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Osama bin Laden

05/05/2011

às 3:07 \ Terrorismo

Bin Laden vivo ou morto

Casa Branca: Obama e Conselho de Segurança acompanham a operação em tempo real

Por que os Estados Unidos iriam mentir sobre a morte de alguém que poderia aparecer amanhã em vídeo no YouTube dizendo: “Olha aqui, seus bobocas, eu estou vivo!”?

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Por Antonio Ribeiro

04/02/2011

às 10:30 \ Oriente Médio

Egito: a chance de ser berço esplêndido outra vez

Foi a faísca. Mohamed Bouazzi, jovem de 26 anos, analista em informática desempregado, tocou fogo nas próprias vestes. Morreu em Tunis. Faíscas são inofensivas sem carburante. Material incendiário há, e de sobra, na margem sul do Mar Mediterrâneo. Região onde 350 milhões se entendem e confundem-se pela língua árabe com mais em comum que a fé em Alá: ditaduras, desemprego, jovens com perspectivas funestas e disseminado desejo, dos mais pobres aos abastados, de se beneficiarem das ofertas criadas nas sociedades capitalistas modernas.

O incêndio está hoje na Tahir Square, a Praça da Liberdade, coração urbano do Cairo. Lá, os protestos populares começaram com brados contra o ditador local, Hosni Mubarak, 82 de anos de idade entre os quais, 33 anos no poder e o filho como sucessor previsto assim como nas dinastias faraônicas. Seguiram como rege os clássicos do gênero. Pedradas, pauladas, Molotov e, naturalmente, o canto das Kalashinikov. Foi assim, respeitadas as particularidades, nas Américas do Sul e Central. E também no Leste europeu. Na previsão dos mais pessimistas será como no Irã em 1979, quando um ditador caiu para dar lugar à teocracia islâmica. Há labaredas na Jordânia, Iêmen, Argélia, Marrocos e Síria.

Devido ao tradicional papel de tambor de ressonância no mundo árabe, ponto estratégico pelo controle do Canal de Suez, país em paz assinada com Israel ao lado da Jordânia e aliado do ocidente mesmo contra os primos árabes – o caso da primeira invasão do Iraque – o Egito chama toda atenção a si. Mas não só, desperta também grande apreensão. Foi às margens do Nilo, o corredor de águas que corta um museu a céu aberto da Civilização Antiga, que nasceu a Irmandade Muçulmana. O movimento  – 20% de simpatizantes na população egípcia – inspirou todos os outros do islamismo radical, inclusive a ação terrorista.

Segundo profecias que lembram as leituras de fundo do prato das videntes Sacerdotisas de Apolo ou a prática de cartomantes, o futuro do Egito está escrito nas estrelas. Ele obedecerá a  seguinte sequência de eventos:  Mubarak cai, governo de coalizão nacional assume e, mais para frente, a Irmandade Muçulmana toma com uma plataforma do século VII, a restauração do Grande Califado. Possível, provável, mas igualmente incerto. Precipitação nunca curou ansiedade, foi sempre um paliativo.

Para que a teoria dos arautos do Apocalipse egípcio tome forma seria preciso que o maior exército do Oriente Médio – recebe ajuda anual americana de 1,5 bilhões de dólares – queira, do dia para noite, faça chuva ou faça sol, ser comandado por um imã com quatro estrelas no turbante. Os meganhas, a tigrada do Mubarak, que se imiscuíram entre os arregimentados pelo governo para desalojar os manifestantes à força, deveriam abraçar a Irmandade em cujas fileiras está Ayman Al Zawarhiri, braço direito de Osama bin Laden. A rapaziada que mostra a sola do tênis Nike para o ditador na Praça da Liberdade, no lugar de querer um iPad, teria que preferir a Sharia, o compêndio com códigos islâmicos que punem com rigor as transgressões de preceitos medievais. Elas incluem os mais básicos comportamentos dos jovens do século XXI.

A permanência da ditadura no Egito – 85 milhões de habitantes – não é garantia de que o islamismo radical será contido. Muito pelo contrário. Ainda que na clandestinidade, durante as últimas três décadas, ele se propagou com força indomável. É a falta de melhores opções que fazem jovens ingressarem no radicalismo. Fenômeno semelhante acontece com adolescentes favelados que engrossam as fileiras do exército dos traficantes de droga. É engano achar que a falsa estabilidade é melhor que a laboriosa conquista da democracia. O sistema que nunca chega como os comboios da Cruz Vermelha. A longo prazo, traz mais benefícios. Não seria a primeira vez  em que islamistas participariam de governos moderados. Isso é realidade na Turquia, Indonésia e Malásia. Sem uma parte representativa da sociedade nos governos, há pouca chance que eles se sustentem por muito tempo. O contrário desenha atalho mais curto para outra revolta.

A volta da democracia no Egito comporta riscos. Mas ela nunca existiu sem ameaças permanentes. O Egito pode, uma vez mais, transformar-se em um farol para região. Desta vez, como o exemplo do Islã incorporado na democracia árabe. O Blog de Paris sempre foi defensor ferrenho da democracia,  liberdades individuais, economia de mercado, liberdade de expressão, para TODOS. O Egito não é diferente.

Por Antonio Ribeiro

13/04/2009

às 16:42 \ Europa

Chega de destruição

Edição 1943. 15 de fevereiro de 2006

O filósofo muçulmano diz que a ponte entre o Ocidente e o Islã é possível e desejável

Antonio Ribeiro, de Londres

Se o Islã fosse um califado, o terrorista Osama bin Laden teria hoje o turbante mais alto. Mas, se dependesse da pureza da linhagem, o acadêmico suíço Tariq Ramadan poderia, perfeitamente, reivindicar o comando. Ele é neto do egípcio Hassan al-Banna, fundador da Irmandade Muçulmana, o primeiro movimento de renascimento islâmico, fonte inspiradora do terror em nome de Alá. Seu pai, Said, um dos fundadores da Liga Mundial Islâmica, foi expulso do Egito e se refugiou na Suíça. As armas de Ramadan são as idéias. Ele é autor de vinte livros que projetam sua visão reformista de um mundo muçulmano integrado aos valores liberais do Ocidente. Professor de filosofia européia e estudos islâmicos no Saint Antony’s College, em Oxford, na Inglaterra, ele transformou-se em guru dos jovens muçulmanos europeus. Ramadan está proibido de pisar numa meia dúzia de países árabes e também nos Estados Unidos. Na semana passada, enquanto multidões saíam às ruas em vários países em protesto contra a publicação das caricaturas de Maomé, Ramadan, 43 anos, entrou num café em Ealing Broadway, em Londres. Pediu um cappuccino e conversou com VEJA.

Veja – O mundo seria melhor se os conflitos entre povos e nações fossem resolvidos por meio de guerras de caricaturas?
Ramadan – Caricaturas e humor dependem da realidade de cada um. Certas coisas são universalmente engraçadas, outras não. Devemos ter cuidado com aquilo em que achamos graça. Num universo de tantas referências, algumas pessoas podem não achar graça nenhuma em determinado assunto. Os muçulmanos não estão habituados a fazer piada com religião. Por outro lado, os países ocidentais estão acostumados com isso há pelo menos três séculos. Um mundo melhor seria aquele em que todos nós, sendo razoáveis, escutássemos uns aos outros, e não se tentasse impor aos outros o nosso senso de humor.

Veja – As charges de Maomé deveriam ser publicadas?
Ramadan – Do ponto de vista legal, sim. No contexto de nossas sociedades cada dia mais pluralistas, com diferentes sensibilidades, eu diria que não é sábio publicá-las. Liberdade de expressão exige responsabilidade. É preciso ser razoável. Diga o que você tem a dizer, sem ofender as pessoas. Na Europa, os jornais não ferem a sensibilidade dos judeus. Por quê?

Veja – Como determinar o que é sábio publicar?
Ramadan – Existem a letra fria da lei e o cotidiano das pessoas. São coisas distintas. A discussão começou na Dinamarca, entre jornalistas. Alguns achavam que as caricaturas deveriam ser publicadas, outros que era pura provocação. Quando a provocação vai gerar reações exageradas? Se alguém disser que esses parâmetros são subjetivos, que tudo deve ser baseado na lei, estará certo. Mas a vida é assim?

Veja O que o senhor quer dizer com isso?
Ramadan – A vida nunca é uma questão de escolher entre o sim e o não. Isso é uma visão binária do mundo, da qual discordo. Porque sou livre, faço o que quero. Então faça, e você terá o confronto. Do lado dos muçulmanos, porque é proibido, não faça. Essa atitude preta ou branca é perigosa. Não conduz as pessoas ao diálogo, mas à disputa por poder. Essas questões são uma projeção da vida, merecem respostas com nuances.

Veja – As referências não devem ser claras?
Ramadan – Convivemos com pessoas que não dividem os mesmos valores e sensibilidades. O que devemos fazer? Eu ou você? Eu contra você? O que precisamos é de conhecimento mútuo. Se eu não sou igual a você, nós precisamos nos conhecer. Uma sociedade democrática nunca irá reduzir o convívio das pessoas apenas ao aspecto legal. A Europa tem valores intocáveis. Quem for viver aqui deverá respeitá-los ou estará ferindo a consciência européia. Costuma-se fazer piada na Europa e nos Estados Unidos com o sofrimento judeu? Não. E concordo plenamente que não se deve fazê-lo, mesmo que seja legalmente permitido. A precaução intelectual quando se abordam questões sensíveis é o ponto de partida do humanismo.

Veja Quais são os limites a ser respeitados quando se fala em liberdade de expressão?
Ramadan – É preciso respeitar a sensibilidade coletiva. O problema é que muitos europeus notaram que o continente onde vivem mudou, tornou-se ainda mais diverso do que já era. Não é mais possível encarar o Islã como algo estrangeiro. Veja o meu caso. Como muitos filhos de imigrantes, sou europeu e muçulmano. Portanto, a liberdade de expressão deve respeitar também a sensibilidade muçulmana. Ao mesmo tempo, digo aos muçulmanos, tomem uma atitude crítica e intelectual diante da realidade, não reajam apenas emocionalmente. Eles devem levar em conta que os europeus viveram de acordo com essas regras durante séculos.

VejaMuitos europeus temem que os muçulmanos não estejam atrás de respeito, mas de submissão?
Ramadan – Por que submissão? Quem pensa assim não tem confiança em si próprio. É medroso, sua atitude não emana do orgulho, mas do medo. “Esses caras estão colocando minha identidade e valores em risco.” Eu falo em convivência, em viver juntos. Estou interessado em construir pontes entre as pessoas, para criar um futuro comum.

Veja A reação muçulmana às caricaturas foi exagerada?
Ramadan – Não foi apenas exagerada, mas insana. Acho errado ameaçar governos e a imprensa, promover boicotes econômicos, queimar embaixadas e bandeiras. Não é isso que devemos fazer. Muito menos essa competição de ofensas contra os judeus lançada pelos jornais iranianos.

Veja Por que não se viu no mundo islâmico a mesma indignação depois dos ataques terroristas em Nova York, Madri e Londres?
Ramadan – Porque no início houve aquela atitude paranóica de achar que se tratava de uma conspiração internacional e de que “não temos nada com isso”. Grande parte da elite muçulmana condenou os ataques, mas no nível popular não houve comoção. Desta vez, a questão toca mais de perto a sensibilidade popular que está, claramente, sendo instrumentalizada. Estive em Copenhague em outubro e ainda não havia ameaças. Mais tarde, alguns muçulmanos dinamarqueses visitaram países árabes e passaram a mensagem alarmista. Ou seja, houve uma múltipla instrumentalização por parte de governantes que se diziam defensores de valores islâmicos e de ditadores árabes que apontavam os países ocidentais como responsáveis por todas as frustrações de seus povos. Na Europa, a extrema direita também aproveitou para dizer que os muçulmanos não têm condições de integrar a sociedade ocidental.

VejaPor que não há ninguém do lado israelense e da comunidade judaica tocando fogo em embaixadas?
Ramadan – Porque os judeus entenderam que isso é pura provocação. E também os israelenses não vivem, como 80% dos árabes, na miséria e ignorância. Eles não têm as mesmas frustrações, tampouco o sentimento paranóico de estar sendo ameaçados, continuamente, pelos países ocidentais. E, dizend
o isso, vou ser proibido de entrar em outros países, além da Síria, Arábia Saudita, Egito, Tunísia…

VejaEm que sentido a pobreza influenciou a reação violenta à publicação das caricaturas?
Ramadan – Miséria e ignorância propiciam reações populares puramente emocionais. É mais fácil para os governos locais, sob pressão para abrir sua sociedade e adotar a democracia, direcionar essa fúria para longe deles e na direção do Ocidente. É por isso que os incidentes mais graves ocorreram nas nações muçulmanas que estão em confronto aberto com os países ocidentais. Líderes fundamentalistas também se utilizam com freqüência desse discurso do estilo “nós contra eles”. Eles acabaram beneficiados pelo fato de uma caricatura ter mostrado o profeta Maomé com uma bomba no turbante. Esse detalhe reforçou a idéia de que os ocidentais não gostam do Islã. O muçulmano moderado sentiu-se ofendido ao ser visto no Ocidente como um terrorista.

VejaPor que os muçulmanos europeus reagiram de forma mais comedida?
Ramadan – Os muçulmanos europeus entenderam de cara o desafio que a questão das caricaturas impunha e o perigo que ela representava. Os muçulmanos franceses tomaram a iniciativa de processar os jornais. Embora eu não concorde, é uma atitude menos emocional e, de certa forma, uma abordagem mais construtiva. Ou seja, não caíram na tentação iraniana de querer se exibir como o líder da resistência ao imperialismo ocidental. Os muçulmanos europeus devem permanecer firmes contra essa insanidade.

VejaEstamos vivendo um confronto de civilizações?
Ramadan – Não, o que estamos presenciando são confrontos dentro de cada civilização. Tanto no Ocidente como no mundo islâmico existem aqueles que defendem a necessidade de enfatizar os valores comuns das duas sociedades. Os obtusos, em oposição, acham que seus princípios são melhores e devem ser seguidos pelos outros, nem que seja na base da imposição. Minha posição é a seguinte: os moderados devem se unir e rejeitar as polarizações. Se o Ocidente e o Islã partirem para o confronto de civilizações, os dois lados sairão derrotados.

Veja – O Islã é compatível com as liberdades ocidentais?
Ramadan – Claro que sim. É compatível com o Estado de direito, com a igualdade de cidadania, com a separação das esferas pública e privada, com governos transparentes. A percepção de que o Islã é dominador, dogmático e violento, enquanto o mundo ocidental é livre, democrático e racional, representa uma visão maniqueísta, completamente sem sentido, baseada no desconhecimento da história do Islã. Tivemos nosso período das luzes e também de trevas. Há uma boa dose de influência islâmica nos valores ocidentais. Do ponto de vista cultural, considero-me ocidental e, portanto, favorável à democratização dos países islâmicos e à liberdade de expressão.

Veja – O Islã precisa de um Voltaire (nome literário de François-Marie Arouet, 1694-1778, escritor francês notável por suas idéias anticlericais e pela cruzada contra a tirania)?
Ramadan – O Islã precisa de mais estudiosos, de intelectuais com disposição autocrítica. O que temos hoje não é progresso, mas regressão. Existe um imenso abismo entre nossos ideais e nossa prática. Portanto, precisamos de reformas – e elas não podem vir de fora, ou terão efeito contrário. O mundo ocidental tem um papel importante a desempenhar, que é dar espaço a uma reforma autônoma do Islã. Mas é preciso admitir que o Islã nunca será exatamente como o Ocidente quer.

Veja – Que tipo de reformas o senhor defende para o Islã?
Ramadan – Precisamos parar com essa mania de achar que todos os nossos problemas são causados pelo Ocidente. Há anos venho pregando reformas em livros, artigos e conferências. No mundo islâmico, muita gente prefere me acusar de ser fantoche dos americanos. Fui convidado para lecionar na Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos. Mas o governo americano negou o meu pedido de visto com base na legislação antiterror criada depois dos atentados de 2001. Ou seja, nem entrar no país eu posso. De que adiantaria eu assumir o papel de vítima, como sempre fazem os muçulmanos, achando que todos os problemas vêm de fora?

Veja – Por que o senhor pediu uma moratória na prática de apedrejamento das mulheres adúlteras no Islã, e não um banimento total?
Ramadan – Porque essa punição está escrita no Corão, que é a palavra de Alá. Não é possível simplesmente pedir para retirar esse trecho do livro santo. O mais importante é parar com a prática até que ela se torne um hábito em desuso. Depois, precisamos avançar com a idéia de que, se há texto, também há contexto. Apesar de tudo, eu disse para quem quisesse ouvir na Arábia Saudita e na Nigéria que sou contra apedrejamento, punições físicas e pena de morte. É preciso ir devagar.

Veja – O que deve ser feito para acalmar os fundamentalistas?
Ramadan – Precisamos traçar uma linha divisória. Alguns radicais pregam não só atitudes estranhas, mas também contra a verdadeira natureza do Islã. Essa prática precisa ser condenada sem hesitação. Mas não basta, é preciso que a repugnância seja comunitária.

Veja – Qual o melhor caminho para reduzir a tensão entre o Islã e o Ocidente?
Ramadan – O fato de existirem milhões de descendentes de árabes e muçulmanos vivendo no Ocidente causa um impacto tremendo no Islã. O mundo islâmico está de olho em nós. Se conseguirmos estabelecer uma boa convivência, sob uma base de confiança mútua, estaremos enviando o sinal de que é possível repetir essa experiência num patamar mais amplo, entre o Islã e o Ocidente. O maior atrito ocorre na Europa, mas é também onde há maiores possibilidades de diálogo. O desafio é tremendo. O caso das caricaturas é o sonho da extrema direita européia e também dos extremistas islâmicos, pois atrapalha o entendimento. Os muçulmanos europeus precisam estar totalmente comprometidos com a identidade européia e convictos de que esta sociedade é também a deles.

Veja – Como o senhor provocaria mais admiração no seu pai?
Ramadan – Construindo pontes entre os dois mundos aos quais pertenço, e que hoje estão surdos e se vendo como caricaturas.

Por Antonio Ribeiro

 

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