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Louvre

25/11/2009

às 17:41 \ Do leitor

De São José dos Campos, Milena Popovic

milenapopovicAntonio,

Sou leitora fanática do seu blog. Vi o post intulado “8 em cada 10 franceses: ‘Não merecemos ir à Copa’” com a foto do quadro de Georges de La Tour e ele trouxe uma lembrança muito agradável, quando fiz esta foto no Louvre.

Isso foi na minha primeira viagem à Europa, aos 29 anos de idade (vá lá, não faz tanto tempo assim, estou com 30!). Depois de 4 anos de curso na Aliança Francesa aqui em São José dos Campos, resolvi passar 20 dias na França, com um intervalo de um final de semana em Londres para ir ver uma ópera (a Flauta Mágica”, de Mozart). Eu sonhava com essa viagem (e com as idas ao Louvre) desde os 11 anos de idade.

Bom, era só isso que eu tinha a dizer! Obrigada pelo blog, sou fã de carteirinha dele!

Milena Popovic

Por Antonio Ribeiro

05/10/2009

às 14:59 \ França

O McDonald’s entra no… Louvre

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É a pá de cal ou o renascimento? Talvez ambos.

O McDonald’s não poderia comemorar melhor  seus 30 anos de chegada à França. No mês que vem a rede de lanchonetes vai entrar no… Louvre. O templo do fast-food americano venderá o famoso Big Mac ao lado dos fossos medievais da fortaleza de Filipe Augusto (1165-1223), na galeria de lojas sofisticadas com acesso direto ao maior museu do mundo, o Carrossel du Louvre.

A França tem dois grandes símbolos culturais em que se apóia para, altiva e orgulhosa, mostrar sua diferença com outros paises: a alta cozinha e as belas artes. Para os nativos mais aguerridos, o McDonald’s só atentava contra o primeiro. “Agora, o grande atrativo do Louvre não será mais a Mona Lisa, mas os grandes arcos dourados”, ironiza um deles, referindo-se a letra M do logotipo da rede.

Quem vê de fora vândalos franceses – eles se proclamam turma da anti-globalização -  quebrando lanchonetes da rede, acha que existe uma guerra entre o McDonald’s e a aldeia do Asterix. Tão falso como o mito da resistência francesa contra o invasor nazista. Na verdade trata-se de caso de amor. A França tornou-se o maior mercado da rede McDonald’s fora dos Estados Unidos. Só o ano passado, as lanchonetes dos “arcos dourados” na França receberam 450 milhões de consumidores, 11% a mais do que o ano anterior e inauguraram 30 novos pontos.

Detalhe edificante: não tem MacDonald’s no Museu Metropolitano de Arte, de Nova York. Em frente ao Met há um vendedor ambulante de delicioso hot dog, quase tão bom como o cachorro-quente do Geneal, na Cidade Maravilhosa e olímpica.

Por Antonio Ribeiro

21/09/2009

às 8:06 \ Arte

Souvenir de Nova York

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Uma das pinturas mais conhecidas da arte brasileira, presença cativa nos livros escolares, é o Independência ou Morte, do pintor paraibano romântico Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905). O óleo sobre tela de 4,15 x 7,60 metros, pintado pelo antigo aluno da Escola de Belas-Artes de Paris, em 1888, em Florença, na Itália, pertence ao acervo do Museu da Cidade de São Paulo. Lá está como obra número um, espécie de Mona Lisa se considerado seu poder de atrair visitantes para o mesmo espaço. Por medida cautelar contra almas mais exigentes adianta-se que o magneto nacional é bem menos poderoso que a tela maioral do Louvre.

No entanto, poucos sabem que paira sobre o Independência, conhecido também por O Grito do Ipiranga, a dúvida do plágio. Ou se preferem, a eventual inspiração em uma aquarela feita treze anos antes. Trata-se do 1807, Friedland, de Jean-Louis Ernest Meissonier (1815-1891). A cena do pintor autodidata francês mostra Napoleão Bonaparte e seu estado-maior saudando o regimento dos curaceiros antes de encetarem ataque durante a Batalha de Friedland. Os soldados de cavalaria equipados com armadura foram peça capital nas vitórias do imperador de origem corsa rumo ao domínio do Velho Continente. Vale lembrar, derrotado no fim da carreira, Bonaparte deixou a França menor do que a encontrou, embora o grandeur não se meça em palmos de terra.

Meissonier era um meticuloso pintor de quadros de pequeno formato, repletos de detalhes. O 1807, Friedland foi o maior deles, mede 1,36 por 2,42 metros – um dos cinco episódios pictóricos imaginados pelo autor sobre a vida de Bonaparte. As fisionomias dos cavaleiros obedecem uniformidade que deixa a impressão de que o autor fez economia de recursos ou teve o propósito de criar um exército de clones montados. Sempre a mesma expressão, a do homem maduro, bochechas salientes, bigodes, nenhuma nobreza e até um certo traço de vulgaridade.

O quadro ganhou fama em 1876 quando foi comprado do artista pelo americano Alexander T. Stewart (1803- 1876). próspero dono de uma rede de lojas de departamento. Ele pagou 60.000 dólares, na época, a soma era astronômica para uma obra de arte. Detalhe: Stewart adquiriu a pintura sem vê-la, entusiasmou-se só pela descrição. Messionier, soldado durante o sitio de Paris, em 1870, escreveu a Stewart: “Eu não queria pintar uma batalha, mas Napoleão no zênite da glória. Pintei o amor, a adoração pelo grande capitão em quem os soldados tinham fé e por quem estavam dispostos a morrer.”

Depois da morte Alexander T. Stewart, a viúva Cornelia casou-se de novo. O novo marido passou o 1807 nos cobres, vendeu o quadro por 66.000 dólares ao juiz Henry Hilton. Em 1887, homenageando a memória do velho amigo Stewart, o juiz doou a obra ao Museu Metropolitano de Arte, de Nova York, onde está até hoje, na sala dedicada a pintura francesa do século XIX. O presidente do Met, John Taylor Johnston, escreveu comovido agradecimento: “… prova do espírito público dos nossos cidadãos para o Museu fazer valer a metrópole do nosso país.”

O óleo sobre tela Independência ou Morte foi subvencionado pelo Império. Gonzaga Duque sustenta no livro Mocidade Morta, um Pedro Américo protótipo de pintor oficial. Aquele sujeito com aptidões para promover a própria arte, servindo-se de modo desinibido das instituições públicas. Em 1858, Américo escreveu carta a Pedro II: “Agora pois que tenho os conhecimentos que para a Pintura poderia receber da dita Academia, para prosseguir na minha carreira indispensável é uma viagem à Europa, e como a Academia não me pode facultar os meios necessários para esta viagem, por ter ela preenchido o número de seus pensionistas, venho confiado na extrema bondade de Vossa Majestade Imperial solicitar a graça de me mandar particularmente acabar meus estudos na Europa.”

Por Antonio Ribeiro

09/02/2009

às 17:43 \ Do leitor

Odílio Lopes, de Paris


Senhor Antonio Ribeiro,

Cada vez que leio as suas reportagens de França na Veja.com são sempre coisas boas, bonitas. É tudo agradável, extraordinário. Fico pensativo: os brasileiros devem ficar maravilhados com a França e com sua capital.

Sabe qual é a diferença entre um jornalista brasileiro (certamente de origem portuguesa) e um jornalista francês? Sem ser ofensivo, vou explicar.

Um jornalista brasileiro em França vai tentar encontrar tudo o que existe de bom. Fazer reportagens positivas para os leitores brasileiros ficarem de boca aberta. Dizerem: que bonito país, que gente culta, que prazer viver em Paris! O jornalista francês no Brasil nunca vai falar o que de bom existe lá. Vai sempre tentar rebaixar o brasileiro, mostrar aos compatriotas que o Brasil é terceiro mundo. Para eles, as brasileiras são todas prostitutas, todos são pobres, não há cultura. Vai fazer reportagem sobre as favelas de São Paulo e Rio de Janeiro. Dizer: ainda bem que os franceses ensinaram os brasileiros a apreciar vinhos e comer bem. Em São Paulo, por
exemplo, há restaurantes franceses em todas as ruas.

Os brasileiros já falam mais francês do que português. Os brasileiros dizem, por exemplo, bistrot, reveillon, Papai Noel, dossier, enquête, lingerie, buffet. Assim dizem porque gostam de ser como os franceses. “Não conseguem porque nós somos os maiores”, pensam os franceses. Resultado: hoje os brasileiros tem um complexo de inferioridade tão grande para com os franceses que já nem no futebol lhes ganham. Jornalistas brasileiros para se valorizarem utilizam palavras francesas pois dá-lhes um ar de sábio e de importância. Na culinária não dizem um escansão, mas sommelier; filet mignon em vez de lombo. Valorizam o que é francês como se os outros não tivessem produtos iguais ou melhores. Valorizam a cultura francesa como se não houvesse cultura nos outros países.

O resultado está à vista: um povo com superioridade e arrogante e outro, com complexos de inferioridade.

Se o senhor, não digo criticar, mas procedesse como os franceses, as suas reportagens só falariam de coisas ruins. Por exemplo: das pessoas que dormem na rua em Paris (e são muitas), dos pedintes que há em todo o lado, da miséria que há neste pais, dos 15 milhões de analfabetos, dos problemas de imigração, dos salários que não dão para comer, dos distúrbios provocados pelos os jovens nos fins de semana em sítios turísticos, da falta de instrução da maioria dos franceses. Pergunte ao francês qual a população do Brasil? Qual língua se fala por lá? Geralmente, respondem que os brasileiros falam espanhol e que no Brasil devem viver uns 20 ou 30 milhões de pessoas. Pergunte aos franceses o nome de um ou dois autores brasileiros. No melhor dos casos, conhecem o Paulo Coelho porque ele vive em França e porque gosta de falar francês.

O senhor devia fazer reportagens sobre o que esta na moda em França. Nenhum jornalista brasileiro escreve sobre as agressões aos automobilistas nos semáforos — dizem que foi importado do Brasil. Deveria fazer reportagens sobre a nojeira da maioria dos restaurantes parisienses; da sujeira nas ruas (só o centro está limpo); da má educação das pessoas; da maneira como lidam com os turistas; da tristeza genetica da maioria dos franceses… O francês em geral é um povo com pouco asseio. Traja mal, mas consegue transmitir a idéia de que é limpo e elegante.

É verdade que é mais fácil falar do Louvre e de alguns restaurantes de luxo. Só que não transmite a realidade francesa aos brasileiros. Não estou a dizer que só deve falar de o que é mau, mas simplesmente mostrar a realidade.

Com os meus comprimentos, de Paris.

Odílio Lopes

RESPOSTA:

Caro Odílio,

Muito obrigado pela leitura e envio do comentário.

Seu recado está dado, pá.

De Paris, um abraço

Antonio Ribeiro

Por Antonio Ribeiro

04/02/2009

às 11:32 \ Paris

A recepção não está à altura da torre

Gustave Eiffel deve ser louvado não só pela beleza e perenidade da sua torre de 10.000 toneladas, construída para Exposição Universal de 1900, símbolo inconfundível de Paris. O engenheiro francês ergueu a estrutura metálica de 324 metros de altura sem que houvesse, durante os 27 meses de montagem, um só acidente fatal. Bem, de lá para cá, a Torre Eiffel tornou-se ponto predileto para tentativas de suicídios, mas isso é outra história. A questão atual diz respeito a desorganização dos responsáveis pela obra de Eiffel, onde trabalham 280 pessoas. A recepção dos 7 milhões de visitantes anuais ao monumento não está à altura da torre.

Faça chuva ou faça sol é parte do programa de quem visita a Torre Eiffel formar longas filas de espera. Isso pode ser explicado por lei da física: dois corpos não ocupam o mesmo lugar. E quando a entrada do fluxo é maior do que a capacidade de escoamento, engarrafa. A Torre Eiffel tem capacidade de acolher 5.000 pessoas — 3.400 pessoas no primeiro andar (4.415m2), 1.200 no segundo (1.430m2) e 400 no último (250m2). Nos dias de grande frequência, a espera média para subir ao primeiro andar é de 2 horas. Quem deseja visitar o último andar tem ainda que aguardar mais uma hora e meia. Um verdadeiro programa de índio para ver o panorama de Paris sem a Torre Eiffel!

Parte do problema que causa a espera são os cinco elevadores – um em cada pilar que sustenta a torre e outro, que faz o trajeto entre o segundo e último andar. Embora funcionem perfeitamente – eles percorrem 103 quilômetros por ano – são obsoletos, lentos e com baixo limite de peso. Parte integrante do Patrimônio Histórico, eles só podem se substituídos em caso de quebra irremediável. Na maioria das vezes são renovados. É o caso do elevador Edoux, responsável pelo trajeto entre o 2º e 3º andar. Ele não funcionava no inverno porque a lubrificação congelava e imobilizava a maquina. Em 1983, sua bomba hidráulica virou peça de museu exposta no segundo andar da torre, sendo substituída por um equipamento elétrico de mesma função.

A Sete, empresa de exploração da Torre Eiffel, esta iniciando a venda de ingressos por internet. A medida visa reduzir o tempo de espera, uma vez que os visitantes – um terço são estrangeiros – podem escolher a faixa de horária da visita. Um projeto mais ambicioso e custoso aguarda aprovação durante anos. Trata-se da construção de um espaço de espera com lojas, lanchonetes e serviços no sub-solo da Torre. Algo equivalente a solução da Pirâmide do Louvre. Até lá e em tempos de crise, a alternativa mais viável é a instalação de abrigos semelhantes aos dos pontos de ônibus. Resta saber se os franceses vão admitir o “estorvo” na paisagem assim como a Torre Eiffel foi considerada um dia. (Leia a nota seguinte)

Por Antonio Ribeiro

02/02/2009

às 23:43 \ Arte

O Louvre S.A.

Para percorrer todas as salas do Louvre é necessário caminhar 14 quilômetros. Se um indivíduo anda, em média, de 4 à 5 km/h, basta pouco mais de 3 horas para uma visita completa do lugar. Mas o museu tem 35 mil peças que datam do sexto milênio antes de Cristo até o século XIX. Se o visitante passar apenas um minuto observando cada uma, seria necessário permanecer mais de três semanas dentro da antiga fortaleza e residência dos reis franceses, convertido em museu em 1793 exibindo 537 pinturas confiscadas de nobres e da Igreja.

Na prática, grande parte dos visitantes vão ao Louvre para ver só um óleo, o retrato da florentina Lisa Gherardini que sorri enigmaticamente porque estava grávida de uma criança do mercador Francesco de Giocondo. Devido às filas, eles perdem mais tempo para chegar ao ponto de observação do que permanecem mesmerizados pela obra-prima renascentista, pintada por Leonardo da Vinci em 1503.

Mona Lisa tem sido o magneto do Louvre, mas desde que Henri Loyrette, de 56 anos, ex-curador do Museu d’Orsay e com passagem pela Villa Medicis, em Roma, assumiu a direção, a frequência do museu aumentou 60%. Em 2008, o Louvre recebeu 8,5 milhões de visitantes.

A afluência ao Louvre representa 2 milhões a mais do que o Museu Britânico em Londres e o dobro da frequência anual do Museu Metropolitano em Nova York e do Vaticano em Roma. As comparações são modestas para o Louvre, considerado “o” museu. O grande recorde quebrado pela casa da Vitória Alada de Samotrácia e da Vênus de Milus foi acolher mais visitantes do que a Torre Eiffel, no ano passado. O Louvre é o monumento com entrada paga mais visitado no mundo.

A chegada de Loyrette no comando da maior construção – e a mais imponente – à beira do rio Sena está na categoria dos eventos ovacionados de pé nos EUA, mas que na França provocam a típica expressão: Quelle horreur! (Que horror!). Loyrette convidou artistas contemporâneos para expor ao lado de tesouros da arte de outrora. Foi o caso da polêmica exposição do nova-iorquino Jan Fabre, na qual o artista fez um auto-retrato em forma de verme exposto na galeria com obras de mestres holandeses e flamengos dos século XVII e XVIII, entre eles, Rubens e Van Dick.

Atualmente, o Louvre “expõe” notas musicais do compositor Pierre Boulez. Elas acompanham desenhos e textos dos séculos XIX e XX. A exposição examina a metodologia do processo criativo através das obras de Ingres, Cézanne, Kandinsky, Klee, Picasso, Wagner, Stravinski e Mallarmé.

A terapia de choque de Loyrette, cujo salário de 7,5 mil euros – o mais modesto entre os presidentes-diretor dos estabelecimentos do Ministério da Cultura e da Comunicação francês – foi dotar o Louvre que subsidia boa parte dos museus franceses, de aumento substancial no mecenato privado. Antes o museu vivia só da ajuda anual do estado de 122 milhões de euros, das contribuições dos 70 mil membros (90 euros por cabeça) da centenária Sociedade dos Amigos do Louvre e da venda de ingressos (5 milhões de euros).

Henri Loyrette

Loyrette encetou um acordo para construir o  Louvre de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. A “filial” das areias e de arrojadas linhas criadas pelo arquiteto Jean Nouvel – inauguração prevista para 2014 – representará a entrada de 250 milhões anuais nos cofres do museu francês durante duas décadas – a maior fonte de renda do Louvre. Dezoito bancos, entre eles, o UBS e JPMorgan Chase competem para administrar o fundo das Arábias.

Doravante, o Louvre recolhe 6,4 milhões de euros de aluguel de suas obras. Pinturas de Raphael, Ticiano e peças que antes ficavam no gigantesco depósito no sub-solo do Louvre, foram vistas em museus e galerias de Verona, Kobe, Oklahoma, Macau e Atlanta.  As doações de endinheirados do mundo, os jantares e recepções beneficentes e de promoção com celebridades e concertos de musica adicionaram em torno de 10 milhões de euros por ano na receita do museu – só se comia e bebia nas galerias em épocas monárquicas. Loyrette fez um acordo com o sindicado dos 1770 funcionários do museu para acabar com as greves.

A política de Loyrette é tornar o Louvre mais acessível e global através de exposições didáticas e interativas com o público. Ela ambiciona aproximar um conhecimento cada dia mais complexo e promover o diálogo entre as civilizações pela arte. “Quando eu comecei na profissão, os museus eram espaços rígidos onde os conservadores se concentravam em missões de pesquisa pessoal, um mundo fechado”, diz Loyrette.” O Louvre é referencia magica nas artes, mas o lugar não foi arejado durante anos, nós abrimos as janelas

Por Antonio Ribeiro

12/09/2008

às 5:42 \ Arte

Elefante entre as cristaleiras

Terno cinza chumbo, gravata negra e camisa branca. O artista americano Jeff Koons, de 53 anos, poderia passar por um executivo de empresa francesa respeitoso da mobilidade social que segue a discreta moda masculina do último grito. Mas o hábito não faz o monge. As obras de Koons, sim. Elas nunca passam despercebidas. Não é raro, criam polêmica. Esta semana elas encetaram a maior delas — ainda que o artista não tenha conseguido causar maiores escândalos desde seu casamento com a atriz de filmes pornográficos, Ilona Anna Staller, a Cicciolina, italiana de origem húngara. Koons instalou 17 das suas criações extravagantes ao custo de 2,2 milhões de euros — 90% vem de fundos privados — na sede do poder político e símbolo do esplendor da França no século XVI, criado a partir do zero pela vontade do Rei Sol Louis XIV. Em uma palavra: Versalhes.

Quem ousaria senão Koons colocar no Salão Hercules um balão rosa magenta em forma de cachorro ou uma enorme lagosta de plástico que lembra bóia para crianças brincarem na água, no Salão de Marte do mais esplendoroso dos palácios? Há quem veja na manifestação uma espécie ultraje. O editorialista e crítico de arte do Figaro Magazine, Philippe Tesson, puxa o coro dos descontentes: “Versailhes não é lugar de exposição, mas de memória”. Nacionalistas da extrema-direita francesa, partidários da “pureza da arte” protestaram junto as grades que protegem os dominios de Versalhes — a cena evoca os tempos da Revolução Francesa quando os “calças curtas” deram exemplo da Terra girar ao contário na sua orbita, tal qual Clark Kent no filme Superman I. O  jornal comunista L’Humanité acusou Koons de ser “mais comerciante do que artista”, “explorador do mal gosto até os ossos.” Vixemaria, cruzes!

A França tem alergia aguda de vanguardas que contrapõe o seu passado glorioso,  referência em um mundo em  transformação permanente. Afinando: existe no país a tese da correspondência, do diálogo, entre objetos contemporâneos com a História. Isso amplia a cultura, dizem. A resistência emerge quando a mistura desrespeita uma estética, uma concepção intelectual e uma evolução particular. Trocando em miúdos: devagar com andor porque o santo é de barro. Louis XIV nos trajes do imperador romano Caio Julio César Octaviano Augusto ao lado de porcelana representando o cantor americano Michael Jackson apoiado no ombro de um macaco, é muito.

Koons, autor da obra Hanging Heart, vendida a 23,6 milhões de dólares, e Versalhes, visitado por 5 milhões de pessoas em 2007, são em certa medida opostos. O passado que já deu provas de envelhecer bem. A modernidade em busca de legitimidade, de reconhecimento. Nem todos os franceses aceitam uma pirâmide de vidro construída como porta de entrada monumental do Museu do Louvre. Não é uma atitude recente. O poeta francês Jeanne Marie Gingras (1871-1945), conhecido pelo pseudônimo Paul Valéry, por exemplo, fugia como o diabo da cruz das ruas parisienses de onde poderia avistar a Torre Eiffel. Valery não via a França na torre.  Hoje a obra metálica do engenheiro Gustave Eiffel lembra mais a França do que qualquer outro emblema, entre o galo no peito, a boina na cabeça ou a baguete debaixo do sovaco.

Inegável. O estilo neopop de Koons e a maneira monárquica de Louis XIV encontram-se no pomposo.  “Captar a harmonia do lugar, inserir as obras com um senso da proporção e homotetia” , diz Koons.  No Versalhes de Louis XIV a mitologia greco-romana está por toda parte. Koons, por sua vez, serve-se dos códigos de Hollywood, da publicidade, do kitsch popular. A vaidade do rei francês, o egocentrismo do artista americano não estão longe um do outro. Koons escolheu as famosas pinturas dos monarcas franceses para pano de fundo da obra Self-Portrait (Auto-Retrato). Não há melhor palco para a extravagância, arrogância e ostentação do que Versalhes. Koons não cria nada, se apropria do que está à mão. Louis XIV tampouco. Os artistas do monarca francês apoderaram-se do que havia de melhor na época para celebrar o mecenato real.

A exposição Jeff Koons Versailles que lembra a decoração de um quarto de menino rico, estréia no dia 10 de setembro e permanece até o dia14 dezembro.

Por Antonio Ribeiro

02/09/2006

às 18:21 \ Arte

Mona Lisa: um mistério a menos. A razão do sorriso.

Mais de  sete milhões de pessoas formam, a cada ano, filas em torno da Pirâmide do Louvre, o acesso ao maior museu do mundo. Oito em cada dez visitantes enfrentam a espera atraídos, sobretudo, por uma florentina de 25 anos, magistralmente pintada num ícone renascentista do século XVI – a Mona Lisa. Muitos percebem na linha formada pelos lábios de Lisa Gherardini uma expressão enigmática, que há cinco séculos engendra uma mesma pergunta: qual o mistério por trás desse sorriso? O Centro de Pesquisa e Restauração dos Museus da França (C2RMF), com a ajuda do Conselho Nacional de Pesquisas do Canadá (NRC), acha que matou a charada. Depois de submeterem o quadro a uma formidável bateria de exames, na semana passada os pesquisadores revelaram que, em 1503, quando a mulher do comerciante de seda Francesco del Giocondo se sentou diante de Leonardo da Vinci, ela acabara de dar à luz o segundo filho. O quadro celebraria o nascimento do menino Andrea, dois anos depois de Lisa ter perdido a filha Camilla num parto malsucedido. A serenidade da Gioconda traduziria, assim, o sentimento de plenitude maternal.

No outono europeu de 2004, o quadro de 79,4 por 53,4 centímetros foi levado para os porões do Louvre, onde, durante 72 horas, esteve sob os cuidados de grupos alternados de quatro pesquisadores e foi fotografado sob luz rasante, raios X, infravermelhos e ultravioleta. Os sensores a laser de um scanner tridimensional canadense, utilizado nas sondas espaciais para mapear a superfície dos planetas, fizeram varreduras na frente e no verso do quadro. O equipamento é capaz de registrar detalhes em linhas de 0,01 milímetro de espessura – oito vezes mais finas que um fio de cabelo. “As radiografias antigas evidenciavam apenas a ossatura do quadro”, compara Michel Menu, chefe do departamento de pesquisa do C2RMF. “Mas sua epiderme está impregnada pela sujeira de cinco séculos, o que obstrui a visão total a olho nu. As novas análises revelaram detalhes nunca vistos antes”, completou Menu em entrevista ao Blog de Paris. Um desses detalhes é um sexto dedo na mão direita da Gioconda. Leonardo pintou o indicador, inicialmente, numa posição de tensão, como se a modelo estivesse prestes a se levantar. Num segundo momento, o pintor fez a única correção da obra-prima, relaxando sua mão.

Cada vez mais os historiadores da arte se valem da tecnologia como ferramenta de trabalho. Programas de computador capazes de analisar o padrão e a intensidade das pinceladas ajudam a verificar a autenticidade de obras de Van Gogh. A análise microscópica da célebre Moça com Brinco de Pérola, de Johannes Vermeer, levantou uma questão que põe em xeque o próprio título com que a pintura passou à história: o fragmento de tinta branca que reproduz o brilho característico de uma pérola parece ser muito posterior. O brinco original talvez fosse então de prata ou de vidro. Às vezes, o imageamento avançado revela obras que nem se supunha existirem – caso de um auto-retrato de Rembrandt que se encontrava encoberto por uma pintura de um autor medíocre e que desde seu restauro, em 2003, está em exposição em Amsterdã. A análise da Gioconda não trouxe à tona novidades de tal calibre. Mas, uma vez que se trata do quadro mais reproduzido da história, qualquer partícula de conhecimento que se acrescente a ele é útil, e de interesse geral.

Do ponto de vista físico, a Mona Lisa é uma tábua de álamo ligeiramente empenada e coberta por um mosaico de milhões de rachaduras de tinta e verniz ressecados – as “rugas”, curiosamente, são mais numerosas no rosto e no colo da Gioconda. Até os novos exames, acreditava-se que ela estava prestes a se desmanchar. Engano. Os pesquisadores confirmam a fragilidade da obra, mas afirmam que o temor de uma deterioração acelerada é exagerado. A matéria pictural está muito bem colada ao suporte, e a fenda de 11 centímetros na madeira acima da cabeça da Mona Lisa não se moveu desde sua restauração. As maiores ameaças são a umidade e as mudanças de temperatura, razões pelas quais uma verdadeira UTI posicionada atrás do quadro o monitora continuamente na novíssima Salle de la Joconde.

A Gioconda guardava ainda outras surpresas. Bruno Mottin, conservador do patrimônio do C2RMF, disse ter sentido um frio na barriga ao examinar a imagem em infravermelho do decote da Mona Lisa. Ele descobriu um tecido finíssimo entre um motivo solto do bordado e o vestido escuro de Lisa Gherardini – um véu que era a vestimenta típica das aristocratas toscanas durante a gestação e nos meses seguintes ao parto. “A descoberta nos permitiu datar o início da obra em torno do ano 1503 e também confirmar a condição social da Gioconda”, diz Mottin. O véu joga por terra a conjectura de alguns historiadores de que a Mona Lisa seria uma mulher “liberada”, já que na época os cabelos soltos eram mais comuns entre prostitutas do que entre mães de família. Há um segredo, porém, que exame nenhum conseguiu arrancar da Gioconda – o das técnicas imperceptíveis e dons intangíveis que Leonardo aplicou na criação da pintura mais famosa do mundo.

 

Por Antonio Ribeiro

 

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