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Arquivo da categoria Europa

04/11/2011

às 14:02 \ Europa

G20: única medida concreta para o FMI é pajear Berlusconi

Berlusconi: governar a Itália não é difícil, é inútil.

Embora tenha havido entendimento que os recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI) devam ser aumentados, os chefes de estado dos países do G20  (cerca de 80% do PIB global) terminaram a reunião na Riviera Francesa sem uma resolução concreta de como a operação deve ser feita. Nem se chegou a um montante total que será adicionado aos atuais 300 bilhões de dólares destinados a minimizar a crise da dívida soberana européia e aos países que sofrerem a sua influência. O temor de avançar uma cifra é de que o mercado possa considerá-la insuficiente.

Há consenso, no entanto, de que a reserva para empréstimos deve ser, no mínimo, de 700 bilhões de dólares. Adicionados  os 250 bilhões de dólares em uma nova alocação de Direitos Especiais de Saque (DES), a moeda do FMI, o montante total pode chegar a 1 trilhão de dólares. Mas a decisão foi adiada para uma reunião entre ministros de finanças prevista para dezembro ou fevereiro do ano que vem.

A única medida concreta que emergiu da reunião de cúpula do G20 no que diz respeito ao FMI, foi o convite da Itália para que auditores do Fundo monitorem as contas do pais quatro vezes ao ano. Dito de outro modo:  monitorar se o governo italiano cumpre as promessas de reestruturar sua economia e reduzir os empréstimos. Monitorar? O Presidente do Conselho da Itália Sílvio Berlusconi prefere outros termos: verificar ou cerificar. José Manuel Barroso presidente da Comissão Européia diz que o papel do FMI será muito mais “intrusivo” que o habitual.

As coisas na Itália e por todo o lado europeu estão longe de ser anedota, mas tudo indica que há políticos no Velho Continente que nunca perdem o senso de humor. Segundo Berlusconi, seu país com dívida de 1,9 trilhão de euro, a quarta maior do planeta e cinco vezes superior a da Grécia, não está em situação tão ruim como pintam. “A Itália é a sétima economia do mundo, o consumo não caiu, os restaurantes e os aviões estão cheios e os italianos já estão fazendo reservas em hotéis e resorts para suas férias de fim ano”, disse Berlusconi em entrevista coletiva a imprensa após a reunião do G20.

Mais cedo, o ministro das finanças da Itália, Giulio Tremonti, preveniu o chefe: “Na segunda-feira haverá um desastre no mercado financeiro se você, Silvio, ficar no governo. O problema para Europa e para os mercados, correto ou não, é de fato, você.” Perguntado sobre uma eventual troca de governo na Itália, Berlusconi afirmou que a imprensa, sistematicamente, reporta o contrário dos fatos. Ao lado de Berlusconi, Tremonti também foi indagado sobre o mesmo tema. Preferiu ficar em silêncio. Et la nave va…

Por Antonio Ribeiro

04/11/2011

às 9:40 \ Europa

Uma imagem vale mil palavras?

Resposta: Nem sempre. No caso de fotografias que ilustram e são em si um condensado de informações, as boas são as que “falam”, na maioria das vezes, sem precisar da muleta das legendas. No entanto, certas fotografias gritam, embora nem todos escutem. A fotografia que ilustra este post tem boa chances de entrar para esta categoria. Ela mostra, em plano amplo, o interior do Parlamento grego durante o dramático discurso, o segundo no mesmo dia, do primeiro-ministro grego George Papandreou. Ele será submetido hoje a voto de confiança.

A situação colocou o mundo em suspense. Será que Papandreou com uma magra maioria em plena debandada – depois da estapafúrdia idéia de referendo posteriormente descartada pelo choque da realidade – conseguirá sobreviver a frente do governo grego? Criou-se uma expectativa fenomenal, equivalente as que antecedem as finais de Copa do Mundo de futebol. Evidentemente, as conseqüências são mais graves.

Convido o leitor a reparar novamente a fotografia. O resultado do voto de hoje pode não ter sido antecipado, mas o futuro a médio prazo, sim. Repare os assentos e não a tribuna de onde o socialista Papandreou faz seu discurso. Tantas cadeiras vazias de deputados não revelam grande interesse para um eventual chefe de governo transitório e de coalizão nacional como Papandreou e a oposição defendem para a delicada situação da Grécia – talvez formado apenas de tecnocratas  sem vínculo partidário. O Parlamento grego tem um total de 300 deputados. Portanto, para se chegar a maioria são necessários 151. O socialista Pasok, partido de Papandreu, tem 151 parlamentares, nem todos apoiando o primeiro-ministo. A Nova Democracia, liderada pelo conservador Antonis Sâmaras reune 85 deputados. Os comunistas que são contra Papandreu, somam 23 votos.

Este texto tem 293 palavras, valem apenas uma observação.

Leia o post do Blog de Paris: “Dilma oferece mão a Europa e Papandreou a sua a oposição

Por Antonio Ribeiro

03/11/2011

às 0:21 \ Europa

O sermão do casal Merkozy

A história da construção da União Européia está repleta de percalços, mas poucas vezes uma jogada tão inesperada provocou momento tão dramático. Como se estivesse tratando de política doméstica a la grega, o primeiro-ministro grego George Papandreou pegou todos de surpresa e assustou os mercados financeiros ao anunciar um referendo para plebiscitar ou não o pacote de resgate à economia da Grécia – 130 bilhões de euros e calote de metade da dívida com credores privados, cerca de 100 bilhões. de euros. Isso para salvar a seu futuro político ou preparar uma saída de cena heróica, talvez honrosa diante dos seus compatriotas.

O casal “Merkozy” – a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da França, Nicolas Sarkozy – ficou furioso. Convocaram Papandreou, o “Lorde Caos”, como ele vem sendo chamado, para ser advertido em Cannes, antes da reunião do G20. Suspenderam a sexta parcela da ajuda – 8 bilhões de euros – sem a qual a Grécia não fecha as contas do mês de dezembro. Ficará assim até os  gregos tomarem uma decisão definitiva: se querem ou não permanecer na zona do euro.

Nunca um membro da UE foi ameaçado com linguagem tão crua. “Nós só podemos utilizar o dinheiro do contribuinte europeu, francês, alemão, que a partir do momento em que um certo numero de regras são respeitadas. Se elas não são, nem a Europa nem o FMI não poderão versar um centavo”, disse Sarkozy, o mais irritado com o presente grego. Merkel deu mais uma demão de tinta, aparentemente suave, mas também dura: “O euro precisa ser mantido estável, queremos alcançar isso com a Grécia, e não sem ela, mas a tarefa de manter a estabilidade do euro como moeda tem que ser a principal tarefa e a prioridade.”

Na saída do encontro, visivelmente abatido, Papandreou tentou amenizar o drama, sustentando que sua ideia de referendo não é só sobre o plano de ajuda que pressupõe contrapartida de medidas austeras da parte do governo da Grécia. “O povo grego quer ficar na zona do euro, fazemos parte e estamos orgulhosos disso. E para arrrematar : “Fazer parte da zona do euro significa ter muitos direitos e também obrigações, podemos cumprir essas obrigações. Há um amplo consenso entre os gregos e é por isso que eu quero que o povo grego fale.” Nada tão incerto. Os gregos querem os direitos, mas não as obrigações e tampouco a austeridade.

O primeiro-ministro grego esta acuado até dentro do seu partido, o Pasok. Com a ajuda da oposição os seus colegas socialistas querem antecipar as eleições. Amanhã Papandreou enfrenta um voto de confiança no Parlamento, em Atenas. É incerto que ele consiga sobreviver a frente do governo. O Pasok ficou com maioria reduzida a dois votos. Papandreou  tem apoio  de 149 deputados em um total de 300. Se o governo cair não haverá referendo, mas sim novas eleições. Será missão penosa para os políticos gregos enfrentarem as urnas defendendo privatizações impopulares e medidas de austeridade que podem cortar em torno de 100.000 empregos. O índice de desemprego na Grécia é mais de 20%.

Leia o post do Blog de Paris “Grecia: sim ou não

Por Antonio Ribeiro

02/11/2011

às 13:22 \ Europa

Grécia: sim ou não

A chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Nicolas Sarkozy deram um ultimato ao primeiro-ministro socialista da Grécia, George Papandreou em Cannes, no sul da França. O único referendo que aceitam é que seja perguntado aos gregos se eles querem ou não que a Grécia continue na zona do euro. Isso antes do Natal. A sexta parcela da ajuda – 8 bilhões de euros – ficara suspensa até os  gregos tomarem uma decisão. Sem ela a Grécia não fecha as contas do mês de dezembro. Evidentemente, a resposta majoritária ao eventual referendo seria “sim”.

O casal franco-alemão não quer saber da proposta surpresa de Papandreou. A de realizar um plebiscito para aprovar o plano de ajuda ao país – 130 bilhões de euros e calote de 50% da dívida com credores privados –  que envolve rigorosas medidas de austeridade. Evidentemente, a resposta ao eventual referendo seria “não”. Embora numa situação delicadíssima, os gregos  – inventaram tanto a democracia como o drama – não querem arrocho. Ninguém quer.

A eventual consulta grega ameaça colocar a zona do euro como refém até dezembro ou janeiro, enviando um péssimo sinal para desempenho das bolsas no mundo a fora como se viu ontem, após o anuncio de Papandreou. A situação aumenta a possibilidade da Grécia sair da zona do euro onde entrou à força com contas públicas falsificadas,  e voltar operar com moeda nacional. O presidente do Conselho Europeu, Jean-Claude Juncker, não descarta mais a eventualidade.

Em outro aspecto, é bem improvável que os países emergentes coloquem alguma ajuda antes dos europeus colocarem ordem em casa. A conversa aconteceu às 20h00 no horário francês (15h30 no horário de Brasília) teve a presença da diretora gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde e do novo presidente do Banco Central Europeu (BCE), o italiano Mario Draghi.

Saída

Finalmente, a questão é qual a razão do pôquer de Papandreou que coloca a existência no euro em seu país no fio da navalha? O primeiro-ministro grego apelidado de “Lorde do Caos” quer evitar, a todo o custo, a realização de eleições legislativas antecipadas. Perderia.  Preferiu anunciar a organização de um referendo. Uma tentativa de preservar o seu futuro politico ou preparar uma saída de cena heróica. Mas os gregos se setem chatageados perante o dilema: “Votam a favor do acordo europeu, ou será a falência da Grécia e tem de sair do euro se ousarem dizer que não.”

Adendo: Ligeira confusão em uma grande encrenca.  Apesar de por vezes se considerar plebiscito como sendo o mesmo que referendo, a verdade é que os dois conceitos podem significar ações muito diferentes e que podem, por vezes, ter significados opostos de serem radicalizados. São, contudo, sempre referentes a assuntos de política geral ou local de importância para as pessoas em questão. Assim, de um modo amplo, pode-se considerar que são sinônimos. No entanto, de um ponto de vista específico, os termos podem apontar para conceitos diferentes, consoante os autores ou o contexto em que são aplicados. O plebiscito é uma consulta ao popular antes de uma lei ser constituída, de modo a aprovar ou rejeitar as opções que lhe são propostas; o referendo é uma consulta após a lei ser constituída, em que os eleitores ratificam, “sancionam” a lei já aprovada ou a rejeita. Maurice Battelli define plebiscito como a manifestação direta da vontade do eleitor que delibera sobre um determinado assunto, enquanto que o referendo seria um ato mais complexo, em que o os eleitores deliberam sobre outra deliberação, já tomada pelo órgão de estado respectivo.

Por Antonio Ribeiro

27/07/2011

às 14:20 \ Europa

Verão europeu

Verão na Europa é um tempo quando jovens estudantes aproveitam para ir as colônias de férias, viajar com amigos. Mochilas às costas, vão também acampar em recantos onde a natureza é exuberante, alguns preferem que ela seja inóspita. Além do descanso e prazer, são passos iniciais do ritual da autonomia e maturidade. Em algumas semanas, será a vez do meu filho, “lobinho” em grupo de escoteiros-mirins. Foi o caso dos adolescentes assassinados barbaramente pelo psicopata Anders Breivik, de 32 anos de idade, na minúscula Ilha de Utoya, em um microcosmo escandinavo pacato, tolerante, pacífico e com padrão de vida elevado, a Noruega.

Verão na Europa é também um tempo onde as apreensões paternas e maternas, devido a ausência protetora aos filhos, sobem um degrau. Quando as notícias do homicídio coletivo na Noruega foram se disseminando pelo Velho Continente, a cisma, o receio vago foi se materializando em algo terrivelmente concreto. Se para os pais e mães dos 68 inocentes mortos em 90 minutos transformou-se numa trágica certeza, não escapou dos seus iguais que ali, no meio da carnificina, poderia estar um dos seus rebentos.

Dias depois, o estupor causado pela barbárie foi acrescido da revolta pela declaração do pai do homicida. Um ex-diplomata norueguês aposentado, morador de casa de campo em Cournavel, vilarejo agradável sul da França.  Ele não vê o filho há quase 16 anos. Taciturno, perplexo, Jean Breivik conseguiu no máximo, em entrevista para um canal de TV do seu país, falar mais da sua impotência do que traçar um retrato atual do filho. Sugeriu que ele deveria se suicidar. Uma estupidez como medida definitiva e compensatória às que ele, pai, não contribuiu para evitar o assassinato coletivo.

O norueguês Jo Nesbo, mundialmente famoso pelos seus romances policiais, entre eles, “The Snowman”, por sua vez, conta em artigo no New York Times ter perguntado à filha depois do assassinato coletivo: “Você está com medo?” A filha respondeu o que o pai ensinou em conselho anterior: “Sim, mas se você não sentir medo, não poderá ser corajoso.”   O medo ronda a Europa, não é novidade deste verão, mas a coragem tem sido produto escasso. Sobretudo falta a fibra de afrontar a intolerância ainda que isoladamente e vencê-la.  Um dos melhores exemplos foi deixado por Sir Winston Churchill. No verão de 1940 , ele peitou sozinho a tirania nazista para mais tarde, derrotá-la mobilizando, durante a empreitada, os povos de lingua inglesa.

Breivik é responsável consciente do massacre que triplicou a taxa anual de homicidios da Noruega. Entretanto, vale considerar que a justificativa do seu ato é compartilhada por muitos. Breivik não é o criador, mas discípulo fervoroso e ativo dela. Trata-se de uma imagem da realidade em que a Europa estaria ameaçada pelas políticas multiculturais, pelo Islã, o perigo do “marxismo cultural” e outras sandices. O seu manifesto de 1 500 páginas, “2083, Uma Declaração Européia de Independência”, está repleto de teorias da extrema direita populista, xenófoba e racista. O ideário que apoia-se na deformação da realidade e move discursos virulentos de partidos europeus. Alguns deles fazem parte de coalizões de governos e participam de alianças eleitorais.

É boa hora para os partidos de direita, centro ou esquerda romperem o flerte com extremistas para alcançar melhores resultados eleitorais. Não é porque um partido optou pela via democrática –  se no poder, bem provável que tentaria acabar com a legalidade – que seus incitamentos ao ódio não mereçam reprovação e repúdio. No início  da década de 30, o Partido Nazista era perfeitamente legal na Alemanha. Em 1932, chegou a colher quase 37% dos votos, transformando-se no maior partido do país com 230 deputados em um total de 608 no Reichstag, o parlamento alemão. Deu no que deu.

Por Antonio Ribeiro

22/07/2011

às 21:26 \ Europa

De federação folgada a estado unitário frágil

Reunidos em Bruxelas, os chefes de estado e de governo dos dezessete países da zona do euro construíram um dispositivo. Os mais pessimistas acham que ele lembra uma bomba de efeito retardado. Outros percebem o plano de regaste à Grécia de 158 bilhões de euros – desta vez envolve credores privados com 49 bilhões de euros, como queria a chanceler alemã Angela Merkel  e o Banco Central Europeu e Sakozy faziam resistência – como um tubo de oxigênio incontornável para fazer respirar um paciente que se morresse, levaria para o buraco outros tantos com deficiência semelhante.

As analogias embora diferentes vão no mesmo sentido. O preço foi alto. Pior: a equação está longe de ser resolvida. Fundamentalmente, qual é o problema? A Grécia não consegue pagar com recursos próprios sua dívida pública equivalente a 150% do Produto Interno Bruto (PIB). Não há perspectivas que isso venha acontecer. O plano de reestruturação anunciado pelo governo do primeiro-ministro Georgios Papandreu tem efeitos limitados para restaurar a capacidade de pagamento e a anêmica economia República Helênica não gera o suficiente para tal propósito. O calote grego é favas contadas, mas só dito baixinho como o ruído das águas correntes e do ramalhar das árvores.

A principal consequência: os vizinhos europeus vão, através de doses homeopáticas, continuar pagando a conta grega – ela aumenta rapidamente enquanto as reservas dos benfeitores vai minguando. A maior parte do dinheiro vai sair do bolso do contribuinte europeu, sobretudo dos generosos alemães que pagam subsídios para cobrir gregos revoltados que sonegam impostos ou nem são taxados. E vão contribuir também para sobrevivência dos bancos que continuam a ter juros de 20% sobre as dívidas soberanas.

A ajuda a Grécia e eventualmente a Portugal, Irlanda, Itália Espanha representam a passagem de uma federação européia com margem de manobra e forte parceria comercial para um estado unitário frágil. Se os países europeus com bom desempenho econômico passarem a financiar sistematicamente as dividas monumentais cavadas pela delinquência administrativa de seus avaros vizinhos que fazem parte da união monetária, vão transformar o euro em pataca para colecionadores de moedas.

Por Antonio Ribeiro

11/06/2011

às 5:38 \ Europa

Alemanha: o átomo e a bactéria

Klakar, o projeto de usina nuclear que virou parque de diversão

Desde 1969, quando a primeira usina atômica alemã entrou em operação, a energia nuclear nunca matou uma mosca no país. Ajudou sim, a Alemanha aniquilada na Segunda Guerra tornar-se a principal economia da Europa, motor de desenvolvimento industrial com fundo benemérito para amenizar crises financeiras e monetárias dos vizinhos. Em contrapartida, quando o governo da chanceler Angela Merkel, em uma reviravolta de 180 graus nas suas convicções, decidiu desativar gradualmente toda produção nuclear desligando as 17 centrais do país até 2022, mais de trinta alemães morreram em menos de 20 dias devido à ação de uma cepa nociva da bactéria Escherichia coli – o foco são brotos de feijão, segundo o Instituto Robert Koch.

A primeira lição de fácil aprendizado demonstra nas últimas quatro décadas o singular movimento dos ambientalistas alemães cujo fervor lembra o de uma seita verde e a ação flerta com  a sabotagem e a coerção, empenhando mais força no combate  à fonte inofensiva que faz funcionar as geladeiras do que  ao conteúdo letal que elas eventualmente conservam. A outra, menos prosaica, desrespeita fronteiras. Independente do ideário, alguns políticos escolhem a demagogia no lugar do comprovado, na razão direta do aumento das chances de permanecerem no governo. Neste particular, o oportunismo não aparta a fome e a vontade de comer, mas incentiva a falsa idéia de que ambos são exatamente a mesma coisa.

Merkel tenta conter o avanço eleitoral da oposição, o Partido Verde e o Social Democrata, que tomou o acidente nuclear em Fukushima como munição da hora contra a eletricidade produzida a partir do átomo para chegar à frente das eleições em 2013. A classe política alemã surfa na onda do temor da população de acontecer em casa algo semelhante ao que se viu alhures – 250 000 alemães foram às ruas para pedir o fim da produção de energia de origem nuclear. O receio tem fundamento? Ele é compartilhado? Quais são suas consequências? Vejamos nos parágrafos seguintes.

A usina de Daiichi, em Fukushima, ficou de pé apesar dos abalos sísmicos e do tsunami de intensidade nunca antes registrada. Os compartimentos dos três reatores não foram danificados pela fúria da natureza, mas porque o sistema de refrigeração deixou de operar provocando o derretimento das barras de combustível nuclear. Se o sistema  de refrigeração estivesse protegido pelos envelopes de cimento armado e aço como os reatores, a central nuclear japonesa estaria funcionando até hoje.

Seria insatisfatório do ponto de vista lógico atribuir à energia derivada do urânio a responsabilidade do controle de segurança inadequado, a terceirização de serviços em um setor tão sensível. Sobretudo, não vem do urânio a fragilidade de coordenação das instâncias públicas e privadas pouco habituadas a operar de forma transparente, situação que permitiu dissimular falhas operacionais como no caso japonês.

Um acidente de avião não coloca em questão os benefícios trazidos pelo transporte aéreo. Voar é progresso e necessidade, imperativo ainda que implique o desafio permanente da Lei da Gravidade. O que se recomenda depois dos acidentes de qualquer natureza é a implementação de medidas preventivas e reguladoras como monitoramento efetivo. Países como os Estados Unidos, França, Inglaterra, Rússia e até a Ucrânia, onde está Chernobyl, palco do maior acidente nuclear, não tem planos para abandonar ou reduzir a produção de energia nuclear para fins pacíficos.

Para alguns países a carência de alternativas energéticas para impulsionar o crescimento econômico e, simultaneamente, reduzir a emissão de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera faz da energia nuclear fonte incontornável e de difícil substituição. Na França, onde 75% da eletricidade vem das centrais nucleares, o custo de produção do megawatt por hora é de apenas 45 euros. Em contrapartida,  gasta-se 80 euros para produzir um megawatt por hora através de fonte eólica terrestre e se as torres gigantes dos moínhos modernos estiverem no mar, o megawwatt por hora sai por 150 euros. A energia solar é quase cinco vezes mais cara, 200 euros o megawatt por hora. E devido à sua condição intermitente, toda energia renovável precisa ser combinada com uma base energética constante. Ninguém confia em um hospital cuja eletricidade depende exclusivamente de quando  bate sol ou  sopra o vento.

O caso da China é ainda mais eloquente para contrariar a percepção de que a decisão alemã fez o nuclear entrar em tempos sombrios. O que se assiste no país que mais cresce economicamente é uma espécie de renascimento do átomo como fonte geradora de energia. Até 2020, prevê-se que a capacidade de produção nuclear chinesa vai passar dos atuais 10, 1 gigawatts para 63,3 gigawatts. Aliás, quando a Alemanha desligar sua ultima central atômica, o resto do mundo estará produzindo mais de 30% do que hoje de eletricidade derivada do urânio.

A escolha alemã da qual vão a reboque Suíça e Itália vai tornar a conta de eletricidade para o consumidor final mais cara – o alemão já paga duas vezes mais que os vizinho francês. O país irá depender da compra de energia da França, o hub atômico europeu, e do gás russo que, por sua vez, fluirá como rege a tradição, de acordo com o humor dos ocupantes do Kremlin, doravante com um formidável meio de pressão política. O aumento da importação de carvão natural pesará na balança comercial alemã.

Jürgen Grossmann, presidente da gigante RWE, uma das cinco maiores companhias de fornecimento de eletricidade e gás da Europa com 70 000 empregados escreveu à chanceler Merkel reclamando de medidas de uma “eco-ditadura”. Em entrevista ao jornal Süddeutsche Zeitung, Grossman alertou: “A desindustrialização da Alemanha não virá de uma vez, será um processo gradual, mas em breve teremos que lidar com uma economia sem alguns setores industriais chaves, companhias como a BASF e Thyssen-Krupp não estarão aqui mais.”

Previa-se que os alemães iriam reduzir em 2020 a emissão de gases de efeito estufa em 40% em relação ao nível de 1990. Agora, as previsões mais otimistas não vão alem de 33%, segundo Stephan Kohler, chefe da Agência Energética da Alemanha. O fim das usinas nucleares na Alemanha responsáveis por 23% da eletricidade do pais e um lucro de 7,5 bilhões de euros  representará um acréscimo de 370 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera.

A dramática mudança na política energética alemã transformará a paisagem do país para pior com a construção de termoelétricas, torres eólicas, energia solar e não menos onerosas para o bolso da população: 3 500 quilômetros de linhas de transmissão. A capacidade de armazenamento atual deverá ser multiplicada por 500. A Alemanha renunciou definitivamente à sua independência energética e, por conseqüência, de modelo econômico de sucesso invejado, em troca de um princípio duvidoso.

Por Antonio Ribeiro

30/05/2011

às 12:19 \ Europa

A Grécia ou quase está à venda

Embora sempre cintilante sob a luz dourada do Mediterrâneo, é preciso voltar a Guerra do Poloponeso – opôs Esparta, de tradição militarista terrestre e vida austera, contra a naval Atenas, centro político e civilizatório da Antiguidade – para encontrar um período tão sombrio como o da Grécia atual.

O país está a beira da bancarrota com dívida de 340 bilhões de euros, a maior da Europa. É uma cratera tão imensa que para cobri-la a capacidade produtiva da Grécia inteira levaria 18 meses trabalhando exclusivamente no aterramento sem gastar centavo para comprar uma mísera azeitona. Ou seja, ela representa 150% do Produto Interno Bruto (PIB) helênico. A retração da economia quase paralisada é de 2,6% do PIB, 100 bilhões menor do que o paulista. O índice de desemprego chegou a 16% da população ativa – e pronta para demonstrações violentas como os incêndios no centro financeiro de Atenas em fevereiro de 2011. Isso depois da Grécia ter sido agraciada pela União Européia (UE) e Fundo Monetário Internacional com um empréstimo escalonado de 110 bilhões de euros no ano passado do qual quase a metade já foi entregue.

O governo socialista do primeiro-ministro Georges Papandreau vai iniciar um vasto programa de privatizações com a venda de estatais em boa saúde financeira pela metade do valor de mercado e o fechamento de outras, cuja função está mais próxima a cabides de empregos. É a primeira onda de medidas – inclui até cobrança de 25 euros para o acesso a certas praias – com objetivo de recuperar 50 bilhões de euros em ativos públicos até 2015. Todos os partidos e sindicatos são fervorosamente contra a iniciativa. Para completar o quadro conhecido alhures em tempos não muito remotos, os ministros socialistas recusam assinar privatizações temendo ganhar o adjetivo de traidores.

O plano emerge pela força da perspectiva do sedento chegando a fonte seca. O comissário da UE para assuntos econômicos, Olli Rehn, ameaça suspender a ajuda financeira no momento em que a Grécia negocia a liberação da quinta parcela do empréstimo – 12 bilhões de euros – para fechar as contas de junho. O governo grego é criticado pela lentidão nas reformas prometidas. Auditores internacionais constataram o descumprimento das metas de ajustes fiscais em um país onde, diferente dos vizinhos europeus bem mais ricos, se aposenta com 50 anos – na Alemanha, se aposenta com 67 anos sem sesta de 4 horas. Desde que o fundo de ajuda financeira foi criado, a dívida grega só aumentou.

Estão na lista de privatizações:

- Hellenic Railways Organization, a companhia ferroviária. Participação do estado no capital: 100%.  Faturamento em 2009: 174 milhões de euros. Numero de empregados: 6 000.

- Hellenic Postbank, o banco dos correios. Participação do estado no capital: 34%.  Faturamento em 2009: 384 milhões de euros. Numero de empregados: 2 510.

- Hellenic Telecommunication Organization, companhia telefônica. Participação do estado no capital: 16%.  Faturamento em 2009: 2,2 bilhões de euros. Numero de empregados:  30 000.

- Public Power Corporation, companhia de fornecimento de energia. Participação do estado no capital: 51,12%.  Faturamento em 2009: 5,8 bilhões de euros. Numero de empregados:  21 800.

Por Antonio Ribeiro

30/04/2011

às 1:44 \ Europa

Mundo real: Kate e William

Pronto. A cerimônia de casamento foi bonita. Mais pela elegância da simplicidade sem afetação em tempos onde o gosto duvidoso reina e os exageros imperam . Foi visivel aos 1 900 convidadoas na Abadia de  Westminster, ao milhão de pessoas que ocuparam as ruas de Londres e aos dois bilhões que assistiram as bodas pela TV: nenhum casal real deliciou-se tanto e impôs toques individuais em seu casamento, tradicionalmente contido por formalidades rígidas, quanto Kate e William. A escapada no Auston Martin conversível – do pai/sogro Charles e decorado pelo irmão/cunhado Harry – para trocar de roupa em Clarence House, residência do noivo, foi o auge.

Em festas, certas considerações podem parecer impróprias. Mas é oportuno lembrar quando a atenção está concentrada na Inglaterra, que a beleza do reino insular está no dia-a-dia. No funcionamento de um parlamentarismo exemplar onde “plebeu” tornou-se “cidadão” e “súdito” é tão cosmético quanto “rainha”. É o velho sistema  da democrácia representativa quase perfeita, impar entre tantos outros no planeta, que força a admiração.

O Blog de Paris deseja os melhores votos ao jovem casal.

Por Antonio Ribeiro

03/01/2011

às 13:58 \ Europa

Alemanha adota o dilmês de dois gêneros

A chancelera

BERLIM. A chefa de governo alemã, Angela Merkel, presidiu hoje uma reunião oficiala muito eleganta na capital do país. Doravanta, seu cargo, o mais alto da Alemanha, chama-se “chancelera”. Os presentes e presentas ficaram muito contentes e contentas. Isso porque esperaram pacientes e pacientas depois de séculos pela chegada alvissareira da novilíngua entre teutos e teutas.

Na solenidade, a kanzlerin, rodeada por seus seguranços e seguranças, citou o maior poeto de sua terra, Johann Wolfgang von Goethe: “Nem todos os caminhos são para todos os caminhantes e todas as caminhantas.” Ela foi aplaudida do seu motoristo, sentado na primeira fileira de poltronas, aos analistos políticos, no fundo do salão. Mais adianta, com incontida emoção, a chacelera novamenta lembrou Goethe: “Reconhece-se a mulher de merecimento por este sinal: que, se o marido desaparecesse, ela podia ser o pai dos seus filhos.”

Merkel, famosa por suas qualidades de gerenta da mais pujanta economia da Europa, reafirmou sua promessa de que todas vias na Alemanha terão mão dupla com corredores independentas para pedestras, pedestres, ciclistos e ciclistas. Ao final, sorridenta, arrematou: “Feliz Ano Novo a todos e a todas.”

Por Antonio Ribeiro

 

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