20/03/2012
às 16:03 \ FrançaTragédia nacional, união nacional, reflexão nacional
O mesmo suspeito: um homem. O mesmo traje: roupa escura e capacete preto. A mesma arma: uma pistola automática calibre 45, pesada e lenta (14,9 gramas e 260 metros por segundo). O mesmo meio de transportes: um “superscooter” T-Max 530 da marca Yamaha. O mesmo modo determinado de operar: chega de surpresa, mata a sangue frio e, em seguida, foge rapidamente. E com uma câmera de vídeo atrelada ao corpo, o assassino registra sua barbárie.
O campo de ação até agora, tem um raio de 50 quilômetros, no Sudoeste da França. Em apenas dez dias, com dois intervalos de 96 horas, oito pessoas foram mortas. Todas distintas em gênero e idade, mas com um traço característico: nacionais franceses de origem estrangeira e pertencentes a minorias étnicas ou religiosas – caribenho, norte-africanos muçulmanos e judeus. E outro suplementar, todos morreram com um tiro na cabeça.
A primeira vítima foi o sargento do 1º Regimento de Transporte Aéreo, Imad Ibn-Ziaten, 30 anos, muçulmano de ascendência norte-africana, morto no 11 de março. Quatro dias depois, Abel Chennouf, 25 anos, e Mohamed Legouad, 24 anos, também mulçumanos de origem magrebina, páraquedistas do 17º Regimento de Engenharia, foram alvejados no centro de Montauban. No mesmo ataque, o legionário negro da mesma corporação militar, Loic Líber, 28 anos, filho de familia do território francês ultra-marino da Guadalupe, foi ferido gravemente – desde então, ele permanece em coma.
Até a esta altura, a situação estava na categoria dos crimes intrigantes com as investigações em andamento. Mas a ela se adicionou o horror, o medo, uma dimensão mais ampla, uma onda de choque que abalou a França com ressonância alem fronteiras, de Jerusalém à Washington. Na manhã do 19 de março, o psicopata matou o rabino e professor de religião Jonathan Sandler, de 30 anos, seus dois filhos – Arieh, 5 anos e Gabriel, 4 anos – e a estudante Myriam Monsonego, 7 anos, na escola judaica Ozar-Hatorah, em Toulouse.
A selvageria aconteceu no ardor da campanha eleitoral para Presidência da França, na qual o tema imigração, embora desperte debates calorosos, parece apenas argumento de parte e de outra para ganhar votos. O Presidente recandidato Nicolas Sarkozy fez uma pausa para dizer que se trata de uma “tragédia nacional” e que as vitimas não são outras senão “nossos filhos”. Foi a análise mais sensata que ele fez recentemente sobre franceses de origem estrangeira. O candidato socialista prestou solidariedade, como o rival conservador, foi ao local do crime encontrar os familiares das vítimas. Marine Le Pen, mais incomodada devido a sua retórica anti-imigrantes, advertiu os concorrentes para evitarem a interpretação abusiva ou a exploração política da barbárie.
O candidato centrista François Bayrou propôs uma “reflexão nacional” sobre a “sandice enraizada na sociedade” francesa. Evidente que a “sociedade francesa” não assassinou ninguém. Isso é obra de um psicopata. Mas o ideário que carbura o autor da barbárie não nasceu de geração espontânea. Ele está muito próximo da retórica de alguns políticos franceses que consideram o flerte com a extrema-direita xenófoba simples banalidade eleitoral.
A França foi ferida brutalmente em duas instituições exemplares no que diz respeito a integração de nacionais de origem estrangeira e de estrangeiros “tout court”, “in short”: a escola, onde se forma o cidadão da República, e as Forças Armadas, pelas quais o cidadão é protegido. Nem no esporte, um território normalmente neutro, as diferenças são tão niveladas, sem distinção de origem e religião. É ilusão imaginar que a barbárie tenha fim, mas é muito desejável na França, a exemplo de outros paises, que o discurso de rejeição ao diferente seja menos frequente.
Leia o post do Blog de Paris: “Polícia cerca supeito de massacre em Toulouse. Marine Le Pen tenta capturar o drama para a sua campanha eleitoral”
Tags: França, François Bayrou, François Hollande, imigração, Marine Le Pen, Nicolas Sarkozy, Toulouse
















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