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Akira Omamoto

17/03/2011

às 14:34 \ Japão

Ponto de encontro entre o desastre humanitário e a crise nuclear

Seria necessário sessenta e seis giros em movimento retrógrado da Terra à volta do Sol para encontrar um país enfrentando a confluência do desastre humanitário com a crise nuclear. Seu nome é Japão, cinco saliências que totalizam área de 378 quilômetros quadrados acima da superfície do Pacífico. O mesmo arquipélago que vive drama semelhante ao de outrora, mas com quase o dobro de densidade populacional – 337 habitantes por quilometro quadrado. Isso devido à permanente ação de três placas tectônicas em busca de equilíbrio e da mão do homem que compensa uma imperfeição natural produzindo energia onde ela é insuficiente para tocar a vida moderna.

No caso japonês, a carência energética é tão aguda que o considerado imponderável alhures tem ares de melhor solução no atual estágio da tecnologia. Ou seja, 54 usinas nucleares, responsáveis por 30% da eletricidade consumida, operando em zona de abalos sísmicos freqüentes.  Para se ter uma ideia de equivalência, a eletricidade produzida pelas 104 usinas nucleares dos Estados Unidos, país com maior número de reatores entre os 442 em operação no planeta,  não chega a 20% do consumo total dos americanos.

Quem desconhece o cotidiano de esquimó ou de beduíno, espanta-se com a capacidade humana de tolerar temperaturas extremas. Os japoneses tem aptidões equivalentes no que diz respeito ao efeito dos sismos. Ainda que sem precedente nos registros, o maremoto de 9 graus na escala Richter responsável por uma tsunami de até 10 metros que devastou muito na costa nordeste do Japão, foi encarado com a habitual resignação nipônica. A catástrofe natural colocou em colapso três sistemas de refrigeração dos seis reatores nucleares da usina de Fukushima, 280 quilômetros ao norte de Tóquio. Em um primeiro instante, mais enfronhado no assunto, mas não menos típico, o engenheiro da Comissão Atômica do Japão, Akira Omamoto constatou: “A natureza venceu nossas melhores expectativas.”

O resto do mundo vê o risco japonês sobre ponto de vista mais sombrio. Na França, onde funcionam 58 usinas atômicas que fornecem 76% da energia consumida, há quem julga tratar-se de um “novo Chernobyl”. O acidente nuclear na Ucrânia em 1986 ocorreu em plena atividade de um reator sem estrutura de contenção. Em Fukushima a operação foi interrompida durante o tremor, o envelope de aço e cimento em torno dos reatores limitam o vazamento de material radioativo. Mas nenhuma estrutura de confinamento construída nos anos 70, o caso de Fukushima, está preparada para resistir à fusão das varetas de urânio no núcleo do reator. A eventualidade ainda não está descartada na central nuclear japonesa onde há seis reatores superaquecidos, um deles com plutônio. Potencialmente, há mais material radioativo sob risco de espalhar na atmosfera do que em Chernobyl.

A contaminação radioativa no Japão é fato consumado. Na melhor das hipóteses, uma zona de segurança em torno de Fukushima ficará desabitada sem previsão de retorno a normalidade, a exemplo de Chernobyl. O que está em jogo agora é o tamanho deste perímetro. Contrário aos comedidos e opacos técnicos da Tokyo Electric Power Company (Tepco), operadora do complexo de Fukushima, o presidente da Autoridade Americana de Regulamentação Nuclear (NRC), Gregory Jaczko, acha que a situação está fora do controle. “A área interna do reator 4 tem altos níveis de radiação. Será muito difícil consiguirem chegar até o local. As doses de radiação são letais em um período curto de tempo”,  declarou no Congresso americano.

Em uma reunião de emergência da Comissão de Energia da União Européia, 27 ministros dos  países membros decidiram verificar o sistema de segurança das 143 usinas nucleares com estrutura similar à Fukushima em operação no Velho Continente, região considerada como vanguarda do renascimento da produção de energia atômica. A chanceler Ângela Merkel foi ainda mais longe, suspendeu o plano de prolongar o tempo de funcionamento das 17 usinas nucleares na Alemanha. A onda de choque japonesa foi capaz de, ainda que temporariamente, conter o maior apetite por energia do planeta. A China decidiu rever seu programa nuclear que previa a construção de 110 usinas nucleares até 2020 para a gerar 5% de eletricidade consumida no país – atualmente são 13 centrais que produzem 2%.

Ainda é prematuro medir os efeitos exatos do desastre nuclear no Japão. O certo é que, em um primeiro instante, junto a com a radiação virá mais emissão de CO2 devido à redução de alternativas à dependência do combustível fóssil, sujo mas aparentemente seguro a curto prazo. Isso significará um retrocesso na agenda do movimento verde – o paradoxo é que parte dele faz campanha contra as centrais nucleares. O investimento em energia atômica será menor e  mais rápido o processo de fechamento de usinas antigas com maior proabilidade de provocar acidentes. Mais para frente, quando a poeira radioativa baixar, a história ensina que argumentos na direção inversa ganham força.

Fukushima foi construída há 40 anos atrás, desde então, a tecnologia nuclear deu passos significativos. Maremotos com 9 pontos na escala Richter, energia 30.000 vezes superior a da bomba atômica lançada em Hiroxima, não são tão recorrentes como o raiar do dia nem no Japão. E quando emergir a inevitável questão sobre o futuro do Japão, a opção de  se construir usinas nucleares mais seguras e administradas de forma mais transparente, ainda que em zonas de frequentes abalos sísmicos, não será descartada. È pouco lembrado que  o maremoto ou a  tsunami não derrubam o complexo de Fukushima, nem as torres metálicas caíram. A acão conjunta da catástrofe natural provocou sim, o colapso no sistema de refrigeração. Se ele estivesse protegido como os reatores, a central estaria funcionando.

Por Antonio Ribeiro

 

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