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Elizabeth II

11/04/2013

às 13:16 \ Europa

O canal e a mancha

O inverno europeu persiste em ocupar período, por consenso científico concedido pelos ocidentais, próprio a primavera. Mas não é a apropriação meteorológica indevida a razão da semana atípica no Velho Continente. Faz tempo em que os dias não passam sem que a chanceler alemã Angela Merkel não seja acusada de responsável por alguma desventura do euro, a moeda comum de 17 países. Seguido de pedido que seus compatriotas paguem a conta. Desta vez, no entanto, as atenções concentraram-se no legado de Margaret Thatcher e no futuro de François Hollande.

Ainda que um e outro tenham confrontado problemas similares, poucos casais poderiam representar tão bem a antítese quanto a fenomenal diferença entre o francês e a inglesa. Nem mesmo a secular rivalidade entre os seus países, separados por bem mais que os 34 quilômetros na parte mais estreita do Canal da Mancha. E, certamente, mais profunda que os 174 metros de água fria e salgada.

Na longa linhagem de governantes, segundo preceitos da Revolução Francesa, o republicano Hollande lembra mais um monarca. A semelhança com a figura trágica de Louis XVI, o rei guilhotinado, honesto e bem intencionado, é notável. Hollande é a principal figura de uma aristocracia política. Independente da cor da bandeira. Tal qual no Antigo Regime, impacientes com a crise econômica e social, e sem que se aviste uma luz ao fundo do túnel, a maioria dos franceses não reconhece mais os privilégios dos seus eleitos como a contrapartida dos serviços prestados à sociedade.

Inegavelmente, Margaret Thatcher tinha mais ares de rainha que Elizabeth II. No entanto, a conservadora modernizou a sociedade inglesa como nenhum outro dito progressista fez em parte alguma no planeta. Estamos falando da Inglaterra dos anos 80. Um país que tinha mercado de trabalho mais engessado e dependente do diktat sindical que a França de 2013. Um ambiente político mais entravado que atual Itália. Uma monarquia, como poder moderador, menos respeitada que na Espanha hoje.

Não é por nada que mentes européias mais lúcidas clamam por mais thatcherismo do que buscam em Hollande, governante mais de promessas que promissor, como atalho para melhores tempos. Não é exatamente liberalismo que querem embora mal não faça para os tempos bicudos. Passivos como Hollande carburam extremismos e populismos. Desastrosos paliativos. Líderes como Thatcher provocam debates vibrantes. É aí, na fricção de energias, que emergem as soluções. Isso desde o Big Bang, a origem do universo

LEIA TAMBÉM: “A dona de casa sensata

Por Antonio Ribeiro

06/06/2012

às 14:27 \ Europa, Futebol

O euro agoniza, viva o Euro!

 

Durante três semanas, a maioria dos europeus – e não só eles – vão acompanhar 16 equipes disputarem 31 partidas de futebol através de 31 câmeras de televisão de alta definição nos estádios da Polônia e da Ucrânia, antigos satélites soviéticos descongelados pela adoção da economia de mercado, onde a cerveja é a mais barata da Europa. O pint, pouco mais da metade do litro, custa 58 centavos de euro em Kiev e 1, 55 euros, nos bares de Varsóvia.

A mini copa sem o Brasil, Argentina, Uruguai e fora a melhor seleção africana do momento deve trazer benefício médio de 7 bilhões de euros para os países sede. Mas nem todos vão lucrar com a Eurocopa 2012. Durante a Copa do Mundo 2010, na África do Sul, por exemplo, a economia inglesa teve queda de produtividade da ordem de 6 bilhões de euros. Os torcedores da ilha devem saber que, quanto mais a equipe inglesa avançar na competição, maior será o prejuízo para o reino de Elizabeth II. “A glória não se calcula assim”, diria Charles de Gaulle, um dos piores amigos e melhores inimigos da Inglaterra.

Quem não gosta do esporte bretão pode encontrar outro atrativo. Contrário ao que acontecia na Inglaterra pela ação de marmanjos despudorados, as partidas do Euro 2012 correm risco de serem interrompidas pela entrada no gramado de feministas seminuas – ou totalmente –  para protestar contra o turismo sexual administrado pela oligarquia mafiosa local. E quem também não gosta dessas surpresas, pode encontrar sempre bom programa nas páginas dos suplementos VEJA Rio, São Paulo, etc. Diga-se de passagem, editadas sob o comando do talentoso jornalista Carlos Maranhão, veterano de todas as copas desde a criação da revista PLACAR.

Quais são os favoritos para erguer os 8 quilos de prata da Taça Henri Delaunay? Antes da bola rolar, a Espanha, atual campeã do mundo, a Alemanha e a Holanda recebem maior numero de apostas. Depois, pode ser qualquer outra seleção. Até a Grécia é capaz de fazer estragos ainda que a competição não seja economia e o euro, por mais valorizado, não tem nenhuma equivalência com a dracma.

A grande questão é saber se Xavi, Inesta e seus companheiros estão realmente tão cansados quanto se mostram e portanto, ansiosos pela chegada das ferias do verão europeu. Ou se vão conseguir, como a França de Zidane, a proeza de ganhar a Eurocopa depois de ter vencido a Copa.

Os governos da Península Ibérica e Itálica bem que gostariam de viver o dilema de La Roja em relação à crise do euro. Porém, seu adversário é bem mais forte que a simpática e multicultural Mannschaft do merengue de origem turca Mesut Ozil. Os teutos jogam como se deve: a linha de meio-campistas nunca está distante dos zagueiros e atacantes, mas eficiência ainda não trouxe títulos para Berlim. Os países endividados do sul da Europa, enfrentam o rigor orçamentário defendido pela chanceler alemã. Frau  Merkel, ainda que pouco apreciada, é quem apita.

O melhor jogador da Europa, o continente que sabiamente transferiu as disputas dos campos de batalha para as arenas esportivas, estará fora das quatro linhas do Euro 2012. Entretanto, Lionel Messi tentará ajudar sua Argentina a classificar para a Copa no Brasil. A maior atração individual, também antes da bola rolar, é o  português Cristiano Ronaldo. Na última temporada, o atacante teve melhor desempenho que Messi.  A vida como ela é. Mas para ganhar, CR7 terá que fazer  esforço de Hercules. Isso porque a Seleção das Quinas – se classificou empatando com Chipre e com a ajuda de derrota norueguesa – é ele mais nove, considerando que Pepe e  Fábio Coentrão entram, cada um, com meio.

A Polônia virou o jogo

Quando os cartolas da União das Federações Européias de Futebol (UEFA) escolheram  Ucrânia e Polônia para sediar o Euro 2012, o binômio parecia o sucesso abraçado com a encrenca. Em plena Revolução Laranja, crescimento econômico superior a 7% do Produto Interno Bruto (PIB), a Ucrânia demonstrava apreço, popular e por parte das elites governantes, pela democracia. O país achegava-se da candidatura para ingressar na União Européia (UE).  À época, a Polônia era governada pelo primeiro-ministro nacionalista Jaroslaw Kaczynski. O polaco marginalizou seu país em disputas estéreis com rivais históricos, a Alemanha e a Rússia. Jogo ruim de assistir.

Cinco anos depois, a situação se inverteu. A Polônia tornou-se a mais recente história de sucesso político e econômico da Europa. O governo do primeiro-ministro Donald Tusk, o único a ser reeleito desde a queda do comunismo, é estável. O país driblou bonito a recessão de 2009 – também desempenho único no Velho Continente. Tem um dos mais rápidos crescimentos econômicos da UE. A Polônia investiu, sem PAC e Delta, 30 bilhões de euros para acolher o Euro 2012. A maior parte do dinheiro serviu para criar infraestruturas e melhorar os transportes dilapidados, em sua maioria, de origem soviética. Só 5% da bolada foi usado diretamente para construção de novos estádios, como o de 58.000 lugares à beira do Rio Vístula, em Varsóvia – será palco inaugural da competição com o Polônia x Grécia, 8 de junho, às 15h45m  (Brasília), um jogo cheio de simbolismos de uma Europa a duas velocidades.

O esforço polonês se insere na ampla tentativa de mudar a imagem de país cinzento que emergiu da era comunista para a modernidade. Resta um grande desafio que vem de outros tempos: controlar as manifestações de grupos racistas e xenófobos nos estádios. Já inciou antes de começar. Durante treino em Cracóvia, um coro de torcedores fascistas insultaram os jogadores holandeses negros. Foram chamados de “macacos”. Isso depois da equipe ter visitado o campo de concentração de Auschwitz para render homenagem às vítimas da barbarie nazista.

Em contrapartida, a Ucrânia ainda tenta recuperar-se de uma contração econômica de 15% devido à recessão da década passada. Mesmo assim, aplicou 8 bilhões de euros nas suas quatro cidades sedes: Kiev, Lviv, Donetsy e Kharkiv. Em apenas 18 meses, foram construídos 4 aeroportos. Para receber os torcedores a Ucrânia tem doravante, 70 novos hotéis. Estima-se que 80% dos visitantes nunca pisaram antes no país. A esperança é que voltem.  Contudo, a imagem da Ucrânia está cada vez mais associada a de uma autocracia com corrupção disseminada.

Os deputados ucranianos vão além dos insultos pesados que acontecem durante as CPIs em Brasília. Trocam sopapos no Parlamento sem complexos. A ex-primeira-ministra e líder da Revolução Laranja, Yulia Tymoshenko, de 51 anos de idade, foi condenada a sete anos de prisão por apropriação de fundos públicos. Ela iniciou greve de fome contra o que alega ser uma vingança pessoal do atual presidente, Viktor Yanukovitch que lhe deu uma surra eleitoral. A situação chegou a suscitar ameaças de boicote ao Euro 2012. Suspeita-se que madame terá que tentar outra ocasião. O pessoal aqui, gosta de bola como ao sul do Equador, embora não manifeste da mesma maneira.

Atualização enviada pela leitora Paula Barcellos: “Os deputados gregos tambem aderiram aos sopapos sem complexos em pleno Parlamento.”

Por Antonio Ribeiro

04/06/2012

às 12:19 \ Europa

“Eu sou a rainha, mamãe”

Elizabeth II por Annie Leibovitz

A rainha Elizabeth II que celebra o Jubileu de Diamante de seu coroamento em 1952, é o personagem vivo mais conhecido da história. No entanto, em tempos de Facebook e redes sociais, onde a privacidade alheia vem se tornando livro aberto para o planeta consultar em um clique, a monarca britânica é das figuras públicas entre as quais se conhece menos a intimidade. Só Philip Mountbatten, o príncipe consorte, embora sempre ao lado haja duvidas que preste atenção, e as arrumadeiras do seu criado-mudo sabem exatamente quais são seus livros de cabeceira? Isso, está claro, se existem.

Desconfia-se que a monarca se dá melhor com os homens do que com as mulheres e, com toda certeza, sente-se bem mais à vontade entre seus cães. Na maioria das vezes, a rainha janta sozinha em frente a televisão. Neste aspecto, encontra ponto de semelhança com muitos súditos e plebeus mundo afora. Mas não só. Elizabeth II, de 86 anos de idade, gosta tanto de cavalos que chegou a revelar, em deliciosa franqueza, o desejo de ter vindo ao mundo não como gente de casta dinástica ou outra, mas na forma de um equino.

A divina providência reservou-lhe outra existência. Mas nem todos se lembram o tempo todo, sobretudo, na intimidade. Em uma querela reconhecida por qualquer família, sua mãe lhe perguntou: “Quem você pensa que é?” A filha refrescou a memória materna: “Eu sou a rainha, mamãe. A rainha!” Quantas filhas – na maioria das vezes preferem ser vistas como princesas – não gostariam de ter o mesmo momento de rainha quando lhes é negada a vontade?

Elizabeth Alexandra Mary foi educada, ou melhor dizendo, foi rigorosamente treinada para manter em permanência uma armadura que não deixa transparecer emoção exacerbada independente da sua natureza. Seu sorriso é forçado e a demonstração de tristeza, como foi no caso da morte da princesa Diana, nunca arrebatou solidariedade ou compaixão. Seria impreciso dizer que a popular monarca dos britanicos como fria considerar fria, ela está sempre morna em público.

Diferente do herdeiro Charles Philip Arthur George Mountbatten-Windsor, o Príncipe de Gales, cujos pontos de vista frequentemente não tem lastro em especialidades e conhecimentos, Elizabeth II jamais toma partido nem matricula-se em debates. Nas horas criticas que requerem seu juízo, ela se expressa de modo oblíquo, propondo mais reflexões do que fornecendo respostas definitivas.

Na regata no Rio Tâmisa que celebrou seus 60 anos de reinado, Elizabeth II escolheu para traje de ocasião, um elegante conjunto branco debaixo de chapéu de igual tom, ornamento que prefere à coroa e tiaras. Era puro contraste com seu convidados próximos. A ostentação de alguns nobres ingleses nestas horas, traz uma certeza, se  todas as medalhas e condecorações representassem serviços prestados ao Reino Unido, Sir Winston Churchill não conseguiria levantar da cadeira para agradecer os aplausos em uma cerimônia solene – ele foi agraciado com 37.

Ser Elizabeth II significa mais oposição ao modo operacional comum e bem menos uma afirmação, imposição de conduta própria. Ela é distinta no senso próprio do temo. Ela é a rainha.

Por Antonio Ribeiro

03/04/2009

às 8:02 \ Europa

A batalha da City de Londres

A batalha da rua Thereadneedle, adjacente ao Banco da Inglaterra, o BC britânico, na City de Londres, lendário centro do capitalismo, não será lembrada nos livros de história. Houve uma vítima fatal: o jornaleiro Ian Tomlinson, 47 anos de idade. Ela aconteceu pouco depois das 19h30, no dia 1 de abril de 2009, enquanto líderes das nações que possuem 80% das riquezas do planeta eram recebidos para jantar com a rainha Elizabeth II. Ian ia para casa depois do trabalho. Ele foi encontrado desmaiado no meio dos protestos contra a Reunião de Cúpula do G20. Cinco horas antes, os vândalos — a imprensa inglesa os chama de “anarquistas” — mostraram sua ira saqueando o Banco Real da Escócia, o RBS, na sigla em inglês. A polícia, sob uma torrente de objetos, abriu caminho entre os manifestantes para sua equipe de paramédicos tentar reanimar a vítima. A ambulância chegou em 10 minutos ao local. Ian morreu durante o trajeto para o hospital.

Na manhã seguinte, dia da Reunião de Cúpula do G20, o comandante Simon O’Brien da Polícia Metropolitana de Londres colocou mais inteligência a serviço da Operação Glencoe, desenhada para conter os vândalos. Ele enviou dois esquadrões ao maior reduto dos manifestantes, um prédio abandonado no leste de Londres. Antes mesmo de tomar o café da manhã, 20 indivíduos foram algemados e detidos. Na City, a tática foi mais laboriosa . A polícia dividiu os manifestantes e os cercou. Para evitar o agrupamento, os policiais garantiram a circulação de veículos entre os manifestantes. A ruas foram evacuadas com ajuda de cavalos e cães da polícia.

Um dos sete condestáveis da Polícia Metropolitana de Londres, o 621CP, montado no seu alazão, urrava: “Saiam do caminho para sua própria segurança”. Veja a foto que ilustra esta nota. Ele e seus comandados empurravam os manifestantes para dentro dos grupos cercados, deixando livre a circulação das ruas. Dentro dos cordões de isolamento, as forças de segurança, com ajuda de seus fotógrafos e policiais equipados com câmeras de vídeo no capacete, identificavam os indivíduos mais violentos. Comandos de elite da tropa anti-choque entravam nos bolsões para retirar os indivíduos — 85 deles foram detidos. Ninguém saia do cerco sem ser revistado. No final do dia, a City reencontrou a normalidade.

Por Antonio Ribeiro

02/04/2009

às 6:17 \ Diplomacia

Ao lado da rainha branca, o rei da cocada preta

Na foto oficial dos chefes de estado que participam da Cúpula do G20, foi reservado para Lula assento ao lado esquerdo da rainha branca de olhos azuis, Elizabeth II. É progresso. Semana passada, em um jantar em Doha, no Qatar, queriam que o presidente brasileiro jantasse ao lado do ditador sudanês. Lula fez mais do que Sarkozy ameaça — alguns julgam ser um blefe. Ele nem sentou à mesa, saiu de fininho.

Emergiu ontem a notícia que está sendo cotizado um trilhão de dólares para aumentar as reservas do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Para se ter uma idéia do montante da dinheirama: é do tamanho da ajuda  do governo americano para reanimar sua economia e um pouco menos do que a China possui em papéis do Tesouro dos EUA. “O Brasil não vai agir como se fosse um paisinho sem importância, temos cacife para colocar dinheiro emprestado para ajudar os países pobres”, disse Lula. A intenção brasileira obedece o conselho da ministra da Economia da França, Christine Lagarde: “Quem paga o gaiteiro, escolhe a musica”. Ou seja, colocando mais dinheiro no FMI, o Brasil aumenta seu poder de influencia no Fundo. Segundo o ministro Guido Mantega, o Japão e a União Européia estão dispostos a injetar, cada um, 100 bilhões de dólares. A Noruega entraria com outros 250 bilhões de dólares.

O diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, recomendou aos líderes do G20 decisões efetivas e rápidas para se livrar dos ativos podres (toxic assets). Sem medidas profiláticas no sistema financeiro, o risco de prolongar a crise permanece — ela já provocou a quebra de 122 bancos no mundo. Os americanos parecem se esconder atrás do volumoso estímulo a sua economia e os europeus, em reformas regulatórias. O FMI calcula que a crise foi responsável pela perda de 2,2 bilhões de dólares em créditos, quantia 20 vezes maior  à estimação americana feita em julho de 2007.

Por Antonio Ribeiro

24/03/2009

às 15:26 \ Terrorismo

De centro turístico a escola de assassinos


O vale Swat no Paquistão, 130 quilômetros da capital Islamabad, foi outrora descrito pela rainha Elizabeth II como a “Suíça” do Império Britânico. Hoje é um campo de treinamento de terroristas Taliban. Veja a reportagem exclusiva — e corajosa —  do jornalista de Stuart Ramsay, da Sky News, sobre a região aqui. O vídeo tem cenas de extrema violência.

Por Antonio Ribeiro

08/12/2008

às 8:38 \ Futebol

O 7 de ouro

Os anos nem sempre foram dourados. Não para o menino prodígio, filho de pescador e cozinheira, criado em biboca da Quinta Falcão, bairro pobre dos menos freqüentáveis de Funchal, na Ilha da Madeira, 650 quilômetros do continente africano. E bem recentemente, apesar de jovem, já famoso e enricado, o tablóide londrino The Sun estampava sua fotografia no centro de um alvo, sugerindo aos leitores: “Mirem entre os olhos”. Contrário do que possa imaginar, não foi campanha, digamos a moda anglo-saxônica, “out of the blue” do jornal, mas resposta ao sentimento coletivo do reino de Elizabeth Alexandra Mary Windsor. Os torcedores enviavam, diariamente, cartas caluniosas – algumas delas continham pó branco para ser confundido com Antrax. Durante programa na TV, o centroavante da equipe inglesa e do Newcastle, Alan Shearer, revelou a vontade de dar-lhe sopapos devido à personalidade arrogante e comportamento mimado. Dentro das quatro linhas, a imaturidade governava seu extraordinário talento. Embora espetaculares, suas fintas eram gratuitas, evanescentes. Isto no esporte bretão, na Inglaterra, um dos melhores gramados do pragmatismo de Charles Sanders Peirce (1839 – 1914), onde a exigência pela busca do gol deve ser permanente, obsessiva para se chegar ao êxito. Ex-colega, o experiente goleador holandês Rudd van Nistelrooy que levou dele um soco no nariz, oferecia veredicto nada acalentador: “Tem muito show no seu jogo, ele não provoca temor nos adversários.” O ocupante da lendária camisa 7 do Manchester United, de George Best (1963 – 1968), Eric Cantona (1993 – 1997) e David Beckham (1993-2003), lembrava uma gazela saltitante entre leões enfurecidos. O fim parecia fixado pelo fado. Mas Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, de 23 anos de idade, batizado em homenagem ao ator e ex-presidente americano Ronald Reagan, driblou o destino. Bem à frente do argentino Lionel Messi, do FC Barcelona e do espanhol Fernando Torres, do Liverpool, ele terminou 2008 com Bola de Ouro.

No auge da forma, alguns jogadores de futebol fazem tão bem à galera que deveriam ser remunerados pela Previdência Social. Este ano, foi o caso de Cristiano Ronaldo, o sucessor de Eusébio e Figo, cujo salário mensal é de 708.000 euros fora bônus e as publicidades que rendem 10 milhões de euros anuais. Durante 4.245 minutos, em 52 jogos, Cristiano Ronaldo estufou as redes em 42 ocasiões – 9 vezes de cabeça. Em média, fez um gol em cada 100 minutos. “Feito raro e ainda mais difícil para quem joga nas laterais do campo”, diz a VEJA.com seu treinador Sir Alexander Chapman Ferguson. Há duas estratégias para ganhar a Bola de Ouro, o prêmio de melhor jogador da Europa, resultado do voto de 96 jornalistas esportivos internacionais, promovido pela revista francesa France Football – todos listaram Cristiano Ronaldo entre os cinco primeiros e, nos 480 pontos possíveis, o português conseguiu 446. A primeira consiste em bom desempenho nos jogos de fim de semana dos campeonatos nacionais e, nas terças e quartas-feiras, ser eficaz na Liga dos Campeões, a competição mais prestigiosa do futebol depois da Copa do Mundo. O outro método é mais radical. Resume a grandes exibições nas partidas importantes da seleções nacionais. A conquista de Cristiano Ronaldo repousa quase exclusivamente nos momentos em que vestiu a camisa 7 do Manchester United, onde ele é o primeiro a chegar para treinar e a deixar as dependências do clube mais rico do planeta 30 minutos depois de seus colegas boleiros. Foi campeão da Premier League inglesa e venceu contra o Chelsea, em Moscou, a Liga dos Campeões dos clubes europeus, sendo artilheiro máximo em ambas as disputas. No Euro 2008, jogando machucado, Cristiano Ronaldo conseguiu levar seu Portugal às quartas-de-final, onde foi eliminado pela Alemanha. A escolha do France Football coincide quase sempre com o troféu da FIFA de melhor jogador do ano, eleito pelos treinadores e capitães das seleções. Os analistas costumam ver Kaká como a unidade de medida e o avesso de Cristiano Ronaldo. Os atletas têm a mesma idade, jogam em posições parecidas, não são goleadores puros, mas possuem a habilidade de construir desde a intermediárea – e às vezes, antes dela – o lance determinante do esporte em que praticam. Em 2007, Cristiano Ronaldo foi o segundo jogador mais votado, depois de Kaká que levou a Bola de Ouro. Este ano, Kaká ficou em oitavo lugar, prejudicado pelas contusões e desempenho ruim do Milan AC.

A partida de estréia de Cristiano Ronaldo no futebol profissional, dia 7 de outubro de 2002, deve-se a quatro meses de depressão nervosa do brasileiro Mário Jardel. Cristiano Ronaldo tomou seu lugar no Sporting Portugal, fazendo dois gols sob os olhares de dona Dolores, sua mãe. Contudo a alavanca definitiva para glória aconteceu em partida amistosa contra o Manchester United. O desempenho de Cristiano Ronaldo impressionou tanto Sir Alex Ferguson que o treinador escocês dos Diabos Vermelhos exigiu encontrá-lo no intervalo. Depois da partida, nova reunião. Resultado: aos 18 anos de idade Cristiano Ronaldo foi jogar na Inglaterra por 18 milhões de euros e lá, formou com Ferguson uma espécie de promissora relação pai e filho. Aqui é preciso pedir tempo. Meu caríssimo leitor, você sabe o que significa para um garoto imigrar para ambiente hostil e exigente, onde o erro raramente é tolerado, sobretudo, em quem se deposita a expectativa de reviver as maiores glórias de um clube fundado em 1878? Na resposta está o germe da personalidade irascível em que se transformou Cristiano Ronaldo. A força motriz para chegar a maturidade. O ímpeto que Sir Alex Ferguson aproveitou para encetar a metamorfose do artista criativo e egoísta em homem de equipe. A julgar pela reação da população do estádio Old Trafford a missão foi cumprida. Ela deixa os versos chauvinistas dos Lusíadas bater nas canelas quando canta, em tradução pudica:

Ele joga na direita,

Ele joga na esquerda,

O garoto Ronaldo humilhou a equipe da Inglaterra.

Ou urra depois de cada bela jogada:

“Só há um Ronaldo.”

Ou ainda :

“Viemos só para ver Ronaldo.”

Distante de 9.000 quilômetros do Velho Continente, amortecido por uma formidável tradição futebolística, o Brasil não costuma reconhecer de imediato as grandes estrelas do futebol europeu. Às vezes, a ficha cai da maneira mais brutal, chega na figura do carrasco. Os casos mais emblemáticos são o de Hendrik Johannes Cruyff que ajudou o Carrossel holandês eliminar o Brasil na Copa de 1972 e do cabila Zinedine Yazid Zidane, personagem central do fatídico 12 de Junho de 1998, no Stade de France, em Paris. Cristiano Ronaldo pertence a este naipe. Homem de ouros. Pode se ir até mais longe sem ousadia. Se não fosse a conquista do bicampeonato mundial, Cristiano Ronaldo não deveria nada à Mané Garrincha, o rei do um contra um e, as vezes, do solitário contra dois, três… Pondere-se que nos tempos de Mané, o jogo era mais lento; os zagueiros ofereciam mais tempo e espaço; os esquemas defensivos, setor que mais progrediu, não eram tão sofisticados quanto os que Cristiano Ronaldo enfrenta. As táticas modernas relegaram aos grandes dribladores uma função menor em detrimento ao sacrossanto conjunto da equipe. Mas como Pelé, Maradona, Zico e Zidane, o dono da 53ª Bola de Ouro não evita entortar adversários ou deixá-los comendo poeira. O que falta a ele, cuja velocidade é louvada por Kaká e os tiros a partir de bola parada, atormenta os goleiros mais confiantes? Segundo Sir Alex, um treinador feito sob medida para os talentosos jogadores intratáveis, Ronaldo precisa encurtar o tempo de suas tomadas de decisão. O dilema do “driblo, passo ou enfio o pé”?

Domingo, 7 de dezembro, Cristiano Ronaldo foi buscar sua Bola de Ouro durante o programa Teléfoot, do canal de televisão francês TF1. Sua alegria era quase do tamanho da ansiedade de receber o prêmio quando na semana passada, o ganhador foi anunciado. “Eu sonho como este momento desde menino”, disse ele, acariciando o objeto de 8 quilos de metais nobres e brilhantes. Longe dos gramados, Cristiano Ronaldo tem bem menos interesse. Provoca desconfortável antipatia pela incontrolável pretensão e enseja o perigo de quem sabe bem uma coisa só, no caso: jogar bola. Concede-se não é pouco. Quanto ao Ballon d’Or, o vencedor fez apenas um comentário: “Ela é pesada.”

Por Antonio Ribeiro

 

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