Nas duas argolas, Arthur matricula o Brasil em seleto grupo dos cinco anéis
Data venia. Aliás, data máxima venia, como dizem amiúde no plenário do Supremo Tribunal Federal durante julgamento do mensalão, embora de forma nada sincera. Toda reverência as 98 conquistas de ouro, prata e bronze no vôlei, vela, atletismo, judô, natação, tiro, hipismo, futebol, basquete, boxe e taekwondo. Mas só depois do surpreendente ouro de Arthur Zanetti nas argolas, o Brasil tornou-se um competidor olímpico por inteiro entre mais de 200 concorrentes. Isso desde a sobrevida no século XIX criada pelos franceses às competições esportivas da Grécia Antiga – o Brasil entrou efetivamente na disputa em Antuérpia, quando o calendário estampava 1920.
Nem a escolha do Rio como sede dos próximos Jogos. Nem o duplo ouro no salto triplo de Adhemar Ferreira da Silva ou os 800 metros percorridos de ponta a ponta em Los Angeles sob liderança de Joaquim Cruz. O feito inédito do ”Rei Arthur” cuja execução impecável dos elementos tiveram como trilha sonora as palmas da plateia na North Greenwich Arena, configurou a adesão ao seleto clube no qual os membros são capazes de ganhar em qualquer domínio. A Etiópia e o Quênia, por exemplo, não fazem parte. Os países africanos amealharam mais ouro do que nações com maior numero de participações nos JO, mas isso foi possível em razão exclusiva dos seus formidáveis fundistas e maratonistas. Estados Unidos, Rússia, China, França, Alemanha sim, iniciam a competição com chances reais de vencer em qualquer modalidade. Quem aposta que a Índia pode levar o ouro no futebol ou a Mongólia na vela? Nem os mais “pachecos”.
Naturalmente, o ouro nas argolas não é a nossa maior vitória, ela é complementar as anteriores. E a glória tem geometria variável sujeita ao tempo e as suas circunstâncias. Porém, pela mesma razão, justifica afirmar com justeza: o desempenho do paulistinha ágil, seguro, sereno, discreto e de biótipo atarracado mais lembrado em atletas egressos das escolas soviéticas e americanas, alçou o Brasil para patamar superior e mais amplo.
Ademais, há um outro detalhe todo especial, responsável por fazer Zanetti um gigante de 1,56 metros de altura. A ginástica, modalidade eminentemente olímpica – tem ares circenses e origem militar – ainda não foi sombreada pelos campeonatos mundiais assim como acontece com o atletismo, natação, judô ou vôlei. Os Jogos Olímpicos estão para ginástica artística em igual medida que a Copa do Mundo para o futebol. Tem o mesmo significado do campeonato organizado pela NBA para o basquete ou circuito da ATP em relação ao tênis. Ainda que tenha competições paralelas, é nas Olimpíadas onde o brilho na categoria esportiva tem o seu maior esplendor.
O Brasil levou quase um século para ganhar a medalha de ouro nas argolas. Zanetti apoderou-se dela em apenas 22 anos. Para ele, no entanto parece ser a coisa mais natural do mundo. Os grandes tem mesmo está curiosa inconsciência da predestinação. Vamos lembrar sempre.
Tags: Adhemar Ferreira da Silva, Arthur Zanetti, ATP, Ginástica, Joaquim Cruz, NBA, Olimpiada de Londres 2012


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