Blogs e Colunistas

Barack Obama

16/04/2013

às 8:12 \ Terrorismo

“Estarei na próxima”

A onda de choque da primeira explosão derrubou Bill Iffrig. O maratonista de 78 anos de idade levantou-se e cruzou a linha de chegada –  terceira vez em Boston. Em seguida, depois da segunda explosão durante a maratona mais tradicional dos tempos modernos, o natural de Lake Stevens, no estado Washington, disse que estará presente na próxima.

Quando o terror age com sua habitual covardia, ataca a humanidade inteira. Em um primeiro instante, emergem duas perguntas. Quem fez? E a natural incompreensão, por que? Se não se sabe ainda quem, para que a “Justiça jogue todo o seu peso”, como prometeu Barack Obama, a segunda resposta é a de sempre. Embora os terroristas e seus simpatizantes da hora possam avançar as mais esdrúxulas justificativas, trata-se de uma sandice.

Da parte das pessoas de bem haverá o luto respeitoso e a solidariedade com os parentes e amigos das vítimas, na sua maioria de espectadores. Entre eles estava um bostoniano de 8 anos de idade. Como milhares, Martin Richard foi assistir ao evento que reúne atletas do mundo inteiro e congrega tantas pessoas diferentes como em nenhum outro momento na sua cidade, apaixonada por esporte e pelas cores dos locais Celtics, New England Patriots e Red Sox. A irmã de 6 anos de idade do garoto assassinado perdeu uma perna e a mãe sofreu traumatismo craniano.

Desta vez, no entanto os terroristas tocaram diretamente em um grupo de indivíduos cuja resiliência está entre as mais admiráveis do planeta. Enquanto profissionais se esforçam para chegar primeiro, raro momento do esporte onde seus companheiros são também amadores, a maior parte dos maratonistas competem contra si mesmos. A crença férrea na vitória os faz continuar em frente até a linha final. É um dos melhores exemplos para luta permanente contra o terrorismo.

A próxima grande maratona está agendada para o domingo, 21 de abril, em Londres, uma cidade que já foi atacada brutalmente pelo terror em 2005. Desde então, mais precavidos, os londrinos continuam tocando o cotidiano sem se mostrarem aterrorizados. É justamente o que a barbarie deseja menos. Não será surpresa que Boston faça igual. Nick Bitel, diretor executivo da Maratona de Londres confirmou a corrida: “Ela vai acontecer com um sistema de segurança revisto e reforçado.” O mundo livre estará torcendo para os 36.000 maratonistas, gente como Bill Iffrig, e contra o terrorismo.

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Por Antonio Ribeiro

31/10/2012

às 18:33 \ Fotografia

“Olha, entre um pingo e outro, a chuva não molha” – Millor

A fotografia nos jardins da Casa Branca, mais precisamente no caminho do heliporto  ao Oval Office ((South Lawn), mostra como os marqueteiros querem que o Obama apareça agora para os eleitores na reta final da disputada campanha para presidência dos EUA. Nenhum um ajudante de ordem pra segurar o guarda-chuva. A chuva não incomoda o presidente determinado para cumprir árdua missão. No detalhe, é como acontece normalmente debaixo de chuva. Ou melhor: na mais inofensiva garoa. Cada gesto é estudado, calculado, premeditado. Cada imagem, cada declaração. Nada é feito de graça. Os momentos finais são importantíssimos para o resultado da eleição. Não se brinca.

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Hopper, a alma universal do ícone americano em Paris 

Por Antonio Ribeiro

01/02/2012

às 10:51 \ Diplomacia

EUA e França: voto não reduz diferenças entre as velhas democracias

Naturalmente há quem queira estabelecer paralelos entre a eleição presidencial americana e a francesa, projetando Mitt Romney como vencedor das primárias do Partido Republicano depois da acachapante vitória na Florida contra Newt Gingrich, o adversário dos sonhos dos democratas. Nesta altura, o exercício de alta especulação traz mais confusão que respostas. Mais que as naturais entre os dois países, ainda que velhas democracias, de tradições e processos eleitorais distintos.

Em primeiro lugar, o combate final entre Barack Obama e o desafiante republicano ainda nem começou enquanto a campanha eleitoral francesa vai de vento em popa. A eleição americana não tem dois turnos, como a francesa e a brasileira, portanto, aí já vai uma diferença de peso que complica a comparação desprovida de análise dos meandros.

Regra geral, na eleição de dois turnos, os candidatos tentam reunir o seu campo no início e isso implica, é do jogo, uma certa radicalização. Na etapa posterior, a estratégia principal é capturar o centro a exemplo das partidas de xadrez. Tanto na França como nos Estados Unidos, países politicamente polarizados, ninguém vence se não conseguir persuadir o eleitorado, digamos, flutuante. No caso dos EUA, agregam-se ainda os independentes e os desiludidos com o desempenho de Obama.

Neste sentido, Sarkozy deveria conter a migração do seu eleitorado para extrema-direita e, simultaneamente, trazer para seu terreno, simpatizantes da novata Marine Le Pen. Isto bastaria para chegar ao segundo turno. Para ganhar as eleições, o Presidente da França deve abarcar também boa parte dos eleitores do centrista François Bayrou.

Converter socialistas franceses em conservadores de direita ou fazer o caminho inverso constitui sucesso tão improvável quanto o engajamento de um palestino na causa sionista. Perda de tempo. Ganhar os seus e parte do centro foi o que trouxe a vitória a Sarkozy em 2007. Tentar agradar a gregos e troianos fez despencar sua popularidade. Perdeu aqui e não ganhou lá.

Do ponto de vista do eleitor francês de qualquer ponto do largo espectro político, Rommey e Gingrich estariam mais próximos do ideário do Front National. Salvo talvez na questão da imigração. Um candidato americano pode até pensar como a senhorita Le Pen, mas não ousaria verbalizar  em público o slogam “Americanos Primeiro” sem correr o risco de levar o pesado adjetivo xenófobo para casa. A candidata francesa não liga muito. Ela acha que isso, ainda que de forma indizível e em última instância, ser uma vantagem. Seu eleitorado de base gosta e aplaude. Em contrapartida,  e mesmo agradando os carolas franceses, Marine Le Pen não se sentiria muito a vontade colocando em evidencia seu cristianismo como fazem os republicanos americanos, as vezes de forma fundamentalista, a menos que a posição seja para enfatizar, segundo ela, os efeitos maléficos dos muçulmanos nas tradições européias. Não houve na outra margem do Atlântico guerras religiosas tão sangrentas como no Velho Continente.

Para os socialistas franceses, Obama não chega a ser um entre deles, sobretudo no aspecto econômico, mas é o “melhor” que os EUA podem fazer para se aproximar dos seus valores. A grosso modo, a chegada do democrata de tez amorenada à presidência é vista como um “progresso” da desigual sociedade americana, assim como o metalúrgico Lula, no Brasil. Detalhe: embora estima-se que a França tenha 5,5 milhões de muçulmanos, a maior comunidade da Europa, nenhum deles tem assento na Assembléia Nacional. Os americanos acham espantoso. Aliás, o censo do INSEE, o IBGE francês, nem contabiliza “muçulmanos” nos seus formulários do censo. De acordo como os preceitos da Republique, o indivíduo é um cidadão cuja crença religiosa não diz respeito ao estado, laico por princípio pétreo.

Na França, Sarkozy é percebido pela maioria como um conservador e representante do capitalismo puro e duro. Nos EUA, o presidente francês entra facilmente na galeria dos líderes estatizantes que não medem esforços para intervir com força e excesso de regulamentações na economia além de sempre que o interesse nacional está em perigo promover medidas protecionistas sem o menor complexo.

François Hollande só encontraria uma legenda nos EUA se ingressasse na ala moderada do Communist Party USA (CPUSA). Isso porque a despeito dos socialistas espanhóis, ingleses e alemães, o Partido Socialista (PS) francês não conseguiu se reformar para adequar-se à realidade de um mundo altamente competitivo. Continua atrelado e dependente ao poder dos sindicatos franceses cuja maioria é de funcionários públicos mais especificamente de professors dos estabelecimentos públicos. Não é anodina a proposta de Hollande para aumentar seu número. Evidentemente dizer claramente de onde vai tirar dinheiro para pagar salários e encargos sociais durante 62 anos e mais aposentadoria. Isso em um país de com deficit publico de 1,7 trilhão de euros, 86% do Produto Interno Bruto (PIB).  Mas, leia-se o de sempre, “aumentar os impostos” que nos EUA, a questão muito é mais sensível do que na França.

Em resumo e no absoluto, os EUA estão mais próximos à economia de mercado e a França, é bem mais liberal no aspecto político do termo. Para que se possa estabelecer uma comparação mais justa entre as eleições francesa e americana seria necessário admitir que as prévias nos EUA equivalessem à votação do primeiro turno na França, ainda que um terceiro candidato independente americano possa influenciar na dualidade da disputa final. O certo é que tanto Obama quanto Sarkozy não estão em posições confortáveis, o último bem menos que o primeiro. E o curioso é que se os votos confirmarem as pesquisas, a dupla Hollande e Obama não irá aproximar mais as visões de mundo dominantes em seus respectivos países. É bem provável que aconteça o contrário.

Por Antonio Ribeiro

08/11/2011

às 13:13 \ Europa

Diplomacia de insultos

Foi revelado um diálogo confidencial durante a reunião de cúpula do G20 entre Nicolas Sarkozy e Barack Obama sobre o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. “Não posso nem vê-lo. É um mentiroso”, disse Sarkozy. Obama retrucou: “Se você está cansado, imagina eu, que tenho de lidar com ele todos os dias”. A conversa fará estragos nas relações entre os três chefes de estados. Os países, bem maiores que os três, se ajeitam. Mas a troca entre o presidente da França e dos Estados Unidos chega ser comedida se comparada com os insultos feitos entre os líderes europeus durante a tensa crise do euro. Leia em seguida um compêndio:

Nicolas Sarkozy, presidente da França, sobre Angela Merkel, chanceler alemã:

La Boche”, quer dizer, a boche, a velhusca, é a maneira injuriosa e xenófoba que os franceses se referem aos alemães, sobretudo, durante a ocupação nazista na França. Origem do coloquial francês, caboche. Em português, cachola.

“Ela diz que está de regime, mas come um segundo prato de queijo.”

Nicolas Sarkozy para George Papandreu, primeiro-ministro grego:

“Os gregos são o vírus que está envenenando a Europa.”

Nicolas Sarkozy sobre José Zapateiro, primeiro-ministro espanhol:

“Talvez ele não seja muito inteligente.”

Nicolas Sarkozy para David Cameron, primeiro-ministro britânico:

“Você perdeu uma boa oportunidade de calar a boca.”

Angela Merkel sobre Nicolas Sarkozy,:

“Anão.”

“Luis de Fuenes”, referência ao agitado humorista francês de baixa estatura.

“Mr. Bean”, referência a personagem cômica criada pelo humorista britânico Rowan Atkinson. O insulto diz respeito a semelhança física.

David Cameron sobre Nicolas Sarkozy:

“Anão enfezado”

Silvio Berlusconi, presidente do Conselho da Itália sobre José Zapatero:

“Ele é muito cor de rosa”

Silvio Berlusconi sobre Angela Merkel:

Bunduda insuportável.”

Silvio Berlusconi sobre o euro:

“O euro é um desastre que f… todo mundo”

Leia o post do Blog de Paris: “Destino do euro pendula entre berçários do ocidente: Roma e Atenas.

Por Antonio Ribeiro

03/11/2011

às 9:22 \ Economia

G20: Abram os cofres

Depois de uma noite tensa devido à proposta grega de realizar referendo para plebiscitar ou não o pacote de resgate à economia da Grécia – 130 bilhões de euros e calote de metade da dívida com credores privados, cerca de 100 bilhões de euros –  a reunião do G20 em Cannes, no sul da França, começou com uma nota simpática. Barack Obama felicitou Nicolas Sarkozy pelo nascimento da sua filha Giulia. “Espero que ela herde a beleza da mãe e não a do pai”, disse Obama em referência a primeira-dama da França, à ex-modelo Carla Bruni. De fato, Sarkozy estava com feições de quem recebeu um presente grego.

Enquanto os chefes de estado do G20 (cerca de 80% do PIB global) seguem a tradicional coreografia das grandes reuniões, os assessores trabalham no rascunho do Plano de Ação para ser apresentado no fim do encontro. “O maior obstáculo na negociação é até que ponto a China aceitará acelerar uma flexibilização de sua política cambial e reduzir a acumulação de reservas para estimular o consumo doméstico”, revela Francisco Assis Moreira, correpondente do jornal Valor Econômico, que teve acesso ao esboço do documento. A proposta, visa sobretudo a China, é de que países com taxas de cambio inflexiveis e grandes reservas, abram o cofre para carburar o consumo interno. Neste aspecto, o aumento dos investimentos do governo Dilma Rousseff para melhorar a infraestrutura do Brasil é visto com entusiasmo.

Embora as atenções estejam voltadas para o encontro na Riviera francesa, a situação tensa na Grécia onde a sustentação política do  primeiro-ministro Papandreou vai ruindo rapidamente, é acompanhada com preocupação. Evangelos Venizelos, o ministro das Finanças da Grécia, um dos possíveis substitutos de Papandreou em eventual governo de união nacional se posicionou contra a realização de um plebiscito previsto para o dia 4 de dezembro. “A posição da Grécia dentro da zona do euro é uma conquista histórica que não pode ser colocada em dúvida, disse Venizelos. E arrematou expressando dissonância com o socialista Papandreou:  “Esta aquisição do povo grego não pode depender de um referendo.”

Leia o post do Blog de Paris - “O sermão do casal Merkozy

Por Antonio Ribeiro

23/09/2011

às 11:14 \ Oriente Médio

Estado palestino: todos sempre querem, a hora nunca faz unanimidade

O Diário Oficial circulou esta semana com decreto da Prefeitura do Rio de Janeiro determinando  a remoção de cerca de 480.000 postes fincados na Cidade Maravilhosa. A proposta tem como objetivo chegar em fevereiro de 2016 com o emaranhado de fios elétricos e cabos telefônicos da rede aérea embutido no subsolo do balneário carioca. Velha como o século XIX, a idéia além despoluir o visual da paisagem urbana, é medida preventiva adotada por grandes metrópoles contra acidentes e para melhor conservar os materiais condutores. Contudo, tão logo o decreto foi anunciado, alguns lembraram a falta de mapeamento completo e detalhado do subterrâneo da capital e de pontos da cidade inadequados para a instalação de dutos. Técnicos do setor dizem que nem sempre a rede subterrânea, a exemplo de Paris, Berlim e Londres, é a melhor solução.

Ou seja, o contrario da criação do estado nacional palestino. A ver.

Trata-se de quase uma unanimidade da diplomacia mundial a existência – reconhecida, segura e pacífica – de dois estados vizinhos como um passo para solução do velho conflito entre israelenses e palestinos. O princípio é aceito por Israel, embora não implementado, e endossado pelos principais mediadores do conflito, o Quarteto de Madri: ONU, Estados Unidos, União Européia, e Rússia. Crê-se com razoável chance de acerto de que a situação possa trazer benefícios mais amplos nas relações tumultuadas do Oriente Médio e mais profundamente, em um sentimento de injustiça, nem sempre justificado, sentido pela Rua Árabe. Prudentes não tem a ilusão de que quando este dia chegar, irá arrefecer espíritos mais radicais. O extremismo tem vida autônoma, qualquer motivo serve. Se não existem, são fabricados. Sucede que o momento da criação do estado nacional palestino parece ser sempre prematuro e a boa hora, uma quimera. Nem quando isto aconteça apenas no papel como é o caso agora que provoca nos corredores das Nações Unidas, uma excitação semelhante a disparo alarme contra incêndio no leste da ilha de  Manhattan.

O obstáculo da vez, dizem, seria a divergência entre a corrupta Autoridade Palestina que governa a Cisjordânia e o grupo terrorista Hamas que toma conta da Faixa de Gaza. Mais uma vez as condições ideais não estariam reunidas. A sugestão é que, antes de tudo, eles se metam de acordo e saiam dali uníssonos para sentar a mesa de negociação com o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu caso ele, finalmente, achar que a ocasião é propícia. Equivale a dizer que dois irmãos devem decidir entre si qual parte do terreno herdado podem reivindicar de direito enquanto o primo vai construindo sua casa em cima. Bizarro. A existência do estado nacional palestino independe dos seus governos provisórios. Que nação foi reconhecida em função de quem a governa? Reconhece-se sim, se um governo é legítimo para governar tal estado. Mas isso é questão interna a ser resolvida entre os cidadãos do estado em questão. A existência do estado em si, não. O Zimbaué é reconhecido como país a despeito de Robert Mugabe. O Irã deixou de ser Irã devido a dupla Ali Khamenei e Mahmoud Ahmadinejad? O Paquistão não é nação porque abriga e deu proteção a terroristas? Recomendável ler “O que é uma nação?”, de Ernest Renan.

É político e arriscado o pedido de Mahmoud Abbas para que se reconheça a Palestina – Cisjordânia e Faixa de Gaza – como estado-membro da ONU, encaminhado carta primeiro ao Conselho de Segurança (CS), onde os Estados Unidos prometem vetar. Se o pedido de adesão for aprovado por 9 votos entre os 15 membros, terá que ser obter, no mínimo, 97 entre 193 participantes da Assembléia Geral. Mas o que se espera dos palestinos? O presidente Barack Obama não quer melindrar o eleitorado judaico as vésperas de  sua tentativa de reeleição. Direito dele. O presidente Nicolas Sarkozy com um índice de popularidade batendo nas canelas, também a um ano da eleição presidencial, não quer perder o eleitorado francês de crença muçulmana e judaica. Perfeitamente compreensível.  Mas  os honoráveis senhores querem também que os palestinos esperem eternamente o reconhecimento do seu estado e, entretanto, privem-se dos meios diplomáticos legítimos e pacíficos para que se chegue a ele?

É muito.

Por Antonio Ribeiro

05/05/2011

às 3:07 \ Terrorismo

Bin Laden vivo ou morto

Casa Branca: Obama e Conselho de Segurança acompanham a operação em tempo real

Por que os Estados Unidos iriam mentir sobre a morte de alguém que poderia aparecer amanhã em vídeo no YouTube dizendo: “Olha aqui, seus bobocas, eu estou vivo!”?

O Blog de Paris no Twitter: @aribeirodeparis

Por Antonio Ribeiro

22/03/2011

às 7:09 \ Diplomacia

Alvorada e batucada

O princípio da não intervenção e respeito à soberania é posição tradicional da diplomacia brasileira. Isso vem lá de trás, dos tempos em que eram frequentes as intervenções estrangeiras nas Américas. Em um primeiro instante pelas potencias coloniais européias e depois pelos Estados Unidos. Ela foi substituída  mais recentemente no governo Lula por ações incisivas, posicionamento querido ao ex-chanceler Celso Amorim com aval do ex-presidente. Achou-se durante oito anos que se poderia resolver qualquer pendenga, em qualquer lugar e que, no final, isso traria um papel mais relevante para o Brasil no cenário internacional. Não foi isso que aconteceu. O que modificou a percepção do Brasil no exterior foi a força da sua economia movida pelo espírito empreendedor dos brasileiros, da sociedade civil e não a diplomacia aventureira e de viés ideológico de Lula-Amorim.

A abstenção do Brasil na votação do Conselho de Segurança da ONU tem as vantagens e inconvenientes da neutralidade. O país não precisa sustentar posição quando não tem lastro, mas também não estreita alianças em horas graves. É tática de jogo catalogada nos anais da diplomacia desde priscas eras. Agora é, no mínimo, bizarro lavar as mãos na iminência de um massacre, quando o mais forte está pronto para esmagar o mais fraco.  O caso de Srebrenica na Bósnia, em 1995, onde a comunidade internacional acompanhou impassível o assassinato de mais de 8.300 bósnios muçulmanos pelas tropas regulares e milícias da Serbia. Ainda com toda problemática na ação militar das forças de coalizão, evitou-se um massacre em Benghazi, reduto dos rebeldes contra  o coronel Muamar Kadafi no leste da Líbia. Isso é simplesmente i ne gá vel. Contudo, as relações entre países são distintas das relações entre pessoas. Na grande maioria das vezes, elas não são conduzidas por princípios morais, mas por interesses de cada parte.

Isso nos remete a seguinte questão: o Brasil serve melhor aos seus interesses quando defende o cessar-fogo na Líbia? Detalhe edificante: o Itamaraty lamenta a perda de vidas que diz serem decorrentes do “conflito no país”, omitindo a responsabilidade do coronel Kadafi. Não é a posição de vasto consenso que sustentou a intervenção militar no norte da África. O Brasil sempre ganha  quando alinha-se claramente com a maioria contra a tirania. Desta vez, tem a singularidade de reunir na linha de frente europeus, americanos e árabes.  Nesta altura, o Brasil está em cima do muro e de costas para ela. As posições isoladas podem parecer altivas manifestações de auto afirmação e de independência, mas elas conseguem fragilizar até as grandes potencias – condição que força respeito no mundo atual não só pelo poderio bélico e econômico, mas também pela defesa de princípios e valores universais.

Para arrematar: seria bom saber se o Brasil informou ao presidente americano Barack Obama que, seguido à sua partida, o Itamaraty iria imediatamente soltar uma nota – acão coordenada nos bastidores com Rússia, China e Índia que  se abstiveram na votação do Conselho de Segurança da ONU. É verdade que ela confirma uma posição já tomada, conhecida. Mas no mínimo, denota bom tom avisar que se irá enfatizar uma posição oposta ao empenho de país amigo e aliado. Caso contrário, fica a impressão de uma rasteira por trás. Se a visita de Obama ao Brasil – os americanos creem ter sido algo semelhante a final de semana de folga – tinha como objetivo principal alavancar as relações bilaterais entre os países, seria uma pena não expulsar completamente a velha desconfiança.

A nota do Itamaraty:

Ao lamentar a perda de vidas decorrente do conflito no país, o Governo brasileiro manifesta expectativa de que seja implementado um cessar-fogo efetivo no mais breve prazo possível, capaz de garantir a proteção da população civil, e criar condições para o encaminhamento da crise pelo diálogo.

O Brasil reitera sua solidariedade com o povo líbio na busca de uma maior participação na definição do futuro político do país, em ambiente de proteção dos direitos humanos.

O Governo brasileiro reafirma seu apoio aos esforços do Enviado Especial do Secretário-Geral da ONU para a Líbia, Abdelilah Al Khatib, e do Comitê ad hoc de Alto Nível estabelecido pela União Africana na busca de solução negociada e duradoura para a crise.”

Por Antonio Ribeiro

11/11/2010

às 21:52 \ Economia

G2 com convidados

A reunião dos chefes de estado em Seul é chamada de G20 por cortesia. Ela deveria ser dividida em 10. Trata-se de um  G2 com convidados. Isso porque a questão central é uma gigantesca fenda construída nos últimos 15 anos entre os Estados Unidos e a China, no que diz respeito às suas balanças comerciais.

O lado chinês tem um saldo positivo de 270 bilhões de dólares, o que corresponde a 4,7% do seu espantoso Produto Interno Bruto. Do outro lado, os americanos com 466 bilhões de dólares negativos, menos 3,2% do PIB. No meio estão os países da zona do euro com 229 bilhões de dólares no azul, sendo que a Alemanha sozinha é responsável por quase 90% do superávit europeu. O resto cisca à volta.

O que se discute é como corrigir o desequilíbrio – coisa que poderia ser assunto para uma cervejada às margens do Potomac ou em torno de um chá quente em Pequim. Não é nenhuma surpresa que os americanos queiram convencionar metas mínimas e máximas de déficit e superávit. Um déficit próximo ao que eles já têm e um superávit inferior ao atual chinês.

Originalmente, o plano não é americano. Mês passado, no encontro entre ministros das finanças e presidentes de bancos centrais dos países do G20, o representante da Coréia do Sul apresentou a proposta de uma articulação para que os países saíssem da conversa restrita sobre taxas de câmbio para uma discussão mais ampla sobre os desequilíbrios comerciais – a China é acusada de exibir tão rápido crescimento na sua balança comercial devido a uma suposta manipulação do câmbio. O yuan valeria mais do que vem sendo cotado.

Os mestres de cerimônia sul coreanos cuidaram de alinhavar as conversas entre os EUA e China e as negociações vieram a público quando o secretário do Tesouro americano, Tim Geithner, escreveu aos ministros dos outros países conclamando que se comprometessem a limitar superávits em conta corrente a um percentual da produção nacional. Ao chegar em Gyeongju para a reunião do G20, a idéia sul coreana veio com traços de Tio Sam.

A tática americana encontra forte resistência dos chineses, que querem que as coisas continuem como estão, ou, no máximo, ceder o mínimo. Isso remete à mesma posição que tiveram em Copenhague no encontro sobre o clima. Mas dessa vez, eles estão ainda mais fortes porque os alemães com seu superávit esplendoroso engrossaram as fileiras chinesas.

Resumo da ópera: em time que está ganhando, não se mexe. Este é o caso chinês. Time que não consegue ganhar, o caso americano, tenta mudar as regras do jogo. Mas pelo que se configura no horizonte de Seul, as regras que aí estão vão continuar até que, eventualmente, um acordo sob os auspícios do Fundo Monetário Internacional torne a situação suportável. Entretanto, o risco é todo de Obama. Os Estados Unidos terão que continuar tomando emprestado das economias asiáticas com a possibilidade dos investidores perderem a confiança na economia americana e o déficit tornar-se insustentável.

Por Antonio Ribeiro

07/05/2010

às 17:47 \ Europa

Próximo primeiro-ministro britânico é Cameron

Seis meses antes da eleição de Barack Obama, foi escrito aqui no blog De Paris que ele seria o presidente dos Estados Unidos da América. Esta coluna tem apreço pela tradição. Desta vez  o serviço de manutenção tem menos trabalho. Então vamos lá. O próximo primeiro-ministro da Grã-Bretanha chama-se David Cameron, do Partido Conservador.

Fechadas as urnas eleitorais no Reino Unido, deu-se inicio às previsões. Notou-se no dia seguinte, que elas tiveram quase que uma precisão suíça. Em contrapartida, a dúvida de quem venceu ainda permanece. Não é nenhuma surpresa encontrar inglês que diz espantado: “By Jove, quem vai governar o reino de Elizabeth II?”

O espanto explica-se em primeiro lugar, porque nenhum partido conseguiu eleger número suficiente de deputados para constituir uma maioria absoluta na Câmara dos Comuns, de onde emana o primeiro-ministro, segundo  rege o parlamentarismo victoriano.

A surpresa é maior porque os britânicos — contrário aos vizinhos franceses, alemães e italianos — estão habituados a um sistema político dominado por dois partidos.  Lá não tem confusão. Ainda que tenha havido raras exceções, o Parlamento em Londres sempre oscilou entre uma minoria e uma maioria de trabalhistas e conservadores.

Mas o espanto não está restrito à ilha cujos pés são lambidos pelo Canal da Mancha. Alhures, perguntam: “Como, quem ganha não leva?” Para estes, a resposta é simples: leva sim, é uma questão de tempo. O tempo de costurar uma aliança.

Por que vaticinamos Cameron aqui? Por processo de eliminação. A alternativa mais forte seria uma coalizão de perdedores, do segundo colocado, terceiro e alguns últimos. Dito de outro modo: o Partido Trabalhista, com ou sem o atual primeiro-ministro Gordon Brown, aliado ao Partido Liberal Democrata de Nick Clegg mais pequenos partidos — os dois sozinhos não conseguem formar  uma maioria.

É possibilidade remotíssima e que não cola nem com solda. Ainda: com que legitimidade — e cara de pau — junto aos eleitores, um governo deste iria para frente? Que força teria para enfrentar um dos momentos mais delicados da história da Grã Bretanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial?

O mais interessante agora é observar quanto os conservadores estão dispostos a ceder para seduzirem os liberais democratas para formar um governo. A fenda que divide os dois lados é justamente a reforma do sistema eleitoral que os levou a este ponto. Os Lib Dem querem sistema que lhes dê mais espaço no cenário político inglês. Para chegar lá, propõem um referendo. Mudar o sistema eleitoral para os conservadores, significa a possibilidade de dar força para o partido que lhes roubou votos nesta eleição. Cameron oferece a criação de uma comissão para estudar o assunto.

Outra possibilidade é convocar novas eleições em breve.

A grande questão é saber se David Cameron consegue governar sem base sólida no Parlamento? O próximo primeiro-ministo britânico já sabemos quem é.

Por Antonio Ribeiro
 

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