06/07/2010
às 10:11 \ EsporteA seleção preta e branca, igual a ela mesma
O esboço mais próximo do futuro campeão da Copa do Mundo 2010 levou pouco mais de 90 minutos para ser confirmado no gramado do Estádio Green Point, na Cidade do Cabo. Sob o comando do técnico Joachim Löw, a garotada da Alemanha cuja media de idade é de 24 anos, a mais baixa da competição, despachou a Argentina, de Diego Maradona, com quatro gols. Quando o árbitro uzbeque Ravshan Irmatov fez soar o apito final, os jogadores alemães da geração “M” (multicultural), não tinham tomado nenhum gol do ataque albiceleste de Lionel Messi. O esquema 4-2-3-1 da nova Mannschaft que lembra a forma dos foguetes para rasgar a resistência do ar, encantou até torcedores que não apreciam o futebol alemão, tradicionalmente rígido, eficiente e as vezes, brutal.
Entretanto, o conjunto de componentes cosmopolitas, 11 jogadores de origem estrangeira entre os 23 selecionados, está sendo louvado em casa como modelo de integração dos imigrantes na moderna Alemanha. O país tem uma população de 82 milhões de habitantes entre os quais 7 milhões de imigrantes e quase metade deles são turcos como Mesut Özil, muçulmano canhoto de 21 anos, a estrela maior do time. “Minha técnica e habilidade com a bola é turca, a disciplina e o esforço de dar o melhor de mim, é o meu lado alemão”, diz Özil. Debaixo da cúpula de vidro transparente do Bundestag, a câmara dos deputados, em Berlim, a chanceler Angela Merkel vai no mesmo embalo: “Eles [os jogadores] são ícones comuns a todos.”
Dennis Aogo (Nigéria), Jérome Boateng (Gana), Cacau (Brasil), Mario Gomez (Espanha), Mesut Özil (Turquia), Miroslav Klose (Polônia), Piotr Trochowski (Polônia), Sami Khedira (Tunísia), Marko Marin (Bósnia e Herzegovina), Lukas Podolski (Polônia) e Serdar Tasci (Turquia), não foi o primeiro time europeu miscigenado ao qual a política atribui papel exemplar fora das quatro linhas. O campeão da Copa do Mundo de 1998, a equipe “Black, Blanc, Beure”, de Zinedine Zidane, francês de origem cabila, conseguiu em um mês, o que os programas de integração não fizeram em décadas. Provocar a sensação entre os imigrantes e os seus descendentes de pertencerem ao país que acolhe, mas que também discrimina. Um vento de igual força e temperatura sopra neste verão europeu ao norte do rio Reno.
As vitórias esportivas podem ser inspiradoras, mas a sua capacidade de produzir mudanças práticas tem efeito menor fora dos estádios. Nos Jogos Olímpicos 1936, o corredor negro Jesse Owens foi celebrado por enterrar a teoria nazista da supremacia da raça ariana sobre as demais. No entanto, mesmo no seu país, os Estados Unidos, os indivíduos com sua tonalidade de pele só conquistaram direitos individuais plenos bem mais tarde, nos final dos anos 60. Bastou que os jogadores franceses na África do Sul encetassem a primeira greve organizada por milionários para fazer emergir na França reprovações de caráter racial, falta de patriotismo e honra, menosprezo pelos valores nacionais e outras dungadas.
Nas duas últimas décadas, um acalorado debate partiu a Alemanha entre os que defendiam a manutenção da nacionalidade pela via da consaguinidade e os que queriam ver espelhados na legislação, o caráter multiétnico da moderna sociedade alemã. Não fosse pela flexibilização dos rígidos estatutos de imigração, em 1999, muitos jogadores não poderiam fazer parte do Nationalelf, a atual Seleção alemã. Uma vez mais a Alemanha está próxima do título mundial de futebol. Mas desta vez, ela é preta e branca, por dentro e por fora. Igual a ela mesma.
Tags: Angela Merkel, Cacau, Jesse Owens, Lukas Podolski, Mesut Özil, Sami Khedira, Zinedine Zidane













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