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Barack Obama

25/09/2014

às 5:42 \ Diplomacia

Pois bem, então qual seria o argumento de Dilma Rousseff para dissuadir os terroristas da sanha de matar inocentes?

ISIS

Quase que no mesmo instante em que a presidente do Brasil Dilma Rousseff subiu na tribuna da Assembléia Geral das Nações Unidas e diante de representantes de 120 países sustentou o diálogo para resolver todo tipo de conflito internacional, os terroristas do Estado Islâmico cortaram a garganta de mais um cidadão pacífico, o guia de montanhismo Hervé Gourdel, de 55 anos de idade. Desta vez, simplesmente, porque ele era francês. As três vitimas anteriores, dois americanos e um britânico, foram decapitadas por razão semelhante: a nacionalidade.

No dia anterior, ao desembarcar em Nova York, Dilma disse a jornalistas que “lamentava enormemente” os ataques aéreos dos americanos, franceses e aliados árabes às bases dos terroristas na Síria. Segundo a presidente, “o uso da força é incapaz de eliminar as profundas causas dos conflitos internacionais.” A noção da petista foi prontamente rebatida por Barack Obama cujo temperamento não tem os traços comuns aos belicosos de primeira grandeza e o perfil não lembra a figura do falcão: “Não pode haver negociação, a única linguagem que assassinos deste tipo entendem é a da força.”

Convite ao diálogo

Convite ao diálogo

As perguntas que emergem como lavas de vulcão é que tipo de diálogo a presidente do Brasil imagina possível com os sanguinários “Soldados do Califato”? Uma parte entra com o pescoço e os terroristas com o punhal afiado? Qual seria o argumento de Dilma para dissuadir os assassinos da sanha de matar inocentes? “Olha, meus queridos, não façam isso porque é feio”?

Dilma também explicou a seu modo inconfundível a contrariedade com os bombardeios: “Sabe quando você destampa a caixa e saem todos os demônios?” Talvez ela tenha pensado na Caixa de Pandora, mas a premissa partiu torta. O que se sabe é o seguinte: demônios não respeitam limites nem de caixas bem embrulhadas e muito menos, esperam que elas sejam abertas para agir tal qual o gênio da lâmpada. A existência dos demônios bastam para configurar ameaças, letais em última instância.

É espantoso que numa espécie de Terra do Nunca, por estar em clima de período eleitoral, se deu mais atenção ao fato de Dilma usar a oportunidade reservada ao Presidente da República para fazer discurso com fins eleitoreiros. Por certo a bajulação ao seu próprio governo foi inadequada, mas não seria muito diferente se fosse o caso de outro presidente de qualquer democracia brigando pela reeleição. Ademais, extraiu-se como relevante no discurso da presidente as suas diferenças com a candidata Marina Silva na questão das mudanças climáticas como se fosse grande novidade ou descoberta. Impressionante.

Enquanto isso, a jugular de Gourdel gotejava sangue na areia.

Alguns podem atribuir tamanha insensibilidade e indiferença com a barbárie a um país anestesiado por mais de 56 mil homicídios por ano. Mas no particular, seria um insulto grotesco a milhões de brasileiros que apesar de assistirem em seu cotidiano a disseminação do crime e sua impunidade ainda guardam o sentido da decência e humanidade. Entre estes brasileiros há um contingente de eleitores que irá votar em breve. Por menor que seja a quantidade de votos contra a leniência e desfaçatez que os governantes petistas têm em relação ao crime, haverá esperança de que a prática da barbárie não é aceita de forma tão natural como o mineral.

Por Antonio Ribeiro

17/03/2014

às 9:38 \ Diplomacia

Melhor esperar sentado pelas sanções à Rússia de Putin

LeninPutin

Vladimir na silhueta de Vladimir

Quem aguarda alguma retaliação significativa e efetiva do governo Obama e da União Europeia à Rússia de Vladimir Putin depois do referendo fajuto na Crimeia anexando a peninsula do Mar Negro, faz melhor esperar sentado. Ou, como diria a máxima churchiliana contra o desperdício de energia humana para não faltar nos momentos de carência: “Se puder deitar, não fique sentado.”

O que poderiam fazer americanos e europeus? Se tanto, mostrar que estão fazendo alguma coisa. É o caso atual com o anúncio  de sanções  paliativas contra 31 dirigentes russos, ucranianos e a declaração de não reconhecimento da Crimeia como parte da Rússia. Isso e nada é quase a mesma coisa. Putin que não faz parte da lista negra não esta tremendo, mas sorrindo. Tome o não reconhecimento de Jerusalém, considerada capital eterna por Israel. Muda alguma coisa? Salvo embaixadas em Tel Aviv, não faz muita diferença.

Tropas não vão enviar. Aliás, não vão mandar nem drônes para conferir o fato consumado. Pouquíssimo provável que venham prejudicar  em alguma medida o comércio bilateral com os  russos. Em 2013, a relação comercial EUA-Rússia foi de 38,1 bilhões de dólares. Os americanos exportaram 11, 26 bilhões e importaram 26, 96 bilhões de dólares. A tendência é de aumento em 2014.

As americanas Boeing, Cargill, Ford, General Motors, Exxon Mobil tem forte presença na terra de Putin. Ano passado, a Ford vendeu 1 milhão de carros por lá que na aurora do ano 2016 vai se tornar o maior mercado automobilístico dos EUA. A estatal russa Rostec parceira da Exxon Mobil no campo de petróleo siberiano de Bazhenov cujas reservas são estimadas em 500 bilhões de dólares, fornece 35% do titânio usado nos aviões da Boeing. A Rússia não é o Irã nem a Síria e muito menos o Zibabuê onde os investimentos americanos são irrelevantes. Em 2013, a Rússia captou 94 bilhões de dólares em investimentos estrangeiros, um aumento de 83% em relação a 2012.

A relação comercial russa com a União Européia cujos ministros das Relações Exteriores se reuniram no parlamento em Bruxelas antes de almoçar separados é quase dez vezes superior à americana. Totalizou uma bagatela de 330 bilhões de dólares no ano passado. Os russos importaram produtos no valor total de 264 bilhões de dólares dos europeus e exportam para os vizinhos 152 bilhões de dólares dos quais 76% representam gás e petróleo que são um terço do consumo dessas energias na Europa. Atrás dos EUA e China, a Rússia é o principal mercado da União Européia que não vai abrir mão, sobretudo, depois de perder terreno para concorrências emergentes. Nem os europeus vão comprometer suas taxas miúdas de crescimento econômico que não tapam endividamentos públicos colossais como na França, Itália e Espanha.

Preste atenção, se daqui algum tempo até a cara feia ocidental e o mínimo sinal de constrangimento desaparecerem, não será nenhuma surpresa.

LEIA TAMBÉM NO BLOG DE PARIS O POST: “Expo de Van Gogh no Orsay, uma loucura

Por Antonio Ribeiro

07/03/2014

às 17:48 \ Diplomacia

Voz ponderada: Henry Kissinger sobre a crise na Ucrânia

KissingerA crise na Ucrânia tem motivado análises cuja validade não ultrapassa um dia, se tanto,  e  conjecturas atropeladas pelos fatos com o passar das horas. A situação não é inédita nem configura absurdo se considerada a característica instável e volátil da situação. Faz parte do jogo. Fosse ele estático, aumentaria as probabilidades de acertos.

No entanto, a prudência sugere para este tipo de circunstância postura mais atentiva para as avaliações de profissionais qualificados embora não estejam imunes a erros inerentes da natureza humana e com bastante frequencia nos amadores. O parecer de Henry Kissenger, ex-secretário de estado americano, protagonista da diplomacia e geopolítica moderna, por certo, se encaixa no caso sem deixar folgas.

Kissinger toma, bem a seu modo, a originalidade como caminho. Começa pelo fim que a grande maioria de analistas projeta e, de imediato, prevê este horizonte como instável a longo prazo. Ou seja a vitória de um dos lados da beligerância. Mais especificamente das regiões leste e oeste da Ucrânia e, de forma mais ampla, o confronto entre seus patronos, Putin contra Obama e os aliados da União Européia.

O veterano diplomata sustenta a Ucrânia como ponte entre o Ocidente e a Rússia. Pender ou ser arrastada completamente para um lado teria conseqüências sinistras para todos e, sobretudo, para os ucranianos. Putin não terá grande sucesso se reservar para o vizinho a velha condição de satélite, avançando as fronteiras da Rússia, como nos tempos da União Soviética. Isso provocaria, de acordo com Kissinger, um ciclo permanente de pressão econômica e militar por parte da União Européia e Estados Unidos, tal qual como no passado. Em resumo, o renascimento da Guerra Fria.

Por sua vez, os ocidentais deveriam entender que não podem através de decisões de euroburocratas em Bruxelas e pelo falar grosso de Washington transformar uma região poliglota, multicultural e com ligações históricas com a Rússia na última fronteira de suas conquistas na maneira de pensar, agir e de se organizar enquanto sociedade e estado.

Até sua independência, em 1991, A Ucrânia produzia 40% do aço consumido na Rússia soviética, 35% do carvão e considerável parte de alimentos de origem agrícola. O números são inferiores hoje, mas não muito menos. É pela Ucrânia que passa uma rede de dutos russos responsáveis pelos 30% do gás consumindo na Europa, uma receita de 86 bilhões de euros por ano.

Isso posto, Kissinger defende o direito legítimo da Ucrânia para estabelecer livremente associações econômicas e políticas com quem desejar. No entanto, alerta como medida preventiva para evitar atritos desnecessárias vir a fazer parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte  (OTAN).

Pode parecer, em um primeiro instante, que o ex-secretário de estado esteja prescrevendo um receituário. Porém, uma reflexão mais detida revela que ele trata de principios e mecanismos para serenar os ânimos. Evitar a confrontação aberta responsável pela escalada do conflito a espera de faísca para desencadear a violência a um ponto irremediável e sem retorno.

Outro exemplo que vai neste sentido emerge claramente quando Kissinger aborda o mais sensível da disputa, o futuro da Crimeia lambida pelas águas do Mar Negro. Ele acha que as autoridades em Kiev devem conceder maior autonomia para a península em que 60% dos seus mais de 2 milhões de habitantes têm origem russa. Ademais, preservar os acordos com Moscou que permitem a base naval de Sebastopol, capaz de projetar saída da armada russa para o Mar Mediterrâneo.  E não só, diferentemente  portos do norte da Rússia cujas águas ficam congeladas boa parte do ano, Sebastopol tem aguas quentes, ponto capital para exportar e importar — quase 20% do comércio exterior russo navega pelo Mar Negro.

Contudo, a República Autônoma da Crimeia deve permanecer como parte integrante da Ucrânia.

Não faz muito tempo, Kissinger vaticinou: “Enquanto palestinos tentarem vencer israelenses no domínio militar e, simultaneamente, Israel buscar seduzir corações e mentes usando a sua força superior, ninguém vencerá.” As opções prolongariam ainda mais o conflito. É o que acontece. Nas situações complexas em que ânimos estão perigosamente exaltados não se perde nada ouvindo velhos sábios.

Por Antonio Ribeiro

17/01/2014

às 18:17 \ França

“É ridículo”

ridiculo

Imagine o que a imprensa francesa diria se fosse revelado pela revista americana People que estes dois aí ao lado, na montagem com fotografias das agências AP e Reuters, tem um caso amoroso depois de dois anos? Se o presidente Barack Obama, na calada da noite, fosse pródigo em escapadas de no lombo de uma lambreta com ajuda do serviço secreto para ver a amante, a atriz Jennifer Aniston, em um apartamento, um cafofo alugado como garçonnnière. E, em efeito, ao tomar conhecimento, a primeira-dama Michelle, diagnosticada com depressão nervosa, fosse internada no Hospital Johns Hopkins.

Pergunta-se, gastaria-se tanta tinta sobre papel, falatórios e bytes com debates sobre a privacidade de governantes  no varejo e do homo politicus no atacado?

Nos Estados Unidos, onde o chefe do executivo mora em uma Casa e não em um Palácio, tem-se a convicção plena de que, se o presidente mente para a mulher, ele é capaz de mentir com mais facilidade para nação. Portanto, merece desconfiança. Imagine também se sabatinado em entrevista coletiva a imprensa sobre seu caso com Aniston, Obama, tomasse sisudos ares marciais, como Hollande, e saísse com esta: “Isso aí, não é da sua conta.” Dito de outro modo:  Não é de interesse público. Segundo quem, cara pálida?

A paródia é semelhante à realidade atual na França.

Nicolas Sarkozy, ex-presidente disse o seguinte sobre o comportamento do atual, François Hollande: “É ridículo”. E é mesmo. Isso nos remete a outro ponto. Ou se preferir a outra comparação. Na França, há todo tipo de greve. Elas acontecem com frequencia em dias santos e nos feriados. Salvo, evidentemente, a da oposição ao governo. E jamais tão longas quanto a da oposição no Brasil. Questão de integridade e coragem.

LEIA TAMBÉM NO BLOG DE PARIS O POST: “Amor clandestino e oficial

Por Antonio Ribeiro

03/09/2013

às 14:28 \ Diplomacia

Primo da piranha ameaça soberania

O estimado público tomou conhecimento pela imprensa que a presidente Dilma Rousseff exige explicação do governo Barack Obama sobre a alta bisbilhotagem da qual foi vítima. O arrazoado americano deverá vir por escrito e tem prazo de entrega, até o fim desta semana.

Pelo tom determinado do governo brasileiro, o mais provável é se tratar de questão referente a know-how e eventual transferência de tecnologia. Querem aprender rápido para uso doméstico. Ou o quê? Não vão enviar o porta-aviões São Paulo abarrotado de caças para bombardear Washington. Sim?

O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, por sua vez, ameaçou cancelar operação de companhias que colaborarem com esquemas de espionagem internacionais no Brasil. “Pode ser banco, empresa de telefonia”, listou. Aí sim, pode ser outra alternativa mais crível. Tipo da tarefa que sabem fazer sem ajuda.

No embalo, Bernardo, adicionou: “Vamos ter de construir uma intranet em áreas sensíveis.” Não, senhor ministro. Aí, não. Em áreas sensíveis, os brasileiros querem menos engarrafamentos e mais transportes públicos. E até fora delas, desejam a construção de escolas, hospitais, aeroportos. Tudo padrão FIFA.

Entretanto, pode ser que inspirado na reação de Dilma Rousseff com a espionagem americana, o presidente da França, François Hollande, cogite convocar o embaixador brasileiro José Maurício Bustani para uma conversa séria no Palácio do Eliseu. É que um parisiense fisgou um pacu, primo vegetariano da piranha, nas águas do Rio Sena. Não é brincadeira, não. O pescador avisou a Brigada Fluvial. Gesto seguido, o peixe foi levado para a central de polícia.

Ameaças às soberanias estão ficando intoleráveis.

Atualização – Veja.com informa: “Por causa de espionagem, diplomatas, seguranças e cerimonialistas não vão mais fazer preparativos da visita presidencial ao governo Barack Obama”

 Quem já acompanhou visitas de presidentes brasileiros no exterior sabe que, embora por vias tortas, finalmente foi tomada uma boa medida econômica.

Por Antonio Ribeiro

28/05/2013

às 8:49 \ Oriente Médio

De reunião em reunião, a União Europeia aumenta o papo

Em Bruxelas, durante 12 horas, o britânico William Hague e o francês Laurent Fabius conseguiram convencer seus colegas, 25 ministros da União Europeia, a levantar o embargo de armas para os rebeldes sírios. Especificamente os combatentes “moderados” da Coalizão Nacional Síria (CNS). Trata-se do epílogo de um debate que se arrasta enquanto o conflito na Síria se intensifica, onde tudo vai mal a ponto de não se comer mais o fígado do adversário, mas o coração.

Os representantes da Suécia, Austria, Bélgica e Holanda fizeram resistência contra a decisão. Temem que as armas possam terminar nas mãos de grupos terroristas islâmicos e, em efeito, serem usadas contra os interesses dos seus fornecedores. Leia-se, ocidentais. O chanceler austriaco, Michael Spindelegger, disse para reforçar posição que a UE é uma “comunidade de paz”.

Contudo, o fim do embargo, como tantas outras decisões tomadas pela UE, não tem finalidade prática imediata. Nenhum país possui carregamento de armas pronto para ser despachado à zona de conflito nem plano a curto prazo neste sentido. A medida seria para aumentar a pressão  contra o regime do ditador Bashar Assad.  O ditador conta com apoios numerosos: os alauitas, de que ele próprio faz parte; a minoria cristã, que não confia nos sunitas; além dos simpatizantes da ditadura e do partido Baath, no poder, e daqueles que destes tiram proveito. No total, os apoios do regime representam cerca de um terço da população síria. A Rússia, velha aliada, enviou mísseis antiaéreos de alta precisão S-300 para Assad em reposta a suspenção do embargo. Moscou justifica que é para, note bem, “evitar a internacionalização do conflito”.

O objetivo mesmo, de acordo com os chanceleres europeus, é as negociações da conferência de paz em Genebra. O encontro está previsto para junho, onde se discutiria a transição de poder de forma pacífica na Síria e de uma gurerra civil de 26 meses na qual, mais de 80.000 pessoas foram mortas. A cara da União Européia. Quer dizer, reúne-se para empurrar o problema até a próxima reunião na qual deixa a equação da pendenga para conversas posteriores.

Entretanto, o fotojornalista belga Laurent Van Der Stockt e o repórter  francês Jean-Philippe Rémy, enviados do jornal Le Monde à Jobar, a linha de frente mais avançada no subúrbio leste da capital Damasco, voltaram com indícios, ainda indiretos, do uso de armas químicas pelo regime ditatorial sírio.

Os jornalistas não viram dispositivos químicos ou militares do governo vestindo combinações  de proteção contra efeito de armas químicas. “Não há odor ou fumaça”, dizem eles. Porém colheram testemunhos de beligerantes rebeldes e de médicos que trataram pacientes com sintomas semelhantes à de vítimas intoxicadas com gás sarin.

Van Der Stock, veterano em coberturas de conflitos armados, contou ao Blog de Paris ter sentido efeitos neurotóxicos depois de fotografar combatentes da brigada Liberação da Síria em ação na linha de fogo, a menos de cinquenta metros das tropas do governo. “Minha visão ficou embaralhada devido à retração das pupilas, a luz pareceu diminuir. Em seguida, senti fortes dores de cabeça, náuseas e dificuldades respiratórias por mais de três dias seguidos”, afirmou.

Os jornalistas do Le Monde trouxeram amostras (cabelo, urina, sangue e roupas) obtidas pelos médicos em atividade na zona do conflito para ser examinadas em Paris. O único centro capacitado para as análises na França pertence ao Ministério da Defesa. A questão do uso de armas químicas que Barack Obama estipulou ano como “linha vermelha” a não ser ultrapassada ou haveria intervenção direta dos Estados Unidos, é examinada com prudência pela França. Há razão forte. As armas de destruição em massa nunca encontradas no Iraque de Saddam  Hussein, foram a motivação aparente para justificar a invasão anglo-americana, criticada de forma passionária pelos franceses.

Atualização, 6/Junho/2013: O ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, afirmou “com certeza que o gás sarin foi utilizado várias vezes e de forma localizada” pelas tropas do ditador Bashar Assad. As amostras trazidas da zona de conflito pelos jornalistas do Le Monde foram analisadas no laboratório da Delegação Geral de Armamentos (DGA) do Ministério da Defesa francês, localizado na cidade de Bouchet. Depois de testes positivos, realizados também na Inglaterra, o governo britânico confirmou a utilização de gás sarin, classificado em 1991 como arma de destruição de massa pela resolução 687 da Organização das Nações Unidas (ONU). Os resultados foram enviados a Ake Sellström, chefe da Comissão Independente de Inquérito da Síria, nomeado pela ONU. O mais recente relatório da Comissão revela terem sido encontradas provas do uso de gases tóxicos em Alepo, Damasco e Idlib.


Por Antonio Ribeiro

16/04/2013

às 8:12 \ Terrorismo

“Estarei na próxima”

A onda de choque da primeira explosão derrubou Bill Iffrig. O maratonista de 78 anos de idade levantou-se e cruzou a linha de chegada –  terceira vez em Boston. Em seguida, depois da segunda explosão durante a maratona mais tradicional dos tempos modernos, o natural de Lake Stevens, no estado Washington, disse que estará presente na próxima.

Quando o terror age com sua habitual covardia, ataca a humanidade inteira. Em um primeiro instante, emergem duas perguntas. Quem fez? E a natural incompreensão, por que? Se não se sabe ainda quem, para que a “Justiça jogue todo o seu peso”, como prometeu Barack Obama, a segunda resposta é a de sempre. Embora os terroristas e seus simpatizantes da hora possam avançar as mais esdrúxulas justificativas, trata-se de uma sandice.

Da parte das pessoas de bem haverá o luto respeitoso e a solidariedade com os parentes e amigos das vítimas, na sua maioria de espectadores. Entre eles estava um bostoniano de 8 anos de idade. Como milhares, Martin Richard foi assistir ao evento que reúne atletas do mundo inteiro e congrega tantas pessoas diferentes como em nenhum outro momento na sua cidade, apaixonada por esporte e pelas cores dos locais Celtics, New England Patriots e Red Sox. A irmã de 6 anos de idade do garoto assassinado perdeu uma perna e a mãe sofreu traumatismo craniano.

Desta vez, no entanto os terroristas tocaram diretamente em um grupo de indivíduos cuja resiliência está entre as mais admiráveis do planeta. Enquanto profissionais se esforçam para chegar primeiro, raro momento do esporte onde seus companheiros são também amadores, a maior parte dos maratonistas competem contra si mesmos. A crença férrea na vitória os faz continuar em frente até a linha final. É um dos melhores exemplos para luta permanente contra o terrorismo.

A próxima grande maratona está agendada para o domingo, 21 de abril, em Londres, uma cidade que já foi atacada brutalmente pelo terror em 2005. Desde então, mais precavidos, os londrinos continuam tocando o cotidiano sem se mostrarem aterrorizados. É justamente o que a barbarie deseja menos. Não será surpresa que Boston faça igual. Nick Bitel, diretor executivo da Maratona de Londres confirmou a corrida: “Ela vai acontecer com um sistema de segurança revisto e reforçado.” O mundo livre estará torcendo para os 36.000 maratonistas, gente como Bill Iffrig, e contra o terrorismo.

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Por Antonio Ribeiro

31/10/2012

às 18:33 \ Fotografia

“Olha, entre um pingo e outro, a chuva não molha” – Millor

A fotografia nos jardins da Casa Branca, mais precisamente no caminho do heliporto  ao Oval Office ((South Lawn), mostra como os marqueteiros querem que o Obama apareça agora para os eleitores na reta final da disputada campanha para presidência dos EUA. Nenhum um ajudante de ordem pra segurar o guarda-chuva. A chuva não incomoda o presidente determinado para cumprir árdua missão. No detalhe, é como acontece normalmente debaixo de chuva. Ou melhor: na mais inofensiva garoa. Cada gesto é estudado, calculado, premeditado. Cada imagem, cada declaração. Nada é feito de graça. Os momentos finais são importantíssimos para o resultado da eleição. Não se brinca.

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Hopper, a alma universal do ícone americano em Paris 

Por Antonio Ribeiro

01/02/2012

às 10:51 \ Diplomacia

EUA e França: voto não reduz diferenças entre as velhas democracias

Naturalmente há quem queira estabelecer paralelos entre a eleição presidencial americana e a francesa, projetando Mitt Romney como vencedor das primárias do Partido Republicano depois da acachapante vitória na Florida contra Newt Gingrich, o adversário dos sonhos dos democratas. Nesta altura, o exercício de alta especulação traz mais confusão que respostas. Mais que as naturais entre os dois países, ainda que velhas democracias, de tradições e processos eleitorais distintos.

Em primeiro lugar, o combate final entre Barack Obama e o desafiante republicano ainda nem começou enquanto a campanha eleitoral francesa vai de vento em popa. A eleição americana não tem dois turnos, como a francesa e a brasileira, portanto, aí já vai uma diferença de peso que complica a comparação desprovida de análise dos meandros.

Regra geral, na eleição de dois turnos, os candidatos tentam reunir o seu campo no início e isso implica, é do jogo, uma certa radicalização. Na etapa posterior, a estratégia principal é capturar o centro a exemplo das partidas de xadrez. Tanto na França como nos Estados Unidos, países politicamente polarizados, ninguém vence se não conseguir persuadir o eleitorado, digamos, flutuante. No caso dos EUA, agregam-se ainda os independentes e os desiludidos com o desempenho de Obama.

Neste sentido, Sarkozy deveria conter a migração do seu eleitorado para extrema-direita e, simultaneamente, trazer para seu terreno, simpatizantes da novata Marine Le Pen. Isto bastaria para chegar ao segundo turno. Para ganhar as eleições, o Presidente da França deve abarcar também boa parte dos eleitores do centrista François Bayrou.

Converter socialistas franceses em conservadores de direita ou fazer o caminho inverso constitui sucesso tão improvável quanto o engajamento de um palestino na causa sionista. Perda de tempo. Ganhar os seus e parte do centro foi o que trouxe a vitória a Sarkozy em 2007. Tentar agradar a gregos e troianos fez despencar sua popularidade. Perdeu aqui e não ganhou lá.

Do ponto de vista do eleitor francês de qualquer ponto do largo espectro político, Rommey e Gingrich estariam mais próximos do ideário do Front National. Salvo talvez na questão da imigração. Um candidato americano pode até pensar como a senhorita Le Pen, mas não ousaria verbalizar  em público o slogam “Americanos Primeiro” sem correr o risco de levar o pesado adjetivo xenófobo para casa. A candidata francesa não liga muito. Ela acha que isso, ainda que de forma indizível e em última instância, ser uma vantagem. Seu eleitorado de base gosta e aplaude. Em contrapartida,  e mesmo agradando os carolas franceses, Marine Le Pen não se sentiria muito a vontade colocando em evidencia seu cristianismo como fazem os republicanos americanos, as vezes de forma fundamentalista, a menos que a posição seja para enfatizar, segundo ela, os efeitos maléficos dos muçulmanos nas tradições européias. Não houve na outra margem do Atlântico guerras religiosas tão sangrentas como no Velho Continente.

Para os socialistas franceses, Obama não chega a ser um entre deles, sobretudo no aspecto econômico, mas é o “melhor” que os EUA podem fazer para se aproximar dos seus valores. A grosso modo, a chegada do democrata de tez amorenada à presidência é vista como um “progresso” da desigual sociedade americana, assim como o metalúrgico Lula, no Brasil. Detalhe: embora estima-se que a França tenha 5,5 milhões de muçulmanos, a maior comunidade da Europa, nenhum deles tem assento na Assembléia Nacional. Os americanos acham espantoso. Aliás, o censo do INSEE, o IBGE francês, nem contabiliza “muçulmanos” nos seus formulários do censo. De acordo como os preceitos da Republique, o indivíduo é um cidadão cuja crença religiosa não diz respeito ao estado, laico por princípio pétreo.

Na França, Sarkozy é percebido pela maioria como um conservador e representante do capitalismo puro e duro. Nos EUA, o presidente francês entra facilmente na galeria dos líderes estatizantes que não medem esforços para intervir com força e excesso de regulamentações na economia além de sempre que o interesse nacional está em perigo promover medidas protecionistas sem o menor complexo.

François Hollande só encontraria uma legenda nos EUA se ingressasse na ala moderada do Communist Party USA (CPUSA). Isso porque a despeito dos socialistas espanhóis, ingleses e alemães, o Partido Socialista (PS) francês não conseguiu se reformar para adequar-se à realidade de um mundo altamente competitivo. Continua atrelado e dependente ao poder dos sindicatos franceses cuja maioria é de funcionários públicos mais especificamente de professors dos estabelecimentos públicos. Não é anodina a proposta de Hollande para aumentar seu número. Evidentemente dizer claramente de onde vai tirar dinheiro para pagar salários e encargos sociais durante 62 anos e mais aposentadoria. Isso em um país de com deficit publico de 1,7 trilhão de euros, 86% do Produto Interno Bruto (PIB).  Mas, leia-se o de sempre, “aumentar os impostos” que nos EUA, a questão muito é mais sensível do que na França.

Em resumo e no absoluto, os EUA estão mais próximos à economia de mercado e a França, é bem mais liberal no aspecto político do termo. Para que se possa estabelecer uma comparação mais justa entre as eleições francesa e americana seria necessário admitir que as prévias nos EUA equivalessem à votação do primeiro turno na França, ainda que um terceiro candidato independente americano possa influenciar na dualidade da disputa final. O certo é que tanto Obama quanto Sarkozy não estão em posições confortáveis, o último bem menos que o primeiro. E o curioso é que se os votos confirmarem as pesquisas, a dupla Hollande e Obama não irá aproximar mais as visões de mundo dominantes em seus respectivos países. É bem provável que aconteça o contrário.

Por Antonio Ribeiro

08/11/2011

às 13:13 \ Europa

Diplomacia de insultos

Foi revelado um diálogo confidencial durante a reunião de cúpula do G20 entre Nicolas Sarkozy e Barack Obama sobre o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. “Não posso nem vê-lo. É um mentiroso”, disse Sarkozy. Obama retrucou: “Se você está cansado, imagina eu, que tenho de lidar com ele todos os dias”. A conversa fará estragos nas relações entre os três chefes de estados. Os países, bem maiores que os três, se ajeitam. Mas a troca entre o presidente da França e dos Estados Unidos chega ser comedida se comparada com os insultos feitos entre os líderes europeus durante a tensa crise do euro. Leia em seguida um compêndio:

Nicolas Sarkozy, presidente da França, sobre Angela Merkel, chanceler alemã:

La Boche”, quer dizer, a boche, a velhusca, é a maneira injuriosa e xenófoba que os franceses se referem aos alemães, sobretudo, durante a ocupação nazista na França. Origem do coloquial francês, caboche. Em português, cachola.

“Ela diz que está de regime, mas come um segundo prato de queijo.”

Nicolas Sarkozy para George Papandreu, primeiro-ministro grego:

“Os gregos são o vírus que está envenenando a Europa.”

Nicolas Sarkozy sobre José Zapateiro, primeiro-ministro espanhol:

“Talvez ele não seja muito inteligente.”

Nicolas Sarkozy para David Cameron, primeiro-ministro britânico:

“Você perdeu uma boa oportunidade de calar a boca.”

Angela Merkel sobre Nicolas Sarkozy,:

“Anão.”

“Luis de Fuenes”, referência ao agitado humorista francês de baixa estatura.

“Mr. Bean”, referência a personagem cômica criada pelo humorista britânico Rowan Atkinson. O insulto diz respeito a semelhança física.

David Cameron sobre Nicolas Sarkozy:

“Anão enfezado”

Silvio Berlusconi, presidente do Conselho da Itália sobre José Zapatero:

“Ele é muito cor de rosa”

Silvio Berlusconi sobre Angela Merkel:

Bunduda insuportável.”

Silvio Berlusconi sobre o euro:

“O euro é um desastre que f… todo mundo”

Leia o post do Blog de Paris: “Destino do euro pendula entre berçários do ocidente: Roma e Atenas.

Por Antonio Ribeiro
 

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