
Nicolas Sarkozy, finalmente, deu um basta à cantilena mais recente do coro formado por integrantes do seu governo. Em uma bizarra parceria estratégica com os colegas brasileiros, autoridades francesas vinham intercalando declarações contra a ação dos Estados Unidos na missão humanitária em favor do Haiti, depois do terremoto, responsável pela morte de, no mínimo, 100.000 pessoas e devastação sem precedente na capital da miséria nas Américas.
Se Celso Amorim sugeriu que o controle do espaço aéreo pelos americanos estava dificultando os pousos de aviões militares brasileiros em Porto Príncipe, o francês Alain Joyandet, secretário de estado encarregado da Cooperação Internacional e Francofonia, achou mais adequado admoestar o governo Barack Obama. “A missão é para ajudar e não ocupar o Haiti”, contribuiu no vasto sermonário francês que obstina em balizar a diplomacia mundial.
Até esta manhã, Sarkozy fez como quem não viu uma da mais inoportunas e enciumadas manifestações de antiamericanismo oficial. Sua mudança de curso materializou-se durante viagem à ilha da Reunião, território ultramarino francês. O presidente da França enalteceu a “excepcional mobilização pelo Haiti” do governo Obama, o “papel essencial” das tropas americanas e declarou sem perder a medida que imagina ter a sua estatura: “Estou inteiramente satisfeito com a cooperação de Washington.”
O antiamericanismo francês, muitas vezes, de traços caricatos, não explica tudo. Sob o ponto de vista diplomático, qualquer país que tentar sobrepor a França em matéria de ajuda humanitária - imensa reserva moral - será considerado concorrente direto ao brilho gálico. Já há muito que a França não tem condições de impor-se como potência militar e econômica no cenário mundial. Restou a “nobreza” de converter-se em uma de espécie de Cruz Vermelha avantajada pelo formidável apoio do estado, das finanças e do dispositivo militar.
Quando os Estado Unidos empenham-se em policiar o planeta, não estão fazendo nada além da sua obrigação, pensam os franceses. Segundo o juízo local, quando o governo Bush demora no socorro às vítimas do furacão Katrina, até se admite. Afinal, os americanos são insensíveis. Desbloquear 100 milhões de dólares para as vítimas e reconstrução do terremoto? Vá lá, eles são ricos. O problema é enviar 20.000 soldados com objetivo de não dar sequer um tiro. Inadmissível a chegada de um porta-aviões com 20 helicópteros para não lançar um mísero míssil. Que diabo de comportamento é este?
Mas as explicações começam a emergir à beira do Sena. A 1.200 quilômetros de distância da Flórida, o efeito do terremoto poderá causar uma onda de refugiados, dizem. Os EUA estariam no Haiti para conter o êxodo dos aflitos. Outra razão seria a incontida compulsão intervencionista americana nos momentos de instabilidade na Hispaniola. Destino preferencial da diáspora insular, os EUA estariam agindo sob a pressão dos 300.000 eleitores americanos de origem haitiana e de eventual revolta dos mais de 150.000 ilegais. Por último - não poderia faltar - trata-se de excelente oportunidade de se colocar em prática a “doutrina Obama”. Pronto.
Definitivamente, Asterix tem razão: “Os romanos são uns neuróticos”




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Do ponto de vista jornalístico, puramente técnico, um fato perde a relevância quando ele torna-se recorrente, corriqueiro. Informar não significa participar de um processo de comunicação, sobretudo, quando ele é propaganda oficial. Mas há algo pior. A ajuda ao culto à personalidade de um governante ainda que de forma inconsciente.




