PUBLICIDADE



A baguete do Bazin

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 | 18:24

baguete

Era uma vez o tempo em que os parisienses reconheciam de cara o estrangeiro, olhando para os seus pés. Havia grande chance de quem andava de tênis pelas ruas de Paris ter passaporte americano. O pessoal do leste europeu transitava em sapatos de couro ruim. Se os calçados fossem de cor cinza, era batata: o sujeito vinha de lá onde supunha sua origem. Os italianos pertenciam à categoria que atiçava a abordagem para saber onde se comprou aquela maravilha que ornava e protegia os seus membros inferiores. Hoje virou geléia. Ou melhor, confiture générale. Há russos desfilando pelos bulevares com vistosos mocassins italianos. Americanos que calçam Made in China e até os franceses mais elegantes adotaram, sem culpa, o andar confortável em cima do par de tênis.

Sobrou algum símbolo próprio dos turistas no destino de 75 milhões de indivíduos por ano, o ponto mais visitado do mundo? Sim vários. Há matéria-prima para o fabrico de um tratado. Nem tanto porque os viajantes fazem parte de classe genérica, mas porque os parisienses são um tipo muito peculiar. Um exemplo clássico é a maneira com que eles carregam a baguete, produto gálico por excelência, tradição e com um código de uso que lembra a especificidade da canga, usada pelas cariocas para ir a praia. (E vá explicar para uma francesa que a canga deve sair como chegou, sem um grãozinho de areia!)

O diretor e ator novaiorquino Woody Allen, por exemplo, para se dar um ar local no seu filme musical Todos Dizem Eu Te Amo - boa parte foi rodado em Paris - protagonizou cena onde sua personagem atravessa a Ponte au Change sobre o rio Sena com uma baguete debaixo do suvaco direito. Nada menos parisiense. O nativo de cá leva o pão de cada dia com cautela e delicadeza, Tal qual, digamos, um coroinha que conduz a vela ao altar. Detalhe, na saída da padaria, depois de comprar a baguete, o ritual fica completo se você arrancar um naco da extremidade. E ir comendo até atenuar a tentação provocada pelo aspecto, o aroma, a textura crocante, o sabor impar. O efeito é maior se o exemplar vier de fornada recente.

Onde se faz a melhor baguete de Paris? Refiro-me a comum, de todos os dias. Aquela que os parisienses chamam de ordinaire cujo preço oscila entre 90 centavos e 1 euro. Embora os candidatos não variem muito — são 1.260 padarias em Paris — a eleição obedece alternância frequente. O blog De Paris aposta todas as fichas na ciência do padeiro Jacques, proprietário da Boulangerie Bazin, situada no décimo distrito da capital, não muito longe da praça da Bastilha. O produto do Monsieur Jacques tem forma regular. Nota-se na superfície dourada, como a assinatura do artesão, 8 cortes de igual tamanho e profundidade. Na parte inferior há não traços negros de queimado. O tostado é uniforme. O aroma do trigo predomina sobre o da fermentação do qual não se exala  acidez exagerada. Há um leve odor de manteiga. O interior da baguete não é de massa compacta, tem áreas de ventilação, como o queijo Emmental, o popular “suíço”, segundo dizem em Pindorama.

A baguete francesa é regulamentada por um decreto de setembro de 1993. Ele determina o método de fabricação com farinha pura sem aditivos; petrificação mínima e fermentação longa. O resultado deve estar próximo à baguete dos anos 30, antes da Segunda Guerra Mundial. A iguaria deve ter entre 5 e 6 centímetros de diâmetro, 60 centímetros de comprimento e pesar em torno de 250 gramas. Os franceses comem, em média, 180 gramas de pão por dia, mais do que nos anos 1970 quando consumiam 150 gramas diárias. A baguete existe desde 1793, pouco depois da Revolução Francesa, quando a legislação obrigou os padeiros fabricarem um pão barato e igual para todos. Naquela época os padeiros trabalham à noite enquanto a população dormia. O ambiente era frio, úmido onde se respirava ar rico em farinha de trigo. O cronista Louis-Sébastien Mercier dá conta que os padeiros eram franzinos e pálido e seus colegas açougueiros, parrudos e corados. A palavra baguette em francês vem do italiano bachetta, pequeno bastão.

Para quem quiser se aprofundar mais no assunto, sugiro leitura da obra do historiador Steven Kaplan, Good Bread Is Back: A Contemporary History of French Bread, the Way It Is Made, and the People Who Make It

Boulangerie Bazin

85bis rue Charenton

75011 Paris

Telefone: +33 1 43 07 75 21

Fechado quarta e quinta-feira

Por Antonio Ribeiro

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Enviar por e-mail

Berthillon, a sorveteria que fecha no verão.

terça-feira, 21 de julho de 2009 | 7:35


Nem na margem esquerda nem no lado direito do rio Sena. Este blog é escrito no coração de Paris. Em um aterro com contornos de um paralelogramo. A diagonal mais longa mede 700 metros e a linha que divide a figura, no sentido transversal, a rua des Deux Ponts, tem 250 metros. Nesta espécie de vilarejo onde quase todos se conhecem pelo nome de batismo, vivem em torno de 2.000 habitantes, os ludovicos. O lugar é uma ilha fluvial chamada Saint Louis. Já foi Ilha das Vacas antes do século XVIII quando servia de pastagem. Mais recentemente, devido ao seu famoso “produto regional”, ganhou o apelido de “Ilha do Sorvete”.

Os críticos gastronômicos consideram que os crèmes glacées (sorvetes a base de leite e gema de ovo) e os sorbets (base de frutas e água) insulares não perdem em sabor para nenhum outro fabricado no planeta. Isto se não forem, segundo os mais aficionados, os melhores do mundo. A fama se deve a uma empresa familiar, dessas que a patroa, no caso, a filha herdeira Muriel, cuida do caixa e o irmão Lionel, do fogão. A sorveteria Berthillon é uma instituição, um magneto de visitantes da Ile Saint-Louis. Sua fachada tem um rabicho permanente, a fila que dobra a esquina, ela é ainda maior nas vésperas do reveillon.

Conta uma historinha oral, narrada pelos ilhéus nos bistrôs, que nos tempos de penúria alimentar na União Soviética, fotógrafos da antiga agência Tass, vinham aqui fazer imagens. Elas tinham por objetivo mostrar nos jornais oficiais da mãe das ditaduras comunistas durante a Guerra Fria, que na capital da França, a população também enfrentava longas esperas para comida. A anedota seduziu o comerciante do melhor caviar de Paris, a Maison Petrossian. Ele resolveu adotá-la em causa própria. Bem menos convincente. Embora faltasse até ovos de galinha, as ovas de esturjão nunca sumiram das prateleiras moscovitas. Tal qual a lagosta no Haiti, país conhecido pelos otimistas como a sucursal terrestre do inferno.

O segredo dos sorvetes é o mesmo que rege o sucesso da culinária francesa. Ou seja, o conhecimento apurado e acumulado durante séculos para tratar alimentos conspicuamente selecionados. Monsieur Bernard, o patriarca da família e antigo confeiteiro, degusta produtos os mais variados e depois, se tranca horas no “laboratório” da sorveteria para converter tudo em delícia gelada. “Este ano tive uma queda pela combinação de pêssego com menta”, conta ele a Veja.com. Foi uma dentada em uma castanha seguida de um gole de café no boteco da esquina que o octogenário sorveteiro buscou inspiração para um dos seus sorvetes mais famosos. Uma bola da iguaria no corneto patissier custa 2,5 euros.

Além do soverte que deixa as papilas gustativas eriçadas, a Berthillon tem uma originalidade de deixar os cabelos em pé. A sorveteria fecha no verão! “Os parisienses saem de férias, nossa família também” diz Muriel. Mas isso não quer dizer que as prateleiras irão ficar vazias. A Berthillon tem mais de 100 revendedores em Paris. Só na “Ilha do Sorvete” eles são cinco. Neste verão, tem novidade tupiniquim, o sorvete de acerola cuja polpa é fornecida por uma vizinha da ilha e que tem que dela, um explêndido panorama. A empresária Martina Barth d’Avila, proprietária da Eurobras, importadora de produtos alimentícios brasileiros, entre eles, o pão de queijo com ervas finas da Provence e, de comer de joelhos.

Glacier Berthillon

29-31 rue Saint Louis en l’Ile

75004  Paris

Por Antonio Ribeiro

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Enviar por e-mail

Impérial Choisy, restaurante chinês

domingo, 1 de fevereiro de 2009 | 22:03

imperialchoisy

Boi não. Búfalo. Ano do Búfalo ou Niu Nian - o 4706 do calendário chinês que começou  no dia 27 de janeiro de 2009. Os parisienses comemoraram, mas só uma semana depois, por razões puramente comerciais da comunidade chinesa, assistiu-se os dragões alegóricos ocuparem as ruas da capital da França. Os descendentes dos inventores da pólvora lançaram fogos de artifícios e, a contento, assustaram pedestres espocando fitas de espoletas.  Boa oportunidade para lembrar do melhor restaurante chinês da capital francesa. O Imperial Choisy foi sugestão, amplamente testada e aprovada, do talentoso violinista do Orquestral de Paris e às do wok, Howard Yang.

O Impérial é um estabelecimento de esquina modesto. Apenas o varal na vitrine com uma dezena de patos laqueados pendurados o distingue dos restaurantes asiáticos do 13º distrito, o “chinatown” parisiense, onde moram entre 15 e 20 mil chineses e descendentes - Belleville, ao norte, já tem em torno de 30 mil chineses, mas ainda não destronou o apelido. O ambiente do Impérial é popular; quem espera um serviço de primeira, faz melhor escolher outro endereço. Ir para ver e ser visto também não é forte, o restaurante é lugar para se comer bem a preços muito razoáveis segundo o padrão local - o item mais barato custa 7 euros e o mais caro, o dobro.

Dois pratos de preparação simples - para chineses dignos do nome - colocam o Imperial em primeiro lugar disparado. A sopa de raviólis de camarão e o frango caipira no vapor à cebolinha e gengibre, acompanhado de arroz cantonês, são de comer de joelhos. Atenção: a preparação das iguarias não faz nenhuma concessão ao paladar ocidental, o gosto é para chinês. As excelentes culinárias chinesas - elas são classificadas em dez tipos, de quatro regiões da China: meridional, setentrional, ocidental e oriental - casam bem com poucos vinhos. O rosé, normalmente, é a melhor pedida. A carta do Impérial oferece o vinho mais antigo da história - tinto e branco são bossas novas - de viticultores da região de Saint Tropez, amigos do proprietário vietnamita.

Por falar em China, alguns restaurantes parisienses resolveram entrar na moda. Quer dizer, se colocarem em diapasão com a crise. Aproveitando a temporada das liquidações, bistrô e brasseries estão oferecendo menus com 20 a 30% de desconto. É o caso do tradicional Benoit, de responsabilidade do estrelado chef Alain Ducasse. Lá a trufaTuber melananosporum sai pelo preço de custo até o dia 14 de março. A especiaria da Provence esta cotada a 500 euros o quilo, ou seja, 0,60 o grama. O cliente está acostumado a pagar, no mínimo, o triplo quando senta à mesa de um bom restaurante parisiense.

Querem mais? Então tomem cerveja à 2 euros e café à 1,60. É do jamais visto à beira do rio Sena. Uma deliciosa blanquette de veau (carne cozida com molho branco, creme de leite e ovos) pode ser abordada no L’Escapade por apenas 15,20 euros. “As marcas de luxo liquidam, a gastronomia é também um luxo que, em tempos bicudos, devem liquidar” , justifica o proprietário Norbert Lemoine cansado de ver sua clientela desaparecer com a chegada da crise.

Impérial Choisy

32 avenue de Choisy

75013  Paris  França

Telefone: 01 45 86 42 40

Metrô : Porte de Choisy

Por Antonio Ribeiro

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Enviar por e-mail

Joe Allen, o raro. Hambúrguer e serviço simpático.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009 | 13:15

joeallen

Joe, o encanador que tornou-se famoso durante a campanha presidencial americana está tentando mudar de ramo. Agora ele é correspondente de guerra. Joe Allen continua no mesmo ofício, o de proprietário de quatro restaurantes que levam o seu nome, em Nova York, Miami, Londres e Paris. A filial da capital francesa faz, desde 1972, o melhor hambúrguer da cidade (15,20 euros). O lugar, cuja decoração reproduz a sede nova-iorquina, tornou-se também ponto de encontro incontornável de expatriados americanos, clientes estrangeiros e nativos interessados em combinar o prazer de comer bem e assistir em telões grandes eventos que acontecem nos EUA.

Ontem, foi data especial, o restaurante completou 37 anos e Barack Obama tomou posse na presidência dos EUA. “Em dias normais servimos, em média 150 refeições, Obama nem começou seu discurso e já estamos com mais de 350 clientes nos três salões e no bar” disse a Veja.com, o gerente e sócio Graham Bent.

Embora houvesse motivo para grandes festejos, o ambiente do “Joe” era, em linguagem local, bon enfant. Ou seja, de bom menino, comportado. Era possível comer sem correr o risco de tomar banho de cerveja e simultaneamente escutar os comentaristas da CNN e BBC. A transpiração ficou por conta dos jovens garçons e garçonetes, de uma simpatia e presteza raras nos restaurantes de Paris.

A vitória eleitoral de Obama ajudou o “Joe” a destronar o lendário Harry’s, elegante bar parisiense cuja  maioria da clientela prefere  o club sandwich (18,50 euros) e inclina-se mais para o campo dos republicanos. “Acho que o Bush deu uma mão, muitos republicamos que moram em Paris, converteram-se em democratas ou não querem passar momentos desagradáveis,” diz o cliente Robert Brown, enquanto saboreia uma torta de queijo com calda de framboesa (6,90 euros). Momento desagradável? “Tomar seu aperitivo tendo que defender a administração Bush junto à estranhos ou ouvir o mesma discurso dos amigos; já passei por isso.”

Comer com as mãos em restaurantes parisienses — e não só — é considerado pura regressão, mas no “Joe”, o gosto do proibido e ilícito tem seu lugar à mesa. Quem desperta curiosidade são os clientes que abordam o hambúrguer com garfo e faca. Foi o caso de duas freguesas que atraíram olhares, mesmerizaram, não só pela beleza e charme. Elas se saíram bem: “Não comemos o pão para manter a silhueta, é demais dispensar os talheres para comer o bife.”

Com pão ou sem pão, devorado com ou sem ajuda de garfo e faca, o hambúrguer conquistou definitivamente as melhores mesas de Paris. Houve tempo em que a rede de lanchonetes McDonald’s foi condenada a pagar 2 milhões de euros porque fez uma publicidade ilustrada com foto do chef Paul Bocuse sonhando com um hambúrguer — e ele gosta  do recheio mal passado! Cozinheiros de restaurantes 3 estrelas no Guia Michelin estão criando suas próprias receitas do sanduíche mais apreciado no mundo. É o caso do mais premiado entre eles, Alan Ducasse. Entre fatias de pão bem mais finas do que as tradicionais, o restaurante Le Relais du Parc, propõe um delicioso hambúrguer de lulas e camarões. O hambúrguer do chef Joël Robuchon leva foie gras.

— Quando chegamos ao “Joe”, fizemos um vídeo, com ajuda do telefone celular, para os leitores terem uma idéia do ambiente. Colocamos o vídeo no YouTube. Ele pode ser visto aqui.

— Beni, o barman do “Joe” prepara o coquetel gin fizz — 4.5cl (3 partes) de gin, 3cl (2 partes)
de suco de limão, 1cl (1 parte) melaço, 8cl (5 partes) de soda ou Perrier. Veja a sequência aqui.

Joe Allen

Bar Restaurant

30 rue Pierre
Lescot

7001 Paris França

Telefone:  + 33 1 42 36 70 13

Aberto todos os dias de 12h às 2h da madrugada

Por Antonio Ribeiro

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Enviar por e-mail