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Mario Henrique Simonsen

06/08/2008

às 14:21 \ França

Razões para admirar os franceses sem a obrigação de gostar deles

Durante a pendenga entre franceses e americanos antes da invasão do Iraque, circulou na internet uma lista, em inglês, com 20 razões para detestar os franceses. Na reestréia deste blog, que aborda Paris, França e Europa, vamos listar 21 motivos para admirar os franceses sem ter a pretensão de persuadir alguém a gostar deles.

Então, vamos lá:

1. Paris ainda não foi tomada por arranha-céus. A cidade mantém o urbanismo em harmonia com escala humana. A meu juízo, continua sendo a cidade mais bonita construída pela mão do homem. Pela mão de Deus, não tem debate, é o Rio de Janeiro. Os habitantes da Cidade Luz acham que os cariocas vivem “incomodando” a paisagem da Cidade Maravilhosa.

2. Os franceses produzem mais de 400 tipos de queijos — e bons. Importam mais de 100 outras qualidades. Nunca encontrei aqui queijo tipo Minas.  Um motivo adicional para aumentar a saudade do Brasil.

3. As francesas de 35 anos de idade são muito mais sensuais que suas compatriotas de 25. Mas nenhuma se compara com o meu amor brasileiro.

4. Filmes nas TVs francesas nunca são interrompidos por publicidade mesmo se alguns deles são muito ruins.

5. Habitantes do interior da França consideram os parisienses como estrangeiros.

6. Os franceses colocam nomes de suas ruas em homenagem a heróis, artistas, políticos e etc. Nenhuma rua na França tem número como nome. Quinta avenida nem pensar.

7. Felizmente autores franceses pararam de escrever óperas. Não tenho nada contra operas. Aliás, gosto muito desde que recebi aula particular do saudoso Mario Henrique Simonsen sobre o tema. As óperas francesas não eram nada boas.

8. Motoristas franceses dirigem melhor que seus vizinhos italianos. O único lugar na França que não é coberto por seguro contra acidentes de transito é a giratória a volta do Arco do Triunfo. Quem a observa pela primeira vez acha uma bagunça, mas fica admirado por não haver acidentes frequentes. Qual o segredo? Simples, quem vem da direita tem prioridade. Se algum petista ficar chateado, ofereço consolo. É como no piano: a mão direita toca e a mão esquerda acompanha.

9. John Wayne dublado em francês parece bom ator.

10. Os franceses não colocam temperos à francesa em suas saladas.

11. Os franceses conseguem dizer “merda” de forma educada.

12. As eleições na França acontecem sempre aos domingos e os bares não fecham.

13. Os franceses levam a comida muito mais a sério do que a religião.

14. Já faz mais de 100 anos que os franceses não começam uma guerra, mas não ganharam nenhuma desde a retirada da Indochina.

15. Imposto na França chama-se “contribuição”. Há, no mínimo, uma manifestação por dia em Paris contra algo. Jamais contra o Imposto de Renda, um dos mais elevados do mundo.

16. Voltaire odiava Rousseau. Eu sou fã do François-Marie Arouet (1694-1798).

17. Há quase tantas árvores em Paris quanto carros.

18. Os franceses fazem suas revoluções nos meses quentes do ano, nunca no inverno.

19. Os franceses lavam as mãos antes de ir ao banheiro. A história de que eles não tomam banho é lorota. Tomam sim, menos que os outros.

20. Os trens franceses são os mais pontuais do mundo quando os ferroviários não estão em greve.

21. Nos esportes, os franceses preferem perder por um ponto a ganhar por dez.

Quem quiser enviar mais motivos para louvar os franceses, terei o maior prazer em colher. Adiciono uma outra grande satisfação: estar aqui, novamente, na companhia de vocês. Merci.

Por Antonio Ribeiro

17/06/2008

às 12:06 \ França

Jaboticaba: a jornada de 35 horas de trabalho semanal

Há grande resistência na França contra os transgênicos. No entanto, em 2002, o governo do ex-primeiro-ministro socialista Lionel Jospin tentou criar uma espécie de jabuticaba legal. Por que jaboticaba? Bem, o ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, o brilhante economista Mario Henrique Simonsen, costumava brincar dizendo que a única coisa que deu certo no Brasil sem funcionar alhures era a jaboticaba. O que é a jabuticaba francesa? A jornada de trabalho de 35 horas semanais. Ela chegou a ser vendida como o pleno emprego numa sociedade mais humana. Não existe em nenhum lugar no mundo. Detalhe: não deu certo nem na França. A lei foi concebida para diminuir o desemprego. O raciocínio era simplório e enganoso. No lugar empenhar para criar novos empregos, reduziu a jornada de trabalho existente tentando obrigar os empregadores a contratar para preencher o tempo vazio criado pela nova lei. Resultado: o tiro saiu pela culatra. Com o aumento na massa salarial e dos já pesados encargos sociais, o mercado de trabalho se retraiu, o desemprego aumentou.

Nicolas Sarkozy foi eleito com a promessa de enterrar a jornada de trabalho de 35 horas. No governo, o que ele fez? Manteve a duração legal da jornada reduzida, mas criou um dispositivo isentando as empresas de encargos sociais sobre as horas extras. Um eufemismo para tapar o maior mote da sua campanha eleitoral a presidência da França, o ‘trabalhar mais para ganhar mais’. Assim o presidente tornou a lei inoperante, uma astúcia para tentar agradar a gregos e troianos — a jornada de trabalho na França só foi imperativa entre 1936 a 1938 durante o governo da Frente Popular. O dispositivo deu mais flexibilidade aos empregadores e empregados sem incomodar os sindicatos franceses, resistentes à perda dos direitos adquiridos, mesmo se o privilégio é impraticável com o estado capenga da economia francesa. A medida contou com o apoio de 2 entre os 5 maiores sindicatos da França, a CGT a CFDT. Para fixar o contingente de horas suplementares às 35 horas nas empresas é necessário o acordo de mais da metade dos assalariados. Agora o governo quer ir mais longe. Apresenta amanhã um projeto de lei que prevê a aprovação mediante a concordância de apenas 3 empregados em cada 10 e supressão da inspeção do trabalho para que as horas extras sejam aplicadas. Os sindicados estimam-se traídos pelo governo, convocaram uma greve de 24 horas. Ela tem uma participação de 500 000 pessoas em 124 cidades francesas. Medíocre para um país de 28 milhões de assalariados.

A passos lentos, Sarkozy está reformando o mercado de trabalho engessado da França. Ele modificou a aposentadoria dos funcionários públicos com regime especial. Doravante empregados do setor público e privado têm que cotizar o mesmo tempo para receber pensão integral. Ou seja, 41 anos. Introduziu a obrigatoriedade do serviço mínimo durante as greves de transportes públicos. O presidente quer atacar também o tendão de Aquiles dos sindicatos, a representatividade — apenas 10% dos assalariados franceses são sindicalizados cuja maioria é de funcionários públicos. As centrais sindicais francesas conseguem passar a impressão que param a França porque controlam os transportes públicos, educação e sistema de saúde. A partir do ano que vem, para ser representativos nas empresas, os sindicatos deverão satisfazer sete critérios cumulativos onde o mais determinante é a eleição profissional, na qual precisam recolher no mínimo 10% dos votos dos empregados.

Por Antonio Ribeiro

 

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