Blogs e Colunistas

Napoleão III

05/06/2012

às 1:00 \ Fotografia, França

Um presidente normal, um retrato oficial banal

François Hollande escolheu ser fotografado para seu retrato oficial como Jacques Chirac em 1995, no jardim do Palácio do Elysée. Portanto, de forma diferente de Nicolas Sarkozy assim como da maioria dos presidentes franceses. Eles preferiram o ambiente mais sóbrio da biblioteca da residência do executivo francês. A fotografia oficial na França é um ritual republicano desde que o príncipe-presidente Napoleão III posou em 1848.

O retrato oficial de 50 centímetros por 65 centímetros será pendurado nas repartições públicas, escolas, embaixadas e nas 36.664 prefeituras francesas. O autor da imagem é Raymond Depardon, um dos fundadores da agência Gamma Presse Images junto com Gilles Caron e membro da Magnum Photos desde 1979. O retrato foi feito por intemédio de uma lendária câmera Rolleiflex cuja produção foi interrompida em 1962 – cotada a 10.000 euros no eBay. Depardon explica que quis mostrar o presidente “em movimento”.

Mas a fotografia é a antítese do que Henri Cartier-Bresson definiu como o momento decisivo. Ou seja, o ápice do movimento. Ele é descrito pela luz no suporte sensível como uma síntese do que houve e o que está na iminência de acontecer. É o momento exato, por exemplo, quando uma pedra lançada ao alto perde força e se imobiliza. Ela subiu e vai descer. A força do presente que conta o passado e tenta prever o futuro.

Famoso pela direção dos documentários Le Reporter e Délits flagrants, Depardon, de 69 anos de idade, conseguiu uma proeza. Algo surpreendente para um fotografo do seu alto calibre. A fotografia de Hollande parece um instantâneo banal feito por um amador. Ou, se preferem, um Instagram feito com telefone celular.

Um bom retrato impressiona. Sobretudo fala, diz algo do retratado, como é o caso da fotografia de Chirac realizada por Bettina Rheims e de tantos outros espalhados nas paredes dos museus de um país de imensa tradição pictórica. O quadro mais famoso da terra de Jacques-Louis David que imortalizou Napoleão Bonaparte, é um retrato, a Mona Lisa. O Pensador, de Rodin, um retrato em 3D, é mais admirado, do ponto de vista artístico, do que qualquer Virgem Maria das catedrais franceseas. É uma velha arte louvada também pelo estado. Na Roma Antiga, chegou a codificar a sua elaboração indo até a maneira de distribuir as mechas de cabelo no fronte do imperador.

Ao observar a fotografia de Hollande com os braços caídos sem saber bem o que fazer com as mãos tão inexpressivas quanto o olhar, a dúvida se instala. Do que se trata? É isso mesmo? Os presidentes gostam de transmitir através do retrato oficial como querem ser vistos, mas também a marca que desejam imprimir nos seus mandatos. Desculpem a franqueza – Raymond, pardon –, mas o retrato não tem nada de presidencial. Hollande parece ser o motorista do palácio.

Leia o post do Blog de Paris “Nicolas Sarkozy: o retrato oficial

Por Antonio Ribeiro

06/02/2012

às 9:23 \ Europa

Merkel faz campanha para o parceiro Sarkozy

Casal Merkozy: mesmo passo

Ele passa mais tempo com a alemã do que com Carla Bruni, a bela primeira-dama da França. A assertiva popular de conotação jocosa entre os europeus sobre a relação intensa do presidente francês Nicolas Sarkozy e a chanceler Angela Merkel como toda caricatura é exagerada. No entanto, nenhum dueto que dirigiu a França e a Alemanha desde a criação da União Européia (UE), encontrou-se tanto em período equivalente quanto o casal “Merkozy”. Sem contar os contatos diários por telefone, desde junho do ano passado, os dois participaram juntos de sete reuniões de cúpula, embalados sobretudo pela crise do euro.

À doze semanas do primeiro turno das eleições presidenciais na França, Angela e Nicolas protagonizaram um fato inédito. Eles gravaram no Palácio do Elyseé, em Paris, uma intervenção conjunta de vinte minutos que será, simultaneamente, transmitida pela TV estatal francesa France 2 e sua equivalente alemã, a  ZDF. Ainda que camuflado pelas suas funções de chefes de estado, trata-se de engajamento direto de um governante alemão na campanha presidencial francesa como nunca houve. A eventual derrota eleitoral de Sarkozy que vai mal nas pesquisas de opinião, é considerada  por membros do governo Merkel como uma “catástrofe”.

Hollande: assim não

O candidato socialista François Hollande, franco favorito da eleição, já deixou claro que se eleito, sua primeira viagem internacional será à Alemanha para rever a posição comum das duas principais economias da UE e os tratados de cooperação mútua.  Hollande afirma que as medidas rigorosas preconizadas por Merkel para sair da crise, não podem existir sem que haja, ao mesmo tempo, ajuda de dinheiro público para incentivar a retomada do crescimento econômico. Leia-se, retomada do crescimento econômico da França, a situação já existe na margem norte do rio Reno. A posição do socialista sinaliza uma futura turbulência, uma vez que a oposição de Merkel é clara e persistente desde o início da crise.

Pelo segundo ano consecutivo, a Alemanha foi a locomotiva da economia européia, com um crescimento econômico de 3% em 2011, depois de ter crescido 3,7% em 2010. Em contrapartida, a França cresceu 1,5% em 2010 e deveria atingir a  duras penas, 1,7% em 2011. O desempenho permitiu que Berlim reduzisse seu déficit público a 26,7 bilhões de euros. Ou seja, 1% do Produto Interno Bruto. O déficit francês é cinco vezes maior. O outro avanço da Alemanha é a queda do desemprego. Estima-se em 3 milhões de desempregados na Alemanha, ano passado. Ou seja, o mais baixo nível desde a reunificação. Mais de 263.000 desempregados a menos que em 2010.  A taxa de desemprego alemã recuou em 2011 de 0,6% ponto percentual para se estabelecer em media a 7,1%. Na França, aconteceu o inverso: os desempregados aumentam de 152.000 no último ano e a taxa de desemprego aproxima-se de dois dígitos.

“Apoio Nicolas Sarkozy em todos os planos porque pertencemos a partidos amigos. É normal que apoiemos partidos amigos”, disse Merkel durante entrevista coletiva a imprensa. “Em maio de 2009, o presidente francês foi a Berlim e  deu seu apoio a minha reeleição, não vejo qual é o problema? François Hollande esteve no congresso do Partido Social Democrata alemão”, lembrou a chanceler. “Quando o chanceler  socialista alemão Gerhard Schröder esteve na França, quem ele apoiou?” Resposta: a candidata socialista Ségolè Royal.

Sarkozy quer emular na França o “Sonderweg”, exceção alemã, o modelo de sucesso na Europa majoritariamente em penúria econômica – tornou-se quase seu único argumento de campanha eleitoral, em recente entrevista na TV, ele mencionou a Alemanha 15 vezes. Sarkozy se respalda em uma pesquisa que mostra que 7 entre 10 franceses aprovam uma harmonização dos direitos trabalhistas e fiscais entre Alemanha e França. Mais de 80% dos franceses aprovam o reforço da amizade entre os dois  países que se opuseram diretamente em três grandes guerras desde Otto Bismarck e Napoleão III, no século XIX. E não só: 43% dos franceses acham que seu país tem destino comum com o antigo inimigo e portanto são obrigados à convergência de ação dentro da UE. Mais: muitos franceses percebem  oportunidades de emprego na futura necessidade de mão de obra qualificada, devido ao envelhecimento populacional na Alemanha.

Leia o post do Blog de Paris: “Sarkozy, o alemão

Por Antonio Ribeiro

19/10/2011

às 14:20 \ Economia

Terra azul corre risco de entrar no vermelho

Gagarin: "A Terra é azul"

Dê uma olhada no planeta. Assim feito o cosmonauta russo Yuri Alekseyevich Gagarin. Hoje é possivel sem entrar em cápsula espacial. Embarque no Google. Na Terra azul há várias questões relevantes nesta quarta-feira 19 de outubro de 2011. Embora aparentemente regional, há uma só pendenga com força suficiente para influenciar indiscriminadamente todos os terráqueos. Trata-se do plano europeu para tentar debelar a crise das dívidas soberanas e recapitalização dos bancos que investiram  na Grécia e em outros países da zona do euro com risco de insolvência. O pouso suave do crescimento econômico  chinês seria outra, mas é consequência.

Te diz? Não? Para Nicolas Sarkozy, sim. E muito. O presidente da França passou na Clínica de La Muette, no elgegante décimo sexto distrito de Paris, onde sua mulher Carla Bruni, d espera dar a luz a qualquer momento, ficou meia hora e, em seguida, rumou para Frankfurt, a maior cidade do estado alemão de Hesse. Lá, ele tem encontrou com a chancelar alemã Angela Merkel. Os dois estão na linha de frente para fabricar um mecanismo capaz de afugentar a crise. Agora com a urgência de abrandar as dívidas de dois pesos pesados: Itália e Espanha.

Fala-se na possibilidade de alavancar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês) de 440 bilhões de euros para 1 trilhão de euros. É dinheiro que parece não acabar mais. O ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schaeuble nega que se tenha chegado a uma cifra nas intensas negociações. Estima-se que para atender as necessidades imediatas de Grécia, Portugal e Irlanda seriam necessários 100 bilhões de euros. A recapitalização dos bancos consumiria mais 200 bilhões de euros. Há quem diga que apenas 80 bilhões de euros seriam suficientes. Apenas? No absoluto é muito, mas relativizado com o todo é apenas mesmo. Algo concreto deverá ser apresentado até dia 23 de outubro, quando da reunião dos países que usam o euro como moeda, em Bruxelas. Caso contrário, a Terra azul arrisca entrar no vermelho.

Atualização: A leitora Adriana Socci Barbosa informa que é menina. “A França pelo menos, ficará cor de rosa” escreve ela. Adiciono um dado de almanaque: Pela primeira vez na história da República Francesa um presidente se torna pai durante o mandato. A última vez que isso aconteceu foi no Segundo Império há 155 anos quando a imperatriz consorte Eugénie de Montijo deu à luz ao príncipe imperial Napoléon Eugéne, filho de Louis-Napoleon Bonaparte, o Napoleão III, sobrinho de Napoleão I. Ele governou a França de 1848 a 1870, primeiro como presidente e depois, como imperador. Foi contemporâneo do prussiano Otto von Bismark que unificou a Alemanha e da Rainha Victoria, da Inglaterra.

Por Antonio Ribeiro

30/03/2011

às 13:58 \ Moda

La Marinière, a moda entra em campo

A Marinheira unissexo em todos os tamanhos: Picasso, Benzema e Bardot

A seleção francesa de futebol estreou sua nova camisa para partidas fora de casa.  Houve rara unanimidade entre as mulheres. Elas acharam uma graça. Os homens, nem todos, fazem gracinhas. O modelo foi inspirado em um dos patrimônios culturais da França, a camisa listrada de marinheiro, La Marinière.

A tradição dá conta que o grafismo da camisa, símbolo da simplicidade elegante que atravessou  várias ondas para tornar-se um clássico do vestuário, não surgiu por razões estéticas. No século XIX, quando La Marinière emergiu, pensou-se que o desenho ajudaria na hora do resgate em alto mar. Vivos ou mortos, os marujos naufragados seriam vistos mais facilmente à distância,  na superfície da água.

Durante preleção no vestiário, o técnico da seleção francesa, Laurent Blanc, disse aos seus comandados: “Rapaziada, com esta camisa vocês podem ter certeza que serão notados”. De fato foram, mas o futebol da equipe campeã do mundo de 1998 nunca foi recuperado e a imagem do vexame da Copa da África do Sul, quando milionários fizeram greve pela primeira vez na história, ainda não submergiu completamente.

Em 1858, a Marinha do Imperador Napoleão III, sobrinho de Bonaparte, emitiu circular transformando La Marinière em uniforme regulamentar. Os tecelões sob o soldo da força naval foram informados de que tratava-se de uma camisa de algodão sem golas e cujas mangas não deveriam ser nem curtas nem longas, mas na altura do cotovelo. Isso para a roupa interior não “sobrar” no casaco. “A camisa deveria ter 21 listras brancas de dois centímetros e 21 listras azuis marinho de um centímetro”, conta a Veja.com, Agnes Paris, Curadora Chefe do Museu Nacional da Marinha, na capital da França.

A nova camisa número 2 da França custa 75 euros (175 reais), mas em lojas badadas o preço pode ser salgado como água do mar. Na Chez Colette, em um dos endereços mais chiques do primeiro distrito de Paris, a rua Saint-Honoré, o “manto listrado” é vendido por 110 euros (257 reais). La Marinière é feita pela Nike cujo contrato de 42,5 milhões de euros com a Federação Francesa de Futebol (FFF) vai até 2018. O objetivo do fabricante americano de material esportivo visa um público bem mais amplo que os torcedores de futebol.

O renomado estilista alemão Karl Lagarfeld, da Maison Chanel, foi escolhido para fazer as fotografias da campanha publicitária. Além da fama e do talento do fotógrafo um clin d’oeil entrou em campo. Lagarfeld é o sucessor oficial do estilo criado por Coco Chanel, a lendária costureira francesa que, por volta de 1910, introduziu a camisa de marinheiro no mundo da moda. Aliás, para nunca mais sair.

Nos anos 80, quando o mundo já estava habituado a ver de Pablo Picasso a Brigitte Bardot usarem os trajes de marinheiro, sobretudo onde o Mediterrâneo lambe as costas francesas, o estilista francês Jean Paul Gautier pegou a figura de um marujo musculoso e de trejeitos delicados e fez dele, vestido com La Mariniére justa ao corpo, sua marca registrada. O gosto gay masculino foi conquistado de imediato. Isso enquanto o grande sucesso no cinema era Querelle, o filme cult do diretor Rainer Fassbinder, baseado na obra de mesmo nome, do escritor  francês Jean Genet, homossexual declarado quando a preferência era considerada transgressão de bons costumes.

La Marinière no futebol pode significar o pontapé inicial de uma tendência: os gramados vão se transformar também em passarelas da moda. No entanto, o esporte bretão tem seus caprichos. Ele é capaz de mistificar uniformes de gosto muito duvidoso desde que o conteúdo faça mais gols que os adversários. O contrário resta a ser provado.

Por Antonio Ribeiro

29/05/2009

às 10:33 \ Paris

História da pedra e do cogumelo


Houve um tempo em que a pedra foi símbolo de civilização, conforto e segurança. Era mais idolatrada que as árvores, considerada avanço sobre a indomável, caprichosa e ameaçadora natureza. A beleza urbana de Paris são suas construções, contrário a cidades como Rio e São Francisco, admiradas pelas topografias. Paris se preservou pela pedra talhada, a unidade de formas arquitetônicas harmônicas, respeitosas da proporção humana. Por que? Porque a capital francesa foi das primeiras cidades européias onde a pedra substituiu a madeira. Porque a pedra sobrevive ao incêndio, inimigo devastador das metrópoles antigas. A madeira incentiva, propaga as labaredas. Mas a ausência da pedra criou o berço de ouro de um dos produtos mais apreciados à mesa: o cogumelo. O champignon de Paris, o fungo de sabor único entre mais de 10.000 tipos catalogados — cientistas estimam que 1,5 milhão de outras espécies restam no reino do desconhecido.

Por ordem do imperador Napoleão III, sobrinho de Bonaparte, o Barão Georges-Eugène Haussmann comandou entre 1853 e 1870 a maior remodelação urbana de Paris. Além de embelezar e tornar Paris mais imponente, o “artista demolidor” organizou a simetria de residências e comércios, mudou a geometria das ruas, antes sinuosas e estreitas. Ao traçar largos bulevares, os grandes eixos da capital até hoje, ele possibilitou o uso de canhões contra as revoltas populares e complicou o uso de barricadas. Durante a empreitada de 17 anos, o Barão Haussmann precisou de pedras. Muitas. A retirada do mineral em pedreiras dos arredores de Paris, deixou nos seus lugares, cavernas e grutas, onde a temperatura entre 14 e 16 graus Celsius e 80% de umidade relativa são constantes durante todas as estações.

As grutas se tornam abrigos para animais de criação. Muitas delas foram convertidas em cavalariças naturais. E cavalo não vive bem sem feno. E cavalo faz suas necessidades fisiológicas sem respeitar as regras de higiene dos seus criadores. Quer dizer, imediatamente seguido da vontade e por toda parte, inclusive em cima do feno. A terra do interior das grutas, rica em calcário, os excrementos misturados com o feno, a temperatura constante, a umidade elevada e a ausência da luz solar, todos juntos são os genitores do champignon de Paris.

Tortulhos comestíveis podem crescer em outros ambientes, mas são nas pedreiras abandonadas que o cultivo do champignon de Paris, de rara força aromática, pode ser feito de maneira extensiva e controlada. É o caso da Champignoniere Du Clos du Roi, em Montigny Les Cormelles, 50 quilômetros ao norte de Paris. Lá, Gregory Spinelli, de 36 anos, comanda 14 braços para extrair diariamente uma tonelada de cogumelos cujo quilo é vendido a 5 euros nas feiras livres de Paris. A França, quarto produtor mundial, colhe 200.000 toneladas por ano — 6 em cada 10 cogumelos consumidos no mundo é de origem chinesa. O colunista da Veja.com visitou o lugar na companhia do renomado Yannick Alléno, chef do restaurante Le Meurice, três estrelas no guia Michelin, namorado da cantora e atriz francesa Patrícia Kass. “Nós gastamos 2,5 milhões de euros em produtos frescos por ano, os cogumelos da minha duxelle saem daqui”, diz o cozinheiro, discípulo do monstro sagrado da culinária francesa, Paul “Fogo Sagrado” Bocuse.

O duxelle é o prato feito com o champignon de Paris mais consumido na França. Trata-se de um purê que leva também a echalota, planta bulbosa trazida da Palestina à França depois da Primeira Cruzada, e cebola. Ele serve de cama para o delicioso linguado preparado por Allenó no restaurante gastronômico, mobiliado por Phillipe Starck, do Hotel Le Meurice — 4% dos clientes são brasileiros. A maioria dos cozinheiros estrelados de Paris vem do interior do país assim como a melhor matéria-prima dos produtos culinários. Alléno, de 40 anos de idade, é exceção. Ele foi criado em uma família parisiense de proprietários de bistrôs e de um hotel modesto. O cozinheiro aposta em uma culinária parisiense através de parcerias com os produtores agrícolas, instalados nos arredores de Paris. História da pedra e do cogumelo.

Por Antonio Ribeiro

01/05/2009

às 16:35 \ Paris

A França apresenta seu PAC

No imaginário popular francês, o Brasil tem contribuição genuína para oferecer à França. Isto é, uma certa joie de vivre — alegria de viver, na expressão local. Ou melhor, os brasileiros encararam os problemas com mais índolência do que os franceses. Ainda segundo observação deles mesmos, os franceses veem encrencas onde elas não existem ou as criam em períodos de carência. Contudo, por hora, o governo da França preferiu tomar do Brasil outro exemplo. Tal qual o PAC do governo Lula, o projeto do Grande Paris, anunciado por Nicolas Sarkozy debaixo de uma reprodução romana de Jesus e evangelistas, só existe no papel. Pior: há pouca chance da ambiciosa intenção de regeneração urbana sair das pranchetas.

Paris intramuros, o interior do anel viário de 35 quilômetros  que delimita a capital da França tem 2 milhões de habitantes. Nos subúrbios, moraram 12 milhões de pessoas. A Grande Paris seria a maior aglomeração urbana da Europa. Só para comparar: Londres tem 7,5 milhões.

Apesar do peixe ser menos difícil de ser vendido a quem acredita em tudo que brilha, os projetos foram feitos segundo a tradição nativa: direitinho e sem contenção de custos. Contratou-se 10 escritórios de arquitetura e urbanismo de fama mundial. Eles produziram idéias das mais criativas e imagens virtuais para uma metrópole daqui à 20 anos — mais verde, alta, extensa até o porto do Havre e integrada com seus arredores, matéria-prima de bela exposição inaugurada esta semana na Cité de l’architecture et du patrimoine. Albert Speer, autor do projeto da capital do Reich de Mil Anos, ou o faraó do Egito, Ramsés II, ficariam enrubescidos diante do resultado. Uma indagação de ordem contável ameaça o castelo de cartas: onde está o dinheiro para tanta megalomania? Resposta: não há hoje, não se sabe haverá mais para frente em um país onde a dívida pública é quase 70% do PIB (1.327 bilhões de euros) e as estimativas para 2012 é que ela chegue a 88% do PIB.

Se o espetáculo do Grande Paris serve apenas para reflexões Urbi et Orbi, ainda que pesado no bolso do contribuinte, tomou-se conhecimento da capacidade de arquitetos e urbanistas da atualidade em propor soluções para uma metrópole admirada, pequena e invariavelmente com problemas mais prementes do que a construção de um jardim suspenso mais alto do que a Torre Eiffel. Os mais otimistas acham que os projetos são como os desfiles de alta costura, eles lançam uma tendência da moda, mas ninguém vê na rua a exuberância do que se veste nas passarelas. Contrário a Napoleão III que através do Barão Haussman abriu as principais artérias viárias da capital francesas ou de François Mitterrand que construiu uma opera moderna, uma pirâmide de vidro para desafogar a entrada do Louvre e um moderno centro financeiro, o bairro de La Defense, o legado de Sarkozy parece deixar para as gerações futuras a responsabilidade de tocar a empreitada.

O projeto mais próximo da realidade é a construção de 140 quilômetros de uma linha trens suburbanos rápidos em forma de 8 a volta de Paris. Ela ligaria os dois aeroportos — Orly e Charles de Gaulle — e importantes pólos comerciais e residenciais dos subúrbios, além de Versalhes e Clichy. Vantagem: os trens funcionariam sozinhos, sem condutores e 24 horas por dia durante 7 dias da semana. Afinal, ninguém aguenta mais as greves freqüentes por qualquer razão que parece plausível aos sindicados da companhia ferroviária estatal SNCF. O governo está disposto gastar 35 bilhões de euros dos cofres públicos para fazer os trens rolarem nos trilhos até 2012. Será necessário votar projeto lei no Parlamento. É um pequeno igarapé a ser atravessado antes de enfrentar o oceano, mas pode ser a Batalha de Berezina — nome do riacho raso e estreito na Bielorússia, onde Bonaparte foi vencido e desde então, tornou sinônimo de catástrofe na França.

Por Antonio Ribeiro

02/03/2009

às 19:48 \ Arte

Carta de Hugo a Butler


Busto de Victor Hugo por Auguste Rodin

No dia 6 de outubro de 1860, as tropas anglo-francesas invadiram o Palácio de Verão, em Pequim, e provocaram a fuga do imperador Quianlong (1735-1795). A pilhagem e incêndio do palácio, durante a segunda Guerra do Ópio, deixou alguns ocidentais indignados, entre eles, Victor Hugo. O escritor francês respondeu à uma carta do capitão britânico Butler, comandante das tropas. Trechos:

Hauteville House, 25 de novembro de 1861.

(…) segundo o senhor, a expedição da China, sob o duplo estandarte da rainha Vitória e do imperador Napoleão III, é uma glória a ser dividida entre a França e a Inglaterra. O senhor deseja saber qual é a aprovação que crédito a vitória.

Já que o senhor quer saber, aqui está:  era uma vez uma maravilha do mundo; esta maravilha se chamava Palácio de Verão. (…) Esta maravilha desapareceu. Um dia, dois bandidos entraram no Palácio de Verão.  Um o pilhou e o outro, o incendiou.

(…) Todos os tesouros das nossa catedrais reunidas não se igualam ao esplêndido e formidável museu do oriente.  Lá, não havia somente obras-primas, mas também um depósito de ourivesarias.

Grande feito, bom ganho. Um vencedor encheu os bolsos, no que o outro viu, encheu seus cofres; voltaram para a Europa, de braços dados dando gargalhadas.

Esta é a história de dois bandidos.

Nós Europeus, somos civilizados, e para nós, os chineses são bárbaros.  Isto é o que civilização fez à barbárie.

Diante da história, um bandidos se chamará França e o outro, Inglaterra.

(…) Espero que um dia virá quando a França, livre e limpa, devolverá o saque à China espoliada. Enquanto esperamos, constato: existe um roubo e dois ladrões. Está é, meu senhor, a aprovação que faço à expedição à China.

Victor Hugo

Por Antonio Ribeiro

 

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