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Arquivo da categoria Do leitor

09/02/2009

às 17:43 \ Do leitor

Odílio Lopes, de Paris


Senhor Antonio Ribeiro,

Cada vez que leio as suas reportagens de França na Veja.com são sempre coisas boas, bonitas. É tudo agradável, extraordinário. Fico pensativo: os brasileiros devem ficar maravilhados com a França e com sua capital.

Sabe qual é a diferença entre um jornalista brasileiro (certamente de origem portuguesa) e um jornalista francês? Sem ser ofensivo, vou explicar.

Um jornalista brasileiro em França vai tentar encontrar tudo o que existe de bom. Fazer reportagens positivas para os leitores brasileiros ficarem de boca aberta. Dizerem: que bonito país, que gente culta, que prazer viver em Paris! O jornalista francês no Brasil nunca vai falar o que de bom existe lá. Vai sempre tentar rebaixar o brasileiro, mostrar aos compatriotas que o Brasil é terceiro mundo. Para eles, as brasileiras são todas prostitutas, todos são pobres, não há cultura. Vai fazer reportagem sobre as favelas de São Paulo e Rio de Janeiro. Dizer: ainda bem que os franceses ensinaram os brasileiros a apreciar vinhos e comer bem. Em São Paulo, por
exemplo, há restaurantes franceses em todas as ruas.

Os brasileiros já falam mais francês do que português. Os brasileiros dizem, por exemplo, bistrot, reveillon, Papai Noel, dossier, enquête, lingerie, buffet. Assim dizem porque gostam de ser como os franceses. “Não conseguem porque nós somos os maiores”, pensam os franceses. Resultado: hoje os brasileiros tem um complexo de inferioridade tão grande para com os franceses que já nem no futebol lhes ganham. Jornalistas brasileiros para se valorizarem utilizam palavras francesas pois dá-lhes um ar de sábio e de importância. Na culinária não dizem um escansão, mas sommelier; filet mignon em vez de lombo. Valorizam o que é francês como se os outros não tivessem produtos iguais ou melhores. Valorizam a cultura francesa como se não houvesse cultura nos outros países.

O resultado está à vista: um povo com superioridade e arrogante e outro, com complexos de inferioridade.

Se o senhor, não digo criticar, mas procedesse como os franceses, as suas reportagens só falariam de coisas ruins. Por exemplo: das pessoas que dormem na rua em Paris (e são muitas), dos pedintes que há em todo o lado, da miséria que há neste pais, dos 15 milhões de analfabetos, dos problemas de imigração, dos salários que não dão para comer, dos distúrbios provocados pelos os jovens nos fins de semana em sítios turísticos, da falta de instrução da maioria dos franceses. Pergunte ao francês qual a população do Brasil? Qual língua se fala por lá? Geralmente, respondem que os brasileiros falam espanhol e que no Brasil devem viver uns 20 ou 30 milhões de pessoas. Pergunte aos franceses o nome de um ou dois autores brasileiros. No melhor dos casos, conhecem o Paulo Coelho porque ele vive em França e porque gosta de falar francês.

O senhor devia fazer reportagens sobre o que esta na moda em França. Nenhum jornalista brasileiro escreve sobre as agressões aos automobilistas nos semáforos — dizem que foi importado do Brasil. Deveria fazer reportagens sobre a nojeira da maioria dos restaurantes parisienses; da sujeira nas ruas (só o centro está limpo); da má educação das pessoas; da maneira como lidam com os turistas; da tristeza genetica da maioria dos franceses… O francês em geral é um povo com pouco asseio. Traja mal, mas consegue transmitir a idéia de que é limpo e elegante.

É verdade que é mais fácil falar do Louvre e de alguns restaurantes de luxo. Só que não transmite a realidade francesa aos brasileiros. Não estou a dizer que só deve falar de o que é mau, mas simplesmente mostrar a realidade.

Com os meus comprimentos, de Paris.

Odílio Lopes

RESPOSTA:

Caro Odílio,

Muito obrigado pela leitura e envio do comentário.

Seu recado está dado, pá.

De Paris, um abraço

Antonio Ribeiro

Por Antonio Ribeiro

10/12/2008

às 22:07 \ Do leitor

A cigarra e a formiga – Versão do leitor

Por Norma Camargo, de Miami Beach, Florida

A formiga, vulgarmente conhecida como formigus classis médiuns, costumava trabalhar durante o verão de sol a sol para sobreviver no inverno. Ultimamente, a labuta não era suficiente. A formiga trabalhava também no inverno e nos fins de semana. Tinha dois empregos para garantir o sustento,

A cigarra, vulgarmente conhecida como cicadidae classis politicus e funcionairus publicus, sempre considerou a formiga uma otária. A formiga camelava em busca do sonho de chegar um dia lá. Na verdade, quanto mais trabalhava, mais impostos pagava.

A formiga andava mesmo se sentindo estúpida. Se perguntava por que a cigarra ao invés de trabalhar, dançava, sorria e cantava o tempo todo? Suspeitava que por garantir calada o salário e os benefícios das cigarras, a situação continuaria para sempre. E ainda tinha que assistir cigarras considerarem a corrupção coisa natural da função.

O inverno chegou. A formiga deveria estar bem abrigada no quentinho do formigueiro. Mas para preservar o bem estar da cigarra, foram drenadas todas as reservas da formiga. A formiga sentia-se perdida. Ensinaram-na desde pequena que trabalhando duro e muito, ela conseguiria melhorar de vida. Mas com o passar do tempo, a formiga só empobreceu, enquanto a cigarra, ficava mais rica e poderosa.

A cigarra vivia dizendo que a formiga era a vergonha nacional devido a ganância desmesurada. A cigarra incitava os insetos menos favorecidos a invadirem formigueiros. A formiga sentia-se injustiçada. Não tinha bolsa salário, bolsa
família, vale gás, vale maternidade, vale enxoval de bebê, vale isso ou vale aquilo. Tampouco tinha carteira registrada, férias nem benefícios. Possuía sim, obrigações. Ao voltar à noite para casa, a formiga temia não chegar com vida ao formigueiro. Tinha sido assaltada seis vezes. Perdeu amigos, parentes e conhecidos, vítimas da criminalidade. Não se sentia segura.

A formiga arrumou as trouxas e partiu. Foi morar em outro formigueiro distante, mas onde ainda podia sonhar com condição melhor e viver sem medo. Decidiu abandonar seu formigueiro, ainda que no novo, é formiga ilegal.

Por Antonio Ribeiro

10/12/2008

às 17:04 \ Do leitor

A cigarra e a formiga – Versão brasileira

Caro Antonio Ribeiro,

Valeu a idéia das versões da fábula A cigarra e a formiga.
Em minha tese de doutorado (A transposição da fábula clássica), deparei-me com múltiplas propostas brasileiras; porém, elegi como a “mais saborosa” a leitura de Christovam de Camargo, publicada em 1935, na obra Fabulário de Vovô Índio. Não obstante extenso, o texto é uma pérola no cenário da desconstrução paródica.

Um abraço,

Ismael dos Santos, de Blumenau, Santa Catarina.


A CIGARRA E A FORMIGA

Por Christovam de Camargo, 1935

A cigarra vivia cantando na alegria dourada do sol. Bulhenta, espevitada, luminosa, pondo na vista as cintilações das suas asas e no ouvido as estridências festivas da sua matraca triunfal, era o deleite, a vida, a alma daquele bosque.

Vivia cantando, no deslumbramento de uma bohemía feliz, vivia cantando a doçura da vida e a beleza das coisas, alheia a cuidados, sofrimentos e tristezas. Poeta embriagado de luz e de aromas, assim vivia a cigarra, despreocupada, risonha e inútil.

A formiga escandalizava-se.

– Isto é uma pouca vergonha, não haverá por ai uma polícia de costumes? Enquanto vivo trabalhando como um negro, essa vadia – só na maciota! Depois, na hora do aperto, já se sabe quem é mordida… Mas, dona Cigarra, não está cansada de martirizar-nos os tímpanos?

– Quem canta, seus males espanta!

– Isso é velho, já não pega mais. A senhora o que não quer é criar juízo!

– Nasci para cantar!

– Não há dúvida! Aposto que pensa ser assim uma espécie de Bidu Sayão…

– Quem tem uma voz como eu tenho!…

– Ainda si fosse a Buenos Aires, cantar para alguma fábrica de pomadas, vá lá, sempre entrariam uns cobres. Mas assim, a toa, sem nunca arranjar nem um contratozinho para figurar num programa de rádio!

– Não faço questão de dinheiro!

– Já sei, já sei, mas uma coisa lhe afianço, é que comigo não há de contar!

– Fique sossegada, minha velha, não preciso! – Ora, vivo tão bem!

– Pois sim, mas eu é que não trocava a minha vida pela sua. Que tem arranjado, com toda essa cantoria? Nada, absolutamente nada! E veja só o que se dá comigo. Trabalho, não há dúvida, mas que casa farta, a minha! Agora mesmo, acabei de levantar um puxado, para ir acumulando mercadorias…

– Bobagem!

– Bobagem? Então, a fazer pouco no meu trabalho, hein! Atrevida! Deixe estar, quando chegar o inverno, ai é que serão elas!

A cigarra deu uma gargalhada.

– Isso é literatura, minha velha, resultado de andar com o La Fontaine a mesa de cabeceira… Então você já viu inverno no Rio?

– Quando vier a minha porta, lá pela estação fria, perguntar-lhe-ei o que fazia durante o verão…

– Responder-lhe-ei que cantava!

– Eu então…

– Já sei, já sei, dirá: “cantava? Pois agora trate de dançar!” Ora, isso é plágio. Você demonstra, não há dúvida, apreciável erudição, mas anda fora da moda e no mundo da lua. Na Europa, vá lá que as formigas sejam insolentes e as cigarras morram de fome, mas no Brasil, com esta luz, este sol, esta primavera ininterrupta!

Isto aqui é de quem mais canta, e o trabalho, entre nós, foi feito para os trouxas.

– É o que havemos de ver…

– Você então não sabe que estamos numa terra de funcionários públicos? Como eles não podem cantar, sempre que alguém os procura na repartição saíram para tomar café ou jogar no bicho. E, apesar de serem muito mais inúteis do que eu, que, afinal de contas, sempre alegro os bosques, levam vida folgada e milagrosa e nunca lhes faltam alguns tostões no bolso.

– Quem não trabalha não tem direito a comer!

– Isso foi antigamente, amiguinha, hoje, não. Quem trabalha produz, e quem produz nada mais faz do que contribuir para o desequilíbrio da vida. A sociedade precisa pouquíssimo de quem produza. Atrás de quem consuma é que anda todo o mundo de lanterna acesa…

A formiga achou que já havia perdido demasiado o tempo dando trela aquela vadia e partiu apressada para o trabalho, no qual mergulhou com a seriedade e método que todos lhe conhecem.

Chegou dezembro e reuniu-se o governo dos bichos, para levantar a estatística das atividades do ano e tomar, para o exercício seguinte, as medidas asseguradoras da prosperidade pública.

Apresentou-se a formiga, esse grande elemento de abastança e fartura do reino, a receber a recompensa devida ao seu labor incessante e profícuo. Não poderiam os poderes públicos deixar de cumulá-la de honrarias. Uma cadeira de deputado… que sonho! E, quem sabe, não a havia merecido? O que ela queria era ver a cara da cigarra quando a estigmatizassem pela sua vadiagem impenitente, a apontassem à execração publica por aquela mentalidade parasitária, que era a vergonha, tristeza e dor da nobre estirpe dos insetos.

Como secretário geral do governo, lia o macaco o relatório da vida nacional no ano a findar-se. Mostrava-se a formiga séria e concentrada, como convinha a um bicho da sua envergadura moral. A cigarra fazia de vez em quando uma observação irônica.

O macaco ia lendo: “A crise, que no ano passado já se esboçara, devida ao excesso verificado na produção, acentuou se este ano de maneira impressionante. Viu se o mercado abarrotado de coisas, as quais, nas circunstâncias em que nos encontramos, só por um gracejo de mau gosto podem ser chamadas ‘utilidades’, tendo sido impossível encontrar nas praças do exterior colocação para um apavorante saldo de mercadorias. As perspectivas para o ano vindouro são verdadeiramente aterradoras.

Faltaria o governo ao seu dever, si deixasse de profligar, como ora o faz, o espírito ganancioso, anti-patriótico e anti-social de certas empresas e indivíduos altamente perniciosos: com um alarmante alheamento das condições em que vivemos, há quem se obstine nas fainas de uma super produção danosa, da qual decorrem a baixa geral dos produtos, o abandono dos campos, o ‘chômage’, a ruína das indústrias e a miséria pública.

Entre esses maus cidadãos, cumpre destacar, para a censura de todos, a formiga, fator de desagregação, fermento de revoluções, o arquiteto máximo da nossa ruína econômica!”

- Morte a formiga, morte a formiga! – berraram
os animais.

Restabelecida a calma, continuou o secretário: “O governo vê se na obrigação de controlar, doravante, as suas criminosas atividades e, como único meio de minorar os terríveis efeitos da crise que nos assoberba, decreta imediata incineração de quatro quintos das mercadorias existentes nos seus entrepostos.

Espera a alta administração do país, com essa medida radical, desafogar o mercado e conseguir o levantamento dos preços.

Não quer o governo terminar a sua mensagem ao povo com um anátema. Assim, aponta a consideração de todos esses modelos de virtudes públicas – a cigarra – com uma compreensão nítida das dificuldades da hora que passa, o admirável inseto cruzou os braços, renunciando a contribuir, com um trabalho nefasto, ao agravamento dos nossos males. Não só não produziu, como levou a sua abnegação patriótica ao ponto de subtrair aqui e ali, para seu consumo, no nobilíssimo intuito de argumentar o bem estar geral, o que mais facilmente lhe vinha as mãos, fazendo quanto nela estava para que os nossos produtos não baixassem a uma absoluta desvalorização.

Honra, pois, à cigarra, luzeiro, espelho e guia dos patriotas!

Por Antonio Ribeiro

13/10/2008

às 13:33 \ Do leitor

Dica de um leitor ilustre

Concordo inteiramente que é um programa de índio. Mas um ótimo programa em Paris, sem precisar se locomover muito, é a Exposiçao da Aeronautica na Praça de Concorde – Champs-Elysees. Visite!

Paulo Coelho

RESPOSTA:

Visitamos, Paulo. Levamos os meninos.

De Paris, um abraço

Antonio Ribeiro

Por Antonio Ribeiro

10/09/2008

às 2:51 \ Do leitor

De Curitiba, Alex Corazza

Caro Antonio,

Assim como cada capítulo do livro de Johannes M. Simmel, você descreve de sobejo, uma viagem pelo céu da boca!  Na vida real, só 2 grandes artistas me proporcionaram tamanha satisfação: o grande chefe Claude Troisgros e a nobre cozinheira Fiammeta Ridolfi.  Dois seres capazes de improvisar, seja numa casa de praia desprovida de acessórios culinários ou em uma pousada sem eletricidade na Serra da Bocaina.  Em ambas ocasiões, apesar da falta de roteiro cerebral, a junção das constelações gastronômicas e intelectuais foi um estouro. Na sua descrição do creme brulée faltou a seguinte e importantíssima etapa: é quando batemos a colher na crosta.  Se ela faz aquele ruído crocante e o creme por dentro é morno…. é de largar a família!

RESPOSTA:

Caro Alex,

Muito obrigado pela leitura e envio do comentário.

As vezes, falta. As vezes, sobra. A sorte é ter leitores como você que ajudam a coluna chegar a justa medida.

Segue abaixo uma receita do Claude Troisgros.

De Paris, um abraço

Antonio Ribeiro

RISOTO AO BRIE, PARMA E RÚCULA

RISOTO

INGREDIENTES:

½ cebola picada
500g de arroz arbóreo
1 copo de vinho branco seco
8 conchas de caldo de frango
pimenta
sal

MODO DE PREPARO:

Refogue a cebola no azeite, coloque o arroz e deixe refogar por mais 5 minutos. Regue com o vinho branco e reduza. Acrescente 2 conchas de caldo de frango e reduza até secar. Não pare de mexer. Continue o mesmo procedimento com o caldo de frango, colocando uma concha de cada vez, até completar as 6 restantes.

TOQUE FINAL

INGREDIENTES:

1 colher de sopa de manteiga
150g de queijo brie em cubos
50g de parmesão ralado
fatias finas de presunto de parma
rúcula
arroz selvagem
azeite extra-virgem

MODO DE PREPARO:

Coloque o arroz selvagem em uma panela com azeite bem quente para que ele pipoque. Adicione ao risoto o queijo brie, o parmesão e deixe derreter. Tempere com o sal, a pimenta e acrescente a manteiga e a rúcula. Por cima coloque as fatias de presunto de parma, o arroz pipoca e o azeite.

Por Antonio Ribeiro

30/08/2008

às 15:02 \ Do leitor

De Nova York, Michael Grossmann

Caro Antonio,

O que Obama queria com esse discurso era bem diferente do que ele queria com sua retórica eleitoral até a convenção. Acho um erro julgar o discurso de aceitação da candidatura pelos critérios das falas anteriores.

O discurso teve tanto sucesso exatamente porque atingiu seu objetivo. Ou seja, conter as principais linhas de ataque do candidato republicano John McCain.

Vamos a elas:

1. Mesmo os democratas que apóiam Obama, como eu, achavam o candidato muito tímido em contra-atacar a Hilary Clinton e, especialmente, o McCain. Isto porque os estrategistas da campanha do Obama se preocupavam com a imagem de um negro agressivo e brigão, algo que muitos brancos americanos detestam — a grande maioria deles votou em Hilary, nas prévias.

2. Eles também diziam que os discursos do Obama por mais carismáticos e eloqüentes que fossem, eram muito vagos no que diz respeito ao seu programa de governo. Sobretudo queriam saber quais seriam os benefícios para os americanos da classe media baixa e assalariados.

Agora o McCain conseguiu redirecionar, temporariamente, os holofotes da campanha, nomeando uma mulher, diga-se de passagem, Sarah Palin, governadora do Alasca, é uma ilustre desconhecida. A escolha surpreendente em nada afetará o impacto eleitoral do discurso de Obama.

De Nova York, um abraço

Michael Grossmann

REPOSTA:

Caro Michael,

Muito obrigado pela leitura e envio do comentário.

Os americanos estão muito bem servidos, desta vez, com a qualidade e contraste dos dois candidatos embora ambos busquem o centro.

A coluna esta muito bem servida com leitores do seu quilate.

De Paris, um abraço

Antonio Ribeiro

Por Antonio Ribeiro

16/06/2008

às 10:51 \ Do leitor

Enrico Mires, de Paris

Caro Antonio,

A leitura do artigo desta semana deixa a sensação de que para o Código Civil francês a virgindade é “A” qualidade essencial. Ora, o que a lei prevê é a nulidade de um contrato (e o casamento é um contrato) caso um dos contratantes tenha mentido sobre “UMA” qualidade essencial, sem a qual o outro contratante não teria contratado. Resta saber o que deve ou não ser considerado como qualidade essencial.

No campo trabalhista, por exemplo, uma empresa poderia requerer a anulação de um contrato de trabalho ao descobrir que um funcionàrio, no momento de ser contratado, havia mentido sobre os diplomas ou a experiência obtidos. No campo da famìlia, entre outros casos, hà o exemplo concreto de uma mulher que, hà cerca de 10 anos, pediu anulação do casamento apòs descobrir que o marido jà havia sido casado anteriormente. Ela alegou que, sendo catòlica praticante, caso tivesse sabido da condição de divorciado do noivo não se teria casado com ele. A Justiça francesa aceitou em primeira e em segunda instâncias, e ninguém atacou os dogmas do Vaticano nem ergueu barricadas nas ruas em defesa do direito do noivo ter tido outra vida antes. Quanto ao caso presente, pode-se dizer exatamente o mesmo : o noivo alegou que para ele a virgindade era fundamental e que, caso a noiva não tivesse mentido, ele não teria se casado. E pouco importa se para você, para mim e para a metade da população do planeta o pensamento dele é ultrapassado.

Seria também interessante tentar entender por que no caso de 10 anos atràs não houve a mesma celeuma a que se assiste agora. Seria porque num caso a demandante era uma fràgil e confiante mulher iludida por um cìnico dissimulador, enquanto no outro o demandante é um malvado machista que trata as mulheres como objetos ? Ou seria porque hà 10 anos o casal era catòlico, enquanto o de agora é muçulmano ? Repare também que todos estão prontos a apontar a cultura muçulmana como retrògrada (o que talvez seja verdadeiro), mas ninguém lembra que a decisão em questão não é a de um tribunal islâmico fundamentalista aplicando a ‘charria’, mas a de um tribunal francês regular, baseado no Código Civil de um paìs laico.

Enfim, e sem ter a pretensão de ter exaurido o assunto, não vejo qualquer menção ao que diz o pròprio advogado da noiva, que não se cansa de dizer que sua cliente, uma enfermeira, està satisfeita com a anulação, sò quer que a deixem viver em paz e não quer virar sìmbolo de coisa alguma, enquanto todas as associações feministas da França decidiram transformà-la em màrtir.

Tenho a nítida sensação de que estamos diante de um claro caso de hipocrisia social.

De Paris, um abraço

Enrico Mires

RESPOSTA:

Caro Enrico,

Muito obrigado pela leitura e envio do comentário.

De Paris, um abraço

Por Antonio Ribeiro

 

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