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Hamas

07/06/2010

às 12:00 \ Oriente Médio

Quando ajuda humanitária não é bem isso

Desde a intervenção de quinze comandos da Shayetet, da Marinha israelense, no navio Mavi Marmara, de bandeira turca, causando mortes de nove civis entre os 581 a bordo, há um  tsunami de indignações e condenações no planeta. Algumas são sinceras, embasadas no conceito de que cabe à democracia tratar os suspeitos de ameaçar sua segurança interior com métodos opostos aos que ela critica. Outras reações histéricas, no entanto, são o reflexo de oportunismo que surge de tempos em tempos, quando Israel é autor de atos truculentos, como foi o caso desta vez. Estas últimas, não tem a mesma amplitude e eloquencia quando Israel sofre frequentes atos terroristas. Nestes momentos, ela se cala.

A ação tem sido confundida amiúde com a disputada justeza do bloqueio (de armas e material para fabricá-las) que Israel (e Egito) impõe a volta e no espaço aéreo da Faixa de Gaza. Medida militar justificada como preventiva pelo governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Desde a desocupação de Gaza em 2005, partiram de lá em direção a Israel, mais de 7.000 foguetes patrocinados pelo Hamas, o grupo terrorista islâmico apoiado pelo Irã, senhor do território mediterrâneo de 40 quilômetros de comprimento por 11 de largura onde vivem uma das maiores densidades populacionais do planeta, 1,5 milhão de pessoas. A história do conflito israelo-palestino é mestra em apontar como atalho mais curto para o engano, as reações precipitadas e intempestivas onde se elege, sem ponderação, o bandido e o mocinho. Elas servem também para carburar  conflito que não carece de incentivo, devido ao entusiasmo dos beligerantes em perpetuar a estultice que a audiência planetaria já está há muito entediada.

Um dado permanente no conflito entre areias do Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo, em uma convivência incontornável, é o excesso. O teste frequente para descobrir o máximo que o lado oposto aceita. A convicção inabalável de que razão está ao lado, estimula o vale tudo, a perda total de limites. Isto é característica das guerras, certo. Mas ninguém pode negar a israelenses e palestinos que, se fossem atores cinematográficos, seriam os finalistas mais longevos ao Oscar de melhores protagonistas — o conflito dura mais de seis décadas sem perspectiva para terminar.

Qualquer barco que tenta furar bloqueio naval, ainda que acha-se imbuído da “arrogância do bem”, na prática, está realizando outra manobra militar. Quando isto acontece, a condição de civil, de não combatente de seus integrantes, torna-se suspeita. A situação é muito comum nos conflitos assimétricos. Na guerra Irã-Iraque, por exemplo, no lugar de blindados, os generais dos aitolás enviavam crianças para abrir o caminho da infantaria. Um fator psicológico desestabilizador e covarde contra os soldados inimigos. Queiram ou não, as crianças eram “armas”.  A missão de ajuda humanitária deixa de ter salvaguardas clássicas a partir do momento em que ela afronta diretivas militares. Há décadas que a Cruz Vermelha ou Crescente Vermelho seguem estas regras. rigorosas de conduta. Isso para que sua credibilidade enquanto benfeitores seja preservada e nos momentos mais dramáticos, sua ajuda possa agir sem entraves em beneficio de quem precisa.

Ajuda humanitária é ajuda humanitária. Ajuda política ou movimento pacífico para despertar consciência acontece de forma bem distinta que a de direcionar uma flotilha com 700 pessoas para um destino, custe o que custar, ignorando os avisos que a rota escolhida é ameaçadora. Os membros do Greenpeace, por exemplo, quando são interpelados pelas forças de ordem em ações espetaculares na defesa do meio-ambiente, não reagem com violência. Não foi o caso dos passageiros do Mavi Marmara. Sobretudo, dos 40 membros da IHH, a ONG islamista turca suspeita de ligações com terroristas. Não só por Israel, diga-se de passagem. Uma organização não governamental, não é governamental. Ficou claríssimo que a IHH não teria agido sem o apoio robusto e desafiador do primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

Nada disso justifica ação militar mal planejada cujo resultado foi trágico. Mas os israelenses foram  sim, pegos de surpresa.  Por menosprezar seu oponente, acreditando que iriam encontrar situação habitual, semelhante a que aconteceu da ultima vez, quando interceptou o navio de bandeira irlandesa Rachel Corrie com 19 ativistas a bordo sem a menor resistecia. A defesa do real e universalmente aceito conceito de ajuda humanitária deveria ter a mesma intensidade que as criticas a Israel, que aliás, tem bons argumentos para questionar a legitimidade de investigação do ocorrido se feita por Conselho de Direitos Humanos da ONU onde figuram países como Paquistão, Cuba, Irã e outras democracias de fachada.

Por Antonio Ribeiro

 

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