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Brasil

19/02/2011

às 16:28 \ Economia

G20 Paris: Brasil sai bem de acordo paliativo

“O mais longo debate, a mais longa negociação”, foi assim que a ministra da Economia da França, Christine Lagarde, resumiu o caminho até a chegada de posição comum entre os representantes de países do G20, reunidos em Paris. Trata-se da definição de indicadores para aferir os desequilíbrios econômicos de países membros do grupo, acusados de causar a crise financeira mundial e a “guerra cambial”. São eles: dívidas públicas e déficits fiscais, poupança e empréstimo privados,  saldo da balança comercial e outros componentes do balanço de pagamentos, como o fluxo líquido de investimento.

Para acomodar a forte oposição da China,  segunda maior economia do mundo, a lista de parâmetros exclui a taxa de câmbio real e as reservas de moeda estrangeira. Os indicadores não serão metas a serem cumpridas obrigatoriamente pelos países. Nem serão quantitativos.  Eles servem para diagnosticar os desequilíbrios e, em etapa posterior, a base de sugestões para correções de rota. Não foi definido qual o peso de cada item nem a metodologia. No máximo quem não acompanhar fica com a imagem de patinho feio. Pressão moral.

Na reunião do G20 em Paris também foi descartada a discussão para criar estoques regionais de alimentos e regular preços para as commodites. Os grandes importadores de matéria-prima chamam de “volatilidade” o que é na verdade, a mais simples regra de mercado, a relação entre oferta e demanda. Neste particular, o Brasil com seu pujante agronegócio sai bem da reunião.  “Chegamos a um acordo de colocar os vários indicadores que interessavam ao Brasil. O principal para nós era a inclusão de contas externas, taxas de câmbio”, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

A posição brasileira no encontro foi pragmática em defesa dos interesses nacionais, pendulando entre os dois protagonistas da reunião: China e EUA. No que diz respeito as reservas monetárias, os representantes brasileiros estiveram ao lado China, dona de 31% do total mundial. Em relação as taxas cambiais, o Brasil ombreou com os americanos, embora usando um misto de linguagem diplomática e de tecnocratas, contra a política chinesa de manter o yan desvalorizado para carburar exportações  – analistas estimam que o valor real  da divisa chinesa é mais de 30% acima da cotação oficial.

Mantega vem propondo valorizar os Direitos Especiais de Saque, o ativo financeiro cujo emissor global é o Fundo Monetário Internacional – a “moeda do FMI”. O ministro brasileiro sugere vincular o ativo a um conjunto mais amplo de moedas. Ou seja, o portador do DES poderia converter seu valor não só na média dos valores do dólar, libra esterlina, euros e yen, como acontece hoje, mas também em real e yuan, a divisa chinesa. Debate para quem tem fôlego de maratonista. A ministra Lagarde revelou onde houve consenso geral na reunião do G20 em Paris: “Todo mundo estava bem de acordo que o sistema monetário mundial não vai ser refeito em um dia nem mesmo em um ano.”

Por Antonio Ribeiro

18/02/2011

às 17:03 \ Economia

G20 Paris: BRICs dificultam acordo substancial na reunião. Guido Mantega explica.

O G20 caminha para firmar-se como o principal diretório da economia mundial. Os ministros das economias e presidentes dos Bancos Centrais das 20 nações que compõe o grupo estão reunidos em Paris. A França que preside o encontro considera que o principal objetivo é estabelecer parâmetros indicativos para medirem os desequilíbrios entre os países. Os indicadores mediriam a balança comercial, a taxa de câmbio, as reservas em moeda, os déficits públicos e o nível de dívida privada dos países.

A proposta é querida aos Estados Unidos cuja balança comercial registra 466 bilhões de dólares negativos, menos 3,2% do Produto Interno Bruto. A China vê a movimentação como manobra suspeita para deter seu avanço econômico. O país tem uma balança comercial com saldo positivo de 270 bilhões de dólares, o que corresponde a 4,7% do seu espantoso PIB. A China é dona de reservas lucrativas de 2,85 trilhões de dólares, a maior do planeta. Diferente do Brasil que tem reservas onerosas – aplica em investimentos com juros menores do que oferece.

Os representantes do BRICs,  acrônimo criado pelo banco Goldman Sachs para designar o grupo das economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia, China e doravante conta também com a África do Sul como  quinto país membro do grupo, fizeram uma reunião preliminar no Hotel Intercontinental.  Em larga medida, os BRICs  sustentam a China.  A posição dificulta um acordo  substancial em Paris. A próxima reunião do G20 será em abril, nos EUA.

Guido Mantega, ministro da Economia, relatou os pontos principais do encontro e explicou a postura do Brasil:

“Discutimos os principais temas que serão debatido na reunião geral do G20. O objetivo foi de buscar posições comuns. O primeiro item diz respeito as medidas para crescimento equilibrado da economia internacional, cujo destaque é a questão dos indicadores. É posição cara aos EUA. Os americanos gostariam de definir indicadores para estabelecer limites de excedentes ou déficits.

Não há consenso. Podemos construir indicadores, mas precisamos saber quais são os importantes e capazes de mostrar o desequilíbrio real. Há concordância de que os indicadores fiscais são importantes. Ninguém levantou restrição.

No que diz respeito ao comércio e contas correntes, há divergências. Somos favoráveis que saldo comercial seja um bom indicador, mas há restrição a conta corrente porque o parâmetro combina serviços com conta de aplicações financeiras, remessa de lucros e dividendos. Isso vai acrescentar aplicações financeiras no exterior que não é indicador de desequilíbrio. Em contrapartida, concordamos em levar conta os bens e serviços.

Outra questão importante na posição que defendemos é de que os indicadores não podem ser uma meta obrigatória a ser comprida. Eles devem detectar desequilíbrios. Depois o grupo faz recomendação para que se busque reduzir um superávit excessivo.

Estamos agindo nas conseqüências e não as causas. Tão importante quanto ver o nível de superávit comercial é observar as políticas monetárias. Elas podem ser as causas do desequilíbrio. As políticas monetárias hoje excessivamente expansivas tem causado fluxos de capitais excessivos. A previsão é de que esse fluxo de capital aumente. Aliás, já aumentou em 50% em 2010 em relação a 2009 e em 2011 a tendência é de aumentar mais. Este sim é um problema para os emergentes, que estão sofrendo valorização cambial. África do Sul e Brasil sofrem com a valorização.

Também por trás do excesso de capitais existem o problema das commodities. A valorização delas se explica também pelo excesso de capitais. Eles não tem para onde ir, não encontram oportunidades de aplicação nos paises avançados e vão para os derivativos.

O Brasil é contra qualquer medida paliativa.  Controlar preços, por exemplo. Isso é consequência de um problema real. Quando ocorre seca, por exemplo, a oferta é menor que a demanda porque há especulação financeira.

Onde podemos avançar? Tornar mais transparentes as operações de derivativos. Fazer operações registradas nas câmaras de compensação e não operações no balcão. Assim se constata operação excessiva em determinadas commodities. É preciso muito cuidado para não tomar medidas que acabarão agravando o problema. Inibir os preços não é desejável. A solução é estimular a oferta, sobretudo nos paises pobres que padecem com preços altos,  e acabar com  os subsídios dos paises avançados, produtores fertilizantes comercializados a preços elevados.

O Brasil rejeita também estoques internacionais de alimentos. Não dá para fazer isso. Os derivativos já são uma forma de administrar estoques futuros que, quando não tem especulação, funcionam bem.

A posição comum dos BRICs é em relação aos indicadores. O que buscamos é um crescimento equilibrado. Para o Brasil, ainda temos desequilíbrio porque os paises avançados não conseguiram se recuperar da crise. Cada um fica disputando mercados, usando artifícios, controlando o outro, tentando diminuir a exportação do concorrente.

Os BRICs também não aceitam que acúmulo de reservas seja controlado. Um dos indicadores era acumulo de reservas. Discorcordamos em estabelecer limites para o acumulo, enquanto não houver um sistema financeiro mais seguro. Hoje dependemos de nós mesmos se houver uma crise, quem vai nos socorrer? Resposta: as nossas reservas. Eu preferia ter menos reservas, mas é melhor pagar o preço de ter as reservas do que estar submetido a intempéries de uma crise mundial.

Falamos sobre o controle de capital. É a posição predominante no grupo a normalização do controle Isso porque os controles foram necessidades colocadas pelo desequilíbrio internacional. O Brasil não fazia nada para se defender de uma situação que seria extremamente prejudicial ao país com excesso de entrada de capital.

Não concordamos em regras e limites porque cada vez fará o controle da maneira que achar mais adequado de acordo com suas peculiaridades. Outros fazem controle permanentemente controle de capital e ninguém falava nada. Enquanto houver essa situação, vamos fazê-lo. A tendência é de que em 2011 haja mais fluxo de capital. A menos que uma recuperação da economia haja absorção desses capitais nas economias avançadas.

O G-20 deu um passo importante em Seul, na Coréia do Sul, admitiu que determinados países possam impor controle de capital. Parece que alguém se arrependeu e quis voltar atrás e estabelecer outra regra. Mas não dá para aceitar regras, porque cada país tem sua peculiaridades. Uns acham que tem de fazer quarentena do capital estrangeiro, outros  que tem de limitar o volume e deixar o capital sem remuneração. Preferimos o caminho da taxação, reduzindo a remuneração do capital e sendo seletivo. Não queremos estar submetidos a uma regra que não diz respeito a realidade brasileira.

Temos uma visão diferente dos Estados Unidos. Quando digo que a política monetária dos avançados tem responsabilidade no desequilíbrio mundial, digo que não é só um ou outro pais asiático que está administrando o cambio, mas por outros também. Mesmo os paises asiáticos também deixassem fazer sua moeda valorizar um pouco mais. Não há um único responsável, há um conjunto de responsáveis.

Sobre o fluxo de capital. Ele  aumentou ano passado. Adotamos medidas. Agora temos uma certa estabilidade e diminuímos a volatilidade no Brasil. Se não tivéssemos feito essas intervenções, provavelmente o cambio estaria abaixo de 1 dólar igual a 1,50 real. Isso nos traria dores de cabeça. Vamos observar. Se  houver um fluxo grande, tomaremos medidas

Discutiu também a construção de novo sistema monetário internacional. Os Brics concordam que Bretton Woods não responde mais as necessidades dos paises. Ele estabelece cambio fixo, que não existe mais.  O dólar era predominante porque os EUA dominavam o comércio mundial. Hoje, isso não é mais verdade. Há dois paises a frente dos EUA em termos de comércio: a China e a Alemanha. As transações financeiras se multiplicaram. O Brasil acha que precisamos passar de uma única moeda para um sistema multipolar de moedas e cambio flutuante.

Não é fácil, mas uma saída é valorizar os Direitos Especiais de Saque, que já é uma moeda que representa outras moedas. Teríamos que dar novos dinamismo, conversibilidade, volume maior. O FMI se transformou em banco global emissor de DES. Hoje o DES tem conversibilidade em quatro moedas: libra esterlina, dólar, euros e yen. Acho que novas moedas devam ser colocadas nos DES. A moeda chinesa, o real que já representa boa parte das operações de mercados derivativos, que vai até mais o yuan.

Defendemos criar uma alternativa para o dólar. Os EUA sempre terão uma moeda importante. Mas devemos tirar das costas do dólar a condição de moeda única. Isso atrapalha a política monetária dos EUA.  Quem está olhando para dentro não vê as consequências nos outros paises Nos últimos quatro anos o dólar vem se desvalorizando. Quem investiu no dólar, perdeu dinheiro.”

Por Antonio Ribeiro

01/09/2009

às 19:09 \ Voo AF447 (Rio-Paris)

“Daqui um ano, ano e meio.” Ou mais para frente.

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Lá vamos nós outra vez.

Familiares das vítimas brasileiras do acidente com voo AF 447 (Rio-Paris) que matou 228 pessoas na madrugada do 1 de junho de 2009, fizeram um pedido formal ao ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Eles querem que as autoridades brasileiras tenham atuação mais severa junto as investigações francesas sobre as causas da tragédia.

Se o governo Lula agir com um pouquinho mais de empenho do que no caso do mineiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela Scoland Yard no metrô londrino, será mais do que nada. Na época, Amorim pavoneou na capital britânica, fez declarações evocando grandes princípios e depois, teve mais o que fazer. Os ingleses tomaram conta do assunto e os pais de Jean Charles,  em Córrego dos Ratos, zona rural de Gonzaga, tratam da ausência eterna do filho.

Ontem, Paul-Louis Arslanian, diretor do Escritório de Investigações e Análises (BEA), confirmou que sua equipe ainda “não entendeu quais foram as causas do acidente”. O relatório final das investigações está previsto, a princípio, ainda segundo o diretor, para “daqui um ano, ano e meio”. Não há nenhuma garantia de que ele seja conclusivo

Uma terceira fase de buscas às caixas-pretas, perdidas nas profundezas do oceano Atlântico,  terá inicio no outono do hemisfério norte. “Quando no outono, eu não sei” , pecisa Arslainian. O termino tem prazo dado para dezembro. França, Brasil, Estados Unidos e Alemanha irão participar das operações. Arslainian com exatidão sob medida para jornalistas que ele aprecia, estimou o custo em “mais de 10 milhões de euros ou talvez, dezenas de milhões de euros.” A Airbus, fabricante do A330-200 acidentado dispõe ajudar com até 12 milhões de euros para as buscas das caixas-pretas cujos emissores de sinais sonoros emudeceram.

Três meses depois do maior acidente da sua historia, a Air France decidiu que era boa hora para seus pilotos  fazerem treinamento especial em simuladores de vôo que reproduzem circunstâncias semelhantes as da tragédia com o AF 447. Eles incluem situação na qual os tubos Pitot fornecem informações incoerentes ao sistema de navegação. O BEA considera o mal funcionamento dos tubos, que medem a velocidade do avião,  “um elemento, mas não a causa” do acidente.

O governo francês propôs levar os familiares das vitimas – 32 nacionalidades – à zona do acidente para realizar em outubro ou novembro uma cerimônia comemorativa. A associação dos familiares das vitimas francesas pediu ao BEA que especialistas ecolhidos por ela possam acompanhar a terceira fase das buscas. Perguntado qual era primeira preocupação dos familiares, Pierre-Jean Vandoores, representante especial do governo francês para o caso, respondeu: “Conhecer a verdade.”

Por Antonio Ribeiro

18/08/2009

às 18:51 \ Américas

“Meu papel é tentar mudar a lógica do político”

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A aparição da ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira no Senado equivale ao pouso de um objeto não identificado na Terra. Causa realmente espanto. Entre os políticos, a palavra não vale meio saco de sal. A prática de mentir – e descaradamente se possível – tornou-se apreciada virtude. Imaginem alguém dizer entre os senadores da República cuja desfaçatez é impar em longo tempo e amplo espaço, o seguinte: “Não preciso de agenda para dizer a verdade.” Vixe Maria! é o fim do mundo.

Resta ainda alguma dúvida de que se Lina Viera apresentasse fotografia, vídeo, gravação do seu encontro com ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, os senadores dariam algum minguado valor? Ora, mire-se no caso de José Sarney. Não passa um só dia sem provas de que o presidente do Senado está envolvido na mais evidente corrupção. No entanto, os senadores fazem vista grossa ou desqualificam-nas com um golpe de mão.

Hoje, quem chama senador de ladrão, faz o mais banal elogio. Quer assustar um parlamentar? Chame ele de honesto. É como a velha abordagem. Aproxima-se da moça e diz: “Você não é bonita.” Ai, ela olha surpresa. Não esta acostumada com a franqueza. Recomenda-se a seguinte sequência: “Não é bonita… é linda.” Pronto. Foi isso que Lina Vieira não soube fazer no Senado. Com o papo de que a verdade não precisa de adereços, a ex-secretária da Receita Federal apenas ofereceu fermento para próxima pizza sanatorial.

Lina Viera queria que os senadores examinassem sua ficha corrida. Muito mais sutil do que a estupidez do “então mostre a agenda” – o que não prova nada. Lina subentendeu a ousadia: “Achem uma mentira.” Coisa fina. Isso porque no currículo do lado de quem contrapõe sua versão, mentira é o que não falta. Mas os mentirosos preferem cuidar dos interesses dos seus iguais. Cuidam assim dos seus. O Senado tornou-se a corte ideal para os bandidos. Aconselha-se a leitura do Livro de Jó a quem espera de onde absolve-se Sarney alguma consideração por Lina.

O autor do retrato fiel que ilustra este post é Ricardo Stukert. O autor da frase, título do post, é o retratado.

Por Antonio Ribeiro

12/08/2009

às 12:42 \ Europa

Férias em Tuva, na Sibéria

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Completou uma década. Em agosto de 1999, o presidente Boris Yeltin, alcoólatra e doente, nomeou o quinto primeiro-ministro do seu governo em frangalhos cujo maior legado foi disseminar ainda mais a corrupção na Rússia. A escolha foi um desconhecido chefe de segurança e obscuro ex-agente do serviço secreto soviético, o KGB. Na época, a aposta mais segura era que Vladimir Putin, de 56 anos, não ficaria no poder mais de dois meses.

No ano seguinte, o faixa preta de judô, nascido em Leningrado, agora São Petersburgo, foi eleito presidente. Ele continua até hoje no comando do governo. Depois de dois mandatos presidenciais de quatro anos, Putin dirige do banco traseiro, como primeiro-ministro, o país do seu protegido político, o atual  presidente Dimitri Medvedev.

Putin beneficia de popularidade celestial entre seus compatriotas, 74% da população aprova suas medidas. A ele é creditado a estabilidade política da Rússia. Embora ela esteja bem abaixo do padrão que rege as democracias ocidentais, desde o fim da era soviética, o país não seguia rota livre de solavancos.

O desempenho nacionalista do judoca de quimono cavado, seja aumentando o preço do gás fornecido aos europeus ou enfrentando com brutal repressão militar os separatistas chechenos, trouxe ao russo mediano a impressão de resgate do respeito internacional – e o temor – perdido com o fim da URSS. Diga-se de passagem, o país sob regime comunista enviava cosmonautas ao espaço, produzia ogivas nucleares, mas nem a calefação do Kremlin funcionava nos conformes – esqueceram de inventar o termostato.

As reformas de Putin promoveram crescimento econômico. O salário médio passou de 80 para 640 dólares. Metade do contingente russo abaixo do nível de pobreza tomou o elevador para o andar de cima. Putin acariciou também o setor produtivo. Ganhe o tanto que for capaz na Rússia, seu imposto de renda será de 13%. Ponto. Nenhum centavo a mais.

Isso é Putin, o menino batizado Vladimir devido a falsa admiração paterna por Lênin. Foi na verdade, algo típico daqueles tempos.  As famílias  viravam-se como podiam. Um dos recurso era criar aditivo para ajudar a promoção social do filho dando-lhe  nome de ícone. O nazismo não fez tantos Adolfo quanto o comunismo entediou os tabeliões com o Vladimir.

Nem tão escancarado como Chavez nem tão tímido quando o desejo indizível de Lula. Mas com mais sucesso do que Manuel Zelaya, o “bom tsar” Putin usou a máxima da arte marcial japonesa contra a democracia. Serviu-se da força adversa para provocar o tombo no tatami institucional. No ano passado, sua desavergonhada  maioria parlamentar criou um abracadabra na constituição russa que permite o retorno de Putin à presidência em 2012.

“A cada crise, Putin respondeu com a consolidação do poder”, diz Masha Lipman, editor do Pro e Contra, publicação do Carnegie Center em Moscou. Putin colocou quase tantos agentes do KGB na administração russa quanto petistas na máquina governamental brasileira. Prendeu os homens mais ricos da Rússia. Foi o caso do empresário do setor petrolífero, Mikahail Konddorkovsky, sob acusação de evasão e fraude o fiscal. Trata-se de um tapume contra a critica freqüente de que o interesse do serviço de inteligência oficial converge com a iniciativa privada.

Faz parte do plano da volta ao poder pleno, qualquer artifício ao alcance da mão. Entre eles, está um que os brasileiros conhecem melhor através de Fernando Collor. A imagem do homem viril. Putin não dispensa o papel nem durante às férias. Aliás, é neste período de calmaria que o primeiro-ministo faz com premeditada aplicação.

Por Antonio Ribeiro

01/08/2009

às 4:29 \ Veja

A Cielo o que é de César

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3x8k6rciy2O brazuca de ouro César Cielo Filho entrou para o Olímpo do esporte quebrando o recorde da prova mais nobre da natação. Ele é a capa de VEJA desta semana. Personagem central de uma primorosa reportagem que contextualiza  o esporte na história, na ciência e na tecnologia. Não podia ser diferente. O texto leva a assinatura de Fábio Altman, veterano em coberturas dos Jogos Olímpicos, Copas do Mundo e de tantos desafios nem sempre esportivos. Fabinho, Fabião, o Fabius, dos tempos em que foi correspondente da revista em Paris, está de volta à redação de VEJA. Retornou com o pé direito, embora tenha confidenciado ao amigo: “Não sei nem mais onde é o banheiro aqui.” A arquitetura das revistas obedecem a geometria variável – a editoria de Geral, como era chamada nos tempos que Fabio a comandou, tem hoje dezenas de subdivisões. A forma olímpica de Altman, no entanto, continua intacta. A prova está nas páginas.

Por Antonio Ribeiro

31/07/2009

às 15:19 \ Esporte

Só um número interessa: 46s91

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L’Equipe, o jornal do esporte e do automobilismo  — o diário francês considera a corrida sob quatro rodas, uma modalidade à parte — estampou na sua edição de hoje, o título Tão bonito, tão triste. A foto de alto a baixo da primeira página explica o sentimento duplo — ao menos para a França. César Cielo aparece no centro da imagem, ligeiramente acima de dois nadadores franceses, Alain Bernard e Fréderick Bousquet. É um pódio histórico e inédito — ao menos para o Brasil.

César quebrou o recorde mundial dos 100 metros livres, a prova mais nobre da natação, Fez com o tempo de 46s91. Largos 20 metros à frente de Johnny Weismuller, recordista em 1922, o mais famoso interprete de Tarzan. Oooooh verde amarelo? Sim. Mas só justificaria o buuuuá dos franceses se a prova tivesse acontecido nos tempos dos filmes em preto e branco. Faltou 44,50 centímetros para o dedo médio de Alain Bernard tocar na parede da piscina ao mesmo tempo que César Cielo. A diferença lembra as humilhações do velocista Usain Bolt nos 100 metros rasos. Se o francês, recordista em 2009, tivesse repetido seu melhor tempo, teria terminado a prova apenas à 6 centímetros atrás de César Cielo, uma distância 7,5 menor do que a registrada.

Como foi que isso aconteceu? Para contar a história completa, teríamos que voltar ao Big Bang de César. Quer dizer, a complicada gestação de Flávia Cielo, mãe do nadador de Santa Bárbara do Oeste, cidade do interior de São Paulo. A versão curta.começou quinta-feira, 31 de julho, na piscina do Foro Itálico, em Roma. E começou mal. Aqui bem e mal medem-se em milímetros, em centésimos. O microscópio seria melhor do que a telinha da TV para acompanhar a disputa entre os nadadores.

Bernard ganhou entre 10 e 15 centésimos sobre César quando bateu na água, ainda que o salto do brasileiro foi bem melhor do que o de costume. Nos primeiros 25 metros de “nado limpo”, no jargão da natação, o francês e o brasileiro foram em velocidade demente. É neste ponto que Cielo, especialista nos 50 metros livres, coloca dianteira definitiva que conduz suas vitórias acachapantes. Bernard se afobou para seguir o ritmo de César. Perdeu a cadência das braçadas. Em termos musicais, diría-se, o francês “desafinou”. Nos 30 metros, normalmente, César baixa o ritmo. Desta feita, ele se corrigiu, continou firme na mesma cadencia. Atenção. Nem através de TV de alta definição é possível perceber estas filigranas. A natação não é esporte que faz bom casamento com a telinha. É a soma de informações distintas, vídeo, audio, cronômetro e narrador que possibilita o telespectador enfronhar-se na disputa.

Bernard chegou aos 50 metros, fez sua virada cravando o tempo de 22s22, na primeira metade da prova. O brasileiro já estava 5 centésimos à frente. Nos últimos 50 metros, o francês começou a tirar o atraso. Na cabine de TV a cabo brasileira, o medalha de prata Gustavo Borges, doravante excelente comentarista, fez careta. Ele viu o que nós, só acompanhamos. “Se a prova tivesse um metro a mais, eu teria ganho”, disse Alain Bernard que teve velocidade media de 7,64 km/h enquanto César, singrou a piscina em 7,67 km/h. Pode ser,  cher Alain, mas ela tinha regulamentares 100 metros. A César o que é de César.

Por Antonio Ribeiro

29/07/2009

às 14:17 \ Fórmula 1

Ferrari confirma o convite a Shumacher

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“A Scuderia Ferrari Marlboro pretende confiar a Michael Shumacher o carro de Felipe Massa até que o piloto brasileiro esteja apto a pilotar novamente”,  diz o comunicado divulgado hoje, pela equipe do Cavalo Rampante

O piloto alemão, de 40 anos, o único heptacampeão mundial de F1, aceitou o convite. “Estou pronto”, disse o Brarão Vermelho. Nos próximos dias, ele começará um programa treinamentos e a preparação física. A volta, no carro número 3 da Ferrari, está prevista para o Grande Prêmio da Europa, no dia 23 de agosto, nas ruas de Valência, Espanha. Shumacher, atualmente consultor da Ferrari, não pilota um carro de F1 desde o GP do Brasil, em outubro de 2006. Em fevereiro deste ano, ele sofreu um acidente testando uma motocicleta de corrida no qual feriu o ombro e as costas.

Nos 16 anos de F1, o piloto alemão participou de 246 GPs, venceu 90, entre os quais, 71 dentro do cockpit de uma Ferrari. “Encontrei nesta tarde com Stefano Domenicali e Luca di Montezemolo e, juntos, decidimos que eu me prepararei para assumir a vaga de Felipe. É verdade que o capítulo Fórmula 1 já estava completamente encerrado para mim depois de muito tempo, mas por razões de lealdade à equipe, não posso ignorar a situação infeliz. Como piloto estou muito ansioso para encarar o desafio”, anunciou Shumacher (na foto com Jean Todt).

Por Antonio Ribeiro

22/07/2009

às 7:43 \ Imprensa

Recordar é viver…

… é expressão recorrente na coluna de Elio Gaspari, napolitano, criado na Lapa carioca, um dos mais brilhantes jornalistas brasileiros, autor de um tour de force exemplar. Capo lavoro, master piece, obra prima imprescindível para entender a história contemporânea do país. Os quatro volumes sobre a ditadura “Envergonhada”, “Escancarada”, “Encurralada”, “Derrotada” e militar do 31 de março de 1964.

Corre o ano de 1989, bicentenário da Revolução Francesa. Durante as comemorações em Paris, acontece reunião do G7, o grupo dos países mais ricos do planeta. O saudoso jornalista Paulo Francis chega atrasado para o almoço no novíssimo bairro La Defense. Ele lança um exemplar da revista VEJA na mesa. “Eu queria ter escrito”, diz, puxa a cadeira, senta-se e espera reação dos presentes.

O autor do Diário da Corte, lendária crônica publicada aos sábados no caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, referia-se à memorável reportagem Guilhotinas Caladas, de Gaspari — na época, Diretor Adjunto de VEJA. Você pode ler aqui a edição 1085, do dia 28 de junho de 1989. A Revolução Francesa — “que transformou a malta em povo” — é frequente analogia na prosa do colunista (com seu Mac, na foto de Antonio Milena). É o caso da versão desta quarta-feira, 22 de julho, em O Globo e na Folha de São Paulo. Leia abaixo:

O chavalier Temer e seus 7 mosqueteiros

Por Elio Gaspari

O presidente da Câmara, deputado Michel Temer, acompanhado de sete mosqueteiros, usufruiu uma boca-livre de cinco dias em Paris.

Havia um feriado por lá, mas, por cá, a Casa onde trabalham tinha serviço e votava a Lei de Diretrizes Orçamentárias.

Os doutores foram comemorar o aniversário da Revolução Francesa e hospedaram-se no Hotel Lutetia, uma boa casa, equidistante de dois marcos da cidade: a Conciergerie e a Praça da Concórdia. Numa ficava a cana dos condenados. Na outra, a lâmina de Sanson. A namorada de Luís XV, Madame Du Barry, passou de uma à outra. Ela fugira para Londres depois da Queda da Bastilha, mas decidiu retornar à França.

Degolaram-na em 1793.

O mistério que levou a Du Barry a regressar é da mesma família da compulsão que levou Temer e seus sete mosqueteiros a entrar na bocalivre. Pediram discrição à embaixada e disseram que viajavam a convite de um Instituto de Altos Estudos de Defesa Nacional. Verdade, mas o repórter Antonio Ribeiro revelou que, segundo esse mesmo instituto, o paganini ficou por conta da indústria aeronáutica francesa, pois a fábrica Dassault quer vender 36 caças Rafale à FAB, numa conta de R$ 4 bilhões. (Convite para ir a Paris, é fácil arrumar. O que falta é patrocinador.) A Câmara absolvera o deputado-castelão e o Senado tornou-se um apêndice da delegacia de roubos e furtos, mas os oito doutores, como a Du Barry, acharam que dava.

Há um problema de percepção na cúpula do Parlamento nacional.

Eles são incapazes de entender que certas coisas não podem ser feitas.

Eis o que disse Michel Temer à repórter Lúcia Jardim: “Não vejo isso como uma tentativa de sedução, até porque, se fosse, seria muito fraca.” (Conta a lenda que o professor Henry Kissinger disse a uma senhora que toda mulher tem um preço e ela respondeu: “Isso é um insulto. Eu, nem por um milhão de dólares.” “Pois veja que já estamos discutindo preço”, respondeu Kissinger.) “Se fosse a Câmara que tivesse pagado nossa viagem, aí sim, eu tenho certeza de que fariam um escândalo em cima disso.” (Resta saber por que os franceses pagaram. Se os deputados pudessem justificar o motivo da viagem, a Câmara, ou o governo francês, deveriam pagá-la. Do contrário, não deviam aceitá-la.) “Acho que só não haveria questionamento se nós tivéssemos vindo a pé”.

(Para continuar no tom de Temer, há uma enorme torcida para que os oito resolvam ir a pé até Paris. Deveriam anunciar o ponto do litoral de onde partiria a comitiva, para que a galera pudesse se despedir deles.) Viajaram com o deputado Michel Temer: Cândido Vacarezza (SP), líder do PT na Câmara; Carlos Zarattini (PT-SP), vice-líder do PT na Câmara; Ibsen Pinheiro (PMDB-RS); José Anibal (SP), Líder do PSDB na Câmara; Maria Lucia Cardoso (PSDBMG), vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara; Raul Jungmann (PPS-PE), presidente da Frente Parlamentar de Defesa Nacional; Ronaldo Caiado (GO), líder do DEM na Câmara.

Nessa comitiva há deputados que não gostariam de ser confundidos com a nobreza decadente e degolada.

Também ficou na Conciergerie, e foi para a lâmina, o companheiro Danton, que tinha um fraco por seduções.

Por Antonio Ribeiro

19/07/2009

às 7:47 \ Brasil-França

Dois pintos no lixo


“Se entendem tão bem como dois pintos no lixo”, assim o tradutor de francês de Lula, testemunha privilegiada das conversas com Sarkozy, descreve a relação entre o presidente francês e o brasileiro. Brasil e França encetaram um namoro firme nos últimos tempos. A relação se intensificou a tal ponto que um diplomata graduado da Embaixada do Brasil em Paris clama por reforço de funcionários no palacete Schneider, construído na 34 Cours Albert Premier, sede da representação brasileira. “Estamos estourando as horas extras, é trabalho sem fim” , diz ele. Desta vez, não se trata só de vagos e enfadonhos intercâmbios culturais, há substância política e negócios pesados na mesa.

Nunca a confluência de pontos de vista do Brasil e da França foi tão estreita, seja no que respeita temas como governança internacional (G20, FMI, Conselho de Segurança da ONU), o apreço por um mundo “multipolar”, aumento no controle dos mercados financeiros, cooperação na aérea de energia nuclear, preservação da biodiversidade e mudanças climáticas. No passado, quando evocava-se a relação entre os dois países, o principal tema era divergências no comercio agropecuário. O Brasil reclamava dos subsídios que o governo francês dava aos seu produtores e das altas taxas de importação de commodities brasileiras. Essa pendenga ainda existe, mas agora foi relegada ao segundo plano.

Em franca perda de vitalidade devido um déficit público monumental (85 bilhões de dólares por ano) e um crescimento econômico pífio (1,18% do PIB em 2008), a França precisa de novos mercados. Eles estão, sobretudo, nos países emergentes. A França não tem influência nem se dá tão bem com a China, que faz o que quer. A Índia sempre foi parceiro tradicional dos inglêses por razões históricas e culturais, e com o fim da Guerra Fria, onde mantinha uma posição de pais não alinhado, mas simpáticos aos soviéticos, aproximou-se agora dos Estados Unidos. A Rússia prefere tratar mais com a Alemanha do que com a França. Sobrou o Brasil para o governo de Nicolas Sarkozy.

É neste contexto que esta previsto para a segunda semana de agosto um parecer técnico, elaborado pela Aeronáutica, sobre a concorrência para compra de 36 aviões caças no valor de 4 bilhões de reais. O Rafale, fabricado pela francesa Dassault Aviation cujo centro de produção em Mérignac tem capacidade de produzir 30 aviões por ano, atende aos requisitos formulados pelo Ministério da Defesa. O maior atrativo não é só o desempenho do avião e adequação as necessidades da Força Aérea Brasileira (FAB), mas a transferência de tecnologia. Os franceses prometem repassar o código-fonte do caça bireator aos brasileiros. A posse da informação permite, por exemplo, fabricar o Rafale no Brasil em quase total independência.

A decisão da compra dos caças, embora passe pelo escrutínio de uma avaliação técnica, é política. Quem decide, no final, é o presidente Lula. Na sua passagem por Paris, falando a respeito dos entendimentos para os modos de financiamento entre um grupo funcionários do Ministério da Fazenda e da Defesa com o governo e bancos franceses, Nelson Jobim deu uma pista. “Queremos que tudo esteja pronto até o 7 de setembro”, disse ele. A data coincide com a visita de Nicolas Sarkozy ao Brasil para inaugurar o ano do seu país no país de Lula. A escolha do Rafale são favas contadas.

Por Antonio Ribeiro

 

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