Blogs e Colunistas

George W. Bush

17/01/2011

às 9:44 \ Paris

“Enchente do Século”: Paris se prepara

O Zuave

Discreta, sem alarmar a população, uma força-tarefa prepara a defesa de Paris contra a “Enchente do Século”. Quando será a catástrofe da qual se escuta falar tão pouco? “Em média, uma grande inundação acontece três vezes por século,” diz o coronel Gérard Charguellon, chefe da Orsec, a organização francesa de segurança civil. “Longe de ser um fenômeno excepcional, trata-se de uma certeza da qual somente a data exata é desconhecida”, completa. Confidenciais, os detalhes do cenário de uma enchente prevista para alagar uma área mais extensa que a inundação do rio Sena em 1910, a maior enchente da capital da França, não tem nada de ficção científica. A sua prevenção vem sendo calibrada em milímetros por 50 especialistas. Isso porque Paris, uma metrópole de 12 milhões de habitantes, cujo brasão é um barco com a frase em latim Fluctuat nec mergitur (Flutua não submerge) gera 25% da riqueza nacional. As autoridades locais não querem ter a surpresa, seguida de impotência, do terceiro presidente da República francesa, Patrice de Mac Mahon, o Duque de Magenta. Acordado pelo mordomo de sapatos encharcados com a notícia de que água estava invadindo o Palácio do Eliseu, ele perguntou: “Água, que água?” Ou pior, ofensa máxima para os governantes franceses, ninguém quer correr o risco de ser comparado à George W. Bush durante a passagem do furacão Katrina em Nova Orleans.

Um estudo cotejado com as recentes inundações do rio Danúbio em Praga e do Tibre em Roma, estimou que o volume do rio Sena irá aumentar em 15% na próxima grande enchente. Neste caso, o Ministério das Finanças, a estação ferroviária de Austerlitz, a Maison de la radio, o Hospital Georges-Pompidou, 21 embaixadas — entre elas, a dos EUA e do Brasil — serão alagadas. E não só. Os subsolos do Museu do Louvre, onde estão objetos do Egito Antigo, e o belíssimo Museu d’Orsay estão na zona de risco certo. E mais. O local que abriga o sistema de telecomunicações e informática do Palácio do Eliseu será inundado. Na Assembléia Nacional, onde os parlamentares foram legislar de barco em 1910, o manuscrito das Confissões de Rousseau foi levado para o segundo andar como medida de precaução. Durante a “Enchente do Século”, 50.000 parisienses deverão abandonar suas residências, 8 ministérios irão funcionar fora das suas atuais instalações e para abastecer a população com água potável na razão de 2 litros diários por pessoa, calcula-se que serão necessários 9 trens para realizar viagens diárias às regiões dos Voges, Alpes e Planalto Central. Ginásios e grandes espaços cobertos de Paris vão ser equipados com 70.000 camas de campanha. Depois do pico da enchente, será preciso esperar uma semana até que o nivel do rio Sena volte ao normal, deixando nas áreas alagadas um odor pestilento e persistente. Paris só encontrará seu ritmo habitual depois de meses.

Uma escala gravada em um pilar de sustentação da Ponte d’Austerlitz, no rio Sena, serve de termômetro do perigo. Ela determina o inicio das medidas de precaução. Quando o nível do rio atinge a marca de 3,5 metros (alerta amarelo), os mendigos que vivem debaixo das pontes são removidos, a navegabilidade é suspensa e as grandes avenidas que margeiam o Sena são fechadas para o tráfego de veículos. Na marca de 6 metros (alerta vermelho), a companhia ferroviária estatal francesa SNCF inunda de maneira preventiva a linha C do RER — trem suburbano rápido — entre as estações Javel e Austerlitz para evitar desmoronamentos devido à pressão fluvial. A RATP, responsável pelo metrô de Paris, mobilizará 800 agentes para cimentar as 477 entradas de água da sua rede. Estima-se o prejuízo da enchente, só no setor ferroviário, em 5 bilhões de euros. O subsolo de Paris com sua rede de esgotos, linhas de metrô e catacumbas lembra um queijo do tipo Emmental, cujo interior é repleto de orifícios. Se a água tomar conta dos canais subterrâneos da capital, a parte visível da Cidade Luz jamais será a mesma devido aos desmoronamentos. Quando o Sena atingir a marca de 8,6 metros, o nível máximo da enchente de 1910, calcula-se que 360.000 parisienses estarão privados de aquecimento, uma vez que as usinas situadas à beira do rio que produzem vapor, deixarão de operar. Um contingente de 10.000 militares com ajuda de helicópteros, barcos inflados e pontes flutuantes, iniciam o Plano Netuno. A medida visa, além da ajuda aos alagados, a proteção das zonas atingidas pela água contra pilhagem.

Por Antonio Ribeiro

19/01/2010

às 19:36 \ Brasil-França

Nem terremoto abala o antiamericanismo

antiamericanismo

Nicolas Sarkozy, finalmente, deu um basta à cantilena mais recente do coro formado por integrantes do seu governo. Em uma bizarra parceria estratégica com os colegas brasileiros, autoridades francesas vinham intercalando declarações contra a ação dos Estados Unidos na missão humanitária em favor do Haiti, depois do terremoto, responsável pela morte de, no mínimo, 100.000 pessoas e devastação sem precedente na capital da miséria nas Américas.

Se Celso Amorim sugeriu que o controle do espaço aéreo pelos americanos estava dificultando os pousos de aviões militares brasileiros em Porto Príncipe, o francês Alain Joyandet, secretário de estado encarregado da Cooperação Internacional e Francofonia, achou mais adequado admoestar o governo Barack Obama. “A missão é para ajudar e não ocupar o Haiti”, contribuiu no vasto sermonário francês que obstina em balizar a diplomacia mundial.

Até esta manhã, Sarkozy fez como quem não viu uma da mais inoportunas e enciumadas manifestações de antiamericanismo oficial. Sua mudança de curso materializou-se durante viagem à ilha da Reunião, território ultramarino francês. O presidente da França enalteceu a “excepcional mobilização pelo Haiti” do governo Obama, o “papel essencial” das tropas americanas e declarou sem perder a medida que imagina  ter a sua estatura: “Estou inteiramente satisfeito com a cooperação de Washington.”

O antiamericanismo francês, muitas vezes, de traços caricatos, não explica tudo. Sob o ponto de vista diplomático, qualquer país que tentar sobrepor a França em matéria de ajuda humanitária – imensa reserva moral – será considerado concorrente direto ao brilho gálico. Já há muito que a França não tem condições de impor-se como potência militar e econômica no cenário mundial. Restou a “nobreza” de converter-se em uma de espécie de Cruz Vermelha avantajada pelo formidável apoio do estado, das finanças e do dispositivo militar.

Quando os Estado Unidos empenham-se em policiar o planeta, não estão fazendo nada além da sua obrigação, pensam os franceses. Segundo o juízo local, quando o governo Bush demora no socorro às vítimas do furacão Katrina, até se admite. Afinal, os americanos são insensíveis. Desbloquear 100 milhões de dólares para as vítimas e reconstrução do terremoto? Vá lá, eles são ricos. O problema é enviar 20.000 soldados com objetivo de não dar sequer um tiro. Inadmissível a chegada de um porta-aviões com 20 helicópteros para não lançar um mísero míssil. Que diabo de comportamento é este?

Mas as explicações começam a emergir à beira do Sena. A 1.200 quilômetros de distância da Flórida, o efeito do terremoto poderá causar uma onda de refugiados, dizem. Os EUA estariam no Haiti para conter o êxodo dos aflitos. Outra razão seria a incontida compulsão intervencionista americana nos momentos de instabilidade na Hispaniola.  Destino preferencial da diáspora insular, os EUA estariam agindo sob a pressão dos 300.000 eleitores americanos de origem haitiana e de eventual revolta dos mais de 150.000  ilegais. Por último – não poderia faltar – trata-se de excelente oportunidade de se colocar em prática a “doutrina Obama”. Pronto.

Definitivamente, Asterix tem razão: “Os romanos são uns neuróticos”

Por Antonio Ribeiro

17/04/2009

às 14:29 \ Américas

Reunião enfadonha: ausente é o tema principal

O ditador Raul Castro não foi convidado para ir a Trinidad e Tobago. A razão é simples: o governo truculento e comunista de Cuba não respeita princípio elementar da Organização dos Estados Americanos (OEA), organizadora do encontro de cúpula dos 34 países membros. Ou seja, a democracia. Não há respeito pelos direitos individuais, propriedade privada, liberdade de expressão, sindicatos independentes, multipartidarismo, eleições livres e periódicas, separação de poderes, em Cuba. Há sim, tortura, presos políticos e repressão contra qualquer oposição a ditadura cujo embaixador foi excluído da reunião da OEA em Punta del Este, durante a Guerra Fria, em 1962. No entanto, a triste ilha caribenha de quase 12 milhões de habitantes em situação precária, estará bem presente, pelo menos, como tema de discussões da enfadonha Quinta Cúpula das Americas.

Chefes de estados latino-americanos clamam, cada um a sua maneira, pelo fim das sanções comerciais dos EUA à Cuba que existem depois de 47 anos por razões bem distintas a barba mal aparada de Fidel. A diplomacia brasileira crê ter um papel importante na melhora das relações entre Cuba e EUA. Tem mesmo. A condição  é ficar longe do viés ideológico de um Marco Aurélio “Top Top” Garcia  e balizada por estudos sérios como o do atual embaixador do Brasil no Casaquistão, Frederico Duque Estrada Meyer. O embaixador Duque Estrada com experiência em Moscou, Bagdá, Havana, Genebra e junto a ONU, em Nova York, mapeou como ninguém os passos para ajudar a aproximação dos vizinhos, apartados por 90 milhas marítimas e pesado contencioso histórico.

Nos escrevemos no primeiro parágrafo deste post: “enfadonha Quinta Cúpula das Américas”. Por que? Os presidentes vão assinar mais uma declaração longa, vaga,  formulada pelo ego dos seus ministros de relações exteriores. Em seguida, ela será esquecida como todas anteriores. Melhor seria cumprir o que já foi assinado em encontros precedentes. O interessante desta reunião será observar a coreografia de Barack Obama que tenta dar uma nova cara a diplomacia americana depois de 8 anos de George W. Bush e Hugo Chávez um condensado do que a América Latina produziu de mais tacanho.

Por Antonio Ribeiro

07/04/2009

às 16:26 \ Américas

Versalhes e Hyde Park

Os franceses e ingleses tem maneiras distintas de construir seus jardins e parques. Os franceses, cujo expoente é Lenôtre,  ordenam a natureza com rigorosa simetria. Digamos, “militar”.  Os ingleses também organizam a natureza, mas de forma que ela pareça menos controlável, aparentemente mais “natural.” É Hyde Park e Versalhes.
Por Antonio Ribeiro

07/04/2009

às 15:13 \ Diplomacia

Defesa da Turquia na Europa e Bush no Iraque

Na fronteira da Ásia com a Europa, Barack Obama defendeu a entrada da Turquia na União Européia. Nicolas Sarkozy, um dos opositores, lembrou que a decisão era de responsabilidade dos países membros. O presidente americano justificou sua declaração evocando a amizade dos EUA com os turcos e europeus. Ele jogou o leitimotiv da sua experiência pessoal e o resultado das eleições presidenciais americanas para persuadir que embora o mistério das mudanças anda de braços dados com o medo, elas provocam avanços. A retórica do presidente tentou fazer crer que integração da Turquia provocaria mais contágio de valores seculares e democráticos ao eventual membro da UE do que a abertura de uma porta para o islamismo radical e aumento de conflitos culturais. Trata-se de um agrado aos turcos, velhos aliados americanos e parceiros incontornáveis na resolução dos conflitos no Oriente Médio, especialmente entre israelenses e palestinos. Contudo a posição de Obama não causa adesão tácita dos europeus. Longe disso.

Em visita surpresa ao Iraque, Obama disse aos soldados americanos de ocupação algo ainda mais surpreendente. “Vocês deram ao Iraque a oportunidade para manter-se nas próprias pernas como país democrático, uma conquista extraordinária”, disse ele. Se tomada ao pé da letra, a afirmação constitui natural adulo aos soldados, algo perfeitamente natural. Não é? Não completamente. Está embutida na declaração de Obama, consciente ou não, algum reconhecimento da política iraquiana da administração Bush. Sabe-se que Obama foi um dos poucos políticos americanos contra a invasão do Iraque. Ao mesmo tempo, Obama deixa entender que é hora de voltar para casa. Retirada que ele promete acontecer nos próximos 18 meses, até agosto do ano que vem.

Por Antonio Ribeiro

07/04/2009

às 14:04 \ Américas

Caindo feio do cavalo

Quem chama Obama, o presidente dos EUA, de Ossama, o terrorista da Al-Qaeda, não comete só imprecisão, mas entra no terreno do ridículo e joga a credibilidade na lama. Nos tempos de George W. Bush, se o ex-presidente andasse sobre as águas, não era surpresa que seus detratores mais radicais diriam: “Ele não sabe nadar”. Isso remete a uma questão maior. As críticas sem objetividade, com viés ideológico, não ficam de pé por muito tempo. A realidade dos fatos é impiedosa. Não há malabarismo intelectual mais forte do que simples evidências. Obama não é o “Lula americano” por mais que se queira empurrá-lo para a condição. Ele não encarna a histeria do oba-obanismo pela qual nem indiretamente é o responsável. A premissa de que se meus inimigos gostam de Obama, o presidente americano é forçosamente ruim, é atalho para enganos vexatórios. Obama merece ser julgado pelos seus atos. Isso até pela respeitabilidade dos seus juízes.

Por Antonio Ribeiro

16/03/2009

às 11:52 \ França

Em tempo de guerra todo o buraco é trincheira.


Jacques Verges é um astuto advogado francês, filho de um pai nascido na Ilha da Reunião e de mãe vietnamita. No ano passado, fizeram um filme sobre sua vida. Maítre Verges, de 84 anos de idade, prefere ser o único de um lado do que mais um entre tantos outros que defendem causas sensatas. Estratégia e egocentrismo mais antigo do que Matusalém, mas nem sempre percebido pelos menos incautos — em terra de cegos quem tem olho é rei. Ele defendeu o chefe da Gestapo na cidade de Lyon durante a ocupação nazista na França, Klaus Barbie. Foi advogado do terrorista venezuelano, Carlos, o Chacal. De 1970 à 1978, Jacques Vergès desapareceu. Suspeita-se que ele trabalhou para o Khmers Vermelhos de Pol Pot, no Camboja.

Verges conta que, durante o julgamento de Klaus Barbie, olhava para os 40 advogados de acusação e sentia-se em êxtase: “Cada um deles valia um quarenta avos em relação a mim.” O advogado foi perguntado se era capaz de defender Hitler? Ele saiu com a seguinte ironia: “Defendo até George W. Bush se ele declarar-se culpado.” O engenheiro austríaco Josef Fritzl, de 73 anos, que pode ser condenado à prisão perpétua por ter sequestrado e violentado a filha durante 24 anos em um porão da sua casa na cidade de Amstetten, declarou “parcialmente” culpado, no seu julgamento que começou hoje. Fritzl admite o incesto, estupro e sequestro, mas declara ser inocente das acusações de assassinato e escravidão.

Fritzl que chegou ao tribunal escondendo o rosto atrás de uma pasta azul, declarou na sua avaliação psicológica: “Percebi que tinha uma via para maldade. Para alguém nascido para ser um estuprador, até que eu aguentei por muito tempo.” O caso escabroso de Fritzl choca a maioria, mas configura mais uma ótima oportunidade de defesa para quem deseja ser o único de um lado do que mais um entre tantos que defendem causas sensatas.

* Faits divers quer dizer, literalmente, fatos diversos, mas no idioma francês é a sessão dos jornais que trata de crimes.

Por Antonio Ribeiro

21/01/2009

às 13:15 \ O Melhor de Paris

Joe Allen, o raro. Hambúrguer e serviço simpático.

joeallen

Joe, o encanador que tornou-se famoso durante a campanha presidencial americana está tentando mudar de ramo. Agora ele é correspondente de guerra. Joe Allen continua no mesmo ofício, o de proprietário de quatro restaurantes que levam o seu nome, em Nova York, Miami, Londres e Paris. A filial da capital francesa faz, desde 1972, o melhor hambúrguer da cidade (15,20 euros). O lugar, cuja decoração reproduz a sede nova-iorquina, tornou-se também ponto de encontro incontornável de expatriados americanos, clientes estrangeiros e nativos interessados em combinar o prazer de comer bem e assistir em telões grandes eventos que acontecem nos EUA.

Ontem, foi data especial, o restaurante completou 37 anos e Barack Obama tomou posse na presidência dos EUA. “Em dias normais servimos, em média 150 refeições, Obama nem começou seu discurso e já estamos com mais de 350 clientes nos três salões e no bar” disse ao Blog de Paris, o gerente e sócio Graham Bent.

Embora houvesse motivo para grandes festejos, o ambiente do “Joe” era, em linguagem local, bon enfant. Ou seja, de bom menino, comportado. Era possível comer sem correr o risco de tomar banho de cerveja e simultaneamente escutar os comentaristas da CNN e BBC. A transpiração ficou por conta dos jovens garçons e garçonetes, de uma simpatia e presteza raras nos restaurantes de Paris.

A vitória eleitoral de Obama ajudou o “Joe” a destronar o lendário Harry’s, elegante bar parisiense cuja  maioria da clientela prefere  o club sandwich (18,50 euros) e inclina-se mais para o campo dos republicanos. “Acho que o Bush deu uma mão, muitos republicamos que moram em Paris, converteram-se em democratas ou não querem passar momentos desagradáveis,” diz o cliente Robert Brown, enquanto saboreia uma torta de queijo com calda de framboesa (6,90 euros). Momento desagradável? “Tomar seu aperitivo tendo que defender a administração Bush junto à estranhos ou ouvir o mesmo discurso dos amigos; já passei por isso.”

Comer com as mãos em restaurantes parisienses — e não só — é considerado pura regressão, mas no “Joe”, o gosto do proibido e ilícito tem seu lugar à mesa. Quem desperta curiosidade são os clientes que abordam o hambúrguer com garfo e faca. Foi o caso de duas freguesas que atraíram olhares, mesmerizaram, não só pela beleza e charme. Elas se saíram bem: “Não comemos o pão para manter a silhueta, é demais dispensar os talheres para comer o bife.”

Com pão ou sem pão, devorado com ou sem ajuda de garfo e faca, o hambúrguer conquistou definitivamente as melhores mesas de Paris. Houve tempo em que a rede de lanchonetes McDonald’s foi condenada a pagar 2 milhões de euros porque fez uma publicidade ilustrada com foto do chef Paul Bocuse sonhando com um hambúrguer — e ele gosta  do recheio mal passado! Cozinheiros de restaurantes 3 estrelas no Guia Michelin estão criando suas próprias receitas do sanduíche mais apreciado no mundo. É o caso do mais premiado entre eles, Alan Ducasse. Entre fatias de pão bem mais finas do que as tradicionais, o restaurante Le Relais du Parc, propõe um delicioso hambúrguer de lulas e camarões. O hambúrguer do chef Joël Robuchon leva foie gras.

— Quando chegamos ao “Joe”, fizemos um vídeo, com ajuda do telefone celular, para os leitores terem uma idéia do ambiente. Colocamos o vídeo no YouTube. Ele pode ser visto aqui.

— Beni, o barman do “Joe” prepara o coquetel gin fizz — 4.5cl (3 partes) de gin, 3cl (2 partes)
de suco de limão, 1cl (1 parte) melaço, 8cl (5 partes) de soda ou Perrier. Veja a sequência aqui.

Joe Allen

Bar Restaurant

30 rue Pierre
Lescot

7001 Paris França

Telefone:  + 33 1 42 36 70 13

Aberto todos os dias de 12h às 2h da madrugada

Por Antonio Ribeiro

20/01/2009

às 13:03 \ Diplomacia

Bonsai e baobá

Quando pronunciar 35 palavras, Barack Obama será empossado o 44º Presidente dos EUA. O juramento com a mão esquerda na bíblia de Lincoln, feito no alto da escadaria do Congresso, colocará Nicolas Sarkozy na sua justa medida. Nos últimos seis meses, aproveitando o vazio deixado pelo fim de mandato de George W. Bush, o presidente francês fez o que pode para ser o líder mais visível entre seus colegas no cenário internacional. Ele conseguiu. A personalidade ativa de Sarkozy atraiu todos holofotes, sobretudo, nos conflitos do Caucásio e Oriente Médio e nos encontros de alto escalão para tratar da crise financeira mundial. O presidente da França, sistematicamente, contestou a liderança dos EUA. A chegada do carismático presidente canhoto e de tez amorenada que conquistou mais simpatizantes em torno do mundo do que compatriotas que votaram nele, irá deixar mais claro que embora estrela cadente, Sarkozy comanda uma potência econômica e militar mediana. A França pesa, mas não é determinante. Sarkozy pode até parecer, mas não é a coisa real. A imagem dos presidentes americano e francês voltará a ser o que foi antes do parêntesis Sarkozy, lembrará um baobá ao lado de um bonsai.

Sarkozy restaurou a relação de confiança entre a França e os EUA — países que vivem em permanente conflito de interesses apesar nunca terem guerreado entre si — depois da invasão anglo-americana no Iraque. O presidente francês, bem ao seu estilo, ambiciona uma posição para França nunca antes conquistada: ser o interlocutor número 1 dos EUA na Europa. Este papel sempre foi ocupado pela Inglaterra. A aposta de Sarkozy, uma vez mais, tenta ganhar diante da apatia do adversário. No caso, o tímido primeiro-ministro britânico Gordon Brown, mergulhado na crise financeira do seu país e amaeaçado pelo aumento na popularidade do seu concorrente nas próximas eleições, o jovem conservador David Cameron. Obama e Sarkozy tem pontos em comum. O maior deles é o reforço no controle e regras do mercado financeiro mundial. Eles já se encontraram durante uma visita de Obama à Paris e deverão se rever em abril, na reunião de Cúpula da OTAN, em Estrasburgo. Mas não será surpresa uma visita informal do presidente francês a Washington, nas próximas semanas. Sarkozy divide fascínio e ciúme do presidente americano de ascensão fulgurante que lhe rouba a cena. No mundo, Obama desperta um misto de expectativa e esperança depois da desastrosa diplomacia do governo Bush. Sarkozy, por sua vez, provoca mais curiosidade através da sua mulher Carla Bruni, e pela inesgotável energia.

Por Antonio Ribeiro

19/01/2009

às 9:39 \ Paris

Paris se prepara em silêncio.


Discreta, sem alarmar a população, uma força-tarefa prepara a defesa de Paris contra a “Enchente do Século”. Quando será a catástrofe da qual se escuta falar tão pouco? “Em média, uma grande inundação acontece três vezes por século,” diz o coronel Gérard Charguellon, chefe da Orsec, a organização francesa de segurança civil. “Longe de ser um fenômeno excepcional, trata-se de uma certeza da qual somente a data exata é desconhecida”, completa. Confidenciais, os detalhes do cenário de uma enchente prevista para alagar uma área mais extensa que a inundação do rio Sena em 1910, a maior enchente da capital da França, não tem nada de ficção científica. A sua prevenção vem sendo calibrada em milímetros por 50 especialistas. Isso porque Paris, uma metrópole de 12 milhões de habitantes, cujo brasão é um barco com a frase em latim Fluctuat nec mergitur (Flutua não submerge) gera 25% da riqueza nacional. As autoridades locais não querem ter a surpresa, seguida de impotência, do terceiro presidente da República francesa, Patrice de Mac Mahon, o Duque de Magenta. Acordado pelo mordomo de sapatos encharcados com a notícia de que água estava invadindo o Palácio do Eliseu, ele perguntou: “Água, que água?” Ou pior, ofensa máxima para os governantes franceses, ninguém quer correr o risco de ser comparado à George W. Bush durante a passagem do furacão Katrina em Nova Orleans.

Um estudo cotejado com as recentes inundações do rio Danúbio em Praga e do Tibre em Roma, estimou que o volume do rio Sena irá aumentar em 15% na próxima grande enchente. Neste caso, o Ministério das Finanças, a estação ferroviária de Austerlitz, a Maison de la radio, o Hospital Georges-Pompidou, 21 embaixadas — entre elas, a dos EUA e do Brasil — serão alagadas. E não só. Os subsolos do Museu do Louvre, onde estão objetos do Egito Antigo, e o belíssimo Museu d’Orsay estão na zona de risco certo. E mais. O local que abriga o sistema de telecomunicações e informática do Palácio do Eliseu será inundado. Na Assembléia Nacional, onde os parlamentares foram legislar de barco em 1910, o manuscrito das Confissões de Rousseau foi levado para o segundo andar como medida de precaução. Durante a “Enchente do Século”, 50.000 parisienses deverão abandonar suas residências, 8 ministérios irão funcionar fora das suas atuais instalações e para abastecer a população com água potável na razão de 2 litros diários por pessoa, calcula-se que serão necessários 9 trens para realizar viagens diárias às regiões dos Voges, Alpes e Planalto Central. Ginásios e grandes espaços cobertos de Paris vão ser equipados com 70.000 camas de campanha. Depois do pico da enchente, será preciso esperar uma semana até que o nivel do rio Sena volte ao normal, deixando nas áreas alagadas um odor pestilento e persistente. Paris só encontrará seu ritmo habitual depois de meses.

Uma escala gravada em um pilar de sustentação da Ponte d’Austerlitz, no rio Sena, serve de termômetro do perigo. Ela determina o inicio das medidas de precaução. Quando o nível do rio atinge a marca de 3,5 metros (alerta amarelo), os mendigos que vivem debaixo das pontes são removidos, a navegabilidade é suspensa e as grandes avenidas que margeiam o Sena são fechadas para o tráfego de veículos. Na marca de 6 metros (alerta vermelho), a companhia ferroviária estatal francesa SNCF inunda de maneira preventiva a linha C do RER — trem suburbano rápido — entre as estações Javel e Austerlitz para evitar desmoronamentos devido à pressão fluvial. A RATP, responsável pelo metrô de Paris, mobilizará 800 agentes para cimentar as 477 entradas de água da sua rede. Estima-se o prejuízo da enchente, só no setor ferroviário, em 5 bilhões de euros. O subsolo de Paris com sua rede de esgotos, linhas de metrô e catacumbas lembra um queijo do tipo Emmental, cujo interior é repleto de orifícios. Se a água tomar conta dos canais subterrâneos da capital, a parte visível da Cidade Luz jamais será a mesma devido aos desmoronamentos. Quando o Sena atingir a marca de 8,6 metros, o nível máximo da enchente de 1910, calcula-se que 360.000 parisienses estarão privados de aquecimento, uma vez que as usinas situadas à beira do rio que produzem vapor, deixarão de operar. Um contingente de 10.000 militares com ajuda de helicópteros, barcos inflados e pontes flutuantes, iniciam o plano Netuno. A medida visa, além da ajuda aos alagados, a proteção das zonas atingidas pela água contra pilhagem.

Por Antonio Ribeiro

 

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