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Arquivo da categoria Futebol

18/11/2009

às 21:41 \ Futebol

Mão de Henry classifica a França para Copa

Thierry Henry: "Foi mão, mas eu não sou o juiz do jogo"

Thierry Henry: "Sim foi mão, mas eu não sou o juiz do jogo"

A ação irregular do atacante francês que ajudou o passe para o defensor Gallas marcar o gol que classificou a França para Copa do Mundo da África do Sul foi ainda mais clara que a famosa “Mão de Deus” de Maradona contra a Inglaterra nas quartas-de-final da Copa do México, em 1986. Milhões de telespectatadores viram ao vivo. E reviram várias vezes nos videotapes. Só o juiz sueco Martin Hansson – e seus três colegas de arbitragem – não viu ou fingiu não ter visto.

Depois da partida, Thierry Henry admitiu ter controlado a bola com a mão. “Sim, foi mão, mas eu não sou o juiz do jogo,” disse o número 12 da França.  O italiano Giovanni Trapattoni, treinador da Irlanda, declarou: “Nós vimos o arbitro hesitar, olhar para o Henry, ele deveria ter lhe perguntado. Se o juiz tivesse colocado a questão ao Henry, o atacante teria dito.”

Veja o lance pelo vídeo da TV francesa TF1 onde Henry, em impedimento, toca duas vezes com a mão na bola:

Internautas organizaram um abaixo assinado pedindo a Joseph Sepp Blatter, presidente da FIFA, o uso de vídeos nas partidas de futebol para ajudar o árbitro decidir lances duvidosos. Ela está aqui. Dermot Ahern, ministro da Justiça da Irlanda e apaixonado por futebol, pediu a FIFA que organize um novo jogo. “É o mínimo que devemos para milhões de torcedores jovens ou ficará a impressão de que se você trapacear, você ganha.” Alguns torcedores iniciaram a campanha  na internet para boicotar produtos que Thierry Henry anuncia. A Gillette, fabricante de lâminas para barbear, escolheu o atacante francês, o tenista Roger Federer e o golfista Tiger Woods, porque segundo a companhia, eles representam os “verdadeiros valores do esporte”.

Por Antonio Ribeiro

28/09/2009

às 7:01 \ Futebol

Florentino coloca o Real Madrid na linha

No esquadro de Florentino: Cristiano Ronaldo e Kaká

No esquadro de Florentino Pérez: Cristiano Ronaldo mira no exemplo del Curato

O empreiteiro madrileno Florentino Pérez gastou 256 milhões de euros para contratar mão de obra qualificada. Kaká, Cristiano Ronaldo, Karim Benzema, Xabi Alonso. Isto na Espanha, onde 8 em cada 10 operários da construção civil perderam o seu ganha pão no ano passado. O índice de desemprego no reino da Península Ibérica é de 18,5% do Produto Interno Bruto, o maior da Europa.

Se não fosse a recusa renitente do Bayern de Munique, Pérez teria desembolsado mais 70 milhões de euros levando o atacante francês Frank Ribery para o Real Madrid, clube que  comanda desde junho de 2008. Aceita a proposta, ela seria a venda mais cara do esporte bretão depois da compra de Cristiano Ronaldo. A gastança não para aí. Até 2010,  orçamento do Real mira nos 442 milhões de euros, são 15 milhões de euros a mais do que o da temporada anterior.

A valentia de Pérez leva crer a conta bancária do Real em denso azul como o uniforme alternativo do time. Não é o caso, longe disso. O clube madrileno amarga uma dívida de 457 milhões de euros, um passivo financeiro de 564 milhões de euros – quase o triplo do seu patrimônio, estimado em 196 milhões de euros. Acionários de empresas em situação análoga – e o Real faz parte desta divisão – já estariam apertando com força o botão de alarme.

No entanto, 907 sócios entre os 1.012 presentes na última Assembleia Geral do Real Madrid, dia 20 de setembro, foram favoráveis ao plano financeiro apresentado pelos tesoureiros de Florentino Péres. Mais: deram mínima atenção para o aumento de 10%  em suas contribuições anuais. Situação em que o pintor Francisco José de Goya y Lucientes (1746 – 1828), fabuloso cronista pictórico de seu tempo, teria feito um quadro com gosto.

Já é a segunda vez que Florentino monta uma equipe de sonhos a preço de ouro. A formação de Luis Figo, Ronaldo Nazário, Zinedine Zidane, David Beckham, Raul e outras estrelas, inscreveu-se na história com o apelido de Galácticos. O Real entre os anos 2000 e 2006, a primeira gestão da presidência Florentino Péres, foi bicampeão da Liga da espanhola, ganhou a Copa e a Supercopa da Europa. Conquistou também algo que o nome não reflete o rosto, mas é considerado a cereja em cima do bolo, o Campeonato Intercontinental de Clube — a partida patrocinada pela Toyota em Tóquio entre os clubes campeões da América do Sul e Europa.

Títulos e os salários milionários dos Galácticos criaram uma situação onde correr atrás da bola transformou-se na menor dos preocupações dos jogadores. Os merengues daquela época eram mais vistos em discotecas, revistas de celebridades e em anúncios publicitários do que em campo. O time passou a ser chamado, jocosamente e com escárnio, de “Zidane e os Pavões”. A sequência de derrotas vexatórias acabou com a fiesta e com as siestas. O time foi desfeito. A lembrança do precedente é o único receio que o comando do popular Florentino Pérez provoca.

Para contrapor, o presidente do Real acaba de introduzir uma novidade no futebol. Doravante, os jogadores do Real devem respeitar um código de boa conduta. São 8 mandamentos que incluem a pontualidade nos treinos, simpatia com os torcedores, respeito aos valores do clube fundado em 1902 e mais vitorioso do século passado, a mentalidade do esforço, vestuário comedida, colaboração estreita com os dirigentes e com a imprensa, e limitação nas atividades a risco. Mas sobretudo, a proibição de noitadas durante o período de trabalho. Quem não respeitar, paga multa pesada, 100.000 euros.

O alvo não é Kaká, a quem os companheiros de equipe chamam, carinhosamente, de El CuratoO Padreco. Florentino não quer seus atletas imitando o comportamento de Cristiano Ronaldo – salário de 24.657 euros por dia – fora das quatro linhas. Exemplo: escapada hollywoodianas para namorar fogosas como a modelo Paris Hilton nem pensar. A medida já teve feito imediato. Cristiano e Benzema declinaram a oferta de acesso VIP ao Budha e ao Garamond, os dois clubes noturnos mais badalados da capital espanhola, terreno de outras conquistas dos velhos Galácticos, solteiros ou casados.

A punição às transgressões extra campo dos jogadores milionários sustenta em contexto particular. Uma pesquisa revelou que embora desempregados, alguns torcedores do Real ainda encontram jeito de pagar o ingresso para manter ocupados a maioria dos 80.350 confortáveis lugares do Estádio Santiago Bernabéu. A crise econômica espanhola não afetou a venda das camisas do clube – 70 reais cada. Seguido a assinatura do contrato com o Real, Cristiano Ronaldo fez vender 15 camisas com seu nome estampado nas costas em um minuto.

Em contrapartida, as reações dos torcedores contra resultados ruins tornaram-se mais contundentes. O fenômeno não se restringe a Espanha, ele vai ganhando força na Europa que vive sua recessão mais dura desde a Segunda Guerra. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, foi surpreendido no início de setembro por torcedores do Milan AC quando saía de um festival de música latino-americana de Assago, na Itália. Eles não queriam autógrafos nem fotos do atacante, aproximaram-se dele para dar uma bronca: “Vai para casa dormir.”

Ronaldinho Gaúcho transformou-se, traço por traço, no retrato falado do jogador de futebol intolerável em tempos de crise. Ele tem um salário milionário, desempenho pífio – joga bem abaixo do nível do ganhador da Bola de Ouro 2005 – e carrega a fama inapelável de serial festeiro. Ninguém dá bola para o perna de pau e farrista que ganha pouco.

Por Antonio Ribeiro

12/05/2009

às 5:45 \ Futebol

Quem vigia os guardiões das leis?

O melhor campeonato de futebol do planeta é a Liga dos Campeões europeus, depois da Copa do Mundo. Compreensível se lembrada uma observação velha como século XIX. O autor da Comédia Humana, Honoré de Balzac, dizia: “O melhor jornal de Paris é feito pelos melhores jornalistas de Paris.” Na Copa, jogam os mais talentosos na arte de lidar com a bola. Um grupo seleto entre eles capricha nos gramados do Velho Continente defendendo as cores das equipes campeãs que compõem a Liga da União das Associações Européias de Futebol, a UEFA.

Por que é assim? Por causa do dinheiro. Mas não só. A mais inteligente gerência do esporte bretão também está aqui. Sobretudo na Inglaterra. Depois, em ordem decrescente, na Espanha, Itália e Alemanha. O futebol europeu com sua legião estrangeira de chuteiras douradas tornou-se rentável engenho de prazer e emoções que faz saltar os torcedores das arquibancadas e do sofá, os assinantes de TVs a cabo.

Na semana passada, Barcelona e Chelsea disputaram a vaga para final no Estádio Olímpico de Roma, dia 27 de maio, contra o Manchester United - será o duelo do português Cristiano Ronaldo e do argentino Lionel Messi. Foi um jogaço no Stamford Bridge com dois belos gols, um de cada lado, do ganês Michael Essien e do castelhano Andrés Iniesta. Aqui vai uma má notícia para os brasileiros: o Barcelona melhorou muito depois da ida de Ronaldinho para o Milan. O Chelsea sem Scolari é muito melhor time hoje. A partida teria sido mais uma se não fosse pelo norueguês Tom Henning Ovrebo, o árbitro.

O dono do apito deixou de marcar não um, mas quatro pênaltis cristalinos em favor do Chelsea. O jogo terminou em empate. O resultado classificou o Barcelona - não houve gols na primeira disputa em Camp Nou, portanto os espanhóis ganharam a vantagem porque marcaram no campo do adversário. Os atacantes do Chelsea, o africano Didier Drogba e o alemão Michel Ballack, perderam o sangue frio, se é que já tiveram um dia: insultaram o juiz com razão e sem direito.

Aqui está a questão. Quando um jogador dá um bofetada em um árbitro, ele é punido – os ingleses não chegaram a tanto. E na Europa a sanção é severa. Mas quando o juiz é ladrão? Desculpem, mas é meio como enterro de anão. Pouca gente já viu. No caso da partida entre Chelsea e Barcelona o efeito foi ainda mais grave: deu margem para as teorias de conspiração. Houve quem sugerisse que a UEFA não queria repetir a final 100% inglesa de 2008, quando o Manchester derrotou o Chelsea em Moscou.

Normalmente, o corpo de arbitragem da UEFA além da súmula do árbitro, recebe ao final das partidas, um relatório com a análise dos responsáveis pelo cumprimentos da regras da federação européia de futebol. Ele é feito por um enviado especial do Comite de Disciplina e Controle. O árbitro é, digamos, uma espécie de policial em campo, o representante da organização no gramado. Sua aptidão espelha a imagem, a credibilidade da UEFA. Portanto, o veredicto é muito mais sensível. Mas não deveria ser tão secreto!

Faz uma semana que centroavante solitário Didier Drogba, de 31 anos, vem sendo lanhado fora do campo. Isto enquanto o jogo do marfinês vem sendo louvado no mesmo terreno. David Taylor, secretário-geral da UEFA checou a acusar o jogador de ferir a campanha “Respeito” da federação européia – espécie de movimento oficial para obedecer a autoridade esportiva. E como se trata de futebol, esporte de penetração e federador (a palavra não existe em português, significa a força de convergência de interesses diferentes e que, considerados individualmente, não têm suficiente visibilidade para lançar um projeto, uma atividade ou uma empresa) como nenhum outro no mundo, tem-se a ambição que a coisa não fique só dentro dos estádios. Os cartolas europeus gostariam que a mensagem moral tivesse efeito contrário à cabeçada do cabila Zinedine Zidane no peito do zagueiro italiano Marco Materazzi na final da ultima Copa – gesto reproduzido pela molecada quando há pendenga na
pelada.

Esta nota foi motivada pela pergunta de um garoto de 8 anos: “Papa, qui juge les juges?” Ela é similar as reflexões de Platão no livro A República: “Quem vigia os guardiões das leis?” A questão, desde o pensamento Antigo, foi melhor equacionada pela democracia através da separação dos poderes independentes que se verificam. Formalmente, os juízes são avaliados por um órgão próprio, o Conselho Superior da Magistratura, integrado por magistrados judiciais e outros representantes não juízes. Na prática, ninguém julga e, quando julga, julga geralmente de forma corporativa. Ou seja, mal. É igual na UEFA, com direito e sem razão.

Por Antonio Ribeiro

09/02/2009

às 20:22 \ Futebol

“Elementar, meu caro Watson”

Em um comunicado seco, a direção do Chelsea — o clube de futebol inglês que quando joga com time compatriota adversário, a torcida alheia grita, “Inglaterra, Inglaterra”, devido a sua legião estrangeira de jogadores — despediu o técnico brasileiro Felipe Scolari. Isso denota não só o pragmatismo inglês, onde se não há resultados, não há papo. Mostra porque a Primeira Liga inglesa é o melhor campeonato de futebol da Europa — os ingleses pagam e remuneram mais que os italianos e espanhóis, para citar os concorrentes mais próximos.

Dom César Seabra, consultor esportivo do Blog de Paris e chefe do escritório da TV Globo em Nova York, nas horas vagas, comenta a demissão de Filipão: “O professor Scolari está vivendo do passado. Não ganha nada desde 2002. Perdeu a Eurocopa em casa, para a Grécia. O time do Chelsea, dirigido por ele, é uma zona, sem esquema, uma bagunça que inglês não gosta de ver quando paga o caro ingresso do estádio Stamford Bridge ou a sua assinatura de TV a cabo. Mereceu a demissão.”

Ave César, os que vão morrer te saúdam.

Por Antonio Ribeiro

08/12/2008

às 10:25 \ Futebol

O diabo do um contra um. O solitário do contra dois, três…


No dia 7 de setembro de 2005, Felipe Scolari, ex-tecnico da seleção portuguesa, tinha duas missões. A primeira, vencer a seleção da Rússia em 90 minutos preparatórios para Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. E, a mais dificil: comunicar a morte do pai ao seu “miúdo” Cristiano Ronado, a estrela cadente do time.

Três anos depois, vencedor da Bola de Ouro, Cristiano Ronaldo, diz: “Meu pai é a pessoa que sinto mais falta.” Os olhos começam a ficar encharcados, a voz embargada: “Estou certo de que lá onde ele está, é homem orgulhoso, o mais feliz de todos. Foi o primeiro a dizer que ganharia a Bola de Ouro, acreditava mais do que eu.”

Sir Alex Ferguson, treinador do Manchester United, observa o garoto a quem deu o lendario número 7 dos Diabos Vermelhos. A discreção do “Master” é britânica, nenhum tapa nas costas, sua presença silenciosa, mas imponente, basta. Cristiano Ronaldo fixa o olhar no mestre e se enche de coragem: “Não dou bola para as críticas, respondo dentro do campo.” Ferguson aprova com rispido movimento de cabeça. Cumplicidade paterna.

Assista o vídeo com os melhores momentos de Cristiano Ronaldo, aqui

Por Antonio Ribeiro

08/12/2008

às 8:38 \ Futebol

O 7 de ouro

Os anos nem sempre foram dourados. Não para o menino prodígio, filho de pescador e cozinheira, criado em biboca da Quinta Falcão, bairro pobre dos menos freqüentáveis de Funchal, na Ilha da Madeira, 650 quilômetros do continente africano. E bem recentemente, apesar de jovem, já famoso e enricado, o tablóide londrino The Sun estampava sua fotografia no centro de um alvo, sugerindo aos leitores: “Mirem entre os olhos”. Contrário do que possa imaginar, não foi campanha, digamos a moda anglo-saxônica, “out of the blue” do jornal, mas resposta ao sentimento coletivo do reino de Elizabeth Alexandra Mary Windsor. Os torcedores enviavam, diariamente, cartas caluniosas – algumas delas continham pó branco para ser confundido com Antrax. Durante programa na TV, o centroavante da equipe inglesa e do Newcastle, Alan Shearer, revelou a vontade de dar-lhe sopapos devido à personalidade arrogante e comportamento mimado. Dentro das quatro linhas, a imaturidade governava seu extraordinário talento. Embora espetaculares, suas fintas eram gratuitas, evanescentes. Isto no esporte bretão, na Inglaterra, um dos melhores gramados do pragmatismo de Charles Sanders Peirce (1839 – 1914), onde a exigência pela busca do gol deve ser permanente, obsessiva para se chegar ao êxito. Ex-colega, o experiente goleador holandês Rudd van Nistelrooy que levou dele um soco no nariz, oferecia veredicto nada acalentador: “Tem muito show no seu jogo, ele não provoca temor nos adversários.” O ocupante da lendária camisa 7 do Manchester United, de George Best (1963 – 1968), Eric Cantona (1993 – 1997) e David Beckham (1993-2003), lembrava uma gazela saltitante entre leões enfurecidos. O fim parecia fixado pelo fado. Mas Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, de 23 anos de idade, batizado em homenagem ao ator e ex-presidente americano Ronald Reagan, driblou o destino. Bem à frente do argentino Lionel Messi, do FC Barcelona e do espanhol Fernando Torres, do Liverpool, ele terminou 2008 com Bola de Ouro.

No auge da forma, alguns jogadores de futebol fazem tão bem à galera que deveriam ser remunerados pela Previdência Social. Este ano, foi o caso de Cristiano Ronaldo, o sucessor de Eusébio e Figo, cujo salário mensal é de 708.000 euros fora bônus e as publicidades que rendem 10 milhões de euros anuais. Durante 4.245 minutos, em 52 jogos, Cristiano Ronaldo estufou as redes em 42 ocasiões – 9 vezes de cabeça. Em média, fez um gol em cada 100 minutos. “Feito raro e ainda mais difícil para quem joga nas laterais do campo”, diz a VEJA.com seu treinador Sir Alexander Chapman Ferguson. Há duas estratégias para ganhar a Bola de Ouro, o prêmio de melhor jogador da Europa, resultado do voto de 96 jornalistas esportivos internacionais, promovido pela revista francesa France Football – todos listaram Cristiano Ronaldo entre os cinco primeiros e, nos 480 pontos possíveis, o português conseguiu 446. A primeira consiste em bom desempenho nos jogos de fim de semana dos campeonatos nacionais e, nas terças e quartas-feiras, ser eficaz na Liga dos Campeões, a competição mais prestigiosa do futebol depois da Copa do Mundo. O outro método é mais radical. Resume a grandes exibições nas partidas importantes da seleções nacionais. A conquista de Cristiano Ronaldo repousa quase exclusivamente nos momentos em que vestiu a camisa 7 do Manchester United, onde ele é o primeiro a chegar para treinar e a deixar as dependências do clube mais rico do planeta 30 minutos depois de seus colegas boleiros. Foi campeão da Premier League inglesa e venceu contra o Chelsea, em Moscou, a Liga dos Campeões dos clubes europeus, sendo artilheiro máximo em ambas as disputas. No Euro 2008, jogando machucado, Cristiano Ronaldo conseguiu levar seu Portugal às quartas-de-final, onde foi eliminado pela Alemanha. A escolha do France Football coincide quase sempre com o troféu da FIFA de melhor jogador do ano, eleito pelos treinadores e capitães das seleções. Os analistas costumam ver Kaká como a unidade de medida e o avesso de Cristiano Ronaldo. Os atletas têm a mesma idade, jogam em posições parecidas, não são goleadores puros, mas possuem a habilidade de construir desde a intermediárea – e às vezes, antes dela – o lance determinante do esporte em que praticam. Em 2007, Cristiano Ronaldo foi o segundo jogador mais votado, depois de Kaká que levou a Bola de Ouro. Este ano, Kaká ficou em oitavo lugar, prejudicado pelas contusões e desempenho ruim do Milan AC.

A partida de estréia de Cristiano Ronaldo no futebol profissional, dia 7 de outubro de 2002, deve-se a quatro meses de depressão nervosa do brasileiro Mário Jardel. Cristiano Ronaldo tomou seu lugar no Sporting Portugal, fazendo dois gols sob os olhares de dona Dolores, sua mãe. Contudo a alavanca definitiva para glória aconteceu em partida amistosa contra o Manchester United. O desempenho de Cristiano Ronaldo impressionou tanto Sir Alex Ferguson que o treinador escocês dos Diabos Vermelhos exigiu encontrá-lo no intervalo. Depois da partida, nova reunião. Resultado: aos 18 anos de idade Cristiano Ronaldo foi jogar na Inglaterra por 18 milhões de euros e lá, formou com Ferguson uma espécie de promissora relação pai e filho. Aqui é preciso pedir tempo. Meu caríssimo leitor, você sabe o que significa para um garoto imigrar para ambiente hostil e exigente, onde o erro raramente é tolerado, sobretudo, em quem se deposita a expectativa de reviver as maiores glórias de um clube fundado em 1878? Na resposta está o germe da personalidade irascível em que se transformou Cristiano Ronaldo. A força motriz para chegar a maturidade. O ímpeto que Sir Alex Ferguson aproveitou para encetar a metamorfose do artista criativo e egoísta em homem de equipe. A julgar pela reação da população do estádio Old Trafford a missão foi cumprida. Ela deixa os versos chauvinistas dos Lusíadas bater nas canelas quando canta, em tradução pudica:

Ele joga na direita,

Ele joga na esquerda,

O garoto Ronaldo humilhou a equipe da Inglaterra.

Ou urra depois de cada bela jogada:

“Só há um Ronaldo.”

Ou ainda :

“Viemos só para ver Ronaldo.”

Distante de 9.000 quilômetros do Velho Continente, amortecido por uma formidável tradição futebolística, o Brasil não costuma reconhecer de imediato as grandes estrelas do futebol europeu. Às vezes, a ficha cai da maneira mais brutal, chega na figura do carrasco. Os casos mais emblemáticos são o de Hendrik Johannes Cruyff que ajudou o Carrossel holandês eliminar o Brasil na Copa de 1972 e do cabila Zinedine Yazid Zidane, personagem central do fatídico 12 de Junho de 1998, no Stade de France, em Paris. Cristiano Ronaldo pertence a este naipe. Homem de ouros. Pode se ir até mais longe sem ousadia. Se não fosse a conquista do bicampeonato mundial, Cristiano Ronaldo não deveria nada à Mané Garrincha, o rei do um contra um e, as vezes, do solitário contra dois, três… Pondere-se que nos tempos de Mané, o jogo era mais lento; os zagueiros ofereciam mais tempo e espaço; os esquemas defensivos, setor que mais progrediu, não eram tão sofisticados quanto os que Cristiano Ronaldo enfrenta. As táticas modernas relegaram aos grandes dribladores uma função menor em detrimento ao sacrossanto conjunto da equipe. Mas como Pelé, Maradona, Zico e Zidane, o dono da 53ª Bola de Ouro não evita entortar adversários ou deixá-los comendo poeira. O que falta a ele, cuja velocidade é louvada por Kaká e os tiros a partir de bola parada, atormenta os goleiros mais confiantes? Segundo Sir Alex, um treinador feito sob medida para os talentosos jogadores intratáveis, Ronaldo precisa encurtar o tempo de suas tomadas de decisão. O dilema do “driblo, passo ou enfio o pé”?

Domingo, 7 de dezembro, Cristiano Ronaldo foi buscar sua Bola de Ouro durante o programa Teléfoot, do canal de televisão francês TF1. Sua alegria era quase do tamanho da ansiedade de receber o prêmio quando na semana passada, o ganhador foi anunciado. “Eu sonho como este momento desde menino”, disse ele, acariciando o objeto de 8 quilos de metais nobres e brilhantes. Longe dos gramados, Cristiano Ronaldo tem bem menos interesse. Provoca desconfortável antipatia pela incontrolável pretensão e enseja o perigo de quem sabe bem uma coisa só, no caso: jogar bola. Concede-se não é pouco. Quanto ao Ballon d’Or, o vencedor fez apenas um comentário: “Ela é pesada.”

Por Antonio Ribeiro

16/10/2008

às 7:28 \ Futebol

Os ecos da vaia

Escrever 24 horas antes dos jornais é um prazer. Leia a nota seguinte a esta. A vaia a Marselhesa, hino nacional francês, durante o jogo França e Tunísia, ainda ecoa. Ou melhor, faz barulho. Três importantes matutinos franceses abordaram o assunto hoje, na primeira página. A edição do diário conservador Le Figaro titula: Indignação geral depois das vaias contra a Marselhesa. O jornal esportivo L’Equipe: O futebol não merece isso! O tablóide de esquerda Liberation: Marselhesa, calma lá. Os principais jornais brasileiros não publicaram uma linha. Bem, as vaias a Dunga falam mais alto. A Folha de São Paulo publica uma notinha sobre a permanência de Raymond Domenech como treinador da equipe francesa. Quem sabe amanhã leremos sobre os apupos no Stade de France?

O governo de Nicolas Sarkozy que anda propondo refundir o sistema financeiro internacional quer punir quem vaiar a Marselhesa e interromper as partidas de futebol quando isso acontecer. O artigo 433-5-1 do Código Penal francês prevê 6 meses de prisão e multa de 7.500 euros para quem “ultrajar publicamente o hino nacional ou a bandeira tricolor.” A lei nunca foi aplicada desde que foi criada em 2003. A interrupção das partidas de futebol não é tão simples. Quem toma a decisão? O arbitro? O presidente da Federação Francesa de Futebol? O ministro do Interior? E a partir de que intensidade os apupos configuram ofensa ao símbolo da República? O regulamento da FIFA só determina a interrupção da partida se houver “força maior”. Vaiar o hino não faz parte da categoria. Em 2005, seguido aos graves incidentes do jogo Suíça e Turquia, Sepp Blatter, presidente da FIFA chegou a cogitar a supressão dos hinos antes das partidas, mas voltou atrás.

Durante a partida França e Tunísia a única medida que fez calar a ira santa dos torcedores franceses de origem tunisiana foi dois golaços do atacante francês de origem martiniquense, Thierry Henry. O capitão, camisa 12 da França, virou o jogo no campo. No vestiário, Henry não perdeu o humor: “Foi a segunda vez em três dias que jogamos fora de casa.” Vaiar o hino pode parecer uma revanche pós-colonial ou um manifesto contra a discriminação. Se não fosse um desrespeito e deselegância em arena circunscrita exclusivamente a disputa esportiva, atacar a Marselhesa é sinal de ignorância. O hino que já foi proibido durante o Império e restauração da monarquia na França é um símbolo querido aos oprimidos que clamam pela igualdade dos cidadãos republicanos ao longo da história. E às vezes, embora raramente, expressão de amizade, como no violão do saudoso Baden Powell. Escute aqui.

ATUALIZAÇÃO: O vespertino francês Le Monde também publicou reportargem sobre as vaias na primeira página: “ A Marselhesa” e o clamor depois do França e Tunísia.

Por Antonio Ribeiro

15/10/2008

às 10:28 \ Futebol

Lucas e o futebol, a Marselhesa e a vaia


Desde que Lucas, de 7 anos de idade, meu filho único, franco-brasileiro, assistiu ao documentário Pelé Eterno, de Anibal Massaini Neto, ele se interessa por futebol quando acorda até a hora em que fecha os olhinhos para dormir — seguidas vezes, depois de ouvir uma história sobre o esporte bretão. E não só. Doravante, Lucas responde em português minhas perguntas em português, idioma que comunico com ele desde que nasceu e cuja primeira palavra pronunciada no berço foi “bola”.

O futebol, esporte que me salvou quando um soldado bósnio-servio cutucou o cano de uma kalashinikov no meu torax, atiçou a curiosidade de Lucas pela história do Brasil e pela geografia em geral. Lucas nasceu hexa campeão — cinco vezes com o Brasil e uma, com a França. Ontem, ele foi levado para ver o primeiro jogo profissional em estádio de futebol. Vestiu a camisa 12 do atacante Thierry Henry, entrou no Stade de France, repleto de torcedores, bandeiras da Tunísia. Henry fez dois gols virando o jogo que a França perdia por um a zero. A Marselhesa, hino francês, foi vaiada. Pela primeira vez, em 17 anos na França, me senti francês. Isso porque a identidade se forja por experiência comum ou em oposição. Assim como a vivencia de mais de 50 anos nas areias e pedras entre o rio Jordão e o Mediterrâneo, distingue os israelenses da diáspora judaica espalhada pelo mundo. Tal como os inconfidentes mineiros contra a monarquia lusa encetaram o sentimento de nacional brasileiro. Isso porque vaiar o hino, queimar a bandeira, embora ensejam livre expressão individual, configuram manifestação de pequenez, deselegância. Isso porque o primeiro jogo de futebol, o menino nunca esquece.

Nicolas Sarkozy convocou hoje Roselyne Bachelot, ministra do Esporte, e Jean-Pierre Escalettes, presidente da Federação Francesa de Futebol. Emergiu da reunião a decisão de que quando o hino francês for vaiado, o jogo será interrompido imediatamente e todos os membros do governo presentes, deixarão o estádio. “A manifestação é uma revelação alarmante da fratura entre parte da população francesa de origem magrebina e o resto da sociedade”, declarou o porta-voz” da organização SOS Racismo. Os jogadores da França e Tunísia entram em campo de mãos dadas, se posicionaram intercalados para ouvir os hinos. A cantora francesa de origem tunisiana Lââm foi escolhida para interpretar a Marselhesa afim de evitar a repetição dos cenários que já aconteceram nos amistosos França e Argélia (Outubro de 2001) e França contra o Marrocos (Novembro de 2007). Não funcionou. “Mesmo se a França manteve uma política colonial na Tunísia durante décadas, mesmo se os franceses de origem tunisiana e mais amplamente, os franceses de origem magrebina, são vitimas freqüentes de discriminação e de mal tratos policiais, mesmo se a Republica não cumpriu suas promessas com a minoria, é inadmissível humilhar, vaiando hino nacional” declarou Razzy Hammadi, secretário nacional do Partido Socialista.

Lucas promete um gol nesta quarta-feira em homenagem a Jerôme, seu professor de origem tunisiana na escolinha de futebol. Ele vai com a camisa canarinho número 7, de Garrincha e Jairzinho, ambos do Glorioso Botafogo.

Por Antonio Ribeiro

19/09/2008

às 17:18 \ Futebol

Biografia não autorizada: Zidane, uma vida secreta.

Aguardado com ansiedade, o livro Zidane, une vie secrete (Zidane, uma vida secreta), do jornalista Besma Lahouri, revela pouco do lado escondido da maior estrela do futebol francês. A biografia não autorizada fez mais barulho antes de ser publicada, quando os manuscritos foram roubados nas residências dos detentores. Contudo, o livro faz duas revelações curiosas :

1. Na Copa do Mundo de 1998, Zinedine Zidane foi expulso durante a partida França x Arábia Saudita. O regulamento da FIFA determina (sem obrigação absoluta) que os jogadores que recebem cartão vermelho sejam submetidos ao exame antidoping. Não foi o caso com Zidane. A situação se repetiu no final da Copa do Mundo 2006. Depois de dar uma cabeçada no peito do zagueiro italiano Marco Materazzi, Zidane foi expulso do campo. Uma vez mais, o jogador francês que fazia sua despedida do futebol, não foi submetido ao exame antidoping.

2. Em dezembro de 2006, Zidane foi visitar a Argélia, terra natal dos seus pais. O farmacêutico Akbou, primo de Zidane, tomou a palavra em uma reunião pública para homenagear o craque: “Aquela cabeçada é um gesto típico da nossa terra.” Zidane levantou-se estupefato. Foi em direção ao primo como dedo indicador em riste: “Jamais repita que eu fiz bem ao dar uma cabeçada em Materazzi, fiz mal e me arrependo.” Seis meses antes, Zidane tinha explicado o seu gesto, durante uma entrevista para a TV francesa Canal +: “Não posso me arrepender, o culpado é aquele que provoca.”

Por Antonio Ribeiro

 

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