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20/03/2010

às 7:40 \ Veja

A França atrás do balcão

Criação de empresas na França. A linha vermelha é o efeito do novo estatuto do microempreendedor

Criação de empresas na França. A linha vermelha é o efeito espetacular do novo estatuto do microempreendedor

Na edição de VEJA desta semana:

Internacional: A França atrás do balcão

O governo francês diminui a burocracia, incentiva os pequenos empreendedores – e a abertura de empresas dispara

Antonio Ribeiro, de Paris

Com pouco menos da metade da população brasileira, a França vinha criando o dobro do número de empresas que o Brasil vê surgir anualmente – 260.000 por ano desde 2000. São dados incompatíveis com a ideia disseminada de que a França é um elefante estatal onde a maioria dos jovens sonha trabalhar para o governo. As informações recentes do Instituto Nacional da Estatística e dos Estudos Econômicos da França mostram que, impulsionado pela diminuição da burocracia e por incentivos fiscais, o empreendedorismo individual disparou. No ano passado, os franceses abriram as portas de 580.200 novas empresas.

O salto se deve à criação pelo governo de Nicolas Sarkozy de um “estatuto do microempreendedor” que, entre outras facilidades, permite ao interessado abrir e legalizar uma nova empresa via internet em minutos. O ambiente de negócios na França para empreendedores de maior porte ainda é moroso. Requer o cumprimento de sete procedimentos administrativos. Eles consomem, em média, cinco semanas até a expedição do alvará de funcionamento. O empreendedor brasileiro enfrenta dezesseis etapas e o processo pode levar meses.

O assinante da revista lê mais aqui.

Por Antonio Ribeiro

17/11/2009

às 17:30 \ Veja

“Obrigação de saber”

obrigacaodesaber2Dias depois do presidente Lula da Silva contar para um amigo confidente na RedeTV! que o mensalão — o maior show de corrupção da história do Brasil onde a estrela do PT brilhou como nunca — não passou de golpe da oposição, a organização Transparência Internacional (TI) divulgou sua famosa lista anual. O Brasil continua lá, quase na zona do rebaixamento, entre os países corruptos. O país recebeu 3,7 pontos, em uma escala da prática  da propina de 0 a 10. É uma nota vergonhosa para uma das maiores economias do mundo. Aliás, é uma nota vergonhosa para qualquer um. Embora tenha galgado 5 posições na percepção da TI, o país ainda navega em baixíssimo nível de honestidade. Se o Brasil fosse uma concessonária de carros usados, ele seria a 75º opção confiável para um consumidor comprar o seu veículo. No auge do mensalão, entrevistamos Peter Einger, criador da Transparência Internacional, para VEJA. A entrevista foi publicada na edição 1927, de 19 de outubro de 2005, reproduzimos abaixo para refrescar a mémoria.

Entrevista: Peter Eigen

“Obrigação de saber”

O criador da principal ONG de combate à corrupção diz que Lula o desapontou no campo da ética e que os brasileiros não  devem cair na tese de que ele nada sabia

Antonio Ribeiro, de Paris

O advogado alemão Peter Eigen, ex-diretor do Banco Mundial, fundou e preside há doze anos a Transparência Internacional, a principal organização não-governamental de combate à corrupção no mundo. Nesse período conseguiu o feito de incentivar a adoção de regras éticas mais estritas tanto de empresas quanto de governos. Em parte influenciada pela cruzada de Eigen, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que congrega as trinta maiores economias do mundo, tratou de criar uma convenção para tentar evitar o pagamento de propinas. Em dezembro próximo, será a vez da ONU de propor um suporte legal para indiciar suspeitos de corrupção em qualquer parte do mundo e recuperar fundos de origem ilícita depositados em contas secretas de paraísos fiscais. Nesta semana, a Transparência Internacional publica o seu já esperado índice anual de Percepção da Corrupção, com 159 países. O Brasil vem ocupando uma posição intermediária no ranking, atrás de cerca de cinqüenta países onde a corrupção é menos insidiosa.

Veja - O senhor rastreia a corrupção de governos pelo mundo há muitos anos. Já deparou antes com um caso como o brasileiro, em que um presidente é cercado de corruptos no partido, no alto escalão do governo e até na família, mas ele não sabe de nada?

Eigen - Muitas vezes os dirigentes não querem tomar conhecimento das sujeiras a seu redor. Assim imaginam escapar da culpa. O abuso desse escudo da impunidade levou o sistema judicial americano a evoluir para a noção da “obrigação de saber”. O chefe é responsável pela ação dos seus subordinados. Ponto.

Veja - O presidente Lula subscreveu um programa contra a corrupção elaborado pela Transparência Brasil e no governo ele e seu partido fizeram tudo ao contrário…

Eigen - Quando o presidente Lula foi eleito fiquei muito otimista. Os escândalos, no entanto, me deixaram muito desapontado. Como se diz, o poder corrompe, mas é preciso que se tenha em mente que nem todos se deixam corromper. Os brasileiros devem estar sempre céticos em relação às desculpas dadas pelos governos.

Veja – Nos últimos meses, jornalistas de VEJA trouxeram à luz diversos focos de corrupção oficial e, mais recentemente, revelaram a existência de uma máfia que fraudava jogos de futebol. O que se viu foi que no campo esportivo a denúncia surtiu efeitos depurativos imediatos, enquanto na política pouco ou nada aconteceu. Como o senhor explica isso?

Eigen - Os brasileiros estão habituados com o melhor futebol do mundo. Ele é razão de orgulho nacional. É perfeitamente natural querer preservá-lo. Em contrapartida, a expectativa a respeito da conduta dos políticos é muito baixa e não haveria nada a preservar. Seria prudente não se iludir, porém. Cada político corrupto equivale a um gol contra, uma vaga na escola pública que se sonega a uma criança, um tratamento de saúde a que um idoso doente não terá acesso. Se os políticos brasileiros contribuírem para resolver a atual crise de corrupção de forma digna, vão inscrever seus nomes na história. Os efeitos disso serão muito mais benéficos obviamente do que a conquista de uma Copa do Mundo.

Veja - Como o senhor define a corrupção?

Eigen - A corrupção é o uso indevido de um poder qualquer para obter ganhos em benefício próprio.

Veja – Os regimes democráticos são mais ou menos suscetíveis de sofrer com a corrupção?

Eigen – A corrupção é o maior obstáculo atual ao funcionamento das democracias. Ela provoca a desconfiança dos cidadãos no processo político. Se as pessoas descobrem que seus representantes submetem suas decisões a propinas ou favores, elas perdem convicção e interesse no jogo político. Democracia sem participação deixa de ter sentido como tal e os líderes perdem a legitimidade. Um ambiente corrupto exime as lideranças de prestar conta de seus atos, torna difícil para a polícia e a imprensa a investigação dos fatos, enquanto o sistema judicial favorece a impunidade. Tudo isso em óbvio prejuízo para o cidadão comum.

Veja - Onde há maior incidência de corrupção política?

Eigen - O fenômeno é global, mas nos países emergentes seus efeitos são ainda mais danosos. Uma pesquisa recente da Transparência Internacional revelou uma realidade terrível. Os políticos de 65 países, comparados com todas as outras profissões, são considerados as pessoas menos confiáveis na sociedade. Na Alemanha, o ex-chanceler Helmut Kohl se recusa a revelar a fonte de uma gigantesca contribuição financeira ao seu partido, o que constitui uma violação clara da lei de financiamento dos partidos políticos. O mau exemplo dos dirigentes age como um catalisador sobre as pessoas chancelando os atos ilícitos no dia-a-dia. Um cotidiano corrupto, por sua vez, impulsiona a corrupção oficial, dando continuidade ao ciclo. Em muitos lugares, as pesquisas mostram que os jovens estão se sentindo impotentes quando percebem que seus votos não têm força para mudar o rumo do seu país. Boa parte da violência aparece como resultado dessa situação. Nos países emergentes que até poucos anos atrás eram governados por ditaduras, os efeitos da corrupção são mais preocupantes.

Veja – Alguns economistas acham a corrupção inelutável e até admitem a existência dela de modo que a economia possa crescer. Isso tem fundamento?

Eigen - Essa é uma concepção equivocada. Durante 25 anos me debati no Banco Mundial para a corrupção ser considerada uma questão de primeira grandeza. Não consegui. Meus colegas achavam sua ocorrência normal como a alternância das estações climáticas. Por isso saí e fundei a Transparência Internacional. Hoje, o Banco Mundial reviu suas concepções e passou a encarar a corrupção como um desastre social e econômico. A corrupção desequilibra de forma perversa as concorrências econômicas saudáveis. Qualidade, baixo custo e bons serviços deixam de ser vitais quando um negócio pode ser decidido pelo valor das propinas. Isso é um forte inibidor da produtividade. Obviamente muitas empresas imaginam que, se não corromperem, vão ficar fora do jogo econômico. Mas essa visão é ruinosa. A corrupção destrói a riqueza e todos perdem. O capital obtido pela exploração dos recursos naturais dos países, um patrimônio de todos, é drenado para o bolso de alguns poucos. A Nigéria, o 12º maior produtor de petróleo, poderia ser um dos países mais ricos do mundo. Não é. O que se tem é um país em que 130 milhões de nigerianos vivem na miséria, enquanto o regime do ditador Sani Abacha foi acusado de ter estocado 4 bilhões de dólares em contas na Suíça. Na Indonésia, a família Suharto fez coisa parecida a ponto de os indonésios considerarem a descoberta de petróleo um castigo, e não um caminho para a prosperidade. Salvo a Noruega, todos os países produtores de gás natural e de petróleo têm alto grau de corrupção.

Veja - Que benefícios aparecem mais rapidamente quando um país consegue controlar a corrupção?

Eigen - Um exemplo é a Itália. Lá a normalização ética derrubou dramaticamente os preços das obras públicas, facilitando a modernização do país. O mesmo efeito pode ser esperado nos países em desenvolvimento. Quantos hospitais mais poderiam ser construídos com o mesmo dinheiro se a roubalheira fosse interrompida? Quantas vidas poderiam ser salvas? Não hesito em dizer que a corrupção é o principal motivo da miséria na América Latina, na Ásia e na África. Não faltam recursos para erradicar a miséria nessas regiões. Falta evitar que eles sejam desviados.

Veja – Está ficando mais fácil detectar e conter a corrupção?

Eigen - Até bem pouco tempo atrás, empresas européias podiam deduzir do imposto o suborno feito em países para onde exportavam. Criticamos duramente essa prática. Ela foi proibida em maio de 1999. Se um alemão for pego subornando alguém em Brasília, ele será punido pelas leis alemãs como se tivesse cometido o crime em Berlim ou Hamburgo. Na era digital e da cooperação judicial multilateral, esconder corrupção equivale a colocar gato debaixo do tapete. Cedo ou tarde, o bicho derruba o dono.

Veja - Determinadas culturas e povos são mais lenientes com a corrupção do que outros?

Eigen – Em algumas culturas as cortesias e a troca de presentes fazem parte do cotidiano. Mas corrupção não é isso. Nenhuma cultura aceita que apenas alguns poucos enriqueçam desonestamente. Não há relativismo para o roubo. Ele é condenado em qualquer cultura, religião ou código.

Veja - O exame de edições sucessivas do Índice de Percepções de Corrupção mostra um padrão. Os países escandinavos são vistos como ilhas de integridade, enquanto a corrupção é mais fortemente percebida no Hemisfério Sul. Qual é a explicação?

Eigen - A questão não é geográfica. Os países escandinavos são vistos como sendo mais honestos se comparados com Rússia, Canadá e França, países do norte. Hong Kong tem muito melhor desempenho que a China e Taiwan, e todos têm o mesmo povo, religião e cultura. Cingapura é um país do sul muito bem posicionado, embora no Índice de Pagamento de Propinas, outra pesquisa nossa, vá muito mal. Se eu tivesse de investir em um projeto escolheria Botsuana e não colocaria um tostão no Zimbábue. Apesar de ocuparem posições muito distantes no índice, ambos estão localizados na África Subsaariana, são países vizinhos com população, superfície e clima semelhantes.

Veja - Muitas vezes, em países em que as pessoas têm uma férrea ética pessoal, prosperam máfias empresariais, casos do Japão e da Coréia do Sul. Como explicar essa situação?

Eigen - Persuadir empresas e seus acionistas de que a extorsão trará má reputação e, a termo, inevitáveis prejuízos não é uma tarefa fácil. Leva-se anos, às vezes décadas, de conscientização até que mudanças substanciais possam ser detectadas. Na Coréia do Sul, o governo criou leis rigorosas anticorrupção e tem tido bom desempenho no seu cumprimento. A Justiça é implacável com todos. Um presidente e um primeiro-ministro, acusados de corrupção, foram presos. Não foi por acaso que o diretor da Transparência na Coréia do Sul foi alçado ao cargo de primeiro-ministro do país. Quando ele era prefeito de Seul, introduziu um sistema anticorrupção, apoiando-se numa base de dados informatizada. A experiência tornou-se modelo no mundo. Ainda não conseguimos esse mesmo grau de eficiência no Japão.

Veja – O que efetivamente inibe a corrupção?

Eigen – Uma estrutura que chamo de Sistema de Integridade. Sua forma é semelhante à de um templo grego, em que uma cobertura é escorada por pilares. Se um ruir, os outros permanecerão firmes até a reparação daquele que falhou. Esses pilares são um Poder Executivo a salvo de interesses menores, um Parlamento representativo e um Judiciário independente. Os outros sustentáculos são uma imprensa livre e com acesso à informação e o exercício da liberdade de expressão. Deve existir também uma auditoria pública transparente, e as CPIs precisam ter poderes para questionar altos dirigentes do setor público e privado. Se você somar a esse cenário um serviço público ético e empresas privadas competitivas, terá um país com enorme chance de vencer a corrupção. Um Sistema de Integridade como o descrito acima promove o desenvolvimento sustentado, o estado de direito e aumenta a qualidade de vida das pessoas.

Veja – Uma dose de vergonha ajuda?

Eigen – Certamente não atrapalha. Eu sou pessoalmente motivado por valores morais. Já a Transparência atua numa diversidade mundial. Por uma questão estratégica, ela deve se basear em argumentos técnicos. Estamos presentes em noventa países, e, se algum dos nossos associados achar ser eficaz evocar valores éticos locais para combater a corrupção, apoiaremos sem restrição.

Veja – Além de ser uma virtude, qual é a vantagem intrínseca de ser honesto?

Eigen - Para o indivíduo é isso mesmo, uma virtude. Para um país, contar com homens públicos honestos é uma garantia de que o interesse nacional estará mais próximo de ser atendido. As decisões de um ministro da Economia íntegro não servem aos interesses de quem suborna e, assim, o ministro pode focar toda a sua energia no desempenho da economia. Os resultados positivos vão se refletir no crescimento do país e no aumento do bem-estar dos cidadãos. Esconder coisa malfeita dá muito trabalho. A suspeita produz obstáculos ao desempenho de uma pessoa qualquer, de um empresário, profissional ou de um homem público. A corrupção é contraproducente para todos, pois transforma as relações pessoais e profissionais em desastres.

Por Antonio Ribeiro

23/10/2009

às 5:28 \ Veja

Courrier Internacional destaca e reproduz o blog De Paris

O Courrier International, um dos mais importantes semanários franceses,  traduziu e publicou na íntegra com destaque um post do blog De Paris para sua reportagem de capa. Trata-se do texto que foi ao ar no domingo, dia 18 de outubro, Reação a nepotismo nos cargos públicos. França igual ao Brasil. É ruim, hein? Ele aborda a reação dos brasileiros e franceses sobre o nepotismo nos cargos públicos.

Ontem, Jean Sarkozy, filho do Presidente da França, Nicolas Sarkozy, renunciou postular a presidência do EPAD, confirmando o que escrevemos. Contrário à maioria dos brasileiros, os franceses acreditam nas suas instituições democráticas e  no poder de influenciar o destino do seu país.

É pouco frequente que um texto na internet vá para as páginas do jornalismo impresso. Normalmente, acontece o inverso. Ainda mais raro é um texto de blog brasileiro ir para as páginas de uma revista francesa. Isto redobra nosso entusiasmo em continuar a escrever neste espaço para você, o leitor. Vamos em frente.

Courrier International, edição 990, página 34.

Courrier International, edição 990, 22 a 28 de outubro de 2009, página 34.

Por Antonio Ribeiro

03/10/2009

às 6:46 \ Veja

Bela capa

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Por Antonio Ribeiro

01/08/2009

às 4:29 \ Veja

A Cielo o que é de César

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3x8k6rciy2O brazuca de ouro César Cielo Filho entrou para o Olímpo do esporte quebrando o recorde da prova mais nobre da natação. Ele é a capa de VEJA desta semana. Personagem central de uma primorosa reportagem que contextualiza  o esporte na história, na ciência e na tecnologia. Não podia ser diferente. O texto leva a assinatura de Fábio Altman, veterano em coberturas dos Jogos Olímpicos, Copas do Mundo e de tantos desafios nem sempre esportivos. Fabinho, Fabião, o Fabius, dos tempos em que foi correspondente da revista em Paris, está de volta à redação de VEJA. Retornou com o pé direito, embora tenha confidenciado ao amigo: “Não sei nem mais onde é o banheiro aqui.” A arquitetura das revistas obedecem a geometria variável – a editoria de Geral, como era chamada nos tempos que Fabio a comandou, tem hoje dezenas de subdivisões. A forma olímpica de Altman, no entanto, continua intacta. A prova está nas páginas.

Por Antonio Ribeiro

16/11/2008

às 14:11 \ Veja

EXCLUSIVO: Mikhail Gorbachev fala à VEJA


Entrevista Mikhail Gorbachev

POR UMA GLASNOST GLOBAL

O último presidente soviético ensaia seu retorno à política
russa – desta vez, na oposição – e diz que o mundo todo sofre de um déficit de
lideranças

Antonio Ribeiro, de Paris

A Biblioteca do Congresso americano, a maior do mundo, dispõe de mais de 250 livros sobre a vida e a obra de Mikhail Sergeyevich Gorbachev. A abundância de títulos reflete o fascínio despertado pelo estadista que desempenhou papel central no fim da Guerra Fria e no colapso do comunismo. Sexto e último dos sucessores de Lenin, Gorbachev governou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas entre 1985 e 1991, quando o império comunista desmoronou. Ao assumir o poder, tinha como principais objetivos ressuscitar a economia e revitalizar o regime soviético. Esses esforços foram sintetizados em dois programas de reforma: a glasnost (transparência), que permitiu maior liberdade de expressão, e a perestroika (reestruturação), a tentativa de modernizar o sistema econômico. Sobretudo por ter posto fim ao domínio soviético na Europa Ocidental, Gorbachev ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 1990. Desde que perdeu o poder, ele se dedica a causas sociais e ecológicas. Logo após a Eco 92, fundou a Cruz Verde Internacional, organização ambientalista com representação em mais de trinta países, incluindo o Brasil. No momento, ele prepara sua volta à política. Dois meses atrás anunciou a criação, em parceria com o bilionário Alexander Lebedev, do Partido DemocráticoIndependente, agremiação de oposição. Aos 77 anos, Mikhail Gorbachev será a estrela de um ciclo de palestras sobre sustentabilidade, promovido pela Cruz Verde Internacional em Belo Horizonte, entre 26 e 28 de novembro.

Trechos:

A democracia é tanto um valor quanto um instrumento político. Como valor, é universal. Como instrumento, deve ser ajustada a cada país. Há uma versão americana, uma francesa e outra japonesa. A Rússia precisa desenvolver seu próprio modelo de
democracia

Raísa foi parte de minha vida, se não minha própria vida, por quase cinqüenta anos. Hoje, sinto falta do sentimento de apoio e compreensão que tive enquanto estivemos juntos. Reitero o dogma cristão de que ‘é o amor que conduz a vida’ na Terra.

O assinante de VEJA lê a integra da entrevista aqui.

Por Antonio Ribeiro

24/08/2008

às 18:51 \ Veja

13 Jours en France (13 Dias na França)

Carlos Maranhão, enviado especial de VEJA aos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, faz a despedida da coluna Diário da China, mencionando a música 13 Jours en France (13 dias na França). Trata-se da trilha sonora do documentário sobre as Olimpíadas de Inverno de Grenoble, em fevereiro de 1968. Dois meses antes da revolta dos estudantes em Paris. Ele foi realizado por Guy Gilles junto com famoso diretor francês Claude Lelouch (Um Homem e uma Mulher). A memória prodigiosa de Don Carlos, diretor de redação das revistas VEJA São Paulo e VEJA Rio, traz de volta uma canção belíssima. Ouça 13 Jours en France pela harmônica do gaitista chinês Rudy Hung, aqui.

Hung entoa, em seguida, a trilha do musical Guarda-chuvas do Amor (1964), de Jacques Demy. O filme com a terna Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo emocionou uma geração e envelheceu muito bem. O musical conta a história do jovem mecânico Guy Foucher, apaixonado por Geneviève Emery, uma bela garota, de 17 anos, mas tem que deixá-la para servir na Guerra de Independência da Argélia, em 1957. Grávida, só, Geneviève acaba cedendo às pressões da mãe viúva: aceita outro pretendente. Veja a cena onde Deneuve e Castelnuovo interpretam a canção de Michel Legrand aqui.

Por Antonio Ribeiro

08/08/2008

às 10:12 \ Veja

China: Em algum lugar do passado


A pobreza milenar continua no campo; a modernidade esvaziou aldeias, trouxe poluição e disputas por terras. O milagre chinês tem de aproximar 800 milhões de uma vida melhor

Na história da raça humana, a criação de riquezas descreve uma curva equivalente à trajetória de um Jumbo em decolagem. O início é lento, laborioso, rente ao solo até ganhar velocidade e rumar para o alto, impulsionado por confluências benignas. Durante as duas últimas décadas, o espetacular crescimento econômico da China está traçando uma linha ascendente mais parecida com a de um foguete do que com a de um Jumbão. Lá vai o foguete do progresso chinês. Por enquanto, ele deixa a ver navios cerca de 800 milhões de habitantes da zona rural. Ou seja, seis em cada dez chineses não estão a bordo do expresso do futuro. Longe dos cenários dignos de ficção científica das metrópoles chinesas às margens do Pacífico, a pobreza domina a planície aluvial, as cadeias de montanhas e o além delas, o Gobi, deserto maior e mais quente a cada virada de estação climática.

É uma área continental, descrita a VEJA como “a imensa favela do meu país” por Qin Lui, especialista em história agrária da China e professor das universidades de Pequim e Harvard. Nenhuma nação moderna prosperou de modo sustentado deixando para trás, a comer poeira, a maioria de seu povo. A China não será exceção. Esse é hoje o continental dilema do espetacular fenômeno chinês. A geração de riquezas na cidade não está ajudando a erradicar a milenar pobreza do campo chinês. Em alguns casos está criando um quadro ainda mais iníquo. Os chineses do campo são cidadãos de segunda classe. O governo os mantém assim, deliberadamente podando seus parcos direitos, de modo a controlá-los melhor. O temor de uma explosão social no campo é hoje a preocupação central do governo – e, como tudo no gigantesco país, um problema com potenciais repercussões mundiais.

Li Wan Jin, 65 anos, pertence a esse mundo lunar, fora do resplandecente universo econômico chinês. Um oitavo da população do planeta está empenhado em retirar de uma área do tamanho do Centro-Oeste brasileiro pouco mais de 1 dólar por dia. Um formigueiro humano. No cerrado brasileiro, cada sete habitantes dispõem do espaço de 1 quilômetro quadrado. Na zona rural chinesa, 590 pares de braços se debruçam sobre o mesmo quilômetro quadrado para arrancar seu sustento da terra. Essa equação produz tensão e desesperança. Para que houvesse um mínimo de equilíbrio, o campo chinês deveria ter produtividade 84 vezes maior que a do cerrado brasileiro. Ocorre justamente o contrário. Enquanto a tecnologia e a mecanização fizeram do cerrado a região agrícola mais produtiva do mundo, o chinês continua puxando arado.

Li Wan Jin é um dos milhões de chineses para quem doença grave significa insolvência ou morte – não há seguro-saúde nem aposentadoria no campo. Ele tem 65 anos, gosta de jogar mahjong e mora numa área onde os jovens são raridade, atraídos pela promessa das cidades. Sua plantação é pouco maior que um campo de futebol. Ali a família cultiva cada palmo e, muitas vezes, aduba o solo com os próprios dejetos. Consegue se sustentar, mas vive sob o medo de perder tudo. A terra pertence ao Estado e muda de destinação sempre que surge um empreendimento imobiliário ou a necessidade de criação de uma zona industrial. A ordem vem de cima. A execução é brutal e inquestionável. O burocrata local cumpre a diretiva, se preciso com a ajuda do Exército. Os Li Wan Jin somem do mapa local. Dependendo da indenização, compram um apartamentozinho na cidade, trampolim real ou imaginário para uma vida melhor. Quando dão azar, somam-se à pobreza urbana.

No início dos anos 80, o líder comunista chinês Deng Xiaoping, nanico com visão de gigante, mandou fracionar as ineficientes comunas agrícolas, transformando-as em quinhões familiares. O trabalhador rural foi autorizado a vender seus produtos a preços de mercado. A renda no campo quadruplicou. A máxima de Deng era não mais se importar com a cor do gato, mas com a destreza do bichano em pegar os ratos. No ano passado, enquanto o gato da roça agarrou seu rato mirrado, as garras do felino urbano capturaram três de um só golpe. A renda per capita rural não saiu dos 400 dólares por ano. O crescente dinamismo urbano gerou riquezas, e a renda hoje nas cidades está em torno de 1 300 dólares. A tendência da desigualdade de ganhos é aumentar, tanto pela aceleração da produção de riqueza urbana quanto pela depauperação crescente da “grande favela” rural chinesa.

Sem o fragor do recrutamento forçado dos camponeses liderados por Mao, o início da epopéia sangrenta genitora da República Popular da China, 400 milhões de chineses – mais que o dobro da população brasileira – migraram do campo para as cidades, onde há fartura de empregos. Foi o maior movimento populacional pacífico da história. Centenas de milhões ainda são como Du Zhen Lei, 43 anos. Ele ficou para trás, mas tem planos definidos: “Meu filho não será camponês, ele vai estudar informática na cidade”, diz, com os olhos fixos no horizonte. O êxodo rural só não se transforma em estouro de boiada porque a China ainda é uma ditadura comunista. O grilhão administrativo no caso chama-se sistema hukou. Por tal sistema, todo chinês deve residir e trabalhar onde nasceu. A mudança exige permissão do mandarim de plantão. Quem viola a regra se arrisca a sofrer punições severas, e a mais óbvia e dolorosa delas é a perda da terra. Mas arriscar é da natureza do homem. Estima-se entre 150 e 200 milhões o número de migrantes “ilegais” nas cidades chinesas. Empregados nas cidades, os ilegais cuidam de mandar dinheiro para a família no campo. No ano passado, os migrantes enviaram um total de 45 bilhões de dólares aos parentes na zona rural. Isso equivale a 52 dólares para cada um, quase um 13º salário, dinheiro que vai quebrar muitos galhos. É pouco? Sim. Mas corresponde a toda a ajuda oficial do governo chinês para o campo em 2006. De olho nas remessas dos ilegais, onze das 23 províncias chinesas começam, gradualmente, a relaxar a restrição do ir-e-vir.

Quando não é o campo que sonha com a cidade, é esta que avança sobre aquele. Li Yi Yue, 58 anos, e suas ovelhas logo terão novos vizinhos. Adjacente ao seu pastinho de capim ralo está sendo erguido, em ritmo frenético, um conjunto de apartamentos com vasta área de lazer para os empregados da China National Petroleum. A empresa negociou a compra da área com a administração municipal de Zhuozhou. Os 1 000 camponeses deslocados ganharam uma indenização de 342 dólares por acre, mas ficaram furiosos quando descobriram que os chefetes locais retiveram parte do dinheiro com a justificativa de “previsão de gastos com urbanização”. Os mais destemidos tentaram fazer barricadas para impedir a chegada do comboio de britadeiras que daria início às obras. Em vão. Na sala privada de um restaurante, entre um gole e outro da sopa fumegante, um comerciante local de 31 anos, nome reservado a pedido, conta a VEJA a cena a que assistiu. “Às 10 horas da manhã, uma tropa de soldados enfezados chegou distribuindo sopapos. Levou presa uma dezena de camponeses. Na calada da mesma noite, os soldados foram de porta em porta no distrito de Zhaoge. Prenderam o resto, cujas famílias, além de terem perdido a terra, tiveram os móveis da casa e os utensílios de cozinha quebrados.” Não se fala mais nisso em Zhuozhou.

A contenda ali não é a investida do mal (o progresso) sobre o bem (o miserável mas milenarmente sustentável modo de vida rural). No fundo tem-se a noção de que a chegada do progresso à zona rural vai melhorar a vida de todos. Mas essas coisas não ocorrem sem que genuínos e dolorosos dramas pessoais se desenrolem. Um vale da Califórnia, nos Estados Unidos, antes coberto de milharais, hoje abriga o epicentro da criatividade tecnológica mundial e o melhor índice de qualidade de vida do planeta. O chinês do campo anseia pelo progresso há séculos. Inveja os compatriotas da cidade que já o usufruem. Vive, porém, submetido às vontades do comunista de plantão, que desafia até o poder central. Um exemplo: o mandarim rural paga ao camponês menos de 5% do valor real da terra que interessa a projetos residenciais ou industriais e negocia o bem espoliado com base no valor de mercado. O agricultor não tem a quem recorrer, mas pode espernear – no ano passado, houve 87 000 “distúrbios públicos” decorrentes dos confiscos de terra, segundo dados do governo, famosamente obcecado por estatísticas. A medida mais transformadora seria dar títulos de propriedade aos camponeses. “A transferência da posse das moradias do Estado para os habitantes das cidades foi um dos maiores sucessos do novo modelo econômico chinês, não há razão para ser diferente no campo”, diz o economista Li Shi, autor do estudo que lançou o debate sobre a desigualdade de renda na China.

Numa breve pausa no intenso tráfego de caminhões transportando carvão mineral, a poeira se dissipa na estrada de Mentougou. Surge um colorido cortejo. É o enterro de Li Jing Cang, 57 anos. A terceira morte de câncer de estômago, em um mês, no distrito de Kun Ying Gu. “A água contaminada está nos matando, e Li Jing Cang interrompeu a quimioterapia porque não conseguia pagar o tratamento”, diz um amigo do morto. As indústrias pesadas depositam, diariamente, toneladas de material tóxico em rios, canais e reservatórios de água da região. Forçadas a deixar as cidades, as indústrias poluidoras vão se instalar no campo, onde os mandarins locais, desesperados para gerar empregos e aumentar a receita de impostos, abrandam a legislação ambiental, quando não fazem vista grossa, em troca de propina felpuda, à degradação. O retrato de quem um dia der títulos de posse, privatizar e modernizar o campo tem grande chance de ir para a parede dos bares rurais como o líder da próxima grande revolução chinesa.

Por Antonio Ribeiro


 

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