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Marengo

16/02/2012

às 11:48 \ França

Candidato já era, resta saber se continuará presidente?

Nova campanha, velha promessa com mar grego ao fundo

Todos sabem do raiar do dia, mas o galo o anuncia todas as manhãs. Nicolas Sarkozy comunicou oficialmente sua candidatura à reeleição para Presidência da França. Trata-se de uma desconfiança entre os franceses, presente desde o dia da posse do presidente que veio caminhando em direção a certeza, até ontem, pouco depois das 20 horas locais, o horário nobre do telejornal de maior audiência do país. Se candidatura de Sarkozy estava na cara embora  ainda não estivesse  no cartaz de campanha, a grande dúvida é bem outra. Ele continuará presidente? A julgar pelas pesquisas de opinião que mostram durante meses uma estabilidade nos números desfavoráveis a Sarkozy,  a resposta é “não”.

O candidato socialista François Hollande lidera com 30% das intenções de voto contra as 25% do presidente. No segundo turno, marcado para dia 6 de maio, a vantagem de Hollande triplicaria, segundo a média de 12 recentes pesquisas de opinião. A razão matemática é a seguinte: a maioria do eleitorado de centro está inclinada a escolher o candidato socialista, os votos da extrema direita, mais exatamente da terceira colocada Marine Le Pen, se forem capturados por Sarkozy, não são suficientemente numerosos para fazer o presidente ganhar e o indíce de indecisos é baixo, apenas 1 em cada 5 eleitores franceses declara anda não saber em quem vai votar.

Na atual conjuntura, Sarkozy espera algo semelhante ao desfecho da surpreendente Batalha de Marengo na qual 22 000 soldados das tropas de Napoleão afrontaram 30 000 austríacos, em 1800. As 17 horas, a batalha estava perdida. Mas às 22 horas, com a chegada do reforço sob o comando do General Desaix, Bonaparte expulsou o exército do Imperador François II para fora da Itália. “Sarkozy já cumpriu a primeira parte do programa”, escreveu o colunista Alain Duhamel, um dos mais agudos observadores das campanhas eleitorais francesas desde a eleição do General De Gaulle. Restam 66 dias para o presidente candidato fazer o resto.

Em um primeiro instante, o estratagema de Sarkozy não será derrubar Hollande. Ele precisa ganhar força, chegar ao segundo turno como principal candidato da direita. Sarkozy irá se mostrar mais radical em certas questões do ele é na verdade ou melhor, do que foi durante seus 5 anos de mandato. Isto para conquistar o eleitorado conservador e em especial os simpatizantes do Front Nacional, a extrema direita francesa ainda hesitantes em engajar-se no seu campo, contrário ao ocorrido em 2007, na eleição que o levou a presidência. A oposição robusta demonstrada pelo presidente ao casamento entre homossexuais e a adoção de crianças por parte de casais do mesmo sexo, é uma amostra do que virá em seguida. Não é um tema que, em tempos de crise econômica aguda, Sarkozy tenha dedicado muita atenção.

Os católicos praticantes, policiais, médicos, agricultores, enfim a base do seu eleitora receberá palavras de agrado e cápsulas de esperança para dias melhores. As visitas às fabricas e usinas vão se multiplicar na tentativa de persuadir a idéia no novo lema de campanha,  “A França Forte”, país onde desapareceram 500.000 empregos nos últimos 10 anos, elevando o índice total de desemprego para perto de dois dígitos.   É mais fácil encontrar na França um pé de jabuticaba que uma família que não tenha um desempregado. Nos 550.000 quilometros quadrados do país se vê o rosto mais dramático da crise: jovens sem perspectivas de trabalho.

Durante o anúncio oficial da candidatura, embora tenha saído-se bem quando escolheu dizer “aprendi” no lugar de “errei”, Sarkozy deixou escapar uma confissão quando abordou o seu desempenho presidencial: “Quero me reaproximar dos franceses”. Ficou claro que ele mesmo se considera distante. Neste sentido, o presidente quer propor, se eleito, dois referendos: um sobre a formação de desempregados com mudanças no benefício do seguro desemprego e outro, tema não menos polêmico, a imigração e abolição de restricões para expulsar imigrantes ilegais.

O problema será ganhar outro referendo, aquele em que François Hollande quer transformar a eleição presidencial. Ou seja, o governo Sarkozy foi bom ou ruim? Se a estratégia do socialista der certo, o presidente sabe que sai perdedor. Tanto sabe que contorna o cerne da questão. Afirma ter passado o mandato cuidando de crises. Elas teriam sido tão fortes que ele não teve tempo de promover as reformas que prometeu. Portanto, precisa de mais 5 anos para terminar o trabalho. Sucede que a crise está presente como nunca na França. Poderia estar pior, como nos casos grego, italiano, espanhol, português ou irlandês? Certamente. Mas sendo assim, há o exemplo da vizinha Alemanha que vai bem melhor que a França de Sarkozy. É por isso que o presidente aponta o lado ao norte do Rio Reno como uma espécie de Terra Prometida, destino para o qual propõe ser o guia. “As idéias me protegem”, diz ele.

Cruriosidade: O mar que serve de fundo do cartaz da campanha eleitoral de Sarkozy – inspirado em dois outros, o de François Mitterrand (paisagem) e de Giscard d’Estaing (slogan) não é francês… mas grego. Trata-se do Mar Egeu que banha a Grécia. A descoberta foi possivel porque o arquivo digital da imagem, feito com o programa Photoshop, traz informação inserida pelo autor, um fotógrafo da agência Tetra Images: “Greece, Clouds over Aegean Sea” – Grécia, Nuvens sobre o Mar Egeu. Veja abaixo a fotografia cujo original é 50 MB e custou 759 dólares:

 

Por Antonio Ribeiro

 

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