
No esquadro de Florentino Pérez: Cristiano Ronaldo mira no exemplo del Curato
O empreiteiro madrileno Florentino Pérez gastou 256 milhões de euros para contratar mão de obra qualificada. Kaká, Cristiano Ronaldo, Karim Benzema, Xabi Alonso. Isto na Espanha, onde 8 em cada 10 operários da construção civil perderam o seu ganha pão no ano passado. O índice de desemprego no reino da Península Ibérica é de 18,5% do Produto Interno Bruto, o maior da Europa.
Se não fosse a recusa renitente do Bayern de Munique, Pérez teria desembolsado mais 70 milhões de euros levando o atacante francês Frank Ribery para o Real Madrid, clube que comanda desde junho de 2008. Aceita a proposta, ela seria a venda mais cara do esporte bretão depois da compra de Cristiano Ronaldo. A gastança não para aí. Até 2010, orçamento do Real mira nos 442 milhões de euros, são 15 milhões de euros a mais do que o da temporada anterior.
A valentia de Pérez leva crer a conta bancária do Real em denso azul como o uniforme alternativo do time. Não é o caso, longe disso. O clube madrileno amarga uma dívida de 457 milhões de euros, um passivo financeiro de 564 milhões de euros - quase o triplo do seu patrimônio, estimado em 196 milhões de euros. Acionários de empresas em situação análoga - e o Real faz parte desta divisão - já estariam apertando com força o botão de alarme.
No entanto, 907 sócios entre os 1.012 presentes na última Assembleia Geral do Real Madrid, dia 20 de setembro, foram favoráveis ao plano financeiro apresentado pelos tesoureiros de Florentino Péres. Mais: deram mínima atenção para o aumento de 10% em suas contribuições anuais. Situação em que o pintor Francisco José de Goya y Lucientes (1746 - 1828), fabuloso cronista pictórico de seu tempo, teria feito um quadro com gosto.
Já é a segunda vez que Florentino monta uma equipe de sonhos a preço de ouro. A formação de Luis Figo, Ronaldo Nazário, Zinedine Zidane, David Beckham, Raul e outras estrelas, inscreveu-se na história com o apelido de Galácticos. O Real entre os anos 2000 e 2006, a primeira gestão da presidência Florentino Péres, foi bicampeão da Liga da espanhola, ganhou a Copa e a Supercopa da Europa. Conquistou também algo que o nome não reflete o rosto, mas é considerado a cereja em cima do bolo, o Campeonato Intercontinental de Clube — a partida patrocinada pela Toyota em Tóquio entre os clubes campeões da América do Sul e Europa.
Títulos e os salários milionários dos Galácticos criaram uma situação onde correr atrás da bola transformou-se na menor dos preocupações dos jogadores. Os merengues daquela época eram mais vistos em discotecas, revistas de celebridades e em anúncios publicitários do que em campo. O time passou a ser chamado, jocosamente e com escárnio, de “Zidane e os Pavões”. A sequência de derrotas vexatórias acabou com a fiesta e com as siestas. O time foi desfeito. A lembrança do precedente é o único receio que o comando do popular Florentino Pérez provoca.
Para contrapor, o presidente do Real acaba de introduzir uma novidade no futebol. Doravante, os jogadores do Real devem respeitar um código de boa conduta. São 8 mandamentos que incluem a pontualidade nos treinos, simpatia com os torcedores, respeito aos valores do clube fundado em 1902 e mais vitorioso do século passado, a mentalidade do esforço, vestuário comedida, colaboração estreita com os dirigentes e com a imprensa, e limitação nas atividades a risco. Mas sobretudo, a proibição de noitadas durante o período de trabalho. Quem não respeitar, paga multa pesada, 100.000 euros.
O alvo não é Kaká, a quem os companheiros de equipe chamam, carinhosamente, de El Curato - O Padreco. Florentino não quer seus atletas imitando o comportamento de Cristiano Ronaldo - salário de 24.657 euros por dia - fora das quatro linhas. Exemplo: escapada hollywoodianas para namorar fogosas como a modelo Paris Hilton nem pensar. A medida já teve feito imediato. Cristiano e Benzema declinaram a oferta de acesso VIP ao Budha e ao Garamond, os dois clubes noturnos mais badalados da capital espanhola, terreno de outras conquistas dos velhos Galácticos, solteiros ou casados.
A punição às transgressões extra campo dos jogadores milionários sustenta em contexto particular. Uma pesquisa revelou que embora desempregados, alguns torcedores do Real ainda encontram jeito de pagar o ingresso para manter ocupados a maioria dos 80.350 confortáveis lugares do Estádio Santiago Bernabéu. A crise econômica espanhola não afetou a venda das camisas do clube - 70 reais cada. Seguido a assinatura do contrato com o Real, Cristiano Ronaldo fez vender 15 camisas com seu nome estampado nas costas em um minuto.
Em contrapartida, as reações dos torcedores contra resultados ruins tornaram-se mais contundentes. O fenômeno não se restringe a Espanha, ele vai ganhando força na Europa que vive sua recessão mais dura desde a Segunda Guerra. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, foi surpreendido no início de setembro por torcedores do Milan AC quando saía de um festival de música latino-americana de Assago, na Itália. Eles não queriam autógrafos nem fotos do atacante, aproximaram-se dele para dar uma bronca: “Vai para casa dormir.”
Ronaldinho Gaúcho transformou-se, traço por traço, no retrato falado do jogador de futebol intolerável em tempos de crise. Ele tem um salário milionário, desempenho pífio - joga bem abaixo do nível do ganhador da Bola de Ouro 2005 - e carrega a fama inapelável de serial festeiro. Ninguém dá bola para o perna de pau e farrista que ganha pouco.