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Fréderique Bousquet

31/07/2009

às 15:19 \ Esporte

Só um número interessa: 46s91

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L’Equipe, o jornal do esporte e do automobilismo  — o diário francês considera a corrida sob quatro rodas, uma modalidade à parte — estampou na sua edição de hoje, o título Tão bonito, tão triste. A foto de alto a baixo da primeira página explica o sentimento duplo — ao menos para a França. César Cielo aparece no centro da imagem, ligeiramente acima de dois nadadores franceses, Alain Bernard e Fréderick Bousquet. É um pódio histórico e inédito — ao menos para o Brasil.

César quebrou o recorde mundial dos 100 metros livres, a prova mais nobre da natação, Fez com o tempo de 46s91. Largos 20 metros à frente de Johnny Weismuller, recordista em 1922, o mais famoso interprete de Tarzan. Oooooh verde amarelo? Sim. Mas só justificaria o buuuuá dos franceses se a prova tivesse acontecido nos tempos dos filmes em preto e branco. Faltou 44,50 centímetros para o dedo médio de Alain Bernard tocar na parede da piscina ao mesmo tempo que César Cielo. A diferença lembra as humilhações do velocista Usain Bolt nos 100 metros rasos. Se o francês, recordista em 2009, tivesse repetido seu melhor tempo, teria terminado a prova apenas à 6 centímetros atrás de César Cielo, uma distância 7,5 menor do que a registrada.

Como foi que isso aconteceu? Para contar a história completa, teríamos que voltar ao Big Bang de César. Quer dizer, a complicada gestação de Flávia Cielo, mãe do nadador de Santa Bárbara do Oeste, cidade do interior de São Paulo. A versão curta.começou quinta-feira, 31 de julho, na piscina do Foro Itálico, em Roma. E começou mal. Aqui bem e mal medem-se em milímetros, em centésimos. O microscópio seria melhor do que a telinha da TV para acompanhar a disputa entre os nadadores.

Bernard ganhou entre 10 e 15 centésimos sobre César quando bateu na água, ainda que o salto do brasileiro foi bem melhor do que o de costume. Nos primeiros 25 metros de “nado limpo”, no jargão da natação, o francês e o brasileiro foram em velocidade demente. É neste ponto que Cielo, especialista nos 50 metros livres, coloca dianteira definitiva que conduz suas vitórias acachapantes. Bernard se afobou para seguir o ritmo de César. Perdeu a cadência das braçadas. Em termos musicais, diría-se, o francês “desafinou”. Nos 30 metros, normalmente, César baixa o ritmo. Desta feita, ele se corrigiu, continou firme na mesma cadencia. Atenção. Nem através de TV de alta definição é possível perceber estas filigranas. A natação não é esporte que faz bom casamento com a telinha. É a soma de informações distintas, vídeo, audio, cronômetro e narrador que possibilita o telespectador enfronhar-se na disputa.

Bernard chegou aos 50 metros, fez sua virada cravando o tempo de 22s22, na primeira metade da prova. O brasileiro já estava 5 centésimos à frente. Nos últimos 50 metros, o francês começou a tirar o atraso. Na cabine de TV a cabo brasileira, o medalha de prata Gustavo Borges, doravante excelente comentarista, fez careta. Ele viu o que nós, só acompanhamos. “Se a prova tivesse um metro a mais, eu teria ganho”, disse Alain Bernard que teve velocidade media de 7,64 km/h enquanto César, singrou a piscina em 7,67 km/h. Pode ser,  cher Alain, mas ela tinha regulamentares 100 metros. A César o que é de César.

Por Antonio Ribeiro

 

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