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Arquivo da categoria França

17/05/2012

às 17:21 \ França

Bonito

O novo presidente da França, François Hollande, fez bonito. Ele decretou uma redução de 30% no seu salário e de todos os seus ministros. Doravante, ao invés ganhar 21.300 euros brutos mensais, ele vai embolsar 14.910 euros. A remuneração é igual ao salário do seu primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault. Os ministros passam de 14.200 euros para 9.940 euros por mês. O contribuinte francês que paga impostos entre os mais elevados da Europa e em um país mergulhado na maior crise econômica-financeira desde a Segunda Guerra Mundial agradece. Merece até aplausos.

Merece mesmo? Vejamos. O novo salário do presidente francês é certamente inferior aos 17.016 euros mensais que a chanceler Angela Merkel recebe para governar a Alemanha, a maior economia do  Velho Continente, Mas o nova remureção de Hollande equivale ao salário de David Cameron, primeiro-ministro britânico – 14.800 euros mensais. Seria pedir muito para que Hollande fizesse como o Presidente do Conselho da Itália, Mario Monti. Entre as medidas anticrise, decidiu receber zero euro por mês. Afinal ninguém é de ferro. Todo trabalho deve ser remunerado.

O melhor vem agora. Hollande reduziu o salário dos seus ministros. Sucede que no inicio do governo anterior havia 15 ministérios e agora, sob administração socialista, são 34! Durante o governo do ex-primeiro-ministro francês François Fillon, a folha de pagamentos de seus ministros representava 383.400 euros mensais. Agora ela é de 337.900. Ou seja, um barulhão  para economizar 45.450 euros por mês. A equipe marqueteira que cuida da imagem do governo Hollande merecia os 45.450 euros.

Mas o que são 45.450 euros mensais de economia para o estado francês, o maior empregador do país? A França tem em torno de 7 milhões de funcionários públicos. Um em cada cinco franceses que faz parte da mão de obra ativa com jornada de trabalho de 35 horas semanais é pago pelo estado. Melhor dizendo, pelo contribuinte, pagador de impostos. Dinheiro do estado, convenhamos, no sentido estrido do termo, não existe. O Tribunal de Contas da França estima que cada funcionário custa ao longo da vida 3,5 milhões de euros. Faça a conta. Eu não dou conta, mas é o montante que o goveno francês deveria prestar contas. Na Grã-Bretanha serão 700.000 funcionários públicos a menos até 2014. Isso sim, é economia de país em crise. Os 45.450 mensais são pura de ma go gi a.

Por Antonio Ribeiro

15/05/2012

às 11:19 \ França

Troca de guarda

Nicolas Sarkozy e François Hollande

Durante cerimônia escrupulosamente sóbria, solene, simples e elegante no Palácio do Élysée, em Paris, François Hollande, de 57 anos de idade, tornou-se o sétimo presidente da Quinta República Francesa. Ele é segundo socialista a governar o país. Mas contrário à posse de François Mitterrand, em 1981, desta vez o júbilo cedeu lugar à temperança devido à tarefa que aguarda o novo presidente, arrancar a França da mais profunda crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial.

No melhor discurso de sua carreira essencialmente de político profissional, breve e sem lirismo, Hollande convidou seus compatriotas a terem confiança nos recursos “consideráveis” da França. Fez um diagnóstico grave da situação: “Uma dívida maciça, crescimento econômico fraco, competitividade degradada, desemprego elevado e uma Europa que sofre para sair da crise.” Prometeu um estado imparcial – “ele é propriedade de todos” – e sua garantias para o funcionamento de uma  justiça independente. “Não podemos ter sacrifícios de um lado e privilégios de outro”, disse Hollande, sob o olhar atento da bela primeira-dama Valérie Trierweiler, a outra metade do primeiro casal de separados na história da Presidência francesa.

Para marcar diferença com seu antecessor Nicolas Sarkozy, acusado de onipresente e hiperativo, Hollande afirmou que estabelecerá as prioridades, mas não decidirá tudo, em todos os assuntos nem em todos os lugares. Hollande citou todos os presidentes da Quinta República adicionando a cada um, uma frase resumindo sua contribuição à França. Na vez de Sarkozy, o presidente alterou a seqüência, desejou seus melhores votos  na “nova vida” do ex-presidente. Enquanto, Hollande seguia para depositar flores no Túmulo do Soldado Desconhecido no Arco do Triunfo, Sarkozy já estava correndo com guarda-costas no Bosque de Boulogne, nos arredores de Paris.

Antes de embarcar para Alemanha onde encontra a chanceler Angela Merkel, Hollande nomeou primeiro-ministro o deputado socialista e prefeito de Nantes, Jean-Marc Ayrault, de 62 anos de idade. (Ayrault pronuncia-se Errô) O jatinho Falcon 7x, da Presidência francesa, no qual Hollande embarcou rumo a Berlim teve que retornar a Paris após ser atingido por um raio em pleno voo. O novo presidente trocou de avião e decolou outra vez em um dia marcado por anúncios. O primeiro registrou que o crescimento econômico da França foi nulo no primeiro trimestre de 2012, 0% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo período, a Alemanha cresceu 0,5% do PIB, índice equivalente a previsão para França até o fim do ano.

Por Antonio Ribeiro

07/05/2012

às 8:40 \ França

Monsieur Normal: “A França não é um país qualquer”

Apreciado o tamanho da multidão que ocupou a Praça da Bastilha em Paris após a vitória de François Hollande, constata-se fácil, ela esteve à altura para comemorar a volta dos socialistas, ausentes da Presidência da França durante 17 anos. A julgar pela efervescência – lembrou a conquista do campeonato mundial de futebol em 1998 – o momento pode se matricular como mais uma tomada de um lugar repleto de simbolismos para os nativos e povos alhures. Isso antes do protagonista da noite subir ao palco. Quando Hollande começou a falar, a razão ficou mais evidente. Tratava-se, acima de tudo, da derrota de Nicolas Sarkozy.

Observadores mais atentos, menos apaixonados, esperançosos de que o momento histórico pudesse encontrar seu par, suspeitaram de que, finalmente, era chegada a hora. O candidato inodoro e insípido, eleito à Presidente da República iria aproveitar o seu melhor instante até aqui para receber quem sabe, o espírito de grandeza de um Charles de Gaulle ou algo da retórica apurada de um François Mitterrand ou buscar na rica literatura dos seus compatriotas alguma inspiração arrebatadora. Definitivamente, o estilo flamante não é o de François Hollande. O mais próximo da arte de bem falar que se pode pinçar no discurso do novo presidente foi o seguinte: “Meço a honra que foi me concedida e a tarefa que me espera.”

A eloquência e o carisma não são traços indispensáveis na liga que forja grandes homens. Muitas vezes, elas ajudam camuflar até a mediocridade. As boas idéias e os grandes feitos acabam por sobrepor as belas palavras e repetição de princípios nobres que não encontram lastro na ação. Enquanto Nicolas Sarkozy, segundo ele próprio, prepara sua partida da vida pública, de braços dados com Carla Bruni, Hollande acordou abraçado com a França real. Um país com índices econômicos aos frangalhos, povoado por indivíduos, nativos e adotados, a procura de um senso de identidade comum que lhes possa trazer, não os tempos gloriosos, mas simplesmente a idéia de nação e a perspectiva perdida da prosperidade.

Além do reconhecimento e da lucidez, Hollande deixou entender que deseja exportar a idéia do fim da austeridade e a inserção de uma dimensão de crescimento no plano de salvação da Zona do Euro. Seria bonito se uma coisa não tivesse estreita ligação com a outra. Seria mais crível se as armas não fossem o decreto e pressão baseada na força dos votos de um país entre os 25 que assinaram um pacto. A França “não é um pais qualquer”, como bem diz Hollande, mas não tem força significativa sozinha, sem que seja parte completamente engajada no projeto europeu. Isso passa forçosamente pela estreita parceria com a vizinha Alemanha. Está é a normalidade. François Hollande, o “Monsieur Normal”, irá se enfronhar completamente a partir do dia 15 maio, data da sua posse. Normal em qualquer país.

Por Antonio Ribeiro

06/05/2012

às 7:51 \ França

Final eletrizante

Todas as pesquisas de intenções de voto indicam o socialista François Hollande como o novo presidente da França. A previsão nunca se alterou desde o início da campanha, 8 meses atrás. Nos últimos dias, o conservador Nicolas Sarkozy contribui para uma chegada final eletrizante. Conseguiu reduzir a vantagem contra o oponente para 4 pontos percentuais. A diferença ainda é significativa, mas o presidente-candidato aposta em uma tradição francesa: boa parte do eleitorado de extrema-direita que ele vem conquistando é o mais tímido e arredio para declarar seu voto. Os indecisos estão em torno de 16%.

Mais de 46 milhões de eleitores franceses estão inscritos para decidir o páreo. Duas certezas, a participação será alta – até 12h horário de Brasília, sete em cada dez eleitores já tinham votado – e a vitória de um ou outro, será por margem reduzida. A votação se encerrará às 16 horas de Brasília e gesto seguido, irá emergir uma previsão mais precisa do resultado. Antes disso, como é tradição do Blog de Paris, o leitor ficará sabendo da pesquisa de boca de urna. Na França, a divulgação antes do fechamento das urnas é proibida. Os franceses recorrem à imprensa estrangeira – há outras circunstâncias quando isso acontece, mas não vem ao caso agora…

Se François Hollande vencer, o prefeito de Nantes, o deputado socialista Jean-Marc Ayrault  e a secretaria-geral do PS, prefeita de Lille, Martine Aubry, são os favoritos para ocupar o posto de primeiro-ministro da França. O atual ministro das Relações Exteriores Alain Juppé é o mais provável primeiro-ministro, no caso de vitória do presidente-candidato Nicolas Sarkozy.

Apenas 5% da população européia (Dinamarca, Áustria, Bélgica, Eslovênia e Chipre) são governados pela esquerda. Os socialistas perderam três de quatro eleições que disputaram desde o começo da crise do euro e das dívidas soberanas, um acúmulo de 19 derrotas desde 2007. Caso venha perder, Sarkozy entrará para história como o terceiro presidente francês que não conseguiu se reeleger. Georges Pompidou morreu antes de completar o mandato e Valery Giscard d’Estaing foi derrotado por François Mitterrand, o ultimo presidente socialista francês – François Hollande vem tentando imita-lo até no gestual e tom de voz.

Os europeus podem mudar seus dirigentes de tempos em tempos, mas apenas no pressuposto cristalino de que as eleições não anunciem câmbios significativos de rota. Esquerda ou direita, dentro ou fora do euro, os governos continuam fiéis ao altar da austeridade. Os políticos têm permissão para um desviozinho aqui ou uma ênfase ali. Mas ninguém ousa desviar radicalmente do catecismo de rigor orçamentário.

Leia o post do Blog de Paris: “É no sacolejar do caminhão que os melões se arrumam

Atualização: Hollande está na frente em todos os territórios ultramarinos da França, como a candidata socialista Ségolène Royal, em 2007, salvo na pequena ilha de Saint-Barthélémy, favorável a Sarkozy. Se a eleição na França dependesse apenas dos eleitores franceses que votaram no Brasil, Hollande já seria o presidente com 47% em Brasília, Rio e Recife.

Por Antonio Ribeiro

03/05/2012

às 7:09 \ França

Debate Sarkozy x Hollande: Quem ganhou?

Nicolas Sarkozy e François Hollande gastaram, cada um, exatos 72 minutos e 17 segundos. Durante quase três horas, 17,8 milhões de franceses assistiram o debate presidencial na televisão mais tenso da história da República. E finalmente, a troca mais densa da campanha eleitoral no que diz respeito aos problemas prementes da França, até aqui deliberadamente escamoteados pelos candidatos.

Naturalmente, as críticas pesadas emergem primeiro como resultado deste tipo de dramaturgia das democracias modernas. Na percepção de Sarkozy, ele debateu com um mentiroso, arrogante e inexperiente. Hollande, a julgar pelas suas palavras, confrontou um irresponsável com retrospecto danoso para a França. Mas tudo isso é parte do jogo, o tempero. No particular, molho apimentado. Mas o debatedor mais agressivo e combativo na disputa não é necessariamente o essencial. O importante, em última instância, é saber quem ganhou o debate?  Isso significa em termos práticos, quem atingiu seu objetivo eleitoral.

François Hollande conseguiu passar a impressão de firmeza e aptidão para preencher o papel de presidente. Trata-se do maior desafio para quem briga contra o ocupante de um posto que se postula. Em frequentes interrupções na fala do oponente, ele não se deixou dominar. Ser nocauteado por Sarkozy era o que a entourage do socialista mais temia que pudesse acontecer e simultaneamente, a situação que a parte adversa apostava. Isso não aconteceu em nenhum instante. Hollande confortou sua posição de favorito.

Os cinco anos de mandato fizeram Sarkozy perder o hábito de ser confrontado frente a frente. Salvo em dois momentos: quando era entrevistado por jornalistas ou quando discutia uma questão de igual para igual com outro chefe de estado. Durante o debate, houve instantes em que o presidente reagia como se estivesse no segundo caso. Isso jogou em favor de Hollande. Ainda que o presidente tenha chamado o oponente de pequeno caluniador, ele respeitosamente, deixava seu opositor concluir o raciocínio.

Sarkozy perdeu o debate? A resposta é “não”. Em um show de retórica, como é o caso de um debate televisivo, o presidente foi responsável pela melhor linha: “Hollande quer menos ricos. Eu, menos pobres”. Sarkozy não demoliu seu oponente, segundo a tradição dos debates na França, isso não traduz ganhos significativos nas pesquisas de opinião. Seria ilusão imaginar que um candidato iria roubar votos no campo adversário. Mais que do massacrar Hollande, Sarkozy precisava ampliar a confiança junto ao eleitorado no qual ele tem potencialmente mais chances de colher votos. Ou seja, os eleitores que votaram em  Marine Le Pen no primeiro turno. Neste aspecto, o presidente candidato foi bastante efetivo.

Resumo da ópera: ganhou o eleitor francês. A ele foi dada a melhor oportunidade de conhecer, às vezes, com raro detalhamento técnico e mais clareza, as propostas dos candidatos. Assim como ver nitidamente a formidável diferença de personalidades do próximo presidente da França. A vitória final será apertada.

Atualização: A última pesquisa antes da votação realizada pelo Instituto Ipsos e depois do debate revela a menor diferença entre os dois candidatos desde o início da campanha eleitoral. Ela é agora de 5 pontos percentuais: Hollande 52,5% e Sarkozy 47,5%

Por Antonio Ribeiro

02/05/2012

às 12:11 \ França

Duelo Sarkozy x Hollande: poucos gols e belos lances

“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos… Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste…” É assim, invariavelmente, a introdução das aventuras de Asterix e de seu amigo Obelix. Se os autores da famosa história em quadrinhos, René Goscinny e Albert Uderzo, tivessem criado uma paródia para os tempos modernos no mundo globalizado, a França como reduto no mapa do planeta seria bem fiel à realidade.

Faltam 4 dias para os gauleses escolherem o novo chefe da aldeia, ou melhor, o Presidente da República com mandato de cinco anos. Os candidatos ao posto do chefe gaulês Abracurcix tem personalidades e idéias bem diferentes, mas ambos sabem que a maioria dos franceses é nostálgica dos tempos de pleno bem-estar social da aldeia.

A grosso modo, o conservador Nicolas Sarkozy promete, se reeleito, manter o status quo atual, mas através de modo diferente de financiamento das despesas. Aparentemente a proposta ainda não seduz o número suficiente de franceses para lhe conceder uma nova tentativa. O socialista François Hollande promete um retorno aos bons tempos pela via de muito entusiasmo, medidas que não foram solução em parte alguma, e fervor na “exceção francesa.” O problema dele é de outra ordem, os números da economia jogam contra suas mais modestas perspectivas.

Hollande e Sarkozy estarão hoje frente à frente, a uma distancia de 2,45 metros entre si e olhar atento de 20 milhões de telespectadores pelas óticas de 20 câmeras. Trata-se do primeiro e único debate televisivo até 6 de maio, o dia da votação. Ele terá inicio às 16h, horário de Brasília em um studio de 900 metros quadrados, perto do Stade de France, onde o Brasil perdeu a final da Copa de 1998. Os protagonistas que poderão regular além do peso de suas palavras, a própria temperatura ambiente através de climatização individualizada, já anteciparam que não será uma luta de boxe. Preferem chamar de “duelo de idéias”. Seria ótimo. Dizem os comentaristas nativos, em expressão local: “Chacun dira sa verité”. Ou seja, “Cada um dirá sua verdade.” Se cada um realçar as mentiras do outro, também não seria mal.

A campanha até agora foi um dos piores debates do Ocidente. Os candidatos escamotearam abordar em profundidade os problemas prementes da aldeia. Mesmo que durante o debate na  TV um candidato massacre o outro, o efeito nas pesquisas não vai muito além de um ponto percentual, segundo a tradição francesa. Apesar do impacto limitado, Sarkozy tem todo interesse em provocá-lo para chegar com alguma chance no dia da eleição. Hollande esta de 6 a 8 pontos a frente do presidente candidato, em torno de 500  000 votos, segundo as pesquisas mais recentes.

Vale à pena acompanhar? Claro que sim. Sobretudo pela forma. Os políticos franceses tem capacidade muito superior aos seus colegas brasileiros para defender suas idéias ainda que elas sejam ruins. Sarkozy e Hollande são craques no esporte. É sempre um show de boa retórica e qualidade argumentativa. Você pode assistir o debate ao vivo clicando aqui.

Por Antonio Ribeiro

29/04/2012

às 8:14 \ França

Sarkozy avança, mas Hollande mantém dianteira

A 7 dias da eleição na França, pesquisa do instituto LH2 revela que Sarkozy ganhou 2 pontos, mas Hollande mantém vantagem de 8 pontos. O placar é de 54% a 46%. No eleitorado da extrema-direita, principal potencial para o presidente da França conseguir votos, 45% dizem que vão votar nele, 20% em Hollande e 35% têm intenção de votar nulo, branco ou se abster. O socialista e o conservador fazem jogo igual junto aos eleitores do centrista François Bayrou, um terço para cada um. Na quarta feira, dia 3 de maio os candidatos vão se enfrentar no único debate antes do dia do voto, domingo, dia 6 de maio.

Leia o post de Blog de Paris: “Um homem modesto com todas razões de ser modesto

Por Antonio Ribeiro

27/04/2012

às 6:00 \ França

Um homem modesto com todas razões para ser modesto

Pelo décimo primeiro mês consecutivo, o desemprego aumentou na França. De acordo com dados do Ministério do Trabalho, a França tem agora 2,9 milhões de desempregados. Ou seja, 9,8% da população economicamente ativa. O índice é o mais alto desde setembro de 1999 em um país no qual governos de direita ou esquerda não apresentam um excedente orçamental há 35 anos. Os gastos públicos atuais são equivalentes a 56% do Produto Interno Bruto (PIB), os mais elevados da eurozona. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê para o “pequeno país que desempenha papel de grande nação”, segundo dizia Charles De Gaulle, um crescimento pífio de 0,5% do PIB em 2012 e de apenas 1% em 2013.

Confirmada a previsão do FMI, o crescimento será insuficiente para manter as promessas dos canditados a presidência da França de reduzir o déficit publico a 3% do PIB. Terá que se economizar ou encontrar receitas para tapar buraco de 18 bilhões euros. Considerando o baixo capital de coragem e profundo autismo em relação aos problemas econômicos na campanha eleitoral pelo socialista François Hollande e o conservador Nicolas Sarkozy, há margem para supor que o perdedor da disputa será o mais sortudo. O despertar no dia seguinte aos resultados que indicarão o novo presidente da República francesa será brutal.

Na data em questão, o favorito Hollande com vantagem de 10 pontos a frente de Sarkozy, segundo as pesquisas, promete se eleito, pegar avião para Berlim. Gesto seguido ao desembarque na capital da Alemanha, o socialista diz que irá encetar renegociação “firme e amistosa” do pacto de estabilidade europeu com a chanceler Angela Merkel. Ela já fez saber – e não perde oportunidade para relembrar – que não tem conversa neste sentido. O pacto ratificado por 25 países membros da União Européia é inegociável. A chanceler vem avisando que descarta rigor orçamentário do tipo keynesiano. E adiciona: “A questão do crescimento econômico, que alguns reclamam agora, há muito tempo é o segundo pilar da nossa política junto com finanças publicas saneadas.”

Alguns profetas dizem que a eventual vitória de Hollande que fala muito sobre justiça social, mas pouco sobre a necessidade de criar riqueza, trará novos ventos à Europa. Hollande, “O senhor modesto com todas razões para ser modesto”, parafraseando Winston Churchill sobre o ex-primeiro-ministro trabalhista britânico Clement Attlee, irá liderar movimento para isolar a posição da Alemanha que prescreve medidas de austeridade para salvar a zona do euro da bancarrota. Pode ser. Por que não? Para liderar basta ter qualidades inerentes e seguidores que a reconheçam.

Mas para que a missão de Hollande resvale em algum sucesso, será preciso cumprir algumas formalidades singelas depois de vender a falta de clarividência de frau Merkel, ela que comanda o único país da Europa que foi capaz reduzir o desemprego pela metade. Será necessário convencer o pagador de imposto alemão de que ele deve continuar arcando calado com as despesas salgadas e sem ver perspectivas de fim. Persuadir as agências de avaliações de crédito de que rebaixar as notas dos países endividados, como acabam de fazer novamente com a Espanha, não é legal. Induzir ânimo aos bancos para baixarem as taxas de juros mesmo quando a situação de alto risco recomenda o inverso. E por fim, exigir que as bolsas e o mercado digam: “Amém”.

Leia o post do Blog de Paris: “Marine Le Pen vota Hollande

Por Antonio Ribeiro

24/04/2012

às 13:26 \ França

Marine Le Pen vota Hollande

Para falar da França, não é necessário conhecer a França, mas ajuda. Em questões gaulesas mais intricadas recorrer ao auxílio de muletas, não configura nenhum desonra pública. É mesmo recomendável. Mas o Blog de Paris tem a sorte de, ainda que consideramos pouco, apoiar-se em mais de duas décadas de experiência… na França. No assunto que vamos tratar a seguir, adiciona-se a observação de quase uma década como jornalista “setorista” no Front Nacional (FN) para uma agência… francesa.

É notável a surpresa ou melhor, o espanto provocado alhures pelos 17,9% dos votos – 6,4 milhões de eleitores – obtidos pela candidata da extrema-direita Marine Le Pen. É sempre assim quando o Front Nacional consegue vitória eleitoral expressiva e simplesmente quando elege um conselheiro municipal, o vereador francês. Desta vez, não foi diferente. Mas na verdade, não é tão espantoso assim. Vou explicar a razão.

Há uma parcela de eleitores que realmente acredita no ideário do Front – o “hard core”, o “noyau dure”, o núcleo duro. Mas o excedente dos votos tradicionais, expressa mais descontentamento, protesto contra o sistema e até alerta aos candidatos dos grandes partidos. A França enfrenta hoje sua maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial. Há uma relação direta entre as crises e o eleitorado lepenista. Quanto mais profunda a crise, maior o número de eleitores do FN. O radicalismo é um dos filhotes da angústia. Não se trata de uma escolha ideológica. Repare, a maioria dos operários franceses votou em Marine Le Pen. Veja aqui no post do Blog de Paris.

Mas se fosse assim tão previsível, por que os institutos de opinião pública não acertaram exatamente o resultado de Marine? Ora, as previsões não estiveram assim tão longe quanto alguns querem fazer crer. A diferença esteve dentro da margem de erro de 3%. A maioria das pesquisas creditava Marine com 16, 17 %. Ela obteve 17,9%. Mas isso não explica tudo. O mais importante é levar em conta o seguinte: o eleitor do Front é mais tímido, arredio, para declarar seu voto abertamente. Na França, revelar apreço pelas idéias de direita é difícil – no Brasil é semelhante. Nem politico de direita, salvo Sarkozy, admite completamente. Se declarar eleitor do Front Nacional não é só mal visto, mas passível de receber lições de moral.

Dizem que Marine Le Pen venceu. Em certa medida, sim. Ela  obteve mais votos que no melhor desempenho de seu pai Jean-Marie, fundador do FN – 4,8 milhões de votos, em 2002. Mas não foi para o segundo turno. Portanto não será presidente da França nos próximos 5 anos. A herdeira Le Pen tampouco controla os votos dos seus eleitores. Aliás, o Front Nacional com seu credo “nem direita nem esquerda, mas  França” nunca aconselhou votar neste ou naquele candidato. É ilusão esperar que no tradicional comício do Primeiro de Maio, ela indique Sarkozy ou Hollande.

Caro leitor, se você teve a paciência de chegar até aqui lhe ofereço uma indicação a qual você não leu em parte alguma. No dia 6 de maio, antes de se dirigir para cabine de votação, Marine pegará duas cédulas para não revelar o seu voto secreto ao mesário e auxiliares. Em um deles estará o nome de Sarkozy e no outro, o de Hollande. É o do socialista Hollande que ela tem mais interesse de colocar na urna. Por que?

Nesta altura, enquanto Sarkozy e Hollande fazem, cada um à sua maneira, dança do ventre para seduzir os eleitores do Front Nacional, Marine Le Pen já está pensando no “terceiro turno” da eleição francesa. Ou seja, nas eleições legislativas marcadas para julho, importantíssimas no regime de presidencialismo parlamentar francês. Se o estorvo Sarkozy for carta fora do baralho, Marine tem mais chance de liderar a oposição de direita contra Hollande. Não é certo que ela consiga, mas este é o plano.

Por Antonio Ribeiro

23/04/2012

às 9:52 \ França

A maioria dos operários franceses votou na extrema-direita

A maioria do eleitores com menos de 35 anos de idade votou em François Hollande enquanto os votantes com mais de 65 anos preferiram Nicolas Sarkozy. A maior parte do eleitorado feminino optou por Sarkozy. Marine Le Pen recebeu mais votos dos sem diploma e mais na zona rural do que nas áreas urbanas, onde em 56 departamentos, o candidato socialista Hollande saiu vitorioso.

Leia o post do Blog de Paris: “Hollande sai na frente, mas o jogo continua aberto

Por Antonio Ribeiro
 

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