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Arquivo da categoria Paris

11/02/2010

às 13:55 \ Paris

Bar café: o declínio de uma instituição

barcafe

Ainda está para nascer melhor cronista dos modos e costumes parisienses do que o autor de A Comédia Humana, o escritor francês Honoré de Balzac (1799 -1850). É de sua autoria o mais fundo conceito do bar café, considerado instituição no seu país. “O café da esquina é o parlamento do cidadão comum.” Le bistrot du coin ao lado da Torre Eiffel, do vinho e do queijo, da moda e dos museus, e tantos outros estereótipos que desenham no imaginário, a cédula de identidade da França, não é só lugar de consumo. Ali junto ao balcão de zinco, entre cadeiras raquíticas e sobre as mesas de madeira esculpida pela frequência, pode-se aferir em ritmo cotidiano, a disposição do espírito nacional. Incontornável ponto de visita de quem apropria-se dos hábitos locais mesmo que por breve momento, como fazem os turistas.

Contudo, o tecido formado pelos tradicionais bares cafés  se rarefaz desde a década de 60. Eram 200.000 à época enquanto hoje, sobraram apenas 30.000. A maioria dos 64 milhões de franceses observavam o fenômeno como sucedâneo natural dos tempos e com certo descaso, semelhante  ao desaparecimento das lendárias concierges, as zeladoras dos prédios. Só no ano passado, 2.000 pequenos cafés e bistrôs de bairro fecharam para sempre, uma média de 6 por dia. A rapidez da extinção tocou o sinal de alarme, rompeu os portões do Senado para se instalar no plenário como pauta de debate. A questão é premente se considerada a perda de 12% no faturamento dos proprietários de cafés em 2009.

Várias pistas explicam o declínio dos cafés, também conhecido como a “sala de estar dos pobres”. Os proprietários reclamam dos impostos pesados, dos encargos sociais que se adicionam aos salários dos empregados, das campanhas governamentais contra o consumo de bebidas alcoólicas e da lei anti-tabagista cujo efeito, foi o desaparecimento da nuvem de nicotina e 6% da clientela. Na lista de queixas figura também a perda de poder aquisitivo dos franceses. No lugar de pedirem a tradicional entrada de ovos com maionese seguida de filé com fritas regado com vinho e arrematar com um crème brûlée, os clientes preferem aplacar a fome com refeições mais rápidas e baratas. O sanduíche de baguete com presunto acompanhado de Coca Light, por exemplo.

Pagar mais de 1,50 euro por uma xícara de café expresso tornou-se proibitivo em tempos de crise. A máquina de expresso caseiro, tipo Nespresso, o da publicidade do ator americano George Clooney, quebrou o monopólio do tradicional café preparado com famosas máquinas italianas nos bares parisienses. Os cafés de esquina passaram a sofrer concorrência direta de redes com ambientes espaçosos, confortáveis e com conexão gratuita e sem fio à internet como Starbucks, onde há vários tipos de café. Se antes era pitoresco, turistas toleram bem menos o mau humor dos garçons, as idiossincrasias dos donos cujo senso comercial de antanho, a lei da oferta e procura, deu lugar ao decreto do “entre, consuma o máximo, pague e vá embora.”  O cliente que faz um pedido fora do cardápio ou prefere outra mesa difenrente da indicada, parece ofender o estabelecimento comercial.

O governo preconiza medida geriátrica para salvar os cafés que restaram. “O bar café deve oferecer múltiplos serviços”, diz o ministro das Cidades e Espaço Rural, Michel Mercier. Leia-se, transformar-se em uma espécie de entreposto do estado. Ou seja, além de propor comes e bebes, deve vender bilhetes do metrô, selos postais, loteria. Já é o caso de muitos, sem conseguir inverter a curva. Na verdade, os pequenos bares cafés são vítimas mais frágeis daquilo que o governo francês faz de modo exemplar. Quando uma empresa vai bem, impõe taxas. Se continua sobrevivendo, criam regulamentações. Quando começam a dar prejuízo, subsidiam.

Já nos anos 80 alguns anteviram a crise criando o que pode ser considerado como a nova geração dos cafés parisienses, a chamada revolução Costes-Stark – junção dos nomes dos proprietários do Café Costes e do designer Philippe Stark, que decorou o interior. Os bares café foram recriados com ambientes mais luxuosos, atmosfera temática – poéticos, musicais, étnicos, artísticos, literários, esportivos – serviço atencioso, quase sempre de jovens que reconhecem o cliente na segunda visita.

Por Antonio Ribeiro

07/02/2010

às 10:24 \ Paris

A fila do Bazin vista por uma leitora

bazinUma leitora do blog De Paris, depois de ler o post sobre a baguette do Bazin, decidiu conferir a dica.

Ela foi hoje de manhã, domingo friozinho em Paris, à padaria da rua Charenton. Chegando lá, encontrou fila na porta. Sacou seu iPhone do casaco, fotografou e nos enviou a imagem.

Cada dia que passa, aumenta o orgulho do autor deste blog pelos seus leitores. Escrever para vocês é um prazer!

Por Antonio Ribeiro

31/12/2009

às 17:37 \ Paris

Um excelente 2010!

polrogerMeu caríssimo leitor,

Poucos programas de índio são tão autênticos quanto passar o reveillon nos Champs Elyseés, em Paris. A virada do ano talvez seja o momento menos propício para flanar em uma das avenidas mais belas do mundo. Nenhum atrativo particular; a certeza de enfrentar temperatura glacial; o risco de trombar com hordas de bêbados e gangues de piromânicos que transformaram o incêndio de veículos em prática mais perigosa que os esportes de inverno nesta época do ano.

Mas há algo quase tão ruim, ou ao menos, bem mais dolorido no bolso do freguês – em sua maioria, incautos turistas que visitam a capital da França à procura do que fazer nas últimas horas do ano. As escorchantes ceias de reveillon, as promoções a preço fixo de alguns restaurantes. O tédio e a afronta a paladares, ainda que pouco sensíveis, são garantidos.

Vai aqui a dica derradeira de 2009. Alternativa para o programa de índio e a roubada. Uma noitada romântica para um casal em Paris. Sai por menos de 150 euros (375 reais). Para cada pessoa suplementar, adicione 30 euros. Compre duas garrafas de champanhe Pol Roger no Nicolas, a maior rede de cavistas da França – 32 euros cada uma. Trata-se do néctar preferido de sir Winston Churchill, autor da máxima: “Meu gosto é simples, fico facilmente satisfeito com o melhor”.

Uma garrafa acompanha as ostras e o foie gras. Reserve a segunda para abrir em uma ponte do rio Sena com vista para Torre Eiffel que se encanta com a iluminação estroboscópica à meia-noite. Na peixaria Boulonnaise, Praça Maubert Mutualité com boulevard Saint Gemain, encomende duas dúzias de ostras Fines de Claire Marennes Oléron - 19 euros. Peça para serem abertas e colocadas em bandeja de isopor em uma cama de algas, não custa nenhum centavo a mais.

No número 60 da rua Saint Louis en l’Ile,  coração da Ilha Saint Louis, compre 180 gramas de foie gras na La Petite Scierie – 34 euros. Caminhe um pouco mais até o numero 40 e entre na padaria do Philippe Martin. Peça uma baguette à l’ancienne, um dos melhores pães feitos como antanho em Paris – 1,10 euros. Atravesse a rua e vá à sorveteria Berthillon. Compre ½ litro do soverte de caramelo à manteiga salgada – 8,70 euros. Peça uma caixinha isotérmica para acondicionar o sorvete, ela também está incluída no preço. Passe em um dos mercadinhos da cidade, compre guardanapos, couverts e copos para pic-nic quase tão resistentes quanto os verdadeiros por menos de 5 euros.

Você pode ceiar traquilamente no quarto do hotel e depois, sair para dar uma volta. Drible trânsito, vá de metrô que funciona até tarde. Sugiro ir a ponte Alexandre  III para abrir o segundo Pol Roger à meia noite. A dica vale para todas as noites do ano.

Um excelente 2010 para você!

Por Antonio Ribeiro

24/12/2009

às 13:33 \ Paris

Caríssimo leitor: um muito Feliz Natal!

De Paris, um abraço

De Paris, um abraço

Por Antonio Ribeiro

27/11/2009

às 12:38 \ Paris

A bela adormecida

Fechada: vá a capital ao lado

Fechado: Favor ir à capital ao lado

O apagão ainda não chegou a Cidade Luz. No entanto, depois das 23h, Paris toma um tiro mortal. A vida noturna apagada da capital que mais recebe turistas no mundo, menos animada do que Berlim, Londres, Amsterdam ou Barcelona, está criando fama oposta ao famoso mote da canção New York, NewYork, hino popular da metrópole americana de mesmo nome. Agora dizem: “Paris, a cidade que dorme sempre.”

Houve um tempo em que Paris era considerada o paraíso dos boêmios. Isto porque os lugares para varar a noite até o momento quando a cidade é ainda mais esplendorosa – o lusco-fusco brilhante do amanhecer – permaneciam abertos.  Hoje, as autorizações para um estabelecimento funcionar além das 2 horas da madrugada  passam por fino conta-gotas da administração municipal. Outrora, o comportamento nos interiores e proximidades dos estabelecimentos era sujeito a regras menos restritas.

Conter o ruído em uma cidade onde a maioria das construções datam de outros séculos, quando não é impraticável, custa uma dinheirama. A vizinhança residencial recorre com frequência à intervenção policial quando sente-se incomodada pelo barulho. A lei antitabagista, em vigor desde 2008, proibindo fumar nos interiores de lugares públicos  aumentou o problema. Doravante, em frente as casas noturnas, a reunião de animados grupos de fumantes faz parte da paisagem. O dono do Batofar, um barco convertido a bar com shows de música às margens do rio Sena, foi responsabilizado judicialmente por uma briga entre seus clientes a 150 metros do ancoradouro.

A crise econômica reduziu o poder aquisitivo dos franceses. A curva da frequência de bares, restaurantes e discotecas deu um mergulho. Mas é a legislação rigorosa, uma enleada burocracia, que tem causado multas pesadas e a suspensão temporária de licenças que podem chegar até o fechamento definitivo. É o caso da eletrizante boate La Loco, vizinha ao Moulin Rouge, em Pigalle, a região da capital francesa onde a noite é mais festiva. Adicione-se que o metrô, o transporte público mais utilizados pelos parisienses para de circular à 1 hora da madrugada – nos fim de semana opera até às 2h.

No caso dos restaurantes, leis trabalhistas arcaicas como a limitação da jornada de trabalho de 35 horas, tornou à prática de horas extras proibitivas pelo alto custos dos encargos sociais. Os proprietários preferem ir dormir cedo do que contratar. Caso clássico de perda de oportunidade para criação de riqueza. Quem acometido de fome e sede tardia, já não enfrentou a rota do calvário em Paris, indo de porta em porta e ao entrar, recebeu o “Desolé, a cozinha fechou”? Resposta em francês, inglês e português: une poignée, happy few, meia dúzia de gatos pingados.

Um coletivo que tira seu sustento do divertimento noturno criou a campanha “Paris: quando a noite morre em silêncio”. Os organizadores clamam por abrandamento no quadro jurídico. “Qual o sentido de uma lei de saúde pública que no final, impede as pessoas de dançar?”, perguntam eles. Parte da iniciativa é uma petição na internet que já colheu mais de 12.000 assinaturas favoráveis.

Preocupado em desmistificar a imagem de que a sua cidade está se tornando um verdadeiro museu noturno, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, mandou seu secretário de Turismo, Jean-Bernard Bros, criar um site oficial na internet listando as atrações da noite em Paris. Nos últimos anos, a prefeitura tem promoveu também, sem muito sucesso, a Nuit Blanche (Noite ao Claro), onde acontecem várias manifestações artísticas exclusivamente durante uma madrugada.

No fim dos anos 60, o notívago cantor francês Jacques Dutronc fazia a França cantar o cenário da hora em que ele ia dormir, quando as estrelas do striptease vestiam-se, quando os amorosos estavam cansados da noitada, Il est cinq heures Paris s’eveille (São cinco horas Paris acorda). Hoje, o filho Thomas Dutronc faz sucesso com a canção J’Aime Plus Paris (Eu não amo mais Paris).

Por Antonio Ribeiro

04/08/2009

às 9:27 \ Paris

Sinal verde para o Autolib, o carro público

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Depois do Velib, o sistema das bicicletas públicas, Paris vai criar a solução urbana do carro coletivo, o Autolib. Invarialvelmente, segundo os padrões atuais de respeito ao ar dos citadinos e uso do combustível limpo, os veículos serão elétricos. O projeto, em fase de concorrência pública, está previsto para começar a funcionar no fim de 2010. Serão 1.400 pontos de aluguel na capital da França e arredores, onde 4.000 veículos estarão disponíveis. A Ile de France, região administrativa da área metropolitana de Paris, promete ajudar com 3 milhões de euros, o restante ficará por conta do setor privado, do vencedor da concessão.

Como funciona? Igual ao Velib. O usuário pega o carro público em uma estação e devolve em outra, próxima ao seu destino. Os primeiros estudos indicam que o custo da primeira meia hora de utilização deverá ocilar entre 4 e 5 euros, uma assinatura mensal entre 15 e 20 euros ou entre 200 e 250 euros por ano. Qualquer pessoa com carteira de habilitação e cartão de crédito, um turista brasileiro, por exemplo, pode beneficiar-se do serviço. Há possibilidade também de reservar pela internet. Mão na roda, ao menos por enquanto. Quer dizer, no papel.

O objetivo da prefeitura de Paris, comandada pelo socialista Bertrand Delanoë, é “limitar a posse de carros particulares oferecendo uma alternativa crível e ecológica aos transportes.” A direção do partido Verde francês se opõe a idéia, acha que o Autolib vai incitar “deslocamentos inúteis” que poderiam ser feitos com onibus, metrô e bicicletas. Trocando em miúdos a mentalidade tacanha, o sistema seria bom demais. Os fabricantes de automóveis também rejeitam o projeto. Segundo eles, o Autolib iria agravar a crise do setor automobilisco, cuja venda de carros está em queda livre.

Os parisienses, segundo pesquisas recentes, estão dispostos a pagar para ver. “O homem está no mundo para o bem do homem”, dizia Albert Einstein. Acrecente-se: micos, baleias, pandas e ursos polares, depois.

Por Antonio Ribeiro

29/05/2009

às 10:33 \ Paris

História da pedra e do cogumelo


Houve um tempo em que a pedra foi símbolo de civilização, conforto e segurança. Era mais idolatrada que as árvores, considerada avanço sobre a indomável, caprichosa e ameaçadora natureza. A beleza urbana de Paris são suas construções, contrário a cidades como Rio e São Francisco, admiradas pelas topografias. Paris se preservou pela pedra talhada, a unidade de formas arquitetônicas harmônicas, respeitosas da proporção humana. Por que? Porque a capital francesa foi das primeiras cidades européias onde a pedra substituiu a madeira. Porque a pedra sobrevive ao incêndio, inimigo devastador das metrópoles antigas. A madeira incentiva, propaga as labaredas. Mas a ausência da pedra criou o berço de ouro de um dos produtos mais apreciados à mesa: o cogumelo. O champignon de Paris, o fungo de sabor único entre mais de 10.000 tipos catalogados — cientistas estimam que 1,5 milhão de outras espécies restam no reino do desconhecido.

Por ordem do imperador Napoleão III, sobrinho de Bonaparte, o Barão Georges-Eugène Haussmann comandou entre 1853 e 1870 a maior remodelação urbana de Paris. Além de embelezar e tornar Paris mais imponente, o “artista demolidor” organizou a simetria de residências e comércios, mudou a geometria das ruas, antes sinuosas e estreitas. Ao traçar largos bulevares, os grandes eixos da capital até hoje, ele possibilitou o uso de canhões contra as revoltas populares e complicou o uso de barricadas. Durante a empreitada de 17 anos, o Barão Haussmann precisou de pedras. Muitas. A retirada do mineral em pedreiras dos arredores de Paris, deixou nos seus lugares, cavernas e grutas, onde a temperatura entre 14 e 16 graus Celsius e 80% de umidade relativa são constantes durante todas as estações.

As grutas se tornam abrigos para animais de criação. Muitas delas foram convertidas em cavalariças naturais. E cavalo não vive bem sem feno. E cavalo faz suas necessidades fisiológicas sem respeitar as regras de higiene dos seus criadores. Quer dizer, imediatamente seguido da vontade e por toda parte, inclusive em cima do feno. A terra do interior das grutas, rica em calcário, os excrementos misturados com o feno, a temperatura constante, a umidade elevada e a ausência da luz solar, todos juntos são os genitores do champignon de Paris.

Tortulhos comestíveis podem crescer em outros ambientes, mas são nas pedreiras abandonadas que o cultivo do champignon de Paris, de rara força aromática, pode ser feito de maneira extensiva e controlada. É o caso da Champignoniere Du Clos du Roi, em Montigny Les Cormelles, 50 quilômetros ao norte de Paris. Lá, Gregory Spinelli, de 36 anos, comanda 14 braços para extrair diariamente uma tonelada de cogumelos cujo quilo é vendido a 5 euros nas feiras livres de Paris. A França, quarto produtor mundial, colhe 200.000 toneladas por ano — 6 em cada 10 cogumelos consumidos no mundo é de origem chinesa. O colunista da Veja.com visitou o lugar na companhia do renomado Yannick Alléno, chef do restaurante Le Meurice, três estrelas no guia Michelin, namorado da cantora e atriz francesa Patrícia Kass. “Nós gastamos 2,5 milhões de euros em produtos frescos por ano, os cogumelos da minha duxelle saem daqui”, diz o cozinheiro, discípulo do monstro sagrado da culinária francesa, Paul “Fogo Sagrado” Bocuse.

O duxelle é o prato feito com o champignon de Paris mais consumido na França. Trata-se de um purê que leva também a echalota, planta bulbosa trazida da Palestina à França depois da Primeira Cruzada, e cebola. Ele serve de cama para o delicioso linguado preparado por Allenó no restaurante gastronômico, mobiliado por Phillipe Starck, do Hotel Le Meurice — 4% dos clientes são brasileiros. A maioria dos cozinheiros estrelados de Paris vem do interior do país assim como a melhor matéria-prima dos produtos culinários. Alléno, de 40 anos de idade, é exceção. Ele foi criado em uma família parisiense de proprietários de bistrôs e de um hotel modesto. O cozinheiro aposta em uma culinária parisiense através de parcerias com os produtores agrícolas, instalados nos arredores de Paris. História da pedra e do cogumelo.

Por Antonio Ribeiro

01/05/2009

às 16:35 \ Paris

A França apresenta seu PAC

No imaginário popular francês, o Brasil tem contribuição genuína para oferecer à França. Isto é, uma certa joie de vivre — alegria de viver, na expressão local. Ou melhor, os brasileiros encararam os problemas com mais índolência do que os franceses. Ainda segundo observação deles mesmos, os franceses veem encrencas onde elas não existem ou as criam em períodos de carência. Contudo, por hora, o governo da França preferiu tomar do Brasil outro exemplo. Tal qual o PAC do governo Lula, o projeto do Grande Paris, anunciado por Nicolas Sarkozy debaixo de uma reprodução romana de Jesus e evangelistas, só existe no papel. Pior: há pouca chance da ambiciosa intenção de regeneração urbana sair das pranchetas.

Paris intramuros, o interior do anel viário de 35 quilômetros  que delimita a capital da França tem 2 milhões de habitantes. Nos subúrbios, moraram 12 milhões de pessoas. A Grande Paris seria a maior aglomeração urbana da Europa. Só para comparar: Londres tem 7,5 milhões.

Apesar do peixe ser menos difícil de ser vendido a quem acredita em tudo que brilha, os projetos foram feitos segundo a tradição nativa: direitinho e sem contenção de custos. Contratou-se 10 escritórios de arquitetura e urbanismo de fama mundial. Eles produziram idéias das mais criativas e imagens virtuais para uma metrópole daqui à 20 anos — mais verde, alta, extensa até o porto do Havre e integrada com seus arredores, matéria-prima de bela exposição inaugurada esta semana na Cité de l’architecture et du patrimoine. Albert Speer, autor do projeto da capital do Reich de Mil Anos, ou o faraó do Egito, Ramsés II, ficariam enrubescidos diante do resultado. Uma indagação de ordem contável ameaça o castelo de cartas: onde está o dinheiro para tanta megalomania? Resposta: não há hoje, não se sabe haverá mais para frente em um país onde a dívida pública é quase 70% do PIB (1.327 bilhões de euros) e as estimativas para 2012 é que ela chegue a 88% do PIB.

Se o espetáculo do Grande Paris serve apenas para reflexões Urbi et Orbi, ainda que pesado no bolso do contribuinte, tomou-se conhecimento da capacidade de arquitetos e urbanistas da atualidade em propor soluções para uma metrópole admirada, pequena e invariavelmente com problemas mais prementes do que a construção de um jardim suspenso mais alto do que a Torre Eiffel. Os mais otimistas acham que os projetos são como os desfiles de alta costura, eles lançam uma tendência da moda, mas ninguém vê na rua a exuberância do que se veste nas passarelas. Contrário a Napoleão III que através do Barão Haussman abriu as principais artérias viárias da capital francesas ou de François Mitterrand que construiu uma opera moderna, uma pirâmide de vidro para desafogar a entrada do Louvre e um moderno centro financeiro, o bairro de La Defense, o legado de Sarkozy parece deixar para as gerações futuras a responsabilidade de tocar a empreitada.

O projeto mais próximo da realidade é a construção de 140 quilômetros de uma linha trens suburbanos rápidos em forma de 8 a volta de Paris. Ela ligaria os dois aeroportos — Orly e Charles de Gaulle — e importantes pólos comerciais e residenciais dos subúrbios, além de Versalhes e Clichy. Vantagem: os trens funcionariam sozinhos, sem condutores e 24 horas por dia durante 7 dias da semana. Afinal, ninguém aguenta mais as greves freqüentes por qualquer razão que parece plausível aos sindicados da companhia ferroviária estatal SNCF. O governo está disposto gastar 35 bilhões de euros dos cofres públicos para fazer os trens rolarem nos trilhos até 2012. Será necessário votar projeto lei no Parlamento. É um pequeno igarapé a ser atravessado antes de enfrentar o oceano, mas pode ser a Batalha de Berezina — nome do riacho raso e estreito na Bielorússia, onde Bonaparte foi vencido e desde então, tornou sinônimo de catástrofe na França.

Por Antonio Ribeiro

11/02/2009

às 11:06 \ Paris

Bela idéia ameaçada pelo vandalismo


Em Julho de 2007, a Prefeitura de Paris criou um sistema de transporte público sob duas rodas, o Vélib’ — o nome é a contração de velo (bicicleta) e liberte (liberdade). Mais de 20.000 bicicletas foram colocadas a disposição em 1.250 estações, a cada 300 metros de Paris. Nos arredores da capital, já existem 300 pontos de aluguel. As ruas, avenidas, bulevares, praças e parques foram redesenhados para criar 370 quilômetros de ciclovias. Um tremendo sucesso entre a população, o Vélib’ foi utilizado 42 milhões de vezes nos últimos 18 meses — 78.000 usuários por dia. Só no primeiro ano de funcionamento, a prefeitura arrecadou 20 milhões de euros.

Contudo, o balanço não é totalmente positivo. Ao menos, para empresa JCDecaux, dona da concessão pública do Vêlib’. Mais de 11.600 das bicicletas foram vandalizadas e 7.800 sumiram do mapa — provavelmente, foram roubadas. O contrato rege que a prefeitura fique com a receita e a JCDeaux, o uso de 1.600 placas publicitárias. A empresa é também responsável por todo mobiliário urbano de Paris e a sua manutenção. “O tamanho do vandalismo não estava previsto nos nossos cálculos”, diz Remi Pheulpin, diretor da JCDecaux que mantém 500 funcionários nas 15 oficinas para consertar, em média, 1.500 bicicletas por dia. Dado edificante: se a empresa parar de trabalhar 10 dias, não sobra uma só bicicleta pública nas ruas em condição operacional.

Entretanto, uma nova “disciplina esportiva” surgiu em Paris: o Vélib’ Freeride. Ela foi aderida por jovens ciclistas que utilizam as bicicletas públicas para acrobacias e “testes” de resistência inspirado no espírito do skatebord extremo. A exemplo de 300.000 internautas, quem deseja assistir o vídeo com as “proezas”, basta clicar aqui. Atenção: é de embrulhar o estômago

Por Antonio Ribeiro

04/02/2009

às 11:32 \ Paris

A recepção não está à altura da torre

Gustave Eiffel deve ser louvado não só pela beleza e perenidade da sua torre de 10.000 toneladas, construída para Exposição Universal de 1900, símbolo inconfundível de Paris. O engenheiro francês ergueu a estrutura metálica de 324 metros de altura sem que houvesse, durante os 27 meses de montagem, um só acidente fatal. Bem, de lá para cá, a Torre Eiffel tornou-se ponto predileto para tentativas de suicídios, mas isso é outra história. A questão atual diz respeito a desorganização dos responsáveis pela obra de Eiffel, onde trabalham 280 pessoas. A recepção dos 7 milhões de visitantes anuais ao monumento não está à altura da torre.

Faça chuva ou faça sol é parte do programa de quem visita a Torre Eiffel formar longas filas de espera. Isso pode ser explicado por lei da física: dois corpos não ocupam o mesmo lugar. E quando a entrada do fluxo é maior do que a capacidade de escoamento, engarrafa. A Torre Eiffel tem capacidade de acolher 5.000 pessoas — 3.400 pessoas no primeiro andar (4.415m2), 1.200 no segundo (1.430m2) e 400 no último (250m2). Nos dias de grande frequência, a espera média para subir ao primeiro andar é de 2 horas. Quem deseja visitar o último andar tem ainda que aguardar mais uma hora e meia. Um verdadeiro programa de índio para ver o panorama de Paris sem a Torre Eiffel!

Parte do problema que causa a espera são os cinco elevadores – um em cada pilar que sustenta a torre e outro, que faz o trajeto entre o segundo e último andar. Embora funcionem perfeitamente – eles percorrem 103 quilômetros por ano – são obsoletos, lentos e com baixo limite de peso. Parte integrante do Patrimônio Histórico, eles só podem se substituídos em caso de quebra irremediável. Na maioria das vezes são renovados. É o caso do elevador Edoux, responsável pelo trajeto entre o 2º e 3º andar. Ele não funcionava no inverno porque a lubrificação congelava e imobilizava a maquina. Em 1983, sua bomba hidráulica virou peça de museu exposta no segundo andar da torre, sendo substituída por um equipamento elétrico de mesma função.

A Sete, empresa de exploração da Torre Eiffel, esta iniciando a venda de ingressos por internet. A medida visa reduzir o tempo de espera, uma vez que os visitantes – um terço são estrangeiros – podem escolher a faixa de horária da visita. Um projeto mais ambicioso e custoso aguarda aprovação durante anos. Trata-se da construção de um espaço de espera com lojas, lanchonetes e serviços no sub-solo da Torre. Algo equivalente a solução da Pirâmide do Louvre. Até lá e em tempos de crise, a alternativa mais viável é a instalação de abrigos semelhantes aos dos pontos de ônibus. Resta saber se os franceses vão admitir o “estorvo” na paisagem assim como a Torre Eiffel foi considerada um dia. (Leia a nota seguinte)

Por Antonio Ribeiro

 

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