Blogs e Colunistas

Celso Amorim

05/07/2009

às 4:11 \ Diplomacia

Em Paris, o zagueiro da paz derruba o G8

Lula chegou em Paris. Nos últimos 40 dias, o presidente visitou 12 países entremeando escalas no Brasil. Nenhuma no Senado Federal, embora tenha mantido, de longe, forte influência no que lá acontece. O território da câmara alta brasileira não deixa de ser, nos últimos tempos, estrangeiro — pelo menos no que diz respeito a quem ele representa. Lula chegou no aeroporto Le Bourget apresentado o atestado de óbito do G8, a reunião dos paises mais ricos — e agora, entre os mais endividados do planeta. Para o presidente, o grupo não tem mais legitimidade. “Para discutir a questão econômico financeira do mundo, o G20 é o foro ideal”, disse Lula com incontida satisfação

No particular, é inegável, Lula parece com os brasileiros. Ambos acham que certas instancias perderam o laço que as atrelam com a realidade. É o caso do Senado. Não é diferente com G8, o clube restrito não consegue mais decidir e, sobretudo, implementar suas medidas sem a participação de outros países, entre eles o Brasil. A próxima reunião do grupo, dia 8 de julho, na Itália, terá a presença também do G5 (Brasil, Índia, China, México e África do
Sul) e do Egito.

Boa notícia para o Brasil? Pode ser, mas não pelos motivos apresentados pela insatisfatória justificativa do governo. Brasil e países do BRIC ganharam influência pela forca crescente de suas economias. O resultado deve bem mais a produção de riquezas da sociedade civil do que da diplomacia considera, entre outras bizarrices, a questão das eleições presidenciais iranianas como disputas entre as torcidas de Vasco e Flamengo.

Parece ao condutor desta percepção que o Irã de Mahmoud Ahmadinejad lembra a Venezuela de Hugo Chavez. Quer dizer, a oposição perdeu (sic) e descontente, parte para o golpismo. É o mesmo argumento que defende Sarney: “Querem ganhar no tapetão.” (Ainda se contará aqui a penosa missão dos tradutores oficiais em transpor metáforas sobre o esporte bretão que Lula usa nas conversas com chefes de estado).

Lula chegou em Paris e foi hospedar-se na residência do embaixador do Brasil na França. Estava previsto que fosse para um hotel de luxo, cinco estrelas no Guia Michelin, Le Meurice. Aparências mantidas, resta saber ao certo que Lula veio fazer em Paris? Segundo o protocolo, o presidente desembarcou na capital francesa no sábado para receber na terça-feira seguinte prêmio na Unesco. Celso Amorim, elabora um pouco diferente, sem subtrair a informação oficial: « O presidente preparara a reunião do G8 em um lugar tranquilo. »

Segundo a Agência Brasil, o Felix Houphouët-Boigny, o prêmio que será entregue a Lula,  « é uma homenagem a personalidades que se destacam na defesa da paz. » Procurado com afinco de mini submarino francês, qual foi a « defesa da paz » encontrada pela comissão da Unesco, comandada pelo ex-primeiro-ministro português Mario Soares? Por enquanto, o motivo mais evidente da visita a Paris é a fuga da guerra. Melhor dizendo, do barulho. Reação provocada pela discordância de padrão moral na personalidade do presidente cujo milésimo gol aconteceu durante o mensalão. Repetiu agora com Sarney. Neste aspecto, Lula continua igual a ele mesmo.

Por Antonio Ribeiro

19/02/2009

às 7:23 \ Imprensa

Informação deve ser analisada, jamais menosprezada

A revista semanal suíça Die Weltwoche afirma que Paula teria assinado a confissão da farsa, informação que seu advogado Roger Müller não negou até agora. A Folha de São Paulo diz que publicação é “próxima da direita nacionalista” suíça. Isso não significa uma desvantagem no caso. Para a credibilidade da informação, tanto melhor que a publicação seja “próxima da direita nacionalista.” Por quê? O Partido do Povo Suíço conta com vários ex-policiais em suas fileiras, não só simpatizantes, como também membros. Por exemplo, o vice-presidente do SVP, Yvan Perrin, foi policial em Neuchâtel. Consequência: a Die Weltwoche tem mais fontes de informação na polícia suíça do que qualquer outro órgão de imprensa.

Informação, seja qual for, deve ser sempre analisada, jamais menosprezada.

É preciso considerar também que o caso de Paula Oliveira tornou-se uma questão de honra para os suíços. Eles sentiram-se profundamente ofendidos com as declarações de Lula e as de Celso Amorim. Não será surpresa que a Justiça suíça toque o caso de forma exemplar. Faz parte do processo a predisposição das autoridades suíças de não ferir suscetibilidades no Brasil.

Por Antonio Ribeiro

15/02/2009

às 10:11 \ Sem Categoria

Vamos de mal a pior

A Sociedade Secreta do Pentagrama (SSP) apresentou uma nova teoria na praça. Ela sustenta que o aumento de atos xenófobos contra brasileiros na Europa está na razão direta da crise econômica do Velho Continente. Assim como a afirmação de Von Klaus Hart, correspondente em São Paulo do jornal suíço Neue Zürcher Zeitung, que em cada dez brasileiros, sete são xenófobos, ainda não foi apresentado os dados nos quais a SSP baseou-se para formular o novo postulado. É pouco provável que eles surjam com a mesma velocidade que o vaticínio formulado por Lula e Celso Amorim no caso da advogada pernambucana Paula Oliveira. E justiça seja feita, nem com a rapidez em que o Instituto de Medicina Forense da Universidade de Zurique apresentou seu relatório.

Por Antonio Ribeiro

14/02/2009

às 19:22 \ Europa

“Nazistas, nazistas!”


As reações ao caso da advogada pernambucana Paula Oliveira foram, em um primeiro instante, de precipitação, seguida de indignação estapafúrdia. Divulgado o relatório do Instituto de Medicina Forense da Universidade de Zurique, há um silêncio sepulcral e tentativas para encontrar uma saída honrosa. É vergonha pura. Ainda bem que ela existe, embora não se estenda aos dois protagonistas na reverberação do triste episódio: Luis Inácio Lula da Silva e Celso Amorim. Uma vez mais, eles desconversaram para tocar a bola para frente.

A comoção nacional não nasceu de geração espontânea. Ela foi motivada pelas informações
 que chegaram da Suíça e sobretudo, de um pai, ainda que respaldado pela experiência do direito e assessoria parlamentar, totalmente envolvido pela emoção — perfeitamente natural dadas as circunstâncias. Alguns colegas caíram, ao que tudo indica, em um conto do vigário — ainda que tenha sido provocado por distúrbios psíquicos. Acontece. Não devem ser levados à fogueira da inquisição.

A televisão tem uma capacidade de ressonância formidável. Ela merece ser usada com cautela — a melhor reportagem não é aquela em que se leva o telespectador às lágrimas. Nas tragédias, o jornalismo encontra seus melhores momentos s quando economiza adjetivos, superlativos e suposições. O simples relato dos fatos tem uma força fenomenal, dispensa aditivos. Há um provérbio latim que diz o seguinte: contra facta non sunt argumenta – contra o fato não há argumento.

Qualificar alguém de “nazista”, fora do período que compreende o início dos anos 30 até metade dos 40 é, em primeiro lugar, uma imprecisão. O nazismo foi algo sem paralelo na humanidade. Por quê? Porque em nenhum momento da história houve a sistematização da morte premeditada com tamanho requinte. Houve casos que chegaram perto, mas não foram iguais. O imperador Adriano, por exemplo, no contexto da ocupação do Império Romano, matou mais hebreus do que Hitler. Nem por isso pode ser considerado nazista. Bem entendido: o precedente não atenua o genocídio seguinte. As repercussões do caso da advogada pernambucana Paula Oliveira trarão prejuízos a ela, a imigrantes brasileiros, a diplomatas, advogados e jornalistas que trabalham no exterior. E à imagem do Brasil. É uma pena.

Por Antonio Ribeiro

07/11/2008

às 15:12 \ França

“Quem paga o gaiteiro escolhe a música”

A primeira-dama da França, Carla Bruni-Sarkozy, não faz parte do governo. Mesmo se fizesse, não seria difícil saber quem é a mulher mais elegante do executivo francês. Isso porque a ex-atleta de nado sincronizado, Christine Lallouette Lagarde, de 56 anos, comanda o Ministério de Economia, da Indústria e do Emprego. A primeira mulher a ocupar o cargo. Lagarde é também vereadora em Paris. Ontem à noite, ela estava atrasada para o nosso encontro. Passou o dia explicando aos senadores porque a França, ano que vem, terá um crescimento econômico pífio. Sua projeção estima de 0,2% à 0,5% do Produto Interno Bruto — o FMI calcula que ele será ainda menor e desconfia da possibilidade de não haver algum. Se a França mergulha na recessão, Madame Lagarde, não parece perder o fôlego.

Sorriso cativante, Lagarde chegou às 20h15, no sétimo andar do Ministério de Economia quase às moscas. Cumprimentou os presentes e foi logo, segundo rege a sua educação refinada, pedindo desculpas. Não foi o atraso de um quarto de hora a sua primeira preocupação, embora ele tenha sido mencionado logo em seguida. Lagarde lamentou o desconhecimento dos detalhes da sua viagem ao Brasil. Sábado, 7 de novembro, ela desembarca às 13 horas em São Paulo para a reunião do G-20 Financeiro, grupo formado pela União Européia, pelos membros do G-8 (os sete paises mais ricos e a Rússia), pela Austrália e pelos emergentes – Brasil, Argentina, México, Coréia do Sul, China, Índia, Indonésia, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia. A crise financeira mundial criou um déficit no sono da ministra. “Dormirei no avião,” disse Lagarde quando perguntada pelo Blog de Paris, se planejava algum descanso no Brasil.

A mesa estava repleta de quitutes e bebericos sem álcool. Emergiu a dúvida se estavam ali para manter a boca cheia de quem iria sabatinar a ministra ou se serviam para amenizar a fome de Lagarde. Em todo caso, a ministra, ex-estagiária do parlamentar republicano do Maine, William Cohen, Secretário da Defesa de Bill Clinton, mostrou apetite em responder. Falou, sem papas na língua, atitude rara em políticos franceses. A conversa esquentou quando foi abordada a reivindicação brasileira para ter maior participação nos poderes decisórios do Fundo Monetário Internacional. Lagarde sorriu: “O Brasil sempre pede muito, mas há um adágio irlandês adequado para a situação, quem paga o gaiteiro escolhe a música.” Lagarde afirmou que se o governo Lula não colocar mais recursos no Fundo, a situação ficará igual. Clara, direta, mas cuidadosa para não ferir suscetibilidades, emendou: “Comment va Celzô?” A referência ao ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, serviu para a ministra fazer saber da sua “adoração” pelo Brasil. Como o colega brasileiro tem sentimento análogo em relação a França, segundo Lagarde, ficou a impressão que estamos nos melhores dos mundos.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, vem apregoando seu desejo de refundir o capitalismo — ele será colocado a mesa de discussão na Cúpula de Washington, a reunião dos chefes de estado e de governo do G20, no dia 15 de novembro. O que isso significa na prática? Lagarde baixou a bola para evoluir em um terreno que domina. “Não vou embarcar em grandes discussões ideológicas. Prefiro dizer que a proposta francesa vai no sentido do aumento da regulamentação dos mercados, de maior transparência nas atividades de investidores e operadores, redução dos riscos, fiscalização de operações em paraísos fiscais. Apesar do FMI já ter passado por uma reforma interna meticulosa, a ministra defende uma reorganização do Fundo. A França quer o organismo como coordenador financeiro internacional, monitorando a iminências das crises para possibilitar uma prevenção mais efetiva. A ministra nega que a França propõe, como foi do entendimento alemão, transformar o G20 em uma espécie de governança financeira planetária. “Ninguém é louco de acreditar que podemos organizar um governo econômico mundial.”

Há na França uma percepção de que a crise financeira mundial trouxe, finalmente, a vitória do modelo de intervenção do estado exercido no país desde o Rei Sol, Louis XIV. A Inglaterra e o EUA, economias liberais, estariam mais flexíveis para aceitar as propostas francesas. A vasta experiência internacional, a passagem pela iniciativa privada nos EUA, no escritório de advocacia Baker & McKenzie,  sedimentou em Lagarde a convicção de que a jactância pode emperrar os mais simples dos acordos. A ministra, em contrapartida, dá primazia ao trabalho conjunto no G-20 para chegar a denominadores comuns. Sua passagem pelo Brasil, onde 500 empresários nacionais vão encontrar 150 representantes de pequenas e médias empresas francesas, Lagarde quer preparar as bases de um novo Breton Woods, o tratado que rege o sistema financeiro internacional desde 1944.

No final da conversa, madame Lagarde, de tailleur verde, ornado por um colar de jade chinês, pediu sugestões do que fazer durante seu curto tempo livre em São Paulo — ela vai se hospedar no Hotel Hilton. “Madame la Ministre, a culinária é o que há de melhor naquela selva de pedras ou pegue o avião e vá para o Rio.” Lagarde quis saber sobre o ano da França no Brasil. O jornalista inflou bochecha e a espetou com o dedo indicador — o gesto entre os franceses significa conversa mole. “Aprecio o ceticismo nos homens”, disse. “Madame la Ministre, as relações entre as empresas brasileiras e francesas estão muito mais avançadas, produzem mais resultados que o salamaque entre os governos.” Lagarde olhou para os assessores e disse: “Concordo.”

Por Antonio Ribeiro

 

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