30/10/2008
às 19:04 \ Nicolas SarkozyEnquanto Obama não vem

Nicolas Sarkozy anda tirando bom proveito da atual crise financeira, o mais recente empurrão para jogar o mundo inteirinho no precipício da recessão. “Imaginem se eu não estivesse na presidência da União Européia, se ela fosse liderada por outro, neste momento”, diz o presidente a quem vai ter com ele no Palácio do Elysée. Notável: não seria tão divertido, ao menos, para o presidente francês. Entende-se. A França, segundo definição do general De Gaulle é um pequeno país responsável por desempenhar papel de grande nação. E Napoleão, grande inspirador do “petit Nicolas”, deixou a França menor que a encontrou, mas a grandeur (grandeza) não se mede assim, ainda no juízo do mais importante político francês da segunda metade do século passado.
Sarkozy foi eleito quando a aventura da invasão do Iraque já era considerada capital adquirido. Ou seja, a França estava acobertada de razão quando se opôs frontalmente ao desembarque das tropas americanas e inglesas nas areias da antiga Babilônia, do ditador Saddam Hussein. Agora, o “modelo francês”, a forte intervenção do estado na economia, tradição desde Louis XIV, é apontada como alternativa para sair da crise mundial. A situação veste como luva s feitas sob medida para as mãos de Sakozy, hábeis em tomar poder vacante. Primeiro, a liderança da Europa e, mais ambiciosa missão, ser o motor de mudanças mundiais.
O capitalismo não morre — não é abstração como o marxismo, mas prática — enquanto houver debaixo da abóbada celeste o desejo natural do homem de obter lucro. O que ronda por aí é o resultado da disfunção do mercado financeiro. Bancos que emprestaram a gente sem lastro ou perspectiva de reembolso da dívida. Mas o postulado do capitalismo moribundo soa como música na orelha francesa. E como! No fundo, trata-se de um país superado pela formidável máquina forjada pela economia livre dos Estados Unidos da América. Se amanhã descobrirem o hambúrguer como agente maléfico, tomam champanha deste lado do Atlântico. Puro despeito cuja semântica imprecisa chama, frequentemente, de antiamericanismo.
No mês passado, Sarkozy persuadiu os alemães hesitantes para assinar um acordo europeu de injeção massiva de dinheiro do contribuinte nos bancos do Velho Continente — a idéia partiu do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, mas sua lerdeza permitiu a Sarkozy de encampar a autoria da iniciativa. O presidente francês voou para Washington, convenceu o pato manco George W. Bush para transformar a próxima reunião dos países mais ricos do mundo em uma conferência nos moldes de Bretton Woods. O objetivo não é modesto. Trata-se de refundar o capitalismo. Leia-se, meu caro leitor, tentar atualizar as regras do mercado financeiro mundial. A mais recente ação de Sarkozy foi propor fundos soberanos para proteger a economia européia de eventuais “predadores” internacionais. Traduzindo predadores, se me permtem: investidores americanos, russos, asiáticos e árabes com capital para comprar empresas européias em dificuldade. “ Eu não serei o presidente que vai acordar daqui a seis meses para descobrir as companhias francesas nas mãos dos outros,” diz Sarkozy, o “Napoleão de Neuilly”, apelido dado pelos alemães pelo qual se faz a junção entre imperador nascido na bela Ajacio, na Corsega, e o subúrbio elegante de Paris, onde o presidente francês foi prefeito.
Talvez haja alguns pontos a serem evidenciados no atual cenário. Pensem comigo, por favor. Número um: os EUA foram forçados a crer que as idéias de Keynes, o mercado de mãos dadas com o estado, não são tão obsoletas assim. Número dois: a crise financeira expôs ainda mais a fragilidade da UE, quer dizer, agir em bloco. Foram iniciativas nacionais que vieram como a Sétima de Cavalaria para salvar os bancos. Número três: a cabeça fria de Barack Obama pode revelar-se mais eficaz do que voluntarismo e o oportunismo de Sarkozy.
O ano que vem será interessante.
(Foi escrito neste blog que a eleição é game over. Isso quando o republicano John McCain estava à frente nas pesquisas de intenções de voto nas presienciais dos EUA, país menos admirado pelos amigos e menos temido pelos inimigos que outrora).
Tags: Barack Obama, Charles de Gaulle, George W. Bush, Gordon Brown, Louis XIV, Napoleão Bonaparte, Saddam Hussein.







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