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CRS

19/09/2012

às 9:12 \ França

Charlie Hebdo, tablóide satírico francês, coloca mais lenha na fogueira

Intocáveis 2 : "Não se deve zombar"

As embaixadas e escolas francesas no estrangeiro estão com dispositivo de segurança reforçado. Algumas, em mais de 20 países de maioria muçulmana, poderão ser fechadas durante 24 horas na sexta-feira, dia de culto sagrado no Islã.  Na Tunísia, as aulas serão suspensas a partir de hoje e permanecerão assim até segunda-feira. Trata-se de uma precaução do Quai d’Orsay, o Ministério de Relações Exteriores da França. Por que?

Circulou hoje na França a edição semanal do tablóide satírico Charles Hebdo. A edição cuja capa é o desenho de um judeu ortodoxo empurrando uma cadeira de rodas na qual está sentado uma figura trajando túnica e turbante. Ambos dizem, “Não se deve zombar”, debaixo do título Intocáveis 2, em referência ao recente sucesso de bilheteria do cinema francês.

Às 9 horas em Paris não havia mais um só exemplar dos 75.000 a 2,50 euros colocados a venda nas bancas. A publicação, esgotada em poucas horas, trouxe nas páginas interiores caricaturas de Maomé. Uma delas retrata o profeta do Islã deitado na cama e parafraseando a personagem fogosa, interpretada por Brigitte Bardot, no filme cult, “O Desprezo”, dirigido por Jean-Luc Godard, em 1963: “E meu traseiro, você gosta do meu traseiro?” Outras imagens legendadas são mais vulgares.

A edição do Charlie Hebdo com caricaturas de Maomé circula em um momento tenso, seguido à difusão no Youtube do filme “Innocence of Muslims” (“A Inocência dos Muçulmanos, em tradução livre do inglês). O filme foi usado como justificativa para 28 mortes – 12 delas aconteceram em um ataque suicida em Cabul, no Afeganistão –, invasões a representações diplomáticas e violentos protestos antiocidentais, em países de maioria muçulmana.

Stephane Charbonnier, conhecido pelo apelido “Charb” e diretor do Charlie Hebdo, afirmou em entrevista à emissora de rádio francesa RTL que a publicação das caricaturas no tablóide podem gerar polêmica e avançou sua posição: “Se começamos a questionar o direito de caricaturar ou não Maomé, se é perigoso ou não fazê-lo?, a questão seguinte será se poderemos representar os muçulmanos no jornal? Depois vamos perguntar se podemos mostrar seres humanos?, etc, etc. E no final, não mostraremos mais nada. Neste caso, a minoria de extremistas que agitam o mundo e a França terão ganhado.”

Não é a primeira vez que o Charlie Hebdo considerado de ideário “anarquista de esquerda” causa furor na França, onde vive a maior comunidade de muçulmanos da Europa – 6 milhões, pouco menos de 10% da população total do país. O jornal satirico tornou-se protagonista frequente no caloroso debate que tenta definir a fronteira da liberdade de expressão e a provocação ofensiva. Criar polêmica é quase a razão de sobrevivência do tablóide de tiragem reduzida (45.000 exemplares por semana, 11.000 assinantes). O jornal precisa vender, no mínimo, 30.000 explares por semana para empatar com as despesas.  Entretanto, a polêmica configura também a oposição entre a velha tradição anticlerical francesa e outra, ainda mais antiga, a do Islã que não admite nem representação figurativa de Alá.

Em 2006, o tablóide reproduziu as caricaturadas de Maomé publicadas primeiro no jornal dinamarquês Jyllands-Posten – encetaram protestos de muçulmanos e vandalismos por parte dos mais radicais, matando pelo menos 50 pessoas. Organizações muçulmanas francesas atacaram a publicação na Justiça. O tablóide foi inocentado em um processo que teve François Hollande como testemunha da defesa. Em novembro do ano passado, as vésperas de publicar uma edição entitulada “Charia Hebdo”, redação do Charlie Hebdo, situada no vigésimo distrito de Paris, foi incendiada e o site do tablóide pirateado. Desde o anúncio da publicação das caricaturas, os arredores da sede do tablóide estão protegidos pela tropa de choque da polícia francesa, a Companhia Republicana de Segurança (CRS).

Durante a inauguração da ala de Artes do Islã, no Museu do Louvre, François Hollande, sem fazer nenhuma referência especifica, lamentou “o obscurantismo que aniquila os princípios e destrói os valores do Islã, provocando a violência e o ódio. A polícia francesa estuda se autoriza uma manifestação programada para sábado, dia 22 de setembro em Paris e no resto da França em protesto contra o filme de 14 minutos e as caricaturas publicadas no Charlie Hebdo. A 15 de setembro ocorreu uma primeira manifestação – não autorizada – nos arredores da embaixada dos Estados Unidos, em Paris. Foram detidas 152 pessoas, principalmente salafistas.

Atualização: 70.000 exemplares da mesma edição do Charlie Hebdo que circulou hoje irão novamente às bancas na sexta-feira, 21 de setembro, aumentando a tiragem total desta semana para 200.000 exemplares. O recorde de vendas do tabloide aconteceu em 2005, quando da reprodução das caricaturas do jornal dinamarquês: 480.000 exemplares. O site do tablóide na internet está bloqueado.

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