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Jesse Owens

29/06/2012

às 18:59 \ Europa, Futebol

Camisa negra

A Itália levou para Eurocopa duas surpresas. Notáveis de imediato desde o rolar da bola na relva dos modernos estádios poloneses e ucranianos. A seleção famosa por melhor cumprir o catenaccio, o cadeado, a retranca total,  exibiu o inverso, o futebol ofensivo, possível devido ao maestro condutor, senhor absoluto do círculo central do campo, o volante inteligente e habilidoso Pirlo – faz lembrar o santista Clodoaldo na epopéia do tri.

A outra novidade feita em Palermo, na Sicília, a partir de cromossomos ganeses chama-se Mario Balotelli, de 21 anos de idade, o primeiro atacante negro da Azzurra. O jogador do time inglês Manchester City foi autor de dois gols responsáveis por colocar a sua Itália e país dos seus pais adotivos na final contra a Espanha garantindo vaga na Copa das Confederações de 2013, no Brasil. Ademais, eliminou a toda favorita Alemanha repleta de talentos, mas hesitante nos momentos decisivos.

Contudo, foi o “terceiro gol” de Balotelli o mais emblemático de todos. Aos 37 minutos do primeiro tempo, depois de estufar as redes com um petardo impulsionado pela perna direita na entrada da grande área, tirou a camisa e fez pose de Mister Universo. Alguns acharam que era mais uma típica excentricidade de Balotelli, passível de cartão amarelo. Mas o gesto foi para consumo interno. Perfeitamente entendido em casa, na Itália, onde um racismo arraigado entra em campo de forma insidiosa e intolerável.

A derme de Balotelli, a outra “camisa negra”, diferente da vestimenta dos simpatizantes do fascismo de Mussolini, poderá matricular-se na história do futebol europeu. Seria muito estabelecer parentesco próximo com os punhos cerrados dos atletas americanos Tommie Smith e John Carlos, nos Jogos Olímpicos de 1968, em favor do movimento Black Power e pelo respeito aos direitos individuais nos Estados Unidos. Porém, há esperança que a imagem da “camisa negra” de Balotelli venha contribuir para atenuar a discriminação, um passo a mais no longo processo.

O futebol italiano passa por situação análoga ao da Inglaterra nos anos 1970, onde era corriqueiro insultar jogadores de macacos e ver bananas sendo atiradas no gramado. Balotelli conhece a situação desde a infância. Ele cresceu em Brescia, cidade na região da Lombardia, reduto do xenófobo Partido da Liga Norte. Balotelli tem qualificações para ser um exemplo pioneiro contra a intolerância. No entanto, será seu desempenho esportivo que fortalecerá a nobreza da causa. Jesse Owens é exemplo eloquente.

Por Antonio Ribeiro

06/07/2010

às 10:11 \ Esporte

A seleção preta e branca, igual a ela mesma

O esboço mais próximo do futuro campeão da Copa do Mundo 2010 levou pouco mais de 90 minutos para ser confirmado no gramado do Estádio Green Point, na Cidade do Cabo. Sob o comando do técnico Joachim Löw, a garotada da Alemanha cuja media de idade é de 24 anos, a mais baixa da competição, despachou a Argentina, de Diego Maradona, com quatro gols. Quando o árbitro uzbeque Ravshan Irmatov fez soar o apito final, os jogadores alemães da geração “M” (multicultural), não tinham tomado nenhum gol do ataque albiceleste de Lionel Messi. O esquema 4-2-3-1 da nova Mannschaft que lembra a forma dos foguetes para rasgar a resistência do ar, encantou até torcedores que não apreciam o futebol alemão, tradicionalmente rígido, eficiente e as vezes, brutal.

Entretanto, o conjunto de componentes cosmopolitas, 11 jogadores de origem estrangeira entre os 23 selecionados, está sendo louvado em casa como modelo de integração dos imigrantes na moderna Alemanha. O país tem uma população de 82 milhões de habitantes entre os quais 7 milhões de imigrantes e quase metade deles são turcos como  Mesut Özil, muçulmano canhoto de 21 anos, a estrela maior do time. “Minha técnica e habilidade com a bola é turca, a disciplina e o esforço de dar o melhor de mim, é o meu lado alemão”, diz Özil. Debaixo da cúpula de vidro transparente do Bundestag, a câmara dos deputados, em Berlim, a chanceler Angela Merkel vai no mesmo embalo: “Eles [os jogadores] são ícones comuns a todos.”

Dennis Aogo (Nigéria), Jérome Boateng (Gana), Cacau (Brasil), Mario Gomez (Espanha), Mesut Özil (Turquia), Miroslav Klose (Polônia), Piotr Trochowski (Polônia), Sami Khedira (Tunísia), Marko Marin (Bósnia e Herzegovina), Lukas Podolski (Polônia) e Serdar Tasci (Turquia), não foi o primeiro time europeu miscigenado ao qual a política  atribui papel exemplar fora das quatro linhas. O campeão da Copa do Mundo de 1998, a equipe “Black, Blanc, Beure”, de Zinedine Zidane, francês de origem cabila, conseguiu em um mês, o que os programas de integração não fizeram em décadas. Provocar a sensação entre os imigrantes e os seus descendentes de pertencerem ao país que acolhe, mas que também discrimina. Um vento de igual força e temperatura sopra neste verão europeu ao norte do rio Reno.

As vitórias esportivas podem ser inspiradoras, mas a sua capacidade de produzir mudanças práticas tem efeito menor fora dos estádios. Nos Jogos Olímpicos 1936, o corredor negro Jesse Owens foi celebrado por  enterrar a teoria nazista da supremacia da raça ariana sobre as demais. No entanto, mesmo no seu país, os Estados Unidos, os indivíduos com sua tonalidade de pele só conquistaram direitos individuais plenos bem mais tarde, nos final dos anos 60. Bastou que os jogadores franceses na África do Sul encetassem a primeira greve organizada por milionários para fazer emergir na França reprovações de caráter racial, falta de patriotismo e honra, menosprezo pelos valores nacionais e outras dungadas.

Nas duas últimas décadas, um acalorado debate partiu a Alemanha entre os que defendiam a manutenção da nacionalidade pela via da consaguinidade e os que queriam ver espelhados na legislação, o caráter multiétnico da moderna sociedade alemã. Não fosse pela flexibilização dos rígidos estatutos de imigração, em 1999, muitos jogadores não poderiam fazer parte do Nationalelf, a atual Seleção alemã. Uma vez mais a Alemanha está próxima do título mundial de futebol. Mas desta vez, ela é preta e branca, por dentro e por fora. Igual a ela mesma.

Por Antonio Ribeiro

21/08/2009

às 8:26 \ Esporte

O senhor 200.000 Bolt

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O Mundial de Atletismo, em Berlim, abriu nova era. As longas pernas do velocista jamaicano Usain Bolt deram passadas espaciais. Elas não foram tão festejadas quanto o salto da nave Apollo 11 ao solo lunar, façanha da NASA pelas botas do astronauta Neil Armstrong. Mas percorrer 100 metros em 9 segundos e 58 centésimos significa para máquina humana uma conquista a qual poucos entendem de imediato. A proeza está mais próxima da miragem do que da lógica.

Quem sente nas entranhas a medida exata do esforço – ele parece fácil para Bolt, completa 23 anos hoje e de quem dizem poder alcançar os 9s40 em breve – fica boquiaberto de cara. Foi o caso de Leslie Djone, especialista dos 400 metros, depois de assistir Bolt atingir 44,72 km/h pouco além da metade do percurso dos 100 metros rasos, a prova que decide quem é o homem mais veloz do mundo.

Enquanto Bolt celebrava saltitante, Djone fixou o olhar em um ponto perdido no azul da pista sintética. O silêncio do corredor durou espaçados segundos. Ele não via nada, mentalizava. Absorto, assistia um filme produzido pelo seu cérebro. A descrição das cenas, só ele poderá contar um dia. Quem  sabe em data comemorativa, quando se quiser saber o que ele  fazia durante acontecimento responsável por desviar a rota da história.

Djone deixou o estado de letargia, resultado da consciência de que os tempos mudaram tendo seus olhos por testemunha, com tirada jocosa: “Daqui a pouco vão instalar placas nas pistas de atletismo indicando limite de velocidade à 50 km/h.” Seria uma medida compensatória para os mortais. No entanto, o super-homem não respeita fronteiras: quebrar os limites é parte mais genuína da sua natureza.

Bolt, 1,96 metro de altura e 86 quilos, assombrou de novo nos 200 metros rasos sob os olhares de 55.000 privilegiados. Ganhou a prova pulverizando o seu próprio recorde mundial com 19s19. Correu 11 centésimos mais rápido do que nos Jogos Olímpicos de Pequim e deixou o panamenho Alonso Edward, comendo poeira 62 centésimos atrás – foi o melhor desempenho na vida do jovem medalha de prata. Isto sinaliza que por muito tempo os 100 metros rasos terão o mesmo vencedor. A única expectativa será ver em quantos centésimos Bolt baixa seu tempo -  em 88 anos, ninguém conseguiu quebrar seguidos recordes como Bolt.

Há mais de meio século, o Estádio Olímpico de Berlim, onde Bolt venceu os 100 e 200 metros rasos, é coberto pela sombra de Jesse Owens. A referência histórica é tão distante que nem em termos simbólicos, ela merece ser comparada com Bolt. A vitória de Owens no verão europeu de 1936 jogou por terra a teoria nazista da superioridade racial ariana. A questão é irrelevante nos tempos de Bolt. Os resultados das últimas décadas colocam os negros sempre à frente dos brancos nos 100 e 200 metros rasos. Bolt e Owens são tão semelhantes quanto um guepardo e um gato angorá.

O que ia até pouco tempo era a disputa entre dois tipos de homens. Os anabolizados e os demais atletas. Neste aspecto, Carl Lewis ainda é a figura mais emblemática. Até que se prove o contrário, Bolt é responsável por elevar a competição ao mais nobre patamar do esporte. Enquanto suas pernas tiverem força, será o homem contra ele mesmo ou melhor dizendo, Bolt contra Bolt. Se fosse no boxe, os adversários de Bolt seriam meros sparrings.

Como ele consegue? Na maioria dos atletas, há um conflito entre a vontade de vencer e a fluência. O engajamento total prejudica a técnica. Mais sutil, existe confusão entre relaxamento e displicência. O cursor de Bolt situa-se no ponto exato do equilíbrio.

Correr de maneira relaxada, implica uma enorme qualidade nervosa e coordenação. As passadas e o movimento pendular dos braços são uma sucessão de informações e contra-informações. Nos casos de 9 em de cada 10 velocistas a contra-informação acontece no meio do movimento. É o momento onde se nota a tensão. Ela é imperceptível no corpo longilíneo de Bolt. Tal qual um chip eletrônico, o jamaicano administra de maneira excepcional  grande quantidade de informações vindas de vários sentidos. ‘Penso em nada na largada, não há razão para se estressar, a competição é prazerosa” ,  explica Bolt.

“Bolt tem uma resistência ao acúmulo de acido lático no corpo superior aos seus pares” , diz Pierre Morath, historiador do esporte e ex-atleta. ‘Nunca se viu um corredor com tamanha capacidade de resistência, o que lhe permite acelerar no ponto onde os outros começam baixar o ritmo”. A história do atletismo também desconhece um precedente que reuniu relaxamento, potência e resistência em universo onde predomina a massa cerebral e músculos.

Os pés de Bold calçam 44. Em ação, eles lembram as laminas metálicas que substituíram as pernas amputadas do corredor sul-africano Oscar Pistorius. “Além de amortecer o choque, sistematicamente, eles projetam com força Bolt para frente” , diz Bruno Marie-Rose, ex-recordista mundial dos 4 X 100 metros. O segredo do sucesso dos velocistas é tocar o menos possível no chão e com a maior brevidade. As passadas de Bold são, em média, 30 centímetros mais longas que as dos seus adversários. Nos 100 metros rasos, ele deu apenas 41, ou seja, quatro a menos que a média.

Os velocistas empurram seus braços para frente. Bolt puxa os seus para cima como asas de uma ave de rapina alçando vôo. No final dos 200 metros,  ele olhou para o denso azul celeste. Os limites terrestres parecem ter perdido o interesse, ultrapassá-los é só uma questão de manter a inércia. Pequeno passo para Bolt, imenso salto para o esporte.

Atualização: Usain Bolt conquistou a terceira medalha de ouro no Mundial de Atletismo, desta vez com a equipe do revezamento 4 X 100 metros da Jamaica.

Por Antonio Ribeiro

 

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