Blogs e Colunistas

Lula

01/02/2012

às 10:51 \ Diplomacia

EUA e França: voto não reduz diferenças entre as velhas democracias

Naturalmente há quem queira estabelecer paralelos entre a eleição presidencial americana e a francesa, projetando Mitt Romney como vencedor das primárias do Partido Republicano depois da acachapante vitória na Florida contra Newt Gingrich, o adversário dos sonhos dos democratas. Nesta altura, o exercício de alta especulação traz mais confusão que respostas. Mais que as naturais entre os dois países, ainda que velhas democracias, de tradições e processos eleitorais distintos.

Em primeiro lugar, o combate final entre Barack Obama e o desafiante republicano ainda nem começou enquanto a campanha eleitoral francesa vai de vento em popa. A eleição americana não tem dois turnos, como a francesa e a brasileira, portanto, aí já vai uma diferença de peso que complica a comparação desprovida de análise dos meandros.

Regra geral, na eleição de dois turnos, os candidatos tentam reunir o seu campo no início e isso implica, é do jogo, uma certa radicalização. Na etapa posterior, a estratégia principal é capturar o centro a exemplo das partidas de xadrez. Tanto na França como nos Estados Unidos, países politicamente polarizados, ninguém vence se não conseguir persuadir o eleitorado, digamos, flutuante. No caso dos EUA, agregam-se ainda os independentes e os desiludidos com o desempenho de Obama.

Neste sentido, Sarkozy deveria conter a migração do seu eleitorado para extrema-direita e, simultaneamente, trazer para seu terreno, simpatizantes da novata Marine Le Pen. Isto bastaria para chegar ao segundo turno. Para ganhar as eleições, o Presidente da França deve abarcar também boa parte dos eleitores do centrista François Bayrou.

Converter socialistas franceses em conservadores de direita ou fazer o caminho inverso constitui sucesso tão improvável quanto o engajamento de um palestino na causa sionista. Perda de tempo. Ganhar os seus e parte do centro foi o que trouxe a vitória a Sarkozy em 2007. Tentar agradar a gregos e troianos fez despencar sua popularidade. Perdeu aqui e não ganhou lá.

Do ponto de vista do eleitor francês de qualquer ponto do largo espectro político, Rommey e Gingrich estariam mais próximos do ideário do Front National. Salvo talvez na questão da imigração. Um candidato americano pode até pensar como a senhorita Le Pen, mas não ousaria verbalizar  em público o slogam “Americanos Primeiro” sem correr o risco de levar o pesado adjetivo xenófobo para casa. A candidata francesa não liga muito. Ela acha que isso, ainda que de forma indizível e em última instância, ser uma vantagem. Seu eleitorado de base gosta e aplaude. Em contrapartida,  e mesmo agradando os carolas franceses, Marine Le Pen não se sentiria muito a vontade colocando em evidencia seu cristianismo como fazem os republicanos americanos, as vezes de forma fundamentalista, a menos que a posição seja para enfatizar, segundo ela, os efeitos maléficos dos muçulmanos nas tradições européias. Não houve na outra margem do Atlântico guerras religiosas tão sangrentas como no Velho Continente.

Para os socialistas franceses, Obama não chega a ser um entre deles, sobretudo no aspecto econômico, mas é o “melhor” que os EUA podem fazer para se aproximar dos seus valores. A grosso modo, a chegada do democrata de tez amorenada à presidência é vista como um “progresso” da desigual sociedade americana, assim como o metalúrgico Lula, no Brasil. Detalhe: embora estima-se que a França tenha 5,5 milhões de muçulmanos, a maior comunidade da Europa, nenhum deles tem assento na Assembléia Nacional. Os americanos acham espantoso. Aliás, o censo do INSEE, o IBGE francês, nem contabiliza “muçulmanos” nos seus formulários do censo. De acordo como os preceitos da Republique, o indivíduo é um cidadão cuja crença religiosa não diz respeito ao estado, laico por princípio pétreo.

Na França, Sarkozy é percebido pela maioria como um conservador e representante do capitalismo puro e duro. Nos EUA, o presidente francês entra facilmente na galeria dos líderes estatizantes que não medem esforços para intervir com força e excesso de regulamentações na economia além de sempre que o interesse nacional está em perigo promover medidas protecionistas sem o menor complexo.

François Hollande só encontraria uma legenda nos EUA se ingressasse na ala moderada do Communist Party USA (CPUSA). Isso porque a despeito dos socialistas espanhóis, ingleses e alemães, o Partido Socialista (PS) francês não conseguiu se reformar para adequar-se à realidade de um mundo altamente competitivo. Continua atrelado e dependente ao poder dos sindicatos franceses cuja maioria é de funcionários públicos mais especificamente de professors dos estabelecimentos públicos. Não é anodina a proposta de Hollande para aumentar seu número. Evidentemente dizer claramente de onde vai tirar dinheiro para pagar salários e encargos sociais durante 62 anos e mais aposentadoria. Isso em um país de com deficit publico de 1,7 trilhão de euros, 86% do Produto Interno Bruto (PIB).  Mas, leia-se o de sempre, “aumentar os impostos” que nos EUA, a questão muito é mais sensível do que na França.

Em resumo e no absoluto, os EUA estão mais próximos à economia de mercado e a França, é bem mais liberal no aspecto político do termo. Para que se possa estabelecer uma comparação mais justa entre as eleições francesa e americana seria necessário admitir que as prévias nos EUA equivalessem à votação do primeiro turno na França, ainda que um terceiro candidato independente americano possa influenciar na dualidade da disputa final. O certo é que tanto Obama quanto Sarkozy não estão em posições confortáveis, o último bem menos que o primeiro. E o curioso é que se os votos confirmarem as pesquisas, a dupla Hollande e Obama não irá aproximar mais as visões de mundo dominantes em seus respectivos países. É bem provável que aconteça o contrário.

Por Antonio Ribeiro

15/12/2011

às 8:07 \ França

Jacques Chirac torna-se o primeiro presidente eleito da França condenado por corrupção

O ex-presidente da França Jacques Chirac foi condenado pelo Tribunal Correcional de Paris a dois anos de prisão com suspensão condicional da pena. A sentença inédita contra um  presidente eleito da França diz respeito ao financiamento ilegal de 2,2 milhões de euros do  antigo partido de Chirac, o Reagrupamento pela República (RPR). O julgamento abordou também a criação de trinta empregos fictícios na Prefeitura de Paris entre 1977 e 1995, período em que Chirac era prefeito da capital francesa. A maioria dos contratados trabalhavam na preparação da campanha presidencial de Chirac, eleito em maio de 1995. Os funcionários-fantasmas  recebiam salários do município – estima-se  o gasto do dinheiro dos contribuintes para pagar remunerações ilícitas em mais de um milhão de euros. O ex-presidente foi condenado por desvio de verbas públicas, abuso de confiança e conflito de interesses por “multiplicar as conexões entre seu partido e a municipalidade”.

“Jacques Chirac faltou com a obrigação de probidade que pesa sobre os responsáveis públicos a despeito dos interesses dos parisienses”, declarou o juiz Dominique Pauthe. O ex-presidente, de 79 anos de idade, que governou a França em dois mandatos consecutivos, entre 1995 e 2007, sempre negou as acusações e afirmou não ter cometido nenhuma falha penal ou moral. “Os franceses sabem que sou honesto”, diz ele.  Chirac não estava presente na sala de audiência durante a leitura da sentença. Os médicos do ex-presidente justificaram a ausência devido a severos problemas neurológicos responsáveis por provocar lapsos de memória. “Para mim, é inadequado comentar o assunto”, disse o atual presidente da França, Nicolas Sarkozy.

Suspensão condicional da pena é um instituto de direito penal com a finalidade de permitir que o condenado não se sujeite à execução de pena de curta duração que priva a liberdade. Dito de outro modo:  mesmo condenado, o réu  não vai preso. No caso de Chirac, a condenação, um choque para classe política francesa, tem elevado valor simbólico na luta contra a corrupção na França e independência da Justiça.

Há quatro meses da eleição presidencial na França, o julgamento histórico relança o velho debate sobre a imunidade total do Presidente da República segundo rege o artigo 67 da Constituição que protegeu Chirac de ser punido judicialmente durante cerca de 20 anos. Muitos  consideram o estatuto penal especial a uma bizarrice na democracia francesa: ser inatacável nos tribunais e, simultaneamente, como todos aqueles que estão sujeitos à justiça, o Presidente da República pode apresentar queixa contra quem bem lhe aprecer.

O marechal francês Philippe Petain, chefe não eleito do governo de Vichy, colaboracionista com os ocupantes nazistas na França, foi o primeiro chefe de estado francês condenado pela Justiça. No fim da Segunda Guerra Mundial, uma corte especial montada às pressas sentenciou o marechal à pena de morte por alta traição. A condenação foi, posteriormente, convertida em prisão perpétua pelo general Charles de Gaulle, à época chefe do governo provisório. A clemência fez parte da política gaulista de conciliação nacional no pós-guerra e em razão da idade avançada do marechal. Ele tinha 85 anos quando foi condenado. Em pena posterior, os franceses apagaram da memória a imagem do herói da Batalha de Verdun na Primeira Guerra Mundial. Não há mais uma só rua na França com o nome de Pétain. Assim como “lula-petismo”, mas por razões distintas, o termo “pétainisme” virou referência pejorativa na França.

Embora condenado em processo que durou 16 anos e ter recebido, quando político ativo, a alcunha de “Super Mentiroso”, Chirac não corre o mesmo risco de Pétain. A maioria dos franceses tem afeição pelo ex-presidente, duraz opositor à invasão anglo-americana do Iraque. Sua popularidade é robusta e alta. Bem, não tanta quanto a de Lula no Brasil, onde magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF)  avisam da possível prescrição das acusações contra os 36 réus do mensalão, o maior show de corrupção do país, no qual a estrela do PT teve brilho indelével.

Leia o post do Blog de Pars: “Europa igual a ela mesma e Inglaterra idem

Por Antonio Ribeiro

27/09/2011

às 8:10 \ Paris

Paris não é bem uma festa, segundo Hemingway

Duplamente divertido ler o bordão “Paris é uma festa”, título recorrente de notas na coluna Ancelmo Gois, publicada pelo jornal O Globo, inclusive aos domingos e dias santos. Acontece sempre que um brasileiro famoso desfruta de uma maneira não muito ortodoxa dos atributos generosos da capital francesa. Hoje, foi a vez de Lula ser o contemplado. Ele está concentrado em Paris  há três dias para receber o título de doutor honoris causa do  prestigioso Instituto de Estudos Políticos (Science-Po). A cerimônia acontece hoje. Mas o ex-presidente da República foi agraciado jocosamente pelo colunista porque é hóspede do luxuoso cinco estrelas Hotel Lutetia, sede da Gestapo durante a ocupação nazista nos anos 40. A tortura atual fica apenas nos preços das diárias que podem chegar ao requinte da crueldade: 3.500 euros, o equivalente a quase 9.000 reais.

“Paris é uma festa” é referencia à tradução do título “A Moveable Feast”, livro de reminiscências parisienses do escritor americano Ernest Hemingway que viveu por aqui nos anos 20. Mas o termo inglês moveable feast não é bem uma festa. São celebrações, sobretudo, cristãs que não ocorrem na mesma data do calendário. A Páscoa, por exemplo. O autor escolheu o título porque a narrativa não obedece ordem cronológica e é nebulosa, pouco precisa. Não necessariamente porque Paris era uma festa naqueles tempos. Na verdade, as condições de vida eram precárias para maioria dos habitantes e nem todos  os abastados tinham, por exemplo, água encanada em seus apartamentos. Contudo, não era obstáculo para se divertirem, Era dificil sim  manter uma frequência de banhos segundo o padrão, como diz outro bordão  do colunista, “Lá na minha terra”.

Em tempo: Seguindo a tradição napoleônica de distribuir comendas em tempos bicudos, o cacique da tribo dos Caiapós, Raoni Metuktire, recebeu hoje também o título de cidadão honorário de Paris das mãos do prefeito Bertrand Delanoe.

Leia o post do Blog de Paris: “Estado palestino: todos sempre querem, a hora nunca faz unanimidade

Por Antonio Ribeiro

05/04/2011

às 15:24 \ Voo AF447 (Rio-Paris)

Parentes das vítimas brasileiras querem as caixas pretas do Airbus da Air France 447 sob custódia internacional e não exclusivamente francesa. Vão pedir a Dilma Rousseff.

Na sexta-feira, 8 de abril, às 14 horas, representantes brasileiros da Associação dos Familiares das Vitimas do Vôo Air France 447 vão se reunir com a presidente Dilma Rousseff e, em seguida, com o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, em Brasília. Nelson Faria Marinho e Maarten Van Sluys, respectivamente, Presidente e Diretor Executivo da associação, eles mesmos parentes de vítimas do acidente aéreo, vão pedir para que uma junta internacional tenha a custodia das peças essenciais do Airbus A330 acidentado e que, os corpos das vítimas, como aconteceu no primeiro resgate, sejam enviados para legistas brasileiros.

A Associação teme que se as peças do avião que são fundamentais na investigação não estiverem sob a guarda internacional e se as investigações não forem acompanhadas por observadores independentes, poderá haver suspeita sobre o resultado da investigações. O Escritório de Investigações e Análises (BEA) da Aviação Civil da França, órgão sob comando e inteiramente dependente do orçamento do Ministério dos Transportes da França, é o encarregado da apuração técnica das causas do acidente.

“Se a investigação ficar exclusivamente a cargo da França, significa dizer que eles se estão investigando a si próprios, já que participam como acionistas, tanto na fabricante Airbus como na empresa aérea Air France. Dessa forma, não consideramos a investigação isenta”, disse Maarten Van Sluys.

Corre em paralelo uma investigação do Ministério Público francês, cujos agentes estão previstos para acompanhar a quinta etapa das buscas, o resgate das peças e dos corpos, que deverá começar daqui a um mês. A aeronave acidentada, um Airbus A330 da Air France, é considerada pelas leis internacionais como território francês. Aparentemente, os destroços do avião ainda estão em águas territoriais brasileiras, a nordeste dos Arquipélagos São Pedro e São Paulo. O governo Lula concedeu a responsabilidade das investigações aos franceses. Os parentes das vitimas alegam ter havido interesses políticos e econômicos na decisão. Acham que Dilma Rousseff pode reverter a situação junto às autoridades francesas.

São as seguintes, as principais peças as quais a Associação dos Familiares das Vítimas do Vôo Air France 447:

1.  Flight Data and Cockpit Voice Recorder (FDR e CVR). As famosas caixas pretas que registram a voz dos pilotos e os parâmetros do avião momentos antes do acidente.

2.   Três Primary Flight Control Computers (PRIM) e dois Secondary Flight Control Computers (SEC). São cinco os computadores de bordo do Aibus, principais e secundários, responsáveis pelo controle do avião.

3. Dois Flight Management and Guidance Computer (FMGEC). Computadores que administram o sistema de navegação da aeronave.

Por Antonio Ribeiro

22/03/2011

às 7:09 \ Diplomacia

Alvorada e batucada

O princípio da não intervenção e respeito à soberania é posição tradicional da diplomacia brasileira. Isso vem lá de trás, dos tempos em que eram frequentes as intervenções estrangeiras nas Américas. Em um primeiro instante pelas potencias coloniais européias e depois pelos Estados Unidos. Ela foi substituída  mais recentemente no governo Lula por ações incisivas, posicionamento querido ao ex-chanceler Celso Amorim com aval do ex-presidente. Achou-se durante oito anos que se poderia resolver qualquer pendenga, em qualquer lugar e que, no final, isso traria um papel mais relevante para o Brasil no cenário internacional. Não foi isso que aconteceu. O que modificou a percepção do Brasil no exterior foi a força da sua economia movida pelo espírito empreendedor dos brasileiros, da sociedade civil e não a diplomacia aventureira e de viés ideológico de Lula-Amorim.

A abstenção do Brasil na votação do Conselho de Segurança da ONU tem as vantagens e inconvenientes da neutralidade. O país não precisa sustentar posição quando não tem lastro, mas também não estreita alianças em horas graves. É tática de jogo catalogada nos anais da diplomacia desde priscas eras. Agora é, no mínimo, bizarro lavar as mãos na iminência de um massacre, quando o mais forte está pronto para esmagar o mais fraco.  O caso de Srebrenica na Bósnia, em 1995, onde a comunidade internacional acompanhou impassível o assassinato de mais de 8.300 bósnios muçulmanos pelas tropas regulares e milícias da Serbia. Ainda com toda problemática na ação militar das forças de coalizão, evitou-se um massacre em Benghazi, reduto dos rebeldes contra  o coronel Muamar Kadafi no leste da Líbia. Isso é simplesmente i ne gá vel. Contudo, as relações entre países são distintas das relações entre pessoas. Na grande maioria das vezes, elas não são conduzidas por princípios morais, mas por interesses de cada parte.

Isso nos remete a seguinte questão: o Brasil serve melhor aos seus interesses quando defende o cessar-fogo na Líbia? Detalhe edificante: o Itamaraty lamenta a perda de vidas que diz serem decorrentes do “conflito no país”, omitindo a responsabilidade do coronel Kadafi. Não é a posição de vasto consenso que sustentou a intervenção militar no norte da África. O Brasil sempre ganha  quando alinha-se claramente com a maioria contra a tirania. Desta vez, tem a singularidade de reunir na linha de frente europeus, americanos e árabes.  Nesta altura, o Brasil está em cima do muro e de costas para ela. As posições isoladas podem parecer altivas manifestações de auto afirmação e de independência, mas elas conseguem fragilizar até as grandes potencias – condição que força respeito no mundo atual não só pelo poderio bélico e econômico, mas também pela defesa de princípios e valores universais.

Para arrematar: seria bom saber se o Brasil informou ao presidente americano Barack Obama que, seguido à sua partida, o Itamaraty iria imediatamente soltar uma nota – acão coordenada nos bastidores com Rússia, China e Índia que  se abstiveram na votação do Conselho de Segurança da ONU. É verdade que ela confirma uma posição já tomada, conhecida. Mas no mínimo, denota bom tom avisar que se irá enfatizar uma posição oposta ao empenho de país amigo e aliado. Caso contrário, fica a impressão de uma rasteira por trás. Se a visita de Obama ao Brasil – os americanos creem ter sido algo semelhante a final de semana de folga – tinha como objetivo principal alavancar as relações bilaterais entre os países, seria uma pena não expulsar completamente a velha desconfiança.

A nota do Itamaraty:

Ao lamentar a perda de vidas decorrente do conflito no país, o Governo brasileiro manifesta expectativa de que seja implementado um cessar-fogo efetivo no mais breve prazo possível, capaz de garantir a proteção da população civil, e criar condições para o encaminhamento da crise pelo diálogo.

O Brasil reitera sua solidariedade com o povo líbio na busca de uma maior participação na definição do futuro político do país, em ambiente de proteção dos direitos humanos.

O Governo brasileiro reafirma seu apoio aos esforços do Enviado Especial do Secretário-Geral da ONU para a Líbia, Abdelilah Al Khatib, e do Comitê ad hoc de Alto Nível estabelecido pela União Africana na busca de solução negociada e duradoura para a crise.”

Por Antonio Ribeiro

16/12/2010

às 19:08 \ Europa

Julian “WikiLeaks” Assange: “Justiça britânica não morreu.”

A Alta Corte Real britânica rejeitou recurso da procuradoria sueca confirmando a sua decisão de soltar Julian Assange, criador do WikiLeaks, preso no dia 7 de dezembro em Londres sob a suspeita de estuprar duas mulheres em Estocolmo. A soltura do australiano responsável pela divulgação de documentos confidenciais americanos foi condicionada ao pagamento de fiança no valor de 317.000 dólares (540.000 reais) e sob condições rigorosas: respeitar toque de recolher antes das 22 horas, apresentar-se à polícia diariamente e ainda, usar junto ao corpo um dispositivo eletrônico que permite localização imediata.

As limitações já haviam sido propostas pelo advogado de Assange, quando foi negado devido ao pedido de extradição da Suécia, que o suspeito aguardasse em liberdade os trâmites legais até o dia 11 de janeiro quando será ouvido novamente. A Corte britânica zelou pelo bom senso, colocando a Justiça do reino onde ela tem melhor tradição, em compasso com os direitos individuais do cidadão.

Prisão de Wandsworth

A detenção de Assange foi absurda. Foi absurda não por tratar-se de suposto paradigma da transparência governamental e campeão da liberdade de expressão em tempos cibernéticos como quer fazer  crer a sua militância. Nem tampouco pela imagem de um Davi encarcerado porque resolveu desafiar Golias, o Império dos Estados Unidos da América. O descalabro só não foi maior porque a Justiça britânica, muito a contra gosto, foi obrigada a seguir diretiva européia da qual é signatária, a de analisar pedidos de extradição. Fosse na Inglaterra, a suspeita sueca levantada contra Assange nem seria crime.

Pelos seus antecedentes, mesmo se tivesse sido acusado de assassinato, Assange teria boas chances de se defender em liberdade. Pesou na detenção do suspeito, a sua condição de “nômade”, sem domicílio fixo ou laços fortes na Inglaterra além de ser viajante frequente. Alegou-se que ele poderia evadir para lugar incerto. O juiz Ouseley relatou as providências que Assange tomou assim que chegou à Inglaterra para que seus advogados fossem contatados pela Scotland Yard na eventualidade de um mandato de prisão internacional. “Isso não é conduta de quem quer fugir da polícia”, disse o magistrado e completou, “Trata-se de um rosto bem conhecido”.  Por volta de 17 horas do meridiano Greenwich no dia 16 de dezembro não havia homem no planeta Terra detido sob suspeita envolvendo as mesmas ambiguidades e complexidades que pesavam sob Assange.

Ellingham Hall: mansão com 10 quartos

Doravante, Julian Assange, de 39 anos, ficará hospedado na Ellingham Hall, a luxuosa propriedade rural de Vaughan Smith – veterano do Exercito inglês e correspondente de guerra – em Norfolk-Suffolk, 140 quilometros a leste de Londres. Ele emergiu livre da prisão de Wandsworth para declarar: “A Justiça britânica não está morta.” Seria pouco satisfatório do ponto de vista legal britânico tentar subtrair razão da sua afirmativa. No entanto, o tempo passado na “masmorra victoriana” cujas dependências e trato em nada lembra aqueles idos, não contribuiu para que Assange abandonasse os prosélitos que a julgar pelo sério que tem de de si, poderiam ser pontapé inicial para candidatura ao  Nobel da Paz. “Refleti sobre as condições de pessoas, em todo o mundo, que estão igualmente em confinamento isolado, em custódia, em condições mais difíceis do que as confrontadas por mim, elas também precisam de atenção e apoio.”

O criador e dono do WikiLeaks tem atraído apoio perigoso à sua causa difusa. É o caso grupo autodenominado Anonymous, os hackers que atacaram sites na web prejudicando o funcionamento do Visa, MasterCard, Amazon e PayPal. A ação não se enquadra dentro dos limites dos protestos amplamente permitidos em democracias. Trata-se de crime, ponto. Há também quem tem aproveitado a situação para carburar o velhusco antiamericanismo, como é o caso dos fãs Ken Loach, Michael Moore, John Pilger e sem faltar o plantonista do oportunismo, Luis Inácio Lula da Silva. Contudo, Assange deve ser julgado por crimes dos quais ele é suspeito. Isso independe do ponto de vista de quem o defende por uma razão ou outra. Para arrematar: apropriação indevida de dados sigilosos não é liberdade de expressão. Certo. Mas quem acha que a divulgação das informações não serve ao interesse público, mostraria mais coerência não divulgando o material do WikiLeaks.

Por Antonio Ribeiro

18/10/2010

às 18:07 \ França

Sob protestos, Sarkozy mantém reforma. Merkel apoia

Durante encontro com a chanceler alemã Angela Merkel no balneário francês de Deauville, Nicolas Sarkozy declarou: “A reforma é essencial. A França irá adiante com ela tal como nossos vizinhos alemães fizeram.” O presidente francês recebeu o apoio de Merkel no projeto de lei  que aumenta a idade mínima para a aposentadoria na França, de 60 para 62 anos, e provoca contestação social no país.

“As populações de Alemanha e França não podem evitar de encarar a verdade de frente”, disse Merkel. “A verdade é que as pessoas vivem mais tempo, se quiserem uma aposentadoria razoável e decente, devem levar a realidade em conta”, completou.

A 18 meses das eleições presidenciais na França, Sarkozy enfrenta a sexta manifestação contra as reformas. A votação do projeto de lei no Senado, marcada para o dia 19 de Outubro, foi adiada para o dia seguinte. Quase 500 emendas devem ser analisadas. O debate poderá se prolongar até o próximo fim de semana.

O Brasil dos candidatos José Serra e Dilma Rousseff tem problema equivalente ao dos países europeus com regimes de aposentadoria deficitário. O próximo presidente vai encontrar no primeiro ano do mandato um legado pesado deixado pelo governo Lula: um déficit recorde no sistema previdenciário dos servidores públicos federais. Estima-se um rombo de 32,4 bilhões de reais em 2011 – 0,85% do Produto Interno Bruto.

Por Antonio Ribeiro

04/10/2010

às 12:32 \ Europa

Lula Redentor

O maior engano da imprensa americana nos últimos tempos foi apostar que havia armas de destruição  em massa no Iraque e, com isso, dedicar apoio quase incondicional ao ex-presidente George W. Bush na invasão militar ao país sob comando do ditador Saddam Hussein. Agora está se configurando um dos maiores enganos da imprensa européia: a percepção de que Lula e o Cristo Redentor são a mesma figura.

Na Europa, a pasmaceira com Lula é encontrada com mais frequência nas páginas do francês Le Monde, no espanhol El País e no britânico The Guardian. O presidente brasileiro além de personagem fictício de agrado à maioria dos seus desiludidos leitores – tradicionalmente, eles votam na esquerda – foi transformado em uma espécie de Norte magnético para as lideranças socialistas, incapazes de provocar algum entusiasmo em seus respectivos países.

Até ontem, os europeus estavam informados de que a vitória no primeiro turno da candidata do PT, “herdeira de Lula”, era favas contadas. A solidez da convicção jornalística baseou-se na premissa de que haveria transferência automática de votos de um presidente carismático, adorado pelos seus compatriotas e responsável por governo fenomenal, cuja popularidade não tem paralelo no mundo atual. Ela era ainda mais segura devido à crença nos números das pesquisas de opinião pública que posicionava a candidata de Lula bem à frente de José Serra.

A manchete mais adequada para os jornais europeus depois de apurados os votos dos eleitores brasileiros seria: “Erramos”. Mas se ao sul do Equador, Lula é desavergonhado para se coroar “Opinião Pública”, parece ter restado algum pudor no Velho Continente. A tônica dos jornais de hoje é que houve apenas um adiamento do que se vaticinou. Aliás, a candidata Marina Silva contribuiu sobremaneira no susto – sai um mito, cria-se outro quase tão carregado do mesmo exotísmo. A impressão é que no fim do mês, quando os brasileiros retomarão o caminho das urnas, tudo irá acontecer conforme a meteorologia.

Por Antonio Ribeiro

16/06/2010

às 6:39 \ Sem Categoria

O Brasil luta sem classe: “Dilma! Dilma!”

Terminado o primeiro tempo da partida contra a Coréia do Norte, onde o Brasil lutou sem classe, o militante petista tentou fazer um coro pegar no tranco, em Paris: “Dilma!, Dilma!, Dilma para presidente!” As trezentas pessoas presentes no Cabaret Sauvage, sala de espetáculos da capital francesa, lugar em que Dilma Rousseff escolheu para ver a estréia do time de Dunga, não deram a mínima bola. A candidata empatou. Assistiu ao jogo pelo telão, longe da “comunidade brasileira” local. Ficou retrancada em um camarote, ao lado do secretário geral do PT, deputado José Eduardo Cardozo, e de Eduardo Cypel, brasileiro naturalizado francês, conselheiro regional da Ile de France pelo Partido Socialista.

“Eu não sou comentarista esportivo, passei o primeiro tempo esperando o gol”, disse a candidata, vestida com a camisa amarela, quando perguntada sobre o desempenho da equipe brasileira. Mas a respeito da decisão do presidente Lula em sancionar o projeto que concede reajuste de 7,72% aos aposentados que recebem mais do que o salário mínimo, a resposta veio de bate pronto: “O presidente combinou a robustez fiscal, ao não aprovar integralmente o ajuste, e levou em conta a situação dos aposentados.  A decisão é muito ponderada e correta. Você não pode ficar por aí gastando por conta, mas também deve considerar a situação dos aposentados.”

O giro europeu da candidata do PT chegou a ser considerada como uma fuga aos debates no Brasil. Em Paris, pode se constatar que, ao menos neste aspecto, Dilma Rousseff mantém alguma coerência. Foi lhe apresentada a dúvida de onde sairia o 1,6 bilhão de reis adicionais no orçamento para pagar o reajuste dos aposentados. Ela achou melhor dar as costas à pergunta. Entrou na Mercedes Benz negra e deixou o Cabaré Selvagem. Tampouco quis dizer se iria tratar da compra dos 36 caças Rafale para FAB, no encontro que terá com Nicolas Sarkozy. “Não vou me manifestar sobre questões do governo porque eu não tenho mandato para isso. Não posso dizer que vai ser assim, assado” , esquivou.

Em plena campanha eleitoral, o que mais interessa Dilma nesta viagem européia é posar para fotografias ao lado de Nicolas Sarkozy, Durão Barroso, José Luis Zapatero e José Sócrates. O objetivo é tentar forjar uma imagem de estadista. Sem a companhia de Lula e de carisma para compensar a falta de preparo em questões substanciais, ela lembra mais uma viúva desamparada. A camisa amarela pesa quando o jogo é de verdade.

Por Antonio Ribeiro

17/05/2010

às 21:11 \ Diplomacia

O gol contra

De um lado, Luis Inácio Lula da Silva. À direita, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan. Os dois erguem os braços do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Olhem a imagem que ilustra o post. A julgar pela preocupante questão nuclear iraniana, a imagem de festejo durante assinatura do acordo em Teerã, equivaleria a eventual fotografia do capitão Lúcio, da Seleção, erguendo a Taça FIFA, com as duas figuras humanas esculpidas em ouro sustentando o planeta Terra. O mundo inteiro deveria estar aplaudindo, assim como farão os torcedores presentes no estádio Soccer City, em Joanesburgo, na África do Sul, dia 11 de julho. Mas não está: olha desconfiado, enquanto o grupo restrito comemora. Por que?

Em primeiro lugar, porque não assistiu-se ao jogo. Ouviu-se pelo rádio a narração feita pelos protagonistas da partida. Eles dizem ter saído vitoriosos depois de 18 horas de conversa. No entanto, a euforia não consegue afastar a suspeita geral de que, na verdade, tratou-se de uma conquista de tempo adicional. Isto para evitar sanções imediatas do Conselho de Segurança da ONU contra o país de Ahmadinejad, descumpridor reincidente de acordos. Turquia e Brasil conseguiram arrancar a promessa da República Islâmica do Irã pela qual o país entregará pouco mais da metade  (58%) de matéria-prima em sua possessão (1.200 quilos de urânio) que se 90% enriquecida, através de processo de separação, pelo isótopo Urânio-235, serve para fabricar arma atômica.

A Turquia será fiel depositária da parcela radioativa do Irã. Em contrapartida, o país se encarregará de repassar daqui um ano, 120 quilos de urânio enriquecido a 20% — na Rússia e na França — para servir de combustível atômico dos reatores iranianos com finalidade pacífica. Detalhe edificante: pelo acordo, o Irã se dá o direito de continuar enriquecendo urânio a 20% o que contraria cinco resoluções da ONU. Uma vez chegado a 20%  de enriquecimento, bastaria apenas alguns meses para atingir os 90% necessários para a arma nuclear.  Ainda: o Irã poderá romper o acordo quando bem entender. Então o que mudou? A curto termo, o Irã não terá estoque suficiente para fabricar uma arma nuclear — isso se o país tiver os 2.058 quilos de urânio estocados segundo o útimo relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Simultaneamente, o país dos aiatolás adquire uma espécie “selo verde” ou  “lavagem de dinheiro” para fazer funcionar programa nuclear, secreto desde seu relançamento nos ano 90.

A declaração de Teerã cujos termos são similares aos recusados pelo Irã, em Genebra, no mês de outubro de 2009, terá que ser ratificada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e aprovada pelo grupo de Viena (Estados Unidos, Rússia e  França). Ahmadinejad com o acordo aprovado não fica mais mais próximo de construir a bomba atômica, o país dos aiatolás fica sim, mais a vontade para construí-las mais para frente. Leia no post abaixo os 10 pontos da declaração assinada pelo Irã, Brasil e Turquia, em Teerã.

Por Antonio Ribeiro

 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados