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Bertrand Delanoë

29/03/2014

às 9:33 \ Paris

Partida de damas: a briga pela prefeitura de Paris

Anne Hidalgo e NKM

Anne Hidalgo e Nathalie Kosciusko-Morizet

Homossexual assumido, o prefeito de Paris Bertrand Delanoë, político socialista entre os mais serenos da paisagem política francesa, decidiu se aposentar. O substituto não será um negro das Antilhas, índio Uaiana, da Guiana, ou francês de origem magrebina. Sabe-se, não é?, pertencer a uma minoria e, sobretudo, não ser homem branco, cai bem. Competência, honestidade e bom programa de governo são quase penduricalhos. Paris, capital da moda, não poderia ficar fora da tendência.

O próximo prefeito da cidade será fatalmente uma mulher. “A primeira da história”, como repetem sem cansar aqui, militantes, jornalistas e quem considera a situação, baita avanço da democracia moderna. Talvez aproveitem o momento. Mais para frente, decantado algum tempo, o cidadão fica alheio aos periféricos. Quer se saber a essência. Dito de outro modo: se votou para candidato bom ou ruim, seja ele azul, branco ou vermelho.

De acordo com previsões da Meteo France no domingo 30 de março as 19 horas e 59 minutos o sol vai se esconder no horizonte da capital francesa. No minuto seguinte, se saberá quem será a nova prefeita. Se a socialista Anne Hidalgo, de 55 anos de idade, atual vice-prefeita ou a postulante de centro-direita Nathalie Kosciusko-Morizet, de 41 anos de idade, ex-ministra e porta-voz do governo Nicolas Sarkozy.

No primeiro turno, houve surpresa. A favorita das pesquisas de opiniões Anne Hidalgo ficou em segundo lugar com 34% dos votos. Nathalie Kosciusko-Morizet saiu na frente com apertada vantagem de 1% — 8.472 votos. Os franceses para simplificar o nome longo e de pronuncia difícil, chamam a candidata da União por uma Maioria Popular (UMP) pelas iniciais NKM e os mais próximos dela, pelo sonoro apelido “Nakomô”.

A vitória parcial de NKM acompanhou a onda nacional das eleições municipais. A direita deu uma surra eleitoral nos socialistas punindo o presidente François Hollande pelo desempenho medíocre durante 16 meses de governo. Quase meio mandato jogado no lixo. O índice de desemprego ultrapassou 10%, a economia não decolou, os investidores estrangeiros correram e apesar do aumento de impostos, a dívida público acumulada lembra cova ampla e funda — 90,2% do Produto Interno Bruto (PIB). A expectativa é que os resultados definitivos das eleições ampliem a derrota do governo. Se confirmada a deblacle, cogita-se a queda do primeiro-ministro, o fusível do sistema presidencialista parlamentar francês. Como tora na lareira ou, digamos à brasileira, o carvão do churrasco, é mais util quando começa incandescer. Mas Paris não é a França.

A eleição municipal na capital é indireta. Isso porque a Paris tem, simultaneamente, estatuto de município e departamento. Primeiro, se elegem 163 membros do Conselho de Paris, os representantes na devida proporção de eleitores dos 20 distritos da metrópole, os chamados “arrondissements” — o menos populoso tem 1 eleito e o mais, 18. Os conselheiros escolhem o prefeito de Paris. A aliança com os Verdes — colheram quase 9% do sufrágio — alçou novamente Anne Hidalgo à posição de favorita em uma eleição cujos resultados reproduzem o mapa da Europa durante a Guerra Fria: oeste favorável à direita e o leste à esquerda.

As concorrentes participaram de debate no canal a cabo i>telé com transmissão também para a rádio RTL. Quem esperava propostas e confronto de idéias de candidatas que materializam a nova geração de políticos, assistiu duelo de insultos e interrupções sistemáticas na fala alheia.  Elevar o tom de voz foi a estratégia predominante. Se pela telinha percebeu-se espetáculo decepcionante, um dos mediadores da beligerância lembrou o duplo desconforto de motoristas retidos nos engarrafamentos com o radio sintonizado no debate: “Não estão entendendo nada, madames.”

Comparado com as dores de cabeça dos prefeitos brasileiros, os problemas do executivo parisiense parecem anedotas. A infra-estrutura construída para durar exige, no máximo, manutenção. Não há lugar no Paris intra-muros que fique a mais de 500 metros de uma estação de metrô. Os pontos de ônibus indicam através do rastreamento por GPS o momento exato em que o coletivo vai passar — e só não chega se houver greve. O sistema de bicicletas públicas com vasta rede de ciclovias e o carro elétrico compartilhado são exemplares. A cidade é um espanto de beleza arquitetônica — todo prédio residencial é obrigado a limpar a fachada a cada dez anos, o resto o governo cuida em troca de impostos elevados.

Contudo, o maior atrativo dos turistas brasileiros em Paris, situação que os locais acham natural como o mineral, é a possibilidade de sair de casa e voltar sossegado. Isso a qualquer hora do dia ou da noite. A cidade é segura. No entanto, NKM quer instalar mais câmeras de segurança e aumentar o efetivo de “policiais de proximidade”. Quer dizer, maior vigilância nos bairros residenciais. Hidalgo promete além mais policiais para cuidar das zonas sensíveis, criar uma “brigada contra o barulho e em favor da ecológia.”

O problema é o espaço. Se constrói pouco em Paris. A população aumenta, os jovens e quem procura melhores condições de trabalho na cidade, encaram mercado imobiliário restrito. E portanto, caro. Hidalgo diz que vai construir 10 mil novas moradias em conjuntos habitacionais — pelos padrões brasileiros são apartamentos de classe média. NKM, em contrapardita, visa programa de aquisição de casa própria com preços 25% inferiores ao mercado com a garantia de “deus pai”. Leia-se, o governo.

A postulante socialista afirma que criará 5 mil novas vagas em creches. Sustenta contra a corrente da crença popular que não aumentará os impostos e manterá o volume de investimentos da prefeitura: 8,5 bilhões de euros. A candidata da direita prefere incentivar a guarda infantil domiciliar entre famílias com tempo disponível. NKM promete investir 7 bilhões de euros por ano em Paris. Promete, se eleita, baixar imediatamente 100 milhões de euros em impostos locais devido a plano de redução nos gastos do governo de um bilhão de euros em 6 anos. Quem viver verá. Quem passou da adolescência, real e mental, custa acreditar.

Atualização:  A socialista Anne Hidalgo foi eleita prefeita de Paris com 92 conselheiros municipais como base de sustentação política. A União por uma Maioria Popular (UMP), partido de Nathalie Kosciusko-Morizet, elegeu 71 conselheiros nos 20 distritos da capital francesa. De origem espanhola e vice-prefeita durante 11 anos, Hidalgo declarou ao jornal Le Monde que pensava governar Paris todas as manhãs quando se maquiava.

LEIA TAMBÉM O POST DO BLOG DE PARIS: “Hénin, centro do mundo, agora sob nova administração

Por Antonio Ribeiro

27/11/2009

às 12:38 \ Paris

A bela adormecida

Fechada: vá a capital ao lado

Fechado: Favor ir à capital ao lado

O apagão ainda não chegou a Cidade Luz. No entanto, depois das 23h, Paris toma um tiro mortal. A vida noturna apagada da capital que mais recebe turistas no mundo, menos animada do que Berlim, Londres, Amsterdam ou Barcelona, está criando fama oposta ao famoso mote da canção New York, NewYork, hino popular da metrópole americana de mesmo nome. Agora dizem: “Paris, a cidade que dorme sempre.”

Houve um tempo em que Paris era considerada o paraíso dos boêmios. Isto porque os lugares para varar a noite até o momento quando a cidade é ainda mais esplendorosa – o lusco-fusco brilhante do amanhecer – permaneciam abertos.  Hoje, as autorizações para um estabelecimento funcionar além das 2 horas da madrugada  passam por fino conta-gotas da administração municipal. Outrora, o comportamento nos interiores e proximidades dos estabelecimentos era sujeito a regras menos restritas.

Conter o ruído em uma cidade onde a maioria das construções datam de outros séculos, quando não é impraticável, custa uma dinheirama. A vizinhança residencial recorre com frequência à intervenção policial quando sente-se incomodada pelo barulho. A lei antitabagista, em vigor desde 2008, proibindo fumar nos interiores de lugares públicos  aumentou o problema. Doravante, em frente as casas noturnas, a reunião de animados grupos de fumantes faz parte da paisagem. O dono do Batofar, um barco convertido a bar com shows de música às margens do rio Sena, foi responsabilizado judicialmente por uma briga entre seus clientes a 150 metros do ancoradouro.

A crise econômica reduziu o poder aquisitivo dos franceses. A curva da frequência de bares, restaurantes e discotecas deu um mergulho. Mas é a legislação rigorosa, uma enleada burocracia, que tem causado multas pesadas e a suspensão temporária de licenças que podem chegar até o fechamento definitivo. É o caso da eletrizante boate La Loco, vizinha ao Moulin Rouge, em Pigalle, a região da capital francesa onde a noite é mais festiva. Adicione-se que o metrô, o transporte público mais utilizados pelos parisienses para de circular à 1 hora da madrugada – nos fim de semana opera até às 2h.

No caso dos restaurantes, leis trabalhistas arcaicas como a limitação da jornada de trabalho de 35 horas, tornou à prática de horas extras proibitivas pelo alto custos dos encargos sociais. Os proprietários preferem ir dormir cedo do que contratar. Caso clássico de perda de oportunidade para criação de riqueza. Quem acometido de fome e sede tardia, já não enfrentou a rota do calvário em Paris, indo de porta em porta e ao entrar, recebeu o “Desolé, a cozinha fechou”? Resposta em francês, inglês e português: une poignée, happy few, meia dúzia de gatos pingados.

Um coletivo que tira seu sustento do divertimento noturno criou a campanha “Paris: quando a noite morre em silêncio”. Os organizadores clamam por abrandamento no quadro jurídico. “Qual o sentido de uma lei de saúde pública que no final, impede as pessoas de dançar?”, perguntam eles. Parte da iniciativa é uma petição na internet que já colheu mais de 12.000 assinaturas favoráveis.

Preocupado em desmistificar a imagem de que a sua cidade está se tornando um verdadeiro museu noturno, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, mandou seu secretário de Turismo, Jean-Bernard Bros, criar um site oficial na internet listando as atrações da noite em Paris. Nos últimos anos, a prefeitura tem promoveu também, sem muito sucesso, a Nuit Blanche (Noite em Claro), onde acontecem várias manifestações artísticas exclusivamente durante uma madrugada.

No fim dos anos 60, o notívago cantor francês Jacques Dutronc fazia a França cantar o cenário da hora em que ele ia dormir, quando as estrelas do striptease vestiam-se, quando os amorosos estavam cansados da noitada, Il est cinq heures Paris s’eveille (São cinco horas Paris desperta). Hoje, o filho Thomas Dutronc faz sucesso com a canção J’Aime Plus Paris (Eu não amo mais Paris).

Por Antonio Ribeiro

 

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