Blogs e Colunistas

François Hollande

14/04/2013

às 8:04 \ Europa

Curta e fina

A última na França dá conta de um diálogo no Vaticano:

– Olá, eu sou o Papa Francisco, o papa dos pobres.

– Encantado! Eu sou François Hollande, seu fornecedor!

LEIA TAMBÉM: “O canal e a mancha

Por Antonio Ribeiro

11/04/2013

às 13:16 \ Europa

O canal e a mancha

O inverno europeu persiste em ocupar período, por consenso científico concedido pelos ocidentais, próprio a primavera. Mas não é a apropriação meteorológica indevida a razão da semana atípica no Velho Continente. Faz tempo em que os dias não passam sem que a chanceler alemã Angela Merkel não seja acusada de responsável por alguma desventura do euro, a moeda comum de 17 países. Seguido de pedido que seus compatriotas paguem a conta. Desta vez, no entanto, as atenções concentraram-se no legado de Margaret Thatcher e no futuro de François Hollande.

Ainda que um e outro tenham confrontado problemas similares, poucos casais poderiam representar tão bem a antítese quanto a fenomenal diferença entre o francês e a inglesa. Nem mesmo a secular rivalidade entre os seus países, separados por bem mais que os 34 quilômetros na parte mais estreita do Canal da Mancha. E, certamente, mais profunda que os 174 metros de água fria e salgada.

Na longa linhagem de governantes, segundo preceitos da Revolução Francesa, o republicano Hollande lembra mais um monarca. A semelhança com a figura trágica de Louis XVI, o rei guilhotinado, honesto e bem intencionado, é notável. Hollande é a principal figura de uma aristocracia política. Independente da cor da bandeira. Tal qual no Antigo Regime, impacientes com a crise econômica e social, e sem que se aviste uma luz ao fundo do túnel, a maioria dos franceses não reconhece mais os privilégios dos seus eleitos como a contrapartida dos serviços prestados à sociedade.

Inegavelmente, Margaret Thatcher tinha mais ares de rainha que Elizabeth II. No entanto, a conservadora modernizou a sociedade inglesa como nenhum outro dito progressista fez em parte alguma no planeta. Estamos falando da Inglaterra dos anos 80. Um país que tinha mercado de trabalho mais engessado e dependente do diktat sindical que a França de 2013. Um ambiente político mais entravado que atual Itália. Uma monarquia, como poder moderador, menos respeitada que na Espanha hoje.

Não é por nada que mentes européias mais lúcidas clamam por mais thatcherismo do que buscam em Hollande, governante mais de promessas que promissor, como atalho para melhores tempos. Não é exatamente liberalismo que querem embora mal não faça para os tempos bicudos. Passivos como Hollande carburam extremismos e populismos. Desastrosos paliativos. Líderes como Thatcher provocam debates vibrantes. É aí, na fricção de energias, que emergem as soluções. Isso desde o Big Bang, a origem do universo

LEIA TAMBÉM: “A dona de casa sensata

Por Antonio Ribeiro

04/04/2013

às 5:40 \ França

Tesoureiro de Hollande tem investimentos em paraíso fiscal

Jean-Jacques Augier, tesoureiro do socialista François Hollande na campanha presidencial francesa de 2012, é acionista através da sua holding financeira Eurane de duas empresas offshore em George Town, capital das Ilhas Caiman, paraíso fiscal britânico no Caribe.

A revelação é do vespertino francês Le Monde e do diário britânico The Guardian a partir de dados do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), consorcio americano de investigação jornalística que tem ao seu serviço, 160 repórteres em 60 países.

“Não tenho conta bancaria pessoal nem investimento pessoal direto nas Ilhas Caiman. Investi nas empresas por intermédio da filial na China da Eurane, a Capital Concorde Limited, uma holding que administra todos os meus negócios chineses”, disse Auguier. E arrematou: “O investimento aparece no balanço anual da filial. Nada é ilegal”

Na França, o código geral de impostos determina que se uma empresa com sede no país tem entidade jurídica instalada em paraíso fiscal, diretamente ou através de filial, e se essa entidade não tem atividade econômica real, mas possui bens passivos (dividendos, empréstimos, etc) eles devem ser, obrigatoriamente, declarados ao fisco francês.

Amigo de Hollande, Jean-Jacques Augier, 59 anos de idade, foi colega de formatura do Presidente da França, a turma “Voltaire”, na Escola Nacional de Administração (ENA) pública da França. Fez fortuna depois de ser convidado por André Rousselet, amigo do ex-presidente socialista François Mitterrand, para dirigir em 1987 a companhia de táxis parisienses G7 que à época, operava no vermelho. Após treze anos de administração bem sucedida, deixou a empresa com “parachute doré”, uma indenização de 11 milhões de euros. Além de negócios na China, o Augier edita a revista literária Books e Têtu, o primeiro mensal francês dedicado a leitores homossexuais.

A notícia de investimentos do ex-tesoureiro da campanha presidencial socialista em um paraíso fiscal emerge durante um dos maiores escândalos da política francesa recente que atingiu em cheio o governo François Hollande. Jérôme Cahuzac, ex-ministro do Orçamento da França, foi indiciado pela Justiça por lavagem de dinheiro e fraude fiscal depois de confessar aos juizes de instrução Roger Le Loire e Renaud Van Ruymbeke, possuir conta bancaria não declarada no União dos Bancos Suíços, em Genebra – negou durante quatro meses. Posteriormente, quando foi eleito Presidente da Comissão de Finanças da Assembléia Nacional, transferiu o montante da conta para a filial suíça do banco Julius Baer, em Singapura.  Cahuzac fazia igual a quem ele era o principal responsável de perseguir, sonegava.

 Leia também: “Cidadão acima de qualquer suspeita na República exemplar

Por Antonio Ribeiro

03/04/2013

às 13:11 \ França

Cidadão acima de qualquer suspeita na República exemplar

É um daqueles casos em que a imaginação é obliterada pelos fatos. O parlamentar socialista Jérôme Cahuzac, ex-ministro do Orçamento da França no governo François Hollande foi indiciado pela Justiça por lavagem de dinheiro e fraude fiscal depois de confessar aos juizes de instrução Roger Le Loire e Renaud Van Ruymbeke, do Polo Financeiro do Tribunal de Grande Instancia de Paris, possuir conta bancaria não declarada no União dos Bancos Suíços, em Genebra, durante 20 anos e, posteriormente, quando foi eleito Presidente da Comissão de Finanças da Assembléia Nacional, transferir o montante para a filial suíça do banco Julius Baer, em Singapura.

Seria mais um caso corriqueiro de político se Cahuzac não fosse, ele mesmo, o responsável durante onze meses de caçar sonegadores do fisco francês. Isso em um governo cujo alto escalão é contumaz em ministrar lições de probidade em nome da “Republica exemplar”. E, sobretudo, por ter alegado inocência peremptoriamente desde de dezembro do ano passado quando emergiram as denúncias do Mediapart, um site de informação no web francês.

Em declaração que entrará para a história das lorotas deslavadas pronunciadas com desfaçatez no plenário da Assembléia Nacional da França, a versão atual mais próxima de Pinóquio na França – ou Dominique Strauss-Khan ou Lance Armstrong – disse o seguinte aos seus colegas deputados e sob o foco do canal aberto de televisão Chaîne Parlementaire /Public Sénat: “Eu não tenho e nunca tive uma conta bancaria no exterior, nem agora nem antes.”

O eleitor francês anotou mais um elemento que contribui sobremaneira no descrédito que ele tem pelos políticos e manifesta de forma mais nítida nas altas abstenções das eleições. No país onde se tem mais temor dos agentes do fisco que da polícia, o contribuinte se pergunta por que ele deve pagar impostos sempre mais onerosos se quem os monitora com modos de Big Brother e fome de Gargantua não dão exemplo?

A lorota atrevida de Cahuzac, cirurgião especialista em implante capilar para dissimular a calvice, provocou as perguntas naturais dos momentos onde o guardião da virtude é pego em flagrante delito e, em efeito, os embaraços voam em formação de esquadrilha: o primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault e o presidente François Hollande sabiam das peripécias do seu ex-ministro?

Hollande apareceu na TV com ar enfezado. Disse, de cara, estar estupefato e colérico pela mentira e pelo “ultraje à República”. O governo, de acordo com o presidente, não protegeu seu ex-ministro. A imprensa francesa, em contrapartida, sustenta que o Ministério do Interior havia informado o presidente através de um relatório de três páginas. Havia também outro indício forte. Uma gravação na qual um interlocutor menciona a sua conta secreta na Suíça – peritos dizem que a voz tem alta probabilidade de ser a de Cahuzac. Hollande, ainda segundo ele mesmo, só soube da coisa feia ontem como todos mortais. “Das duas uma, ou o presidente sabia e é grave, ou não sabia e é um ingênuo, o que é igualmente grave”, disse Jean-François Copé, líder da UMP, a principal formação da oposição.

Ademais, Hollande comunicou aos franceses que estava tomando medidas consequentes. Quais são elas? Reforçar a independência da Justiça, um projeto que está sendo elaborado pelo Conselho da Magistratura, a ser votado mais para frente. Segundo, um projeto de lei do governo visando tornar público o patrimônio dos parlamentares e ministros. Uau! Terceira medida para pasmar e completar o “processo de intenções”: “Todo eleito condenado penalmente por fraude ou corrupção perderá o mandato.” Gesto final, embarcou para Casablanca, “We’ll Always Have Paris”, no Marrocos.

Leia também: “Hollande: outros dedos na mesma tomada

Por Antonio Ribeiro

02/04/2013

às 15:24 \ França

Hollande: outros dedos na mesma tomada

No início de mandato, todo governo novo comete erros infantis. “É batata”, diria o Nelson Rodrigues. Isso não significa que por volta dos 45 minutos do segundo tempo, governantes experientes façam só o certo. No entanto, depois de introduzir os dedos na tomada, a tentativa de levar choque torna-se menos provável.

O governo do Presidente da França e Co-príncipe de Andorra, François Gérard Georges Nicolas Hollande, não é assim tão imaturo mais. Os socialistas vão entrar daqui a um mês na puberdade do mandato quinquenal, farão um ano no descontrole do país. Porém, parecem fazer parte de categoria distinta. No lugar de testar se outra tomada passa corrente elétrica, trocam os dedos e os enfiam na mesma. O choque é igual.

O caso mais emblemático foi a criação de uma taxa de 75% nos rendimentos acima de um milhão de euros anuais dos franceses e residentes no país. Em um primeiro instante, a medida causou escárnio e provocou deboche. Quando se deram conta que não era anedota, investidores que tinham um pé atrás em relação a França, recuaram o segundo.

Enricados, como o empresário Bernard Arnault, ao invés de prepararem o formulário de Imposto de Renda, solicitaram residência do outro lado da fronteira. Menos discreto que outras celebridades que vão morar na Suíça ou Mônaco para fugir do fisco francês, Gérard Depardieu virou russo com passaporte entregue em mãos por Vladimir Putin e, doravante, reside oficialmente – ou espiritualmente –  em Néchin, na Bélgica.

"Jamais tive conta na Suíca ou no exterior"À época, o ex-ministro do Orçamento, Jérôme Cahuzac, foi indicado para explicar a tunga governamental. Isso com aquela retórica populista pela qual se aponta os bem sucedidos como causa dos males e sua punição, o desfecho natural. Detalhe edificante: Cahuzac, o responsável no governo socialista francês pela caça aos sonegadores do fisco, acaba de ser indiciado pela Brigada Financeira por lavagem de dinheiro depois de confessar possuir uma conta bancária não declarada na Suíça durante mais de 20 anos – antes negou tudo peremptório em frente aos deputados em sessão aberta na Assembléia Nacional com transmissão em tempo real pelo canal aberto de televisão Chaîne Parlementaire /Public Sénat.

Finalmente, o Conselho Constitucional, a mais alta corte da França, julgou a medida dos socialistas ilegal. Mas Hollande quer testar a mesma tomada com outros dedos. Dito de outro modo: agora, o presidente quer que as empresas paguem os 75%. Nem a administração fiscal apóia a medida que atinge em torno de 2.000 contribuintes e fará entrar menos de 200 milhões de euros nos cofres do estado. “A medida tem um símbologia política”, dizem os socialistas instalados no Palácio do Elysée. De fato, tem mesmo. Contudo, o sinal que ela envia é econômico: não motiva investimentos que a França carece tanto. É o inverso que acontece. Espanta.

A popularidade do “Presidente Normal” quando a França passa por uma crise extraordinária – dívida pública acumulada equivante a 90,2% du Produto Interno Bruto e desemprego com dois dígitos – despenca a velocidade inédita na história da V República desde 1958 quando foi criada. Apenas 3 em cada 10 franceses confiam no governo Hollande. Nicolas Sarkozy levou quatro anos para descer tão baixo. Há também uma outra diferença, a antipatia dos franceses por Sarkozy foi mais por como ele era do que pelas suas ações. A figura de Hollande causa menos desagrado, no entanto para muitos franceses cuja paciência esgotou, a sua ação é nula.

Estava escrito nas estrelas.

Leia também. “Os Arcos da Derrota

Por Antonio Ribeiro

31/12/2012

às 18:04 \ Paris

Excelente 2013

Em 2012, ocorreu fenômeno às margens do Atlântico Sul mais raro do que a visita do furacão Sandy ou de qualquer outra manifestação extraordinária da natureza. A TV Senado levou ao ar em tempo real imagens de onze brasileiros falando português correto no mesmo recinto. E, independente do teor, os argumentos apresentados não brigavam com a relação de causa e efeito. Só isso, já seria suficiente para atrair atenção de cientistas desatentos se considerada a surra recorrente no idioma e na racionalidade no Brasil.

Contudo, ao condenar — em processo impecável e com amplo direto de defesa — os corruptos do mensalão,  uma “sofisticada organização criminosa”, cujo objetivo fracassado era assaltar a República, o time de magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF) matriculou de maneira indelével um fato inédito na história. O momento mais relevante no país durante 2012 enseja esperança de que nenhum indivíduo esteja acima da Constituição e do Código Penal ou Civil. Nem mesmo o timoneiro do lulopetismo, a idolatria que tentou em vão ser chavista e que ainda sobrevive como a versão caprichada do peronismo com suas conseqüências danosas.

Na Europa, o euro completou mais um ano de vida. Isso ocorre quando até demiurgos otimistas da economia vaticinaram o colapso da moeda na sua fase mais crítica e durante o período da sua pré-adolescência – 11 anos de idade.  Caso o euro sucumbisse, as conseqüências seriam funestas para bem alem das fronteiras dos 17 países da Zona do Euro.

A figura central que resistiu ao desastre é impopular em tempos em que  governantes decidem não bem pelo certo, mas segundo as pesquisas de opinião. Ou não decidem pela mesma razão. Se há uma figura que mereça o título de personalidade européia do ano é a chanceler Angela Merkel. Muito desejável que Merkel inspire o Velho Continente carente de desempenho semelhante ao da Alemanha. Em tempo: a eleição do presidente da França François Hollande que alguns diziam trazer novos ventos para Europa confirmou o que estava escrito nas estrelas, uma anedota ruim. O  ”presidente normal” é candidato seríssimo para ser o mais irrelevante na história da Quinta República.

O Blog de Paris deseja um excelente 2013.

Estaremos de volta em fevereiro.

De Paris, um abraço.

Por Antonio Ribeiro

16/12/2012

às 16:13 \ Diplomacia

O Rafale não é para o Natal

Serge Dassault: "Não estão dizendo nada."

François Hollande tentou abrir a conversa com Dilma Rousseff uma, duas, três vezes, mas não avançou um centímetro na encalacrada venda dos jatos Rafale para a FAB”, escreveu no Radar on-line, o meu amigo e colega Lauro Jardim.

O governo francês foi além das investidas de Hollande. Isso até no jantar de gala em homenagem a Dilma Rousseff, no Palácio Eliseu, para 250 convidados – menos Lula que cancelou presença no pós-Marcos Valério. O cerimonial do Quai d’Orsay, o Itamaraty francês, colocou juntos, na mesma mesa, o ministro da Defesa, Celso Amorim, Antonio Patriota, ministro das Relações Exteriores, e o dono majoritário da Dassault Aviation e do jornal Le Figaro, o ex-senador Serge Dassault. Como reforço do lado francês, também Laurence Parisot, a presidente do Medef, o sindicato dos empresários e Jean-Yves Le Drian, ministro da Defesa da França. Ali, o prato principal foi ave de aço recheada de eletrônicos, o Rafale.

No fim do jantar, preparado pelo chef Guillaume Gomez, Monsieur Dassault comentou ao Blog de Paris que a concorrência da Boeing, fabricante do caça americano Super Hornet F-18 estava difícil. E sobre as autoridades brasileiras, lamentou: “Não estão dizendo nada, acho que não será desta vez e não há previsão de quando sairá o resultado”. Nonagésimo sexto homem mais rico do mundo, segundo lista da revista Forbes, Serge Dassault, de 87 anos de idade, considera o seu avião em desvantagem na corrida por ser o mais caro. A razão de acordo com Dassault: o seu caça tem etiqueta estampada em euros enquanto o F-18 é vendido em dólares.

O caça sueco Gripen NP também tem seu preço em euros – é o mais barato dos três concorrentes. Perguntamos ao Monsieur Dassault se ele cogitava de reduzir o preço? “Não, é impossível”, respondeu. Dilma deixou claro em sua na entrevista coletiva a jornalistas franceses e brasileiros que não é momento oportuno para compra dos caças devido a situação atual da economia brasileira.

Em contrapartida, no jantar, entre os queijos e a sobremesa, torta de mousse de chocolate com nozes, François Hollande passeou com Dilma entre as mesas dos convidados. Não há almoço de graça muito menos jantar gratuito. Aliás, o segundo caso, é quase sempre mais oneroso – no particular, servido em louças Limoges e sob o lusco-fusco dos lustres de cristais Baccarat na sede do governo francês. No movimento, o presidente da França apresentou Dilma ao discretíssimo e de temperamento arisco, Jean-Charles Naouri, presidente do grupo Casino que, recentemente assumiu o comando do Pão de Açucar, a maior rede varejista do Brasil. A presidente gastou seu francês dos tempos de colégio: “Soyez le bienvenu.” E repetiu, uma vez mais, sem trocar de idioma: “Seja bem-vindo.”

 

Jantar no Eliseu: homenagem a Dilma com Rafale no cardápio – o convidado Lula ficou no hotel.

LEIA TAMBÉM:

A história da frase “O Brasil não é um país sério” que o francês Charles de Gaulle nunca disse é mais divertida

Por Antonio Ribeiro

11/12/2012

às 22:29 \ Brasil

Em Paris, Dilma defende não a imagem do Brasil, mas Lula

Chefes de estado em viagem ao exterior, quando indagados sobre problemas em seus países, costumam fugir da questão argumentando que, se comentassem sobre o assunto incomodo naquele momento, poderiam denegrir a imagem do país fora de suas fronteiras. O ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill avaliava que era uma boa astúcia, mas o problema vinha depois. Concluía Churchill: “Ao voltar para casa, os governantes tampouco recuperam o atraso.”

Embora pareça que não, foi o caso de Dilma Rousseff em viagem oficial à França. A presidente foi questionada sobre o depoimento à Procuradoria-Geral da República feito pelo publicitário Marcos Valério, operador do mensalão e condenado a 40 anos de prisão, no qual ele afirma que dinheiro do esquema pagou contas pessoais de Lula, que autorizou os empréstimos bancários ao PT, partido do ex-presidente e de Dilma.

“É uma questão que devo responder no Brasil, mas não poderia deixar de assinalar que considero lamentáveis as tentativas de desgastar a imagem do presidente Lula. Acho lamentável”, disse ao lado do presidente da França, durante entrevista coletiva aos jornalistas no Palácio do Elysée. Fica claro que Dilma prefere defender Lula ao Brasil. Diferentemente do que fez, por exemplo, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, ao declarar que as denúncias de Valério devem ser investigadas pelo Ministério Público. Salvo, evidentemente, se Dilma achar que Lula é o Brasil. Neste caso, a situação é mais séria.

Sobre as acusações, Lula, apressadíssimo para se livrar da imprensa, rebateu com o de sempre: “É mentira.” Notícia significativa, mesmo, seria se Lula tivesse dito algo que não vem dizendo desde 2005. E de forma serena, sem o  estranho e permanente ar de fugitivo para um ex-presidente da República.  Constrangido e receoso de ser abordado sobre o depoimento de Marcos Valério, o ex-presidente anulou sua ida ao jantar de gala oferecido por François Hollande em homengem a Dilma Rousseff, no Palácio do Elysèe.

LEIA TAMBÉM:

Em Paris, Okamotto fala sobre depoimento de Valério sobre ameça de morte

Por Antonio Ribeiro

10/12/2012

às 17:30 \ Diplomacia

Lula e Dilma em Paris: submarino e avião

Hotel Bristol: "Meia noite em Paris"

Dilma Rousseff desembarcou em Paris, hoje, às 1h27 da madrugada. No horário da França e durante o sono do presidente François Hollande. A presidente do Brasil foi acolhida no aeroporto Le Bourget pelo cerimonial do Quai d’Orsay, dispositivo do Ministério de Relacões Exteriores francês. Hospedada no Hotel Bristol, Dilma acordou “tarde”, de acordo com sua assessoria e se considerada a diferença de fuso horário entre Brasil e França – três horas a mais em Paris. No entanto, na mesma hora em que desperta no Palácio do Alvorada. E em perfeita sintonia com a atualidade brasileira. A ver.

Pouco depois do meio dia, Dilma almoçou no hotel com o ex-presidente Lula, ausente do Brasil desde que a ex-chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, foi indiciada por corrupção, tráfico de influência, falsidade ideológica e formação de quadrilha. O encontro durou mais de duas horas.

A visita de estado com duração de dois dias, a segunda de Dilma à França e a primeira durante o mandato de Hollande, começa oficialmente amanhã, 11 de dezembro, quando a presidente escoltada pela cavalaria da Guarda Republicana, percorrerá a avenida Champs Elysées decorada com bandeiras do Brasil e da França.

À tarde, Dilma volta a se encontrar com Lula em evento organizado pelo Instituto que leva o nome do ex-presidente brasileiro em parceria com a Fundação Jean-Jaures. O ex-primeiro-ministro francês Lionel Jospin encerra o colóquio que tem como objetivo refletir sobre “os desafios da globalização, das condições para um crescimento harmonioso e sustentável que anteponha o bem-estar dos cidadãos aos resultados econômicos.” Estão previstas intervenções dos ministros da área econômica, Guido Mantega e do francês Pierre Moscovici, ambos veteranos da luta inglória para aumento do Produto Interno Bruto dos seus respectivos países.

Quando a tímida luz do inverno europeu começar a se despedir, Dilma Rousseff será recebida por François Hollande no Palácio do Eliseu onde, depois do encontro, os presidentes responderão perguntas – ou algo assim – dos jornalistas credenciados. A noite, François Hollande e madame Valérie Trierweiler oferecem jantar de gala em homenagem a Dilma Rousseff na antiga residência da madame de Pompadour, amante, amiga e conselheira do rei Luiz XV, a atual sede do governo da França.

É provável que, em algum momento, Rousseff e Hollande irão abordar o assuto que o governo francês mais se interessa no que diz respeito a sua relação “bilateral” com Brasil, como se diz no jargão diplomático. Leia-se o que é de fato, “comercial”. A eventual compra dos aviões caça Rafale, fabricados pela francesa Dassault o que seria um dos maiores gastos militares da história do Brasil. Investimentos, se preferem. Uns 11 bilhões de reais para ser justo com o contribuinte do fisco.

Se depender das autoridades brasileiras temerosas que Dilma possa não aprovar suas declarações, há pouca chance de saber sobre as intenções do Brasil. O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, quando perguntado sobre o assunto, foge apressado como o diabo da cruz, diz que o negócio é com a presidente. O ministro da Defesa, Celso Amorim, outro exemplo ainda mais emblemático, afirma: “Não sei de nada.” Amorim prefere falar da fragata brasileira Liberal, a nau que lidera a Unifil nas águas do Mediterrâneo. E de submarinos. O Brasil construirá cinco deles na sua “parceria estratégica” com a França, entre os quais, um de propulsão nuclear, dito de “ataque”. Faz sentido.

Por Antonio Ribeiro

27/11/2012

às 16:24 \ Futebol

Índice de desemprego explode na França. Normal

Só em outubro, o décimo oitavo mês consecutivo da progressão, o índice cresceu 1,5%, segundo dados colhidos pelos funcionários (empregados) do Ministério do Trabalho. Ou seja, 45.400 indivíduos suplementares da população ativa perderam o emprego. No mês passado, foram 47.000 e ninguém aposta uma ficha que a curva vai se inverter tão cedo. O país sob governo do socialista François Hollande, o presidente “Normal”, tem agora 3,3 milhões desempregados. Se todos os eles fossem reunidos em uma só cidade, a “metropole du chômage” seria o centro urbano mais populoso da França – mais demograficamente importante que Paris intra-muros e com bem maior número de habitantes que Salvador, capital da Bahia.

Por Antonio Ribeiro
 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados