
O implacável fisco francês cujo temor dispensa o aparato policial, encontrou um aliado de peso. Até ontem, apenas se rumorejava a sua existência devido à antecipado presente de Natal ofertado ao Ministério da Fazenda francês. Uma lista com nomes de 130.000 correntistas de contas numeradas na Suíça, mais especificamente, de clientes do HSBC Private Bank, de Genebra.
Sabe-se agora que, o delator ou paradigma da ética financeira, é franco-italiano, tem 38 anos, e atende pelo nome de Hervé Falciani. O período como funcionário de informática do banco britânico possibilitou seu gesto. A prisão em dezembro de 2008 sob acusação suíça de bisbilhotar dados bancários secretos, motivou a colaboração com as autoridades fiscais da França.
A lista de Falciani contém clientes de várias nacionalidades. Estima-se que a evasão entre os contribuintes franceses oscila entre 4 e 6 milhões de dólares. O HSCB nega. Os discretos porta-vozes do banco afirmam que trata-se de, no máximo, uma dezena de contas. O que se dá como certo na revelação não é os saldos das contas, mas o histórico da movimentação. Sobretudo, pagamentos e transferências. Nem tudo é considerado fraude de antemão, mas deverá ser explicado.
Um agente da Direção Nacional de Investigações Fiscais francês declarou, sob anonimato, ao jornal econômico Les Echos que Falciani se crê em missão messiânica: “Ele acha que os métodos do seu antigo empregador colaboraram na crise financeira mundial e que seu papel agora, é ajudar a reparar o dano.”
Se considerada em ambiente ideal, no vácuo e sem partículas de suspensão no ar, a atitude de Falciane poderia forçar admiração. No entanto, ela segue uma triste linhagem francesa, a da delação. Seu milésimo gol aconteceu durante a ocupação nazista, quando a Gestapo contabilizou 5 milhões de cartas anônimas de compatriotas que denunciavam compatriotas.
Ainda hoje, mesmo nas desavenças entre vizinhos na França, a ameaça de denuncia ao fisco é das armas mais poderosas. Algo impensável alhures. Quem no Brasil, durante uma pendenga, diz ao seu desafeto: “Vou te denunciar a Receita Federal”. Quem?
Suspeita-se que Falciani recebeu compensação monetária do estado francês para denunciar o “capital impuro”, segundo sua adjetivação, para “moralizar o sistema financeiro.” Eric de Montgolfier, Procurador da República, no balneário francês de Nice, interrogou Falciani. Gesto seguinte, abriu processo judicial.
Perdulário e com uma déficit público monumental em tempo de penúria financeira - 1.430 bilhões de euros ou 73,9 % do PIB, em 2009 - o estado francês busca recursos onde é possível. Invariavelmente, eles saem do bolso dos contribuintes. Recentemente, emergiu de uma greve de policiais a denúncia de que eles sobem na hierarquia na razão direta em que aplicam multas.