Blogs e Colunistas

Itália

09/11/2011

às 15:30 \ Economia

O mercado é implacável, mas a paralisia política é fatal

Durante anos os políticos italianos foram incapazes de mudar um governo que conduzia à Itália a bancarrota. Pior: a maioria foi cúmplice. Ficou por conta da bolsa de valores italiana sinalizar com altas e baixas no pregão milanês que a posição do bilionário Sílvio Berlusconi era insustentável e, finalmente, empurrar à força o Cavaliere em direção à porta de saída.

Mas o fundo da questão na Itália, apesar da anunciada partida de Berlusconi, continua o mesmo. O país, terceira maior economia da zona do euro, tem uma dívida pública colossal que aproxima-se de 2 trilhões de euros, a quarta maior do planeta. A taxa de desemprego é de 8,3%, entre os mais jovens, a face mais desesperadora da crise, o índice dobra. Em 2011, o crescimento econômico na península entre o Mediterrâneo e o Adriático foi 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB). Pífio.

Entretanto os mercados continuam convertendo o conto de fadas, parte da retórica desavergonhada da classe política, em realidade crua. A taxa de rendimento (yield) dos títulos italianos com vencimento em 10 anos, atingiu 7,25% ao ano. O triste recorde, desde a criação do euro,  lembra a Itália a sua situação real, a de devedora insolvente sem a ajuda externa, a exemplo do ocorrido com Grécia, Portugal e Irlanda.

Desta vez, não é o ocupante da Presidência do Conselho de Ministros da Itália que vai embora. Desenha-se no horizonte a perspectiva da saída italiana da zona do euro, acrescida do risco de arrastar outros países da periferia do Velho Continente. A eventualidade implicaria o fim do euro e, fatalmente, da União Européia. Uma tremenda lição da economia à paralisia dos políticos.

Mesmo assim, parece que os políticos ainda não aprenderam. Isso porque no fim do dia, se agirem de forma determinada, em concertação e rapidamente, ainda podem salvar a Itália. Em última instância, a sua pele. Coisa que Berlusconi não fez. Tampouco os chefes de estado fizeram quando tiveram a oportunidade na  recente reunião do G20 em Cannes, no sul da França.

O outro ensinamento dos mercados é que eles agem de forma coordenada e rápida, ainda que movidos por pavor de perda e ou euforia de ganho. Se houver erro de cálculo, a dinâmica seguinte, cedo ou tarde, leva à medida justa. Evidente que os governos não podem acompanhar as oscilações dos pregoes. Os interesses são outros. Contudo, agir como o paciente de doença grave que vê na procrastinação o melhor tratamento, tem conseqüências funestas.

Leia o post do Blog de Paris: “Destino do euro pendula entre berçários do ocidente: Roma e Atenas

Por Antonio Ribeiro

08/11/2011

às 8:02 \ Europa

Destino do euro pendula entre berçários do ocidente: Roma e Atenas

Os que vão morrer te saudam

Há seis semanas a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da França se deram exatamente este tempo para salvar o euro. E mostrar para os interessados que estavam determinados. Talvez a missão mais dramática desde que a moeda comum a 17 países do Velho Continente foi criada. O cronômetro parou com o fim da reunião de cúpula do G20, em Cannes, no sul da França. Salvaram o paciente? Não. Ele continua padecendo sem dar sinais de reação.

Acordo não se chegou se deveria adicionar um montante e se sim, de quanto, aos atuais 440 bilhões de euros do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF).  A desejada “porta corta-fogo” contra a crise econômica, a facilidade de caixa para ajudar os países europeus  atenuarem dívidas públicas e capitalizar bancos, aqueles que emprestaram e arriscam calote pesado. Funcionaria também para induzir confiança nos investidores: “podem ir que estamos armados de bazuca”.

Tampouco houve consenso de quanto e de como incrementar os cofres do Fundo Monetário Internacional (FMI). A idéia é criar uma reserva suplementar para dar uma mão externa aos europeus e a quem sofrer seus impactos. Falou-se em trilhão de euros, mas a questão ficou para ser equacionada pelos ministros das Finanças em reunião prevista para dezembro.

O que se assiste é o euro pendulando sua sorte entre os berçários da civilização ocidental: Roma e Grécia. Mais especificamente, nos braços de governos fracos e, se considerado a maneira em que lidam com a gravidade dos problemas, certamente têm comportamentos burlescos.

Na Grécia, a situação caminha para formação de governo de coalizão entre rivais fervorosos, os socialistas do Pasok e os conservadores da Nova Democracia, liderado pelo ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) Lucas Papademos. Isso para atender uma necessidade imediata. A de retificar acordo do 26 de outubro com a União Européia (UE) pelo qual a Grécia receberia a sexta parcela de 8 bilhões de euros do segundo empréstimo, a bagatela total de 130 bilhões de euros. O acordo implica, em contrapartida, rigorosas medidas de austeridade. Sem o socorro financeiro, a Grécia  não fecha as contas antes do Natal.

A formação do novo governo grego coloca provisoriamente termo à crise gerada pela sandice do primeiro-ministro socialista George Papandreou, a hipótese de organização de um referendo sobre o plano de resgate da Grécia, a ameaça de falência e a catastrófica saída da zona euro. Mas, para os gregos, os problemas continuam a ser os mesmos. A recessão, o desemprego de quase 20% e as reduções de salários vão continuar. O lenitivo momentâneo não coloca fim no fato do país helênico operar no vermelho sem, por enquanto, perspectiva de mudança de rota e por consequência não ver luz no fim do túnel.

Presente grego

Na Itália, a terceira maior economia da Europa o quadro é bem mais sombrio. A queda de Roma, desta vez, poderá arrastar toda a zona do euro para a débâcle. O país tem a quarta maior dívida pública  do planeta, quase 2 trilhões de euros, equivalente a 120% do Produto Interno Bruto italiano. Se a capacidade produtiva inteira do país se dedicasse exclusivamente para pagar a dívida, situação impraticável, nem assim conseguiria salda-la em 12 meses. É dinheiro que não acaba mais. As contas da Itália cuja a taxa de desemprego é de 8,3% e crescimento econômico de 0,6% em 2011, foram colocadas sob monitoramento de auditores do Fundo Monetário Internacional (FMI). A intrusão, rara na zona do euro, tenta provocar mais credibilidade nos investidores.

Em 2012,  a Itália terá que refinanciar uma parcela de 300 bilhões de dólares da dívida colossal. Ontem, o spread entre os títulos da dívida italiana de 10 anos e os alemães atingiu, desde a criação do euro, o patamar recorde de 475 pontos. Isso significa que para cada euro que a Itália tomar emprestado, terá que pagar 6,74% de juros. Os economistas sustentam 7% como a beira do precipício. Taxas de retorno sobre os títulos com níveis semelhantes levaram a Grécia, Irlanda e Portugal pedirem ajuda externa. Mas a Itália é too big to fall, grande demais para cair, e não há paramédico preparado para os primeiros socorros. Entretanto, os investidores vão se desfazendo rapidamente dos títulos italianos, temerosos que a falta de solidariedade dos europeus e medidas de última hora não irão salvar a Itália.

O ministro das Finanças da Itália, Giulio Tremonti e 7 entre 10 de seus compatriotas acham que grande parte do problema é o Presidente do Conselho, Silvio Berlusconi, 75 anos de idade. Il Cavaliere governa o país há 18 anos, um período tumultuado por acusações de abuso de poder, interrogatórios policiais, convocações pela Justiça, acusações de corrupção, enriquecimento ilícito, e escândalos sexuais com garotas de honorários elevados. Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, resume a situação com aguda precisão: “Falta confiança”.

Confiança é elemento crítico nos negócios e nas relações humanas, amorosas e de amizade. Houve tempos em que Giulio Andreotti – o democrata-cristão governou a Itália em três mandatos – chegava a uma reunião de cúpula dos países mais ricos e a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher levantava-se da cadeira para ir cumprimentá-lo com rara deferência. “Hoje, nos encontros de chefes de estado o casal Merkozy (contração de Merkel e Sarkozy) dá as costas a Berlusconi ou zombam dele”, diz um deputado italiano.

Ontem, quando os mercados ouviram boatos que Berlusconi cogitava renunciar, o efeito foi similar ao de um atleta que tomou anabolizante. A bolsa de valores italianas disparou a frente das suas vizinhas europeias. Aí, veio o desmentido de Berlusconi. O Presidente do Conselho escreveu no seu mural do Facebook: “Os rumores de minha renúncia são infundados”. E ameaçou:Quero ver a cara de quem vai me trair.” Gesto seguido, a bolsa voltou a cair, mas se estabilizou em um patamar inferiorm mantendo a esperança na evidência: a posição de Berlusconi é insustentável, se não a curto, mas certamente a médio prazo.

O Parlamento italiano reúne-se se hoje, 15h30 hora local (12h30 em Brasília) para aprovar ou não o orçamento. Caso as contas não forem retificadas, haverá moção de confiança ao governo. Embora Berlusconi já tenha sobrevivido a 53 votos de confiança, a situação agora é bem mais delicada com a pressão dos mercados apostando contra a Itália. A maioria parlamentar que sustenta governo é frágil. Dois deputados do Partido da Liberdade, a legenda de Berlusconi, já debandaram para oposição e seis outros manifestaram seu desagrado com o capo em carta aberta. A imprensa italiana afirma que há 20 abandonos nas fileiras do governo.

Berlusconi construiu sua popularidade e apoio político na base da cumplicidade. Sobretudo, distribuindo cargos no governo. Sua margem de manobra nestes tempos de austeridade é bem mais estreita. Poucos acreditam que o Presidente do Conselho será capaz de implementar as medidas prometidas para economizar de 54 bilhões de euros — reformas no sistema de aposentadorias, nas leis trabalhistas e privatizações.

A surpresa não será a saída de Berlusconi do governo, mas a sua permanência. Il Cavaliere, o homem mais rico da Itália com uma fortuna estimada em 6 bilhões de euros, não está em posição de pedir sacrifícios aos italianos, fato incontornável para afastar temporariamente a bancarrota. O mais provável é que a Itália tenha eleições em breve, a exemplo da Espanha.  Entretanto, o euro agoniza.

Arrivederci Roma

Atualização: Sílvio Berlusconi perdeu a maioria absoluta dos 316 deputados do plenário. O plano orçamentário foi aprovado por apenas 308 parlamentares. A oposição preferiu se abster. O fim do Presidente do Conselho está próximo. Berlusconi disse ao presidente italiano Giorgio Napolitano que vai renunciar uma vez que as medidas de austeridade e reformas recomendadas pela União Europeia forem votadas. A Lei de Estabilidade deve ser votada na próxima semana.

Por Antonio Ribeiro

07/11/2011

às 10:39 \ Europa

Berlusconi cogita renúncia

A Borsa Italiana SPA, a bolsa de valores da Itália com sede em Milão, reverteu a queda do inicio do pregão e passou à forte alta –  subia 2,35%, a 15.712 pontos, depois de ter caído mais de 2% . Pode parecer uma surpresa para o país que acaba de anunciar que suas contas doravante serão monitoradas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e a principal preocupação da sobrevivência do euro devido à dívida publica de 1,9 trilhão de euros, 120% do Produto Interno Bruto (PIB) italiano, cinco vezes superior que a da Grécia. Isso acontece porque surgiram boatos que o Silvio Berlusconi cogita renunciar em breve do cargo de Presidente do Conselho, o chefe do governo na Itália. Il Cavaliere está a frente do governo há tumultuados 18 meses com um índice de popularidade de apenas 22%. O seu mandato é de cinco anos.

“Silvio Berlusconi está perto de renunciar está agora claro para todos, é uma questão de horas; alguns dizem de minutos”, disse Giuliano Ferrara, editor do diário Il Foglio, amigo pessoal de Berlusconi e ex-ministro do seu governo. Outro jornalista, próximo a Berlusconi, Franco Bechis do jornal Libero, confirmou pelo Twitter que o Presidente do Conselho está na iminência de abandonar a chefia do governo.  “Hoje à noite ou amanhã de manhã”. Amanhã, os parlamentares italianos reúnem-se para para retificar as contas de 2010, um momento crítico.

O spread entre os títulos da dívida italiana de 10 anos e os alemães chegaram a quase 475 pontos, diferença bastante elevada.  Desde a criação do euro, moeda comum de  17 economias do Velho Continente, o recorde é de 490 pontos. A Itália é terceira maior economia da zona do euro, atrás da Alemanha e da França. A dívida do país, quarta maior do planeta, ultrapassa os atuais 440 bilhões de euros do Fundo Europeu de Estabilidade Financiera (FEEF).

Atualização: “Os rumores de minha renúncia são infundados”, escreveu Berlusconi em sua página no Facebook. E ameaçou:Vou enfrentar o voto de confiança, quero ver a cara de quem vai me trair.” A bolsa de valores italiana soube e gesto seguido, voltou a cair. E todas suas principais vizinhas européias fecharam os pregões em baixa. Em Londres, o índice Financial Times fechou em baixa de 0,3%, a 5.510 pontos. Em Frankfurt, o índice DAX caiu 0,63%, para 5.928 pontos. Em Paris, o índice CAC-40 perdeu 0,64%, a 3.103 pontos. Em Milão, o índice Ftse/Mib teve valorização de 1,32%, para 15.548 pontos. Em Madri, o índice Ibex-35 retrocedeu 1,4%, a 8.476 pontos. Em Lisboa, o índice PSI20 encerrou em alta de 0,21%, para 5.762 pontos.

Leia o post do Blog de Paris “Defesa do euro: a linha de frente agora é a Itália

Por Antonio Ribeiro

24/10/2011

às 21:25 \ Diplomacia

A última carta de Kadafi

A última carta de Kadafi foi escrita no dia 5 de agosto a Silvio Berlusconi, dezesseis dias antes dos combatentes rebeldes ocuparem Trípoli, a capital da Líbia.

Kadafi lembra ao Presidente do Conselho italiano o pacto de amizade selado entre os dois em 2008 – Berlusconi garantia investir cerca de 4 bilhões de euros durante 20 anos na Líbia e Kadafi, em contrapartida, fornecer petróleo, gás natural numa relação preferencial, além de impedir o fluxo de imigrantes líbios clandestinos para Itália. Na carta, o ditador libio, executado na semana passada, pede ao amigo que interceda junto aos seus aliados para cessar os bombardeios da Otan na Líbia. Leia a carta em seguida:

Querido Silvio.

Te envio esta carta por intermédio de seus compatriotas que vieram à Líbia trazer apoio em um momento difícil para o povo da Grande Jamahiriya*.

Fiquei surpreso com a atitude de um amigo com quem  selei um tratado de amizade favorável aos nossos dois povos. Esperava da sua parte, ao menos,  o interesse aos fatos e a tentativa de uma mediação antes de apoiar a guerra.

Não te culpo pelo que você não é responsável. Sei bem que você não é favorável a esta ação nefasta que não honra nem você nem o povo italiano. Mas creio que você ainda tem a possibilidade de fazer retroceder a situação e de fazer valer os interesses dos nossos povos.

Pare com estes bombardeios que matam nossos irmãos líbios e suas crianças. Fale com seus amigos e aliados para cessar esta agressão contra o meu país.

Espero que Alá todo poderoso possa te guiar no caminho da justiça.

Muamar Kadafi

Guia da Revolução

* Em 1977, Kadafi proclamou a “Jamahiriya”, que definiu como uma “República de Massas” governada por meio de comitês populares eleitos, e concedeu a si mesmo o título de “Guia da Revolução”.

Ao saber da morte de Kadafi, Berlusconi disse “Sic transit gloria mundi” A expressão latina significa literalmente “Assim passa a glória do mundo”. Ou, “as coisas mundanas são passageiras”.

Leia o post do Blog de Paris: “Governo que inicia com mentira não abandona a desfaçatez

Por Antonio Ribeiro

21/09/2009

às 14:29 \ Europa

Martin comove a Itália

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Durante funeral na basílica romana de São Paulo, o menino Martin, de 7 anos, toca gentilmente no caixão do pai, o capitão Antonio Fortunato, um dos seis soldados mortos no atentado terrorista suicida, em um mercado de Cabul, o mais mortífero sofrido pelo contingente italiano. As mortes reacenderam o debate no país sobre a presença militar italiana. Nos últimos 8 anos, a Itália enviou 2.800 soldados para conflito no Afeganistão e adicionou mais 500 durante a recente eleição presidencial.

Por Antonio Ribeiro

01/08/2009

às 4:29 \ Veja

A Cielo o que é de César

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3x8k6rciy2O brazuca de ouro César Cielo Filho entrou para o Olímpo do esporte quebrando o recorde da prova mais nobre da natação. Ele é a capa de VEJA desta semana. Personagem central de uma primorosa reportagem que contextualiza  o esporte na história, na ciência e na tecnologia. Não podia ser diferente. O texto leva a assinatura de Fábio Altman, veterano em coberturas dos Jogos Olímpicos, Copas do Mundo e de tantos desafios nem sempre esportivos. Fabinho, Fabião, o Fabius, dos tempos em que foi correspondente da revista em Paris, está de volta à redação de VEJA. Retornou com o pé direito, embora tenha confidenciado ao amigo: “Não sei nem mais onde é o banheiro aqui.” A arquitetura das revistas obedecem a geometria variável – a editoria de Geral, como era chamada nos tempos que Fabio a comandou, tem hoje dezenas de subdivisões. A forma olímpica de Altman, no entanto, continua intacta. A prova está nas páginas.

Por Antonio Ribeiro

31/07/2009

às 15:19 \ Esporte

Só um número interessa: 46s91

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L’Equipe, o jornal do esporte e do automobilismo  — o diário francês considera a corrida sob quatro rodas, uma modalidade à parte — estampou na sua edição de hoje, o título Tão bonito, tão triste. A foto de alto a baixo da primeira página explica o sentimento duplo — ao menos para a França. César Cielo aparece no centro da imagem, ligeiramente acima de dois nadadores franceses, Alain Bernard e Fréderick Bousquet. É um pódio histórico e inédito — ao menos para o Brasil.

César quebrou o recorde mundial dos 100 metros livres, a prova mais nobre da natação, Fez com o tempo de 46s91. Largos 20 metros à frente de Johnny Weismuller, recordista em 1922, o mais famoso interprete de Tarzan. Oooooh verde amarelo? Sim. Mas só justificaria o buuuuá dos franceses se a prova tivesse acontecido nos tempos dos filmes em preto e branco. Faltou 44,50 centímetros para o dedo médio de Alain Bernard tocar na parede da piscina ao mesmo tempo que César Cielo. A diferença lembra as humilhações do velocista Usain Bolt nos 100 metros rasos. Se o francês, recordista em 2009, tivesse repetido seu melhor tempo, teria terminado a prova apenas à 6 centímetros atrás de César Cielo, uma distância 7,5 menor do que a registrada.

Como foi que isso aconteceu? Para contar a história completa, teríamos que voltar ao Big Bang de César. Quer dizer, a complicada gestação de Flávia Cielo, mãe do nadador de Santa Bárbara do Oeste, cidade do interior de São Paulo. A versão curta.começou quinta-feira, 31 de julho, na piscina do Foro Itálico, em Roma. E começou mal. Aqui bem e mal medem-se em milímetros, em centésimos. O microscópio seria melhor do que a telinha da TV para acompanhar a disputa entre os nadadores.

Bernard ganhou entre 10 e 15 centésimos sobre César quando bateu na água, ainda que o salto do brasileiro foi bem melhor do que o de costume. Nos primeiros 25 metros de “nado limpo”, no jargão da natação, o francês e o brasileiro foram em velocidade demente. É neste ponto que Cielo, especialista nos 50 metros livres, coloca dianteira definitiva que conduz suas vitórias acachapantes. Bernard se afobou para seguir o ritmo de César. Perdeu a cadência das braçadas. Em termos musicais, diría-se, o francês “desafinou”. Nos 30 metros, normalmente, César baixa o ritmo. Desta feita, ele se corrigiu, continou firme na mesma cadencia. Atenção. Nem através de TV de alta definição é possível perceber estas filigranas. A natação não é esporte que faz bom casamento com a telinha. É a soma de informações distintas, vídeo, audio, cronômetro e narrador que possibilita o telespectador enfronhar-se na disputa.

Bernard chegou aos 50 metros, fez sua virada cravando o tempo de 22s22, na primeira metade da prova. O brasileiro já estava 5 centésimos à frente. Nos últimos 50 metros, o francês começou a tirar o atraso. Na cabine de TV a cabo brasileira, o medalha de prata Gustavo Borges, doravante excelente comentarista, fez careta. Ele viu o que nós, só acompanhamos. “Se a prova tivesse um metro a mais, eu teria ganho”, disse Alain Bernard que teve velocidade media de 7,64 km/h enquanto César, singrou a piscina em 7,67 km/h. Pode ser,  cher Alain, mas ela tinha regulamentares 100 metros. A César o que é de César.

Por Antonio Ribeiro

06/04/2009

às 16:55 \ Europa

O temor de ser o primeiro de uma série

Aconteceu novamente e não será a última vez. A península itálica, famosa por suas erupções vulcânicas, foi sacudida por mais um terremoto. Pouco do que emana daquela  bela região está livre de controvérsia, uma das razões da sua originalidade. O Instituto Nacional de Geofísica diz que o forte tremor atingiu 5,8 graus na escala Richer. Já o Instituto de Geofísica dos EUA aponta para 6,3 graus. Enquanto estas linhas são escritas, foram contabilizados mais de 150 mortos e 1.500 feridos.  Mais de 50.000 pessoas estão desabrigadas nos pitorescos vilarejos medievais das montanhas de Abruzzo, 50 quilômetros a leste de Roma. “Eu gostaria de dizer que a lista é definitiva, mas não é o caso, ela irá aumentar” , disse o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que decretou estado de emergência nacional.

Os terremotos são freqüentes na Itália porque a região tem uma geologia complexa, propícia a atividade sísmica. Trata-se de ponto de encontro, no sentido norte sul, entre a placa tectônica eurasica e a placa africana. E não só. No sentido leste-oeste, existe a falha alpina  A preocupação atual é do tremor, o pior da última década, ser o primeiro de uma seqüência, como ocorreu em 1997, na região de Umbria-Marche, 85 quilômetros de L’Aquila, com uma população de 68.000 habitantes, o epicentro do terremoto que aconteceu na madrugada de ontem quando a maioria dormia.

Terremotos em sequência acontecem devido a chegada da onda de choque nas placas tectônica adjacentes o epicentro. Estima-se que 40% da população da Itália vive em zonas de risco de terremotos — o maior deles aconteceu em 1908, atingindo 7,2 na escala Richter, em Messina, na Sicília, causando 70.000 mortos.

Gioacchino Giuliani, técnico do laboratório de Gran Sasso do Instituto Nacional de Física Nuclear da Itália, clama por pedido de desculpas das autoridades da Proteção Civil. Ele afirma ter previsto no dia 24 de março o terremoto pelo seu método experimental da concentração do radônio, um gás nobre utilizado nos sismógrafos. No entanto, especialistas dizem que a mudança no nível do radônio não precede todos terremotos.  O método não pode ser usado como alerta a população devido sua imprecisão. Há um consenso entre os sismólogos que previsão do dia e hora dos terremotos é, por enquanto, uma ciência inexata.

Por Antonio Ribeiro

26/01/2009

às 23:43 \ Brasil-França

Parole, parole, parole


Fabio Fazio, jornalista da RAI: Gostaria de fazer uma pergunta muito sensivel sobre um assunto recente, uma ferida aberta na Itália. A extradição frustrada do ex-terrorista Cesare Battisti. Dizem que você influenciou a recusa do Brasil na extradição.

Carla Buni: Estou contente por me perguntar sobre o assunto. Eu não tive papel nenhum, absolutamente nenhum. Isso é um assunto do governo brasileiro. Estou muito surpresa de que a impprensa italiana possa pensar que influenciei a recusa. A não extradição ou a extradição de Battisti é uma responsabilidade do governo brasileiro. Eu não me permitiria jamais, não é minha ideologia, nunca quis defender Battisti. Nem me vem à cabeça tal tipo de coisa. Fico contente de poder te dizer, aos italianos e às vítimas do terrorismo dos Anos de Chumbo. Nunca fiz, não o farei jamais.  Além do mais, é muito deplace (fora do lugar), como se diz na França. Jamais a mulher de um presidente da República poderia ir falar com o presidente brasileiro sobre um assunto que não diz respeito nem à França. Eu achei quase… Para mim foi uma calúnia.  Realmente, uma calúnia. Estou contente de poder desmentir com minhas proprias palavras. Não o fiz jamais, jamais tive a intenção de fazer. Não sei de onde vem esta… Sim, não se explica de onde vem esta suposição…. Não explica o fato. Talvez venha da viagem oficial que meu marido fez ao Brasil, mas devo dizer que esta decisão é uma decisão brasileira, o Brasil é um país imenso que toma suas próprias decisões.

Comentário:

Carla diz 2 vezes que esta contente com a pergunta.

Carla diz 2 vezes que esta contente em desmentir a acusção.

Há margem para supor que Carla sabia, antecipadamente, que seria perguntada sobre seu papel na recusa da extradição. Ou mesmo que possa ter havido um arranjo antes da entrevista. Isto pelo número de vezes que ela diz estar contente, seja com a pergunta e seja com a oportunidade de desmentir, o que no fundo dá no mesmo. Ou seja, Bruni disse 4 vezes a mesma coisa.

Carla diz 3 vezes que não influenciou a recusa de extradição.

Carla diz 3 vezes que a decisão coube, exclusivamente, ao Brasil

Resta pouca dúvida que Carla Bruni foi municiada antes de responder. A insistêcia da primeira-dama da França reafirmar que decisão foi soberana, exclusivamente do Brasil, revela cautela para evitar incidente com o Brasil. Tipicamente um receio diplomático. Neste particular, Bruni disse 6 vezes a mesma coisa.

A fala da primeira-dama lembra muito o discurso de Sarkozy em situações análogas.

A uníca parte da resposta em que a primeira-dama parece mais próxima da espontanedade é quando ela se dirige diretamente às vitimas do terrorismo da extrema esquerda na Itália, durante os Anos de Chumbo. Ela conhece isso de perto.

O vídeo da entrevista (em italiano) está aqui. Tire suas próprias conclusões. A resposta em questão está depois do 9º minuto do vídeo.

Escute aqui a inesquecível canção italiana Parole, parole, parole

Por Antonio Ribeiro

26/01/2009

às 13:41 \ Terrorismo

Carla Bruni nega ter ajudado o terrorista


Carla Bruni-Sarkozy, primeira-dama da França de origem italiana, negou ter usado sua influência junto ao governo brasileiro para a obtenção de asilo político, impedindo a extradição de Cesare Battisti para Itália. Em 1988, o terrorista Battisti, um dos líderes do grupo extremista italiano Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), foi condenado à prisão perpétua pelo Tribunal de Justiça de Milão. Trata-se do resultado dos julgamentos de 4 homicídios: o do agente penitenciário Antonio Santoro, Pierluigi Torregiani, Lino Sabbadin e Andrea Campagna. O Tribunal de Recursos de Milão, confirmou as condenações e a Corte de Cassação, última instância do Poder Judiciário italiano, ratificou três delas. Em 1993, o Tribunal de Recursos confirmou a condenação no caso de Torregiani, anulada por problemas formais. Battisti está foragido da Itália desde 1981.

O terrorista viveu na França, onde em 2004 a Corte de Cassação acatou o pedido italiano de extradição. Desde 2004, Battisti esconde-se no Brasil. Recentemente, ele ajuda o país a perpetuar uma triste condição: o refúgio com chancela oficial de condenados. A lista de criminosos que beneficiaram da leniência da Justiça brasileira figura, só para ficar nos mais famosos, o maior ladrão inglês, Ronald Biggs, o ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner, o homicida com fins terroristas das FARC, Olivério Medina. Acometido de atavismo jurídico bizarro, o Brasil foi escolha sem hesitação do diretor Alfred Hitchcock para enviar o aristocrático fugitivo da justiça Alex Sebastian, personagem interpretado por Claude Rains no filme Interlúdio (Notorious, 1946).

Entrevistada no programa ‘Che Tempo que fa”, do canal italiano RAI, sobre sua participação no asilo político concedido a Bastisti, Carla Bruni foi categórica: “ Eu não tive papel nenhum, absolutamente nenhum, isso é um assunto do governo brasileiro.” A mulher de Sarkozy adicionou: “Eu não me permito jamais, não é minha ideologia, nunca quis defender Battisti, nem me vem a cabeça tal coisa, fico contente de responder à pergunta e dizer aos parentes e amigos das vítimas nos Anos de Chumbo.” No início de janeiro, o jornal italiano La Stampa noticiou que Carla aproveitou suas férias junto com Sarkozy, no Brasil, para pedir clemência por Battistti a Lula. “Estou muito surpresa que a imprensa italiana possa pensar que eu tive um papel na recusa de extradição, imaginar que a mulher de um presidente possa falar de assunto deste tipo com o chefe de outro estado é uma calúnia.”

Um comunicado do Domus Civitas, associação italiana de vítimas do terrorismo, afirmou também que Carla Bruni intercedeu pessoalmente junto à Lula para recomendar a recusa da extradição.

Por Antonio Ribeiro


 

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