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Arquivo da categoria ‘França’

Viva o contribuinte brasileiro!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 | 8:34

Evolução da exportações de armas francesas

Exportações de armas francesas

As olimpíadas Rio 2016 nem começaram, mas a França quebrou um recorde. A razão não é o bom desempenho dos seus atletas, mas sobretudo a formidável generosidade dos contribuintes brasileiros que pagam impostos ao governo Lula - a despeito deles, diga-se  en passant. Devido às encomendas militares nacionais - 4 submarinos e 50 helicópteros - a França chegou à marca histórica de 8 bilhões de euros em vendas de armamentos no ano passado — um aumento de  21% em relação a 2008. O país deverá subir ao pódio em este ano quando concluir a venda dos 36 aviões de combate Rafale ao Brasil, tornando-se o terceiro maior exportador de armas do mundo. O Ministério da Defesa francês estima que irá vender entre 10 e 12 bilhões de euros em armas  em 2010 (veja o gráfico), mais da metade só para o Brasil.

Por Antonio Ribeiro

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Burca, use com moderação

terça-feira, 26 de janeiro de 2010 | 20:56

burca

Há dias na França onde o caloroso debate sobre a identidade nacional, proposta pelo presidente Nicolas Sarkozy, mostra com mais evidência a sua inutilidade. Basta estar atentivo à estas 24 horas para notar como elas espelham a França. Um dos traços característicos da sociedade francesa é o debate profundo e à exaustão de uma variedade fenomenal de temas polêmicos — assistir  o espetáculo na primeira fila é uma atração que não consta nos guias turísticos. Na maioria das vezes, os opostos defendem suas posições com rara propriedade. Mas o país nem sempre tira melhor proveito do efeito das discussões, a síntese do debate, a chegada ao denominador comum. Fato que constitui outro traço francês marcante. Não é de hoje, mas hoje foi um desses dias.

Na rua, pode. Não há banimento total nem consequência penal

Na rua, pode. Não há banimento total nem punição.

Ao cabo de seis meses de estudo, onde foram ouvidos  de 200 especialistas, uma comissão suprapartidária composta por 32 parlamentares recomendou à Assembléia Nacional, através de um calhamaço de 644 páginas, regulamentar o uso do niqab ou da burca, como é chamada na França a vestimenta feminina islâmica de cobertura integral (veja a foto). O painel preconiza, em um primeiro instante, a adoção de resolução proibindo o uso nos transportes coletivos, escolas, hospitais e repartições da administração pública - interdição de “dissimular o rosto”, propriamente dito. O texto não prevê lei de banimento imediato total nem consequência penal para quem transgride. A medida tem apoio de  2 em cada 3 franceses, entre eles, de forma resoluta, Nicolas Sarkozy. “A burca não é bem-vinda no território da República Francesa”, disse ele durante sessão parlamentar em junho de 2009.

Ainda que a resolução seja uma das mais rigorosas da Europa no que diz respeito à vestimenta religiosa, muitos na França, onde vivem entre 5 e 6 milhões de muçulmanos, a maior comunidade do Velho Continente, acham que trata-se de uma meia medida. É assim por questões de ordem políticas, mas também jurídicas. Os socialistas, embora favoráveis à lei julgaram-na inoportuna. Ameaçaram boicotar o voto porque, segundo eles, o assunto estava “poluído pelo debate da identidade nacional”.  A interdição atinge apenas uma minúscula parcela da sociedade. O Ministério do Interior estima que só 1.900 muçulmanas vestem burca - a maioria são jovens com menos de 40 anos, dois terços são francesas e um quarto foram convertidas devido ao  casamento, 90% delas são filhas de mães que jamais usaram burca. Há receio que uma lei mais ampla aos direitos individuais — a interdição do uso da burca na rua, por exemplo — poderia ser barrada pelo Conselho Constitucional da França e pela Corte Européia de Direitos Humanos.

Imã: ameaça de morte

Imã Chalghomi: ameaça de morte

A maioria da comunidade muçulmana francesa não se opõe à lei, mas receia que uma legislação mais restritiva poderia estigmatizar o Islã francês e também afetaria turistas sauditas e do Golfo Pérsico, clientes de um setor importante da economia francesa, o comércio de produtos de luxo. Os fundamentalistas islâmicos- pregam o retorno ao Islã do século VII - são radicalmente contra a legislação. E fazem saber da forma mais brutal. Na noite do 25 de janeiro, 80 deles invadiram um culto na mesquita de Drancy para intimidar o imã Hasse Chalghomi por ter lembrado que não há uma linha no Alcorão  recomendando o uso do véu. “Infiel, nós vamos liquidar o seu caso” ameaçaram eles.

A interdição da burca está longe das principais preocupações dos franceses — desemprego, baixa do poder aquisitivo e morosidade econômica. Um exemplo edificante. Sarkozy participou durante 1h30 de um programa do horário nobre da TV francesa TF1 onde respondeu perguntas diretas dos seus compatriotas. Nenhuma questão abordou a lei contra a burca.

Atualização: O governo francês negou cidadania a um marroquino porque ele teria obrigado sua mulher usar a burca.

Em tempo: Os belgas resolveram a questão sem fazer alarde com uma  singela diretiva policial: salvo no carnaval, ninguém pode andar mascarado na rua.

Por Antonio Ribeiro

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A delação

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009 | 18:33

delacao

O implacável fisco francês cujo temor dispensa o aparato policial, encontrou um aliado de peso. Até ontem, apenas se rumorejava a sua existência devido à antecipado presente de Natal ofertado ao Ministério da Fazenda francês. Uma lista com nomes de 130.000 correntistas de contas numeradas na Suíça, mais especificamente, de clientes do HSBC Private Bank, de Genebra.

Sabe-se agora que, o delator ou paradigma da ética financeira, é franco-italiano, tem 38 anos, e atende pelo nome de Hervé Falciani. O período como funcionário de informática do banco britânico possibilitou seu gesto. A prisão em dezembro de 2008 sob acusação suíça de bisbilhotar dados bancários secretos, motivou a colaboração com as autoridades fiscais da França.

A lista de Falciani contém clientes de várias nacionalidades. Estima-se que a evasão entre os contribuintes franceses oscila entre 4 e 6 milhões de dólares. O HSCB nega. Os discretos porta-vozes do banco afirmam que trata-se de, no máximo, uma dezena de contas. O que se dá como certo na revelação não é os saldos das contas, mas o histórico da movimentação. Sobretudo, pagamentos e transferências. Nem tudo é considerado fraude de antemão, mas deverá ser explicado.

Um agente da Direção Nacional de Investigações Fiscais francês declarou, sob anonimato, ao jornal econômico Les Echos que Falciani se crê em missão messiânica: “Ele acha que os métodos do seu antigo empregador colaboraram na crise financeira mundial e que seu papel agora, é ajudar a reparar o dano.”

Se considerada em ambiente ideal, no vácuo e sem partículas de suspensão no ar, a atitude de Falciane poderia forçar admiração. No entanto, ela segue uma triste linhagem francesa, a da delação. Seu milésimo gol aconteceu durante a ocupação nazista, quando a Gestapo contabilizou 5 milhões de cartas anônimas de compatriotas que denunciavam compatriotas.

Ainda hoje, mesmo nas desavenças entre vizinhos na França, a ameaça de denuncia ao fisco é das armas mais poderosas. Algo impensável alhures. Quem no Brasil, durante uma pendenga, diz ao seu desafeto: “Vou te denunciar a Receita Federal”. Quem?

Suspeita-se que Falciani recebeu compensação monetária do estado francês para denunciar o “capital impuro”, segundo sua adjetivação, para “moralizar o sistema financeiro.” Eric de Montgolfier, Procurador da República, no balneário francês de Nice, interrogou Falciani. Gesto seguinte, abriu processo judicial.

Perdulário e com uma déficit público monumental em tempo de penúria financeira - 1.430 bilhões de euros ou 73,9 % do PIB, em 2009 - o estado  francês busca recursos onde é possível. Invariavelmente, eles saem do bolso dos contribuintes. Recentemente, emergiu de uma greve de policiais a denúncia de que eles sobem na hierarquia na razão direta em que aplicam multas.

Por Antonio Ribeiro

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8 em cada 10 franceses: “Não merecemos ir à Copa”

domingo, 22 de novembro de 2009 | 21:41

Le Tricheur à l'as de carreau

Le Tricheur à l'as de carreau

Patrício Kimmel, leitor do blog, escreveu do Rio de Janeiro dando conta de uma pesquisa realizada para o Telefoot, excelente programa sobre futebol do canal francês TF1, revelou que a maioria dos franceses acha que Henry deve permanecer como capitão da equipe nacional de futebol. Em efeito, foi escrito uma das mais longas respostas a um leitor desde abril de 2007, quando o blog De Paris foi ao ar. Quem quiser ler, ela está na área de comentários do post com o título O mais justo é voltar a jogar a partida.

Sustentei aqui: se Thierry Henry tivesse dito ao arbitro “Foi mão”, os torcedores no Stade de France ficariam surpresos em um primeiro instante, caída a ficha, Henry teria sido, muito provavelmente, ovacionado. Bem, com as pesquisas de opinião pública é igual. Uma enquête mias recente do OpinionWay para o canal estatal France 2 indica que entre 10 franceses, 8 acham que a França não merece ir a Copa devido a trapaça de Henry. Que aliás, é reprovada pela mesma pesquisa em igual número de franceses descontentes. Metade dos entrevistados quer o atual treinador,  Raymond Domemenech, fora do comando dos Bleus.

O trapaceiro com o ás de ouros, de Georges de La Tour (1593 - 1652), quadro que ilustra este post, está bem merecidamente no Museu do Louvre.

Por Antonio Ribeiro

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Air Sarko One

sábado, 14 de novembro de 2009 | 8:34

airsarkoOs parlamentares franceses aprovaram a compra - 185 milhões de euros  - de um Airbus A330, o mesmo do acidente com do voo AF 447, para servir, a partir do fim de 2010, como avião do presidente da França. O “Aerolula” francês já ganhou o apelido de “Air Sarko One”, em referência ao Air Force One, o Boeing 747-200B do presidente dos EUA. Estima-se em 20.000 euros a hora de voo do novo avião. Ele será equipado de sofisticadíssimo sistema de comunicações, instalações médicas, sala de reuniões, escritório, quarto com banheiro e defesa anti-missil. Está sendo examinado também um pedido de verbas para a compra de um jatinho Falcon 7x, da francesa Dassault Aviation, fabricante dos Rafale. Ele  servirá para os deslocamentos curtos de Nicolas Sarkozy. Ninguém pode dizer que faltou a preferência pela identidade nacional na escolha dos aparelhos.

Por Antonio Ribeiro

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Identidade nacional

quinta-feira, 12 de novembro de 2009 | 19:35

identidade-nacional2

Alguns jornais caíram como patos na história concebida pelos sindicados franceses de que funcionários de empresas estatais estão suicidando mais que de costume. Ninguém se deu ao trabalho de verificar se o índice de suicídios aumentou na França - ele é estável.  Se alguém quiser demonstrar que houve aumento de suicídios entre torcedores do Flamengo e do Corinthians é possível usando o mesmo método. Basta classificar os mortos pela preferência futebolista. Como os dois times tem as maiores torcidas, conclui-se que há um surto de suicídios nas fileiras do Mengão e do Timão. O mais curioso são as justificativas que surgem para explicar o falso fenômeno.

Agora, a bola da vez é a “identidade nacional.”  Quatro meses antes das eleições regionais, o governo Sarkozy lança mão do nacionalismo como recurso eleitoreiro, esforça para alçar a questão predileta da  extrema-direita a condição de debate premente — a Frente Nacional cuja boa parte dos eleitores votram em Sarkozy nas presidenciais registra uma progressão nas pequisas de opinão. Tem se a impressão de que do dia para noite os franceses andam preocupadíssimos com os troncos e galhos das suas arvores genealógicas, com a sua cultura e tradições. Qual o quê?  A questão é recorrente sempre que se aproxima uma eleição, nos piores momentos da história da França e quando quer se desviar a atenção de assuntos incômodos - basta ler os posts anteriores deste blog que nota-se não ter havido carência no último mês. Ministro pedófilo, nepotismo, corrupção…

Os jornais despacharam hoje especialistas dos cadernos agrícolas para La Chappelle-en-Vercors, no departamento da Drôme, interior da França. Isto porque esperava-se que o discurso de Nicolas Sarkozy aos agricultores -  59% deles votaram nele - iria detalhar a ajuda governamental, mais subsídios,  anunciada semana passada para tentar tirar o setor rural do marasmo econômico. Qual foi o tema do discurso do presidente? Ora, a identidade nacional.

“Identidade é como o amor, quanto mais se teoriza, menos se sabe o que ele é, debatemos quando não sabemos mais vivê-lo”, diz o escritor Jacques Attali, ex-eminência parda de François Mitterrand. Tratar de identidade nacional na França, na maioria das vezes, não é dizer o que são os franceses, mas fazer um inventário do que eles não são e apresentar a recusa de se tornar algo imaginário. Ou seja, ser francês não é usar boina de feltro, mas como diz Sarkozy: “A burca não tem lugar aqui.” Ser francês é não ser “americano”, embora não se saiba bem o que é “americano.” Ser francês é discutir a melhor maneira de excluir, é pedir os documentos de identidade e de punir quem não os tem.

Alguns elementos identificam um povo, eles foram muito bem resumidos por Ernest Renan, em uma aula na Sorbonne, no século XVIII. Um território, uma língua, uma cultura, valores, história e destino comum. Nenhum deles é estável, evoluem com o tempo. O estado francês, por exemplo, foi cristão, ele é laico. Foi monarquia, agora é República. Olha ameaça mesmo é o jogo de sábado em Dublin, contra a Irlanda, quando a França joga sua última chance para ir a Copa da África do Sul.

Por Antonio Ribeiro

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O Roberto Jefferson francês

quarta-feira, 4 de novembro de 2009 | 9:50

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Sotaque ocitano provençal, humor rude, desde 1968, os franceses acostumaram ver o senador Charles Pasqua entre os protagonistas da política nacional. Ele foi o deleite dos cartunistas — sua figura lembra a de Don Camillo Tarocci (Fernand Joseph Désiré Contandin, o Fernadel), o vigário conservador do vilarejo italiano de Brescello, onde governava o prefeito comunista Pepone (Giuseppe Bottazzi), na versão cinematográfica da obra satírica de Giovanni Guareschi. Considerado os movimentos recentes, Pasqua seria para os brasileiros o equivalente de Roberto Jefferson, o pivô do mensalão (lembram-se?), da oratória cepeiana que evocava o “rato maaagro” e o melhor conselho ao “capitão do time”, eufemismo para “chefe da quadrilha”, o “Sai, sai daí Zé”.

Filho de policial, Pasqua iniciou a carreira como vendedor na destilaria Paul Ricard, fabricante do favorito aperitivo aromatizado com o anis, o Pastis 51. Ele foi um dos fundadores do Serviço de Ação Cívica (SAC), a milícia que combateu nos anos 60 os inimigos do general Charles de Gaulle, sobretuto, os contrários à independência da Argélia e os comunistas. Chrirac dconfiou a ele a cooordenação da sua campanha eleitoral vencedora à presidência da França. E pelo jeito, Pasqua está terminando a longa trajetória pública com a condenação para viver um ano atrás das grades, embora prometa, com ar desafiador, escapar mais uma vez tal qual fez em frequêntes ações judiciárias de corrupção onde seu nome apareceu. “Eu sou um animal de combate, se me procurarem, vão me achar”, diz ele.

O senador gaulista pelo departamento de Hauts-de-Seine, reduto político do presidente Nicolas Sarkozy, ex-ministro do Interior, de 82 anos, é acusado desta vez de receber propina felpuda - 1,5 milhão de euros - para obter junto ao ex-presidente Jacques Chirac, ele mesmo recentemente indiciado pela Justiça sob acusação de criar empregos fantasmas para correligionários e amigos, a condecoração da Ordem do Mérito Nacional para o traficante de armas israelense de origem russa, Arcadi Gaydamak. Pasqua apresenta uma outra versão, mas não menos comprometedora.

Segundo o velho senador, foi devido à intermediação do “agente do KGB” Gaydamak junto às autoridades servias que aconteceu a libertação de dois pilotos franceses, mantidos como prisioneiros depois que ejetaram-se de seus caças durante bombardeio aliado na guerra do Kosovo. “Jacques Chirac me autorizou negociar e desbloqueou 900.000 francos (137.200 euros) dos fundos especiais”, revela Pasqua. “Foi o Dominique de Villepin (ex-primeiro-ministro e o chefe de gabinete da presidência, na época) que me entregou o dinheiro”. Além de pedir a suspensão do segredo de estado sobre o assunto, o senador sugere ao fisco francês uma devassa nas contas dos políticos que ocuparam postos importantes no governo francês. “Reparem o que eles tinham 20 anos atrás e o que possuem agora, é um enriquecimento tão suspeito que levaria qualquer cidadão francês comum ao controle fiscal.”

Por Antonio Ribeiro

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Justiça francesa indicia Chirac

sexta-feira, 30 de outubro de 2009 | 7:30

Chirac, fim da imunidade abre caminho para os processos

Chirac, fim da imunidade abre caminho para os processos

O Tribunal Correcional de Paris abriu processo contra o ex-presidente da França, Jacques Chirac. Ele é acusado de desvio de fundos públicos e criação de 21 empregos fantasmas para membros de seu partido quando era prefeito de Paris. O Ministério Público investigou 481 casos durante mais de uma década. Se condenado, Chirac arrisca uma pena de até 10 anos de prisão e 210.000 euros de multa, uma humilhação no final da carreira política de mais de 30 anos.

O Procurador da Repúlica, indicado pelo ex-presidente, tinha pedido arquivamento do caso, mas a juiza Xavière Simeoni estimou que as provas eram suficientes para abertura de um processo, o primeiro contra um chefe de estado na França, durante a V República. Em 1945, o Marechal Henri Phillipe Pétain, chefe do governo de Vichy, foi condenado à morte por colaborar com o ocupante nazista — De Gaulle converteu a sentença em prisão perpétua.  Chirac  já tinha sido indiciado em novembro de 2007, mas na época beneficiou-se de imunidade. Durante 12 anos ela garantiu a passagem de Chirac entre as gotas da chuva sem se molhar. Ou seja, escapar de recorrentes acusações na Justiça.

O tribunal iniciou ação legal, também no mesmo caso, contra o todo-poderoso ex-secretário geral do sindicato Força Operária, Marc Blondel. O sindicalista a quem durante a década de 90 era atribuído o poder de “paralisar a França” com greves nos setores básicos, é acusado de receber pagamentos indevidos da Prefeitura de Paris.

Jacques Chirac, de 76 anos, foi prefeito de Paris durante 18 anos, entre 1977 e 1995. Depois  foi eleito Presidente da República. Governou a França de 1995 à 2007.  Ele preside atualmente a Fundação Chirac com objetivo declarado de favorecer a paz. No dia 6 de novembro, Chirac deverá lançar livro com suas memórias. Um comunicado do ex-presidente da França que passa férias no Marrocos, afirma que ele tomou conhecimento da decisão e, como manda a tradição dos políticos franceses para manter a pose, está sereno para provar sua inocência.

Por Antonio Ribeiro

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Como as vendas de armas são regulamentadas na França?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009 | 6:47
Linha de produção do Rafale

Linha de produção do Rafale

As exportações de armamentos são regidas por um decreto de 1939. Salvo em casos muito específicos, ele não é aplicado.

Antes sondar um mercado, o vendedor deve passar pelo crivo da Comissão Interministerial de Estudos das Exportações de Material Bélico, CIEEMG na sigla em francês. A Comissão, sob autoridade do primeiro-ministro, reúne representantes de diferentes ministérios, Relações Exteriores, Defesa, Finanças e a Alfândega. O exportador deve obter uma derrogação. O negociante não pode de modo algum comercializar com países sob embargo ou em guerra. A Comissão autoriza ou não a venda das armas.

Cada ministério examina os aspectos do contrato. A Delegação Geral do Armamento (DGA), agência do Ministério da Defesa (DGA), analisa o tipo de material; o Ministério das Relações Exteriores, as conveniências diplomáticas;  o Ministério da Economia e Finanças, as comissões e as informações dos intermediários. O procedimento administrativo funciona em 90% dos casos.

Vendas consideradas sensíveis são tratadas por uma CIEEMG de alto nível que reúne desta vez, também os ministros. Vencida a primeira etapa, a Alfândega deve fornecer autorização de exportação do material de guerra. Ela verifica, sobretudo, se o cliente comprometeu-se não reexportar as armas para um terceiro país.

A Comissão Interministerial existe para dar a derrogação. Ela não tem vocação para julgar a ética do negócio. As comissões financeiras estão sujeitas às regras dos países onde se situa a sede social da empresa fornecedora das armas e não do cliente. Na França, as Comissões são regulamentadas segundo a Convenção Anticorrupção da OCDE. Somente as despesas comerciais, precedentes à assinatura de contrato são autorizadas.

Por Antonio Ribeiro

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Angolagate: Pasqua ameaça jogar no ventilador

quarta-feira, 28 de outubro de 2009 | 20:17

pasqua

Charles Pasqua, ex-ministro do Interior e senador da UMP, partido de Sarkozy, condenado no Angolagate (leia post abaixo), em entrevista ao Grand Journal da TV fancesa Canal + prometeu “fazer tremer um certo número de personagens da República”.

Em entrevista ao jornal Le Figaro, que circula amanhã, Pasqua diz que durante os mandatos de François Mitterrand e Jacques Chirac, tanto os presidentes quanto seus primeiros-ministros, Édouard Balladur et Alain Juppé, tinham pleno conhecimento das tramóias com vendas de material bélico.

Balladur reagiu: “O problema das vendas de armas na França é recorrente, acontece desde que o país fabrica armas. Eu não fui especialmente informado sobre a venda de armas a Angola.” Pasqua replicou : “Ele pode dizer o que quiser, no processo, seu chefe de gabinete provou que o informou.”

Além do Angolagate, três casos recentes de corrupção envolvendo vendas de armamento são investigados pela Justiça francesa. A compra de fragatas por Taiwain, as propinas do caso Clearstream e as causas do atentado terrorista de Karachi onde há suspeita que ele ocorreu porque o suborno prometido na venta de submarinos ao Paquistão não foi honrado.

Por Antonio Ribeiro

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