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Alemanha

09/07/2014

às 19:32 \ Copa 2014

Inferno

InfernoRIO — Antes do massacre Alemanha 7 x 1 Brasil, o professor Felipe Scolari lembrou em entrevista coletiva à imprensa que sempre faz do seu jeito e arrematou: “Gostou, gostou. Quem não gostou vá para o inferno.” De fato, justiça se faça, o treinador cujos resultados recentes foram perder a Eurocopa para Grécia em casa e rebaixar o Palmeiras para a segundona, cumpriu a promessa no Mineirão.

O inferno pode ser medido palmo a palmo. A mais elástica goleada sofrida pela Seleção Brasileira no espaço de um século. A maior derrota em uma semifinal na história das 20 copas. O resultado mais vexatório apresentado por um país anfitrião. E o improvável mesmo nas peladas de várzea: tomar 5 gols em menos de meia hora.

O atacante Fred tentou resumir o réquiem: “Uma cicatriz para toda vida”. Errou de novo. Cicatrizes podem desaparecer com cirurgias corretivas. A humilhação na gloriosa odisseia do futebol brasileiro permanecerá indelével até sob eventual intervenção de uma  força tarefa de dedicados revisionistas.

Em notável estado choque pós goleada — e com a chancela do cordenador técnico Carlos Alberto Parreira, no dia seguinte, portanto com tempo para reflexão — o goleiro Júlio César, veterano de copas, asseverou ter sido um fenômeno “inexplicável”. Isso como se a razão tivesse tomado um foguete para lua fugindo do Império da Fatalidade.

Não. Todo efeito tem causa. Nada acontece por geração espontânea tal como demonstrado pelo microbiologista francês Louis Pasteur. O time alemão atual tem uma divisão de boleiros muito talentosos. O Brasil de 2014 possui bem menos. Mas não foi a proporção que fez a diferença brutal. A questão é puramente técnica.

Desde de 2006 quando perderam uma copa em casa, os alemães vem se empenhando em reproduzir com teuta aplicação e pragmatismo os fundamentos das nossas mais celebradas vitórias no passado. Valorizam o toque de bola, a precisão dos passes e a mobilidade em ritmo rápido, condizente com o futebol moderno. Todos juntos e no mesmo sentido, os fatores facilitam chegar ao objetivo final, o gol.

Introduziram também uma variante na prancheta que deu certo na prática. O goleiro como líbero. Manuel Neuer é o último zagueiro. Não é novidade para quem acompanha o Bayern de Munique, campeão da Bundesliga, Liga dos Campeões — a final foi contra outro time alemão, o Borrússia — e base da Mannschaft.

Jogar junto contribui para o entrosamento. No entanto, ainda que com jogadores da mesma equipe, a comissão técnica alemã só deu folga aos jogadores uma vez.  Trata-se de engano sustentar que a vergonha do 8 de julho se deu porque don Scolari não treinou o time com este ou aquele boleiro. O Brasil não treinou o suficiente ponto. Os moradores de Teresópolis com vista para os gramados da Granja Comary se espantaram com abstinência. Nem a presença de Neymar teria evitado a debacle.

Seria prova de imbecilidade se o 7 x 1 sobreviva apenas como uma página negra. Parafraseando Winston Churchill: “Se estiver atravessando o inferno, continue andando.” Passa da hora do Brasil aposentar a autossuficiência sem lastro, a soberba fora do lugar, a arrogância que tenta esconder o arcaísmo incompatível com o futebol moderno e sobretudo, a corrupção da cartolagem.  Valeria a pena debruçar sobre o exemplo alemão.

Por Antonio Ribeiro

24/05/2013

às 15:36 \ Europa, Futebol

Batalha da Inglaterra: desta vez, os alemães ganharam


O futebol é um jogo simples: 22 homens correm atrás da bola durante 90 minutos e no final, os alemães ganham 
–  Gary Winston Lineker, atacante inglês

Um amigo que mora em Londres e conhece o apreço pela resiliência de Winston Churchill contra a tirania telefonou para contar anedota intelectualmente estimulante. “Estão dizendo aqui que, finalmente, o futebol alemão conseguiu que o Hitler tentou sem sucesso.” Em seguida, arrematou: “Invadir Londres.” Naturalmente, ele se referia à inédita final da Liga dos Campeões com ares de partida da Bundesliga no lendário Wembley Stadium. A decisão entre a equipe bávara Bayern de Munique e a renana Borrússia, de Dortmund, megalópole no Vale do Rhur.

Well, não se trata bem de uma invasão. O movimento está mais para passeio de fim de semana. Os esperados 150 000 torcedores alemães irão desembolsar boa parte de seus euros em hotéis – mais de 4 em cada 5 deles estão totalmente ocupados e os restantes tem disputadas diárias a 700 por cento acima do preço normal. Os pachecos teutos vão encher os restaurantes,  esvaziar o estoque de chope dos pubs e gastar com outras diversões. Tudo irá para os cofres dos insulares. Terminada a partida, os alemães voltarão para casa levando apenas lembranças. No melhor dos casos, a faixa de campeão da melhor competição mundial entre clubes de futebol. Intacto, o reino de Elizabeth II seguirá sua crise econômica um pouco mais abonado.

Contudo, a “invasão de Londres” é mais interessante pelos aspectos inerentes ao futebol, nem sempre notados, onde o rolar da bola é quase um detalhe se considerado seu efeito fora das quatro linhas que delimitam o campo de batalha do esporte de origem britânica. No Brasil, ele é uma espécie de mitologia nacional na qual Pele é Zeus, “o deus dos estádios”, parafraseando o locutor Waldir Amaral. Na Alemanha, seus melhores momentos estão associados à reconstrução do país e mais tarde, a supremacia econômica européia. O kaiser Franz Beckenbauer, no caso, faz figura de um Michelangelo na renascença boleira.

O “Milagre de Berna”, em 1954, quando a Alemanha Ocidental derrotou a favorita Hungria de Puskas conquistando a sua primeiro Copa do Mundo é visto pelos alemães como um símbolo consequente no meio do caminho entre o Tratado de Paris e o Tratado de Roma. Os acordos marcaram respectivamente o retorno do país à comunidade européia e o inicio do papel de líder econômico da União Européia. Desde então, o time alemão passou a ser temido no gramado como foi outrora uma coluna de tanques Panzer sob comando do General Rommel. O ano 1990, coincidiu a conquista do tricampeonato com a reunificação das Alemanhas.

Até no período de vacas magras o futebol foi um espelho. O terceiro milênio começou com a economia alemã paralisada, tal como a França hoje. O rombo do estado de bem-estar social era maior que o bolso do contribuinte. As leis laborais arcaicas minavam a baixa competitividade ao nordeste do Rio Reno. Na Eurocopa de 2000, ganha pela França – acabava de reduzir a jornada de trabalho semanal para 35 horas – o time alemão terminou em último lugar do seu grupo.

Enquanto a França ficou olhando para sua excentricidade e tentando persuadir o mundo a copiá-la, a federação alemã de futebol foi procurar bons exemplos alhures para reproduzir em casa. Na Espanha, descobriu o efeito das escolinhas de futebol do Barcelona e Real Madrid, times que mais para frente, dominariam o futebol europeu. Resultado: os times da primeira e segunda divisão alemã foram incentivados a criar academias de futebol para jovens talentos assim como emular o modelo educacional onde universidades trabalham de mãos dadas com empresas no mesmo objetivo: educar para atender as necessidades do mercado de trabalho. Em uma palavra: empregos!

O chanceler socialista Gerhard Schröder com a anuência de centrais sindicais consensuais flexibilizaram as regras laborais. A abertura alemã atraiu mão de obra qualificada de imigrantes e, simultaneamente, a Mannschaft, a seleção alemã, nunca teve tantos descendentes de imigrantes. Khedira, Ozil, Cacau, Gomez, Podolski. Tampouco, os clubes alemães tiveram tantos estrangeiros. A mais emblemática contratação é o técnico catalão Pep Guardiola. Muitos perguntam o que o ex-treinador do Barcelona que encantou os amantes do futebol ofensivo poderá melhorar no Bayern, finalista em Wembley? Talvez invadir Lisboa. Não como Napoleão, mas para a final da Liga dos Campeões versão 2014.

Por Antonio Ribeiro

02/05/2013

às 9:10 \ Futebol

Se é Bayern é bom, mas não deslumbra

 

Lionel Messi, o melhor boleiro do planeta, sob risco de romper o músculo quadríceps femural direito, caso pisasse no gramado do lendário Camp Nou, assistiu sentado no banco de reservas a confirmação de uma espécie de Queda de Constantinopla, um divisor de águas, no mundo da bola.

O time do El Pulga, o Barcelona – dominou o futebol mundial nos últimos quatro anos vencendo quatorze campeonatos dos dezenove disputados – tomou três gols do Bayern de Munique e não fez nenhum. Isso depois de já ter levado quatro e tampouco ter conseguido balançar as redes do adversário, no primeiro jogo da semifinal da Liga dos Campeões da UEFA, cujo nível de futebol e organização rivaliza com a Copa do Mundo.

As duas vitórias do Bayern agregadas à vantagem do rival Borussia Dortmund sobre o Real Madrid criou fato inédito. Pela primeira vez, haverá uma final 100% alemã na Champions, prevista para 25 de maio em Wembley, na Inglaterra. O jogo está sendo considerado como símbolo da eventual transferência geográfica do melhor futebol europeu. Ou seja, da Espanha, vencedora da mais recente Copa do Mundo seguido do triunfo na Eurocopa, para a Alemanha.

Em todo caso, ficou patente que o Barça não é mais o melhor time do mundo, como constatou o zagueiro Gerard Piqué i Bernabeu. No entanto, os humilhantes sete gols acumulados do Bayern não foram suficientes para apagar o legado do Barcelona e muito menos para chamar para si deslumbre equivalente ao do time catalão nos últimos anos.

A admiração pelo Bacelona emergiu em um tempo no qual a maioria dos times priorizavam o sistema defensivo. Não perder parecia ser mais importante que ganhar. A equipe catalã passou a buscar o gol de forma frequente mesmo quando vencia por folgada diferença. A filosofia de adaptar um modo antigo de jogar com os imperativos da modernidade veio da cachola do ex-técnico do Barça, influenciado pelo holandês Joham Cruyff, o genial Pep Guardiola. Ele sustentava uma singeleza lógica. Enquanto se tem a posse de bola, o adversário não faz gols e, simultaneamente, tem maiores chances, neste espaço de tempo, de chegar à meta do inimigo.

A concepção do Pep Team é bonita e astuta, mas não é fácil de executar. Ela exige além de talentosos jogadores, um entrosamento quase perfeito para troca de passes. Isso foi possível no Barcelona porque fora alguns reforços posteriores, a maioria dos boleiros jogam juntos desde a escolinha do time calão, La Masia. Ela incorpora também uma noção nova de que o futebol moderno não depende só de dons natural, mas de um longo aprendizado.

Porém, parafraseando o sábio, o futebol é uma caixinha de surpresas. No primeiro jogo, no Allianz Arena de Munique, o Barcelona teve 71% da posse de bola e, no tempo restante, o Bayern enfiou quatro. O time de Jupp Heynckes mostrou que não basta apenas ter a posse de bola, é preciso saber o que fazer com ela. Em Camp Nou, o templo culé, bastaram cinco alemães em permanente marcação entre a linha divisória do campo e a intermédiária inimiga e tudo aquilo que Guardiola lapidou com esmero caiu por terra.

Por Antonio Ribeiro

31/12/2012

às 18:04 \ Paris

Excelente 2013

Em 2012, ocorreu fenômeno às margens do Atlântico Sul mais raro do que a visita do furacão Sandy ou de qualquer outra manifestação extraordinária da natureza. A TV Senado levou ao ar em tempo real imagens de onze brasileiros falando português correto no mesmo recinto. E, independente do teor, os argumentos apresentados não brigavam com a relação de causa e efeito. Só isso, já seria suficiente para atrair atenção de cientistas desatentos se considerada a surra recorrente no idioma e na racionalidade no Brasil.

Contudo, ao condenar — em processo impecável e com amplo direto de defesa — os corruptos do mensalão,  uma “sofisticada organização criminosa”, cujo objetivo fracassado era assaltar a República, o time de magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF) matriculou de maneira indelével um fato inédito na história. O momento mais relevante no país durante 2012 enseja esperança de que nenhum indivíduo esteja acima da Constituição e do Código Penal ou Civil. Nem mesmo o timoneiro do lulopetismo, a idolatria que tentou em vão ser chavista e que ainda sobrevive como a versão caprichada do peronismo com suas conseqüências danosas.

Na Europa, o euro completou mais um ano de vida. Isso ocorre quando até demiurgos otimistas da economia vaticinaram o colapso da moeda na sua fase mais crítica e durante o período da sua pré-adolescência – 11 anos de idade.  Caso o euro sucumbisse, as conseqüências seriam funestas para bem alem das fronteiras dos 17 países da Zona do Euro.

A figura central que resistiu ao desastre é impopular em tempos em que  governantes decidem não bem pelo certo, mas segundo as pesquisas de opinião. Ou não decidem pela mesma razão. Se há uma figura que mereça o título de personalidade européia do ano é a chanceler Angela Merkel. Muito desejável que Merkel inspire o Velho Continente carente de desempenho semelhante ao da Alemanha. Em tempo: a eleição do presidente da França François Hollande que alguns diziam trazer novos ventos para Europa confirmou o que estava escrito nas estrelas, uma anedota ruim. O  ”presidente normal” é candidato seríssimo para ser o mais irrelevante na história da Quinta República.

O Blog de Paris deseja um excelente 2013.

Estaremos de volta em fevereiro.

De Paris, um abraço.

Por Antonio Ribeiro

01/11/2012

às 16:45 \ França

Hollande: choque não, uma massagem leve, por favor

Sortudo o camarada François Hollande. Ele preside um país onde a língua oficial é o francês. O idioma tem recursos reconhecidos, no espaço e tempo, para expressar o pensamento abstrato de modo inebriante. Pela riqueza dos vocábulos, alguns com mais de dez significados, constitui uma ferramenta extraordinária para políticos nos momentos de crise, quando a arte do ilusionismo ajuda hipnotizar ânimos mais exaltados.

Justiça se faça, nem tudo caiu do céu. Hollande contribuiu com a rota do seu destino. Formou-se com louvor na prestigiosa Escola Nacional de Administração (ENA) pública da França. Lá aprende-se que, quando emerge um problema muito incômodo, convoca-se uma comissão de sábios e especialistas para produzir relatório com prazo de entrega previsto para calendas. É a melhor maneira de eludir, não resolver e, finalmente, ganhar tempo até a chegada do esquecimento. A constatação é  de um francês que recebeu na pia batismal o nome de Charles de Gaulle.

Hollande conta com outra vantagem. Desta vez, institucional. Ele comanda um país cujo sistema presidencialista misto tem um primeiro-ministro parlamentar. Em teoria, é o chefe do governo. Em teoria. Na prática, o primeiro-ministro é o fusível do presidente. Quando as coisas vão de mal a pior, ele é trocado por outro. Os  locais sustentam que a medida oxigena o governo. Quando tudo vai bem, o presidente colhe os frutos, na melhor tradição monárquica do sistema republicano francês.

A revista The Economist dá conta que um recente estudo do Fórum Enonômico Mundial lista a França em termos de competitividade na vigésima primeira posição enquanto a vizinha Alemanha está na sexta. O governo Hollande tem um gasto da ordem de 56% do Produto Interno Bruto, 10% superior ao alemão. Recentemente, os socialistas franceses anunciaram um aumento de 20 bilhões de euros nos impostos para fechar as contas em 2013. A Holanda com metade da população exporta mais que a Franca cujo déficit na balança comercial é 70 bilhões de euros.

Pois bem. Diante do estado depauperado da economia francesa, o governo decidiu encomendar um estudo. Mais um. O objetivo era deitar no papel propostas que, todas juntas, comporiam um “choque de competitividade” para a França. Louis Gallois foi encarregado da tarefa. O executivo francês é co-presidente da EADS e presidente da Airbus. Já dirigiu anteriormente a Snecma, Aérospatiale e a SNCF, estatal responsável pelas ferrovias francesas. Portanto, como nos conformes da regra, figura respeitável e das mais qualificadas.

O relatório nem veio a público ainda, mas já está sendo considerado muito audacioso, doloroso demais e com reformas inaceitáveis. Pior: alguns dizem que o estudo tem inspiração sarkozista, o beijo de Judas. Se não for enterro anunciado, o que seria um eletrochoque para reanimar o paciente  está com ares de trasmutação para uma massagem leve. Isso, sobretudo, porque um detalhe sensível do relatorio vazou na fala do primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault.

Respondendo a leitores do jornal Le Parisien, Ayrault ousou dizer que a sacrossanta jornada de 35 horas semanais de trabalho na França não era mais assunto tabu para o governo socialista. A lei poderia ser revista – o governo Sazorky já havia desonerado as horas extras de encargos sociais para tornar a “jaboticaba” francesa menos onerosa. A oposição a Hollande chegou supor que a clarividência tinha finalmente subido as escadarias do Palácio do Elisèe, a sede do Executivo francês.

Triste ilusão. Ayrault, sabatinado na Assembléia Nacional, recebeu tanto fogo amigo dos colegas socialistas que, certa altura, a questão não era mais as 35 horas, mas a sua permanência como primeiro-ministro. Foi obrigado a usar o melhor do seu francês para que o dito se convertesse, rapidamente, em não dito. Ou melhor, no “não é bem assim, acalmem-se”

A França, famosa por sua Revolução tem-se tornado notória pela incapacidade de produzir reformas. Em cinco anos de governo, Nicolas Sarkozy, eleito com um programa de mudanças estruturais, conseguiu como reforma maior, aumentar o tempo de aposentadoria de 60 para 62 anos. E foi quase um Waterloo apesar do déficit previdenciário calamitoso. Pelo ritmo, o governo Hollande cuja popularidade já despencou para 36%, dá sinais que conseguirá, no máximo, retroceder no tempo. Ou seja, cumprir a promessa de passar a aposentadoria de 62 para 60 anos.

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“Olha, entre um pingo e outro, a chuva não molha” – Millor

Por Antonio Ribeiro

29/08/2012

às 13:00 \ Europa, Futebol

Torcida do crime organizado leva gol de Big Brother alemão

Em campo, o Borussia tem sido um sucesso. Ano passado, o time de futebol da cidade Dortmund, na Renânia do Norte-Vestfália, conquistou a Bundesliga, o campeonato nacional alemão. Em abril, o time da Emma, abelhinha amarela e preta, venceu a Copa da Alemanha, realizando assim a dobradinha pela primeira vez em sua história centenária.

A equipe cujo nome vem de termo latino para Prússia, tem a melhor média de público do país – espantosos 77.000 torcedores por partida. Seu estádio, o Signal Iduna Park, construído como uma das sedes da Copa do Mundo de 1974 com capacidade de 80.000 lugares, igual ao do futuro Maracanã, está sempre lotado É daí que vem o problema, mas de onde poderá brotar parte da solução e não só para o Borussia.

Durante décadas, os diretores do Borussia tomaram parte no esforço conjugado das autoridades esportivas e dos governos para conter o vandalismo, racismo e ações de criminosos que contaminaram as torcidas do nobre esporte bretão no Velho Continente. São medidas inspiradas, sobretudo, no relatório do magistrado inglês Peter Taylor que tratou do processo sobre as 95 pessoas mortas esmagadas durante a partida Liverpool x Nottingham Forest no fim dos anos 80.

Taylor fugiu da noção vaga de “violência no futebol”. Partiu do princípio que há crime e que a o ato criminoso não nasce de geração espontânea. Alguém o comete. Na maioria dos casos, de forma recidiva. Portanto, tal como ensinou Edgar Hoover, o primeiro diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI) americano, é preciso criar um fichário com os nomes dos criminosos. De forma subsequente e preventiva, faz se necessário monitorar os casos mais sensíveis.

Muitos dos criminosos que se infiltraram entre os simpatizantes do Borussia tem traço genérico encontrado no Velho Continente e alhures, como é o caso de elementos das torcidas organizadas de times cariocas suspensas dos estádios por 6 meses. A saudável competição esportiva é só um canal dissimulado para desaguar a prática do crime. Há outro particular, mas não tão particular assim, os bandidos pertencem a grupelhos neonazistas e de extrema-direita que a legislação alemã decretou ilegal e a polícia vem tentando erradicar.

A direção do Borussia deu um passo a frente. Embora os estádios alemães já sejam equipados com câmeras para ajudar a segurança, o clube de Dortmunt gastou 310.000 euros para instalar no Signal Iduna Park um sistema de vídeos de  altíssima resolução capaz de realizar close-ups a partir de 60 metros de distância.

Devido ao uso da nova tecnologia foi possível identificar um indivíduo de 27 anos já fichado na policia. Ele estava no meio da compacta massa de torcedores durante a partida Borussia x Werder Bremen exibindo flâmula com dizeres em apoio a organização neonazista ilegal. As imagens foram envidadas à central de policia de Dortmund que, por sua vez, confrontou as tomadas com o seu fichário de criminosos e, gesto seguido, enviou resposta positiva à segurança do estádio. O transgressor da lei foi capturado em 15 minutos.

Por Antonio Ribeiro

27/08/2012

às 11:00 \ Sem Categoria

Pelas barbas do profeta

Reconhecer a brutal evidência da existência do mensalão não é só lógico nem apenas demonstra-se estar em compasso com a verdade dos fatos. Trata-se de declaração equivalente a do terraqueo que sustenta não ser marciano e oferece como prova noções da Lei da Gravidade ou a admissão peremptória de que a chuva molha.

Há quem duvide que o homem pisou na Lua. Menos grave. Alguns ainda afirmam, depois de Copérnico e Galileu, que o Sol gira em torno da Terra. ”Eppur si muove!“, contudo, ela se move. Pura ignorância. Outros, como é o caso do presidente da teocracia iraniana Mahmoud Ahmadinejad, negam ter havido genocídio de judeus pelos nazistas. Ele sabe que houve, mas não reconhece publicamente por banais razões políticas e outras sandices. Contudo, o revisionismo histórico de Ahmadinejad não constiui astúcia para afastar de si a responsabilidade do genocídio nazista. Desta acusação o barbudo persa está livre embora ameace destruir Israel mais para frente se tiver meios e se deixarem.

Não reconhecer a existência do mensalão como acaba de repetir o ex-presidente Lula em entrevista ao New York Times, está entre os piores casos. Ele também sabe – e como sabe! – que houve. Ele também sabe que todos tem conhecimento das provas irrefutáveis, mas se admitir, está achegando-se perto de outra evidência claríssima, a sua responsabilidade ainda que esteja distante da culpabilidade – ela envolveria um processo penal do qual Lula até agora escapou.

O mais insidioso na prática de Lula é a desfaçatez de apresentar a mentira como se ela fosse verdade. Não se trata de ponto de vista, opinião ou retórica simplória. É deslavada mentira, mesmo que o ex-presidente acha que passa, persuade os mais bobos e fornece munição – a palavra do Lula – para seu séquito que deixaria enrubescidos os fervorosos de Conselheiro em Canudos. Nota-se o atavismo e apreço pela enganação barata até nas pequenas coisas. “Sejamos francos, declara Lula ao jornal americano, se a Alemanha tivesse resolvido o problema grego anos atrás, a situação não teria piorado assim”.

De fato,  sejamos francos. E sejamos sempre. Não cabe a Alemanha “resolver” o problema grego. A situação é muito mais complexa. A melhora envolve não só ajuda externa, mas a contrapartida grega. Ou seja, cumprir plano de saneamento nas suas contas e passar a situação inédita desde a criação da República Helênica, o governo operar com equilíbrio orçamental. É o mínimo que se exige. Jogar o jogo tal como um cliente que contrai empréstimo bancário no mundo real.

Alemanha vem ajudando, sim. E muito. O país da chanceler teuto federal Angela Merkel é o maior contribuinte na ajuda financeira da União Européia à Grécia cujo montante total até 2014 será de 380 bilhões de euros. Isso representa só para Grécia uma ajuda quase três vezes superior a do Plano Marshall após a Segunda Guerra Mundial, responsável pela reconstrução da Europa Ocidental inteira mais a Turquia.

Por Antonio Ribeiro

18/06/2012

às 17:53 \ Europa, Futebol

4-2-3-1 de Iniesta

Nossos treinadores podem tirar bom proveito se observarem na Eurocopa o resultado eficaz do arranjo que tentam copiar – inclusive Mano Menezes na Seleção. O 4 (zagueiros) – 2 (volantes) – 3 (meio-campistas) – 1 atacante. Favoritos como a Alemanha e Espanha jogam em cima do esquema. Porém, diferente da fraude brasileira. Os volantes (Xavi, Khedira) não são meros escudos, patrulheiros da defesa, zagueiros de luxo. Habilidosos, saem jogando, armam e até finalizam. Os alas (wingers como Iniesta, Nani) lembram o “ponta polivalente” de Zezé Moreira, a compensação de Zagallo à anarquia de Garrincha entre 1958 e 1962 e de Telê Santana primeiro como jogador  do Fluminense e mais tarde, técnico de Éder, na Seleção de 1982. Eles continuam abertos também da linha divisória do campo para frente,  não só avançam em diagonal para o meio do ataque. O atacante (Torres, Gómez) recebe munição e apoio permanente de um bloco de ataque vindo de trás que, por vezes, além dos três homens do meio-campo ofensivo com grande liberdade de movimento à Pepe Guardiola, conta com ajuda dos volantes e laterais. Enfim, não recebe apenas lançamentos, ou melhor, chutões para resolver a parada sozinho contra a zaga inimiga. Coisa do vetusto Joel Santana. A isso chamam de “ligação direta”. Na maioria dos casos, um eufemismo para “desperdíci

Por Antonio Ribeiro

18/06/2012

às 10:14 \ Europa

Grécia: sem milho não tem pipoca

Determinados, bem à sua maneira, os gregos agiram para afrontar a Alemanha de igual para igual. Calma. Estamos falando da Eurocopa, na qual depois de vencerem o bonito futebol dos russos, o time do novo herói da resistência helênica, Giorgos Karagounis, vai enfrentar a Alemanha do boleiro com melhor desempenho da competição, Bastian Schweinsteiger, “O Porquinho”. Fora das quatro linhas, a maioria dos gregos mostrou-se menos audaciosa. Foi ajuizada.

Desta vez, os eleitores gregos colocaram no colo de Antonis Samaras, líder do partido conservador Nova Democracia (ND), a oportunidade de formar um governo de coalizão que cumpra os acordos com a troika (Comissão Européia , Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu) e, em efeito, permanecer na zona do euro. Samaras já iniciou tratativas com o Partido Socialista, terceiro colocado nas eleições, atrás da Esquerda Radical liderada por Alexis Tsipras, para consolidar um governo de “salvação nacional” de um país onde a dívida é de 165% do Produto Interno Bruto (PIB), 22% da população ecomicamente ativa está desempregada e um entre dois jovens gregos está na mesma condição.

Nas eleições parlamentares de maio, os gregos votaram para dar força aos seus partidos extremistas que apregoam não cumprir os acordos. Foi uma espécie de blefe eleitoral para tentar amedrontar os europeus e com isso, atenuar as medidas de rigor orçamentário, a contrapartida de uma ajuda de 380 bilhões de euros até 2014, quase três vezes superior ao Plano Marshall, responsável pela reconstrução da Europa Ocidental mais a Turquia após a Segunda Guerra Mundial.

Por que os gregos mudaram de posição? Fundamentalmente, porque a chanceler alemã manteve a dela. No entreatos das eleições na Grécia, Angela Merkel fez saber: sem milho não tem pipoca. Ou seja, sem o cumprimento dos acordos não há ajuda. Os radicais gregos apostaram na vitória de François Hollande na França, a segunda maior economia da Europa, como a chegada de “novos ares” no Velho Continente. Comemoram a derrota do partido de Merkel nas eleições regionais na Renânia do Norte-Vestfália, o estado mais populoso da Alemanha. Em Camp David, quando os chefes de estado dos países do G7 encurralaram Merkel com pires nas mãos, os extremistas gregos acharam que roteiro seguia seus conformes.

Mas diferente de Margaret Thatcher, tantas vezes isolada e sem complexo da situação, Merkel usa linguagem branda, faz concessões cosméticas para não despertar lembranças de um passado hegemônico e negro do seu país, mas não arreda de suas convicções. Ela crê que a prosperidade européia vem com a produtividade e respeito às regras do jogo, os pilares que fizeram da Alemanha a economia mais pujante do continente. Pelo que se viu até agora, muito pouco provável que seu curso, respaldado pelos alemães, tome rota inversa.

O novo voto grego não é o fim da crise nem o princípio do fim. Ele só afasta a possibilidade de uma catástrofe imediata. Ademais, ela está condicionada a formação de um governo com alguma estabilidade para conduzir o país no rumo do bom senso de reformas ficais e estruturais. A situação que não é indolor nem menos dramática foi inexistente nos dois últimos meses e conturbada há bem mais tempo.

Por Antonio Ribeiro

06/06/2012

às 14:27 \ Europa, Futebol

O euro agoniza, viva o Euro!

 

Durante três semanas, a maioria dos europeus – e não só eles – vão acompanhar 16 equipes disputarem 31 partidas de futebol através de 31 câmeras de televisão de alta definição nos estádios da Polônia e da Ucrânia, antigos satélites soviéticos descongelados pela adoção da economia de mercado, onde a cerveja é a mais barata da Europa. O pint, pouco mais da metade do litro, custa 58 centavos de euro em Kiev e 1, 55 euros, nos bares de Varsóvia.

A mini copa sem o Brasil, Argentina, Uruguai e fora a melhor seleção africana do momento deve trazer benefício médio de 7 bilhões de euros para os países sede. Mas nem todos vão lucrar com a Eurocopa 2012. Durante a Copa do Mundo 2010, na África do Sul, por exemplo, a economia inglesa teve queda de produtividade da ordem de 6 bilhões de euros. Os torcedores da ilha devem saber que, quanto mais a equipe inglesa avançar na competição, maior será o prejuízo para o reino de Elizabeth II. “A glória não se calcula assim”, diria Charles de Gaulle, um dos piores amigos e melhores inimigos da Inglaterra.

Quem não gosta do esporte bretão pode encontrar outro atrativo. Contrário ao que acontecia na Inglaterra pela ação de marmanjos despudorados, as partidas do Euro 2012 correm risco de serem interrompidas pela entrada no gramado de feministas seminuas – ou totalmente –  para protestar contra o turismo sexual administrado pela oligarquia mafiosa local. E quem também não gosta dessas surpresas, pode encontrar sempre bom programa nas páginas dos suplementos VEJA Rio, São Paulo, etc. Diga-se de passagem, editadas sob o comando do talentoso jornalista Carlos Maranhão, veterano de todas as copas desde a criação da revista PLACAR.

Quais são os favoritos para erguer os 8 quilos de prata da Taça Henri Delaunay? Antes da bola rolar, a Espanha, atual campeã do mundo, a Alemanha e a Holanda recebem maior numero de apostas. Depois, pode ser qualquer outra seleção. Até a Grécia é capaz de fazer estragos ainda que a competição não seja economia e o euro, por mais valorizado, não tem nenhuma equivalência com a dracma.

A grande questão é saber se Xavi, Inesta e seus companheiros estão realmente tão cansados quanto se mostram e portanto, ansiosos pela chegada das ferias do verão europeu. Ou se vão conseguir, como a França de Zidane, a proeza de ganhar a Eurocopa depois de ter vencido a Copa.

Os governos da Península Ibérica e Itálica bem que gostariam de viver o dilema de La Roja em relação à crise do euro. Porém, seu adversário é bem mais forte que a simpática e multicultural Mannschaft do merengue de origem turca Mesut Ozil. Os teutos jogam como se deve: a linha de meio-campistas nunca está distante dos zagueiros e atacantes, mas eficiência ainda não trouxe títulos para Berlim. Os países endividados do sul da Europa, enfrentam o rigor orçamentário defendido pela chanceler alemã. Frau  Merkel, ainda que pouco apreciada, é quem apita.

O melhor jogador da Europa, o continente que sabiamente transferiu as disputas dos campos de batalha para as arenas esportivas, estará fora das quatro linhas do Euro 2012. Entretanto, Lionel Messi tentará ajudar sua Argentina a classificar para a Copa no Brasil. A maior atração individual, também antes da bola rolar, é o  português Cristiano Ronaldo. Na última temporada, o atacante teve melhor desempenho que Messi.  A vida como ela é. Mas para ganhar, CR7 terá que fazer  esforço de Hercules. Isso porque a Seleção das Quinas – se classificou empatando com Chipre e com a ajuda de derrota norueguesa – é ele mais nove, considerando que Pepe e  Fábio Coentrão entram, cada um, com meio.

A Polônia virou o jogo

Quando os cartolas da União das Federações Européias de Futebol (UEFA) escolheram  Ucrânia e Polônia para sediar o Euro 2012, o binômio parecia o sucesso abraçado com a encrenca. Em plena Revolução Laranja, crescimento econômico superior a 7% do Produto Interno Bruto (PIB), a Ucrânia demonstrava apreço, popular e por parte das elites governantes, pela democracia. O país achegava-se da candidatura para ingressar na União Européia (UE).  À época, a Polônia era governada pelo primeiro-ministro nacionalista Jaroslaw Kaczynski. O polaco marginalizou seu país em disputas estéreis com rivais históricos, a Alemanha e a Rússia. Jogo ruim de assistir.

Cinco anos depois, a situação se inverteu. A Polônia tornou-se a mais recente história de sucesso político e econômico da Europa. O governo do primeiro-ministro Donald Tusk, o único a ser reeleito desde a queda do comunismo, é estável. O país driblou bonito a recessão de 2009 – também desempenho único no Velho Continente. Tem um dos mais rápidos crescimentos econômicos da UE. A Polônia investiu, sem PAC e Delta, 30 bilhões de euros para acolher o Euro 2012. A maior parte do dinheiro serviu para criar infraestruturas e melhorar os transportes dilapidados, em sua maioria, de origem soviética. Só 5% da bolada foi usado diretamente para construção de novos estádios, como o de 58.000 lugares à beira do Rio Vístula, em Varsóvia – será palco inaugural da competição com o Polônia x Grécia, 8 de junho, às 15h45m  (Brasília), um jogo cheio de simbolismos de uma Europa a duas velocidades.

O esforço polonês se insere na ampla tentativa de mudar a imagem de país cinzento que emergiu da era comunista para a modernidade. Resta um grande desafio que vem de outros tempos: controlar as manifestações de grupos racistas e xenófobos nos estádios. Já inciou antes de começar. Durante treino em Cracóvia, um coro de torcedores fascistas insultaram os jogadores holandeses negros. Foram chamados de “macacos”. Isso depois da equipe ter visitado o campo de concentração de Auschwitz para render homenagem às vítimas da barbarie nazista.

Em contrapartida, a Ucrânia ainda tenta recuperar-se de uma contração econômica de 15% devido à recessão da década passada. Mesmo assim, aplicou 8 bilhões de euros nas suas quatro cidades sedes: Kiev, Lviv, Donetsy e Kharkiv. Em apenas 18 meses, foram construídos 4 aeroportos. Para receber os torcedores a Ucrânia tem doravante, 70 novos hotéis. Estima-se que 80% dos visitantes nunca pisaram antes no país. A esperança é que voltem.  Contudo, a imagem da Ucrânia está cada vez mais associada a de uma autocracia com corrupção disseminada.

Os deputados ucranianos vão além dos insultos pesados que acontecem durante as CPIs em Brasília. Trocam sopapos no Parlamento sem complexos. A ex-primeira-ministra e líder da Revolução Laranja, Yulia Tymoshenko, de 51 anos de idade, foi condenada a sete anos de prisão por apropriação de fundos públicos. Ela iniciou greve de fome contra o que alega ser uma vingança pessoal do atual presidente, Viktor Yanukovitch que lhe deu uma surra eleitoral. A situação chegou a suscitar ameaças de boicote ao Euro 2012. Suspeita-se que madame terá que tentar outra ocasião. O pessoal aqui, gosta de bola como ao sul do Equador, embora não manifeste da mesma maneira.

Atualização enviada pela leitora Paula Barcellos: “Os deputados gregos tambem aderiram aos sopapos sem complexos em pleno Parlamento.”

Por Antonio Ribeiro
 

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