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Arquivo da categoria França

11/01/2014

às 17:09 \ França

Sem peito de assumir a amante Julie Gayet, François Hollande abraça o velho presidencialismo monárquico

 

Juliie Gayet

Juliie Gayet

Alguns franceses — e não só eles —  enfronhados na noção exata dos princípios republicanos perguntam: Por que os contribuintes do Fisco devem pagar pela estadia da primeira-dama da França, a jornalista Valerie Trierweiler, no Palácio do Eliseu, se François Gérard Georges Nicolas Hollande, o “presidente normal” de um país que mergulhou em uma das piores crises econômicas da sua história secular, tem uma outra mulher? Quem paga o dispositivo de segurança —  o Serviço de Proteção de Altas Personalidades (SPHP) e o Grupo de Segurança da Presidencia da  República (GSPR), nas siglas em francês — e os gastos com os deslocamentos para que o presidente possa passar, secretamente, as noites com a amante, a atriz Julie Gayet? Afinal, qual é o sistema de governo? A República e os cidadãos que pagam as contas de um estado inclinado a tradicional avareza? Ou prática  de outros tempos esclerosados, a velha monarquia apeada do poder pela Revolução Francesa e a sua triste plebe?

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Por Antonio Ribeiro

10/01/2014

às 14:03 \ França

Homem de preto: Hollande tem um caso para resolver

Men-in-BlackA certeza nasce da dúvida. Nos últimos meses, boatos davam conta de que François Hollande, que vive oficialmente com a jornalista Valérie Trierweiler, estava de namorada nova ou, pelo menos, mantinha um caso extraconjugal com a bela atriz francesa Julie Gayet, dezoito anos mais jovem que o presidente da França. Se as sete páginas ilustradas da revista de celebridades Closer, publicadas hoje, não trazem a prova cabal da relação secreta, elas transformam o que eram só rumores em uma suspeita que, caso fosse de natureza penal, motivaria investigação mais detida do Ministério Público.

Uma fotografia mostra um indivíduo, usando capacete e vestido de trajes pretos, saindo do prédio de estilo haussmaniano no elegante oitavo distrito de Paris onde mora Julie Gayet — a cinco minutos em percurso feito de scooter do Palácio do Eliseu, sede do governo francês. Até aí, nada. Poderia se tratar de qualquer cidadão da República ou mesmo de uma simulação. O mais intrigante é o seguinte: o que estaria fazendo alí, o guarda-costas de Hollande que aparece em outras fotografias tocando a campanhinha do prédio da atriz ou observando o mesmo indivíduo de negro montar na garupa de um scooter? A revista afirma também que o modelo de sapatos do homem de preto são iguais ao de Hollande os quais ele raramente abandona. O respeitado semanário L’Express reportou em dezembro do ano passado que a equipe de segurança presidencial estava preocupada com as freqüentes “escapadas noturnas” de Hollande. É pouco para defender a tese? Vejamos mais.

Julie Gayet

Julie Gayet

Sabatinada sobre o eventual caso em programas populares das TVs francesas nas quais promove o seu  último filme “Quai d’Orsay”, sátira em que faz o papel de uma voluptosa assessora do ministro das Relações Exteriores, Julie Gayet não negou nem confirmou o affair com o “presidente normal”. Continuou, sorridente e a vontade, falando do seu filme: “O presidente gostou muito do filme, sua mulher bem menos.” Em outra feita, disse que Trierweiler detestou seu filme.  A atriz, de 41 anos de idade, mãe de dois filhos e casada desde 2003 com o roteirista argentino Santiago Amigorena, participou de um videoclipe eleitoral do candidato Hollande à Presidência da França. Na época descreveu o candidato como “humilde, formidável e que escuta de verdade”. Gayet é militante ativa na campanha para Prefeitura de Paris da socialista Anne Hidalgo, amiga pessoal de Hollande.

Em um primeiro instante, François Hollande, de 59 anos de idade, reagiu de forma morna: “Tenho direito a vida privada”. Depois da publicação a reportagem, o Palácio do Eliseu informou que o presidente cogita medidas judiciais contra os responsáveis. A razão disso encontra-se na lei e na submissão da imprensa. Enquanto a maioria dos países ocidentais adotou o “direito de saber”, a França optou pela proteção do direito à vida privada – cuja quebra é punida não apenas pelo código civil mas também pelo criminal. Como não há definição legal muito precisa sobre o que seja “vida privada”, os tribunais cuidaram de fazer isso na prática, considerando violação severa a revelação sem consentimento pela imprensa de detalhes sobre as amizades, os laços familiares, a condição social, a inclinação política ou religiosa – e, certamente, dos casos amorosos. A proteção da lei vale para todos mas quem mais aproveita dela são os políticos e as celebridades.

Resumo da ópera: trata-se daqueles casos onde o copo pode estar metade cheio ou metade vazio. É muito pouco sustentar que uma revista ainda que de fofocas enfrentaria todo o arsenal judicial francês criando do nada um caso extra-conjugal do Presidente da França. Em contrapartida ainda não há elementos suficientes para provar completamente. O certo é que a imprensa deve fazer seu papel, independente do humor dos poderosos. É o caso. E vai sem dizer que a imprensa deve ser responsável. Não parece que ela não tenha sido.

Para arrematar: se ficar provada a conquista presidencial, Hollande que anda com a popularidade nas canelas, subirá em muito no conceito de alguns franceses.

Por Antonio Ribeiro

09/01/2014

às 15:05 \ França

A torta ou o rei torto

tortaJaneiro na França, do primeiro dia do mês até o derradeiro, é tempo de votos. Deseja-se o melhor de 2014 para parentes, amigos e clientes por todos os meios: do tradicional cartão em papel aos animados recursos da era digital. As autoridades não fogem à regra. Se os mais próximos organizam encontros entre os seus em torno de uma Galette des rois, a deliciosa torta doce feita de modo especial com massa de amêndoas para ocasião, os governantes agendam cerimônias nas quais são protagonistas. O cenário, no mais das vezes, é um salão. Um pódio equipado com microfone e, no fundo, mesa repleta de bebericos e quitutes — atualmente, congelados devido a crise, mas invariavelmente pagos pelo dinheiro suado dos contribuintes. Enquanto as autoridades dão o recado,  os convivas anseiam pelo fim do falatório que marca hora de atacar as delícias.

O Presidente da República não fica de fora deste ritual. Este ano, François Hollande aproveitou a ocasião para tentar se reinventar. Ele propôs aos compatriotas, mais especificamente aos empresários, o que batizou de “pacto de responsabilidade”. Em resumo, são reduções fiscais a quem der emprego. Parece uma fala muito propícia em um país onde o desemprego é avassalador e que, desde o primeiro dia de mandato do “presidente normal” em tempos bicudos, não se viu uma mísera medida efetiva para reverter a curva do chômage, o bicho papão renitente da França atual. Pelo menos, não pelas estatísticas. Em novembro do ano passado, eram 3,29 milhões buscando trabalho sem grandes perspectivas. Isso é dado oficial,  há quem diga que eles chegam a 5 milhões., 15%  da população apta a produzir, ao menos, uma baguete. No entanto, o anúncio vago do presidente, ainda à espera de detalhes concretos,  é uma chantagem dissimulada.

Um pacto supõe, em primeiro lugar, duas partes adversas. Geralmente, elas são antagônicas. Pode se considerar o estado — o governo é o responsável pela sua prática — como guardião dos contratos que emanam as forças vivas do cotidiano. Mas aqui não é o caso. De um lado temos a administração pública e de outro, os agentes econômicos. Hollande se posiciona como se a liberdade não fosse direito fundamental, mas um favor oferecido com parcimônia a quem, de acordo com seu juízo de valor, merece  deferência. Isso para que, no fim das contas, cada emprego eventualmente criado, pareça que se deu devido à ação do governo. O dinamismo da sociedade civil não tem o menor valor. Isso nos remete ao velho Gramsci. O italiano sustentava os termos do debate como determinantes no resultado da pendenga. No particular francês, o estatismo já ganhou.

Por Antonio Ribeiro

04/04/2013

às 5:40 \ França

Tesoureiro de Hollande tem investimentos em paraíso fiscal

Jean-Jacques Augier, tesoureiro do socialista François Hollande na campanha presidencial francesa de 2012, é acionista através da sua holding financeira Eurane de duas empresas offshore em George Town, capital das Ilhas Caiman, paraíso fiscal britânico no Caribe.

A revelação é do vespertino francês Le Monde e do diário britânico The Guardian a partir de dados do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), consorcio americano de investigação jornalística que tem ao seu serviço, 160 repórteres em 60 países.

“Não tenho conta bancaria pessoal nem investimento pessoal direto nas Ilhas Caiman. Investi nas empresas por intermédio da filial na China da Eurane, a Capital Concorde Limited, uma holding que administra todos os meus negócios chineses”, disse Auguier. E arrematou: “O investimento aparece no balanço anual da filial. Nada é ilegal”

Na França, o código geral de impostos determina que se uma empresa com sede no país tem entidade jurídica instalada em paraíso fiscal, diretamente ou através de filial, e se essa entidade não tem atividade econômica real, mas possui bens passivos (dividendos, empréstimos, etc) eles devem ser, obrigatoriamente, declarados ao fisco francês.

Amigo de Hollande, Jean-Jacques Augier, 59 anos de idade, foi colega de formatura do Presidente da França, a turma “Voltaire”, na Escola Nacional de Administração (ENA) pública da França. Fez fortuna depois de ser convidado por André Rousselet, amigo do ex-presidente socialista François Mitterrand, para dirigir em 1987 a companhia de táxis parisienses G7 que à época, operava no vermelho. Após treze anos de administração bem sucedida, deixou a empresa com “parachute doré”, uma indenização de 11 milhões de euros. Além de negócios na China, o Augier edita a revista literária Books e Têtu, o primeiro mensal francês dedicado a leitores homossexuais.

A notícia de investimentos do ex-tesoureiro da campanha presidencial socialista em um paraíso fiscal emerge durante um dos maiores escândalos da política francesa recente que atingiu em cheio o governo François Hollande. Jérôme Cahuzac, ex-ministro do Orçamento da França, foi indiciado pela Justiça por lavagem de dinheiro e fraude fiscal depois de confessar aos juizes de instrução Roger Le Loire e Renaud Van Ruymbeke, possuir conta bancaria não declarada no União dos Bancos Suíços, em Genebra – negou durante quatro meses. Posteriormente, quando foi eleito Presidente da Comissão de Finanças da Assembléia Nacional, transferiu o montante da conta para a filial suíça do banco Julius Baer, em Singapura.  Cahuzac fazia igual a quem ele era o principal responsável de perseguir, sonegava.

 Leia também: “Cidadão acima de qualquer suspeita na República exemplar

Por Antonio Ribeiro

03/04/2013

às 13:11 \ França

Cidadão acima de qualquer suspeita na República exemplar

É um daqueles casos em que a imaginação é obliterada pelos fatos. O parlamentar socialista Jérôme Cahuzac, ex-ministro do Orçamento da França no governo François Hollande foi indiciado pela Justiça por lavagem de dinheiro e fraude fiscal depois de confessar aos juizes de instrução Roger Le Loire e Renaud Van Ruymbeke, do Polo Financeiro do Tribunal de Grande Instancia de Paris, possuir conta bancaria não declarada no União dos Bancos Suíços, em Genebra, durante 20 anos e, posteriormente, quando foi eleito Presidente da Comissão de Finanças da Assembléia Nacional, transferir o montante para a filial suíça do banco Julius Baer, em Singapura.

Seria mais um caso corriqueiro de político se Cahuzac não fosse, ele mesmo, o responsável durante onze meses de caçar sonegadores do fisco francês. Isso em um governo cujo alto escalão é contumaz em ministrar lições de probidade em nome da “Republica exemplar”. E, sobretudo, por ter alegado inocência peremptoriamente desde de dezembro do ano passado quando emergiram as denúncias do Mediapart, um site de informação no web francês.

Em declaração que entrará para a história das lorotas deslavadas pronunciadas com desfaçatez no plenário da Assembléia Nacional da França, a versão atual mais próxima de Pinóquio na França – ou Dominique Strauss-Khan ou Lance Armstrong – disse o seguinte aos seus colegas deputados e sob o foco do canal aberto de televisão Chaîne Parlementaire /Public Sénat: “Eu não tenho e nunca tive uma conta bancaria no exterior, nem agora nem antes.”

O eleitor francês anotou mais um elemento que contribui sobremaneira no descrédito que ele tem pelos políticos e manifesta de forma mais nítida nas altas abstenções das eleições. No país onde se tem mais temor dos agentes do fisco que da polícia, o contribuinte se pergunta por que ele deve pagar impostos sempre mais onerosos se quem os monitora com modos de Big Brother e fome de Gargantua não dão exemplo?

A lorota atrevida de Cahuzac, cirurgião especialista em implante capilar para dissimular a calvice, provocou as perguntas naturais dos momentos onde o guardião da virtude é pego em flagrante delito e, em efeito, os embaraços voam em formação de esquadrilha: o primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault e o presidente François Hollande sabiam das peripécias do seu ex-ministro?

Hollande apareceu na TV com ar enfezado. Disse, de cara, estar estupefato e colérico pela mentira e pelo “ultraje à República”. O governo, de acordo com o presidente, não protegeu seu ex-ministro. A imprensa francesa, em contrapartida, sustenta que o Ministério do Interior havia informado o presidente através de um relatório de três páginas. Havia também outro indício forte. Uma gravação na qual um interlocutor menciona a sua conta secreta na Suíça – peritos dizem que a voz tem alta probabilidade de ser a de Cahuzac. Hollande, ainda segundo ele mesmo, só soube da coisa feia ontem como todos mortais. “Das duas uma, ou o presidente sabia e é grave, ou não sabia e é um ingênuo, o que é igualmente grave”, disse Jean-François Copé, líder da UMP, a principal formação da oposição.

Ademais, Hollande comunicou aos franceses que estava tomando medidas consequentes. Quais são elas? Reforçar a independência da Justiça, um projeto que está sendo elaborado pelo Conselho da Magistratura, a ser votado mais para frente. Segundo, um projeto de lei do governo visando tornar público o patrimônio dos parlamentares e ministros. Uau! Terceira medida para pasmar e completar o “processo de intenções”: “Todo eleito condenado penalmente por fraude ou corrupção perderá o mandato.” Gesto final, embarcou para Casablanca, “We’ll Always Have Paris”, no Marrocos.

Leia também: “Hollande: outros dedos na mesma tomada

Por Antonio Ribeiro

02/04/2013

às 15:24 \ França

Hollande: outros dedos na mesma tomada

No início de mandato, todo governo novo comete erros infantis. “É batata”, diria o Nelson Rodrigues. Isso não significa que por volta dos 45 minutos do segundo tempo, governantes experientes façam só o certo. No entanto, depois de introduzir os dedos na tomada, a tentativa de levar choque torna-se menos provável.

O governo do Presidente da França e Co-príncipe de Andorra, François Gérard Georges Nicolas Hollande, não é assim tão imaturo mais. Os socialistas vão entrar daqui a um mês na puberdade do mandato quinquenal, farão um ano no descontrole do país. Porém, parecem fazer parte de categoria distinta. No lugar de testar se outra tomada passa corrente elétrica, trocam os dedos e os enfiam na mesma. O choque é igual.

O caso mais emblemático foi a criação de uma taxa de 75% nos rendimentos acima de um milhão de euros anuais dos franceses e residentes no país. Em um primeiro instante, a medida causou escárnio e provocou deboche. Quando se deram conta que não era anedota, investidores que tinham um pé atrás em relação a França, recuaram o segundo.

Enricados, como o empresário Bernard Arnault, ao invés de prepararem o formulário de Imposto de Renda, solicitaram residência do outro lado da fronteira. Menos discreto que outras celebridades que vão morar na Suíça ou Mônaco para fugir do fisco francês, Gérard Depardieu virou russo com passaporte entregue em mãos por Vladimir Putin e, doravante, reside oficialmente – ou espiritualmente –  em Néchin, na Bélgica.

"Jamais tive conta na Suíca ou no exterior"À época, o ex-ministro do Orçamento, Jérôme Cahuzac, foi indicado para explicar a tunga governamental. Isso com aquela retórica populista pela qual se aponta os bem sucedidos como causa dos males e sua punição, o desfecho natural. Detalhe edificante: Cahuzac, o responsável no governo socialista francês pela caça aos sonegadores do fisco, acaba de ser indiciado pela Brigada Financeira por lavagem de dinheiro depois de confessar possuir uma conta bancária não declarada na Suíça durante mais de 20 anos – antes negou tudo peremptório em frente aos deputados em sessão aberta na Assembléia Nacional com transmissão em tempo real pelo canal aberto de televisão Chaîne Parlementaire /Public Sénat.

Finalmente, o Conselho Constitucional, a mais alta corte da França, julgou a medida dos socialistas ilegal. Mas Hollande quer testar a mesma tomada com outros dedos. Dito de outro modo: agora, o presidente quer que as empresas paguem os 75%. Nem a administração fiscal apóia a medida que atinge em torno de 2.000 contribuintes e fará entrar menos de 200 milhões de euros nos cofres do estado. “A medida tem um símbologia política”, dizem os socialistas instalados no Palácio do Elysée. De fato, tem mesmo. Contudo, o sinal que ela envia é econômico: não motiva investimentos que a França carece tanto. É o inverso que acontece. Espanta.

A popularidade do “Presidente Normal” quando a França passa por uma crise extraordinária – dívida pública acumulada equivante a 90,2% du Produto Interno Bruto e desemprego com dois dígitos – despenca a velocidade inédita na história da V República desde 1958 quando foi criada. Apenas 3 em cada 10 franceses confiam no governo Hollande. Nicolas Sarkozy levou quatro anos para descer tão baixo. Há também uma outra diferença, a antipatia dos franceses por Sarkozy foi mais por como ele era do que pelas suas ações. A figura de Hollande causa menos desagrado, no entanto para muitos franceses cuja paciência esgotou, a sua ação é nula.

Estava escrito nas estrelas.

Leia também. “Os Arcos da Derrota

Por Antonio Ribeiro

13/12/2012

às 19:50 \ França

Lula: Le Monde se vê obrigado a “descobrir” a corrupção e Dilma, a recorrer ao revisionismo histórico

Muitas vezes a ficha demora a cair, mas ainda não se tinha notícia de que, contra a Lei da Gravidade, ela tenha feito o caminho inverso. Ou seja, subido. O jornal francês Le Monde se viu obrigado a tratar para valer da corrupção no governo Lula. Até então, era um detalhe irrelevante, mencionado assim en passant, de passagem, nas reportagens em que o vespertino francês abordava assuntos brasileiros. Quase como um incoveniente, um estorvo. Em nenhum momento a corrupção no durante o governo Lula foi questão que mereceu reflexão detida no jornal.

Antes de embarcar para a terra de Joseph Stalin – o ditador soviético sustentava que, se a mentira fosse repetida várias vezes, encontraria incautos prontos a considerá-la a mais pura verdade –, a presidente do Brasil respondeu a perguntas do Le Monde. Na entrevista, não há uma linha sobre corrupção no Brasil. Depois da entrevista coletiva de Dilma Rousseff à imprensa no Palácio do Eliseu, na qual os jornalistas brasileiros questionaram a presidente sobre detalhes do depoimento de Marcos Valério, revelados pelo O Estado de São Paulo, o Le Monde fez um adendo com material omitido no corpo original da entrevista:

“O Brasil conseguiu conter a corrupção?”, peguntou o jornalista do Le Monde.

Dilma: “Não são as pessoas que devem ser virtuosas, mas as instituições. A sociedade deve ter todo acesso aos dados do governo. Todos que utilizam recursos públicos devem prestar contas. Caso contrário, a corrupção é beneficiada. É preciso ser voluntarista. Devido às novas tecnologias, o Brasil criou o Portal da Transparência, que registra, diariamente, todos os gastos públicos. Não tolero a corrupção e meu governo tampouco. Se há suspeitas fundamentadas, a pessoa deve sair. Bem entendido: não se deve confundir investigação e caça às bruxas, como acontece nos regimes autoritários e de exceção. Para concorrer às eleições, o candidato brasileiro deve estar em conformidade com a Lei Ficha Limpa. O Ministério Público e a Polícia Federal prendem e sancionam. E quem começou esta política foi o presidente Luiz Inácio da Silva.”

Bem, como é notório, a Lei Ficha Limpa foi aprovada devido à mobilização de milhões de brasileiros e criada a partir de projeto de lei de iniciativa popular. Mas a questão é a seguinte: por que a pergunta acima foi sonegada incialmente da entrevista? Por que foi um adendo posterior às revelações de Marcos Valério? Se o correspondente do jornal francês no Brasil e o autor da entrevista tivessem um décimo do interesse pela corrupção durante o governo Lula como o Monde tem pelas dos ex-presidentes franceses Sarkozy e Chirac, já estaria de bom tamanho.

De longe, alguns ainda acham que o Le Monde de hoje ainda é o Le Monde de outrora. Do jornalão que investigava os grampos telefônicos ilegais realizados  por um grupo de arapongas, instalado dentro no Palácio do Eliseu pelo governo Mitterrand, restou o nome mundialmente famoso. Hoje, o vespertino deficitário lembra de forma recorrente um panfleto de luxo da esquerda francesa.  Vide a cobertura partidária na recente eleição presidencial francesa. Bons repórteres, responsáveis pelo jornalismo investigativo do jornal, saíram do Le Monde. Juntos com colegas da revista Nouvel Observateur e do tabloide Liberation criaram um site na internet, o Mediapart. É dele que emergem as notícias mais reveladoras da política francesa.

Por Antonio Ribeiro

01/11/2012

às 16:45 \ França

Hollande: choque não, uma massagem leve, por favor

Sortudo o camarada François Hollande. Ele preside um país onde a língua oficial é o francês. O idioma tem recursos reconhecidos, no espaço e tempo, para expressar o pensamento abstrato de modo inebriante. Pela riqueza dos vocábulos, alguns com mais de dez significados, constitui uma ferramenta extraordinária para políticos nos momentos de crise, quando a arte do ilusionismo ajuda hipnotizar ânimos mais exaltados.

Justiça se faça, nem tudo caiu do céu. Hollande contribuiu com a rota do seu destino. Formou-se com louvor na prestigiosa Escola Nacional de Administração (ENA) pública da França. Lá aprende-se que, quando emerge um problema muito incômodo, convoca-se uma comissão de sábios e especialistas para produzir relatório com prazo de entrega previsto para calendas. É a melhor maneira de eludir, não resolver e, finalmente, ganhar tempo até a chegada do esquecimento. A constatação é  de um francês que recebeu na pia batismal o nome de Charles de Gaulle.

Hollande conta com outra vantagem. Desta vez, institucional. Ele comanda um país cujo sistema presidencialista misto tem um primeiro-ministro parlamentar. Em teoria, é o chefe do governo. Em teoria. Na prática, o primeiro-ministro é o fusível do presidente. Quando as coisas vão de mal a pior, ele é trocado por outro. Os  locais sustentam que a medida oxigena o governo. Quando tudo vai bem, o presidente colhe os frutos, na melhor tradição monárquica do sistema republicano francês.

A revista The Economist dá conta que um recente estudo do Fórum Enonômico Mundial lista a França em termos de competitividade na vigésima primeira posição enquanto a vizinha Alemanha está na sexta. O governo Hollande tem um gasto da ordem de 56% do Produto Interno Bruto, 10% superior ao alemão. Recentemente, os socialistas franceses anunciaram um aumento de 20 bilhões de euros nos impostos para fechar as contas em 2013. A Holanda com metade da população exporta mais que a Franca cujo déficit na balança comercial é 70 bilhões de euros.

Pois bem. Diante do estado depauperado da economia francesa, o governo decidiu encomendar um estudo. Mais um. O objetivo era deitar no papel propostas que, todas juntas, comporiam um “choque de competitividade” para a França. Louis Gallois foi encarregado da tarefa. O executivo francês é co-presidente da EADS e presidente da Airbus. Já dirigiu anteriormente a Snecma, Aérospatiale e a SNCF, estatal responsável pelas ferrovias francesas. Portanto, como nos conformes da regra, figura respeitável e das mais qualificadas.

O relatório nem veio a público ainda, mas já está sendo considerado muito audacioso, doloroso demais e com reformas inaceitáveis. Pior: alguns dizem que o estudo tem inspiração sarkozista, o beijo de Judas. Se não for enterro anunciado, o que seria um eletrochoque para reanimar o paciente  está com ares de trasmutação para uma massagem leve. Isso, sobretudo, porque um detalhe sensível do relatorio vazou na fala do primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault.

Respondendo a leitores do jornal Le Parisien, Ayrault ousou dizer que a sacrossanta jornada de 35 horas semanais de trabalho na França não era mais assunto tabu para o governo socialista. A lei poderia ser revista – o governo Sazorky já havia desonerado as horas extras de encargos sociais para tornar a “jaboticaba” francesa menos onerosa. A oposição a Hollande chegou supor que a clarividência tinha finalmente subido as escadarias do Palácio do Elisèe, a sede do Executivo francês.

Triste ilusão. Ayrault, sabatinado na Assembléia Nacional, recebeu tanto fogo amigo dos colegas socialistas que, certa altura, a questão não era mais as 35 horas, mas a sua permanência como primeiro-ministro. Foi obrigado a usar o melhor do seu francês para que o dito se convertesse, rapidamente, em não dito. Ou melhor, no “não é bem assim, acalmem-se”

A França, famosa por sua Revolução tem-se tornado notória pela incapacidade de produzir reformas. Em cinco anos de governo, Nicolas Sarkozy, eleito com um programa de mudanças estruturais, conseguiu como reforma maior, aumentar o tempo de aposentadoria de 60 para 62 anos. E foi quase um Waterloo apesar do déficit previdenciário calamitoso. Pelo ritmo, o governo Hollande cuja popularidade já despencou para 36%, dá sinais que conseguirá, no máximo, retroceder no tempo. Ou seja, cumprir a promessa de passar a aposentadoria de 62 para 60 anos.

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Por Antonio Ribeiro

04/10/2012

às 10:14 \ França

92 euros a palavra: Sarkozy inicia carreira de orador em evento organizado pelo BTG Pactual, o maior banco de investimentos do Brasil

O ex-presidente da França Nicolas Sakozy vai estrear sua carreira de palestrante em evento organizado pelo maior banco brasileiro de investimentos, o BTG Pactual, dirigido por André Esteves, no dia 11 de outubro no Hotel Waldorf Astoria, em Nova York. A conferência de 45 minutos sobre geopolítica e economia, fechada para o público e imprensa, terá 420 convidados do banco, entre eles, clientes, investidores internacionais e dirigentes de grandes empresas da América do Sul. Sarkozy falará durante o almoço, entre o prato principal e a sobremesa.

Em agosto passado, Sarkozy declinou oferta de 250 000 euros feita pelo banco americano Morgan Stanley para falar durante três quartos de hora e posar 15 minutos para fotografias. A proposta é superior ao montante que Sarkozy fatura em um ano inteiro com seus 21.300 euros mensais como ex-presidente.

Durante palestra, em média, leva-se um segundo para pronunciar uma palavra. Isso significa que ao emitir som articulado com algum significado, Sarkozy embolsaria 92 euros. A remuneração equivale a hora mensal do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair na função de conselheiro do banco JP Mogan, rival do Morgan Stanley. Ou seja, 3,12 milhões de euros por ano.

A desvantagem do ex-presidente francês – anda tomando aulas particulares de inglês três vezes por semana no seu escritório, situado no 77 da rua de Miromenil, em Paris, perto do Palácio do Eliseu – é que a partir de umas 11.000 palavras em conferências realizadas no período de doze meses, começaria pagar 75% de Imposto de Renda. Assim como todo o domiciliado na França com faturamento acima de um milhão de euros por ano. Isso de acordo com as novas medidas fiscais do presidente socialista François Hollande.

A nova carreira de Sarkozy cai no agrado da sua mulher Carla Bruni. Desde o  domingo 6 de maio de 2012, quando foi confirmada a vitória de Hollande, a ex-primeira-dama da França não esconde o contentamento de ver o marido “Nikô”, de 57 anos de idade, longe da política.“Que alívio! Enfim deixamos aquela vida infernal,” confidenciou Bruni a uma amiga. Na festa de casamento da ex-manequim Farida Khelfa de quem Bruni foi madrinha, os convidados pediram em coro que a ex-primeira-dama fizesse um discurso. Ela replicou: “Posso eventualmente cantar, mas para falar tenho um cara bem mais talentoso…”

Entretanto, a alegria da mulher e o convite do BTG Pactual, o pontapé inicial de uma nova vida, não impedem  a crescente “sarkonostalgia”. Amigos que encontram Sarkozy depois de suas férias no Marrocos, Canadá e sul da França, revelaram que o ex-presidente cogita de ser candidato a sucessão de François Hollande em 2017 – boato nem confirmado nem desmentido publicamente pelo próprio.

Confrontado com a pergunta, o ex-ministro do Interior do governo Sarkozy, Brice Hortefeux, um dos mais próximos colaboradores do ex-presidente e cuja amizade tem mais de 30 anos, manteve o suspense: “A política é bastante simples, trata-se da alquimia entre o dever, a vontade e as circunstancias.”

Ainda que haja muita vontade, senso de dever, o eventual retorno depende bem mais das circunstâncias do que de qualquer outro fator. Por pior que esteja a situação de Hollande no distante ano de 2017, Sarkozy terá que brigar primeiro dentro do seu partido. Aliados como o ex-primeiro-ministro, François Fillon, e Jean-François Copé, atual dirigente da União por um Movimento Popular (UMP), consideram ter chegado a vez deles de postular no voto  a Presidência da França.

Por Antonio Ribeiro

27/09/2012

às 15:42 \ França

Homenagem à derrota

Nem todos presentes viram a cabeçada no Estádio Olímpico de Berlim. A maioria estava com os olhos fixos na disputa da bola, do ouro lado do gramado. Mas o mundo inteiro viu porque a TV mostrou o replay de um dos momentos mais infames do futebol. Quem passar em frente ao Centro Georges Pompidou, o Museu Nacional de Arte Moderna, em Paris, não corre o risco perder o lance.

O artista plástico argelino Adel Abdessemed recriou em tamanho monumental – 5 metros de altura – o instante em que o atacante francês de origem cabila Zinedine Zidade agrediu o zagueiro italiano Marco Materazzi durante prorrogação da partida final da Copa do Mundo de 2006. O escultor diz que fez uma “ode à derrota”. A criação vai no sentido contrário dos monumentos que celebram a glória. O Arco do Triunfo, por exemplo.

Trata-se de uma triste lembrança com 2 toneladas de bronze para os franceses. Isso em um momento em que, no meio da maior crise econômica do país desde a Segunda Guerra Mundial, eles andam azedando o humor com o acúmulo recente de notícias ruins. Esta semana, por exemplo, o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (INSEE, na sigla em francês) revelou que a França ultrapassou a marca simbólica de 3 milhões de desempregados.

Grandes empresas como é o caso das Sanofi, AcelorMittal e Petroplus. As empresas estão na iminência de anunciar “planos sociais”. Todos juntos, eles significam a perda de 5.000 empregos a curto prazo. O governo do socialista François “Normal” Hollande cujo índice de aprovação despencou para 43% – nenhum presidente da Quinta República teve queda tão rápida seguida à posse – promete aumento de impostos que totalizam 20 bilhões de euros a menos no poder aquisitivo dos contribuintes individuais e nos recursos das empresas privadas. Menos poder aquisitivo, menos consumo. Menos recursos, menos investimento e criação de empregos.

A expectativa otimista de crescimento da França em 2013, segundo o governo, gira em torno de medíocres 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Economistas independentes prevêem a metade disso. Para criar empregos o país cuja  dívida pública acumulada está prevista para chegar a 91,3 do PIB este ano, precisa crescer, no mínimo, 1%.  E 1,5% se quiser diminuir o desemprego. Neste contexto, ganha corpo entre os ministros do governo desrespeitar a promessa de cumprir uma regra de ouro da União Européia, a de manter o  déficit público anual em 3% do PIB. Na França, ele representa  4,5% do PIB  –  83,6 bilhões de euros.

Faltando 10 minutos para fim de sua brilhante carreira, Zidane deu a famosa cabeçada no peito de Materazzi. O presidente da França Hollande vem dando cabeçadas contra a realidade desde o dia em que assumiu o governo. No orçamento deste ano de 37 bilhões de euros, por exemplo, apenas 10% representam redução nas despesas do governo. O resto vem de impostos. Serão criados mais 6 000 postos de trabalho na eduçação, polícia e Justiça. Evidentemente. pagos com dinheiro do contribuinte inclusive a aposentadoria. A tendência da redução do funcinários públicos se inverteu pela primeira vez desde 2003. Talvez não seja o fim de uma “brilhante carreira”, certamente não merece monumento comemorativo, mas em breve, muitos farão “odes à derrota”.

Por Antonio Ribeiro
 

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