Sarkozy, o alemão
Raro encontrar em Paris um carro novo que depois de curto tempo de uso já não tenha, ao menos, um arranhão. Isso porque o número de vagas de estacionamento nas garagens e nas ruas é menor que a quantidade de automóveis em circulação. Apesar do espaço restrito, os motoristas precisam encaixar seus veículos em algum lugar urbano e, fatalmente, a operação implica em danos.
A analogia é próxima com situação da eleição presidencial na França. Os candidatos têm pouco terreno de manobra devido a profunda crise econômica que o país enfrenta, salvo se enveredam em propostas demagógicas que não conseguirão cumprir sem que empurrem o país para mais fundo no buraco. Eles tentam trocar a ordem dos fatores em uma equação de déficit publico gigantesco e orçamento modesto na esperança de mudar o resultado final da conta. Dito de outro modo: fazer das tripas coração. Nicolas Sarkozy não foge à regra, mas tenta fazer, doravante, à maneira alemã.
O presidente foi entrevistado por quatro jornalistas em rede de seis canais de TV no horário nobre de domingo. Estima-se que 16.5 milhões de telespectadores assistiram Sarkozy anunciar o aumento na Taxa de Valor Agregado (TVA) de 19,6% para 21,2% – a taxa equivale ao ICMS brasileiro. A partir de outubro, quatro meses depois da eleição, um carro de 15.000 euros terá 200 euros suplementares de imposto embutido no preço.
O presidente acredita, no entanto, que o acréscimo não incidirá no preço final. O comércio diminuirá sua margem de lucro porque a situação é de retração do consumo. É o que ele diz. O candidato socialista François Hollande, de 58 anos, fez saber que, caso seja eleito, eliminará o aumento que para ser aprovado deve ser votado no Parlamento. A medida alinha-se com a mudança feita pelo governo do ex-chanceler social-democrata Gerhard Schröder em 2004, na Alemanha. (Relembrar é viver: Na mesma época das reformas na Alemanha, o ex-primeiro-ministro socialista Lionel Jospin introduzia na França a jornada semanal de trabalho de 35 horas que teve efeito contrário ao desejado, aumentou o desemprego.)
O aumento na taxa sobre o consumo vem como compensação na proposta de Sarkozy exonerar encargos patronais – economia de 13 bilhões de euros – nos salários dos trabalhadores que ganham entre 1,6 e 2,1 SMIC, o salário mínimo francês de 1.400 euros por mês. O presidente deseja aumentar a competitividade do seu país. “Em 10 anos, a França perdeu 500.000 empregos industriais”, disse, observando que para um salário de 4.000 euros, os encargos se elevam a 840 euros na Alemanha e o “dobro disso na França”, afirmou o presidente.
Sem anunciar oficialmente ainda sua candidatura, uma evidência que nem o mais distraído dos franceses duvida desde o primeiro dia do seu mandato, Nicolas Sarkozy, de 57 anos, tentou passar a imagem de presidente corajoso e do administrador zeloso que estimula o crescimento sem gastar. O presidente quer também taxar em 0,1% as operações financeiras das empresas cotadas na França – vai ser aplicado sobre a negociação de credit default swaps (CDS, na sigla em inglês), o seguro contra calote – e criar, a exemplo do seu oponente socialista, um banco de desenvolvimento com fundo de 1 bilhão de euros para emprestar às pequenas empresas.
Desenhou-se no horizonte o fim da jornada de trabalho de 35 horas semanais quando o Presidente da França afirmou que irá propor que as empresas poderão, a partir do mês de agosto e independente da legislação vigente, concluir acordos com seus funcionários sobre a duração de trabalho Neste ponto, o presidente mudou ainda que de forma subliminar, o velho slogam de campanha de “trabalhar mais para ganhar mais” para outro mais atual: trabalhar mais para manter o emprego. Ou nos casos mais dramáticos, trabalhar mais tempo para evitar o fechamento das empresas ou a sua deslocalização para fora da França onde o custo do trabalho é inferior. Menos consensual que os alemães, a maioria dos sindicalistas franceses é radicalmente contra.
Antes da sua intervenção na TV, repleta de informações técnicas para o público em geral, Sarkozy recebeu o apoio da chanceler alemã Angela Merkel. Ela poderá até participar de seus comícios, segundo revelou Hermann Gröhe, secretário-geral da União Democrata Cristã (CDU), o partido de Merkel. No entanto, alguns acham que a ajuda equivale ao beijo de Judas uma vez que a dirigente alemã encarna a figura máxima da austeridade na Europa que a França, irremediavelmente, acaba sendo obrigada a seguir. O orgulho nacional e o antigermanismo andam de braços dados.
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