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04/04/2013

às 5:40 \ França

Tesoureiro de Hollande tem investimentos em paraíso fiscal

Jean-Jacques Augier, tesoureiro do socialista François Hollande na campanha presidencial francesa de 2012, é acionista através da sua holding financeira Eurane de duas empresas offshore em George Town, capital das Ilhas Caiman, paraíso fiscal britânico no Caribe.

A revelação é do vespertino francês Le Monde e do diário britânico The Guardian a partir de dados do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), consorcio americano de investigação jornalística que tem ao seu serviço, 160 repórteres em 60 países.

“Não tenho conta bancaria pessoal nem investimento pessoal direto nas Ilhas Caiman. Investi nas empresas por intermédio da filial na China da Eurane, a Capital Concorde Limited, uma holding que administra todos os meus negócios chineses”, disse Auguier. E arrematou: “O investimento aparece no balanço anual da filial. Nada é ilegal”

Na França, o código geral de impostos determina que se uma empresa com sede no país tem entidade jurídica instalada em paraíso fiscal, diretamente ou através de filial, e se essa entidade não tem atividade econômica real, mas possui bens passivos (dividendos, empréstimos, etc) eles devem ser, obrigatoriamente, declarados ao fisco francês.

Amigo de Hollande, Jean-Jacques Augier, 59 anos de idade, foi colega de formatura do Presidente da França, a turma “Voltaire”, na Escola Nacional de Administração (ENA) pública da França. Fez fortuna depois de ser convidado por André Rousselet, amigo do ex-presidente socialista François Mitterrand, para dirigir em 1987 a companhia de táxis parisienses G7 que à época, operava no vermelho. Após treze anos de administração bem sucedida, deixou a empresa com “parachute doré”, uma indenização de 11 milhões de euros. Além de negócios na China, o Augier edita a revista literária Books e Têtu, o primeiro mensal francês dedicado a leitores homossexuais.

A notícia de investimentos do ex-tesoureiro da campanha presidencial socialista em um paraíso fiscal emerge durante um dos maiores escândalos da política francesa recente que atingiu em cheio o governo François Hollande. Jérôme Cahuzac, ex-ministro do Orçamento da França, foi indiciado pela Justiça por lavagem de dinheiro e fraude fiscal depois de confessar aos juizes de instrução Roger Le Loire e Renaud Van Ruymbeke, possuir conta bancaria não declarada no União dos Bancos Suíços, em Genebra – negou durante quatro meses. Posteriormente, quando foi eleito Presidente da Comissão de Finanças da Assembléia Nacional, transferiu o montante da conta para a filial suíça do banco Julius Baer, em Singapura.  Cahuzac fazia igual a quem ele era o principal responsável de perseguir, sonegava.

 Leia também: “Cidadão acima de qualquer suspeita na República exemplar

Por Antonio Ribeiro

03/04/2013

às 13:11 \ França

Cidadão acima de qualquer suspeita na República exemplar

É um daqueles casos em que a imaginação é obliterada pelos fatos. O parlamentar socialista Jérôme Cahuzac, ex-ministro do Orçamento da França no governo François Hollande foi indiciado pela Justiça por lavagem de dinheiro e fraude fiscal depois de confessar aos juizes de instrução Roger Le Loire e Renaud Van Ruymbeke, do Polo Financeiro do Tribunal de Grande Instancia de Paris, possuir conta bancaria não declarada no União dos Bancos Suíços, em Genebra, durante 20 anos e, posteriormente, quando foi eleito Presidente da Comissão de Finanças da Assembléia Nacional, transferir o montante para a filial suíça do banco Julius Baer, em Singapura.

Seria mais um caso corriqueiro de político se Cahuzac não fosse, ele mesmo, o responsável durante onze meses de caçar sonegadores do fisco francês. Isso em um governo cujo alto escalão é contumaz em ministrar lições de probidade em nome da “Republica exemplar”. E, sobretudo, por ter alegado inocência peremptoriamente desde de dezembro do ano passado quando emergiram as denúncias do Mediapart, um site de informação no web francês.

Em declaração que entrará para a história das lorotas deslavadas pronunciadas com desfaçatez no plenário da Assembléia Nacional da França, a versão atual mais próxima de Pinóquio na França – ou Dominique Strauss-Khan ou Lance Armstrong – disse o seguinte aos seus colegas deputados e sob o foco do canal aberto de televisão Chaîne Parlementaire /Public Sénat: “Eu não tenho e nunca tive uma conta bancaria no exterior, nem agora nem antes.”

O eleitor francês anotou mais um elemento que contribui sobremaneira no descrédito que ele tem pelos políticos e manifesta de forma mais nítida nas altas abstenções das eleições. No país onde se tem mais temor dos agentes do fisco que da polícia, o contribuinte se pergunta por que ele deve pagar impostos sempre mais onerosos se quem os monitora com modos de Big Brother e fome de Gargantua não dão exemplo?

A lorota atrevida de Cahuzac, cirurgião especialista em implante capilar para dissimular a calvice, provocou as perguntas naturais dos momentos onde o guardião da virtude é pego em flagrante delito e, em efeito, os embaraços voam em formação de esquadrilha: o primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault e o presidente François Hollande sabiam das peripécias do seu ex-ministro?

Hollande apareceu na TV com ar enfezado. Disse, de cara, estar estupefato e colérico pela mentira e pelo “ultraje à República”. O governo, de acordo com o presidente, não protegeu seu ex-ministro. A imprensa francesa, em contrapartida, sustenta que o Ministério do Interior havia informado o presidente através de um relatório de três páginas. Havia também outro indício forte. Uma gravação na qual um interlocutor menciona a sua conta secreta na Suíça – peritos dizem que a voz tem alta probabilidade de ser a de Cahuzac. Hollande, ainda segundo ele mesmo, só soube da coisa feia ontem como todos mortais. “Das duas uma, ou o presidente sabia e é grave, ou não sabia e é um ingênuo, o que é igualmente grave”, disse Jean-François Copé, líder da UMP, a principal formação da oposição.

Ademais, Hollande comunicou aos franceses que estava tomando medidas consequentes. Quais são elas? Reforçar a independência da Justiça, um projeto que está sendo elaborado pelo Conselho da Magistratura, a ser votado mais para frente. Segundo, um projeto de lei do governo visando tornar público o patrimônio dos parlamentares e ministros. Uau! Terceira medida para pasmar e completar o “processo de intenções”: “Todo eleito condenado penalmente por fraude ou corrupção perderá o mandato.” Gesto final, embarcou para Casablanca, “We’ll Always Have Paris”, no Marrocos.

Leia também: “Hollande: outros dedos na mesma tomada

Por Antonio Ribeiro

02/04/2013

às 15:24 \ França

Hollande: outros dedos na mesma tomada

No início de mandato, todo governo novo comete erros infantis. “É batata”, diria o Nelson Rodrigues. Isso não significa que por volta dos 45 minutos do segundo tempo, governantes experientes façam só o certo. No entanto, depois de introduzir os dedos na tomada, a tentativa de levar choque torna-se menos provável.

O governo do Presidente da França e Co-príncipe de Andorra, François Gérard Georges Nicolas Hollande, não é assim tão imaturo mais. Os socialistas vão entrar daqui a um mês na puberdade do mandato quinquenal, farão um ano no descontrole do país. Porém, parecem fazer parte de categoria distinta. No lugar de testar se outra tomada passa corrente elétrica, trocam os dedos e os enfiam na mesma. O choque é igual.

O caso mais emblemático foi a criação de uma taxa de 75% nos rendimentos acima de um milhão de euros anuais dos franceses e residentes no país. Em um primeiro instante, a medida causou escárnio e provocou deboche. Quando se deram conta que não era anedota, investidores que tinham um pé atrás em relação a França, recuaram o segundo.

Enricados, como o empresário Bernard Arnault, ao invés de prepararem o formulário de Imposto de Renda, solicitaram residência do outro lado da fronteira. Menos discreto que outras celebridades que vão morar na Suíça ou Mônaco para fugir do fisco francês, Gérard Depardieu virou russo com passaporte entregue em mãos por Vladimir Putin e, doravante, reside oficialmente – ou espiritualmente –  em Néchin, na Bélgica.

"Jamais tive conta na Suíca ou no exterior"À época, o ex-ministro do Orçamento, Jérôme Cahuzac, foi indicado para explicar a tunga governamental. Isso com aquela retórica populista pela qual se aponta os bem sucedidos como causa dos males e sua punição, o desfecho natural. Detalhe edificante: Cahuzac, o responsável no governo socialista francês pela caça aos sonegadores do fisco, acaba de ser indiciado pela Brigada Financeira por lavagem de dinheiro depois de confessar possuir uma conta bancária não declarada na Suíça durante mais de 20 anos – antes negou tudo peremptório em frente aos deputados em sessão aberta na Assembléia Nacional com transmissão em tempo real pelo canal aberto de televisão Chaîne Parlementaire /Public Sénat.

Finalmente, o Conselho Constitucional, a mais alta corte da França, julgou a medida dos socialistas ilegal. Mas Hollande quer testar a mesma tomada com outros dedos. Dito de outro modo: agora, o presidente quer que as empresas paguem os 75%. Nem a administração fiscal apóia a medida que atinge em torno de 2.000 contribuintes e fará entrar menos de 200 milhões de euros nos cofres do estado. “A medida tem um símbologia política”, dizem os socialistas instalados no Palácio do Elysée. De fato, tem mesmo. Contudo, o sinal que ela envia é econômico: não motiva investimentos que a França carece tanto. É o inverso que acontece. Espanta.

A popularidade do “Presidente Normal” quando a França passa por uma crise extraordinária – dívida pública acumulada equivante a 90,2% du Produto Interno Bruto e desemprego com dois dígitos – despenca a velocidade inédita na história da V República desde 1958 quando foi criada. Apenas 3 em cada 10 franceses confiam no governo Hollande. Nicolas Sarkozy levou quatro anos para descer tão baixo. Há também uma outra diferença, a antipatia dos franceses por Sarkozy foi mais por como ele era do que pelas suas ações. A figura de Hollande causa menos desagrado, no entanto para muitos franceses cuja paciência esgotou, a sua ação é nula.

Estava escrito nas estrelas.

Leia também. “Os Arcos da Derrota

Por Antonio Ribeiro

13/12/2012

às 19:50 \ França

Lula: Le Monde se vê obrigado a “descobrir” a corrupção e Dilma, a recorrer ao revisionismo histórico

Muitas vezes a ficha demora a cair, mas ainda não se tinha notícia de que, contra a Lei da Gravidade, ela tenha feito o caminho inverso. Ou seja, subido. O jornal francês Le Monde se viu obrigado a tratar para valer da corrupção no governo Lula. Até então, era um detalhe irrelevante, mencionado assim en passant, de passagem, nas reportagens em que o vespertino francês abordava assuntos brasileiros. Quase como um incoveniente, um estorvo. Em nenhum momento a corrupção no durante o governo Lula foi questão que mereceu reflexão detida no jornal.

Antes de embarcar para a terra de Joseph Stalin – o ditador soviético sustentava que, se a mentira fosse repetida várias vezes, encontraria incautos prontos a considerá-la a mais pura verdade –, a presidente do Brasil respondeu a perguntas do Le Monde. Na entrevista, não há uma linha sobre corrupção no Brasil. Depois da entrevista coletiva de Dilma Rousseff à imprensa no Palácio do Eliseu, na qual os jornalistas brasileiros questionaram a presidente sobre detalhes do depoimento de Marcos Valério, revelados pelo O Estado de São Paulo, o Le Monde fez um adendo com material omitido no corpo original da entrevista:

“O Brasil conseguiu conter a corrupção?”, peguntou o jornalista do Le Monde.

Dilma: “Não são as pessoas que devem ser virtuosas, mas as instituições. A sociedade deve ter todo acesso aos dados do governo. Todos que utilizam recursos públicos devem prestar contas. Caso contrário, a corrupção é beneficiada. É preciso ser voluntarista. Devido às novas tecnologias, o Brasil criou o Portal da Transparência, que registra, diariamente, todos os gastos públicos. Não tolero a corrupção e meu governo tampouco. Se há suspeitas fundamentadas, a pessoa deve sair. Bem entendido: não se deve confundir investigação e caça às bruxas, como acontece nos regimes autoritários e de exceção. Para concorrer às eleições, o candidato brasileiro deve estar em conformidade com a Lei Ficha Limpa. O Ministério Público e a Polícia Federal prendem e sancionam. E quem começou esta política foi o presidente Luiz Inácio da Silva.”

Bem, como é notório, a Lei Ficha Limpa foi aprovada devido à mobilização de milhões de brasileiros e criada a partir de projeto de lei de iniciativa popular. Mas a questão é a seguinte: por que a pergunta acima foi sonegada incialmente da entrevista? Por que foi um adendo posterior às revelações de Marcos Valério? Se o correspondente do jornal francês no Brasil e o autor da entrevista tivessem um décimo do interesse pela corrupção durante o governo Lula como o Monde tem pelas dos ex-presidentes franceses Sarkozy e Chirac, já estaria de bom tamanho.

De longe, alguns ainda acham que o Le Monde de hoje ainda é o Le Monde de outrora. Do jornalão que investigava os grampos telefônicos ilegais realizados  por um grupo de arapongas, instalado dentro no Palácio do Eliseu pelo governo Mitterrand, restou o nome mundialmente famoso. Hoje, o vespertino deficitário lembra de forma recorrente um panfleto de luxo da esquerda francesa.  Vide a cobertura partidária na recente eleição presidencial francesa. Bons repórteres, responsáveis pelo jornalismo investigativo do jornal, saíram do Le Monde. Juntos com colegas da revista Nouvel Observateur e do tabloide Liberation criaram um site na internet, o Mediapart. É dele que emergem as notícias mais reveladoras da política francesa.

Por Antonio Ribeiro

01/11/2012

às 16:45 \ França

Hollande: choque não, uma massagem leve, por favor

Sortudo o camarada François Hollande. Ele preside um país onde a língua oficial é o francês. O idioma tem recursos reconhecidos, no espaço e tempo, para expressar o pensamento abstrato de modo inebriante. Pela riqueza dos vocábulos, alguns com mais de dez significados, constitui uma ferramenta extraordinária para políticos nos momentos de crise, quando a arte do ilusionismo ajuda hipnotizar ânimos mais exaltados.

Justiça se faça, nem tudo caiu do céu. Hollande contribuiu com a rota do seu destino. Formou-se com louvor na prestigiosa Escola Nacional de Administração (ENA) pública da França. Lá aprende-se que, quando emerge um problema muito incômodo, convoca-se uma comissão de sábios e especialistas para produzir relatório com prazo de entrega previsto para calendas. É a melhor maneira de eludir, não resolver e, finalmente, ganhar tempo até a chegada do esquecimento. A constatação é  de um francês que recebeu na pia batismal o nome de Charles de Gaulle.

Hollande conta com outra vantagem. Desta vez, institucional. Ele comanda um país cujo sistema presidencialista misto tem um primeiro-ministro parlamentar. Em teoria, é o chefe do governo. Em teoria. Na prática, o primeiro-ministro é o fusível do presidente. Quando as coisas vão de mal a pior, ele é trocado por outro. Os  locais sustentam que a medida oxigena o governo. Quando tudo vai bem, o presidente colhe os frutos, na melhor tradição monárquica do sistema republicano francês.

A revista The Economist dá conta que um recente estudo do Fórum Enonômico Mundial lista a França em termos de competitividade na vigésima primeira posição enquanto a vizinha Alemanha está na sexta. O governo Hollande tem um gasto da ordem de 56% do Produto Interno Bruto, 10% superior ao alemão. Recentemente, os socialistas franceses anunciaram um aumento de 20 bilhões de euros nos impostos para fechar as contas em 2013. A Holanda com metade da população exporta mais que a Franca cujo déficit na balança comercial é 70 bilhões de euros.

Pois bem. Diante do estado depauperado da economia francesa, o governo decidiu encomendar um estudo. Mais um. O objetivo era deitar no papel propostas que, todas juntas, comporiam um “choque de competitividade” para a França. Louis Gallois foi encarregado da tarefa. O executivo francês é co-presidente da EADS e presidente da Airbus. Já dirigiu anteriormente a Snecma, Aérospatiale e a SNCF, estatal responsável pelas ferrovias francesas. Portanto, como nos conformes da regra, figura respeitável e das mais qualificadas.

O relatório nem veio a público ainda, mas já está sendo considerado muito audacioso, doloroso demais e com reformas inaceitáveis. Pior: alguns dizem que o estudo tem inspiração sarkozista, o beijo de Judas. Se não for enterro anunciado, o que seria um eletrochoque para reanimar o paciente  está com ares de trasmutação para uma massagem leve. Isso, sobretudo, porque um detalhe sensível do relatorio vazou na fala do primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault.

Respondendo a leitores do jornal Le Parisien, Ayrault ousou dizer que a sacrossanta jornada de 35 horas semanais de trabalho na França não era mais assunto tabu para o governo socialista. A lei poderia ser revista – o governo Sazorky já havia desonerado as horas extras de encargos sociais para tornar a “jaboticaba” francesa menos onerosa. A oposição a Hollande chegou supor que a clarividência tinha finalmente subido as escadarias do Palácio do Elisèe, a sede do Executivo francês.

Triste ilusão. Ayrault, sabatinado na Assembléia Nacional, recebeu tanto fogo amigo dos colegas socialistas que, certa altura, a questão não era mais as 35 horas, mas a sua permanência como primeiro-ministro. Foi obrigado a usar o melhor do seu francês para que o dito se convertesse, rapidamente, em não dito. Ou melhor, no “não é bem assim, acalmem-se”

A França, famosa por sua Revolução tem-se tornado notória pela incapacidade de produzir reformas. Em cinco anos de governo, Nicolas Sarkozy, eleito com um programa de mudanças estruturais, conseguiu como reforma maior, aumentar o tempo de aposentadoria de 60 para 62 anos. E foi quase um Waterloo apesar do déficit previdenciário calamitoso. Pelo ritmo, o governo Hollande cuja popularidade já despencou para 36%, dá sinais que conseguirá, no máximo, retroceder no tempo. Ou seja, cumprir a promessa de passar a aposentadoria de 62 para 60 anos.

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Por Antonio Ribeiro

04/10/2012

às 10:14 \ França

92 euros a palavra: Sarkozy inicia carreira de orador em evento organizado pelo BTG Pactual, o maior banco de investimentos do Brasil

O ex-presidente da França Nicolas Sakozy vai estrear sua carreira de palestrante em evento organizado pelo maior banco brasileiro de investimentos, o BTG Pactual, dirigido por André Esteves, no dia 11 de outubro no Hotel Waldorf Astoria, em Nova York. A conferência de 45 minutos sobre geopolítica e economia, fechada para o público e imprensa, terá 420 convidados do banco, entre eles, clientes, investidores internacionais e dirigentes de grandes empresas da América do Sul. Sarkozy falará durante o almoço, entre o prato principal e a sobremesa.

Em agosto passado, Sarkozy declinou oferta de 250 000 euros feita pelo banco americano Morgan Stanley para falar durante três quartos de hora e posar 15 minutos para fotografias. A proposta é superior ao montante que Sarkozy fatura em um ano inteiro com seus 21.300 euros mensais como ex-presidente.

Durante palestra, em média, leva-se um segundo para pronunciar uma palavra. Isso significa que ao emitir som articulado com algum significado, Sarkozy embolsaria 92 euros. A remuneração equivale a hora mensal do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair na função de conselheiro do banco JP Mogan, rival do Morgan Stanley. Ou seja, 3,12 milhões de euros por ano.

A desvantagem do ex-presidente francês – anda tomando aulas particulares de inglês três vezes por semana no seu escritório, situado no 77 da rua de Miromenil, em Paris, perto do Palácio do Eliseu – é que a partir de umas 11.000 palavras em conferências realizadas no período de doze meses, começaria pagar 75% de Imposto de Renda. Assim como todo o domiciliado na França com faturamento acima de um milhão de euros por ano. Isso de acordo com as novas medidas fiscais do presidente socialista François Hollande.

A nova carreira de Sarkozy cai no agrado da sua mulher Carla Bruni. Desde o  domingo 6 de maio de 2012, quando foi confirmada a vitória de Hollande, a ex-primeira-dama da França não esconde o contentamento de ver o marido “Nikô”, de 57 anos de idade, longe da política.“Que alívio! Enfim deixamos aquela vida infernal,” confidenciou Bruni a uma amiga. Na festa de casamento da ex-manequim Farida Khelfa de quem Bruni foi madrinha, os convidados pediram em coro que a ex-primeira-dama fizesse um discurso. Ela replicou: “Posso eventualmente cantar, mas para falar tenho um cara bem mais talentoso…”

Entretanto, a alegria da mulher e o convite do BTG Pactual, o pontapé inicial de uma nova vida, não impedem  a crescente “sarkonostalgia”. Amigos que encontram Sarkozy depois de suas férias no Marrocos, Canadá e sul da França, revelaram que o ex-presidente cogita de ser candidato a sucessão de François Hollande em 2017 – boato nem confirmado nem desmentido publicamente pelo próprio.

Confrontado com a pergunta, o ex-ministro do Interior do governo Sarkozy, Brice Hortefeux, um dos mais próximos colaboradores do ex-presidente e cuja amizade tem mais de 30 anos, manteve o suspense: “A política é bastante simples, trata-se da alquimia entre o dever, a vontade e as circunstancias.”

Ainda que haja muita vontade, senso de dever, o eventual retorno depende bem mais das circunstâncias do que de qualquer outro fator. Por pior que esteja a situação de Hollande no distante ano de 2017, Sarkozy terá que brigar primeiro dentro do seu partido. Aliados como o ex-primeiro-ministro, François Fillon, e Jean-François Copé, atual dirigente da União por um Movimento Popular (UMP), consideram ter chegado a vez deles de postular no voto  a Presidência da França.

Por Antonio Ribeiro

27/09/2012

às 15:42 \ França

Homenagem à derrota

Nem todos presentes viram a cabeçada no Estádio Olímpico de Berlim. A maioria estava com os olhos fixos na disputa da bola, do ouro lado do gramado. Mas o mundo inteiro viu porque a TV mostrou o replay de um dos momentos mais infames do futebol. Quem passar em frente ao Centro Georges Pompidou, o Museu Nacional de Arte Moderna, em Paris, não corre o risco perder o lance.

O artista plástico argelino Adel Abdessemed recriou em tamanho monumental – 5 metros de altura – o instante em que o atacante francês de origem cabila Zinedine Zidade agrediu o zagueiro italiano Marco Materazzi durante prorrogação da partida final da Copa do Mundo de 2006. O escultor diz que fez uma “ode à derrota”. A criação vai no sentido contrário dos monumentos que celebram a glória. O Arco do Triunfo, por exemplo.

Trata-se de uma triste lembrança com 2 toneladas de bronze para os franceses. Isso em um momento em que, no meio da maior crise econômica do país desde a Segunda Guerra Mundial, eles andam azedando o humor com o acúmulo recente de notícias ruins. Esta semana, por exemplo, o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (INSEE, na sigla em francês) revelou que a França ultrapassou a marca simbólica de 3 milhões de desempregados.

Grandes empresas como é o caso das Sanofi, AcelorMittal e Petroplus. As empresas estão na iminência de anunciar “planos sociais”. Todos juntos, eles significam a perda de 5.000 empregos a curto prazo. O governo do socialista François “Normal” Hollande cujo índice de aprovação despencou para 43% – nenhum presidente da Quinta República teve queda tão rápida seguida à posse – promete aumento de impostos que totalizam 20 bilhões de euros a menos no poder aquisitivo dos contribuintes individuais e nos recursos das empresas privadas. Menos poder aquisitivo, menos consumo. Menos recursos, menos investimento e criação de empregos.

A expectativa otimista de crescimento da França em 2013, segundo o governo, gira em torno de medíocres 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Economistas independentes prevêem a metade disso. Para criar empregos o país cuja  dívida pública acumulada está prevista para chegar a 91,3 do PIB este ano, precisa crescer, no mínimo, 1%.  E 1,5% se quiser diminuir o desemprego. Neste contexto, ganha corpo entre os ministros do governo desrespeitar a promessa de cumprir uma regra de ouro da União Européia, a de manter o  déficit público anual em 3% do PIB. Na França, ele representa  4,5% do PIB  –  83,6 bilhões de euros.

Faltando 10 minutos para fim de sua brilhante carreira, Zidane deu a famosa cabeçada no peito de Materazzi. O presidente da França Hollande vem dando cabeçadas contra a realidade desde o dia em que assumiu o governo. No orçamento deste ano de 37 bilhões de euros, por exemplo, apenas 10% representam redução nas despesas do governo. O resto vem de impostos. Serão criados mais 6 000 postos de trabalho na eduçação, polícia e Justiça. Evidentemente. pagos com dinheiro do contribuinte inclusive a aposentadoria. A tendência da redução do funcinários públicos se inverteu pela primeira vez desde 2003. Talvez não seja o fim de uma “brilhante carreira”, certamente não merece monumento comemorativo, mas em breve, muitos farão “odes à derrota”.

Por Antonio Ribeiro

19/09/2012

às 9:12 \ França

Charlie Hebdo, tablóide satírico francês, coloca mais lenha na fogueira

Intocáveis 2 : "Não se deve zombar"

As embaixadas e escolas francesas no estrangeiro estão com dispositivo de segurança reforçado. Algumas, em mais de 20 países de maioria muçulmana, poderão ser fechadas durante 24 horas na sexta-feira, dia de culto sagrado no Islã.  Na Tunísia, as aulas serão suspensas a partir de hoje e permanecerão assim até segunda-feira. Trata-se de uma precaução do Quai d’Orsay, o Ministério de Relações Exteriores da França. Por que?

Circulou hoje na França a edição semanal do tablóide satírico Charles Hebdo. A edição cuja capa é o desenho de um judeu ortodoxo empurrando uma cadeira de rodas na qual está sentado uma figura trajando túnica e turbante. Ambos dizem, “Não se deve zombar”, debaixo do título Intocáveis 2, em referência ao recente sucesso de bilheteria do cinema francês.

Às 9 horas em Paris não havia mais um só exemplar dos 75.000 a 2,50 euros colocados a venda nas bancas. A publicação, esgotada em poucas horas, trouxe nas páginas interiores caricaturas de Maomé. Uma delas retrata o profeta do Islã deitado na cama e parafraseando a personagem fogosa, interpretada por Brigitte Bardot, no filme cult, “O Desprezo”, dirigido por Jean-Luc Godard, em 1963: “E meu traseiro, você gosta do meu traseiro?” Outras imagens legendadas são mais vulgares.

A edição do Charlie Hebdo com caricaturas de Maomé circula em um momento tenso, seguido à difusão no Youtube do filme “Innocence of Muslims” (“A Inocência dos Muçulmanos, em tradução livre do inglês). O filme foi usado como justificativa para 28 mortes – 12 delas aconteceram em um ataque suicida em Cabul, no Afeganistão –, invasões a representações diplomáticas e violentos protestos antiocidentais, em países de maioria muçulmana.

Stephane Charbonnier, conhecido pelo apelido “Charb” e diretor do Charlie Hebdo, afirmou em entrevista à emissora de rádio francesa RTL que a publicação das caricaturas no tablóide podem gerar polêmica e avançou sua posição: “Se começamos a questionar o direito de caricaturar ou não Maomé, se é perigoso ou não fazê-lo?, a questão seguinte será se poderemos representar os muçulmanos no jornal? Depois vamos perguntar se podemos mostrar seres humanos?, etc, etc. E no final, não mostraremos mais nada. Neste caso, a minoria de extremistas que agitam o mundo e a França terão ganhado.”

Não é a primeira vez que o Charlie Hebdo considerado de ideário “anarquista de esquerda” causa furor na França, onde vive a maior comunidade de muçulmanos da Europa – 6 milhões, pouco menos de 10% da população total do país. O jornal satirico tornou-se protagonista frequente no caloroso debate que tenta definir a fronteira da liberdade de expressão e a provocação ofensiva. Criar polêmica é quase a razão de sobrevivência do tablóide de tiragem reduzida (45.000 exemplares por semana, 11.000 assinantes). O jornal precisa vender, no mínimo, 30.000 explares por semana para empatar com as despesas.  Entretanto, a polêmica configura também a oposição entre a velha tradição anticlerical francesa e outra, ainda mais antiga, a do Islã que não admite nem representação figurativa de Alá.

Em 2006, o tablóide reproduziu as caricaturadas de Maomé publicadas primeiro no jornal dinamarquês Jyllands-Posten – encetaram protestos de muçulmanos e vandalismos por parte dos mais radicais, matando pelo menos 50 pessoas. Organizações muçulmanas francesas atacaram a publicação na Justiça. O tablóide foi inocentado em um processo que teve François Hollande como testemunha da defesa. Em novembro do ano passado, as vésperas de publicar uma edição entitulada “Charia Hebdo”, redação do Charlie Hebdo, situada no vigésimo distrito de Paris, foi incendiada e o site do tablóide pirateado. Desde o anúncio da publicação das caricaturas, os arredores da sede do tablóide estão protegidos pela tropa de choque da polícia francesa, a Companhia Republicana de Segurança (CRS).

Durante a inauguração da ala de Artes do Islã, no Museu do Louvre, François Hollande, sem fazer nenhuma referência especifica, lamentou “o obscurantismo que aniquila os princípios e destrói os valores do Islã, provocando a violência e o ódio. A polícia francesa estuda se autoriza uma manifestação programada para sábado, dia 22 de setembro em Paris e no resto da França em protesto contra o filme de 14 minutos e as caricaturas publicadas no Charlie Hebdo. A 15 de setembro ocorreu uma primeira manifestação – não autorizada – nos arredores da embaixada dos Estados Unidos, em Paris. Foram detidas 152 pessoas, principalmente salafistas.

Atualização: 70.000 exemplares da mesma edição do Charlie Hebdo que circulou hoje irão novamente às bancas na sexta-feira, 21 de setembro, aumentando a tiragem total desta semana para 200.000 exemplares. O recorde de vendas do tabloide aconteceu em 2005, quando da reprodução das caricaturas do jornal dinamarquês: 480.000 exemplares. O site do tablóide na internet está bloqueado.

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Por Antonio Ribeiro

20/08/2012

às 13:51 \ França

100 nada

Ancien Régime

Os 100 dias do governo François Hollande, presidente da França, são bem menos interessantes que os 100 dias que os antecederam. Ou seja, os 100 dias do candidato socialista François Hollande. Por que? Porque os 100 dias anteriores escreveram nas estrelas o que seriam os 100 dias posteriores. Os 100 dias depois eram, enfadonhamente, um tédio só. Previsíveis. O atual governo Hollande não é nada mais que a morosidade do que já se viu com François Mitterrand e Jacques Chirac, mas com o seguinte agravante: a situação econômica agora é pior. Trata-se de um país que não fecha as contas desde 1975, durante a primeira  crise do petróleo.

Há algo de Leonid Brejnev no François Hollande.  Não é bem o comunismo dogmático. No fundo, nem o antigo Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética, acreditava na bobagem. É apenas a constatação, na situação tão depauperada, que para encontrar uma saída seria preciso fazer uma mudança radical de curso. Nestes casos, para manter a aparência, vai se empurrando com a barriga. Dito de outro modo: enganando no verbo, com retórica dissimulada, medidas cosméticas e paliativas.

Por Antonio Ribeiro

05/06/2012

às 1:00 \ Fotografia, França

Um presidente normal, um retrato oficial banal

François Hollande escolheu ser fotografado para seu retrato oficial como Jacques Chirac em 1995, no jardim do Palácio do Elysée. Portanto, de forma diferente de Nicolas Sarkozy assim como da maioria dos presidentes franceses. Eles preferiram o ambiente mais sóbrio da biblioteca da residência do executivo francês. A fotografia oficial na França é um ritual republicano desde que o príncipe-presidente Napoleão III posou em 1848.

O retrato oficial de 50 centímetros por 65 centímetros será pendurado nas repartições públicas, escolas, embaixadas e nas 36.664 prefeituras francesas. O autor da imagem é Raymond Depardon, um dos fundadores da agência Gamma Presse Images junto com Gilles Caron e membro da Magnum Photos desde 1979. O retrato foi feito por intemédio de uma lendária câmera Rolleiflex cuja produção foi interrompida em 1962 – cotada a 10.000 euros no eBay. Depardon explica que quis mostrar o presidente “em movimento”.

Mas a fotografia é a antítese do que Henri Cartier-Bresson definiu como o momento decisivo. Ou seja, o ápice do movimento. Ele é descrito pela luz no suporte sensível como uma síntese do que houve e o que está na iminência de acontecer. É o momento exato, por exemplo, quando uma pedra lançada ao alto perde força e se imobiliza. Ela subiu e vai descer. A força do presente que conta o passado e tenta prever o futuro.

Famoso pela direção dos documentários Le Reporter e Délits flagrants, Depardon, de 69 anos de idade, conseguiu uma proeza. Algo surpreendente para um fotografo do seu alto calibre. A fotografia de Hollande parece um instantâneo banal feito por um amador. Ou, se preferem, um Instagram feito com telefone celular.

Um bom retrato impressiona. Sobretudo fala, diz algo do retratado, como é o caso da fotografia de Chirac realizada por Bettina Rheims e de tantos outros espalhados nas paredes dos museus de um país de imensa tradição pictórica. O quadro mais famoso da terra de Jacques-Louis David que imortalizou Napoleão Bonaparte, é um retrato, a Mona Lisa. O Pensador, de Rodin, um retrato em 3D, é mais admirado, do ponto de vista artístico, do que qualquer Virgem Maria das catedrais franceseas. É uma velha arte louvada também pelo estado. Na Roma Antiga, chegou a codificar a sua elaboração indo até a maneira de distribuir as mechas de cabelo no fronte do imperador.

Ao observar a fotografia de Hollande com os braços caídos sem saber bem o que fazer com as mãos tão inexpressivas quanto o olhar, a dúvida se instala. Do que se trata? É isso mesmo? Os presidentes gostam de transmitir através do retrato oficial como querem ser vistos, mas também a marca que desejam imprimir nos seus mandatos. Desculpem a franqueza – Raymond, pardon –, mas o retrato não tem nada de presidencial. Hollande parece ser o motorista do palácio.

Leia o post do Blog de Paris “Nicolas Sarkozy: o retrato oficial

Por Antonio Ribeiro
 

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