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Arquivo da categoria ‘Futebol’

“Falar em desaparecidos é eufemismo”

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 | 16:45

haiti1A sensibilidade, delicadeza e elegância é do ministro da Defesa, Nelson Jobim, em Porto Príncipe, capital do Haiti - imensa favela transformada pelo terremoto de efeito 35 vezes superior à bomba atômica de Hiroxima em campo de refugiados com milhares de mortos, moribundos, feridos, onde falta tudo e impera o sofrimento e o desespero.

E o ministro fez questão de esclarecer que “desaparecido é o termo técnico para corpos não encontrados”. Verborréia também é termo técnico.

Imaginem o que Vossa Excelência não diria nas horas graves em uma cadeira cativa verde e amarela do Conselho de Segurança da ONU.

Atualização: Os soldados das equipes de resgate de trinta países podem protocolar pedido canonização no Vaticano.  Basta apresentar no guichê da Santa Sé a premissa de Jobim e o seguinte: uma semana depois do terremoto no Haiti, eles conseguiram realizar mais de 100 vezes o milagre de Jesus, segundo os evangelistas, com Lázaro.

Por Antonio Ribeiro

Gillette corta a bola da mão de Henry

sábado, 28 de novembro de 2009 | 19:49
A raquete, o taco e a mão no bolso

A raquete, o taco e a mão no bolso. Agora é tarde.

Zelosa com sua imagem, a empresa multinacional Gillette retirou a bola da mão, em uma das suas publicidades, do atacante francês Thierry Henry, garoto-propaganda da marca com quem tem um contrato de 8,4 milhões de dólares anuais. A jogada tenta prevenir os efeitos desastrosos para vendas de seus produtos depois que o jogador trapaceou, tocando e controlando a bola com a mão, para ajudar no gol que classificou a França para Copa do Mundo de 2010.

Apesar de na Irlanda a empresa de apostas esportiva Paddy Power ter feito uma publicidade jocosa no aeroporto da capital Dublin - “Seja bem-vindo a Irlanda, salvo se seu nome é Henry” - acompanhando o clamor de torcedores locais para boicotar os produtos promovidos pelo atacante francês, a imagem de Thierry na publicidade da Gillette foi mantida com a bola.

Na França, onde 8 em cada dez franceses reprovam o gesto irregular, Thierry aparece com a mão no bolso. Os publicitários franceses acham que o gato subiu no telhado. A Gillette prepara o rompimento do contrato. O serviço de comunicação da gigante Procter & Gamble, proprietária da Gillette, diz que não. Em todo caso, a empresa gostaria que o jogo fosse refeito, que a trapaça não tivesse acontecido. Na impossibilidade, refez o que está ao seu alcance, sua publicidade.

Segundo lista da revista Forbes, Thierry Henry é o terceiro jogador de futebol que mais lucra com a publicidade, seus contratos somam 28 milhões de dólares anuais. Além da Gillette, o atacante faz propaganda para a Pepsi e a Reebok. Henry só perde para David Beckham (46 milhões de dólares) e Ronaldinho Gaúcho (33 milhões de dólares).

Tiger Woods, companheiro de Henry na publicidade da Gillete, ao lado do tenista Roger Federer também passa por um inferno astral. Ele sofreu um acidente de carro depois de uma briga com a mulher. O Cadillac Escalade, de Woods, foi danificado pelos choques com um hidrante e uma árvore em frente à casa do golfista. O vidro traseiro foi quebrado a golpes com taco de golfe. No local do acidente, a polícia da Flórida encontrou Woods, de 33 anos, estendido no chão e sua mulher, Elin Nordegren,  de 29 anos, prestando-lhe socorro. As autoridades querem saber o que houve? O taco de golf de Woods continua na publicidade.

Por Antonio Ribeiro

Henry: “O mais justo é voltar a jogar a partida”

sexta-feira, 20 de novembro de 2009 | 13:32

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Depois da negativa da FIFA em atender o pedido oficial da Federação Irlandesa de Futebol e no centro de um debate que inflama a Europa, Thierry Henry saiu de sua reserva em uma contrição: “O mais justo é voltar a jogar a partida, mas isso não depende de mim.” Desde o fim do jogo da França contra a Irlanda, Thierry Henry vem sendo aconselhado por um grupo que administra situações de crise, um time zeloso para restaurar a imagem do jogador, garoto propaganda de primeira linha. “Claro que estou incomodado com a maneira como conquistamos a vaga para Copa. Sinto muito pelos irlandeses, eles mereciam ir à África do Sul”, lançou ele, em inglês. A tolerância com a falta de fair play no outro lado do Canal da Mancha é bem menor do que aqui, na França.

Quanto ao lance  irregular que originou o gol da classificação dos Bleus para Copa da África do Sul, Henry justificou com a seguinte falsa inocência:  “Foi uma reação instintiva, a bola estava muito rápida. Nunca deixei de admitir que usei a mão para controlar a bola. Eu disse aos jogadores da Irlanda, ao árbitro e à imprensa depois do jogo. Não sou nem nunca fui desonesto.” Para Thierry a “mão de Deus” de Maradona tem funcionado mais como a “mão do diabo.” Os franceses estão envergonhados. A internet esta infestada de escarnios e ofensas sobre o jogador. O atacante tornou-se piada nos jantares refinados e em papos de bistrô. Não surpreende que o capitão da equipe francesa tome distancia da FIFA na razão oposta que Fausto, personagem principal da obra mais famosa do pai da literatura alemã, Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), achegou-se ao grão-tinhoso, o capeta.

Eric “Oo! Aah!” Cantona, ex-atacante do Mancherter United, o mais querido jogador francês da história do futebol inglês, foi mais longe. “Honestamente, o que me chocou não foram os toques de mão, mas no fim do jogo este jogador sentar-se a beira do gramado ao lado de Richard Dunne para consolá-lo do efeito de sua trapaça.” E arrematou com a franquesa louvada nas duas margens do Canal da Mancha: “Se eu fosse irlandês, eu teria lhe enfiado a mão, não duraria três segundos.”

Por Antonio Ribeiro

FIFA diz “não” aos irlandeses

sexta-feira, 20 de novembro de 2009 | 9:04

FIFA: "Para o bem do jogo"

FIFA: "Para o bem do jogo"

A FIFA decidiu não atender a reivindicação dos irlandeses. Não haverá novo jogo entre França e Irlanda. A entidade que governa o futebol mundial justifica a decisão em um comunicado. “O resultado do jogo não pode ser modificado,  a partida não pode ser refeita. Como mencionado, claramente, nas Regras do Jogo (Laws of the Game), durante as partidas, as decisões tomadas pelo arbitro são definitivas.” Em 2005, a FIFA anulou um jogo entre Ubesquistão e Bahrain. Motivo: erro técnico do juiz. Um jogador penetrou na grande área durante a cobrança de um pênalti. O juiz nada marcou. O caso do duplo toque de mão de Henry, 17 minutos antes do fim da dramática prorrogação, que resultou no gol do zagueiro Gallas classificando a França para Copa da África do Sul, é considerado diferente. Trata-se, segundo a FIFA, de uma apreciação do juiz. A questão não é se houve toques de mão — como negar com imagens tão claras? — mas se o gesto foi voluntário ou não. O juiz sueco Martin Hansson, depois de consultar seus auxiliares de arbitragem, decidiu que o gesto foi involuntário.

Ontem, os políticos entraram em campo. Durante uma reunião em Bruxelas, o primeiro-ministro irlandês Brian Cowen abordou o assunto com Nicolas Sarkozy. O presidente francês lavou as mãos: “As instâncias que governam o futebol é que devem decidir.” E adicionou que poderia, uma vez mais, ser criticado por ser hiperativo. O primeiro-ministro francês retrucou seu colega irlandês: “Os políticos não devem se meter no assunto.” Mas nem todos dentro governo francês jogaram no mesmo time. A elegante ministra da Economia, Christine Lagarde, considerada recentemente pelo Financial Times “a mais eficiente da Europa”, saiu da sua habitual discrição: “Foi uma trapaça.”

FIFA: "Meu jogo é limpo"

FIFA: "Meu jogo é limpo"

O lendário treinador do Manchester United, Sir Alex Ferguson, engrossou o coro dos que clamam pela introdução do vídeo para ajudar a arbitragem decidir em lances controversos nas partidas de futebol. “O juiz não poderia ter visto o lance, é obvio que há questão sobre a ajuda tecnológica, mas a FIFA e a UEFA preferem a decisão humana.  Técnicos e jogadores no mundo pensam como eu, a tecnologia pode desempenhar um papel na arbitragem, pode ajudar o juiz.” Contra o argumento que a consulta ao vídeo quebraria o ritmo do jogo, Fergunson diz: “Em jogo de futebol, o tempo médio de ação é 65 minutos, verificar o vídeo leva um minuto. Quando tempo um goleiro retém a bola fazendo “cera”. Quanto tempo um jogador simula contusão paralisando o jogo?”

Por Antonio Ribeiro

“Mr. Hansson, foi mão”

quinta-feira, 19 de novembro de 2009 | 19:56

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Imagine o leitor se Thierry Henry tivesse dito ao arbitro sueco: “Mr. Hansson, foi mão”.  A frase entraria para história. Seria repetida quando a honestidade fosse tema no esporte e fora dele. O pai diria ao filho, o professor diria ao aluno: “Mr. Hansson, foi mão.” Talvez os torcedores franceses ficassem surpresos em um primeiro instante, mas é bem provável que quando a ficha caísse, o Stade de France aplaudiria. Se Thierry Henry tivesse dito, “Mr. Hansson, foi mão”, ele seria reverenciado para sempre como ícone do fair-play. Ninguém deixaria Henry pagar, durante sua existência, sequer um cafezinho em bistrô que entrasse. A França teria um novo héroi. Agora, estão aí as gerações mais velhas, como aconteceu com a cabeçada de Zinedine Zidane no torax do zagueiro Marco Materazzi, dizendo aos mais jovens que os ídolos são humanos, que aquilo não foi direito. A França está envergonhada e a carreira de um grande atacante com uma baita mancha indelével.

Aqui, as vezes, se esceve sobre esporte, mas notem, não bem sobre esporte, na acepção  literal do substantivo, que se escreve aqui. É sobre algo que transcende.

Por Antonio Ribeiro

Mãos ao alto!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009 | 8:35

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Os dois lendários e mais respeitados jornais de esporte da Europa publicaram nas suas primeiras páginas a história do lance vergonhoso — impedimento e toque duplo de mão do atacante e capitão do time, Thierry Henry — que classificou a França para Copa do Mundo da África do Sul. O francês L’Equipe titula: “Mão de Deus”. E faz um comedido editorial — Perfil baixo”— em cima da foto da ação. “Não há comemoração, mas alívio,” escrevem sobre o sentimento hoje entre os torcedores franceses. O italiano La Gazzeta dello Sport, é mais específico. Publica frase do treinador da Irlanda, Giovanni Trapattoni: “Che furto!” Quer dizer: “Que furto!”

Em Paris, os imigrantes e franceses de origem magrebina comemoraram a classificação da Argélia para Copa depois da vitória sobre o Egito. A maioria dos torcedores dos Bleus manifestaram desconforto e diferentes níveis de vergonha após a classificação da França. Em Zurique um porta-voz da FIFA descartou a possiblidade agurmentando que segundo as regras do futebol o arbitro do jogo tem a palavra final. Bem, segundo as regras do fubebol… toque de mão só vale para os goleiros.

Por Antonio Ribeiro

Mão de Henry classifica a França para Copa

quarta-feira, 18 de novembro de 2009 | 21:41
Thierry Henry: "Foi mão, mas eu não sou o juiz do jogo"

Thierry Henry: "Sim foi mão, mas eu não sou o juiz do jogo"

A ação irregular do atacante francês que ajudou o passe para o defensor Gallas marcar o gol que classificou a França para Copa do Mundo da África do Sul foi ainda mais clara que a famosa “Mão de Deus” de Maradona contra a Inglaterra nas quartas-de-final da Copa do México, em 1986. Milhões de telespectatadores viram ao vivo. E reviram várias vezes nos videotapes. Só o juiz sueco Martin Hansson - e seus três colegas de arbitragem - não viu ou fingiu não ter visto.

Depois da partida, Thierry Henry admitiu ter controlado a bola com a mão. “Sim, foi mão, mas eu não sou o juiz do jogo,” disse o número 12 da França.  O italiano Giovanni Trapattoni, treinador da Irlanda, declarou: “Nós vimos o arbitro hesitar, olhar para o Henry, ele deveria ter lhe perguntado. Se o juiz tivesse colocado a questão ao Henry, o atacante teria dito.”

Veja o lance pelo vídeo da TV francesa TF1 onde Henry, em impedimento, toca duas vezes com a mão na bola:

Internautas organizaram um abaixo assinado pedindo a Joseph Sepp Blatter, presidente da FIFA, o uso de vídeos nas partidas de futebol para ajudar o árbitro decidir lances duvidosos. Ela está aqui. Dermot Ahern, ministro da Justiça da Irlanda e apaixonado por futebol, pediu a FIFA que organize um novo jogo. “É o mínimo que devemos para milhões de torcedores jovens ou ficará a impressão de que se você trapacear, você ganha.” Alguns torcedores iniciaram a campanha  na internet para boicotar produtos que Thierry Henry anuncia. A Gillette, fabricante de lâminas para barbear, escolheu o atacante francês, o tenista Roger Federer e o golfista Tiger Woods, porque segundo a companhia, eles representam os “verdadeiros valores do esporte”.

Por Antonio Ribeiro

Florentino coloca o Real Madrid na linha

segunda-feira, 28 de setembro de 2009 | 7:01
No esquadro de Florentino: Cristiano Ronaldo e Kaká

No esquadro de Florentino Pérez: Cristiano Ronaldo mira no exemplo del Curato

O empreiteiro madrileno Florentino Pérez gastou 256 milhões de euros para contratar mão de obra qualificada. Kaká, Cristiano Ronaldo, Karim Benzema, Xabi Alonso. Isto na Espanha, onde 8 em cada 10 operários da construção civil perderam o seu ganha pão no ano passado. O índice de desemprego no reino da Península Ibérica é de 18,5% do Produto Interno Bruto, o maior da Europa.

Se não fosse a recusa renitente do Bayern de Munique, Pérez teria desembolsado mais 70 milhões de euros levando o atacante francês Frank Ribery para o Real Madrid, clube que  comanda desde junho de 2008. Aceita a proposta, ela seria a venda mais cara do esporte bretão depois da compra de Cristiano Ronaldo. A gastança não para aí. Até 2010,  orçamento do Real mira nos 442 milhões de euros, são 15 milhões de euros a mais do que o da temporada anterior.

A valentia de Pérez leva crer a conta bancária do Real em denso azul como o uniforme alternativo do time. Não é o caso, longe disso. O clube madrileno amarga uma dívida de 457 milhões de euros, um passivo financeiro de 564 milhões de euros - quase o triplo do seu patrimônio, estimado em 196 milhões de euros. Acionários de empresas em situação análoga - e o Real faz parte desta divisão - já estariam apertando com força o botão de alarme.

No entanto, 907 sócios entre os 1.012 presentes na última Assembleia Geral do Real Madrid, dia 20 de setembro, foram favoráveis ao plano financeiro apresentado pelos tesoureiros de Florentino Péres. Mais: deram mínima atenção para o aumento de 10%  em suas contribuições anuais. Situação em que o pintor Francisco José de Goya y Lucientes (1746 - 1828), fabuloso cronista pictórico de seu tempo, teria feito um quadro com gosto.

Já é a segunda vez que Florentino monta uma equipe de sonhos a preço de ouro. A formação de Luis Figo, Ronaldo Nazário, Zinedine Zidane, David Beckham, Raul e outras estrelas, inscreveu-se na história com o apelido de Galácticos. O Real entre os anos 2000 e 2006, a primeira gestão da presidência Florentino Péres, foi bicampeão da Liga da espanhola, ganhou a Copa e a Supercopa da Europa. Conquistou também algo que o nome não reflete o rosto, mas é considerado a cereja em cima do bolo, o Campeonato Intercontinental de Clube — a partida patrocinada pela Toyota em Tóquio entre os clubes campeões da América do Sul e Europa.

Títulos e os salários milionários dos Galácticos criaram uma situação onde correr atrás da bola transformou-se na menor dos preocupações dos jogadores. Os merengues daquela época eram mais vistos em discotecas, revistas de celebridades e em anúncios publicitários do que em campo. O time passou a ser chamado, jocosamente e com escárnio, de “Zidane e os Pavões”. A sequência de derrotas vexatórias acabou com a fiesta e com as siestas. O time foi desfeito. A lembrança do precedente é o único receio que o comando do popular Florentino Pérez provoca.

Para contrapor, o presidente do Real acaba de introduzir uma novidade no futebol. Doravante, os jogadores do Real devem respeitar um código de boa conduta. São 8 mandamentos que incluem a pontualidade nos treinos, simpatia com os torcedores, respeito aos valores do clube fundado em 1902 e mais vitorioso do século passado, a mentalidade do esforço, vestuário comedida, colaboração estreita com os dirigentes e com a imprensa, e limitação nas atividades a risco. Mas sobretudo, a proibição de noitadas durante o período de trabalho. Quem não respeitar, paga multa pesada, 100.000 euros.

O alvo não é Kaká, a quem os companheiros de equipe chamam, carinhosamente, de El Curato - O Padreco. Florentino não quer seus atletas imitando o comportamento de Cristiano Ronaldo - salário de 24.657 euros por dia - fora das quatro linhas. Exemplo: escapada hollywoodianas para namorar fogosas como a modelo Paris Hilton nem pensar. A medida já teve feito imediato. Cristiano e Benzema declinaram a oferta de acesso VIP ao Budha e ao Garamond, os dois clubes noturnos mais badalados da capital espanhola, terreno de outras conquistas dos velhos Galácticos, solteiros ou casados.

A punição às transgressões extra campo dos jogadores milionários sustenta em contexto particular. Uma pesquisa revelou que embora desempregados, alguns torcedores do Real ainda encontram jeito de pagar o ingresso para manter ocupados a maioria dos 80.350 confortáveis lugares do Estádio Santiago Bernabéu. A crise econômica espanhola não afetou a venda das camisas do clube - 70 reais cada. Seguido a assinatura do contrato com o Real, Cristiano Ronaldo fez vender 15 camisas com seu nome estampado nas costas em um minuto.

Em contrapartida, as reações dos torcedores contra resultados ruins tornaram-se mais contundentes. O fenômeno não se restringe a Espanha, ele vai ganhando força na Europa que vive sua recessão mais dura desde a Segunda Guerra. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, foi surpreendido no início de setembro por torcedores do Milan AC quando saía de um festival de música latino-americana de Assago, na Itália. Eles não queriam autógrafos nem fotos do atacante, aproximaram-se dele para dar uma bronca: “Vai para casa dormir.”

Ronaldinho Gaúcho transformou-se, traço por traço, no retrato falado do jogador de futebol intolerável em tempos de crise. Ele tem um salário milionário, desempenho pífio - joga bem abaixo do nível do ganhador da Bola de Ouro 2005 - e carrega a fama inapelável de serial festeiro. Ninguém dá bola para o perna de pau e farrista que ganha pouco.

Por Antonio Ribeiro

Quem vigia os guardiões das leis?

terça-feira, 12 de maio de 2009 | 5:45

O melhor campeonato de futebol do planeta é a Liga dos Campeões europeus, depois da Copa do Mundo. Compreensível se lembrada uma observação velha como século XIX. O autor da Comédia Humana, Honoré de Balzac, dizia: “O melhor jornal de Paris é feito pelos melhores jornalistas de Paris.” Na Copa, jogam os mais talentosos na arte de lidar com a bola. Um grupo seleto entre eles capricham nos gramados do Velho Continente defendendo as cores das equipes campeãs que compõe a Liga da União das Associações Européias de Futebol, a UEFA.

Por que é assim? Por causa do dinheiro. Mas não só. A mais inteligente gerência do esporte bretão também está aqui. Sobretudo na Inglaterra. Depois, em ordem decrescente, na Espanha, Itália e Alemanha. O futebol europeu com sua legião estrangeira de chuteiras douradas tornou-se rentável engenho de prazer e emoções que faz saltar os torcedores das arquibancadas e do sofá, os assinantes de TVs a cabo.

Na semana passada, Barcelona e Chelsea disputaram a vaga para final no Estádio Olímpico de Roma, dia 27 de maio, contra o Manchester United - será o duelo do português Cristiano Ronaldo e do argentino Lionel Messi. Foi um jogaço no Stamford Bridge com dois belos gols, um de cada lado, do ganês Michael Essien e do castelhano Andrés Iniesta. Aqui vai uma má notícia para os brasileiros: o Barcelona melhorou muito depois da ida de Ronaldinho para o Milan. O Chelsea sem Scolari é muito melhor time hoje. A partida teria sido mais uma se não fosse pelo norueguês Tom Henning Ovrebo, o árbitro.

O dono do apito deixou de marcar não um, mas quatro pênaltis cristalinos em favor do Chelsea. O jogo terminou em empate. O resultado classificou o Barcelona - não houve gols na primeira disputa em Camp Nou, portanto os espanhóis ganharam a vantagem porque marcaram no campo do adversário. Os atacantes do Chelsea, o africano Didier Drogba e o alemão Michel Ballack, perderam o sangue frio, se é que já tiveram um dia: insultaram o juiz com razão e sem direito.

Aqui está a questão. Quando um jogador dá um bofetada em um árbitro, ele é punido - os ingleses não chegaram a tanto. E na Europa a sanção é severa. Mas quando o juiz é ladrão? Desculpem-me, mas é meio como enterro de anão. Pouca gente já viu. No caso da partida entre Chelsea e Barcelona o efeito foi ainda mais grave: deu margem para as teorias de conspiração. Houve quem sugeriu que a UEFA não queria repetir a final 100% inglesa de 2008, quando o Manchester derrotou o Chelsea em Moscou.

Normalmente, o corpo de arbitragem da UEFA além da súmula do árbitro, recebe ao final das partidas, um relatório com a análise dos responsáveis pelo cumprimentos da regas da federação européia de futebol. Ele é feito por um enviado especial do Comite de Disciplina e Controle. O árbitro é, digamos, uma espécie de policial em campo, o representante da organização no gramado. Sua aptidão espelha a imagem, a credibilidade da UEFA. Portanto, o veredicto é muito mais sensível. Mas não deveria ser tão secreto!

Faz uma semana que centroavante solitário Didier Drogba, de 31 anos, vem sendo lanhado fora do campo. Isto enquanto o jogo do marfinês vem sendo louvado no mesmo terreno. David Taylor, secretário-geral da UEFA checou acusar o jogador de ferir a campanha “Respeito” da federação européia - espécie de movimento oficial para obedecer a autoridade esportiva. E como se trata de futebol, esporte de penetração e federador (a palavra não existe em português, significa a força de convergência de interesses diferentes e que, considerados individualmente, não têm suficiente visibilidade para lançar um projeto, uma atividade ou uma empresa) como nenhum outro no mundo, tem-se a ambição que a coisa não fique só dentro dos estádios. Os cartolas europeus gostariam que a mensagem moral tivesse efeito contrário à cabeçada do cabila Zinedine Zidane no peito do zagueiro italiano Marco Materazzi na final da ultima Copa - gesto reproduzido pela molecada quando há pendenga na
pelada.

Esta nota foi motivada pela pergunta de um garoto de 8 anos: “Papa, qui juge les juges?” Ela é similar as reflexões de Platão no livro A República: “Quem vigia os guardiões das leis?” A questão, desde o pensamento Antigo, foi melhor equacionada pela democracia através da separação dos poderes independentes que se verificam. Formalmente, os juízes são avaliados por um órgão próprio, o Conselho Superior da Magistratura, integrado por magistrados judiciais e outros representantes não juízes. Na prática, ninguém julga e, quando julga, julga geralmente de forma corporativa. Ou seja, mal. É igual na UEFA, com direito e sem razão.

Por Antonio Ribeiro

“Elementar, meu caro Watson”

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009 | 20:22

Em um comunicado seco, a direção do Chelsea — o clube de futebol inglês que quando joga com time compatriota adversário, a torcida alheia grita, “Inglaterra, Inglaterra”, devido a sua legião estrangeira de jogadores — despediu o técnico brasileiro Felipe Scolari. Isso denota não só o pragmatismo inglês, onde se não há resultados, não há papo. Mostra porque a Primeira Liga inglesa é o melhor campeonato de futebol da Europa — os ingleses pagam e remuneram mais que os italianos e espanhóis, para citar os concorrentes mais próximos.

Dom César Seabra, consultor esportivo do Blog de Paris e chefe do escritório da TV Globo em Nova York, nas horas vagas, comenta a demissão de Filipão: “O professor Scolari está vivendo do passado. Não ganha nada desde 2002. Perdeu a Eurocopa em casa, para a Grécia. O time do Chelsea, dirigido por ele, é uma zona, sem esquema, uma bagunça que inglês não gosta de ver quando paga o caro ingresso do estádio Stamford Bridge ou a sua assinatura de TV a cabo. Mereceu a demissão.”

Ave César, os que vão morrer te saúdam.

Por Antonio Ribeiro