21/08/2009
às 8:26 \ EsporteO senhor 200.000 Bolt

O Mundial de Atletismo, em Berlim, abriu nova era. As longas pernas do velocista jamaicano Usain Bolt deram passadas espaciais. Elas não foram tão festejadas quanto o salto da nave Apollo 11 ao solo lunar, façanha da NASA pelas botas do astronauta Neil Armstrong. Mas percorrer 100 metros em 9 segundos e 58 centésimos significa para máquina humana uma conquista a qual poucos entendem de imediato. A proeza está mais próxima da miragem do que da lógica.
Quem sente nas entranhas a medida exata do esforço – ele parece fácil para Bolt, completa 23 anos hoje e de quem dizem poder alcançar os 9s40 em breve – fica boquiaberto de cara. Foi o caso de Leslie Djone, especialista dos 400 metros, depois de assistir Bolt atingir 44,72 km/h pouco além da metade do percurso dos 100 metros rasos, a prova que decide quem é o homem mais veloz do mundo.
Enquanto Bolt celebrava saltitante, Djone fixou o olhar em um ponto perdido no azul da pista sintética. O silêncio do corredor durou espaçados segundos. Ele não via nada, mentalizava. Absorto, assistia um filme produzido pelo seu cérebro. A descrição das cenas, só ele poderá contar um dia. Quem sabe em data comemorativa, quando se quiser saber o que ele fazia durante acontecimento responsável por desviar a rota da história.
Djone deixou o estado de letargia, resultado da consciência de que os tempos mudaram tendo seus olhos por testemunha, com tirada jocosa: “Daqui a pouco vão instalar placas nas pistas de atletismo indicando limite de velocidade à 50 km/h.” Seria uma medida compensatória para os mortais. No entanto, o super-homem não respeita fronteiras: quebrar os limites é parte mais genuína da sua natureza.
Bolt, 1,96 metro de altura e 86 quilos, assombrou de novo nos 200 metros rasos sob os olhares de 55.000 privilegiados. Ganhou a prova pulverizando o seu próprio recorde mundial com 19s19. Correu 11 centésimos mais rápido do que nos Jogos Olímpicos de Pequim e deixou o panamenho Alonso Edward, comendo poeira 62 centésimos atrás – foi o melhor desempenho na vida do jovem medalha de prata. Isto sinaliza que por muito tempo os 100 metros rasos terão o mesmo vencedor. A única expectativa será ver em quantos centésimos Bolt baixa seu tempo - em 88 anos, ninguém conseguiu quebrar seguidos recordes como Bolt.
Há mais de meio século, o Estádio Olímpico de Berlim, onde Bolt venceu os 100 e 200 metros rasos, é coberto pela sombra de Jesse Owens. A referência histórica é tão distante que nem em termos simbólicos, ela merece ser comparada com Bolt. A vitória de Owens no verão europeu de 1936 jogou por terra a teoria nazista da superioridade racial ariana. A questão é irrelevante nos tempos de Bolt. Os resultados das últimas décadas colocam os negros sempre à frente dos brancos nos 100 e 200 metros rasos. Bolt e Owens são tão semelhantes quanto um guepardo e um gato angorá.
O que ia até pouco tempo era a disputa entre dois tipos de homens. Os anabolizados e os demais atletas. Neste aspecto, Carl Lewis ainda é a figura mais emblemática. Até que se prove o contrário, Bolt é responsável por elevar a competição ao mais nobre patamar do esporte. Enquanto suas pernas tiverem força, será o homem contra ele mesmo ou melhor dizendo, Bolt contra Bolt. Se fosse no boxe, os adversários de Bolt seriam meros sparrings.
Como ele consegue? Na maioria dos atletas, há um conflito entre a vontade de vencer e a fluência. O engajamento total prejudica a técnica. Mais sutil, existe confusão entre relaxamento e displicência. O cursor de Bolt situa-se no ponto exato do equilíbrio.
Correr de maneira relaxada, implica uma enorme qualidade nervosa e coordenação. As passadas e o movimento pendular dos braços são uma sucessão de informações e contra-informações. Nos casos de 9 em de cada 10 velocistas a contra-informação acontece no meio do movimento. É o momento onde se nota a tensão. Ela é imperceptível no corpo longilíneo de Bolt. Tal qual um chip eletrônico, o jamaicano administra de maneira excepcional grande quantidade de informações vindas de vários sentidos. ‘Penso em nada na largada, não há razão para se estressar, a competição é prazerosa” , explica Bolt.
“Bolt tem uma resistência ao acúmulo de acido lático no corpo superior aos seus pares” , diz Pierre Morath, historiador do esporte e ex-atleta. ‘Nunca se viu um corredor com tamanha capacidade de resistência, o que lhe permite acelerar no ponto onde os outros começam baixar o ritmo”. A história do atletismo também desconhece um precedente que reuniu relaxamento, potência e resistência em universo onde predomina a massa cerebral e músculos.
Os pés de Bold calçam 44. Em ação, eles lembram as laminas metálicas que substituíram as pernas amputadas do corredor sul-africano Oscar Pistorius. “Além de amortecer o choque, sistematicamente, eles projetam com força Bolt para frente” , diz Bruno Marie-Rose, ex-recordista mundial dos 4 X 100 metros. O segredo do sucesso dos velocistas é tocar o menos possível no chão e com a maior brevidade. As passadas de Bold são, em média, 30 centímetros mais longas que as dos seus adversários. Nos 100 metros rasos, ele deu apenas 41, ou seja, quatro a menos que a média.
Os velocistas empurram seus braços para frente. Bolt puxa os seus para cima como asas de uma ave de rapina alçando vôo. No final dos 200 metros, ele olhou para o denso azul celeste. Os limites terrestres parecem ter perdido o interesse, ultrapassá-los é só uma questão de manter a inércia. Pequeno passo para Bolt, imenso salto para o esporte.
Atualização: Usain Bolt conquistou a terceira medalha de ouro no Mundial de Atletismo, desta vez com a equipe do revezamento 4 X 100 metros da Jamaica.
Tags: 100 metros, Alemanha, Apollo 11, atletismo, Berlim, Carl Lewis, Esporte, Estádio Olímpico de Berlim, Jesse Owens, Neil Armstrong, Torres Gêmeas, Usain Bolt





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