04/08/2011
às 10:11 \ Voo AF447 (Rio-Paris)BEA sonega recomendação e cai no embaraço
O Escritório de Investigações e de Análises (BEA) da Aviação Civil da França, órgão responsável pela apuração das causas do acidente com o voo 447 da Air France, onde morreram as 228 pessoas a bordo do Airbus A330, é puro embaraço. La Tribune e Les Echos, os principais jornais de economia da França, revelaram que o BEA suprimiu às pressas do penúltimo relatório sobre a tragédia, divulgado no dia 29 de julho, uma recomendação formal importante. Na versão original, datada de 48 horas antes, a qual os jornais tiveram acesso, o BEA preconizava uma revisão no alarme de estol (perda de sustentação) da aeronave.
Ainda que confirme a origem do acidente na leitura incorreta de velocidades e incidências devido ao congelamento dos Tubos Pitot, a versão final do relatório foca no desempenho dos pilotos. Segundo avaliação dos investigadores franceses, eles não reagiram corretamente à pane, não foram treinados para situação em alta altitude e mostraram não saber se o Airbus estava subindo ou descendo momentos antes de colidir a 180 km/h contra a superfície do oceano Atlântico.
A questão do alarme de estol é considerada relevante porque os avisos sonoros dentro da cabine de pilotagem podem ter induzido os pilotos ao erro. A partir de 21h11 e 45 minutos até à colisão, o alarme disparou e silenciou indiscriminadamente uma dezena de vezes. As durações foram de 2 a 8 segundos Isso aconteceu, quando os pilotos empinaram o avião assim como nos momentos que tentaram embicar o avião para baixo.
As durações mais longas do alarme de estol ocorreram quando a tripulação tentou colocar o avião em posição normal de voo e, em contrapartida, silenciou quando a aeronave perdia sustentação (estolava). Os especialistas falam de “um funcionamento inverso do alarme”. Em efeito, o alarme parou de soar quando a velocidade era inferior a 60 nós. Isso porque o ADIRU, que abastece de informações o computador de bordo do avião, julga que não há razão para o A330 estar nesta velocidade. Ora, cada vez que o piloto tentou embicar para baixo (a boa ação para sair do estol) e que repassou a uma velocidade inferior a 60 nós (empinando, a velocidade diminui consideravelmente) o alarme disparou fazendo crer que a ação era inadequada. Assim, os pilotos não tiveram nenhuma compreensão da situação real do avião. O que explica, em certa medida, algumas ações incompreensíveis de pilotos experientes.
O BEA se defendeu, em comunicado: “O trecho foi retirado porque era prematuro nesta fase da investigação. Na verdade, este assunto será aprofundado pelo grupo de ‘Sistemas do Avião’ e complementado pelo grupo de trabalho ‘Fatores Humanos’.” Os dois grupos ajudarão os investigadores a redigir o relatório final sobre o acidente previsto para o primeiro semestre do ano que vem. A Air France solicitou a Agencia Europeia para a Seguranca da Aviação (AESA) que analise a situação de um sistema de alarme que “funciona em contradição com com o estado real da aeronave.”
Devido à supressão da recomendação sobre o alarme pelo BEA, o Sindicato Nacional dos Pilotos de Linha (SNPL, na sigla em francês) decidiu retirar sua colaboração na investigação técnica alegando que ela está sendo direcionada contra os pilotos e favorecendo a Airbus para proteger os interesses comerciais do setor aeronáutico francês. As associações dos parentes das vítimas do voo AF 447, uma vez mais, acusaram o BEA de falta de transparência. “O episódio joga definitivamente o descrédito sobre a investigação técnica e gera uma crise de confiança sem precedentes em relação às autoridades de investigação”, disse Robert Soulas, presidente da associação francesa Entraide et Solidarité AF 447. “A investigação tem sido exemplar”, disse Thierry Mariani, ministro dos Transportes da França, de onde vem 100% dos recursos do BEA e de quem depende sua direção.
Leia o post do Blog de Paris: “Ainda não há culpados pela tragédia“
Tags: A330, ADIRU, AF 447, AF 447 ultimas notícias, Air France, Airbus, alarme de estol, BEA, Entraide et Solidarité AF 447, La Tribune, Les Echos, Robert Soulas, SNPL, Tubos Pitot















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