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Arquivo da categoria Religião

18/03/2009

às 18:28 \ Religião

Toda fotografia que requer legenda longa é infeliz

Nas suas edições de hoje, dois jornalecos (vamos chama-los de The New York Times e Le Monde) publicaram editoriais criticando a declaração do papa Bento XVI sobre os preservativos. Ambos dizem que a Igreja Católica tem legítimo direito de defender seus dogmas — escrevemos aqui o mesmo, 24 horas antes, sem esperar a chancela do jornal americano e do vespertino francês. A trapaça, no entanto, como eles também dizem, está na afirmação mentirosa do papa Bento XVI de que a camisinha contribui para disseminação da AIDS. Afirmação que espanta cientistas, especialistas na questão e, diga-se de passagem, destempera os mal intencionados.

Este blogueiro tem um método de leitura muito simples. Se nos primeiros parágrafos o autor do texto se mostra menos inteligente que o leitor, interrompemos a leitura. Mas não somos tão severos assim, damos uma segunda chance. Vamos lá no final do texto para ver se sobrou alguma conclusão do arrazoado. Se o autor, depois muita verborragia — a brevidade e concisão é uma arte —, admite ter abraçado mais uma causa perdida, fazemos uma reverência e seguimos em frente. Não há tempo para perder, existe tanta coisa interessante para ler.

Por Antonio Ribeiro

18/03/2009

às 7:58 \ Religião

A desonestidade intelectual de Bento XVI


O mundo tem uma população de 70 milhões de aidéticos, dois terços deles vivem na África, entre os quais 2,8 são indivíduos com menos de 14 anos cuja metade morre sem receber tratamento. No horizonte do ano 2010, estima-se que 36 milhões de africanos estarão contaminados pelo vírus da AIDS — mais da soma dos habitantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Do ponto de vista teológico, é legítimo a Igreja Católica aconselhar a abstinência sexual — inexistente até em conventos —, o casamento cristão e a fidelidade para lutar contra a epidemia letal. Embora anacrônica e de comprovada ineficiência, a posição da Igreja merece o que vem recebendo no seu interior e fora dela, a descrença. O problema é de outra ordem.

Antes mesmo de pousar em Iondé, capital dos Camarões, iniciando sua primeira visita a África que inclui escala em Angola, o papa Bento XVI declarou que o uso dos preservativos — a primeira vez que um pontífice descarta o termo contraceptivo — agrava a situação da AIDS. Noves fora a afirmação do secretário da Educação do governo Ronald Reagan, William Bennett, de que o uso de preservativos era maior nas comunidades infectadas, não há nenhum estudo epidemiológico que sustenta os preservativos como algo que ajuda propagar a AIDS. Na verdade, o postulado consiste em uma desonestidade intelectual. A falácia que tenta persuadir pela existência de mais leitos hospitalares, a maior incidência de doenças. Equivale dizer que o mosquiteiro dissemina a malária. Bento XVI tenta vender a idéia que o uso do preservativo tira a responsabilidade do individuo. Ou seja, ele não sente-se na obrigação de conter, controlar sua sexualidade. Pura enganação. Equivale dizer que o cinto de segurança nos carros dá mais ímpeto aos motoristas para pisar fundo no acelerador.

O Centers for Disease Control and Prevention afirma haver “compreensiva e conclusiva” evidência de que os preservativos de latex, quando usados de forma consistente e correta são altamente eficazes na prevenção da transmissão do vírus da AIDS. Estudos do respeitável Cochrane Collaboration concluíram que os preservativos podem reduzir em até 80% a transmissão da AIDS.

Reparem, o problema não é ser tradicionalista ou progressista. Isto é uma bobagem. Cada um escolhe ser o que bem entende. Nem tampouco questionar valores morais. A Igreja é o que é devido aos seus fundamentos. A questão é distorcer dados científicos e, ainda mais grave, numa situação extremamente delicada.

A eleição de Bento XVI foi saudada como a chegada de um intelectual no comando da Igreja. No entanto, a sabedoria tem se revelado, muitas vezes, adições de mais mal ao mal. Professor de teologia, dogmático e tradicionalista, Bento XVI não é diplomata nem homem de comunicação. Com frequência o papa mostra-se naive em política, comete gafes que o obriga, como na semana passada e primeira vez na história pontifical, publicar uma carta para colar os cacos causados pela falta de perícia. Depois do perdão ao bispo britânico Richard Williamson que nega o Holocausto e a excomunhão da equipe médica que praticou o aborto na menina pernambucana de 9 anos e 35 quilos, grávida de gêmeos, depois de ser estuprada pelo padrasto, a Igreja Católica não precisava de mais um tropeço. A declaração sobre os preservativos lembra os tempos em que a Igreja condenava a batata como diabólica porque crescia debaixo da terra.

Por Antonio Ribeiro

17/03/2009

às 9:44 \ Religião

Bento XVI: “A distribuição de preservativos agrava o problema.”

A falsa ciência gera ateus; a verdadeira ciência leva os homens a se curvar diante da divindade” – Voltaire

O papa Bento XVI inicia hoje uma viagem de 6 dias à África, a primeira do seu pontificado em continente onde são registrados o maior número de casos de AIDS no mundo – 33 milhões de contaminados e previsão de 36 milhões em 2015, segundo o Global HIV Prevention Working Group.  Na África, vivem 158 milhões de católicos – um em cada seis fiéis da religião cujo papa é autoridade suprema são de origem africana. No avião que o leva aos Camarões, Bento XVI descreveu a AIDS como “epidemia cruel que não só mata, mas coloca em risco a economia e estabilidade social” do continente mais pobre do planeta. Ele é contra o uso de preservativos. “A distribuição de preservativos agrava o problema”, disse Bento XVI. Para o papa, apenas “os ensinamentos tradicionais da Igreja provaram ser capazes de prevenir a disseminação da AIDS. Ou seja, o casamento cristão, a fidelidade e a castidade.

Por Antonio Ribeiro

15/03/2009

às 6:39 \ Religião

“São outros que merecem a excomunhão”

Em artigo no Osservatore Romano, jornal do Vaticano, o presidente da Academia Pontifícia para a Vida, o cardeal Rino Fisichella, um dos mais próximos conselheiros do papa Bento XVI, escreve sobre o anúncio de excomunhão da equipe médica que praticou o aborto na menina pernambucana de 9 anos e 35 quilos, grávida de gêmeos, depois de ser estuprada pelo padrasto. “São outros que merecem a excomunhão e nosso perdão, não os que lhe permitiram viver e a ajudarão a recuperar a esperança e a confiança, apesar da presença do mal e da maldade de muitos”, diz ele.

O cardeal Fisichela maior autoridade eclesiástica em bioética diz que o Arcebispo Metropolitano de Recife e Olinda, dom José Cardoso Sobrinho (entrevistado da jornalista Juliana Linhares na edição de  VEJA esta semana), colocou em risco a credibilidade da Igreja. “Era mais urgente salvaguardar a vida inocente e trazê-la para um nível de humanidade, coisa em que nós, homens de igreja, devemos ser mestres. Assim não foi e infelizmente a credibilidade de nosso ensinamento está em risco, pois parece insensível e sem misericórdia.”

Segundo o cardeal, a equipe médica merece respeito por agir de forma profissional em uma situação delicada: “É uma decisão difícil para os médicos e para a própria lei moral. Não é possível dar parecer negativo sem considerar que a escolha de salvar uma vida, sabendo que se coloca em risco uma outra, nunca é fácil. Ninguém chega a uma decisão dessas facilmente, é injusto e ofensivo somente pensar nisso.”

Nos escrevemos aqui que a questão médica precedia o debate sobre o aborto. Uma sociedade que caminha na precipitação de uma indignação à outra sem dar o devido tempo para reflexão corre o risco de se enganar com frequência. Foi o caso da advogada Paula Oliveira, seguiu a excomunhão da equipe médica. A bola da vez é a história triste do menino Sean Ribeiro Goldman.

Por Antonio Ribeiro

09/03/2009

às 18:53 \ Religião

Máquina de lavar fez mais por mulher que a pílula, diz jornal do Vaticano


L’Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, finalmente entrou na era da informação de serviços. Na sua edição do dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, um artigo pouco usual nas páginas do jornal político religioso, louva a máquina de lavar roupas. Segundo o Osservatore, o aparelho doméstico criado na Alemanha em 1767 fez mais pela mulher no século XX do que a pílula anticoncepcional ou o acesso ao mercado de trabalho. O título da reportagem foi o seguinte: “A Maquina de lavar e a liberação das mulheres — ponha detergente, feche a tampa e relaxe.” Lavar roupa é um trabalho duro e antigamente, a missão recaia inteiramente na mulher, mas é notável como o pessoal anda com a sensibilidade de paquiderme.

As declarações e excomunhões do Arcebispo Metropolitano de Recife e Olinda, Dom José Cardoso Sobrinho, sobre o estupro e aborto da menina de 9 anos de idade e com 35 quilos configuram um despautério. Os médicos constataram que o útero da progenitora não era suficiente desenvolvido para a concepção, menos ainda para dar luz a gêmeos — é, no mínimo, inconsequente deixar a gravidez seguir para ver no que vai dar, simplesmente porque a Igreja é contrária ao aborto. A análise da informação médica precede a discussão sobre o aborto. Isso posto, faz sentido algum a histeria sobre perseguição anti-clerical, embora haja quem aproveite a triste situação para fazer proselitismo. O tato de certos Guardiões do Templo tem sido desastroso tanto para fieis quanto para a Igreja.

Por Antonio Ribeiro

22/06/2005

às 0:00 \ Religião

“O Islã é fascista”

“Nada diferencia um fanático cristão ou judeu de um fanático muçulmano.
Na prática, eles se sentem mais à vontade no Islã”

 

VEJA – Edição 1910. 22 de junho de 2005

Entrevista: Ayaan Hirsi Ali

Ameaçada de morte por fanáticos, a política holandesa diz que qualquer sociedade que vive sob os preceitos do Corão se torna patológica

Por Antonio Ribeiro, de Paris

Após descarregar toda a munição da pistola no cineasta Theo van Gogh, o fundamentalista islâmico Mohammed Bouyeri aproximou-se da vítima. Ajoelhado numa rua de Amsterdã, Van Gogh murmurou: “Tem certeza de que não podemos conversar?”. O assassino cortou-lhe a jugular com uma faca de açougueiro e, com outra, espetou no cadáver uma carta endereçada à holandesa de origem somali Ayaan Hirsi Ali: “A próxima será você”. Ayaan é parlamentar em seu país e roteirista de Submissão – Parte I, o curta-metragem de Van Gogh sobre a repressão sofrida pelas mulheres no Islã. Esse é um assunto que ela conhece bem. Aos 5 anos, sofreu excisão do clitóris. Aos 22, fugiu de um casamento arranjado com o primo pelo pai. Refugiada na Holanda, trabalhou como tradutora nos centros sociais para imigrantes e foi brilhante universitária de ciências políticas. Na semana passada, sete meses depois da ameaça de morte, Ayaan, uma negra longilínea de 35 anos, desceu de um carro blindado numa ruela de Paris. Escoltada por seis guarda-costas, falou com exclusividade a VEJA sobre sua renúncia ao islamismo, sobre fundamentalismo e sobre seu encontro com outra célebre vítima da violência religiosa, o escritor britânico Salman Rushdie.

Veja – Por que seus inimigos preferem a ameaça de morte ao debate de idéias?

Ayaan – A razão é simples: eles não têm nenhum argumento lógico para opor aos meus. Usam o instrumento dos perdedores, a intimidação. Num debate, eles sabem de antemão que seriam derrotados. O assassinato bárbaro de Theo van Gogh pretendeu mostrar o fim de quem ousa criticar o Islã. Enganaram-se. A dor da perda reforçou minha certeza. Essa gente deve ser confrontada. A tarefa dispensa o medo da controvérsia. O combate contra eles começa com a palavra.

Veja – Qual é o problema com o Islã?

Ayaan – O problema é o Corão e o profeta Maomé. É a mensagem à qual está sujeito 1,2 bilhão de indivíduos no mundo. O Islã não é só uma religião, mas uma civilização. Seu aspecto político e social, regido por códigos severos, contém sementes fascistas. É um sistema que espolia as liberdades do indivíduo e intervém na sua privacidade sem admitir ser contestado. Nenhum muçulmano é livre para questionar a sua crença religiosa. Ao contrário da Bíblia e do Talmude, livros sagrados dos monoteísmos abraâmicos semelhantes ao islamismo, qualquer exegese do Corão é inadmissível. Os muçulmanos devem crer, cegamente. Eu aprendi a decorar o Corão desde a infância, posso recitar suras inteiras. Algumas delas servem para justificar a violência, liberar a consciência dos seus autores e também dos observadores passivos. Segundo o livro sagrado do islamismo, os fiéis devem aspirar, em permanência, ao conhecimento. O mesmo livro diz que Alá sabe tudo. Toda fonte de conhecimento está contida no Corão. Pergunto, como conciliar as duas exigências? Qualquer comunidade que vive segundo os preceitos de Maomé e do Corão torna-se patológica.

Veja – Numa entrevista, a senhora qualificou o profeta Maomé de tirano e perverso. Por que pensa assim?

Ayaan – Disse isso e não nego, nem me arrependo. O calendário marca o ano de 2005, mas os fundamentalistas islâmicos exigem dos muçulmanos imitação perfeita de um comportamento tribal de 2.000 anos atrás. Maomé, o guia infalível, disse haver uma só verdade, e em seu nome revogou toda liberdade. Era um tirano, sim. Maomé seduziu e violou Zainab, a mulher de um pupilo. Isso não é perverso? Permita-me ir além. O profeta casou-se com Aisha, uma menina de 9 anos, filha do seu melhor amigo. Ele não esperou nem a criança atingir a puberdade, apesar da súplica paterna, para pedir a sua mão em casamento. Aisha foi prometida aos 6 anos de idade. Hoje no Irã, casamentos desse tipo são perfeitamente legais, freqüentes. Alguns muçulmanos reivindicam poder emular, sem entraves, esse modelo de moralidade. Trata-se de pedofilia pura. Na Holanda, Maomé seria levado pela polícia às barras de um tribunal.

Veja – Qual a diferença entre os fundamentalistas das diversas religiões?

Ayaan – Em teoria, nada diferencia um fanático cristão ou judeu de um fanático muçulmano. Na prática, eles se sentem mais à vontade no Islã.

Veja – Por quê?

Ayaan – Além de encontrar justificativa religiosa farta, a crítica dos membros de sua própria crença é quase nula. Quando o papa se posiciona contra o uso de contraceptivos, católicos do mundo inteiro contestam sem sofrer represálias. A cantora Madonna desperta antipatia em puritanos com a canção Like a Prayer, mas sua cabeça não está a prêmio. Ninguém degolou os humoristas do Monty Python por ter realizado o filme A Vida de Brian, uma sátira sobre Jesus Cristo exibida no mundo todo. Esse espaço de tolerância não existe no mapa do Islã, mesmo que muito almejado em silêncio. O Islã está como o pai do terrorista Mohamed Atta depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Traumatizado, desamparado, cego. “Meu filho não tem nada a ver com isso. Foi obra da CIA, dos judeus!” O pai não se deu conta da parte maléfica do filho. Recuso que uma religião, outrora pacífica, plena de força e energia, tenha no seu âmago o fanatismo e a violência.

Veja – Como a senhora descreve a situação das mulheres no Islã?

Ayaan – Numa cena do curta-metragem Submissão – Parte I, a câmera mostra o corpo da personagem Zainab, espancada pelo marido. Zainab está coberta por hematomas, feridas, cicatrizes e pelos versos do Corão que autorizam o marido a bater, caso ele julgue a esposa desobediente. Os fundamentalistas islâmicos ficaram irados ao ver os versos sagrados escritos no corpo de uma mulher. O resto, para eles, é normal. Tive um professor que me obrigava a escrever versos do Corão em tabulários. Um hábito em desuso desde o século XVI. Um dia, recusei-me a obedecer. Ele me vendou os olhos, levei uma surra até conseguir me livrar da venda. Encolerizado, ele me pegou pelos cabelos e bateu minha cabeça contra um muro. Desmaiei.

Veja – Como a platéia não religiosa respondeu ao filme?

Ayaan – De forma positiva, mas eu esperava uma dose maior de indignação dos liberais laicos, intelectuais e políticos da esquerda. O pessoal que acha ter o monopólio dos bons sentimentos. Na verdade, eles padecem do velho paradoxo da Revolução Francesa, que promoveu os direitos humanos em casa, mas manteve a escravidão nas colônias. Em nome da convivência multicultural, do respeito às tradições de outrem, esses intelectuais do Ocidente hesitam em colocar em evidência a situação subjugada da mulher dentro do Islã. Eles têm receio de ofender, de suscitar cólera, e assim ajudam a perpetuar o sofrimento e a injustiça. Ora, aqui não cabem relativismos. Abuso e mutilação sexual são crimes, e ponto final. Hoje, agora, já! Tampouco deve ser tolerado o assédio, a perseguição da qual são vítimas os homossexuais muçulmanos. Os ocidentais não podem fazer vista grossa nem calar, como já fizeram durante a existência dos gulags soviéticos. O Islã não viveu o Iluminismo. As sociedades islâmicas enfrentam os mesmos problemas do cristianismo anterior ao século XVIII. Ainda não se estabeleceu o justo equilíbrio entre razão e religião.

Veja – O que é a “obsessão do hímen”, uma expressão que a senhora utiliza com freqüência?

Ayaan – No Islã, moças sem hímen intacto são consideradas “objetos usados”. Muitas jovens, ao perder a virgindade, vêm para a Europa submeter-se a cirurgias reparatórias. Na Holanda, até bem pouco tempo atrás, em respeito ao multiculturalismo as imigrantes muçulmanas eram reembolsadas pela seguridade social. Aos 5 anos, fui submetida à clitorectomia, uma prática encorajada pelos clérigos islâmicos. Essa é a maneira extrema de garantir a virgindade antes do casamento. Na falta de uma mulher disponível, a minha excisão foi feita por um homem. Relatórios da ONU revelam que 98% das meninas na Somália são submetidas à excisão do clitóris. Os outros 2% são a margem de erro.

Veja – Pode haver convivência pacifica entre o Islã e o Ocidente?

Ayaan – Espero que sim. No entanto, posso afirmar sem equívoco, o Islã atual é incompatível com o estado de direito das democracias ocidentais. A sobrevivência das democracias ocidentais depende da sua vitalidade em defender os valores liberais. A escolha que o século XXI oferece aos muçulmanos é clara: modernidade ou regime tribal. Eu proponho às comunidades islâmicas fazer uma reflexão crítica da sua doutrina religiosa, a exemplo dos fiéis de todas as grandes religiões. Se dizem que é preciso rezar cinco vezes ao dia, vamos demonstrar, empiricamente, que isso é impraticável no âmbito de uma vida moderna. Eu proponho às comunidades islâmicas reter a espada que corta a cabeça de quem pensa por si mesmo. Onde não se pode criticar, todos os elogios são suspeitos. Caso eu estivesse num país muçulmano, já estaria morta. É do interesse tanto do mundo ocidental quanto do mundo islâmico promover a crítica entre os muçulmanos. Enfrentar o fundamentalismo é um objetivo comum.

Veja – Como foi seu encontro com o escritor britânico Salman Rushdie, que também teve de viver escondido por causa de ameaças religiosas?

Ayaan – Trocamos impressões sobre a vida cativa. Ela coloca em risco pessoas próximas e, devido a isso, inibe até iniciar relacionamentos amorosos. Ele me aconselhou a seguir firme em frente, sem deixar que essa situação me enlouqueça. Ambos sabemos que haverá sempre um fanático em nosso encalço. Eu relatei a ele uma história da minha juventude. Quando o aiatolá Khomeini emitiu um fatwa contra Rushdie, eu era uma estudante devota da Escola Secundária de Meninas Muçulmanas de Nairóbi, no Quênia. Eu e minhas colegas ficamos, imediatamente, solidárias com o líder iraniano que tomava a defesa do sagrado Corão e punia o autor de um romance, suposta blasfêmia contra o profeta Maomé, nosso venerável guia. O fato vinha corroborar nosso aprendizado diário, a indignidade dos kafirs, os infiéis, os não muçulmanos. A primeira coisa que veio a minha cabeça foi: “Esse Rushdie deve ser morto”.

Veja – O que ele disse?

Ayaan – Rushdie sorriu. Foi gentil ao lembrar que, na época, eu era apenas uma garota.

Veja – Por que a senhora propõe fechar as escolas muçulmanas na Holanda?

Ayaan – Os professores das escolas muçulmanas holandesas ensinam a ser hostil às leis do país. Dizem aos seus alunos: “Nós vivemos na terra do inimigo, somos subjugados pelas leis dele. A lei suprema é a vontade de Alá, revelada pelo arcanjo Gabriel a Maomé, transcrita no Corão”. Esses estabelecimentos de ensino público recebem ajuda do governo. Não, não e não! A escola deve ser um lugar neutro, com o objetivo de preparar os alunos para a vida numa sociedade sintonizada com seu tempo, fundada no espírito crítico e no ensino da cidadania. Os holandeses, que vivem em um dos países mais tolerantes da Europa, ficam exasperados de ver, em manifestações de rua, jovens muçulmanos holandeses gritando “Hamas, Hamas! Judeus para a câmara de gás!”.

Veja – A Turquia deve ser aceita como integrante da União Européia?

Ayaan – Sim, desde que o governo turco implemente, durante o período de candidatura, as medidas exigidas pela União. Elas beneficiarão os turcos em geral e, em particular, as mulheres muçulmanas, que terão seus direitos mais bem respaldados. Já se percebem alguns passos tímidos nessa direção. A questão geográfica, se a Turquia pertence ou não à Europa, é hipócrita. Por trás dela estão o preconceito da extrema direita nacionalista européia e o medo da competição de mercado que atormenta os partidos da esquerda demagógica. A objeção geográfica nunca foi apresentada quando convidaram a Turquia para ingressar na Otan. Negar a inclusão da Turquia reforçaria a posição dos fundamentalistas muçulmanos turcos. Trava-se atualmente uma batalha de corações e mentes contra o islamismo político. Veja os efeitos catastróficos da tortura a que soldados americanos submeteram os prisioneiros iraquianos da penitenciária de Abu Ghraib. Os fundamentalistas acharam ótimo.

Veja – Líderes das comunidades muçulmanas européias a acusam de projetar uma experiência de vida traumática sobre um grupo inteiro. Aceita essa crítica?

Ayaan – Isso é uma estratégia conhecida para desviar-se da verdadeira questão: o Islã quer ir para a frente ou para trás?

Veja – A senhora abandonou a sua religião, tornou-se apóstata. Mas, se um dia encontrasse com Deus, o que gostaria de ouvir dele?

Ayaan – Você é verdadeira.

Por Antonio Ribeiro

 

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