Blogs e Colunistas

Arquivo da categoria Esporte

28/03/2013

às 13:34 \ Esporte

Os Arcos da Derrota

Marquês de Pombal

Enquanto em Paris o Arco do Triunfo, velho ponto turístico da capital francesa, continua mesmerizando visitantes, o Rio tem uma nova atração que a prefeitura do balneário carioca aconselha ficar distante. Trata-se dos “Arcos da Derrota”. Eles ficam em cima de dois pilares junto ao Engenhão, estádio municipal sob auspícios do Botafogo e palco previsto para as provas de atletismo dos Jogos Olímpicos de 2016.

Segundo descritivo técnico, os arcos do Engenhão vencem vãos de 220 metros, no sentido leste oeste. De acordo com recente avaliação técnica da empresa alemã Schlaich Bergerman und Partner (SBP), responsável pela cobertura do Maracanã, a beleza pode desabar com vento de 63 quilômetros por hora, vindo de qualquer ponto cardeal.

Poder-se-ia argumentar que algumas arrojadas inovações arquitetônicas sofrem ajustes com o passar do tempo. Sucede que a estrutura do Engenhão não é, por assim dizer, nenhuma invenção da roda nem descoberta da pólvora. A cobertura do Estádio da Luz, em Lisboa, por exemplo, é muito semelhante à do Engenhão. No entanto, lá não houve problemas.

Ademais, “A Catedral”, do Benfica, é mais antiga. Foi construída em 2003 para a Eurocopa do ano seguinte. O estádio português tem capacidade superior – 65.600 lugares. Enquanto o Engenhão foi inaugurado nos Jogos Pan-Americanos de 2007 e acolhe menos torcedores – 46.900 lugares. Detalhe edificante: o Estádio da Luz custou 306 milhões de reais e gastaram-se 380 milhões de reais na construção do Engenhão, seis vezes mais do que o orçamento inicial.

Apesar de complicar a logística do Campeonato Carioca de futebol, a vida de atletas que têm o Engenhão como única opção para treinar, e de causar prejuízo ao Botafogo, o clube mais endividado do Brasil – o estádio alugado é a maior fonte de renda do Glorioso alvinegro –, Eduardo Paes, prefeito do Rio, tomou atitude sensata ao interditar o lugar. A segurança da população é prioridade em qualquer caso. Contudo, isso não basta.

Uma administração pública com um pouco de brio arregaçaria as mangas e não se sossegaria enquanto não transformasse o Engenhão em um dos estádios mais seguros do mundo. Evidentemente, vai sem dizer, o custo deve ser dos responsáveis pelos estragos não só da obra, mas da imagem do Rio. Parece piada ruim a cláusula contratual que isenta depois de apenas 6 anos os construtores (Delta e o Consórcio Odebrecht-OAS) de uma obra com a envergadura do Engenhão. Por vezes exagerado, o dito popular “Só no Brasil” aqui está em plena conformidade com a realidade.

O engenheiro Flávio D’Alambert, da empresa Projeto Alpha, responsável pelo projeto da cobertura do Engenhão, sustenta que a obra é segura. Ótimo. O Marquês de Pombal chegou a dormir ao relento depois do terremoto de Lisboa, em 1755. Isso para assegurar a população lisboeta que não havia mais perigo e que o fenômeno natural não era um castigo divino como sustentava o baixo clero local.

Se o projetista da cobertura do Engenhão acha que a cobertura do estádio é segura, ele poderia erguer uma barraca debaixo da estrutura e fazer ali seu escritório temporário. E quando o vento soprasse a mais de 63 km/h, convidar a família para um piquenique e seu amigos mais chegados para um convescote.

Leia também: “A história da frase ‘O Brasil não é um país sério’ que o francês Charles de Gaulle nunca disse é mais divertida.”

Por Antonio Ribeiro

07/08/2012

às 12:35 \ Esporte, Europa

Nas duas argolas, Arthur matricula o Brasil em seleto grupo dos cinco anéis

Data venia. Aliás, data máxima venia, como dizem amiúde no plenário do Supremo Tribunal Federal durante julgamento do mensalão, embora de forma nada sincera. Toda reverência as 98 conquistas de ouro, prata e bronze no vôlei, vela, atletismo, judô, natação, tiro, hipismo, futebol, basquete, boxe e taekwondo. Mas só depois do surpreendente ouro de Arthur Zanetti nas argolas, o Brasil tornou-se um competidor olímpico por inteiro entre mais de 200 concorrentes. Isso desde a sobrevida no século XIX criada pelos franceses às competições esportivas da Grécia Antiga –  o Brasil entrou efetivamente na disputa em Antuérpia, quando o calendário estampava 1920.

Nem a escolha do Rio como sede dos próximos Jogos. Nem o duplo ouro no salto triplo de Adhemar Ferreira da Silva ou os 800 metros percorridos de ponta a ponta em Los Angeles sob liderança de Joaquim Cruz. O feito inédito do ”Rei Arthur” cuja execução impecável dos elementos tiveram como trilha sonora as palmas da plateia na North Greenwich Arena, configurou a adesão ao seleto clube no qual os membros são capazes de ganhar em qualquer domínio. A Etiópia e o Quênia, por exemplo, não fazem parte. Os países africanos amealharam mais ouro do que nações com maior numero de participações nos JO, mas isso foi possível em razão exclusiva dos seus formidáveis fundistas e maratonistas. Estados Unidos, Rússia, China, França, Alemanha sim, iniciam a competição com chances reais de vencer em qualquer modalidade. Quem aposta que a Índia pode levar o ouro no futebol ou a Mongólia na vela? Nem os mais “pachecos”.

Naturalmente, o ouro nas argolas não é a nossa maior vitória, ela é complementar as anteriores. E a glória tem geometria variável sujeita ao tempo e as suas circunstâncias. Porém, pela mesma razão, justifica afirmar com justeza: o desempenho do paulistinha ágil, seguro, sereno, discreto e de biótipo atarracado mais lembrado em atletas egressos das escolas soviéticas e americanas, alçou o Brasil para patamar superior e mais amplo.

Ademais, há um outro detalhe todo especial, responsável por fazer Zanetti um gigante de 1,56 metros de altura. A ginástica, modalidade eminentemente olímpica – tem ares circenses e origem militar – ainda não foi sombreada pelos campeonatos mundiais assim como acontece com o atletismo, natação, judô ou vôlei. Os Jogos Olímpicos estão para ginástica artística em igual medida que a Copa do Mundo para o futebol. Tem o mesmo significado do campeonato organizado pela NBA para o basquete ou circuito da ATP em relação ao tênis. Ainda que tenha competições paralelas, é nas Olimpíadas onde o brilho na categoria esportiva tem o seu maior esplendor.

O Brasil levou quase um século para ganhar a medalha de ouro nas argolas. Zanetti apoderou-se dela em apenas 22 anos. Para ele, no entanto parece ser a coisa mais natural do mundo. Os grandes tem mesmo está curiosa inconsciência da predestinação. Vamos lembrar sempre.

Por Antonio Ribeiro

06/07/2010

às 10:11 \ Esporte

A seleção preta e branca, igual a ela mesma

O esboço mais próximo do futuro campeão da Copa do Mundo 2010 levou pouco mais de 90 minutos para ser confirmado no gramado do Estádio Green Point, na Cidade do Cabo. Sob o comando do técnico Joachim Löw, a garotada da Alemanha cuja media de idade é de 24 anos, a mais baixa da competição, despachou a Argentina, de Diego Maradona, com quatro gols. Quando o árbitro uzbeque Ravshan Irmatov fez soar o apito final, os jogadores alemães da geração “M” (multicultural), não tinham tomado nenhum gol do ataque albiceleste de Lionel Messi. O esquema 4-2-3-1 da nova Mannschaft que lembra a forma dos foguetes para rasgar a resistência do ar, encantou até torcedores que não apreciam o futebol alemão, tradicionalmente rígido, eficiente e as vezes, brutal.

Entretanto, o conjunto de componentes cosmopolitas, 11 jogadores de origem estrangeira entre os 23 selecionados, está sendo louvado em casa como modelo de integração dos imigrantes na moderna Alemanha. O país tem uma população de 82 milhões de habitantes entre os quais 7 milhões de imigrantes e quase metade deles são turcos como  Mesut Özil, muçulmano canhoto de 21 anos, a estrela maior do time. “Minha técnica e habilidade com a bola é turca, a disciplina e o esforço de dar o melhor de mim, é o meu lado alemão”, diz Özil. Debaixo da cúpula de vidro transparente do Bundestag, a câmara dos deputados, em Berlim, a chanceler Angela Merkel vai no mesmo embalo: “Eles [os jogadores] são ícones comuns a todos.”

Dennis Aogo (Nigéria), Jérome Boateng (Gana), Cacau (Brasil), Mario Gomez (Espanha), Mesut Özil (Turquia), Miroslav Klose (Polônia), Piotr Trochowski (Polônia), Sami Khedira (Tunísia), Marko Marin (Bósnia e Herzegovina), Lukas Podolski (Polônia) e Serdar Tasci (Turquia), não foi o primeiro time europeu miscigenado ao qual a política  atribui papel exemplar fora das quatro linhas. O campeão da Copa do Mundo de 1998, a equipe “Black, Blanc, Beure”, de Zinedine Zidane, francês de origem cabila, conseguiu em um mês, o que os programas de integração não fizeram em décadas. Provocar a sensação entre os imigrantes e os seus descendentes de pertencerem ao país que acolhe, mas que também discrimina. Um vento de igual força e temperatura sopra neste verão europeu ao norte do rio Reno.

As vitórias esportivas podem ser inspiradoras, mas a sua capacidade de produzir mudanças práticas tem efeito menor fora dos estádios. Nos Jogos Olímpicos 1936, o corredor negro Jesse Owens foi celebrado por  enterrar a teoria nazista da supremacia da raça ariana sobre as demais. No entanto, mesmo no seu país, os Estados Unidos, os indivíduos com sua tonalidade de pele só conquistaram direitos individuais plenos bem mais tarde, nos final dos anos 60. Bastou que os jogadores franceses na África do Sul encetassem a primeira greve organizada por milionários para fazer emergir na França reprovações de caráter racial, falta de patriotismo e honra, menosprezo pelos valores nacionais e outras dungadas.

Nas duas últimas décadas, um acalorado debate partiu a Alemanha entre os que defendiam a manutenção da nacionalidade pela via da consaguinidade e os que queriam ver espelhados na legislação, o caráter multiétnico da moderna sociedade alemã. Não fosse pela flexibilização dos rígidos estatutos de imigração, em 1999, muitos jogadores não poderiam fazer parte do Nationalelf, a atual Seleção alemã. Uma vez mais a Alemanha está próxima do título mundial de futebol. Mas desta vez, ela é preta e branca, por dentro e por fora. Igual a ela mesma.

Por Antonio Ribeiro

22/06/2010

às 10:20 \ Esporte

A França contra a frança

Oito em cada dez franceses torceram para eliminação da França da Copa do Mundo em que a equipe se classificou com um gol, resultado de ação irregular do atacante Thierry Henry. Finalmente o time francês agradou a maioria dos seus torcedores perdendo de 2 a 1 para África do Sul. Se desde a preparação para competição a equipe não conseguiu vencer uma só equipe de peso, desde sábado passado, os jogadores vem envergonhando o país através de motim sem bússola moral, que em nada lembra a Revolução Francesa, contra um treinador sem autoridade e a Federação Francesa de Futebol cujo chefe da delegação do safári africano pulou fora assim o barco começou a se inundar de água suja.

A reprovação popular passa pelo ex-jogador Zinedine Zidane que chega sustentar cusparadas nos amotinados. A preocupação com a imagem humilhada do país empurrou o presidente Nicolas Sarkozy para enfrentar a crise mais surpreendente desde que se instalou no Palácio do Elysée. A ministra do Esporte e Saúde da França comandou reunião surreal onde exigiu dignidade do capitão do time, Patrice Evra, e do técnico, Raymonde Domenech. O grupo financeiro francês Crédit Agricole, um dos principais patrocinadores do time francês depoiss de 40 anos, decidiu não renovar seu apoio — 3,5 milhões de euros. Quem perde mais é o esporte amador e a formação da molecada francesa que adora futebol, 70% da receita vão para eles.

Em pouco mais de uma década, a equipe francesa de futebol desceu do panteão para  ser alvo de escárnio geral e incontido dentro das fronteiras do país. Da heróica vitória da Copa de 98 ao ridículo de se isolar dentro de um ônibus, como fizeram os jogadores tricolores, jovens milionários, recusando treinar em solidariedade a mais que justa expulsão do colega Nicolas Anelka — ele insultou em dunguês seu treinador durante  o intevalo  da derrota para o México. (Veja o post abaixo). Nunca uma equipe francesa conseguiu materializar tão bem um dito popular do país, tão estranho ao esporte mais congregador do planeta: “O futebol é um esporte nobre praticado por malandros.”

Por Antonio Ribeiro

19/06/2010

às 13:45 \ Esporte

Insulto de Anelka choca a França… uma vez mais

O jornal esportivo francês L’Equipe, um dos mais tradicionais da Europa, titulou na sua primeira página o insulto do atacante Nicolas Anelka ao treinador Raymond Domenech, durante o intervalo da partida México 2 X 0 França: “Vai tomar no c…, fdp sujo.” O presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF), Jean-Pierre Escalettes, solicitou a Anelka, de 31 anos, jogador do Chelsea, que pedisse desculpas a Domenech e, publicamente, aos torcedores franceses. O jogador recusou. Como medida punitiva, a FFF decidiu excluir o jogador da equipe.

Em visita a São Petersburgo, na Rússia, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, julgou a atitude de Anelka, se verdadeira, “inaceitável”. A ministra da Saúde e Esporte francês, Roselyne Bachelot, emitiu um comunicado: “Os jogadores devem se lembrar que eles vestem as cores da França e que são considerados como exemplo por muitos jovens. Isto obriga moderação e dignidade.” A rede de lanchonetes francesa Quick decidiu retirar sua publicidade com Anelka.

O jogador teria reagido a ameaça de Domenech de substituí-lo porque estava jogando muito recuado. Anelka soltou o verbo e o técnico então disse: “OK, você sai já.” Anelka negou que teria pronunciado os palavrões embora não chegou dizer que houve troca de carícias com Domenech: “Estas não foram minhas palavras. A discussão aconteceu no segredo do vestiário, entre eu, o treinador, meus colegas e o staff, jamais deveria ter saído de lá. Meu objetivo jamais foi de desestabilizar a Seleção da França, uma instituição que eu respeito.”  O lateral do Manchester United, Patrice Evra, capitão do time francês, correu em socorro do companheiro. Para ele, o problema não foi a ofensa pesada de Anelka ao treinador, mas o “traidor” que informou o jornal. “Devemos eliminá-lo do grupo”, sentenciou.

Os insultos de Anelka vem na sequência de dois antecedentes que chocaram a sociedade francesa. Na final da última Copa do Mundo, na Alemanha, o jogador Zinedine Zidane agrediu com uma cabeçada no peito, o zagueiro italiano Marco Materrazzi. Na partida que classificou a França para a Copa do Mundo da África do Sul, o atacante Thierry Henry usou a mão para controlar a bola em lance que resultou no gol que eliminou a Irlanda da competição.

Atualização: O preparador físico do time francês, Robert Duverne, discutiu feio com o capitão Patrice Evra.durante treino em Knysna. O jogadores recusaram continuar o coletivo em público e se amotinam dentro ônibus.  Eles protestam contra a decisão da FFF de cortar Nicolas Anelka. O chefe da delegação Jean-Louis Valentin se demitiu.

Por Antonio Ribeiro

21/08/2009

às 8:26 \ Esporte

O senhor 200.000 Bolt

bolt2

O Mundial de Atletismo, em Berlim, abriu nova era. As longas pernas do velocista jamaicano Usain Bolt deram passadas espaciais. Elas não foram tão festejadas quanto o salto da nave Apollo 11 ao solo lunar, façanha da NASA pelas botas do astronauta Neil Armstrong. Mas percorrer 100 metros em 9 segundos e 58 centésimos significa para máquina humana uma conquista a qual poucos entendem de imediato. A proeza está mais próxima da miragem do que da lógica.

Quem sente nas entranhas a medida exata do esforço – ele parece fácil para Bolt, completa 23 anos hoje e de quem dizem poder alcançar os 9s40 em breve – fica boquiaberto de cara. Foi o caso de Leslie Djone, especialista dos 400 metros, depois de assistir Bolt atingir 44,72 km/h pouco além da metade do percurso dos 100 metros rasos, a prova que decide quem é o homem mais veloz do mundo.

Enquanto Bolt celebrava saltitante, Djone fixou o olhar em um ponto perdido no azul da pista sintética. O silêncio do corredor durou espaçados segundos. Ele não via nada, mentalizava. Absorto, assistia um filme produzido pelo seu cérebro. A descrição das cenas, só ele poderá contar um dia. Quem  sabe em data comemorativa, quando se quiser saber o que ele  fazia durante acontecimento responsável por desviar a rota da história.

Djone deixou o estado de letargia, resultado da consciência de que os tempos mudaram tendo seus olhos por testemunha, com tirada jocosa: “Daqui a pouco vão instalar placas nas pistas de atletismo indicando limite de velocidade à 50 km/h.” Seria uma medida compensatória para os mortais. No entanto, o super-homem não respeita fronteiras: quebrar os limites é parte mais genuína da sua natureza.

Bolt, 1,96 metro de altura e 86 quilos, assombrou de novo nos 200 metros rasos sob os olhares de 55.000 privilegiados. Ganhou a prova pulverizando o seu próprio recorde mundial com 19s19. Correu 11 centésimos mais rápido do que nos Jogos Olímpicos de Pequim e deixou o panamenho Alonso Edward, comendo poeira 62 centésimos atrás – foi o melhor desempenho na vida do jovem medalha de prata. Isto sinaliza que por muito tempo os 100 metros rasos terão o mesmo vencedor. A única expectativa será ver em quantos centésimos Bolt baixa seu tempo -  em 88 anos, ninguém conseguiu quebrar seguidos recordes como Bolt.

Há mais de meio século, o Estádio Olímpico de Berlim, onde Bolt venceu os 100 e 200 metros rasos, é coberto pela sombra de Jesse Owens. A referência histórica é tão distante que nem em termos simbólicos, ela merece ser comparada com Bolt. A vitória de Owens no verão europeu de 1936 jogou por terra a teoria nazista da superioridade racial ariana. A questão é irrelevante nos tempos de Bolt. Os resultados das últimas décadas colocam os negros sempre à frente dos brancos nos 100 e 200 metros rasos. Bolt e Owens são tão semelhantes quanto um guepardo e um gato angorá.

O que ia até pouco tempo era a disputa entre dois tipos de homens. Os anabolizados e os demais atletas. Neste aspecto, Carl Lewis ainda é a figura mais emblemática. Até que se prove o contrário, Bolt é responsável por elevar a competição ao mais nobre patamar do esporte. Enquanto suas pernas tiverem força, será o homem contra ele mesmo ou melhor dizendo, Bolt contra Bolt. Se fosse no boxe, os adversários de Bolt seriam meros sparrings.

Como ele consegue? Na maioria dos atletas, há um conflito entre a vontade de vencer e a fluência. O engajamento total prejudica a técnica. Mais sutil, existe confusão entre relaxamento e displicência. O cursor de Bolt situa-se no ponto exato do equilíbrio.

Correr de maneira relaxada, implica uma enorme qualidade nervosa e coordenação. As passadas e o movimento pendular dos braços são uma sucessão de informações e contra-informações. Nos casos de 9 em de cada 10 velocistas a contra-informação acontece no meio do movimento. É o momento onde se nota a tensão. Ela é imperceptível no corpo longilíneo de Bolt. Tal qual um chip eletrônico, o jamaicano administra de maneira excepcional  grande quantidade de informações vindas de vários sentidos. ‘Penso em nada na largada, não há razão para se estressar, a competição é prazerosa” ,  explica Bolt.

“Bolt tem uma resistência ao acúmulo de acido lático no corpo superior aos seus pares” , diz Pierre Morath, historiador do esporte e ex-atleta. ‘Nunca se viu um corredor com tamanha capacidade de resistência, o que lhe permite acelerar no ponto onde os outros começam baixar o ritmo”. A história do atletismo também desconhece um precedente que reuniu relaxamento, potência e resistência em universo onde predomina a massa cerebral e músculos.

Os pés de Bold calçam 44. Em ação, eles lembram as laminas metálicas que substituíram as pernas amputadas do corredor sul-africano Oscar Pistorius. “Além de amortecer o choque, sistematicamente, eles projetam com força Bolt para frente” , diz Bruno Marie-Rose, ex-recordista mundial dos 4 X 100 metros. O segredo do sucesso dos velocistas é tocar o menos possível no chão e com a maior brevidade. As passadas de Bold são, em média, 30 centímetros mais longas que as dos seus adversários. Nos 100 metros rasos, ele deu apenas 41, ou seja, quatro a menos que a média.

Os velocistas empurram seus braços para frente. Bolt puxa os seus para cima como asas de uma ave de rapina alçando vôo. No final dos 200 metros,  ele olhou para o denso azul celeste. Os limites terrestres parecem ter perdido o interesse, ultrapassá-los é só uma questão de manter a inércia. Pequeno passo para Bolt, imenso salto para o esporte.

Atualização: Usain Bolt conquistou a terceira medalha de ouro no Mundial de Atletismo, desta vez com a equipe do revezamento 4 X 100 metros da Jamaica.

Por Antonio Ribeiro

31/07/2009

às 15:19 \ Esporte

Só um número interessa: 46s91

cielo2

L’Equipe, o jornal do esporte e do automobilismo  — o diário francês considera a corrida sob quatro rodas, uma modalidade à parte — estampou na sua edição de hoje, o título Tão bonito, tão triste. A foto de alto a baixo da primeira página explica o sentimento duplo — ao menos para a França. César Cielo aparece no centro da imagem, ligeiramente acima de dois nadadores franceses, Alain Bernard e Fréderick Bousquet. É um pódio histórico e inédito — ao menos para o Brasil.

César quebrou o recorde mundial dos 100 metros livres, a prova mais nobre da natação, Fez com o tempo de 46s91. Largos 20 metros à frente de Johnny Weismuller, recordista em 1922, o mais famoso interprete de Tarzan. Oooooh verde amarelo? Sim. Mas só justificaria o buuuuá dos franceses se a prova tivesse acontecido nos tempos dos filmes em preto e branco. Faltou 44,50 centímetros para o dedo médio de Alain Bernard tocar na parede da piscina ao mesmo tempo que César Cielo. A diferença lembra as humilhações do velocista Usain Bolt nos 100 metros rasos. Se o francês, recordista em 2009, tivesse repetido seu melhor tempo, teria terminado a prova apenas à 6 centímetros atrás de César Cielo, uma distância 7,5 menor do que a registrada.

Como foi que isso aconteceu? Para contar a história completa, teríamos que voltar ao Big Bang de César. Quer dizer, a complicada gestação de Flávia Cielo, mãe do nadador de Santa Bárbara do Oeste, cidade do interior de São Paulo. A versão curta.começou quinta-feira, 31 de julho, na piscina do Foro Itálico, em Roma. E começou mal. Aqui bem e mal medem-se em milímetros, em centésimos. O microscópio seria melhor do que a telinha da TV para acompanhar a disputa entre os nadadores.

Bernard ganhou entre 10 e 15 centésimos sobre César quando bateu na água, ainda que o salto do brasileiro foi bem melhor do que o de costume. Nos primeiros 25 metros de “nado limpo”, no jargão da natação, o francês e o brasileiro foram em velocidade demente. É neste ponto que Cielo, especialista nos 50 metros livres, coloca dianteira definitiva que conduz suas vitórias acachapantes. Bernard se afobou para seguir o ritmo de César. Perdeu a cadência das braçadas. Em termos musicais, diría-se, o francês “desafinou”. Nos 30 metros, normalmente, César baixa o ritmo. Desta feita, ele se corrigiu, continou firme na mesma cadencia. Atenção. Nem através de TV de alta definição é possível perceber estas filigranas. A natação não é esporte que faz bom casamento com a telinha. É a soma de informações distintas, vídeo, audio, cronômetro e narrador que possibilita o telespectador enfronhar-se na disputa.

Bernard chegou aos 50 metros, fez sua virada cravando o tempo de 22s22, na primeira metade da prova. O brasileiro já estava 5 centésimos à frente. Nos últimos 50 metros, o francês começou a tirar o atraso. Na cabine de TV a cabo brasileira, o medalha de prata Gustavo Borges, doravante excelente comentarista, fez careta. Ele viu o que nós, só acompanhamos. “Se a prova tivesse um metro a mais, eu teria ganho”, disse Alain Bernard que teve velocidade media de 7,64 km/h enquanto César, singrou a piscina em 7,67 km/h. Pode ser,  cher Alain, mas ela tinha regulamentares 100 metros. A César o que é de César.

Por Antonio Ribeiro

17/05/2009

às 16:55 \ Esporte

Não há nada mais veloz que o espírito — Cícero

O atacante português Cristiano Ronaldo acaba de ganhar mais um título, o de campeão da Primeira Liga da Inglaterra. O 7 de ouros e seus companheiros do Manchester United igualaram-se ao time vizinho e rival, o Liverpool. Ambas equipes conquistaram 18 vezes o título máximo do futebol inglês, o melhor campeonato nacional da Europa. Para chegar lá, os Diabos Vermelhos do Manchester, sob comando de Sir Alex Ferguson, atiraram 370 vezes ao gol de forma certeira. Em media, 10 vezes por jogo. Outro recorde. Um terço da façanha partiu dos pés de Cristiano Ronaldo. Aos 24 anos de idade, o atacante não coleciona só títulos, mas um exercito de fãs. Entre eles, Usain “9,6” Bolt, o recordista dos 100 e 200 metros rasos, o homem mais rápido do mundo, cujas pernas são capazes de atingir 44 km/h.

Cristiano Ronaldo é um dos mais velozes no mundo da bola. Nos melhores momentos, ele chega a 30 km/h. Contudo, no auge do pique, o jogador inicia a desaceleração. Bolt acha poder melhorar o desempenho do ídolo com um conselho para retardar o momento em que perde velocidade. “Ele tem tendência de abaixar a cabeça quando atinge a velocidade máxima, o gesto causa perda de potência” , constata o recordista jamaicano. E aponta o caminho das pedras: “Disse a ele, procure dar passadas no centro de gravidade do corpo, isso naturalmente fará você ficar em uma posição ereta e com a cabeça erguida. assim será ainda mais rápido e percorrerá distancias mais longas.”

Na visita a Old Trafford, estádio do Manchester, Bolt, de 22 anos, não se contentou oferecer conselhos no domínio que conhece. “Cristiano Ronaldo tem o mesmo problema de Ronaldinho Gaúcho, são muito dóceis em campo, é bem por isso que levam tantas pancadas.” Desta vez, ele mostrou o exemplo do atacante do Manchester, Wayne Rooney. “Bastou jogar mais bruto com os zagueiros que forçou o respeito.” Rooney foi o jogador do Manchester mais penalizado pela arbitragem durante a Primeira Liga versão 2009: uma expulsão e nove cartões amarelos.

A sombra de Jesse Owens não abandona Usain Bolt. Depois de jogar por terra, nos Jogos Olímpicos de 1936, a teoria nazista da superioridade racial ariana, o lendário atleta americano — quatro medalhas de ouro — sofreu uma suspensão. Sua volta as pistas, passou primeiro, pela disputa contra lambretas e cavalos nos Estados Unidos. Bolt disputou e venceu — 14,35 segundos—  os 150 metros rasos, uma prova pitoresca na rua Densgate, centro comercial de Manchester. Foi o primeiro teste do jamaicano depois do acidente dirigindo sua BMW M3, em abril passado. Quis a divina providência que o tricampeão olímpico não sofresse um arranhão. Mas Bolt estava descalço. Feriu os pés pisando em espinhos ao sair do carro. Foi operado. Em janeiro, Cristiano Ronaldo fez quase igual, chocando sua Ferrari 599 GT no interior de um túnel.

Por Antonio Ribeiro

06/05/2009

às 5:52 \ Esporte

Volta da França à F1 passa por um autódromo verde

O retorno do mais antigo Grande Prêmio da F1 é do agrado do “Barão do Paddock”, o todo poderoso Bernard Charles “Bernie” Ecclestone. Ausente este ano, a França prepara para voltar em 2011 com o primeiro circuito ecológico de automobilismo. Ele será construído numa área plana de 95 hectares em Flins-Le Mureaux, 42 quilômetros oeste de Paris. O custo previsto gira em torno de 142 milhões de euros — o dobro do que  o Manchester United está oferecendo para comprar Franck Ribéry, o atacante francês do Bayern Munique, a transferência mais cara do futebol.

O traçado de Flins será um dos mais curtos da competição: 4,5 quilômetros de extensão, uma reta de mil metros e 11 curvas. O desenho da pista prevê 3 pontos chaves para ultrapassagens. As tribunas cobertas com vista total do circuito terão capacidade para acolher confortavelmente 120 000 espectadores. O Conselho Geral de Yvelines, o departamento francês que vai bancar inteiramente a construção com dinheiro público, exigiu que o projeto fosse integrado na paisagem do lugar, o verde vale do rio Sena. O resultado pode estabelecer padrão para os novos autódromos.

A parte mais delicada da empreitada consiste no sistema de drenagem. O escoamento e captação da água, completamente independentes, será feito por dois lagos situados no interior do circuito, equipados com sistema de tratamento próprio. As autoridades locais estabeleceram regras estritas para não haver contaminação entre resultado do funcionamento do autódromo em dias chuvosos com as adjacências do circuito, terras férteis onde se cultivam frutas, cereais e vegetais.   Instalados na região desde os anos 1950 uma vasta fábrica da Renault junto com refinaria da Elf e o braço da EADS, responsável pelo programa espacial Ariane, reproduzem um conflito típico da França moderna: as mazelas entre o mundo industrial e a zona rural agrícola.

O escritório francês de engenharia e arquitetura Wimotte associou-se com o construtor britânico de autódromos (Dubai e Domodedovo, na Rússia) Apex Circuit Design para criar um projeto sustentável. Um cinturão de arvores e as tribunas servirão de barreiras sonoras. Boa parte da energia consumida será de origem solar. O maior problema ecológico dos grandes eventos esportivos é a poluição causada pelos carros dos espectadores. Estima-se que uma corrida com 100 000 presentes, onde os motoristas rodam a 50 km/h em engarrafamentos para chegar ao local, produz 1.000 toneladas de dióxido de carbono. No entanto, com transportes públicos, a poluição pode ser reduzida em 63%. Flins terá uma estação de tem, um porto fluvial, mas zonas mínimas de estacionamento.

Chegou-se cogitar a volta da França ao calendário da F1 por uma prova nas ruas de Paris tal qual em Mônaco. A prefeitura da capital francesa desistiu devido ao custo e o transtorno aos habitantes. Houve proposta para os americanos construírem um autódromo ao lado da Disneylândia Paris. A turma do Mickey não topou quando fez a equação dos custos e benefícios. A solução que mais agradava a Federação Francesa de Automobilismo seria a reforma do autódromo de Magny-Cours. Bernie Ecclestone, um dos proprietários dos direitos da competição foi taxativo: “É perto de Paris ou nada.” Flins ganhou a pole position.

Por Antonio Ribeiro

24/08/2008

às 14:14 \ Esporte

A grande decepção dos Jogos Olímpicos


Está encerrado um dos Jogos Olímpicos mais espetaculares da história. Os Jogos de Pequim. Sim. Queiram ou não, de Pequim — não escrevo o outro nome da cidade nem sob tortura chinesa. Prefiro também Ceilão, Indochina às bossas novas pós-coloniais. A vida como ela é… Os Jogos de Michael Phelps, 8 medalhas de ouro, o atleta olímpico mais premiado de todos os tempos. Os Jogos do irreverente Usain Bolt, o homem mais rápido do mundo, recordista dos 100 e 200 metros rasos, fenomeno que força a lembrança do lendário Jesse Owens, o atleta americano deu uma varada de bambu nas teorias raciais de Adolf Hitler. Diga-se de passagem, pancada mais forte que a dor no tornozelo do ídolo de estado Liu Xiang que o fez o desistir da prova, deixando os chineses estupefatos. Queiram ou não, os Jogos das meninas do vôlei — as brasileiras deram um show de bola, de graciosidade e alegria contagiante.

Muitos acham que o Brasil não foi bem na versão 2008 dos Jogos. Uma reportagem no jornal O Globo sobre o desempenho nacional atende pelo nome de “Impotência olímpica.” Está muito bem. No entanto, vale a pena dar uma olhada no quadro de medalhas. Entre os países do BRIC, nações ambiciosas por serem novas potencias, além do Brasil, a Índia teve um resultado pífio. O país do sul da Asia ganhou apenas uma medalha de ouro com um tiro de carabina à 10 metros. Foi o primeiro ouro da nação com mais de bilhão de habitantes desde a criação dos Jogos modernos, em 1896. Por que a Índia, ex-colônia do Império Britânico, inventores da maioria das disciplinas esportivas, foi a maior decepção dos Jogos de Pequim, de Phelps, de Bold e das nossas meninas?

O sucesso da Jamaica e Austrália, ex-colônias britânicas, mostra que a missão da Índia não era impossível. Mas para que o esporte desenvolva em um país faz se necessário dois requisitos básicos. O primeiro é que ele deve ser um meio de acesso à universidade, ao dinheiro e a glória. Os Estados Unidos são os mestres neste domínio. De outra parte, é preciso uma organização administrativa formidável que vai do recrutamento ao treinamento. A França, décimo colocado em Pequim, pratica esse sistema com primazia. A China preenche muito bem os dois quesitos, por isso ganhou os Jogos com uma margem sem precedente de medalhas. A Índia, qüinquagésima nos Jogos, não tem nenhuma delas. O Brasil ainda engatinha em ambas.

Por Antonio Ribeiro
 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados