hollande começou a falar, a razão ficou mais evidente. Tratava-se, acima de tudo, da derrota de Nicolas Sarkozy.

Observadores mais atentos, menos apaixonados, esperançosos de que o momento histórico pudesse encontrar seu par, suspeitaram de que, finalmente, era chegada a hora. O candidato inodoro e insípido, eleito à Presidente da República iria aproveitar o seu melhor instante até aqui para receber quem sabe, o espírito de grandeza de um Charles de Gaulle ou algo da retórica apurada de um François Mitterrand ou buscar na rica literatura dos seus compatriotas alguma inspiração arrebatadora. Definitivamente, o estilo flamante não é o de François Hollande. O mais próximo da arte de bem falar que se pode pinçar no discurso do novo presidente foi o seguinte: “Meço a honra que foi me concedida e a tarefa que me espera.”

A eloquência e o carisma não são traços indispensáveis na liga que forja grandes homens. Muitas vezes, elas ajudam camuflar até a mediocridade. As boas idéias e os grandes feitos acabam por sobrepor as belas palavras e repetição de princípios nobres que não encontram lastro na ação. Enquanto Nicolas Sarkozy, segundo ele próprio, prepara sua partida da vida pública, de braços dados com Carla Bruni, Hollande acordou abraçado com a França real. Um país com índices econômicos aos frangalhos, povoado por indivíduos, nativos e adotados, a procura de um senso de identidade comum que lhes possa trazer, não os tempos gloriosos, mas simplesmente a idéia de nação e a perspectiva perdida da prosperidade.

Além do reconhecimento e da lucidez, Hollande deixou entender que deseja exportar a idéia do fim da austeridade e a inserção de uma dimensão de crescimento no plano de salvação da Zona do Euro. Seria bonito se uma coisa não tivesse estreita ligação com a outra. Seria mais crível se as armas não fossem o decreto e pressão baseada na força dos votos de um país entre os 25 que assinaram um pacto. A França “não é um pais qualquer”, como bem diz Hollande, mas não tem força significativa sozinha, sem que seja parte completamente engajada no projeto europeu. Isso passa forçosamente pela estreita parceria com a vizinha Alemanha. Está é a normalidade. François Hollande, o “Monsieur Normal”, irá se enfronhar completamente a partir do dia 15 maio, data da sua posse. Normal em qualquer país.

Por Antonio Ribeiro

04/05/2012

às 15:51 \ Sem Categoria

“É no sacolejar do caminhão que os melões se arrumam”

As conjecturas não são muito bem vindas para quem aprecia a precisão e lida com informações verificáveis. Não gosto delas pela incompatibilidade com meu oficio. No entanto, por dever humanitário, podemos tentar aclarar as trevas e sugerir direção às almas desgarradas do bom senso.

Há por aí, dois ventos que sopram em direções diametralmente opostas e, como consequência, formam confusão.

O primeiro é uma assertiva que, caso François Hollande venha ser eleito presidente da França, iria impor outros rumos para a Europa no que diz respeito à política de austeridade, cujo  pacto leva abaixo 25 assinaturas de chefes de estados e ministros europeus sob auspícios do casal Merkozy.

Por último, no caso dos franceses permitirem pelo voto igual circunstância, haveria um divorcio entre as duas maiores economias do Velho Continente. Em efeito, a frágil armadura da eurozona seria perfurada. Isso devido à eventual intransigência de posições da chanceler alemã Ângela Merkel e François Hollande.

Ora, ora. Hollande precisa ganhar as eleições de domingo, 6 de maio. Até lá, a personagem do valente é obrigatória ainda que ele a tenha desempenhado quase nunca na carreira política. Depois, como ensinava o ditador argentino Juan Domingo Perón: “No sacolejar do caminhão, os melões se arrumam.”

A França com situação econômica aos frangalhos precisa mais do que nunca da parceria alemã. Desde o berçário da União Européia, a Alemanha precisa, sobretudo, de uma caução moral da França para não ficar muito evidente de que é ela quem dá as cartas. Não é difícil advinhar quem precisa mais de quem. E se Hollande for eleito, quem cederá mais, ele ou Merkel?

Caso Hollande seja eleito, o mais provável é que ele vai se contentar com alguns gestos simbólicos de Berlim “para francês ver” que lhe permitam dizer que conseguiu mudar o rumo da questão em favor do “crescimento”. Tornar-se defensor dos países europeus endividados e romper com a Alemanha não faz sentido com a tradição da diplomacia francesa construída na forte premissa de que os dois países são os motores da União Européia. A aventura fagilizaria ainda mais a imagem econômica do país junto aos mercados.

As eleições na França, Grécia e Holanda são importantes para frau Merkel. Mas a chanceler mede e pondera  às eleições regionais no Norte e no Oeste da República Federal, no Schleswig-Holstein, dia 6 de maio, e na Renânia do Norte-Vestfália, dia 13. Elas serão projeções do que pode acontecer com a chanceler mais para frente.

Sabe quem vota? Aquele que está cansado e não quer mais pagar o substancial da conta europeia, o contribuinte alemão.

Atualização: A última pesquisa antes da votação realizada pelo Instituto Ifop-Fiducial e depois do debate revela a menor diferença entre os dois candidatos desde o início da campanha eleitoral. Ela é agora de 4 pontos percentuais: Hollande 52% e Sarkozy 48%.

Por Antonio Ribeiro

27/04/2012

às 6:00 \ França

Um homem modesto com todas razões para ser modesto

Pelo décimo primeiro mês consecutivo, o desemprego aumentou na França. De acordo com dados do Ministério do Trabalho, a França tem agora 2,9 milhões de desempregados. Ou seja, 9,8% da população economicamente ativa. O índice é o mais alto desde setembro de 1999 em um país no qual governos de direita ou esquerda não apresentam um excedente orçamental há 35 anos. Os gastos públicos atuais são equivalentes a 56% do Produto Interno Bruto (PIB), os mais elevados da eurozona. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê para o “pequeno país que desempenha papel de grande nação”, segundo dizia Charles De Gaulle, um crescimento pífio de 0,5% do PIB em 2012 e de apenas 1% em 2013.

Confirmada a previsão do FMI, o crescimento será insuficiente para manter as promessas dos canditados a presidência da França de reduzir o déficit publico a 3% do PIB. Terá que se economizar ou encontrar receitas para tapar buraco de 18 bilhões euros. Considerando o baixo capital de coragem e profundo autismo em relação aos problemas econômicos na campanha eleitoral pelo socialista François Hollande e o conservador Nicolas Sarkozy, há margem para supor que o perdedor da disputa será o mais sortudo. O despertar no dia seguinte aos resultados que indicarão o novo presidente da República francesa será brutal.

Na data em questão, o favorito Hollande com vantagem de 10 pontos a frente de Sarkozy, segundo as pesquisas, promete se eleito, pegar avião para Berlim. Gesto seguido ao desembarque na capital da Alemanha, o socialista diz que irá encetar renegociação “firme e amistosa” do pacto de estabilidade europeu com a chanceler Angela Merkel. Ela já fez saber – e não perde oportunidade para relembrar – que não tem conversa neste sentido. O pacto ratificado por 25 países membros da União Européia é inegociável. A chanceler vem avisando que descarta rigor orçamentário do tipo keynesiano. E adiciona: “A questão do crescimento econômico, que alguns reclamam agora, há muito tempo é o segundo pilar da nossa política junto com finanças publicas saneadas.”

Alguns profetas dizem que a eventual vitória de Hollande que fala muito sobre justiça social, mas pouco sobre a necessidade de criar riqueza, trará novos ventos à Europa. Hollande, “O senhor modesto com todas razões para ser modesto”, parafraseando Winston Churchill sobre o ex-primeiro-ministro trabalhista britânico Clement Attlee, irá liderar movimento para isolar a posição da Alemanha que prescreve medidas de austeridade para salvar a zona do euro da bancarrota. Pode ser. Por que não? Para liderar basta ter qualidades inerentes e seguidores que a reconheçam.

Mas para que a missão de Hollande resvale em algum sucesso, será preciso cumprir algumas formalidades singelas depois de vender a falta de clarividência de frau Merkel, ela que comanda o único país da Europa que foi capaz reduzir o desemprego pela metade. Será necessário convencer o pagador de imposto alemão de que ele deve continuar arcando calado com as despesas salgadas e sem ver perspectivas de fim. Persuadir as agências de avaliações de crédito de que rebaixar as notas dos países endividados, como acabam de fazer novamente com a Espanha, não é legal. Induzir ânimo aos bancos para baixarem as taxas de juros mesmo quando a situação de alto risco recomenda o inverso. E por fim, exigir que as bolsas e o mercado digam: “Amém”.

Leia o post do Blog de Paris: “Marine Le Pen vota Hollande

Por Antonio Ribeiro
 

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