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França

20/03/2012

às 16:03 \ França

Tragédia nacional, união nacional, reflexão nacional

O mesmo suspeito: um homem. O mesmo traje: roupa escura e capacete preto. A mesma arma: uma pistola automática calibre 45, pesada e lenta (14,9 gramas e 260 metros por segundo). O mesmo meio de transportes: um “superscooter” T-Max 530 da marca Yamaha. O mesmo modo determinado de operar: chega de surpresa, mata a sangue frio e, em seguida, foge rapidamente. E com uma câmera de vídeo atrelada ao corpo, o assassino registra sua barbárie.

O campo de ação até agora, tem um raio de 50 quilômetros, no Sudoeste da França. Em apenas dez dias, com dois intervalos de 96 horas, oito pessoas foram mortas. Todas distintas em gênero e idade, mas com um traço característico: nacionais franceses de origem estrangeira e pertencentes a minorias étnicas ou religiosas – caribenho, norte-africanos muçulmanos e judeus. E outro suplementar, todos morreram com um tiro na cabeça.

A primeira vítima foi o sargento do 1º Regimento de Transporte Aéreo, Imad Ibn-Ziaten, 30 anos, muçulmano de ascendência norte-africana, morto no 11 de março. Quatro dias depois, Abel Chennouf, 25 anos, e Mohamed Legouad, 24 anos, também mulçumanos de origem magrebina, páraquedistas do 17º Regimento de Engenharia, foram alvejados no centro de Montauban. No mesmo ataque, o legionário negro da mesma corporação militar, Loic Líber, 28 anos, filho de familia do território francês ultra-marino da Guadalupe, foi ferido gravemente – desde então, ele permanece em coma.

Até a esta altura, a situação estava na categoria dos crimes intrigantes com as investigações em andamento. Mas a ela se adicionou o horror, o medo, uma dimensão mais ampla, uma onda de choque que abalou a França com ressonância alem fronteiras, de Jerusalém à Washington. Na manhã do 19 de março, o psicopata matou o rabino e professor de religião Jonathan Sandler, de 30 anos, seus dois filhos – Arieh, 5 anos e Gabriel, 4 anos – e a estudante Myriam Monsonego, 7 anos, na escola judaica Ozar-Hatorah, em Toulouse.

A selvageria aconteceu no ardor da campanha eleitoral para Presidência da França, na qual o tema imigração, embora desperte debates calorosos, parece apenas argumento de parte e de outra para ganhar votos. O Presidente recandidato Nicolas Sarkozy fez uma pausa para dizer que se trata de uma “tragédia nacional” e que as vitimas não são outras senão “nossos filhos”.  Foi a análise mais sensata que ele fez recentemente sobre franceses de origem estrangeira. O candidato socialista prestou solidariedade, como o rival conservador, foi ao local do crime encontrar os familiares das vítimas. Marine Le Pen, mais incomodada devido a sua retórica anti-imigrantes, advertiu os concorrentes para evitarem a interpretação abusiva ou a exploração política da barbárie.

O candidato centrista François Bayrou propôs uma “reflexão nacional” sobre a “sandice enraizada na sociedade” francesa. Evidente que a “sociedade francesa” não assassinou ninguém. Isso é obra de um psicopata. Mas o ideário que carbura o autor da barbárie não nasceu de geração espontânea. Ele está muito próximo da retórica de alguns políticos franceses que consideram o flerte com a extrema-direita xenófoba simples banalidade eleitoral.

A França foi ferida brutalmente em duas instituições exemplares no que diz respeito a integração de nacionais de origem estrangeira e de estrangeiros “tout court”, “in short”: a escola, onde se forma o cidadão da República, e as Forças Armadas, pelas quais o cidadão é protegido. Nem no esporte, um território normalmente neutro, as diferenças são tão niveladas, sem distinção de origem e religião. É ilusão imaginar que a barbárie tenha fim, mas é muito desejável na França, a exemplo de outros paises, que o discurso de rejeição ao diferente seja menos frequente.

Leia o post do Blog de Paris: “Polícia cerca supeito de massacre em Toulouse. Marine Le Pen tenta capturar o drama para a sua campanha eleitoral

 

Por Antonio Ribeiro

14/03/2012

às 11:42 \ França

Marine Le Pen, o espantalho, queima como fogo de palha

Tal pai, tal filha. Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita a presidência da França, passou as últimas semanas dizendo ter chance mínima de ganhar a eleição? Não. Seria pedir muita lucidez e pouca astúcia. Como o pai fez antes, a filha tentou persuadir os incautos que devido ao sistema eleitoral francês – exige 500 assinaturas de prefeitos para oficializar a candidatura – poderia nem conseguir entrar em campo para disputar o páreo. Menos, né?

O truque velho serviu apenas como mais munição para a candidata exercer seu fundo de comércio. Ou seja, atacar qualquer edifício que não tenha sido erguido pelo Front Nacional. A União Européia, o euro, a legislação francesa em geral, as políticas  governamentais de imigração e integração em particular, etc. Resultado do jogo de cena? Pasmem. Ela conseguiu as 500 assinaturas. É mesmo? Não diga! Os trouxas reincidiram, caíram de novo: Le Pen entra na disputa, melou o jogo!

Quando foi que Marine esteve ameaçada de não ser candidata à presidência da França? Só quando o pai Le Pen quis passar a herança política e alguns membros do Front Nacional acharam que o partido não obedecia automaticamente a linha sucessória familiar. Durou alguns dias, muito antes de começar a disputa eleitoral na França. Mais especificamente, quando o pai decidiu não se candidatar à presidência.

Quando cheguei à França, duas décadas atrás, havia dois políticos jornalisticamente interessantes e originais a meu juízo: o presidente François Mitterrand e o líder da extrema-direita xenófoba Jean-Marie Le Pen. Os demais eram variações de mais do mesmo. Personagens já vistos antes em outros trajes.

Os colegas da Gamma Presse Images, agência em que fui convidado a trabalhar, gostavam de fazer reportagens sobre o primeiro presidente socialista da V República. Le Pen despertava menos interesse e, a bem dizer, um certo incômodo entre os franceses. Eles cobriam o candidato do Front Nacional quase por obrigação de ofício ou, no jargão do futebol, para cumprir tabela. Pior: abordavam o eterno candidato derrotado à presidência, embora representante de uma parcela significativa e crescente da população francesa, como um político igual aos outros.

Dado o seu ideário contrário aos valores republicanos e só democrata porque de outra maneira a existência do Front Nacional não seria permitida pela lei, Le Pen merecia mais atenção e senso crítico mais detido. Durante sete anos fui uma espécie de “setorista” da agência no Front Nacional. A experiência trouxe algum conhecimento sobre a maneira de operar dos lepenistas.

O “milésimo gol” do partido da extrema-direita da França, a glória máxima, foi a chegada de Le Pen ao segundo turno da eleição presidencial de abril de 2002, eliminando o candidato socialista Lionel Jospin do páreo. Causou espanto e arrependimento entre os que decidiram não sair de casa para votar em um domingo chuvoso, seguros que a disputa estava definida.

No segundo turno, a resposta dos eleitores foi previsível. Oito entre dez franceses votaram em Jacques Chirac, o apático opositor de Le Pen. A eleição entrou para história também como a maior surra eleitoral da França.

Desde sua criação, o Front Nacional nunca conseguiu eleger sequer um mísero deputado para a Assembléia Nacional. No máximo, o partido faz um prefeito aqui e um vereador acolá em eleições municipais cantonais e regionais. Seu desempenho nacional é pífio. A atual candidata Marine Le Pen, assim como foi seu pai, é deputada no Parlamento Europeu. Mesmo coligada a representantes da extrema-direita do Velho Continente tem influência mínima em decisões nacionais.

O mais interessante na corrida eleitoral francesa é a semelhança no primeiro turno com a força centrífuga do secador de alface, rúcula e agrião. Os candidatos vão para os extremos para conquistar a sua base e afinidades. Neste sentido, o conservador Nicolas Sarkozy mostrar-se muito mais de direita do que ele é na verdade – está aí, a sandice de propor rever os acordos de livre circulação de indivíduos na União Européia. François Hollande faz igual com a proposta caricatural de taxar em 75% quem ganha mais de um milhão de euros por ano. Pura retórica eleitoral. O mundo real é mais complexo e ninguém é tão ingenuamente boboca salvo se quiser fazer tipo. No segundo turno, os candidatos voltam para as posições de origem. Isso porque se não ganharem o centro, não levam a presidência.

Marine Le Pen? Tal pai, tal filha. Na hora H, ela pode retirar eleitores da direita como o velho plano  “florentino”  de Mitterrand: dar força ao Front Nacional para dividir a direita.  Ou o contrário:  os simpatizantes mais pragmáticos de madame Le Pen suspeitam que outro candidato possa colocar algumas de suas idéias em prática e, como consquencia, votam nele. Aconteceu na eleição de Sarkozy em 2007. Mas enquanto candidata, Marine é um espantalho que queima como fogo de palha. Vistoso, atemorizador, mas não passa disso.

Por Antonio Ribeiro

04/03/2012

às 14:26 \ Sem Categoria

Perna de pau

Jérôme Valcke

Quando o francês Jérôme Valcke, secretário-geral da FIFA, afirmou que os organizadores da Copa no Brasil mereciam “um chute no traseiro”, ele pensou em uma expressão muito comum no seu país: un coup de pied au cul. Soa pesado, mas na França não é tanto quanto no Brasil. Há bem pouco tempo, o ministro da Defesa francês, Gerard Longuet, usou exatamente a mesma elegância ao sugerir como deveriam ser tratados China e Rússia no Conselho de Segurança da ONU devido aos vetos de ações contra ao ditador sírio Bashar Assad. Segundo ele, os dois países deveriam receber coup de pied au cul da comunidade internacional por “recusarem assumir suas responsabilidades”. Seja lá como for, a linguagem não é adequada em parte alguma, completamente inapropriada, sobretudo, para ocupantes de cargos de governança. Denota desenvolturas que Valcke e Longuet não se permitiriam ter com dirigentes do Velho Continente. Isto posto, no fundo das questões, os dois franceses estão certos. Deveriam sim, terem se expressado de outra forma. Em contrapartida, em nada adianta só exibir orgulho ferido. A melhor reação é mostrar efetivamente que também no conteúdo a deselegância não tinha razão de existir.

Sobre o mesmo assunto e mais atualizado, leia o post do Blog de Paris: ” A dama e o vagabundo

A carta com “As desculpas do secretário-geral da FIFA

Descubra aqui onde se come “O melhor filé com fritas de Paris” e também a dica dos vinhos para acompanhar o prato popularíssmo na França.

Por Antonio Ribeiro

16/02/2012

às 11:48 \ França

Candidato já era, resta saber se continuará presidente?

Nova campanha, velha promessa com mar grego ao fundo

Todos sabem do raiar do dia, mas o galo o anuncia todas as manhãs. Nicolas Sarkozy comunicou oficialmente sua candidatura à reeleição para Presidência da França. Trata-se de uma desconfiança entre os franceses, presente desde o dia da posse do presidente que veio caminhando em direção a certeza, até ontem, pouco depois das 20 horas locais, o horário nobre do telejornal de maior audiência do país. Se candidatura de Sarkozy estava na cara embora  ainda não estivesse  no cartaz de campanha, a grande dúvida é bem outra. Ele continuará presidente? A julgar pelas pesquisas de opinião que mostram durante meses uma estabilidade nos números desfavoráveis a Sarkozy,  a resposta é “não”.

O candidato socialista François Hollande lidera com 30% das intenções de voto contra as 25% do presidente. No segundo turno, marcado para dia 6 de maio, a vantagem de Hollande triplicaria, segundo a média de 12 recentes pesquisas de opinião. A razão matemática é a seguinte: a maioria do eleitorado de centro está inclinada a escolher o candidato socialista, os votos da extrema direita, mais exatamente da terceira colocada Marine Le Pen, se forem capturados por Sarkozy, não são suficientemente numerosos para fazer o presidente ganhar e o indíce de indecisos é baixo, apenas 1 em cada 5 eleitores franceses declara anda não saber em quem vai votar.

Na atual conjuntura, Sarkozy espera algo semelhante ao desfecho da surpreendente Batalha de Marengo na qual 22 000 soldados das tropas de Napoleão afrontaram 30 000 austríacos, em 1800. As 17 horas, a batalha estava perdida. Mas às 22 horas, com a chegada do reforço sob o comando do General Desaix, Bonaparte expulsou o exército do Imperador François II para fora da Itália. “Sarkozy já cumpriu a primeira parte do programa”, escreveu o colunista Alain Duhamel, um dos mais agudos observadores das campanhas eleitorais francesas desde a eleição do General De Gaulle. Restam 66 dias para o presidente candidato fazer o resto.

Em um primeiro instante, o estratagema de Sarkozy não será derrubar Hollande. Ele precisa ganhar força, chegar ao segundo turno como principal candidato da direita. Sarkozy irá se mostrar mais radical em certas questões do ele é na verdade ou melhor, do que foi durante seus 5 anos de mandato. Isto para conquistar o eleitorado conservador e em especial os simpatizantes do Front Nacional, a extrema direita francesa ainda hesitantes em engajar-se no seu campo, contrário ao ocorrido em 2007, na eleição que o levou a presidência. A oposição robusta demonstrada pelo presidente ao casamento entre homossexuais e a adoção de crianças por parte de casais do mesmo sexo, é uma amostra do que virá em seguida. Não é um tema que, em tempos de crise econômica aguda, Sarkozy tenha dedicado muita atenção.

Os católicos praticantes, policiais, médicos, agricultores, enfim a base do seu eleitora receberá palavras de agrado e cápsulas de esperança para dias melhores. As visitas às fabricas e usinas vão se multiplicar na tentativa de persuadir a idéia no novo lema de campanha,  “A França Forte”, país onde desapareceram 500.000 empregos nos últimos 10 anos, elevando o índice total de desemprego para perto de dois dígitos.   É mais fácil encontrar na França um pé de jabuticaba que uma família que não tenha um desempregado. Nos 550.000 quilometros quadrados do país se vê o rosto mais dramático da crise: jovens sem perspectivas de trabalho.

Durante o anúncio oficial da candidatura, embora tenha saído-se bem quando escolheu dizer “aprendi” no lugar de “errei”, Sarkozy deixou escapar uma confissão quando abordou o seu desempenho presidencial: “Quero me reaproximar dos franceses”. Ficou claro que ele mesmo se considera distante. Neste sentido, o presidente quer propor, se eleito, dois referendos: um sobre a formação de desempregados com mudanças no benefício do seguro desemprego e outro, tema não menos polêmico, a imigração e abolição de restricões para expulsar imigrantes ilegais.

O problema será ganhar outro referendo, aquele em que François Hollande quer transformar a eleição presidencial. Ou seja, o governo Sarkozy foi bom ou ruim? Se a estratégia do socialista der certo, o presidente sabe que sai perdedor. Tanto sabe que contorna o cerne da questão. Afirma ter passado o mandato cuidando de crises. Elas teriam sido tão fortes que ele não teve tempo de promover as reformas que prometeu. Portanto, precisa de mais 5 anos para terminar o trabalho. Sucede que a crise está presente como nunca na França. Poderia estar pior, como nos casos grego, italiano, espanhol, português ou irlandês? Certamente. Mas sendo assim, há o exemplo da vizinha Alemanha que vai bem melhor que a França de Sarkozy. É por isso que o presidente aponta o lado ao norte do Rio Reno como uma espécie de Terra Prometida, destino para o qual propõe ser o guia. “As idéias me protegem”, diz ele.

Cruriosidade: O mar que serve de fundo do cartaz da campanha eleitoral de Sarkozy – inspirado em dois outros, o de François Mitterrand (paisagem) e de Giscard d’Estaing (slogan) não é francês… mas grego. Trata-se do Mar Egeu que banha a Grécia. A descoberta foi possivel porque o arquivo digital da imagem, feito com o programa Photoshop, traz informação inserida pelo autor, um fotógrafo da agência Tetra Images: “Greece, Clouds over Aegean Sea” – Grécia, Nuvens sobre o Mar Egeu. Veja abaixo a fotografia cujo original é 50 MB e custou 759 dólares:

 

Por Antonio Ribeiro

06/02/2012

às 9:23 \ Europa

Merkel faz campanha para o parceiro Sarkozy

Casal Merkozy: mesmo passo

Ele passa mais tempo com a alemã do que com Carla Bruni, a bela primeira-dama da França. A assertiva popular de conotação jocosa entre os europeus sobre a relação intensa do presidente francês Nicolas Sarkozy e a chanceler Angela Merkel como toda caricatura é exagerada. No entanto, nenhum dueto que dirigiu a França e a Alemanha desde a criação da União Européia (UE), encontrou-se tanto em período equivalente quanto o casal “Merkozy”. Sem contar os contatos diários por telefone, desde junho do ano passado, os dois participaram juntos de sete reuniões de cúpula, embalados sobretudo pela crise do euro.

À doze semanas do primeiro turno das eleições presidenciais na França, Angela e Nicolas protagonizaram um fato inédito. Eles gravaram no Palácio do Elyseé, em Paris, uma intervenção conjunta de vinte minutos que será, simultaneamente, transmitida pela TV estatal francesa France 2 e sua equivalente alemã, a  ZDF. Ainda que camuflado pelas suas funções de chefes de estado, trata-se de engajamento direto de um governante alemão na campanha presidencial francesa como nunca houve. A eventual derrota eleitoral de Sarkozy que vai mal nas pesquisas de opinião, é considerada  por membros do governo Merkel como uma “catástrofe”.

Hollande: assim não

O candidato socialista François Hollande, franco favorito da eleição, já deixou claro que se eleito, sua primeira viagem internacional será à Alemanha para rever a posição comum das duas principais economias da UE e os tratados de cooperação mútua.  Hollande afirma que as medidas rigorosas preconizadas por Merkel para sair da crise, não podem existir sem que haja, ao mesmo tempo, ajuda de dinheiro público para incentivar a retomada do crescimento econômico. Leia-se, retomada do crescimento econômico da França, a situação já existe na margem norte do rio Reno. A posição do socialista sinaliza uma futura turbulência, uma vez que a oposição de Merkel é clara e persistente desde o início da crise.

Pelo segundo ano consecutivo, a Alemanha foi a locomotiva da economia européia, com um crescimento econômico de 3% em 2011, depois de ter crescido 3,7% em 2010. Em contrapartida, a França cresceu 1,5% em 2010 e deveria atingir a  duras penas, 1,7% em 2011. O desempenho permitiu que Berlim reduzisse seu déficit público a 26,7 bilhões de euros. Ou seja, 1% do Produto Interno Bruto. O déficit francês é cinco vezes maior. O outro avanço da Alemanha é a queda do desemprego. Estima-se em 3 milhões de desempregados na Alemanha, ano passado. Ou seja, o mais baixo nível desde a reunificação. Mais de 263.000 desempregados a menos que em 2010.  A taxa de desemprego alemã recuou em 2011 de 0,6% ponto percentual para se estabelecer em media a 7,1%. Na França, aconteceu o inverso: os desempregados aumentam de 152.000 no último ano e a taxa de desemprego aproxima-se de dois dígitos.

“Apoio Nicolas Sarkozy em todos os planos porque pertencemos a partidos amigos. É normal que apoiemos partidos amigos”, disse Merkel durante entrevista coletiva a imprensa. “Em maio de 2009, o presidente francês foi a Berlim e  deu seu apoio a minha reeleição, não vejo qual é o problema? François Hollande esteve no congresso do Partido Social Democrata alemão”, lembrou a chanceler. “Quando o chanceler  socialista alemão Gerhard Schröder esteve na França, quem ele apoiou?” Resposta: a candidata socialista Ségolè Royal.

Sarkozy quer emular na França o “Sonderweg”, exceção alemã, o modelo de sucesso na Europa majoritariamente em penúria econômica – tornou-se quase seu único argumento de campanha eleitoral, em recente entrevista na TV, ele mencionou a Alemanha 15 vezes. Sarkozy se respalda em uma pesquisa que mostra que 7 entre 10 franceses aprovam uma harmonização dos direitos trabalhistas e fiscais entre Alemanha e França. Mais de 80% dos franceses aprovam o reforço da amizade entre os dois  países que se opuseram diretamente em três grandes guerras desde Otto Bismarck e Napoleão III, no século XIX. E não só: 43% dos franceses acham que seu país tem destino comum com o antigo inimigo e portanto são obrigados à convergência de ação dentro da UE. Mais: muitos franceses percebem  oportunidades de emprego na futura necessidade de mão de obra qualificada, devido ao envelhecimento populacional na Alemanha.

Leia o post do Blog de Paris: “Sarkozy, o alemão

Por Antonio Ribeiro

30/01/2012

às 13:46 \ França, Futebol

Sarkozy, o alemão

“Se consegui em cinco anos? Sou lúcido: não.”

Raro encontrar em Paris um carro novo que depois de curto tempo de uso já não tenha, ao menos, um arranhão. Isso porque o número de vagas de estacionamento nas garagens e nas ruas é menor que a quantidade de automóveis em circulação. Apesar do espaço restrito, os motoristas precisam encaixar seus veículos em algum lugar urbano e, fatalmente, a operação implica em danos.

A analogia é próxima com situação da eleição presidencial na França. Os candidatos têm pouco terreno de manobra devido a profunda crise econômica que o país enfrenta, salvo se enveredam em propostas demagógicas que não conseguirão cumprir sem que empurrem o país para mais fundo no buraco. Eles tentam trocar a ordem dos fatores em uma equação de déficit publico gigantesco e orçamento modesto na esperança de mudar o resultado final da conta. Dito de outro modo: fazer das tripas coração. Nicolas Sarkozy não foge à regra, mas tenta fazer, doravante, à maneira alemã.

O presidente foi entrevistado por quatro jornalistas em rede de seis canais de TV no horário nobre de domingo. Estima-se que 16.5 milhões de telespectadores assistiram Sarkozy anunciar o aumento na Taxa de Valor Agregado (TVA) de 19,6% para 21,2% – a taxa equivale ao ICMS brasileiro. A partir de outubro, quatro meses depois da eleição, um carro de 15.000 euros terá 200 euros suplementares de imposto embutido no preço.

O presidente acredita, no entanto, que o acréscimo não incidirá no preço final. O comércio diminuirá sua margem de lucro porque a situação é de retração do consumo.  É o que ele  diz. O candidato socialista François Hollande, de 58 anos, fez saber que, caso seja eleito, eliminará o aumento que para ser aprovado deve ser votado no Parlamento. A medida alinha-se com a mudança feita pelo governo do ex-chanceler social-democrata  Gerhard Schröder em 2004, na Alemanha. (Relembrar é viver: Na mesma época das reformas na Alemanha,  o ex-primeiro-ministro socialista Lionel Jospin introduzia  na França a jornada semanal de trabalho de 35 horas que teve efeito contrário ao desejado, aumentou o desemprego.)

O aumento na taxa sobre o consumo vem como compensação na proposta de Sarkozy exonerar encargos patronais – economia de 13 bilhões de euros – nos salários dos trabalhadores que ganham entre 1,6 e 2,1 SMIC, o salário mínimo francês de 1.400 euros por mês. O presidente deseja aumentar a competitividade do seu país. “Em 10 anos, a França perdeu 500.000 empregos industriais”, disse, observando que para um salário de 4.000 euros, os encargos se elevam a 840 euros na Alemanha e o “dobro disso na França”, afirmou o presidente.

Sem anunciar oficialmente ainda sua candidatura, uma evidência que nem o mais distraído dos franceses duvida desde o primeiro dia do seu mandato, Nicolas Sarkozy, de 57 anos, tentou passar a imagem de presidente corajoso e do administrador zeloso que estimula o crescimento sem gastar. O presidente quer também taxar em 0,1% as operações financeiras das empresas cotadas na França – vai ser aplicado sobre a negociação de credit default swaps (CDS, na sigla em inglês),  o seguro contra calote – e criar, a exemplo do seu oponente socialista, um banco de desenvolvimento com fundo de 1 bilhão de euros para emprestar às pequenas empresas.

Desenhou-se no horizonte o fim da jornada de trabalho de 35 horas semanais quando o Presidente da França afirmou que irá propor que as empresas poderão, a partir do mês de agosto e independente da legislação vigente, concluir acordos com seus funcionários sobre a duração de trabalho  Neste ponto, o presidente mudou ainda que de forma subliminar, o velho slogam de campanha de “trabalhar mais para ganhar mais” para outro mais atual: trabalhar mais para manter o emprego. Ou nos casos mais dramáticos, trabalhar mais tempo para evitar o fechamento das empresas ou a sua deslocalização para fora da França onde o custo do trabalho é inferior. Menos consensual que os alemães,  a maioria dos sindicalistas franceses é radicalmente contra.

Antes da sua intervenção na TV, repleta de informações técnicas para o público em geral, Sarkozy recebeu o apoio da chanceler alemã Angela Merkel. Ela poderá até participar de seus comícios, segundo revelou Hermann Gröhe, secretário-geral da União Democrata Cristã (CDU), o partido de Merkel. No entanto, alguns acham que  a ajuda equivale ao beijo de Judas uma vez que a dirigente alemã encarna a figura máxima da austeridade na Europa que a França, irremediavelmente, acaba sendo obrigada a seguir. O orgulho nacional e o antigermanismo andam de braços dados.

Por Antonio Ribeiro

26/01/2012

às 14:07 \ França

Nicolas Sarkozy: três meses para operar o milagre

Faltam três meses para os franceses iniciarem o processo de escolha do seu novo presidente ou manter o atual, Nicolas Sarkozy. Segundo a média das pesquisas do mês de janeiro, a primeira hipótese parece ser a mais provável. O candidato socialista François Hollande ganharia de Sarkozy com margem de 6,5 pontos percentuais no primeiro turno. Na etapa final da votação, prevista para o dia 5 de maio, Hollande dobraria a vantagem atual sobre o oponente.

O Presidente da França, ainda de acordo com as pesquisas, corre o risco de não chegar ao segundo turno da eleição. Sua posição é ameaçada por Marine Le Pen, a candidata do Front Nacional, o partido da extrema-direita xenófoba francesa. Na terceira posição, a filha e herdeira política de  Jean Marie Le Pen está apenas a 3 pontos percentuais atrás de Sarkozy. A candidata é quem mais tira votos do presidente.

Durante viagem recente à Guiana Francesa, em conversa informal com jornalistas, Sarkozy revelou que caso perca a eleição, abandonará definitivamente a política. Ninguém levou muito a sério. A declaração foi tomada mais como jogada eleitoreira do presidente. Sarkozy tenta há meses sem sucesso fazer o que pode para reverter o quadro desfavorável. Ultimamente a ação se intensificou a ponto de alguns analistas julgarem ser um disfarçado desespero do presidente. Taciturno, ele anda fazendo balanço da sua trajetoria e lembrando líderes europeus – Margaret Thatcher, Gerhard Schroeder e Felipe Gonzalezque fizeram um bons governos, mas foram “injusticados” pelas urnas.

Marine Le Pen ironizou a declaração: “Não se faz confidência a dezenas de jornalistas a não ser que se queira que ela seja divulgada.” O ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin, um dos 10 candidatos com menos chance de morar no Palácio do Elisée durante o próximo quinquênio, foi ainda mais duro com o velho rival. “Foi uma súplica, uma nova versão de Ne me quitte pas lançado ao eleitor”, disse em referência à canção imortalizada por Edith Piaf e Jacques Brel cuja tradução em português é Não me abandone.

O primeiro handicap de Sarkozy é o exercício do poder em tempos bicudos, de dificuldades econômicas. Depois do inicio da crise do euro, independente do ideário, os governantes europeus que se submeteram ao sufrágio foram derrotados ou, como na Itália, perderam a maioria parlamentar. As políticas de rigor, o aumento do desemprego, a angustia sobre o futuro do sistema de aposentadoria e benefícios sociais, mas sobretudo, a falta de perspectiva na retomada do crescimento econômico jogam contra os governos que buscam a reeleição. Na França, este quadro não mudará antes do dia voto.

Nicolas Sarkozy é visto como o presidente cuja ação não impediu ou pior, agravou a degradação do cenário econômico e social de um país no qual os governos – de direita e esquerda – não conseguem equilibrar o orçamento desde 1974. Isso não é uma questão de justiça, se efetivamente Sarkozy tem muita responsabilidade  ou apenas parcial, mas trata-se da vida como ela é. O eleitor fará a pergunta classica  dos fins de mandatos: “Minha vida melhorou depois que ele assumiu a presidência?” Em outro aspecto, Sarkozy será penalizado por algo que, inquestionavelmente, não pode dividir o peso com ninguém, a decepção que causou em tantos que depositaram esperança em 2007 nas promessas que ele não cumpriu.

Tornou-se remota a lembrança do ministro do Interior de atitude determinada, linguagem franca que prometeu uma “ruptura” para arrancar a França do imobilismo e miserabilismo. Já não existe mais a confiança popular no candidato que prometeu livrar o país das garras do sindicalismo radical que impede reformas prementes e de recompensar quem trabalhasse duro, aumentando seu poder aqusitivo.

Aos olhos da maioria do eleitorado francês o governo Sarkozy parece ter beneficiado o mercado financeiro, a especulação, grupos de empresários e executivos de salários extremamente elevados. Gente “parecida com ele”, dizem. No campo das reformas estruturais, a única obra do presidente que merece relevo foi  a de conseguir aumentar a idade para a aposentadoria, de 60 para 62 anos. A liderança, sobretudo, no cenário europeu tem efeito relativo. Em todo caso, não é suficiente para aplacar a imagem antipática e muitas vezes considerada como inadequada para a Presidência.  O francês médio acha que o seu presidente deve ter grandeza, dignidade, ser refinado, distinto e despertar admiração intelectual. Não são bem as características de Sarkozy. As críticas mais fortes ao presidente dizem respeito mais ao seu jeito rompante de governar do que do seu governo em si. Algo que a primeira-dama Carla Bruni só elducorou em modesta medida.

Ainda resta alguma chance a Sarkozy? A resposta é sim. Porém com a condição  de que o Presidente da França consiga demonstrar e convencer os eleitores que o socialista François Hollande é ainda pior do que ele para o futuro do país. Mas com dizia Santo Agostinho, “É preciso entender para crer e crer para entender”. Sarkozy tem três meses para operar o milagre.

Por Antonio Ribeiro

15/12/2011

às 8:07 \ França

Jacques Chirac torna-se o primeiro presidente eleito da França condenado por corrupção

O ex-presidente da França Jacques Chirac foi condenado pelo Tribunal Correcional de Paris a dois anos de prisão com suspensão condicional da pena. A sentença inédita contra um  presidente eleito da França diz respeito ao financiamento ilegal de 2,2 milhões de euros do  antigo partido de Chirac, o Reagrupamento pela República (RPR). O julgamento abordou também a criação de trinta empregos fictícios na Prefeitura de Paris entre 1977 e 1995, período em que Chirac era prefeito da capital francesa. A maioria dos contratados trabalhavam na preparação da campanha presidencial de Chirac, eleito em maio de 1995. Os funcionários-fantasmas  recebiam salários do município – estima-se  o gasto do dinheiro dos contribuintes para pagar remunerações ilícitas em mais de um milhão de euros. O ex-presidente foi condenado por desvio de verbas públicas, abuso de confiança e conflito de interesses por “multiplicar as conexões entre seu partido e a municipalidade”.

“Jacques Chirac faltou com a obrigação de probidade que pesa sobre os responsáveis públicos a despeito dos interesses dos parisienses”, declarou o juiz Dominique Pauthe. O ex-presidente, de 79 anos de idade, que governou a França em dois mandatos consecutivos, entre 1995 e 2007, sempre negou as acusações e afirmou não ter cometido nenhuma falha penal ou moral. “Os franceses sabem que sou honesto”, diz ele.  Chirac não estava presente na sala de audiência durante a leitura da sentença. Os médicos do ex-presidente justificaram a ausência devido a severos problemas neurológicos responsáveis por provocar lapsos de memória. “Para mim, é inadequado comentar o assunto”, disse o atual presidente da França, Nicolas Sarkozy.

Suspensão condicional da pena é um instituto de direito penal com a finalidade de permitir que o condenado não se sujeite à execução de pena de curta duração que priva a liberdade. Dito de outro modo:  mesmo condenado, o réu  não vai preso. No caso de Chirac, a condenação, um choque para classe política francesa, tem elevado valor simbólico na luta contra a corrupção na França e independência da Justiça.

Há quatro meses da eleição presidencial na França, o julgamento histórico relança o velho debate sobre a imunidade total do Presidente da República segundo rege o artigo 67 da Constituição que protegeu Chirac de ser punido judicialmente durante cerca de 20 anos. Muitos  consideram o estatuto penal especial a uma bizarrice na democracia francesa: ser inatacável nos tribunais e, simultaneamente, como todos aqueles que estão sujeitos à justiça, o Presidente da República pode apresentar queixa contra quem bem lhe aprecer.

O marechal francês Philippe Petain, chefe não eleito do governo de Vichy, colaboracionista com os ocupantes nazistas na França, foi o primeiro chefe de estado francês condenado pela Justiça. No fim da Segunda Guerra Mundial, uma corte especial montada às pressas sentenciou o marechal à pena de morte por alta traição. A condenação foi, posteriormente, convertida em prisão perpétua pelo general Charles de Gaulle, à época chefe do governo provisório. A clemência fez parte da política gaulista de conciliação nacional no pós-guerra e em razão da idade avançada do marechal. Ele tinha 85 anos quando foi condenado. Em pena posterior, os franceses apagaram da memória a imagem do herói da Batalha de Verdun na Primeira Guerra Mundial. Não há mais uma só rua na França com o nome de Pétain. Assim como “lula-petismo”, mas por razões distintas, o termo “pétainisme” virou referência pejorativa na França.

Embora condenado em processo que durou 16 anos e ter recebido, quando político ativo, a alcunha de “Super Mentiroso”, Chirac não corre o mesmo risco de Pétain. A maioria dos franceses tem afeição pelo ex-presidente, duraz opositor à invasão anglo-americana do Iraque. Sua popularidade é robusta e alta. Bem, não tanta quanto a de Lula no Brasil, onde magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF)  avisam da possível prescrição das acusações contra os 36 réus do mensalão, o maior show de corrupção do país, no qual a estrela do PT teve brilho indelével.

Leia o post do Blog de Pars: “Europa igual a ela mesma e Inglaterra idem

Por Antonio Ribeiro

03/11/2011

às 1:00 \ Moda

O laço da moda

Christine Lagarde com o noeud lavallière

Enquanto o primeiro-ministro grego George Papandreou parece ter atado um nó para enforcar o seu país, propondo realizar um referendo sobre o pacote de resgate à economia da Grécia, a elegante diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde foi para reunião dos países do G20 na Riviera Francesa com o laço da moda no colarinho. Inspirado no laço favorito dos pintores, artistas e intelectuais franceses do século XIX, o noeud lavallière é “o chic nas últimas” em Paris neste início de inverno europeu. La lavallière está associado ao nome de Louise Françoise de La Baume Le Blanc, duquesa de La Vallière e amante de Luis XIV.

Contudo, Lagarde não enrolou, manteve seu tradicional pragmatismo: “Tão logo o referendo seja realizado, e todas as incertezas sejam removidas, farei a recomendação ao comitê executivo do FMI para liberar a sexta parcela de nosso empréstimo para ajudar o programa econômico da Grécia.”

Este post não foi escrito só para elas. Os leitores podem ensiná-las a dar o laço. Em seguida, o passo-a-passo:

1. Escolha um lenço longo e estreito. Passe o lenço em volta do pescoço equilibrando igualmente cada extremidade e faça um nó simpes como no desenho, cruzando as duas pontas. 2. Dobre a parte de baixo como um acordeão. 3. Passe a ponta superior, por cima do plissado em acordeão.

4. Enlace a mesma extremidade por trás do plissado em acordeão. 5. Puxe ligeiramente para apertar o nó. 6. Afrouxe as extremidades para distribuir o laço de maneira elegante e equilibrada

Leia o post do Blog de Paris – “O sermão do casal Merkozy

Por Antonio Ribeiro

22/07/2011

às 21:26 \ Europa

De federação folgada a estado unitário frágil

Reunidos em Bruxelas, os chefes de estado e de governo dos dezessete países da zona do euro construíram um dispositivo. Os mais pessimistas acham que ele lembra uma bomba de efeito retardado. Outros percebem o plano de regaste à Grécia de 158 bilhões de euros – desta vez envolve credores privados com 49 bilhões de euros, como queria a chanceler alemã Angela Merkel  e o Banco Central Europeu e Sakozy faziam resistência – como um tubo de oxigênio incontornável para fazer respirar um paciente que se morresse, levaria para o buraco outros tantos com deficiência semelhante.

As analogias embora diferentes vão no mesmo sentido. O preço foi alto. Pior: a equação está longe de ser resolvida. Fundamentalmente, qual é o problema? A Grécia não consegue pagar com recursos próprios sua dívida pública equivalente a 150% do Produto Interno Bruto (PIB). Não há perspectivas que isso venha acontecer. O plano de reestruturação anunciado pelo governo do primeiro-ministro Georgios Papandreu tem efeitos limitados para restaurar a capacidade de pagamento e a anêmica economia República Helênica não gera o suficiente para tal propósito. O calote grego é favas contadas, mas só dito baixinho como o ruído das águas correntes e do ramalhar das árvores.

A principal consequência: os vizinhos europeus vão, através de doses homeopáticas, continuar pagando a conta grega – ela aumenta rapidamente enquanto as reservas dos benfeitores vai minguando. A maior parte do dinheiro vai sair do bolso do contribuinte europeu, sobretudo dos generosos alemães que pagam subsídios para cobrir gregos revoltados que sonegam impostos ou nem são taxados. E vão contribuir também para sobrevivência dos bancos que continuam a ter juros de 20% sobre as dívidas soberanas.

A ajuda a Grécia e eventualmente a Portugal, Irlanda, Itália Espanha representam a passagem de uma federação européia com margem de manobra e forte parceria comercial para um estado unitário frágil. Se os países europeus com bom desempenho econômico passarem a financiar sistematicamente as dividas monumentais cavadas pela delinquência administrativa de seus avaros vizinhos que fazem parte da união monetária, vão transformar o euro em pataca para colecionadores de moedas.

Por Antonio Ribeiro

 

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