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Brasil

19/07/2009

às 7:47 \ Brasil-França

Dois pintos no lixo


“Se entendem tão bem como dois pintos no lixo”, assim o tradutor de francês de Lula, testemunha privilegiada das conversas com Sarkozy, descreve a relação entre o presidente francês e o brasileiro. Brasil e França encetaram um namoro firme nos últimos tempos. A relação se intensificou a tal ponto que um diplomata graduado da Embaixada do Brasil em Paris clama por reforço de funcionários no palacete Schneider, construído na 34 Cours Albert Premier, sede da representação brasileira. “Estamos estourando as horas extras, é trabalho sem fim” , diz ele. Desta vez, não se trata só de vagos e enfadonhos intercâmbios culturais, há substância política e negócios pesados na mesa.

Nunca a confluência de pontos de vista do Brasil e da França foi tão estreita, seja no que respeita temas como governança internacional (G20, FMI, Conselho de Segurança da ONU), o apreço por um mundo “multipolar”, aumento no controle dos mercados financeiros, cooperação na aérea de energia nuclear, preservação da biodiversidade e mudanças climáticas. No passado, quando evocava-se a relação entre os dois países, o principal tema era divergências no comercio agropecuário. O Brasil reclamava dos subsídios que o governo francês dava aos seu produtores e das altas taxas de importação de commodities brasileiras. Essa pendenga ainda existe, mas agora foi relegada ao segundo plano.

Em franca perda de vitalidade devido um déficit público monumental (85 bilhões de dólares por ano) e um crescimento econômico pífio (1,18% do PIB em 2008), a França precisa de novos mercados. Eles estão, sobretudo, nos países emergentes. A França não tem influência nem se dá tão bem com a China, que faz o que quer. A Índia sempre foi parceiro tradicional dos inglêses por razões históricas e culturais, e com o fim da Guerra Fria, onde mantinha uma posição de pais não alinhado, mas simpáticos aos soviéticos, aproximou-se agora dos Estados Unidos. A Rússia prefere tratar mais com a Alemanha do que com a França. Sobrou o Brasil para o governo de Nicolas Sarkozy.

É neste contexto que esta previsto para a segunda semana de agosto um parecer técnico, elaborado pela Aeronáutica, sobre a concorrência para compra de 36 aviões caças no valor de 4 bilhões de reais. O Rafale, fabricado pela francesa Dassault Aviation cujo centro de produção em Mérignac tem capacidade de produzir 30 aviões por ano, atende aos requisitos formulados pelo Ministério da Defesa. O maior atrativo não é só o desempenho do avião e adequação as necessidades da Força Aérea Brasileira (FAB), mas a transferência de tecnologia. Os franceses prometem repassar o código-fonte do caça bireator aos brasileiros. A posse da informação permite, por exemplo, fabricar o Rafale no Brasil em quase total independência.

A decisão da compra dos caças, embora passe pelo escrutínio de uma avaliação técnica, é política. Quem decide, no final, é o presidente Lula. Na sua passagem por Paris, falando a respeito dos entendimentos para os modos de financiamento entre um grupo funcionários do Ministério da Fazenda e da Defesa com o governo e bancos franceses, Nelson Jobim deu uma pista. “Queremos que tudo esteja pronto até o 7 de setembro”, disse ele. A data coincide com a visita de Nicolas Sarkozy ao Brasil para inaugurar o ano do seu país no país de Lula. A escolha do Rafale são favas contadas.

Por Antonio Ribeiro

17/07/2009

às 15:48 \ Brasil-França

No cardápio, o Rafale.


O ministro Nelson Jobim jantou ontem, 16 de julho, no Chateau Dassault, propriedade da família que controla o fabricante do caça Rafale, um dos três aviões litigantes, escolhidos pelo Ministério da Defesa, na concorência para renovar a esquadrilha da Força Aérea Brasileira (FAB). O projeto FX-2 prêve compra de 36 aviões , cada um custa entre 100 e 150 milhões de dólares. Jobim vistou antes o Centro de Testes Militares Aéreos de Mont-de-Marsan, no sul da França, onde voou o jato que até hoje, além da França, nunca foi comprado por nenhuma força aérea no planeta. A agenda oficial do ministro não menciona o jantar, apenas “deslocamento para região de Saint Emilion.” Informação vaga que permite imaginar até que o ministro iria terminar sua estadia na França visitando os famosos vinhedos da região. Nada sobre o jantar. De novo, there is no free lunch.

Por Antonio Ribeiro

15/10/2008

às 10:28 \ Futebol

Lucas e o futebol, a Marselhesa e a vaia


Desde que Lucas, de 7 anos de idade, meu filho único, franco-brasileiro, assistiu ao documentário Pelé Eterno, de Anibal Massaini Neto, ele se interessa por futebol quando acorda até a hora em que fecha os olhinhos para dormir — seguidas vezes, depois de ouvir uma história sobre o esporte bretão. E não só. Doravante, Lucas responde em português minhas perguntas em português, idioma que comunico com ele desde que nasceu e cuja primeira palavra pronunciada no berço foi “bola”.

O futebol, esporte que me salvou quando um soldado bósnio-servio cutucou o cano de uma kalashinikov no meu torax, atiçou a curiosidade de Lucas pela história do Brasil e pela geografia em geral. Lucas nasceu hexa campeão — cinco vezes com o Brasil e uma, com a França. Ontem, ele foi levado para ver o primeiro jogo profissional em estádio de futebol. Vestiu a camisa 12 do atacante Thierry Henry, entrou no Stade de France, repleto de torcedores, bandeiras da Tunísia. Henry fez dois gols virando o jogo que a França perdia por um a zero. A Marselhesa, hino francês, foi vaiada. Pela primeira vez, em 17 anos na França, me senti francês. Isso porque a identidade se forja por experiência comum ou em oposição. Assim como a vivencia de mais de 50 anos nas areias e pedras entre o rio Jordão e o Mediterrâneo, distingue os israelenses da diáspora judaica espalhada pelo mundo. Tal como os inconfidentes mineiros contra a monarquia lusa encetaram o sentimento de nacional brasileiro. Isso porque vaiar o hino, queimar a bandeira, embora ensejam livre expressão individual, configuram manifestação de pequenez, deselegância. Isso porque o primeiro jogo de futebol, o menino nunca esquece.

Nicolas Sarkozy convocou hoje Roselyne Bachelot, ministra do Esporte, e Jean-Pierre Escalettes, presidente da Federação Francesa de Futebol. Emergiu da reunião a decisão de que quando o hino francês for vaiado, o jogo será interrompido imediatamente e todos os membros do governo presentes, deixarão o estádio. “A manifestação é uma revelação alarmante da fratura entre parte da população francesa de origem magrebina e o resto da sociedade”, declarou o porta-voz” da organização SOS Racismo. Os jogadores da França e Tunísia entram em campo de mãos dadas, se posicionaram intercalados para ouvir os hinos. A cantora francesa de origem tunisiana Lââm foi escolhida para interpretar a Marselhesa afim de evitar a repetição dos cenários que já aconteceram nos amistosos França e Argélia (Outubro de 2001) e França contra o Marrocos (Novembro de 2007). Não funcionou. “Mesmo se a França manteve uma política colonial na Tunísia durante décadas, mesmo se os franceses de origem tunisiana e mais amplamente, os franceses de origem magrebina, são vitimas freqüentes de discriminação e de mal tratos policiais, mesmo se a Republica não cumpriu suas promessas com a minoria, é inadmissível humilhar, vaiando hino nacional” declarou Razzy Hammadi, secretário nacional do Partido Socialista.

Lucas promete um gol nesta quarta-feira em homenagem a Jerôme, seu professor de origem tunisiana na escolinha de futebol. Ele vai com a camisa canarinho número 7, de Garrincha e Jairzinho, ambos do Glorioso Botafogo.

Por Antonio Ribeiro

 

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