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22/09/2009

às 11:42 \ Literatura

O presidente, a princesa e o canibal

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País de forte tradição literária, a França asssiste nos meses próximos às eleições, politicos que se convertem em autores. Eles, normalmente, lançam livros autobiográficos, plataformas eleitorais ou qualquer outro assunto capaz de colocá-los em evidência. Na semana que vem, sem nenhuma eleição no horizonte, será diferente. O ex presidente francês Valéry Giscard d’Estaing vai lançar La Princesse et le Président – A Princesa e o Presidente. O romance, antes de chegar às livrarias, já provocou muita tinta no papel da imprensa francesa e britânica. Isto porque alguns acham que VGE, dono de título de nobreza comprada, sugere ter havido relação amorosa e erótica entre um presidente francês e a princesa Diana, morta junto com playboy milionário de origem egípcia, em um acidente de carro em Paris.

Quem pensa encontrar no romance o relato de mais uma conquista feminina de Nicolas Sarkozy, marido da bela Carla Bruni, pode ficar decepcionado, mas não menos surpreso. A personagem do presidente francês tem todas as características deValéry Giscard d’Estaing, o autor do livro e membro da Academia Francesa de Letras. A história acontece nos anos 80, precisamente, no período em que VGE deixou o Palácio do Elysée, meses depois do casamento de Lady Diana com o príncipe Charles da Inglaterra, na época, já apaixonado pela atual mulher, Camilla Parker Bowles. As personagens tem exatamente as idades de VGE e Diana na época, 58 e 23 anos respectivamente. O autor descreve sua namorada assim: “Muito atraente, sempre nas primeiras páginas dos jornais e infeliz no amor.” E mais adiante: “Descobri que ela era uma gata, uma felina.”

A passagem que inicia a aventura acontece durante as comemorações do aniversário de 40 anos do Dia D, o desembarque das tropas aliadas nas praias da Normandia. O presidente Henri beija, literalmente, a mão da princesa Patrícia, colocada estrategicamente, como rege o jogo de sedução britânico antigo, sobre a mesa de um trem. Considerando que na reverência à francesa, o homem deve apenas se inclinar sem tocar com os lábios na pele feminina, o presidente começou ultrapassar as fronteiras ali. Mais para frente há um fim de semana em um castelo francês e diversos encontros em palácios republicanos e reais.

No entanto, a leitura do livro não deixa dúvidas que Giscard, de 83 anos, confunde desejos com realidade. O presidente francês do romance, por exemplo, foi reeleito. VGE queria muito ter sido. Uma manobra política do ex-presidente Jacques Chirac, “alta traição imperdoável”, segundo Giscard, barrou sua candidatura. A leitura do livro vale não pela eventual confluência com a verdade, mas pela habilidade e elegância que o narrador descreve os cenários. VGE disputou, nas páginas da prensa de corazon dos fins da década de 70, o título de galante conquistador das altas esferas com o ex-secretário de estado americano Henry Kissinger.

La Princesse et le Président alinha a prosa do ex-presidente com bons autores libertinos franceses que já não se fabricam mais. Raro ler nos romances franceses atuais linhas tecidas assim,Eu ainda a escuto dizer em inglês. Não é minha memória que me faz lembrar, mas o timbre da sua voz: ‘I wish that you love me’ ” No mínimo, é uma delicada tentativa de ser lembrado como um igual. Alguem que desejou uma princesa apagando o presidente que colocou anel de diamante no dedo de um canibal, o ditador africano Jean-Bédel Bokassa. Isso só VGE fez.

Por Antonio Ribeiro

20/04/2009

às 8:59 \ Literatura

Este sim. É obra-prima

Por Antonio Ribeiro

20/04/2009

às 6:12 \ Literatura

O vencedor é…

A Quinta Cúpula da Américas pode ter pavimentado o caminho para eventuais relações amenas entre os EUA e seus vizinhos ao sul do rio Grande. Mas em termos de resultados concretos, o vencedor foi o autor uruguaio Eduardo Galeano. Antes de Hugo Chavez presentear Barack Obama com o Veias abertas da América Latina, o livro ocupava a posição 60.280 em vendas no site www.amazon.com. Poucas horas depois do golpe marqueteiro do caudilho venezuelano diante das câmeras, o revisionismo de esquerda colegial passou a ser o décimo mais vendido. Obama achou normal receber um livro como regalo: “Eu sou um leitor.” O presidente americano declarou ter lido tudo de Garcia Márquez. Não se tem notícia sobre o que Lula lê. Seria ele capaz de aumentar as vendas da cartilha Caminho Suave, o método de alfabetização pela imagem? Desde a primeira edição, em 1948, a cartilha da educadora Branca Alves de Lima (1911-2001) serviu para ensinar a ler mais de 40 milhões de brasileiros.

Por Antonio Ribeiro

18/04/2009

às 13:10 \ Literatura

Mucho gusto

Hugo Chávez presenteou Barack Obama como a edição em espanhol do ensaio As veias abertas da América Latina: Cinco séculos de pilhagem de um continente. O regalo foi autografado pelo autor uruguaio Eduardo Galeano. O livro foi publicado pela primeira vez em 1971. Além de mucho gusto, Obama não dominha muito mais do idioma de Cervantes. No entanto, é bom de bate-pronto. Perguntado sobre o agrado do venezuelano, ele disse: “Pensei que era um dos livros dele [Chávez], iria dar um dos meus.”

Esta semana, o presidente americano tornou público os últimos sete extratos de pagamento de imposto de renda dele e de sua mulher, Michele. Na declaração de 2007 há informação de que a renda foi de 4 milhões de dólares, quatro vezes maior do que no ano anterior. O contribuinte atribuiu o aumento à venda de seus livros. Não é muito se comparado com uma informação de Galeano no Veias abertas. A entrada semanal de ouro brasileiro na Inglaterra chegou  atingir 50.000 libras por semana. Sem essa riqueza, ainda segundo o autor, os britânicos não teriam conseguido vencer Napoleão. Desarmar os bolivarianos parace custar bem menos. Um sorriso de JK e um mucho gusto paga.

Por Antonio Ribeiro

04/10/2007

às 4:11 \ Literatura

A infância do filho do diabo

O escritor Norman Mailer pelo retratista Yousuf Karsh

O escritor Norman Mailer pelo retratista Yousuf Karsh

Ávidos leitores de jornais mancham a ponta dos dedos com tinta todas as manhãs. Algumas páginas negras da história conquistam o interesse de gerações. O octogenário escritor americano Norman Mailer decidiu colocar tinta em papel para narrar um romance sobre a infância de Adolf Hitler. Seu livro The Castle in the ForestUm Castelo na Floresta — está sendo lançado na França.

Nos últimos anos, as entrevistas de Mailer têm causado mais furor do que seus livros. Naturalmente, esta semana, a imprensa francesa publica uma série de entrevistas com o autor sobre seu último livro. Cada uma tão distinta e espantosa do que a outra. Isso devido à capacidade de Mailer para abordar um só tema evocando de tantos outros e retornando à origem, ele mesmo.

O autor de O Evangelho segundo o Filho conta a infância de Hitler sob os olhos de um oficial SS, um enviado do demônio. Mailer argumenta que se é possível crer e conceber Jesus como filho de Deus, então é crível tratar Hitler como o filho de um guia superior, o diabo. “Não sou bom nem virtuoso para compreender Jesus, estou mais apto para escrever sobre Hitler, tenho 5% de diabo no corpo’, diz ele.

Marxista quando tinha 18 anos e ateu nos vinte anos seguintes, Mailer sempre pensou que a força cria uma contra-força. “Eu acreditava em um deus existencial, um deus que, finalmente, não era obrigatoriamente simpático, um deus não todo-poderoso nem necessariamente bom, um deus criado assim como nós mesmos, mas muito maior, que tal como nós, fazia o seu melhor em circunstâncias singulares. Um deus que lutava contra um adversário determinado, bem maior, o diabo. Isso explica as origens do meu livro”, diz Mailer.

Muitos críticos acham que Mailer subtraiu a responsabilidade de Hitler para remetê-la no colo do diabo. “A verdadeira questão é que o mal existe no mundo, seja ele parcialmente humano e parcialmente diabólico, o efeito é o mesmo.” Na maior parte das religiões, os fiéis crêem vigiados e protegidos por Deus enquanto o demônio tenta e procura lhes controlar a vida. ‘A realidade é bem diferente. Os humanos são seres teimosos e complexos. O diabo tem que se esforçar muito para influenciar a vida deles.’

Sobre o conceito de banalização do mal, formulado por Hannah Arendt, Mailer acha ser uma asneira onde muitos intelectuais encontraram um ponto comum. “Quando você sofre, acha o efeito banal? Seria como definir a obscuridade pela luz. O sofrimento é um místico”, diz ele. Para Mailer a existência de Hitler coloca em questão a teoria segundo a qual a filosofia das Luzes possibilitou aos homemens uma saída do obscurantismo medieval, permitindo-lhes evitar o diabo e de quebra, tornarem-se os donos do mundo. Mailer crê em um Deus criador, capaz de influenciar a história, mas incapaz de controlá-la por completo. Ele viveria numa eterna disputa com seu opositor, onde a vitória nunca é garantida.

No livro que pretende ser o primeiro volume de uma trilogia — Mailer não sabe se conseguirá finalizá-la antes de morrer — Hitler é filho de um incesto. Os historiadores sustentam que Hitler era filho ilegítimo do pai Alois e da mãe, Maria Anna Schicklgruber. Mailer explica seu desvio da rota tradicional: “Quanto mais escrevia sobre o incesto, mais compreendia este tema que obseca. Adotei a voz de Himmler, que comentou a tradição rural alemã do incesto, pela ignorância e consangüinidade. Por que não? Isso ilumina os territórios selvagens e inexplorados da psique de Hitler.”

De acordo com Mailer, os romancistas têm uma vantagem sobre os historiadores no que respeita os fatos. O que é um fato? Mailer responde: “O autor de romance dirá que é uma ficção, as vezes, capaz de explicar as sobras, as luzes e as mentiras.” Bem, os romances não mancham os dedos como os jornais, mas o diabo vive no detalhe.

Por Antonio Ribeiro


 

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