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Celso Amorim

22/03/2011

às 7:09 \ Diplomacia

Alvorada e batucada

O princípio da não intervenção e respeito à soberania é posição tradicional da diplomacia brasileira. Isso vem lá de trás, dos tempos em que eram frequentes as intervenções estrangeiras nas Américas. Em um primeiro instante pelas potencias coloniais européias e depois pelos Estados Unidos. Ela foi substituída  mais recentemente no governo Lula por ações incisivas, posicionamento querido ao ex-chanceler Celso Amorim com aval do ex-presidente. Achou-se durante oito anos que se poderia resolver qualquer pendenga, em qualquer lugar e que, no final, isso traria um papel mais relevante para o Brasil no cenário internacional. Não foi isso que aconteceu. O que modificou a percepção do Brasil no exterior foi a força da sua economia movida pelo espírito empreendedor dos brasileiros, da sociedade civil e não a diplomacia aventureira e de viés ideológico de Lula-Amorim.

A abstenção do Brasil na votação do Conselho de Segurança da ONU tem as vantagens e inconvenientes da neutralidade. O país não precisa sustentar posição quando não tem lastro, mas também não estreita alianças em horas graves. É tática de jogo catalogada nos anais da diplomacia desde priscas eras. Agora é, no mínimo, bizarro lavar as mãos na iminência de um massacre, quando o mais forte está pronto para esmagar o mais fraco.  O caso de Srebrenica na Bósnia, em 1995, onde a comunidade internacional acompanhou impassível o assassinato de mais de 8.300 bósnios muçulmanos pelas tropas regulares e milícias da Serbia. Ainda com toda problemática na ação militar das forças de coalizão, evitou-se um massacre em Benghazi, reduto dos rebeldes contra  o coronel Muamar Kadafi no leste da Líbia. Isso é simplesmente i ne gá vel. Contudo, as relações entre países são distintas das relações entre pessoas. Na grande maioria das vezes, elas não são conduzidas por princípios morais, mas por interesses de cada parte.

Isso nos remete a seguinte questão: o Brasil serve melhor aos seus interesses quando defende o cessar-fogo na Líbia? Detalhe edificante: o Itamaraty lamenta a perda de vidas que diz serem decorrentes do “conflito no país”, omitindo a responsabilidade do coronel Kadafi. Não é a posição de vasto consenso que sustentou a intervenção militar no norte da África. O Brasil sempre ganha  quando alinha-se claramente com a maioria contra a tirania. Desta vez, tem a singularidade de reunir na linha de frente europeus, americanos e árabes.  Nesta altura, o Brasil está em cima do muro e de costas para ela. As posições isoladas podem parecer altivas manifestações de auto afirmação e de independência, mas elas conseguem fragilizar até as grandes potencias – condição que força respeito no mundo atual não só pelo poderio bélico e econômico, mas também pela defesa de princípios e valores universais.

Para arrematar: seria bom saber se o Brasil informou ao presidente americano Barack Obama que, seguido à sua partida, o Itamaraty iria imediatamente soltar uma nota – acão coordenada nos bastidores com Rússia, China e Índia que  se abstiveram na votação do Conselho de Segurança da ONU. É verdade que ela confirma uma posição já tomada, conhecida. Mas no mínimo, denota bom tom avisar que se irá enfatizar uma posição oposta ao empenho de país amigo e aliado. Caso contrário, fica a impressão de uma rasteira por trás. Se a visita de Obama ao Brasil – os americanos creem ter sido algo semelhante a final de semana de folga – tinha como objetivo principal alavancar as relações bilaterais entre os países, seria uma pena não expulsar completamente a velha desconfiança.

A nota do Itamaraty:

Ao lamentar a perda de vidas decorrente do conflito no país, o Governo brasileiro manifesta expectativa de que seja implementado um cessar-fogo efetivo no mais breve prazo possível, capaz de garantir a proteção da população civil, e criar condições para o encaminhamento da crise pelo diálogo.

O Brasil reitera sua solidariedade com o povo líbio na busca de uma maior participação na definição do futuro político do país, em ambiente de proteção dos direitos humanos.

O Governo brasileiro reafirma seu apoio aos esforços do Enviado Especial do Secretário-Geral da ONU para a Líbia, Abdelilah Al Khatib, e do Comitê ad hoc de Alto Nível estabelecido pela União Africana na busca de solução negociada e duradoura para a crise.”

Por Antonio Ribeiro

17/05/2010

às 21:00 \ Diplomacia

Os 10 pontos do acordo assinado pelo Irã, Brasil e Turquia:

1. Nós reafirmamos nosso compromisso relativo ao Tratado de Não Proliferação (TNP) e, em acordo com os artigos relacionados do TNP, lembramos o direito de todos os Estados membros, principalmente a República Islâmica do Irã, de desenvolver pesquisa, produzir e utilizar energia nuclear (assim como um ciclo de combustível nuclear que inclua atividades de enriquecimento) para propósitos pacíficos.

2. Nós expressamos nossa forte convicção de que agora temos a oportunidade de começar um processo que criará uma atmosfera positiva, construtiva, de não confronto, que leve a uma era de interação e cooperação.

3. Nós acreditamos que a troca de combustível nuclear é instrumental para iniciar a cooperação em diferentes áreas, especialmente no que diz respeito a uma cooperação nuclear pacífica, incluindo a construção de reatores de pesquisas e usinas nucleares.

4. Baseado neste ponto, a troca de combustível nuclear é um ponto de partida para começar a cooperação e uma medida construtiva e positiva entre as nações. Tal passo deve acabar em uma cooperação e interação positivas no campo de atividades nucleares pacíficas e em evitar todos os tipos de confrontos abstendo-se de medidas, ações e declarações retóricas que possam prejudicar os direitos do Irã e obrigações decorrentes do TNP.

5. Baseado nos itens acima, para facilitar a cooperação nuclear mencionada anteriormente, a República Islâmica do Irã aceita enviar um estoque de 1.200 kg de urânio levemente enriquecido à Turquia. Enquanto estiver na Turquia, este urânio permanecerá como propriedade do Irã. O Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) poderão acionar observadores para monitorar as condições de segurança deste estoque.

6. O Irã informará a AIEA por escrito, por canais oficiais, a respeito deste acordo em sete dias após a data desta declaração. Após uma resposta positiva do grupo de Viena (Estados Unidos, Rússia, França, AIEA), os detalhes da troca de combustível serão objeto de um acordo escrito e arranjos apropriados entre o Irã e o grupo de Viena, comprometido especificamente a fornecer os 120 quilos do combustível necessários para o reator de pesquisas de Teerã (TRR).

7. Quando o grupo de Viena declarar seu comprometimento com as condições e pontos desta declaração, ambas as partes se comprometerão com a implementação do acordo mencionado. O Irã expressou estar preparado, em acordo com a declaração, para enviar seu urânio pouco enriquecido em um mês.

8. Se as condições desta declaração não forem respeitadas, a Turquia, a pedido do Irã, se compromete a devolver sem condições e rapidamente o urânio levemente enriquecido ao Irã.

9. A Turquia e o Brasil recebem favoravelmente a disposição da República Islâmica do Irã em manter as negociações com os países do grupo 5+1 (Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha) em qualquer lugar, incluindo Turquia e Brasil, a propósito das preocupações comuns.

10. Turquia e o Brasil apreciam o compromisso do Irã com o TNP e seu papel construtivo em buscar a concretização dos direitos nucleares de seus Estados membros. A Republica Islâmica do Irã, por sua vez, aprecia os esforços construtivos dos países amigos, Turquia e Brasil, em criar um ambiente condutor para a realização dos direitos nucleares do Irã.

Manucher Mottaki, ministro dos Negócios Estrangeiros da República Islâmica do Irã

Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores da República Federativa do Brasil

Ahmet Davutoglu, ministro dos Negócios Estrangeiros da República da Turquia

Por Antonio Ribeiro

17/05/2010

às 20:45 \ Diplomacia

Como se enriquece o urânio para a arma nuclear

Por Antonio Ribeiro

19/01/2010

às 19:36 \ Brasil-França

Nem terremoto abala o antiamericanismo

antiamericanismo

Nicolas Sarkozy, finalmente, deu um basta à cantilena mais recente do coro formado por integrantes do seu governo. Em uma bizarra parceria estratégica com os colegas brasileiros, autoridades francesas vinham intercalando declarações contra a ação dos Estados Unidos na missão humanitária em favor do Haiti, depois do terremoto, responsável pela morte de, no mínimo, 100.000 pessoas e devastação sem precedente na capital da miséria nas Américas.

Se Celso Amorim sugeriu que o controle do espaço aéreo pelos americanos estava dificultando os pousos de aviões militares brasileiros em Porto Príncipe, o francês Alain Joyandet, secretário de estado encarregado da Cooperação Internacional e Francofonia, achou mais adequado admoestar o governo Barack Obama. “A missão é para ajudar e não ocupar o Haiti”, contribuiu no vasto sermonário francês que obstina em balizar a diplomacia mundial.

Até esta manhã, Sarkozy fez como quem não viu uma da mais inoportunas e enciumadas manifestações de antiamericanismo oficial. Sua mudança de curso materializou-se durante viagem à ilha da Reunião, território ultramarino francês. O presidente da França enalteceu a “excepcional mobilização pelo Haiti” do governo Obama, o “papel essencial” das tropas americanas e declarou sem perder a medida que imagina  ter a sua estatura: “Estou inteiramente satisfeito com a cooperação de Washington.”

O antiamericanismo francês, muitas vezes, de traços caricatos, não explica tudo. Sob o ponto de vista diplomático, qualquer país que tentar sobrepor a França em matéria de ajuda humanitária – imensa reserva moral – será considerado concorrente direto ao brilho gálico. Já há muito que a França não tem condições de impor-se como potência militar e econômica no cenário mundial. Restou a “nobreza” de converter-se em uma de espécie de Cruz Vermelha avantajada pelo formidável apoio do estado, das finanças e do dispositivo militar.

Quando os Estado Unidos empenham-se em policiar o planeta, não estão fazendo nada além da sua obrigação, pensam os franceses. Segundo o juízo local, quando o governo Bush demora no socorro às vítimas do furacão Katrina, até se admite. Afinal, os americanos são insensíveis. Desbloquear 100 milhões de dólares para as vítimas e reconstrução do terremoto? Vá lá, eles são ricos. O problema é enviar 20.000 soldados com objetivo de não dar sequer um tiro. Inadmissível a chegada de um porta-aviões com 20 helicópteros para não lançar um mísero míssil. Que diabo de comportamento é este?

Mas as explicações começam a emergir à beira do Sena. A 1.200 quilômetros de distância da Flórida, o efeito do terremoto poderá causar uma onda de refugiados, dizem. Os EUA estariam no Haiti para conter o êxodo dos aflitos. Outra razão seria a incontida compulsão intervencionista americana nos momentos de instabilidade na Hispaniola.  Destino preferencial da diáspora insular, os EUA estariam agindo sob a pressão dos 300.000 eleitores americanos de origem haitiana e de eventual revolta dos mais de 150.000  ilegais. Por último – não poderia faltar – trata-se de excelente oportunidade de se colocar em prática a “doutrina Obama”. Pronto.

Definitivamente, Asterix tem razão: “Os romanos são uns neuróticos”

Por Antonio Ribeiro

13/01/2010

às 8:41 \ Brasil-França

O idílio do Monde

Sermão da Aves: "Escutem a palavra de Deu e fiquem silenciosas enquanto eu falo."

Sermão da Aves: "Escutem a palavra de Deu e fiquem silenciosas enquanto eu falo."

No fim do ano passado, o vespertino francês Le Monde elegeu Lula, “Homem do Ano”. Foi a primeira vez que o jornal encampou no seu formato berliner a idéia dos editores da revista TIME nos anos 20 do século passado. Um leitor do blog De Paris perguntou: “Você não vai escrever nada?” A resposta foi sucinta: “Nem uma vírgula.”

O jornal tem tentado sem sucesso diversas fórmulas para conter sucessiva perda de leitores durante quase uma década. Em 2001, a tiragem do Monde era de 406.000 exemplares diários. Hoje ela gira em torno de 320.000. O vespertino francês não conseguiu um centavo de euro de lucro durante o mesmo período. Monumento da imprensa francesa – 64 anos de existência – acumulou uma dívida de mais de 160 milhões de euros.

Em desesperada tentativa de capturar leitores, o Monde focou sua principal estratégia em um público tradicionalmente fiel, agora em debandada, os leitores que apreciam as idéias da esquerda. Existe um notável temor de desagradá-los e desmedido esforço para adular, sonegando análise objetiva de figuras supostamente queridas — método mais próximo dos panfletos e longe da respeitável reputação estabelecida pelo Monde.

Entretanto, não há uma figura de proa no Partido Socialista francês, letárgico desde a eliminação do ex-primeiro-ministro Lionel Jospin no primeiro turno das eleições presidenciais de 2001. Nem com a maior boa vontade cairia bem escolher, digamos, um François Hollande, Homem do Ano. Mas a escolha poderia ser um líder da esquerda européia, não é? Poderia. Sucede que o produto está em falta. No Velho Continente, tampouco existe um político de esquerda cativante para ser louvado com alguma credibilidade. O campo dos pensadores de gauche é um vasto deserto de homens e idéias.

É neste contexto que o Monde escolheu Lula, o seu Homem do Ano, uma espécie de “Lula de cinema”. Uma opção, sobretudo, de caráter marqueteira. Na França, o mito do menino pobre, do operário que chegou a presidência não sofreu o desgaste dos casos de corrupção, da leniência com a ilegalidade nem as com as frequentes declarações estapafúrdias tão ao gosto de Lula.

O Monde não anda interessado em desmistificação  ou acha que não é boa hora. A edição com data de hoje, é um exemplo clássico. Na página 2, vai uma análise de 5.343 caracteres com espaço, cujo título é As esquerdas na América Latina confrontadas com a corrupção. O autor começa com o casal Kirchner, na Argentina, dá um pulo na Venezuela de Hugo Chaves, passa pela Bolívia e no penúltimo parágrafo, desembarca no Brasil. Ali, dedica minguados 619 caracteres e conclui o arrazoado.

O mais curioso é o conteúdo do parágrafo único. Reparem com que rapidez o autor passa pelo caso do mensalão, apenas um trampolim para mergulhar em José Sarney, “antigo líder do grupo parlamentar governamental durante a ditadura militar” e aí, nada de braçadas. Aqui está a tradução:

“No Brasil, ao escândalo do mensalão (2005) – as mensalidades pagas a parlamentares aliados ao partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – veio se acrescentar, em 2009, o caso do presidente do Senado, José Sarney, pego com a boca na botija em casos de nepotismo, de empregos fantasmas e outras indelicadezas. Antigo líder do grupo parlamentar governamental durante a ditadura militar (1964-1985), em seguida primeiro presidente civil devido a morte de Tancredo Neves antes da posse, José Sarney está à frente de uma verdadeira máfia familiar no Maranhão (Nordeste). O presidente Lula o poupou em nome da coesão da coalizão governamental, quando ele representa o que há de pior na classe política.”

Concede-se: um só paragrafo sobre o Brasil em texto a respeito da corrupção nos governos de esquerda da America Latina é quase tão alvissareiro quanto a eleição de Homem do Ano.

Semana passada, na saída do seminário “Novo Mundo, Novo Capitalismo”, na capital francesa, o blog De Paris peguntou ao ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, se ele considerava a relação estratégica com a França mais importante do que licitação e parecer técnico do Copac no caso da compra dos Rafale . A resposta foi para as primeiras páginas do jornais brasileiros. Aquela premissa do “barato sai caro”. Amorim nos sugeriu leitura de um texto no Monde Diplomatique, publicação mensal a qual o Le Monde é proprietário majoritário. “Ele trata do complexo de vira-lata.” Perguntei: “O Monde Diplomatique é uma referência, ministro?” “É uma, sou pela pluralidade”, disse ele.

Acolhemos a dica do ministro, como não? O artigo foi lido. Ele está aqui. Mas fomos um pouquinho mais longe, achamos a autora, Lamia Oualalou, que chancela as idéias do ministro. Samba!, o blog dela está aqui. O barato, fica a seu juízo, caro leitor.

Por Antonio Ribeiro

29/09/2009

às 9:32 \ Américas

A letra fria da lei

constituicao-de-hondurasDa Constituição hondurenha:

“O cidadão que tenha ocupado o Poder Executivo não poderá ser presidente ou indicado. Quem transgredir a disposição ou propuser reformá-la, assim como aqueles que o apoiarem, direta ou indiretamente, cessarão de exercer de imediato seus respectivos cargos. Os infratores ficarão proibidos durante dez anos de exercer qualquer função pública.” (Foi o que fez Manuel Zelaya.)

“Nenhum hondurenho poderá ser expatriado nem entregue pelas autoridades a um Estado estrangeiro”. (Foi o que fez o governo interino.)

polichineloResumo da ópera-bufa: o polichinelo capaz de presuadir a existência de santo na história recente de Honduras, tem lugar garantido de contorcionista no picadeiro do Cirque du Soleil. Foi bem por isso que escrevemos aqui : “Chamar hondurenho de golpista é fácil.” (O que fazem Lula e Celso Amorim). Chamar Cuba pelo nome, de ditadura, o que é  também fato inquestionável, eles não tem coragem.

Por Antonio Ribeiro

22/09/2009

às 17:05 \ Américas

Chamar hondurenho de golpista é fácil

Meu herói

Meu herói na lente de Ricardo Stukert

O duro é dizer a seguinte evidência, em público: “Cuba é uma ditadura.” Faça o teste. É prova de fogo. Não dizem. Nem Lula nem Amorim nem a entourage. E o diplomata do Itamaraty que disser, coloca a cabeça a prêmio.

Por Antonio Ribeiro

01/09/2009

às 19:09 \ Voo AF447 (Rio-Paris)

“Daqui um ano, ano e meio.” Ou mais para frente.

maraf447

Lá vamos nós outra vez.

Familiares das vítimas brasileiras do acidente com voo AF 447 (Rio-Paris) que matou 228 pessoas na madrugada do 1 de junho de 2009, fizeram um pedido formal ao ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Eles querem que as autoridades brasileiras tenham atuação mais severa junto as investigações francesas sobre as causas da tragédia.

Se o governo Lula agir com um pouquinho mais de empenho do que no caso do mineiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela Scoland Yard no metrô londrino, será mais do que nada. Na época, Amorim pavoneou na capital britânica, fez declarações evocando grandes princípios e depois, teve mais o que fazer. Os ingleses tomaram conta do assunto e os pais de Jean Charles,  em Córrego dos Ratos, zona rural de Gonzaga, tratam da ausência eterna do filho.

Ontem, Paul-Louis Arslanian, diretor do Escritório de Investigações e Análises (BEA), confirmou que sua equipe ainda “não entendeu quais foram as causas do acidente”. O relatório final das investigações está previsto, a princípio, ainda segundo o diretor, para “daqui um ano, ano e meio”. Não há nenhuma garantia de que ele seja conclusivo

Uma terceira fase de buscas às caixas-pretas, perdidas nas profundezas do oceano Atlântico,  terá inicio no outono do hemisfério norte. “Quando no outono, eu não sei” , pecisa Arslainian. O termino tem prazo dado para dezembro. França, Brasil, Estados Unidos e Alemanha irão participar das operações. Arslainian com exatidão sob medida para jornalistas que ele aprecia, estimou o custo em “mais de 10 milhões de euros ou talvez, dezenas de milhões de euros.” A Airbus, fabricante do A330-200 acidentado dispõe ajudar com até 12 milhões de euros para as buscas das caixas-pretas cujos emissores de sinais sonoros emudeceram.

Três meses depois do maior acidente da sua historia, a Air France decidiu que era boa hora para seus pilotos  fazerem treinamento especial em simuladores de vôo que reproduzem circunstâncias semelhantes as da tragédia com o AF 447. Eles incluem situação na qual os tubos Pitot fornecem informações incoerentes ao sistema de navegação. O BEA considera o mal funcionamento dos tubos, que medem a velocidade do avião,  “um elemento, mas não a causa” do acidente.

O governo francês propôs levar os familiares das vitimas – 32 nacionalidades – à zona do acidente para realizar em outubro ou novembro uma cerimônia comemorativa. A associação dos familiares das vitimas francesas pediu ao BEA que especialistas ecolhidos por ela possam acompanhar a terceira fase das buscas. Perguntado qual era primeira preocupação dos familiares, Pierre-Jean Vandoores, representante especial do governo francês para o caso, respondeu: “Conhecer a verdade.”

Por Antonio Ribeiro

10/07/2009

às 8:27 \ Diplomacia

“Conhece?”


Um amigo argentino, depois de comandar um tremendo sucesso editorial, decidiu tirar um ano sabático para realizar sonho acalentado durante anos: dar a volta pela África em um veículo com tração integral nas quatro rodas. Ele passou antes por Paris. Comprou um Toyota Land Cruiser e como aventureiro precavido, africanizou o utilitário. Quer dizer, reforçou a suspensão para enfrentar estradas ruins, elevou o cano de escapamento para atravessar riachos e instalou tenda articulada no teto do veículo, medida incontornável para dormir à la belle etoile, ao ar livre, sem o correr risco de ser atacado por feras ou picado por cobras.

Embora demorada e custosa — foi preciso deixar uma caução com metade do preço do carro para obter o “carnê de passagem”, emitido pelo Automóvel Clube de Paris, uma espécie de passaporte do 4 x 4 — supunha-se que a etapa preparatória seria a parte menos complicada da jornada. Isso porque o amigo fazia questão de terminar a viagem levando para casa a lembrança de uma África original. Digamos, um ambiente parecido com o de Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, ou do filme de John Huston, The African Queen, com Katharine Hepburn e Humphrey Bogart.

Esta África não existe mais. Lembra a emblemática e divertida charge da revista New Yorker, onde uma jovem massai veste apressadamente seus trajes e adereços tribais enquanto um amiga lhe pergunta : “Há algum fotógrafo do National Geographic chegando?” A ilustração vale também para os xavantes do Xingu. Aliás, vale para a maioria da população indígena brasileira. Meu amigo contou ter um teste astucioso, de algo grau de eficiência. Levaria a fotografia de Maradona no bolso da camisa de cor khaki ou do casaco saariano — aquela vestimenta para safari cujo melhor corte era encontrado nas prateleiras das lojas Banana Republic, nos bons tempos e em New York. Ao chegar em uma tribo africana sacaria o retrato do Pibe de Oro e perguntaria para o primeiro nativo que cruzasse seu caminho: “Conhece?” Se o selvagem respondesse de forma afirmativa, o amigo, não perderia tempo. Viraria as costas, montaria no seu Land Cruiser e iria em busca do seu Graal, uma África mais genuína.

O Itamaraty, templo da diplomacia brasileira, também tem um teste parecido para saber se um diplomata esta apto para servir o governo Lula. O exame consiste em levar o postulante para uma sala com, no mínimo, 5 pessoas que ele nunca viu. Se o diplomata conseguir pronunciar a frase, sem evocar circunstancias atenuantes, “Cuba é uma ditadura”, ele esta reprovado. Para passar, o diplomata deve tentar reproduzir os contorcionismos do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, quando trata ou melhor, dribla a questão — concede-se, não tão bem como Maradona, eles tem a mesma estatura, mas não o mesmo talento.

Por Antonio Ribeiro

07/07/2009

às 16:20 \ Diplomacia

O francês do presidente

Filho de húngaro, ele tem uma das missões mais laboriosas da República e a realiza com admirável perícia. Lúcio Reiner é o tradutor de Lula para o francês e espanhol. O português do presidente tem notória capacidade achegar-se aos mais iletrados. No entanto, versar suas metáforas, regionalismos e expressões idiomáticas para uma lingua estrangeira, exige acrobacias.

Devido ao talento de Reiner não há chefe de estado, francófilo ou de lingua hispanica, que não tenha entendido Lula. Ao menos, no senso literal do termo. Se Sarkozy, com quem o tradutor presidencial diz que Lula se dá tão bem “como dois pintos no lixo”, diz appelez un chat un chat — o provérbio não quer dizer chamar um gato de um de gato — Reiner cochicha no ouvido do presidente: “Pão pão, queijo queijo.”

O consultor legislativo Reiner só não traduz a seguinte afirmação: “Cuba é uma ditadura.” Isso porque o Lula nunca diz. Ao menos, jamais em público. Aliás, nem o ministro das Relações Exteriores que é poliglota. Ambos dizem que houve golpe de estado em Honduras. Houve. Os dois querem sanções econômicas contra os golpistas. Ok. Contudo Lula e Amorim também fazem campanha pelo o fim do embargo americano a ditadura cubana. Dois pesos, duas medidas.

Nem Reiner entende. Melhor dizendo, entende, mas não traduz.

Por Antonio Ribeiro

 

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