Blogs e Colunistas

Itália

11/04/2013

às 13:16 \ Europa

O canal e a mancha

O inverno europeu persiste em ocupar período, por consenso científico concedido pelos ocidentais, próprio a primavera. Mas não é a apropriação meteorológica indevida a razão da semana atípica no Velho Continente. Faz tempo em que os dias não passam sem que a chanceler alemã Angela Merkel não seja acusada de responsável por alguma desventura do euro, a moeda comum de 17 países. Seguido de pedido que seus compatriotas paguem a conta. Desta vez, no entanto, as atenções concentraram-se no legado de Margaret Thatcher e no futuro de François Hollande.

Ainda que um e outro tenham confrontado problemas similares, poucos casais poderiam representar tão bem a antítese quanto a fenomenal diferença entre o francês e a inglesa. Nem mesmo a secular rivalidade entre os seus países, separados por bem mais que os 34 quilômetros na parte mais estreita do Canal da Mancha. E, certamente, mais profunda que os 174 metros de água fria e salgada.

Na longa linhagem de governantes, segundo preceitos da Revolução Francesa, o republicano Hollande lembra mais um monarca. A semelhança com a figura trágica de Louis XVI, o rei guilhotinado, honesto e bem intencionado, é notável. Hollande é a principal figura de uma aristocracia política. Independente da cor da bandeira. Tal qual no Antigo Regime, impacientes com a crise econômica e social, e sem que se aviste uma luz ao fundo do túnel, a maioria dos franceses não reconhece mais os privilégios dos seus eleitos como a contrapartida dos serviços prestados à sociedade.

Inegavelmente, Margaret Thatcher tinha mais ares de rainha que Elizabeth II. No entanto, a conservadora modernizou a sociedade inglesa como nenhum outro dito progressista fez em parte alguma no planeta. Estamos falando da Inglaterra dos anos 80. Um país que tinha mercado de trabalho mais engessado e dependente do diktat sindical que a França de 2013. Um ambiente político mais entravado que atual Itália. Uma monarquia, como poder moderador, menos respeitada que na Espanha hoje.

Não é por nada que mentes européias mais lúcidas clamam por mais thatcherismo do que buscam em Hollande, governante mais de promessas que promissor, como atalho para melhores tempos. Não é exatamente liberalismo que querem embora mal não faça para os tempos bicudos. Passivos como Hollande carburam extremismos e populismos. Desastrosos paliativos. Líderes como Thatcher provocam debates vibrantes. É aí, na fricção de energias, que emergem as soluções. Isso desde o Big Bang, a origem do universo

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Por Antonio Ribeiro

26/10/2012

às 12:50 \ Europa

Berlusconi é condenado a 4 anos de prisão por fraude fiscal

Silvio Berlusconi foi condenado pelo Tribunal Penal de Milão a quatro anos de prisão por fraude fiscal. O veredicto  impede o ex-presidente do Conselho da Itália de  se candidatar a cargo eletivo durante os próximos cinco anos. Berlusconi, de 76 anos de idade, vai recorrer da decisão de primeira instância. Na Itália, o processo penal deve passar por dois níveis para que a sentença seja considerada definitiva. Ao recorrer a condenação, Il Cavaliere ganha tempo para prescrição da pena e devido a sua idade, é muito pouco provável que passe um só dia na cadeia.

No caso conhecido como Mediaset, nome do grupo audiovisual e financeiro da família Berlusconi, Il Cavaliere está sob a acusação de aumento artificial do preço dos direitos de transmissão de filmes americanos. Os direitos teriam sido comprados por suas empresas de fachada no exterior não sujeitas a regulamentação italiana e, em seguida revendidas com preços superfaturados para Mediaset. O grupo Mediaset teria assim, simultaneamente, lucrado offshore e reduzido o seu faturamento na Itália para pagar menos impostos. Evasão e sonegação.

Segundo o procurador milanês Fabio De Pasquale os preços tiveram um superfaturamento de 368 milhões de dólares no período de 1994 a 1998 enquanto que entre 2001 e 2003 o montante teria sido de 40 milhões de euros. Outros 10 acusados no mesmo processo de Berlusconi foram condenados a pagar 10 milhões de euros como adiantamento ao fisco italiano. O braço direiro de Berlusconi, Fedele Confalonieri, presidente da Mediaset – reúne canais de TV, a editora Mondadori, a revista Panorama e empresas financeiras – foi absolvido. O processo, interrompido várias vezes em razão da lei que garantia imunidade parlamentar do ex-presidente do Conselho italiano, arrasta-se por seis anos.

Berlusconi ainda é réu em três processos na Itália. No caso Ruby (apelido da jovem marroquina Karima el Marough) no qual é acusado de incitação à prostituição de menores e abuso de poder, no caso Mills por corrupção em ato judicial e, finalmente, no caso Unipol por suspeita de revelar segredo profissional. Il Cavaliere já foi condenado três vezes em primeira instância em 1997 e 1998 que somavam um total de seis anos e cinco meses em regime fechado por corrupção, contas falsas e financiamento ilegal de partido político. Porém foi absolvido ou beneficiou da prescrição da pena.

Dois dias antes da condenação, Berlusconi anunciou que não iria mais liderar seu partido nas eleições legislativas de 2013 para substituir o governo Mario Monti. Magnânimo, Silvio disse em discurso floreado que havia chegado a vez dos jovens.

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O mercado é implacável, mas a paralisia política é fatal

Atualização: A condenação imposta pelo Tribunal Penal de Milão a Silvio Berlusconi por fraude fiscal no caso Mediaset  foi reduzida de quatro anos para apenas um ano. O ex-presidente do Conselho da Itália se beneficiou de uma lei de anistia promulgada em 2006 pela esquerda italiana para reduzir a superpopulação carcerária.

Por Antonio Ribeiro

05/09/2012

às 12:51 \ Europa

Super Mario aposta em jogo de arcada

Tudo indica que desta vez o dia será diferente. Pelo menos no que diz respeito à crise do euro. Na questão, são mais freqüente as conversas, da alta esfera ao baixo escalão, em sucessivas reuniões, sem resultados concretos. Não há exemplo mais eloquente no planeta de procrastinação camuflada por meias medidas sem efeito, salvo a de mostrar notável falta de coragem. Agora haverá fato determinante, para o bem ou mal, quando o presidente do Banco Central Europeu (BCE), o italiano Mario Draghi, anunciar um programa de compra de títulos do Tesouro para aliviar os dois grandes países da União Européia (UE) com mais dificuldade em financiar-se no mercado: a Espanha e a Itália.

O que isso significa? Em um primeiro momento, a medida levantou a suspeita de uma transgressão na regra do BCE que proíbe o financiamento direto dos 17 países que utilizam a moeda única européia. O “Super Mário”, apelido de Draghi, sustenta que devido a rápida expiração dos prazos, a compra de bônus soberanos com vencimento em dois ou três anos no mercado secundário é tão legítimo quanto lutar no Reino do Cogumelo contra o vilão Bowser para salvar a Princesa Peach, como acontece no videogame mais popular produzido pela Nitendo. É isso que confirmou ao Blog de Paris, Jean-Paul Gauzès, deputado francês da Comissão de Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento Europeu. Gauzés participou de uma reunião a portas fechadas com o presidente do BCE na qual foi abordado o assunto. Na semana passada, Draghi, em entrevista ao semanário alemão Die Zeit, não deixou dúvidas sobre a sua disposição de tomar “medidas excepcionais” para salvar o euro.

Embora o italiano conte com o apoio da chanceler Angela Merkel e do presidente François Hollande, representantes das duas principais economias da zona do euro, encontra forte resistência por parte dos dirigentes do Bundesbank, o Banco Central alemão. Eles prevêem que a medida audaciosa do BCE provocará o retorno da inflação.  E não só. A intervenção do BCE reduziria o estímulo para os países – de déficits colossais, desemprego massivo e crescimento anêmico – seguirem os rigorosos planos de consolidação orçamental e reformas estruturais que, em última instancia, é o que os salvará do colapso.

Depois de três anos da crise do euro – fundamentalmente um problema mais político do que financeiro ou monetário – o mercado aprendeu a desconfiar dos hesitantes governantes europeus. Quem poderia culpá-lo? O independente BCE com recursos para agir de forma efetiva transformou-se na última trincheira da credibilidade. O papel de guardião do euro prima sobre os interesses nacionais dos países membros.  Contudo, o BCE não tem capacidade para salvar sozinho o euro. O banco sediado em Frankfurt pode sim, ajudar as economias depauperadas a ganhar tempo. A ver se a ação do Super Mario vai neste sentido, se é a “bala de prata” ou se causará a perda de confiança no BCE. É uma aposta e tanto.

Atualização:  De fato o dia foi diferente em Frankfurt. Mario Draghi anunciou que o Banco Central Europeu irá comprar títulos soberanos de países dividados da zona do euro e cuja maturidade vai de um a três anos, “sem limite”. A taxa básica de juro da foi mantida em 0,75% ao ano. O BCE irá divulgar semanalmente o montante das compras. Super Mario pediu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que reforce as condições para efetivar a nova intervenção do BCE. As compras serão no entanto submetidas a uma “rigorosa condicionalidade”: os países que pretenderem beneficiar deverão pedir com a devida antecedência ajuda ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. O anúncio do BCE diminuiu os juros das dívidas. O mercado reagiu favoravelmente até agora.

Por Antonio Ribeiro

29/06/2012

às 18:59 \ Europa, Futebol

Camisa negra

A Itália levou para Eurocopa duas surpresas. Notáveis de imediato desde o rolar da bola na relva dos modernos estádios poloneses e ucranianos. A seleção famosa por melhor cumprir o catenaccio, o cadeado, a retranca total,  exibiu o inverso, o futebol ofensivo, possível devido ao maestro condutor, senhor absoluto do círculo central do campo, o volante inteligente e habilidoso Pirlo – faz lembrar o santista Clodoaldo na epopéia do tri.

A outra novidade feita em Palermo, na Sicília, a partir de cromossomos ganeses chama-se Mario Balotelli, de 21 anos de idade, o primeiro atacante negro da Azzurra. O jogador do time inglês Manchester City foi autor de dois gols responsáveis por colocar a sua Itália e país dos seus pais adotivos na final contra a Espanha garantindo vaga na Copa das Confederações de 2013, no Brasil. Ademais, eliminou a toda favorita Alemanha repleta de talentos, mas hesitante nos momentos decisivos.

Contudo, foi o “terceiro gol” de Balotelli o mais emblemático de todos. Aos 37 minutos do primeiro tempo, depois de estufar as redes com um petardo impulsionado pela perna direita na entrada da grande área, tirou a camisa e fez pose de Mister Universo. Alguns acharam que era mais uma típica excentricidade de Balotelli, passível de cartão amarelo. Mas o gesto foi para consumo interno. Perfeitamente entendido em casa, na Itália, onde um racismo arraigado entra em campo de forma insidiosa e intolerável.

A derme de Balotelli, a outra “camisa negra”, diferente da vestimenta dos simpatizantes do fascismo de Mussolini, poderá matricular-se na história do futebol europeu. Seria muito estabelecer parentesco próximo com os punhos cerrados dos atletas americanos Tommie Smith e John Carlos, nos Jogos Olímpicos de 1968, em favor do movimento Black Power e pelo respeito aos direitos individuais nos Estados Unidos. Porém, há esperança que a imagem da “camisa negra” de Balotelli venha contribuir para atenuar a discriminação, um passo a mais no longo processo.

O futebol italiano passa por situação análoga ao da Inglaterra nos anos 1970, onde era corriqueiro insultar jogadores de macacos e ver bananas sendo atiradas no gramado. Balotelli conhece a situação desde a infância. Ele cresceu em Brescia, cidade na região da Lombardia, reduto do xenófobo Partido da Liga Norte. Balotelli tem qualificações para ser um exemplo pioneiro contra a intolerância. No entanto, será seu desempenho esportivo que fortalecerá a nobreza da causa. Jesse Owens é exemplo eloquente.

Por Antonio Ribeiro

17/05/2012

às 17:21 \ França

Bonito

O novo presidente da França, François Hollande, fez bonito. Ele decretou uma redução de 30% no seu salário e de todos os seus ministros. Doravante, ao invés ganhar 21.300 euros brutos mensais, ele vai embolsar 14.910 euros. A remuneração é igual ao salário do seu primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault. Os ministros passam de 14.200 euros para 9.940 euros por mês. O contribuinte francês que paga impostos entre os mais elevados da Europa e em um país mergulhado na maior crise econômica-financeira desde a Segunda Guerra Mundial agradece. Merece até aplausos.

Merece mesmo? Vejamos. O novo salário do presidente francês é certamente inferior aos 17.016 euros mensais que a chanceler Angela Merkel recebe para governar a Alemanha, a maior economia do  Velho Continente, Mas o nova remureção de Hollande equivale ao salário de David Cameron, primeiro-ministro britânico – 14.800 euros mensais. Seria pedir muito para que Hollande fizesse como o Presidente do Conselho da Itália, Mario Monti. Entre as medidas anticrise, decidiu receber zero euro por mês. Afinal ninguém é de ferro. Todo trabalho deve ser remunerado.

O melhor vem agora. Hollande reduziu o salário dos seus ministros. Sucede que no inicio do governo anterior havia 15 ministérios e agora, sob administração socialista, são 34! Durante o governo do ex-primeiro-ministro francês François Fillon, a folha de pagamentos de seus ministros representava 383.400 euros mensais. Agora ela é de 337.900. Ou seja, um barulhão  para economizar 45.450 euros por mês. A equipe marqueteira que cuida da imagem do governo Hollande merecia os 45.450 euros.

Mas o que são 45.450 euros mensais de economia para o estado francês, o maior empregador do país? A França tem em torno de 7 milhões de funcionários públicos. Um em cada cinco franceses que faz parte da mão de obra ativa com jornada de trabalho de 35 horas semanais é pago pelo estado. Melhor dizendo, pelo contribuinte, pagador de impostos. Dinheiro do estado, convenhamos, no sentido estrido do termo, não existe. O Tribunal de Contas da França estima que cada funcionário custa ao longo da vida 3,5 milhões de euros. Faça a conta. Eu não dou conta, mas é o montante que o goveno francês deveria prestar contas. Na Grã-Bretanha serão 700.000 funcionários públicos a menos até 2014. Isso sim, é economia de país em crise. Os 45.450 mensais são pura de ma go gi a.

Por Antonio Ribeiro

09/11/2011

às 15:30 \ Economia

O mercado é implacável, mas a paralisia política é fatal

Durante anos os políticos italianos foram incapazes de mudar um governo que conduzia à Itália a bancarrota. Pior: a maioria foi cúmplice. Ficou por conta da bolsa de valores italiana sinalizar com altas e baixas no pregão milanês que a posição do bilionário Sílvio Berlusconi era insustentável e, finalmente, empurrar à força o Cavaliere em direção à porta de saída.

Mas o fundo da questão na Itália, apesar da anunciada partida de Berlusconi, continua o mesmo. O país, terceira maior economia da zona do euro, tem uma dívida pública colossal que aproxima-se de 2 trilhões de euros, a quarta maior do planeta. A taxa de desemprego é de 8,3%, entre os mais jovens, a face mais desesperadora da crise, o índice dobra. Em 2011, o crescimento econômico na península entre o Mediterrâneo e o Adriático foi 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB). Pífio.

Entretanto os mercados continuam convertendo o conto de fadas, parte da retórica desavergonhada da classe política, em realidade crua. A taxa de rendimento (yield) dos títulos italianos com vencimento em 10 anos, atingiu 7,25% ao ano. O triste recorde, desde a criação do euro,  lembra a Itália a sua situação real, a de devedora insolvente sem a ajuda externa, a exemplo do ocorrido com Grécia, Portugal e Irlanda.

Desta vez, não é o ocupante da Presidência do Conselho de Ministros da Itália que vai embora. Desenha-se no horizonte a perspectiva da saída italiana da zona do euro, acrescida do risco de arrastar outros países da periferia do Velho Continente. A eventualidade implicaria o fim do euro e, fatalmente, da União Européia. Uma tremenda lição da economia à paralisia dos políticos.

Mesmo assim, parece que os políticos ainda não aprenderam. Isso porque no fim do dia, se agirem de forma determinada, em concertação e rapidamente, ainda podem salvar a Itália. Em última instância, a sua pele. Coisa que Berlusconi não fez. Tampouco os chefes de estado fizeram quando tiveram a oportunidade na  recente reunião do G20 em Cannes, no sul da França.

O outro ensinamento dos mercados é que eles agem de forma coordenada e rápida, ainda que movidos por pavor de perda e ou euforia de ganho. Se houver erro de cálculo, a dinâmica seguinte, cedo ou tarde, leva à medida justa. Evidente que os governos não podem acompanhar as oscilações dos pregoes. Os interesses são outros. Contudo, agir como o paciente de doença grave que vê na procrastinação o melhor tratamento, tem conseqüências funestas.

Leia o post do Blog de Paris: “Destino do euro pendula entre berçários do ocidente: Roma e Atenas

Por Antonio Ribeiro

08/11/2011

às 8:02 \ Europa

Destino do euro pendula entre berçários do ocidente: Roma e Atenas

Os que vão morrer te saudam

Há seis semanas a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da França se deram exatamente este tempo para salvar o euro. E mostrar para os interessados que estavam determinados. Talvez a missão mais dramática desde que a moeda comum a 17 países do Velho Continente foi criada. O cronômetro parou com o fim da reunião de cúpula do G20, em Cannes, no sul da França. Salvaram o paciente? Não. Ele continua padecendo sem dar sinais de reação.

Acordo não se chegou se deveria adicionar um montante e se sim, de quanto, aos atuais 440 bilhões de euros do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF).  A desejada “porta corta-fogo” contra a crise econômica, a facilidade de caixa para ajudar os países europeus  atenuarem dívidas públicas e capitalizar bancos, aqueles que emprestaram e arriscam calote pesado. Funcionaria também para induzir confiança nos investidores: “podem ir que estamos armados de bazuca”.

Tampouco houve consenso de quanto e de como incrementar os cofres do Fundo Monetário Internacional (FMI). A idéia é criar uma reserva suplementar para dar uma mão externa aos europeus e a quem sofrer seus impactos. Falou-se em trilhão de euros, mas a questão ficou para ser equacionada pelos ministros das Finanças em reunião prevista para dezembro.

O que se assiste é o euro pendulando sua sorte entre os berçários da civilização ocidental: Roma e Grécia. Mais especificamente, nos braços de governos fracos e, se considerado a maneira em que lidam com a gravidade dos problemas, certamente têm comportamentos burlescos.

Na Grécia, a situação caminha para formação de governo de coalizão entre rivais fervorosos, os socialistas do Pasok e os conservadores da Nova Democracia, liderado pelo ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) Lucas Papademos. Isso para atender uma necessidade imediata. A de retificar acordo do 26 de outubro com a União Européia (UE) pelo qual a Grécia receberia a sexta parcela de 8 bilhões de euros do segundo empréstimo, a bagatela total de 130 bilhões de euros. O acordo implica, em contrapartida, rigorosas medidas de austeridade. Sem o socorro financeiro, a Grécia  não fecha as contas antes do Natal.

A formação do novo governo grego coloca provisoriamente termo à crise gerada pela sandice do primeiro-ministro socialista George Papandreou, a hipótese de organização de um referendo sobre o plano de resgate da Grécia, a ameaça de falência e a catastrófica saída da zona euro. Mas, para os gregos, os problemas continuam a ser os mesmos. A recessão, o desemprego de quase 20% e as reduções de salários vão continuar. O lenitivo momentâneo não coloca fim no fato do país helênico operar no vermelho sem, por enquanto, perspectiva de mudança de rota e por consequência não ver luz no fim do túnel.

Presente grego

Na Itália, a terceira maior economia da Europa o quadro é bem mais sombrio. A queda de Roma, desta vez, poderá arrastar toda a zona do euro para a débâcle. O país tem a quarta maior dívida pública  do planeta, quase 2 trilhões de euros, equivalente a 120% do Produto Interno Bruto italiano. Se a capacidade produtiva inteira do país se dedicasse exclusivamente para pagar a dívida, situação impraticável, nem assim conseguiria salda-la em 12 meses. É dinheiro que não acaba mais. As contas da Itália cuja a taxa de desemprego é de 8,3% e crescimento econômico de 0,6% em 2011, foram colocadas sob monitoramento de auditores do Fundo Monetário Internacional (FMI). A intrusão, rara na zona do euro, tenta provocar mais credibilidade nos investidores.

Em 2012,  a Itália terá que refinanciar uma parcela de 300 bilhões de dólares da dívida colossal. Ontem, o spread entre os títulos da dívida italiana de 10 anos e os alemães atingiu, desde a criação do euro, o patamar recorde de 475 pontos. Isso significa que para cada euro que a Itália tomar emprestado, terá que pagar 6,74% de juros. Os economistas sustentam 7% como a beira do precipício. Taxas de retorno sobre os títulos com níveis semelhantes levaram a Grécia, Irlanda e Portugal pedirem ajuda externa. Mas a Itália é too big to fall, grande demais para cair, e não há paramédico preparado para os primeiros socorros. Entretanto, os investidores vão se desfazendo rapidamente dos títulos italianos, temerosos que a falta de solidariedade dos europeus e medidas de última hora não irão salvar a Itália.

O ministro das Finanças da Itália, Giulio Tremonti e 7 entre 10 de seus compatriotas acham que grande parte do problema é o Presidente do Conselho, Silvio Berlusconi, 75 anos de idade. Il Cavaliere governa o país há 18 anos, um período tumultuado por acusações de abuso de poder, interrogatórios policiais, convocações pela Justiça, acusações de corrupção, enriquecimento ilícito, e escândalos sexuais com garotas de honorários elevados. Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, resume a situação com aguda precisão: “Falta confiança”.

Confiança é elemento crítico nos negócios e nas relações humanas, amorosas e de amizade. Houve tempos em que Giulio Andreotti – o democrata-cristão governou a Itália em três mandatos – chegava a uma reunião de cúpula dos países mais ricos e a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher levantava-se da cadeira para ir cumprimentá-lo com rara deferência. “Hoje, nos encontros de chefes de estado o casal Merkozy (contração de Merkel e Sarkozy) dá as costas a Berlusconi ou zombam dele”, diz um deputado italiano.

Ontem, quando os mercados ouviram boatos que Berlusconi cogitava renunciar, o efeito foi similar ao de um atleta que tomou anabolizante. A bolsa de valores italianas disparou a frente das suas vizinhas europeias. Aí, veio o desmentido de Berlusconi. O Presidente do Conselho escreveu no seu mural do Facebook: “Os rumores de minha renúncia são infundados”. E ameaçou:Quero ver a cara de quem vai me trair.” Gesto seguido, a bolsa voltou a cair, mas se estabilizou em um patamar inferiorm mantendo a esperança na evidência: a posição de Berlusconi é insustentável, se não a curto, mas certamente a médio prazo.

O Parlamento italiano reúne-se se hoje, 15h30 hora local (12h30 em Brasília) para aprovar ou não o orçamento. Caso as contas não forem retificadas, haverá moção de confiança ao governo. Embora Berlusconi já tenha sobrevivido a 53 votos de confiança, a situação agora é bem mais delicada com a pressão dos mercados apostando contra a Itália. A maioria parlamentar que sustenta governo é frágil. Dois deputados do Partido da Liberdade, a legenda de Berlusconi, já debandaram para oposição e seis outros manifestaram seu desagrado com o capo em carta aberta. A imprensa italiana afirma que há 20 abandonos nas fileiras do governo.

Berlusconi construiu sua popularidade e apoio político na base da cumplicidade. Sobretudo, distribuindo cargos no governo. Sua margem de manobra nestes tempos de austeridade é bem mais estreita. Poucos acreditam que o Presidente do Conselho será capaz de implementar as medidas prometidas para economizar de 54 bilhões de euros — reformas no sistema de aposentadorias, nas leis trabalhistas e privatizações.

A surpresa não será a saída de Berlusconi do governo, mas a sua permanência. Il Cavaliere, o homem mais rico da Itália com uma fortuna estimada em 6 bilhões de euros, não está em posição de pedir sacrifícios aos italianos, fato incontornável para afastar temporariamente a bancarrota. O mais provável é que a Itália tenha eleições em breve, a exemplo da Espanha.  Entretanto, o euro agoniza.

Arrivederci Roma

Atualização: Sílvio Berlusconi perdeu a maioria absoluta dos 316 deputados do plenário. O plano orçamentário foi aprovado por apenas 308 parlamentares. A oposição preferiu se abster. O fim do Presidente do Conselho está próximo. Berlusconi disse ao presidente italiano Giorgio Napolitano que vai renunciar uma vez que as medidas de austeridade e reformas recomendadas pela União Europeia forem votadas. A Lei de Estabilidade deve ser votada na próxima semana.

Por Antonio Ribeiro

07/11/2011

às 10:39 \ Europa

Berlusconi cogita renúncia

A Borsa Italiana SPA, a bolsa de valores da Itália com sede em Milão, reverteu a queda do inicio do pregão e passou à forte alta –  subia 2,35%, a 15.712 pontos, depois de ter caído mais de 2% . Pode parecer uma surpresa para o país que acaba de anunciar que suas contas doravante serão monitoradas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e a principal preocupação da sobrevivência do euro devido à dívida publica de 1,9 trilhão de euros, 120% do Produto Interno Bruto (PIB) italiano, cinco vezes superior que a da Grécia. Isso acontece porque surgiram boatos que o Silvio Berlusconi cogita renunciar em breve do cargo de Presidente do Conselho, o chefe do governo na Itália. Il Cavaliere está a frente do governo há tumultuados 18 meses com um índice de popularidade de apenas 22%. O seu mandato é de cinco anos.

“Silvio Berlusconi está perto de renunciar está agora claro para todos, é uma questão de horas; alguns dizem de minutos”, disse Giuliano Ferrara, editor do diário Il Foglio, amigo pessoal de Berlusconi e ex-ministro do seu governo. Outro jornalista, próximo a Berlusconi, Franco Bechis do jornal Libero, confirmou pelo Twitter que o Presidente do Conselho está na iminência de abandonar a chefia do governo.  “Hoje à noite ou amanhã de manhã”. Amanhã, os parlamentares italianos reúnem-se para para retificar as contas de 2010, um momento crítico.

O spread entre os títulos da dívida italiana de 10 anos e os alemães chegaram a quase 475 pontos, diferença bastante elevada.  Desde a criação do euro, moeda comum de  17 economias do Velho Continente, o recorde é de 490 pontos. A Itália é terceira maior economia da zona do euro, atrás da Alemanha e da França. A dívida do país, quarta maior do planeta, ultrapassa os atuais 440 bilhões de euros do Fundo Europeu de Estabilidade Financiera (FEEF).

Atualização: “Os rumores de minha renúncia são infundados”, escreveu Berlusconi em sua página no Facebook. E ameaçou:Vou enfrentar o voto de confiança, quero ver a cara de quem vai me trair.” A bolsa de valores italiana soube e gesto seguido, voltou a cair. E todas suas principais vizinhas européias fecharam os pregões em baixa. Em Londres, o índice Financial Times fechou em baixa de 0,3%, a 5.510 pontos. Em Frankfurt, o índice DAX caiu 0,63%, para 5.928 pontos. Em Paris, o índice CAC-40 perdeu 0,64%, a 3.103 pontos. Em Milão, o índice Ftse/Mib teve valorização de 1,32%, para 15.548 pontos. Em Madri, o índice Ibex-35 retrocedeu 1,4%, a 8.476 pontos. Em Lisboa, o índice PSI20 encerrou em alta de 0,21%, para 5.762 pontos.

Leia o post do Blog de Paris “Defesa do euro: a linha de frente agora é a Itália

Por Antonio Ribeiro

24/10/2011

às 21:25 \ Diplomacia

A última carta de Kadafi

A última carta de Kadafi foi escrita no dia 5 de agosto a Silvio Berlusconi, dezesseis dias antes dos combatentes rebeldes ocuparem Trípoli, a capital da Líbia.

Kadafi lembra ao Presidente do Conselho italiano o pacto de amizade selado entre os dois em 2008 – Berlusconi garantia investir cerca de 4 bilhões de euros durante 20 anos na Líbia e Kadafi, em contrapartida, fornecer petróleo, gás natural numa relação preferencial, além de impedir o fluxo de imigrantes líbios clandestinos para Itália. Na carta, o ditador libio, executado na semana passada, pede ao amigo que interceda junto aos seus aliados para cessar os bombardeios da Otan na Líbia. Leia a carta em seguida:

Querido Silvio.

Te envio esta carta por intermédio de seus compatriotas que vieram à Líbia trazer apoio em um momento difícil para o povo da Grande Jamahiriya*.

Fiquei surpreso com a atitude de um amigo com quem  selei um tratado de amizade favorável aos nossos dois povos. Esperava da sua parte, ao menos,  o interesse aos fatos e a tentativa de uma mediação antes de apoiar a guerra.

Não te culpo pelo que você não é responsável. Sei bem que você não é favorável a esta ação nefasta que não honra nem você nem o povo italiano. Mas creio que você ainda tem a possibilidade de fazer retroceder a situação e de fazer valer os interesses dos nossos povos.

Pare com estes bombardeios que matam nossos irmãos líbios e suas crianças. Fale com seus amigos e aliados para cessar esta agressão contra o meu país.

Espero que Alá todo poderoso possa te guiar no caminho da justiça.

Muamar Kadafi

Guia da Revolução

* Em 1977, Kadafi proclamou a “Jamahiriya”, que definiu como uma “República de Massas” governada por meio de comitês populares eleitos, e concedeu a si mesmo o título de “Guia da Revolução”.

Ao saber da morte de Kadafi, Berlusconi disse “Sic transit gloria mundi” A expressão latina significa literalmente “Assim passa a glória do mundo”. Ou, “as coisas mundanas são passageiras”.

Leia o post do Blog de Paris: “Governo que inicia com mentira não abandona a desfaçatez

Por Antonio Ribeiro

12/09/2010

às 7:27 \ França

Xenofobia na França

Editorial do jornal  Folha de São Paulo, edição do 12 de setembro de 2010, retoma ponto por ponto o que vem sendo escrito aqui neste blog, nas últimas semanas:

Xenofobia na França

Com a popularidade em queda devido a uma controvertida proposta de reforma da Previdência, a um escândalo de financiamento de campanha e à dificuldade de reerguer o país da crise econômica, o presidente Nicolas Sarkozy lançou mão de uma série de iniciativas populistas e xenófobas para ganhar apoio do cada vez mais conservador eleitorado francês.

De maneira ruidosa, o governo acelerou um processo de “expulsão voluntária” de ciganos – mediante pagamentos de 100 a 300  euros – após ligá-los a uma escalada de violência contra policiais.

Em projeto de lei a ser submetido à Assembleia Nacional no próximo dia 27 deste mês, Sarkozy proporá que estrangeiros naturalizados percam a cidadania francesa caso cometam crimes contra agentes da polícia.

Essas iniciativas se somam à lei, à espera da aprovação do Senado, que proibirá o uso em público da burca, a vestimenta islâmica que cobre o corpo das mulheres.

A ofensiva de Sarkozy encontra eco no eleitorado  – 79% dos franceses apoiam a expulsão dos ciganos e 80% concordam com a proposta de cassar a nacionalidade.

Indiferentes aos direitos dos estrangeiros que vivem no país, os franceses e seu governo se sensibilizam com a situação da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada a morrer por apedrejamento em sentença por ora suspensa. A primeira-dama Carla Bruni se manifestou contra a crueldade da pena imposta a Sakineh, mas seu “radicalismo chique” não foi ao ponto de levá-la a discordar das iniciativas xenófobas do marido.

A França não está só. A discriminação é plataforma de governo também na Itália, onde o premiê Silvio Berlusconi promove leis para criminalizar a imigração ilegal, e na Suíça, que proibiu a construção de minaretes islâmicos.

A história já mostrou que a exploração populista do nacionalismo xenófobo pode trazer consequências desastrosas para os países que trilham esse caminho.

Leia os posts do Blog de Paris: “E os ciganos, madame?” , “Pobres entre os pobres“, “Ovelhas Negras“, “Uróboros, ” ‘Chega!‘ “, “Ciganos:  Nicolas Sarkozy troca farpas com Durão Barroso

Por Antonio Ribeiro
 

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