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Bento XVI

19/03/2009

às 14:26 \ Religião

Grande momento de Bento XVI na África


Durante uma missa campal que reuniu 60.000 fiéis em Yaoundé, nos Camarões, o papa disse o seguinte: “A religião e a razão se reforçam mutuamente quando a religião é purificada e estruturada pela razão, e quando o potencial da razão se libera pela revelação da fé”.

Por Antonio Ribeiro

19/03/2009

às 9:41 \ Religião

A vã tentativa de voltar ao tempo das carroças e do cinto de castidade.


“Todo mundo tem direito a sua opinião, mas não aos seus próprios fatos.” — Daniel Moynihan

“Contra fatos não há argumentos.” — provérbio grego.

Se o cinto de segurança nos carros induz o motorista pisar fundo no acelerador, por que as autoridades do setor de transportes não aboliram a obrigatoriedade de usar o dispositivo? Se o carro é fator determinante nos acidentes automobilísticos, por que não voltar ao tempo das carroças? A lógica poderosa de alguns falsos clarividentes tenta persuadir sem sucesso que a existência de 70 milhões de aidéticos no mundo ocorre devido ao uso de preservativos. O propósito, diga-se de passagem, não é nenhuma novidade. As teorias de Paul Virílio, “o filósofo da Idade da Mídia”, pregam o retorno aos tempos das cavernas para evitar os desastres modernos. O problema não se resume na falta da relação entre causa e consequência, mas em um cálculo perverso.

Explico:

Sem a existência do preservativo, o católico com medo de contrair AIDS adotaria a abstinência sexual, pratica aconselhada pela Igreja. Entende-se porque é mais fácil catequizar criancinhas e nos bolsões da ignorância, longe de Galileu, Darwin e Voltaire. Ora, o que ameaça a Igreja Católica e atrapalha as políticas de saúde pública, não é bem o uso da camisinha, e sim, em muito mais, o anacronismo de uma minoria integrista e a sua descrença na ciência. O obscurantismo religioso assim como as ideologias arcaicas, o comunismo por exemplo, tornam-se anacrônicas no hemisfério Norte. De vez em vez, encontram uma sobrevida, uma aposentadoria ensolarada nos
trópicos.

O que dizem os especialistas sobre a declaração do papa Bento XVI que o preservativo agrava a epidemia da AIDS?

“Minha reação é que ela [a declaração] representa um grande passo para trás na educação sanitária global, inteiramente contraproducente, que irá causar aumento nas transmissões do vírus da AIDS na África e alhures. Existe vasta evidência comprovando que o uso de preservativos reduz o risco de contrair AIDS e que não provoca o acréscimo na atividade sexual.” — Quentin Sattendau, professor de Imunologia da Universidade de Oxford.

“Não existe nenhuma evidencia científica que demonstra que o uso de preservativos induz as pessoas terem um comportamento sexual arriscado. Se usados de forma consistente e correta, os preservativos são altamente eficazes para prevenir a transmissão do vírus da AIDS.” — Kevin De Cock, diretor do programa de combate a AIDS da Organização Mundial da Saúde.

“Não cabe aos governos julgar as doutrinas da Igreja, não é missão de líderes religiosos estabelecer diretivas de saúde pública.” — Ulla Schmidt, ministra da Saúde da Alemanha.

Por Antonio Ribeiro

18/03/2009

às 18:28 \ Religião

Toda fotografia que requer legenda longa é infeliz

Nas suas edições de hoje, dois jornalecos (vamos chama-los de The New York Times e Le Monde) publicaram editoriais criticando a declaração do papa Bento XVI sobre os preservativos. Ambos dizem que a Igreja Católica tem legítimo direito de defender seus dogmas — escrevemos aqui o mesmo, 24 horas antes, sem esperar a chancela do jornal americano e do vespertino francês. A trapaça, no entanto, como eles também dizem, está na afirmação mentirosa do papa Bento XVI de que a camisinha contribui para disseminação da AIDS. Afirmação que espanta cientistas, especialistas na questão e, diga-se de passagem, destempera os mal intencionados.

Este blogueiro tem um método de leitura muito simples. Se nos primeiros parágrafos o autor do texto se mostra menos inteligente que o leitor, interrompemos a leitura. Mas não somos tão severos assim, damos uma segunda chance. Vamos lá no final do texto para ver se sobrou alguma conclusão do arrazoado. Se o autor, depois muita verborragia — a brevidade e concisão é uma arte —, admite ter abraçado mais uma causa perdida, fazemos uma reverência e seguimos em frente. Não há tempo para perder, existe tanta coisa interessante para ler.

Por Antonio Ribeiro

18/03/2009

às 7:58 \ Religião

A desonestidade intelectual de Bento XVI


O mundo tem uma população de 70 milhões de aidéticos, dois terços deles vivem na África, entre os quais 2,8 são indivíduos com menos de 14 anos cuja metade morre sem receber tratamento. No horizonte do ano 2010, estima-se que 36 milhões de africanos estarão contaminados pelo vírus da AIDS — mais da soma dos habitantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Do ponto de vista teológico, é legítimo a Igreja Católica aconselhar a abstinência sexual — inexistente até em conventos —, o casamento cristão e a fidelidade para lutar contra a epidemia letal. Embora anacrônica e de comprovada ineficiência, a posição da Igreja merece o que vem recebendo no seu interior e fora dela, a descrença. O problema é de outra ordem.

Antes mesmo de pousar em Iondé, capital dos Camarões, iniciando sua primeira visita a África que inclui escala em Angola, o papa Bento XVI declarou que o uso dos preservativos — a primeira vez que um pontífice descarta o termo contraceptivo — agrava a situação da AIDS. Noves fora a afirmação do secretário da Educação do governo Ronald Reagan, William Bennett, de que o uso de preservativos era maior nas comunidades infectadas, não há nenhum estudo epidemiológico que sustenta os preservativos como algo que ajuda propagar a AIDS. Na verdade, o postulado consiste em uma desonestidade intelectual. A falácia que tenta persuadir pela existência de mais leitos hospitalares, a maior incidência de doenças. Equivale dizer que o mosquiteiro dissemina a malária. Bento XVI tenta vender a idéia que o uso do preservativo tira a responsabilidade do individuo. Ou seja, ele não sente-se na obrigação de conter, controlar sua sexualidade. Pura enganação. Equivale dizer que o cinto de segurança nos carros dá mais ímpeto aos motoristas para pisar fundo no acelerador.

O Centers for Disease Control and Prevention afirma haver “compreensiva e conclusiva” evidência de que os preservativos de latex, quando usados de forma consistente e correta são altamente eficazes na prevenção da transmissão do vírus da AIDS. Estudos do respeitável Cochrane Collaboration concluíram que os preservativos podem reduzir em até 80% a transmissão da AIDS.

Reparem, o problema não é ser tradicionalista ou progressista. Isto é uma bobagem. Cada um escolhe ser o que bem entende. Nem tampouco questionar valores morais. A Igreja é o que é devido aos seus fundamentos. A questão é distorcer dados científicos e, ainda mais grave, numa situação extremamente delicada.

A eleição de Bento XVI foi saudada como a chegada de um intelectual no comando da Igreja. No entanto, a sabedoria tem se revelado, muitas vezes, adições de mais mal ao mal. Professor de teologia, dogmático e tradicionalista, Bento XVI não é diplomata nem homem de comunicação. Com frequência o papa mostra-se naive em política, comete gafes que o obriga, como na semana passada e primeira vez na história pontifical, publicar uma carta para colar os cacos causados pela falta de perícia. Depois do perdão ao bispo britânico Richard Williamson que nega o Holocausto e a excomunhão da equipe médica que praticou o aborto na menina pernambucana de 9 anos e 35 quilos, grávida de gêmeos, depois de ser estuprada pelo padrasto, a Igreja Católica não precisava de mais um tropeço. A declaração sobre os preservativos lembra os tempos em que a Igreja condenava a batata como diabólica porque crescia debaixo da terra.

Por Antonio Ribeiro

17/03/2009

às 9:44 \ Religião

Bento XVI: “A distribuição de preservativos agrava o problema.”

A falsa ciência gera ateus; a verdadeira ciência leva os homens a se curvar diante da divindade” – Voltaire

O papa Bento XVI inicia hoje uma viagem de 6 dias à África, a primeira do seu pontificado em continente onde são registrados o maior número de casos de AIDS no mundo – 33 milhões de contaminados e previsão de 36 milhões em 2015, segundo o Global HIV Prevention Working Group.  Na África, vivem 158 milhões de católicos – um em cada seis fiéis da religião cujo papa é autoridade suprema são de origem africana. No avião que o leva aos Camarões, Bento XVI descreveu a AIDS como “epidemia cruel que não só mata, mas coloca em risco a economia e estabilidade social” do continente mais pobre do planeta. Ele é contra o uso de preservativos. “A distribuição de preservativos agrava o problema”, disse Bento XVI. Para o papa, apenas “os ensinamentos tradicionais da Igreja provaram ser capazes de prevenir a disseminação da AIDS. Ou seja, o casamento cristão, a fidelidade e a castidade.

Por Antonio Ribeiro

15/03/2009

às 6:39 \ Religião

“São outros que merecem a excomunhão”

Em artigo no Osservatore Romano, jornal do Vaticano, o presidente da Academia Pontifícia para a Vida, o cardeal Rino Fisichella, um dos mais próximos conselheiros do papa Bento XVI, escreve sobre o anúncio de excomunhão da equipe médica que praticou o aborto na menina pernambucana de 9 anos e 35 quilos, grávida de gêmeos, depois de ser estuprada pelo padrasto. “São outros que merecem a excomunhão e nosso perdão, não os que lhe permitiram viver e a ajudarão a recuperar a esperança e a confiança, apesar da presença do mal e da maldade de muitos”, diz ele.

O cardeal Fisichela maior autoridade eclesiástica em bioética diz que o Arcebispo Metropolitano de Recife e Olinda, dom José Cardoso Sobrinho (entrevistado da jornalista Juliana Linhares na edição de  VEJA esta semana), colocou em risco a credibilidade da Igreja. “Era mais urgente salvaguardar a vida inocente e trazê-la para um nível de humanidade, coisa em que nós, homens de igreja, devemos ser mestres. Assim não foi e infelizmente a credibilidade de nosso ensinamento está em risco, pois parece insensível e sem misericórdia.”

Segundo o cardeal, a equipe médica merece respeito por agir de forma profissional em uma situação delicada: “É uma decisão difícil para os médicos e para a própria lei moral. Não é possível dar parecer negativo sem considerar que a escolha de salvar uma vida, sabendo que se coloca em risco uma outra, nunca é fácil. Ninguém chega a uma decisão dessas facilmente, é injusto e ofensivo somente pensar nisso.”

Nos escrevemos aqui que a questão médica precedia o debate sobre o aborto. Uma sociedade que caminha na precipitação de uma indignação à outra sem dar o devido tempo para reflexão corre o risco de se enganar com frequência. Foi o caso da advogada Paula Oliveira, seguiu a excomunhão da equipe médica. A bola da vez é a história triste do menino Sean Ribeiro Goldman.

Por Antonio Ribeiro

28/03/2007

às 9:08 \ Europa

A Europa apagada

União Européia celebra os cinqüenta anos, mas a festa não causa euforia porque a economia vai mal

“Evite a burocracia. Oriente, não imponha. As regras devem ser mínimas.” Os conselhos de Jean Monnet, arquiteto do Tratado de Roma, o acordo multinacional para remover tarifas alfandegárias no comércio de aço e carvão, pedra fundamental da União Européia, foram proféticos. No Velho Continente, trafega-se em auto-estradas impecáveis dos fiordes escandinavos às praias cantábricas sem cruzar com batalhas nem mostrar o passaporte e pagando com moeda única – o euro. A modernidade ocupa cada canto desse “pomar” da Terra e até ajuda na conservação das suas ruínas. Os que governam os 27 países da União Européia são eleitos pelo sistema democrático. O índice de pobreza europeu é o menor do mundo. Contudo, a situação inédita na região não desperta em seu meio bilhão de habitantes a confiança de outrora. Ao menos, não como sugeriam os filósofos do Iluminismo. Ou seja, o futuro próspero é uma conseqüência inevitável. Ao completar cinqüenta anos, a UE vive uma espécie de crise de meia-idade. Ela deu as costas para a Europa que inspirou suas instituições e anda sem visão.

O espírito empreendedor nato do europeu está asfixiado por um formidável arsenal normativo. Os 20.000 euroburocratas pretendem regulamentar detalhes como a curvatura dos pepinos e o diâmetro dos preservativos. Os governantes de países fundadores da União Européia – Alemanha, França, Bélgica e Itália – hesitam estabelecer a justa medida entre o estado de bem-estar social e o crescimento econômico vigoroso e com mais empregos. A Europa, berço da civilização ocidental, sempre empunhou a espada, a pena e a cruz com a força de sua economia. Durante décadas, a maioria dos países da União Européia sustentou um modelo socioeconômico generoso, menos competitivo se comparado ao dinamismo dos Estados Unidos. A fadiga tornou-se notável. Pelo sétimo ano consecutivo, os americanos, trabalhando mais, geraram riqueza superior e criaram o dobro de empregos. A fortaleza comercial européia balança a cada desembarque de um contêiner com produtos bons e baratos, feitos na China, para onde migra parte de suas indústrias.

Berlim, cidade-símbolo da vitória da paz, união e prosperidade contra a violência, divisão e ódio do nazismo e do comunismo, foi escolhida como palco para comemorar o cinqüentenário. Sobram razões para celebrar. No entanto, a paz é considerada aquisição perene. Não há euforia nas ruas. Líderes dos 27 países, reunidos na capital alemã unificada, querem revigorar, proclamando mais uma esmerada declaração, o ânimo europeu, abalado desde o solavanco de 2005. Nas palavras de Jacques Delors, ex-presidente da Comissão Européia: “Em estado de coma leve”. Embora dezoito países tenham ratificado a Constituição Européia e quatro outros estivessem prontos a fazê-lo, a França e a Holanda vetaram-na por meio de referendos populares, engavetando o calhamaço de 300 páginas. As instituições européias, criadas para funcionar com seis países, nunca foram regidas por Constituição. Elas continuaram funcionando sem nenhuma. Os europeus não estão interessados em questões institucionais, mas em qualidade de vida. Mesmo votando contra, 71% dos franceses consideram-se europeus. Ninguém duvida. A questão é outra. A cada chegada de um novo membro à União Européia, a influência nacional diminui e o processo decisório fica mais complexo.

A razão do “não” foi o medo de competição, mais conhecido como a “síndrome do encanador polonês”. A livre circulação de serviços beneficia os trabalhadores da Europa Central, cuja mão-de-obra é mais barata. Ela permite morar e até se aposentar em qualquer lugar da União Européia. Os eleitores viram o texto constitucional como uma cilada contra as leis nacionais protetoras. Há quem faça a seguinte aposta: se o desemprego não fosse tão alto nos países do veto, o “sim” teria ganho. Efetivamente, a adesão de uma dezena de países do ex-bloco soviético, agora com economias de mercado flexíveis, aumentou a competição européia e contribuiu para a retomada do crescimento. Nada comparado aos tempos do Tratado de Roma. Naquela época, a Alemanha Ocidental estava em pleno Wirtschaftswunder – o milagre econômico do crescimento rápido, baixo desemprego e aumento do poder aquisitivo. O entusiasmo popular era contagiante. O primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, resumiu o impasse europeu atual: “Nós todos sabemos o que se deve fazer, só não sabemos como nos reeleger depois de feito”.

Há um caloroso debate sobre se a Turquia, muçulmana, deve ser aceita no clube europeu. Bento XVI considera a Europa o espaço da cristandade. Ela não deixou de ser quando a harmonia entre católicos, judeus e muçulmanos fez o esplendor do que se chama hoje Espanha. A Inquisição, além de queimar pessoas e mergulhar no obscurantismo, drenou recursos. A Turquia não preenche, completamente, os critérios de democracia, economia de mercado e respeito aos direitos humanos exigidos pela União Européia. Até pouco tempo atrás, Portugal, Espanha e Grécia eram ditaduras. A adesão à União Européia ajuda a colocar as instituições dos países em compasso com a modernidade. A Turquia é européia para pertencer à Otan, a aliança militar do Ocidente. A essência da questão é o PIB per capita turco, de 2 800 euros, enquanto o da Romênia, o país mais pobre da UE, já está em 3 600 euros. Os pilares da União Européia são a força e o equilíbrio econômico dos países. A Itália corre o risco de deixar a zona do euro se não controlar o déficit público colossal. As fronteiras da União Européia poderão ir do Saara à Sibéria. A economia decidirá.

Por Antonio Ribeiro

 

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