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Futebol

29/08/2012

às 13:00 \ Europa, Futebol

Torcida do crime organizado leva gol de Big Brother alemão

Em campo, o Borussia tem sido um sucesso. Ano passado, o time de futebol da cidade Dortmund, na Renânia do Norte-Vestfália, conquistou a Bundesliga, o campeonato nacional alemão. Em abril, o time da Emma, abelhinha amarela e preta, venceu a Copa da Alemanha, realizando assim a dobradinha pela primeira vez em sua história centenária.

A equipe cujo nome vem de termo latino para Prússia, tem a melhor média de público do país – espantosos 77.000 torcedores por partida. Seu estádio, o Signal Iduna Park, construído como uma das sedes da Copa do Mundo de 1974 com capacidade de 80.000 lugares, igual ao do futuro Maracanã, está sempre lotado É daí que vem o problema, mas de onde poderá brotar parte da solução e não só para o Borussia.

Durante décadas, os diretores do Borussia tomaram parte no esforço conjugado das autoridades esportivas e dos governos para conter o vandalismo, racismo e ações de criminosos que contaminaram as torcidas do nobre esporte bretão no Velho Continente. São medidas inspiradas, sobretudo, no relatório do magistrado inglês Peter Taylor que tratou do processo sobre as 95 pessoas mortas esmagadas durante a partida Liverpool x Nottingham Forest no fim dos anos 80.

Taylor fugiu da noção vaga de “violência no futebol”. Partiu do princípio que há crime e que a o ato criminoso não nasce de geração espontânea. Alguém o comete. Na maioria dos casos, de forma recidiva. Portanto, tal como ensinou Edgar Hoover, o primeiro diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI) americano, é preciso criar um fichário com os nomes dos criminosos. De forma subsequente e preventiva, faz se necessário monitorar os casos mais sensíveis.

Muitos dos criminosos que se infiltraram entre os simpatizantes do Borussia tem traço genérico encontrado no Velho Continente e alhures, como é o caso de elementos das torcidas organizadas de times cariocas suspensas dos estádios por 6 meses. A saudável competição esportiva é só um canal dissimulado para desaguar a prática do crime. Há outro particular, mas não tão particular assim, os bandidos pertencem a grupelhos neonazistas e de extrema-direita que a legislação alemã decretou ilegal e a polícia vem tentando erradicar.

A direção do Borussia deu um passo a frente. Embora os estádios alemães já sejam equipados com câmeras para ajudar a segurança, o clube de Dortmunt gastou 310.000 euros para instalar no Signal Iduna Park um sistema de vídeos de  altíssima resolução capaz de realizar close-ups a partir de 60 metros de distância.

Devido ao uso da nova tecnologia foi possível identificar um indivíduo de 27 anos já fichado na policia. Ele estava no meio da compacta massa de torcedores durante a partida Borussia x Werder Bremen exibindo flâmula com dizeres em apoio a organização neonazista ilegal. As imagens foram envidadas à central de policia de Dortmund que, por sua vez, confrontou as tomadas com o seu fichário de criminosos e, gesto seguido, enviou resposta positiva à segurança do estádio. O transgressor da lei foi capturado em 15 minutos.

Por Antonio Ribeiro

06/06/2012

às 14:27 \ Europa, Futebol

O euro agoniza, viva o Euro!

 

Durante três semanas, a maioria dos europeus – e não só eles – vão acompanhar 16 equipes disputarem 31 partidas de futebol através de 31 câmeras de televisão de alta definição nos estádios da Polônia e da Ucrânia, antigos satélites soviéticos descongelados pela adoção da economia de mercado, onde a cerveja é a mais barata da Europa. O pint, pouco mais da metade do litro, custa 58 centavos de euro em Kiev e 1, 55 euros, nos bares de Varsóvia.

A mini copa sem o Brasil, Argentina, Uruguai e fora a melhor seleção africana do momento deve trazer benefício médio de 7 bilhões de euros para os países sede. Mas nem todos vão lucrar com a Eurocopa 2012. Durante a Copa do Mundo 2010, na África do Sul, por exemplo, a economia inglesa teve queda de produtividade da ordem de 6 bilhões de euros. Os torcedores da ilha devem saber que, quanto mais a equipe inglesa avançar na competição, maior será o prejuízo para o reino de Elizabeth II. “A glória não se calcula assim”, diria Charles de Gaulle, um dos piores amigos e melhores inimigos da Inglaterra.

Quem não gosta do esporte bretão pode encontrar outro atrativo. Contrário ao que acontecia na Inglaterra pela ação de marmanjos despudorados, as partidas do Euro 2012 correm risco de serem interrompidas pela entrada no gramado de feministas seminuas – ou totalmente –  para protestar contra o turismo sexual administrado pela oligarquia mafiosa local. E quem também não gosta dessas surpresas, pode encontrar sempre bom programa nas páginas dos suplementos VEJA Rio, São Paulo, etc. Diga-se de passagem, editadas sob o comando do talentoso jornalista Carlos Maranhão, veterano de todas as copas desde a criação da revista PLACAR.

Quais são os favoritos para erguer os 8 quilos de prata da Taça Henri Delaunay? Antes da bola rolar, a Espanha, atual campeã do mundo, a Alemanha e a Holanda recebem maior numero de apostas. Depois, pode ser qualquer outra seleção. Até a Grécia é capaz de fazer estragos ainda que a competição não seja economia e o euro, por mais valorizado, não tem nenhuma equivalência com a dracma.

A grande questão é saber se Xavi, Inesta e seus companheiros estão realmente tão cansados quanto se mostram e portanto, ansiosos pela chegada das ferias do verão europeu. Ou se vão conseguir, como a França de Zidane, a proeza de ganhar a Eurocopa depois de ter vencido a Copa.

Os governos da Península Ibérica e Itálica bem que gostariam de viver o dilema de La Roja em relação à crise do euro. Porém, seu adversário é bem mais forte que a simpática e multicultural Mannschaft do merengue de origem turca Mesut Ozil. Os teutos jogam como se deve: a linha de meio-campistas nunca está distante dos zagueiros e atacantes, mas eficiência ainda não trouxe títulos para Berlim. Os países endividados do sul da Europa, enfrentam o rigor orçamentário defendido pela chanceler alemã. Frau  Merkel, ainda que pouco apreciada, é quem apita.

O melhor jogador da Europa, o continente que sabiamente transferiu as disputas dos campos de batalha para as arenas esportivas, estará fora das quatro linhas do Euro 2012. Entretanto, Lionel Messi tentará ajudar sua Argentina a classificar para a Copa no Brasil. A maior atração individual, também antes da bola rolar, é o  português Cristiano Ronaldo. Na última temporada, o atacante teve melhor desempenho que Messi.  A vida como ela é. Mas para ganhar, CR7 terá que fazer  esforço de Hercules. Isso porque a Seleção das Quinas – se classificou empatando com Chipre e com a ajuda de derrota norueguesa – é ele mais nove, considerando que Pepe e  Fábio Coentrão entram, cada um, com meio.

A Polônia virou o jogo

Quando os cartolas da União das Federações Européias de Futebol (UEFA) escolheram  Ucrânia e Polônia para sediar o Euro 2012, o binômio parecia o sucesso abraçado com a encrenca. Em plena Revolução Laranja, crescimento econômico superior a 7% do Produto Interno Bruto (PIB), a Ucrânia demonstrava apreço, popular e por parte das elites governantes, pela democracia. O país achegava-se da candidatura para ingressar na União Européia (UE).  À época, a Polônia era governada pelo primeiro-ministro nacionalista Jaroslaw Kaczynski. O polaco marginalizou seu país em disputas estéreis com rivais históricos, a Alemanha e a Rússia. Jogo ruim de assistir.

Cinco anos depois, a situação se inverteu. A Polônia tornou-se a mais recente história de sucesso político e econômico da Europa. O governo do primeiro-ministro Donald Tusk, o único a ser reeleito desde a queda do comunismo, é estável. O país driblou bonito a recessão de 2009 – também desempenho único no Velho Continente. Tem um dos mais rápidos crescimentos econômicos da UE. A Polônia investiu, sem PAC e Delta, 30 bilhões de euros para acolher o Euro 2012. A maior parte do dinheiro serviu para criar infraestruturas e melhorar os transportes dilapidados, em sua maioria, de origem soviética. Só 5% da bolada foi usado diretamente para construção de novos estádios, como o de 58.000 lugares à beira do Rio Vístula, em Varsóvia – será palco inaugural da competição com o Polônia x Grécia, 8 de junho, às 15h45m  (Brasília), um jogo cheio de simbolismos de uma Europa a duas velocidades.

O esforço polonês se insere na ampla tentativa de mudar a imagem de país cinzento que emergiu da era comunista para a modernidade. Resta um grande desafio que vem de outros tempos: controlar as manifestações de grupos racistas e xenófobos nos estádios. Já inciou antes de começar. Durante treino em Cracóvia, um coro de torcedores fascistas insultaram os jogadores holandeses negros. Foram chamados de “macacos”. Isso depois da equipe ter visitado o campo de concentração de Auschwitz para render homenagem às vítimas da barbarie nazista.

Em contrapartida, a Ucrânia ainda tenta recuperar-se de uma contração econômica de 15% devido à recessão da década passada. Mesmo assim, aplicou 8 bilhões de euros nas suas quatro cidades sedes: Kiev, Lviv, Donetsy e Kharkiv. Em apenas 18 meses, foram construídos 4 aeroportos. Para receber os torcedores a Ucrânia tem doravante, 70 novos hotéis. Estima-se que 80% dos visitantes nunca pisaram antes no país. A esperança é que voltem.  Contudo, a imagem da Ucrânia está cada vez mais associada a de uma autocracia com corrupção disseminada.

Os deputados ucranianos vão além dos insultos pesados que acontecem durante as CPIs em Brasília. Trocam sopapos no Parlamento sem complexos. A ex-primeira-ministra e líder da Revolução Laranja, Yulia Tymoshenko, de 51 anos de idade, foi condenada a sete anos de prisão por apropriação de fundos públicos. Ela iniciou greve de fome contra o que alega ser uma vingança pessoal do atual presidente, Viktor Yanukovitch que lhe deu uma surra eleitoral. A situação chegou a suscitar ameaças de boicote ao Euro 2012. Suspeita-se que madame terá que tentar outra ocasião. O pessoal aqui, gosta de bola como ao sul do Equador, embora não manifeste da mesma maneira.

Atualização enviada pela leitora Paula Barcellos: “Os deputados gregos tambem aderiram aos sopapos sem complexos em pleno Parlamento.”

Por Antonio Ribeiro

05/03/2012

às 7:35 \ Sem Categoria

A dama e o vagabundo

Garcia: "Esse cara é um vagabundo!"

À boca pequena dizem que a presidente da República, Dilma Rousseff, não fala com o presidente da CBF e do Comitê Organizador Local da Copa 2014, Ricardo Teixeira. O homem com a cartola mais alta do futebol brasileiro, por sua vez, não fala com o presidente da FIFA, Joseph Blatter. Recentemente, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, fez saber que também não fala mais com o secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke.

Embora se especule, nunca houve explicação oficial do motivo da ausência de papo na primeira classe. Quer dizer, na divisão que jogam os presidentes. Na segundona, entre o secretário-geral e o ministro, a pendenga foi amplamente divulgada. Ela brotou na última chuva, quando o francês Valcke afirmou que os organizadores brasileiros da Copa mereciam um “chute no traseiro” devido ao atraso nas obras dos estádios,  na infraestrutura para receber o evento e  na aprovação da Lei Geral da Copa 2014.

Quem ficou preocupado pode se tranquilizar. A situação está melhorando. Menos de 72 horas depois da sua sugestão, Valcke encontrou um interlocutor do mesmo nível no governo brasileiro. Trata-se do assessor especial e indômito da Presidência da República para assuntos de além-mar e quintais, Marco Aurélio “Top-Top” Garcia. Na Baixa Saxônia, em réplica à elegância do secretário-geral da FIFA, Garcia saiu-se com o seguinte: “Esse cara é um vagabundo!”

Ademais, a troca de gentilezas não é tão grave quanto parece. Explicamos aqui em post anterior que “chute no traseiro” soa pesado no Brasil, mas na França, país de Valcke, não chega a ser um afago, mas não é igual à bofetada sonora e humilhante. A expressão popular significa um empurrão nas almas mais procastinadas para seguirem em frente. Há bem pouco tempo, o ministro da Defesa francês, Gerard Longuet, disse que China e Rússia, membros  permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mereciam un coup de pied au cul por vetarem ações contra o ditador sírio Bashar Assad. Neste sentido, Valcke quis dizer mais “acelerar o ritmo” do que “descartar brutalmente” ou “demitir.” Não é a mesma coisa que o humilhante, com perdão da palavra, “pé na bunda”, popularmente usado no Brasil.

O “vagabundo” de Marco Aurélio “Top-Top” Garcia, verdadeira dama no trato das questões delicadas, vai no mesmo sentido. O secretário-geral não tem razão para se sentir ofendido se tomar o aspecto romântico que o termo tem em seu país, a França. Vagabond é também aquele que decide viver sem amarras por um tempo indeterminado, com um objetivo espiritual, social ou com privações materiais.

Ao sair de seu período de privação deliberada, alguns vagabonds chegam a  produzir obras interessantes, resultado da inspiração literária ou artística decorrente da fase de vagabundagem. Foram os casos de Jean Genet, Jack London, George Orwell e Jack Kerouac, autor de Anjos Vagabundos. Na questão domiciliar, Jesus Cristo e Gandhi também foram vagabonds. Nem no aspecto formal Valcke pode se sentir insultado. O delito de vagabundagem foi abolido na legislação francesa, no século passado.

Observação – Contrário ao que foi traduzido na imprensa, Valcke não disse que a reação das autoridades brasileiras foi infantil. Ele usou um termo que não consta no básico para atender as funções minimas de sobrevivência em português, digamos, umas 72 palavras. “Tocumsede, água” , por exemplo, faz parte. Ele afirmou que a reação era um “pouco pueril”. A puerícia é o período da vida compreendido entre a infância e a adolescência. Ainda que signifique também frívolo, inútil, já é melhor que completamente infantil, não é?

Leia o post do Blog de Paris: “Perna de pau

A carta com “As desculpas do secretário-geral da FIFA

Descubra aqui onde se come “O melhor filé com fritas de Paris” e também a dica dos vinhos para acompanhar o prato popularíssmo na França.

Por Antonio Ribeiro

01/06/2011

às 13:08 \ Futebol

FIFA: À sombra de corrupção assombrosa, Blatter é reeleito

Blatter: "As dificuldades serão resolvidas dentro da nossa família"

Um dia depois de declarar ter sido esbofeteado com acusações de corrupção, Joseph Blatter, candidato único, foi reeleito presidente da FIFA. Entre os representantes de 203 federações, reunidos na sede da entidade máxima do futebol mundial, em Zurique, 186 cartolas votaram a favor de um quarto mandato consecutivo com fim em 2015 para o dirigente suíço de 75 anos de idade e 36 na folha de pagamentos da FIFA.

Suspenso devido a acusação de oferecer um envelope pardo recheado de 400 cédulas novas de 100 dólares americanos à Federação de Bahamas em troca de votos, o ex-candidato de oposição a Blatter e ex-presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC), o catariano Mohammed Bin Hammam não participou da votação durante 61º Congresso da FIFA. Aliás, foi fisicamente barrado na porta do majestoso quartel general do futebol na rua FIFA, ponto turístico na capital do cantão suíço de lingua alemã.

Blatter anunciou que a partir de 2022 a escolha do país para sediar a Copa do Mundo será feita por todos os representantes das 208 federações nacionais associadas à FIFA – coletivo mais numeroso do que a ONU – e não mais apenas pelos 24 membros do Comitê Executivo.  No entanto, o grupo seleto – suspeito frequente de corrupção e cujas indicações dos integrantes é feita pelo presidente – guardará a prerrogativa de compor a lista reduzida dos candidatos. A escolha da Rússia para sediar a competição em 2018 e do Catar, em 2022, provocou suspeitas de favorecimento contra propina felpuda.

O vice-presidente da FIFA e membro do Comitê Executivo Jack Warner e os representantes da União Caribenha de Futebol (CONCACAF) Debbie Minguell e Jason Sylvester, acusados de violar o Código de Ética e o Código Disciplinar, foram suspensos temporariamente de toda  atividade relacionada ao futebol sob o controle da FIFA, seja ela administrativa, esportiva ou outra. A punição é vista como a queima de um trio de fusíves caribenhos para impedir que sobrecarga chegue ao topo da pirâmide helvécia.

Escolha difícil

Theo Zwanziger, presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla em alemão) propôs  reexaminar o processo que escolheu o Catar como sede para a Copa de 2022: “Há um grau considerável de desconfiança. Não se pode simplesmente deixar o assunto de lado.”

A Federação Inglesa de Futebol (FA, na sigla em inglês), preterida para sediar a Copa de 2018, pediu que o processo eleitoral fosse adiado. “É medida mais sensata e dará oportunidade para o surgimento de um candidato reformador. A imagem da FIFA nunca esteve tão manchada”, disse o presidente da FA, David Bernstein, em discurso quase sem aplausos dos colegas. A proposta fracassou, 172 dos 206 representantes  das federações votaram para manter o calendário da eleição.

O presidente financeiro da FIFA e presidente da Federação Argentina de Futebol, Julio Grondona, repeliu as acusações de corrupção como se elas não fossem objetivas, mas sim, uma frequente heresia inglesa contra o papado da bola e seus colégio de ilibados cardeais: “Há sempre ataques da Inglaterra, a maioria é baseada em mentiras de um jornalismo pouco dedicado em falar a verdade. Isso irrita e atrapalha a família da FIFA.”

As acusações, bom lembrar, surgiram no interior da “família”. Jack Warner acusou Blatter de ter doado de 1 milhão de dólares à CONCACAF para receber apoio na sua reeleição. Depois, revelou um e-mail enviado a ele por Jérome Valcke, secretário-geral da FIFA, no qual o dirigente fala que o Catar comprou o direito de sediar a Copa de 2022.

Se representantes das federações mostram-se satisfeitos com uma votação maciça que lembra os referendos de ditadores, patrocinadores de peso, como a empresa aérea Emirates e a Coca-Cola, demonstraram preocupação com mais uma suspeita de corrupção envolvendo dirigentes da FIFA. “A publicidade negativa não é boa para o futebol nem para FIFA ou para seus parceiros”, disse o porta-voz do fabricante de material esportivo Adidas. O grupo VISA foi na mesma linha: “Pedimos a FIFA que tome todas as medidas necessárias  e de forma expeditiva para resolver a situação.” Junto com a vendas de direitos transmissão de jogos  para TV, os a publicidade é principal responsável pelo lucro de 202 milhões de euros da FIFA em 2010 descontados os impostos. No fim do ano passado a FIFA tinha acumulado em torno de 900 milhões de euros nos cofres.

Terminado congresso no qual Blatter foi eleito, o mestre de cerimônia lembrou aos votantes que haveria festa no hotel helvécio de cinco estrelas. Não parecia em nada uma organização em “aguas turvas”, como constatou o presidente da FIFA nos últimos 13 anos  e cujas aparições nos estádios de futebol são sempre acolhidas com vaias. La nave va.

Leia o post do Blog de Paris: “A Grécia ou quase está a venda.

Por Antonio Ribeiro

30/03/2011

às 13:58 \ Moda

La Marinière, a moda entra em campo

A Marinheira unissexo em todos os tamanhos: Picasso, Benzema e Bardot

A seleção francesa de futebol estreou sua nova camisa para partidas fora de casa.  Houve rara unanimidade entre as mulheres. Elas acharam uma graça. Os homens, nem todos, fazem gracinhas. O modelo foi inspirado em um dos patrimônios culturais da França, a camisa listrada de marinheiro, La Marinière.

A tradição dá conta que o grafismo da camisa, símbolo da simplicidade elegante que atravessou  várias ondas para tornar-se um clássico do vestuário, não surgiu por razões estéticas. No século XIX, quando La Marinière emergiu, pensou-se que o desenho ajudaria na hora do resgate em alto mar. Vivos ou mortos, os marujos naufragados seriam vistos mais facilmente à distância,  na superfície da água.

Durante preleção no vestiário, o técnico da seleção francesa, Laurent Blanc, disse aos seus comandados: “Rapaziada, com esta camisa vocês podem ter certeza que serão notados”. De fato foram, mas o futebol da equipe campeã do mundo de 1998 nunca foi recuperado e a imagem do vexame da Copa da África do Sul, quando milionários fizeram greve pela primeira vez na história, ainda não submergiu completamente.

Em 1858, a Marinha do Imperador Napoleão III, sobrinho de Bonaparte, emitiu circular transformando La Marinière em uniforme regulamentar. Os tecelões sob o soldo da força naval foram informados de que tratava-se de uma camisa de algodão sem golas e cujas mangas não deveriam ser nem curtas nem longas, mas na altura do cotovelo. Isso para a roupa interior não “sobrar” no casaco. “A camisa deveria ter 21 listras brancas de dois centímetros e 21 listras azuis marinho de um centímetro”, conta a Veja.com, Agnes Paris, Curadora Chefe do Museu Nacional da Marinha, na capital da França.

A nova camisa número 2 da França custa 75 euros (175 reais), mas em lojas badadas o preço pode ser salgado como água do mar. Na Chez Colette, em um dos endereços mais chiques do primeiro distrito de Paris, a rua Saint-Honoré, o “manto listrado” é vendido por 110 euros (257 reais). La Marinière é feita pela Nike cujo contrato de 42,5 milhões de euros com a Federação Francesa de Futebol (FFF) vai até 2018. O objetivo do fabricante americano de material esportivo visa um público bem mais amplo que os torcedores de futebol.

O renomado estilista alemão Karl Lagarfeld, da Maison Chanel, foi escolhido para fazer as fotografias da campanha publicitária. Além da fama e do talento do fotógrafo um clin d’oeil entrou em campo. Lagarfeld é o sucessor oficial do estilo criado por Coco Chanel, a lendária costureira francesa que, por volta de 1910, introduziu a camisa de marinheiro no mundo da moda. Aliás, para nunca mais sair.

Nos anos 80, quando o mundo já estava habituado a ver de Pablo Picasso a Brigitte Bardot usarem os trajes de marinheiro, sobretudo onde o Mediterrâneo lambe as costas francesas, o estilista francês Jean Paul Gautier pegou a figura de um marujo musculoso e de trejeitos delicados e fez dele, vestido com La Mariniére justa ao corpo, sua marca registrada. O gosto gay masculino foi conquistado de imediato. Isso enquanto o grande sucesso no cinema era Querelle, o filme cult do diretor Rainer Fassbinder, baseado na obra de mesmo nome, do escritor  francês Jean Genet, homossexual declarado quando a preferência era considerada transgressão de bons costumes.

La Marinière no futebol pode significar o pontapé inicial de uma tendência: os gramados vão se transformar também em passarelas da moda. No entanto, o esporte bretão tem seus caprichos. Ele é capaz de mistificar uniformes de gosto muito duvidoso desde que o conteúdo faça mais gols que os adversários. O contrário resta a ser provado.

Por Antonio Ribeiro

08/12/2008

às 8:38 \ Futebol

O 7 de ouro

Os anos nem sempre foram dourados. Não para o menino prodígio, filho de pescador e cozinheira, criado em biboca da Quinta Falcão, bairro pobre dos menos freqüentáveis de Funchal, na Ilha da Madeira, 650 quilômetros do continente africano. E bem recentemente, apesar de jovem, já famoso e enricado, o tablóide londrino The Sun estampava sua fotografia no centro de um alvo, sugerindo aos leitores: “Mirem entre os olhos”. Contrário do que possa imaginar, não foi campanha, digamos a moda anglo-saxônica, “out of the blue” do jornal, mas resposta ao sentimento coletivo do reino de Elizabeth Alexandra Mary Windsor. Os torcedores enviavam, diariamente, cartas caluniosas – algumas delas continham pó branco para ser confundido com Antrax. Durante programa na TV, o centroavante da equipe inglesa e do Newcastle, Alan Shearer, revelou a vontade de dar-lhe sopapos devido à personalidade arrogante e comportamento mimado. Dentro das quatro linhas, a imaturidade governava seu extraordinário talento. Embora espetaculares, suas fintas eram gratuitas, evanescentes. Isto no esporte bretão, na Inglaterra, um dos melhores gramados do pragmatismo de Charles Sanders Peirce (1839 – 1914), onde a exigência pela busca do gol deve ser permanente, obsessiva para se chegar ao êxito. Ex-colega, o experiente goleador holandês Rudd van Nistelrooy que levou dele um soco no nariz, oferecia veredicto nada acalentador: “Tem muito show no seu jogo, ele não provoca temor nos adversários.” O ocupante da lendária camisa 7 do Manchester United, de George Best (1963 – 1968), Eric Cantona (1993 – 1997) e David Beckham (1993-2003), lembrava uma gazela saltitante entre leões enfurecidos. O fim parecia fixado pelo fado. Mas Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, de 23 anos de idade, batizado em homenagem ao ator e ex-presidente americano Ronald Reagan, driblou o destino. Bem à frente do argentino Lionel Messi, do FC Barcelona e do espanhol Fernando Torres, do Liverpool, ele terminou 2008 com Bola de Ouro.

No auge da forma, alguns jogadores de futebol fazem tão bem à galera que deveriam ser remunerados pela Previdência Social. Este ano, foi o caso de Cristiano Ronaldo, o sucessor de Eusébio e Figo, cujo salário mensal é de 708.000 euros fora bônus e as publicidades que rendem 10 milhões de euros anuais. Durante 4.245 minutos, em 52 jogos, Cristiano Ronaldo estufou as redes em 42 ocasiões – 9 vezes de cabeça. Em média, fez um gol em cada 100 minutos. “Feito raro e ainda mais difícil para quem joga nas laterais do campo”, diz a VEJA.com seu treinador Sir Alexander Chapman Ferguson. Há duas estratégias para ganhar a Bola de Ouro, o prêmio de melhor jogador da Europa, resultado do voto de 96 jornalistas esportivos internacionais, promovido pela revista francesa France Football – todos listaram Cristiano Ronaldo entre os cinco primeiros e, nos 480 pontos possíveis, o português conseguiu 446. A primeira consiste em bom desempenho nos jogos de fim de semana dos campeonatos nacionais e, nas terças e quartas-feiras, ser eficaz na Liga dos Campeões, a competição mais prestigiosa do futebol depois da Copa do Mundo. O outro método é mais radical. Resume a grandes exibições nas partidas importantes da seleções nacionais. A conquista de Cristiano Ronaldo repousa quase exclusivamente nos momentos em que vestiu a camisa 7 do Manchester United, onde ele é o primeiro a chegar para treinar e a deixar as dependências do clube mais rico do planeta 30 minutos depois de seus colegas boleiros. Foi campeão da Premier League inglesa e venceu contra o Chelsea, em Moscou, a Liga dos Campeões dos clubes europeus, sendo artilheiro máximo em ambas as disputas. No Euro 2008, jogando machucado, Cristiano Ronaldo conseguiu levar seu Portugal às quartas-de-final, onde foi eliminado pela Alemanha. A escolha do France Football coincide quase sempre com o troféu da FIFA de melhor jogador do ano, eleito pelos treinadores e capitães das seleções. Os analistas costumam ver Kaká como a unidade de medida e o avesso de Cristiano Ronaldo. Os atletas têm a mesma idade, jogam em posições parecidas, não são goleadores puros, mas possuem a habilidade de construir desde a intermediárea – e às vezes, antes dela – o lance determinante do esporte em que praticam. Em 2007, Cristiano Ronaldo foi o segundo jogador mais votado, depois de Kaká que levou a Bola de Ouro. Este ano, Kaká ficou em oitavo lugar, prejudicado pelas contusões e desempenho ruim do Milan AC.

A partida de estréia de Cristiano Ronaldo no futebol profissional, dia 7 de outubro de 2002, deve-se a quatro meses de depressão nervosa do brasileiro Mário Jardel. Cristiano Ronaldo tomou seu lugar no Sporting Portugal, fazendo dois gols sob os olhares de dona Dolores, sua mãe. Contudo a alavanca definitiva para glória aconteceu em partida amistosa contra o Manchester United. O desempenho de Cristiano Ronaldo impressionou tanto Sir Alex Ferguson que o treinador escocês dos Diabos Vermelhos exigiu encontrá-lo no intervalo. Depois da partida, nova reunião. Resultado: aos 18 anos de idade Cristiano Ronaldo foi jogar na Inglaterra por 18 milhões de euros e lá, formou com Ferguson uma espécie de promissora relação pai e filho. Aqui é preciso pedir tempo. Meu caríssimo leitor, você sabe o que significa para um garoto imigrar para ambiente hostil e exigente, onde o erro raramente é tolerado, sobretudo, em quem se deposita a expectativa de reviver as maiores glórias de um clube fundado em 1878? Na resposta está o germe da personalidade irascível em que se transformou Cristiano Ronaldo. A força motriz para chegar a maturidade. O ímpeto que Sir Alex Ferguson aproveitou para encetar a metamorfose do artista criativo e egoísta em homem de equipe. A julgar pela reação da população do estádio Old Trafford a missão foi cumprida. Ela deixa os versos chauvinistas dos Lusíadas bater nas canelas quando canta, em tradução pudica:

Ele joga na direita,

Ele joga na esquerda,

O garoto Ronaldo humilhou a equipe da Inglaterra.

Ou urra depois de cada bela jogada:

“Só há um Ronaldo.”

Ou ainda :

“Viemos só para ver Ronaldo.”

Distante de 9.000 quilômetros do Velho Continente, amortecido por uma formidável tradição futebolística, o Brasil não costuma reconhecer de imediato as grandes estrelas do futebol europeu. Às vezes, a ficha cai da maneira mais brutal, chega na figura do carrasco. Os casos mais emblemáticos são o de Hendrik Johannes Cruyff que ajudou o Carrossel holandês eliminar o Brasil na Copa de 1972 e do cabila Zinedine Yazid Zidane, personagem central do fatídico 12 de Junho de 1998, no Stade de France, em Paris. Cristiano Ronaldo pertence a este naipe. Homem de ouros. Pode se ir até mais longe sem ousadia. Se não fosse a conquista do bicampeonato mundial, Cristiano Ronaldo não deveria nada à Mané Garrincha, o rei do um contra um e, as vezes, do solitário contra dois, três… Pondere-se que nos tempos de Mané, o jogo era mais lento; os zagueiros ofereciam mais tempo e espaço; os esquemas defensivos, setor que mais progrediu, não eram tão sofisticados quanto os que Cristiano Ronaldo enfrenta. As táticas modernas relegaram aos grandes dribladores uma função menor em detrimento ao sacrossanto conjunto da equipe. Mas como Pelé, Maradona, Zico e Zidane, o dono da 53ª Bola de Ouro não evita entortar adversários ou deixá-los comendo poeira. O que falta a ele, cuja velocidade é louvada por Kaká e os tiros a partir de bola parada, atormenta os goleiros mais confiantes? Segundo Sir Alex, um treinador feito sob medida para os talentosos jogadores intratáveis, Ronaldo precisa encurtar o tempo de suas tomadas de decisão. O dilema do “driblo, passo ou enfio o pé”?

Domingo, 7 de dezembro, Cristiano Ronaldo foi buscar sua Bola de Ouro durante o programa Teléfoot, do canal de televisão francês TF1. Sua alegria era quase do tamanho da ansiedade de receber o prêmio quando na semana passada, o ganhador foi anunciado. “Eu sonho como este momento desde menino”, disse ele, acariciando o objeto de 8 quilos de metais nobres e brilhantes. Longe dos gramados, Cristiano Ronaldo tem bem menos interesse. Provoca desconfortável antipatia pela incontrolável pretensão e enseja o perigo de quem sabe bem uma coisa só, no caso: jogar bola. Concede-se não é pouco. Quanto ao Ballon d’Or, o vencedor fez apenas um comentário: “Ela é pesada.”

Por Antonio Ribeiro

 

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