
“Todo mundo tem direito a sua opinião, mas não aos seus próprios fatos.” — Daniel Moynihan
“Contra fatos não há argumentos.” — provérbio grego.
Se o cinto de segurança nos carros induz o motorista pisar fundo no acelerador, por que as autoridades do setor de transportes não aboliram a obrigatoriedade de usar o dispositivo? Se o carro é fator determinante nos acidentes automobilísticos, por que não voltar ao tempo das carroças? A lógica poderosa de alguns falsos clarividentes tenta persuadir sem sucesso que a existência de 70 milhões de aidéticos no mundo ocorre devido ao uso de preservativos. O propósito, diga-se de passagem, não é nenhuma novidade. As teorias de Paul Virílio, “o filósofo da Idade da Mídia”, pregam o retorno aos tempos das cavernas para evitar os desastres modernos. O problema não se resume na falta da relação entre causa e consequência, mas em um cálculo perverso.
Explico:
Sem a existência do preservativo, o católico com medo de contrair AIDS adotaria a abstinência sexual, pratica aconselhada pela Igreja. Entende-se porque é mais fácil catequizar criancinhas e nos bolsões da ignorância, longe de Galileu, Darwin e Voltaire. Ora, o que ameaça a Igreja Católica e atrapalha as políticas de saúde pública, não é bem o uso da camisinha, e sim, em muito mais, o anacronismo de uma minoria integrista e a sua descrença na ciência. O obscurantismo religioso assim como as ideologias arcaicas, o comunismo por exemplo, tornam-se anacrônicas no hemisfério Norte. De vez em vez, encontram uma sobrevida, uma aposentadoria ensolarada nos
trópicos.
O que dizem os especialistas sobre a declaração do papa Bento XVI que o preservativo agrava a epidemia da AIDS?
“Minha reação é que ela [a declaração] representa um grande passo para trás na educação sanitária global, inteiramente contraproducente, que irá causar aumento nas transmissões do vírus da AIDS na África e alhures. Existe vasta evidência comprovando que o uso de preservativos reduz o risco de contrair AIDS e que não provoca o acréscimo na atividade sexual.” — Quentin Sattendau, professor de Imunologia da Universidade de Oxford.
“Não existe nenhuma evidencia científica que demonstra que o uso de preservativos induz as pessoas terem um comportamento sexual arriscado. Se usados de forma consistente e correta, os preservativos são altamente eficazes para prevenir a transmissão do vírus da AIDS.” — Kevin De Cock, diretor do programa de combate a AIDS da Organização Mundial da Saúde.
“Não cabe aos governos julgar as doutrinas da Igreja, não é missão de líderes religiosos estabelecer diretivas de saúde pública.” — Ulla Schmidt, ministra da Saúde da Alemanha.