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Arquivo da categoria Diplomacia

01/02/2012

às 10:51 \ Diplomacia

EUA e França: voto não reduz diferenças entre as velhas democracias

Naturalmente há quem queira estabelecer paralelos entre a eleição presidencial americana e a francesa, projetando Mitt Romney como vencedor das primárias do Partido Republicano depois da acachapante vitória na Florida contra Newt Gingrich, o adversário dos sonhos dos democratas. Nesta altura, o exercício de alta especulação traz mais confusão que respostas. Mais que as naturais entre os dois países, ainda que velhas democracias, de tradições e processos eleitorais distintos.

Em primeiro lugar, o combate final entre Barack Obama e o desafiante republicano ainda nem começou enquanto a campanha eleitoral francesa vai de vento em popa. A eleição americana não tem dois turnos, como a francesa e a brasileira, portanto, aí já vai uma diferença de peso que complica a comparação desprovida de análise dos meandros.

Regra geral, na eleição de dois turnos, os candidatos tentam reunir o seu campo no início e isso implica, é do jogo, uma certa radicalização. Na etapa posterior, a estratégia principal é capturar o centro a exemplo das partidas de xadrez. Tanto na França como nos Estados Unidos, países politicamente polarizados, ninguém vence se não conseguir persuadir o eleitorado, digamos, flutuante. No caso dos EUA, agregam-se ainda os independentes e os desiludidos com o desempenho de Obama.

Neste sentido, Sarkozy deveria conter a migração do seu eleitorado para extrema-direita e, simultaneamente, trazer para seu terreno, simpatizantes da novata Marine Le Pen. Isto bastaria para chegar ao segundo turno. Para ganhar as eleições, o Presidente da França deve abarcar também boa parte dos eleitores do centrista François Bayrou.

Converter socialistas franceses em conservadores de direita ou fazer o caminho inverso constitui sucesso tão improvável quanto o engajamento de um palestino na causa sionista. Perda de tempo. Ganhar os seus e parte do centro foi o que trouxe a vitória a Sarkozy em 2007. Tentar agradar a gregos e troianos fez despencar sua popularidade. Perdeu aqui e não ganhou lá.

Do ponto de vista do eleitor francês de qualquer ponto do largo espectro político, Rommey e Gingrich estariam mais próximos do ideário do Front National. Salvo talvez na questão da imigração. Um candidato americano pode até pensar como a senhorita Le Pen, mas não ousaria verbalizar  em público o slogam “Americanos Primeiro” sem correr o risco de levar o pesado adjetivo xenófobo para casa. A candidata francesa não liga muito. Ela acha que isso, ainda que de forma indizível e em última instância, ser uma vantagem. Seu eleitorado de base gosta e aplaude. Em contrapartida,  e mesmo agradando os carolas franceses, Marine Le Pen não se sentiria muito a vontade colocando em evidencia seu cristianismo como fazem os republicanos americanos, as vezes de forma fundamentalista, a menos que a posição seja para enfatizar, segundo ela, os efeitos maléficos dos muçulmanos nas tradições européias. Não houve na outra margem do Atlântico guerras religiosas tão sangrentas como no Velho Continente.

Para os socialistas franceses, Obama não chega a ser um entre deles, sobretudo no aspecto econômico, mas é o “melhor” que os EUA podem fazer para se aproximar dos seus valores. A grosso modo, a chegada do democrata de tez amorenada à presidência é vista como um “progresso” da desigual sociedade americana, assim como o metalúrgico Lula, no Brasil. Detalhe: embora estima-se que a França tenha 5,5 milhões de muçulmanos, a maior comunidade da Europa, nenhum deles tem assento na Assembléia Nacional. Os americanos acham espantoso. Aliás, o censo do INSEE, o IBGE francês, nem contabiliza “muçulmanos” nos seus formulários do censo. De acordo como os preceitos da Republique, o indivíduo é um cidadão cuja crença religiosa não diz respeito ao estado, laico por princípio pétreo.

Na França, Sarkozy é percebido pela maioria como um conservador e representante do capitalismo puro e duro. Nos EUA, o presidente francês entra facilmente na galeria dos líderes estatizantes que não medem esforços para intervir com força e excesso de regulamentações na economia além de sempre que o interesse nacional está em perigo promover medidas protecionistas sem o menor complexo.

François Hollande só encontraria uma legenda nos EUA se ingressasse na ala moderada do Communist Party USA (CPUSA). Isso porque a despeito dos socialistas espanhóis, ingleses e alemães, o Partido Socialista (PS) francês não conseguiu se reformar para adequar-se à realidade de um mundo altamente competitivo. Continua atrelado e dependente ao poder dos sindicatos franceses cuja maioria é de funcionários públicos mais especificamente de professors dos estabelecimentos públicos. Não é anodina a proposta de Hollande para aumentar seu número. Evidentemente dizer claramente de onde vai tirar dinheiro para pagar salários e encargos sociais durante 62 anos e mais aposentadoria. Isso em um país de com deficit publico de 1,7 trilhão de euros, 86% do Produto Interno Bruto (PIB).  Mas, leia-se o de sempre, “aumentar os impostos” que nos EUA, a questão muito é mais sensível do que na França.

Em resumo e no absoluto, os EUA estão mais próximos à economia de mercado e a França, é bem mais liberal no aspecto político do termo. Para que se possa estabelecer uma comparação mais justa entre as eleições francesa e americana seria necessário admitir que as prévias nos EUA equivalessem à votação do primeiro turno na França, ainda que um terceiro candidato independente americano possa influenciar na dualidade da disputa final. O certo é que tanto Obama quanto Sarkozy não estão em posições confortáveis, o último bem menos que o primeiro. E o curioso é que se os votos confirmarem as pesquisas, a dupla Hollande e Obama não irá aproximar mais as visões de mundo dominantes em seus respectivos países. É bem provável que aconteça o contrário.

Por Antonio Ribeiro

24/10/2011

às 21:25 \ Diplomacia

A última carta de Kadafi

A última carta de Kadafi foi escrita no dia 5 de agosto a Silvio Berlusconi, dezesseis dias antes dos combatentes rebeldes ocuparem Trípoli, a capital da Líbia.

Kadafi lembra ao Presidente do Conselho italiano o pacto de amizade selado entre os dois em 2008 – Berlusconi garantia investir cerca de 4 bilhões de euros durante 20 anos na Líbia e Kadafi, em contrapartida, fornecer petróleo, gás natural numa relação preferencial, além de impedir o fluxo de imigrantes líbios clandestinos para Itália. Na carta, o ditador libio, executado na semana passada, pede ao amigo que interceda junto aos seus aliados para cessar os bombardeios da Otan na Líbia. Leia a carta em seguida:

Querido Silvio.

Te envio esta carta por intermédio de seus compatriotas que vieram à Líbia trazer apoio em um momento difícil para o povo da Grande Jamahiriya*.

Fiquei surpreso com a atitude de um amigo com quem  selei um tratado de amizade favorável aos nossos dois povos. Esperava da sua parte, ao menos,  o interesse aos fatos e a tentativa de uma mediação antes de apoiar a guerra.

Não te culpo pelo que você não é responsável. Sei bem que você não é favorável a esta ação nefasta que não honra nem você nem o povo italiano. Mas creio que você ainda tem a possibilidade de fazer retroceder a situação e de fazer valer os interesses dos nossos povos.

Pare com estes bombardeios que matam nossos irmãos líbios e suas crianças. Fale com seus amigos e aliados para cessar esta agressão contra o meu país.

Espero que Alá todo poderoso possa te guiar no caminho da justiça.

Muamar Kadafi

Guia da Revolução

* Em 1977, Kadafi proclamou a “Jamahiriya”, que definiu como uma “República de Massas” governada por meio de comitês populares eleitos, e concedeu a si mesmo o título de “Guia da Revolução”.

Ao saber da morte de Kadafi, Berlusconi disse “Sic transit gloria mundi” A expressão latina significa literalmente “Assim passa a glória do mundo”. Ou, “as coisas mundanas são passageiras”.

Leia o post do Blog de Paris: “Governo que inicia com mentira não abandona a desfaçatez

Por Antonio Ribeiro

05/10/2011

às 9:41 \ Diplomacia

Queimada e fígado cru

A viagem de Dilma Rousseff à Bulgária, terra dos seus antepassados, tem motivado alguns brasileiros a reproduzir histórias contadas em casa pelos seus parentes imigrantes. Devido a sua imensa população de origem estrangeira, o Brasil está cheio delas. Eu não vou contar as minhas porque jornalista quando vira notícia, na maioria das vezes, denota a falta dela. Exatamente como ocorre agora. A escala da Presidente da República à Gabrovo é uma visita de simpática cortesia e de carácter pessoal. Impulsionar a cooperação econômica é conversa.  O comércio entre os dois países não passa de minguados 86 milhões de euros e a perspectiva de aumento é estreita devido ao minúsculo mercado consumidor  do país balcânico. O Brasil vende resúduos de cobre, fumo, café e compra… fertilizantes. A visita não vai afetar em nada de significativo a vida do brasileiro nem do búlgaro. No máximo, causará uma carga emotiva temporária. Depois, vida segue.

Acompanhei vários expedientes parecidos, entre os quais, dois me ocorrem agora. O primeiro foi a visita de Fidel Castro ao casebre onde moraram os seus pais, na Galícia. Na outra ocasião peguei carona no banco da frente do carro oficial do presidente do Líbano para seguir Paulo Maluf até Hadeth Baalbek, no Vale do Beca. Lá, da casinha original dos Maluf ficou apenas os alicerces. Construíram uma outra ao lado e penduraram os retratos dos velhos enquanto jovens nas paredes para visitas.

Na Galícia, Fidel queimou as papilas gustativas ao tomar um copo de Queimada, uma espécie de sangria fervida na qual se mistura aguardente, açúcar, limão e laranja. Diz a lenda medieval que a bebida protege contra feitiços e afasta os espíritos e demais seres do mal. O acidente não reteve a lingua do ditador cubano. Mais para frente, quando recebeu título de Cidadão Honorário do lugar, falou o tantão e o de  sempre. Em Hadeth (em árabe, quer dizer, perto) Maluf foi obrigado a comer fígado de bode cru. Fez o trajeto de volta à Beirute reclamando dos patrícios. Em português, evidentemente para não desagradar os anfitriões.

Espera-se que Dilma tenha melhor sorte na terra do seu pai Petar Roussev e do meio irmão Luben, ambos falecidos. A presidente foi condecorada logo que chegou com a ordem Stara Planina, a mais alta distinção do país, cujo Produto Interno Bruto (PIB) equivale ao do estado de Goiás, 36 bilhões de euros. A corrupção endemica da Bulgária pode ser comparada a do Maranhão sob José Sarney. A falta de combate a robalheira fez a União Européia (UE) suspender ajuda finaceira. O país não faz parte da zona do euro nem do espaço Schengen, a área de livre circulação da  UE. É o tipo de viagem pago pelo contribuinte do fisco brasileiro que, por mais que se force a barra, o governante sem uma agenda com conteúdo lembra um peixe fora d’água. A etapa seguinte e última da viagem de Dilma de sete dias de duração, a visita a Turquia, faz bem mais sentido.

Por Antonio Ribeiro

22/03/2011

às 7:09 \ Diplomacia

Alvorada e batucada

O princípio da não intervenção e respeito à soberania é posição tradicional da diplomacia brasileira. Isso vem lá de trás, dos tempos em que eram frequentes as intervenções estrangeiras nas Américas. Em um primeiro instante pelas potencias coloniais européias e depois pelos Estados Unidos. Ela foi substituída  mais recentemente no governo Lula por ações incisivas, posicionamento querido ao ex-chanceler Celso Amorim com aval do ex-presidente. Achou-se durante oito anos que se poderia resolver qualquer pendenga, em qualquer lugar e que, no final, isso traria um papel mais relevante para o Brasil no cenário internacional. Não foi isso que aconteceu. O que modificou a percepção do Brasil no exterior foi a força da sua economia movida pelo espírito empreendedor dos brasileiros, da sociedade civil e não a diplomacia aventureira e de viés ideológico de Lula-Amorim.

A abstenção do Brasil na votação do Conselho de Segurança da ONU tem as vantagens e inconvenientes da neutralidade. O país não precisa sustentar posição quando não tem lastro, mas também não estreita alianças em horas graves. É tática de jogo catalogada nos anais da diplomacia desde priscas eras. Agora é, no mínimo, bizarro lavar as mãos na iminência de um massacre, quando o mais forte está pronto para esmagar o mais fraco.  O caso de Srebrenica na Bósnia, em 1995, onde a comunidade internacional acompanhou impassível o assassinato de mais de 8.300 bósnios muçulmanos pelas tropas regulares e milícias da Serbia. Ainda com toda problemática na ação militar das forças de coalizão, evitou-se um massacre em Benghazi, reduto dos rebeldes contra  o coronel Muamar Kadafi no leste da Líbia. Isso é simplesmente i ne gá vel. Contudo, as relações entre países são distintas das relações entre pessoas. Na grande maioria das vezes, elas não são conduzidas por princípios morais, mas por interesses de cada parte.

Isso nos remete a seguinte questão: o Brasil serve melhor aos seus interesses quando defende o cessar-fogo na Líbia? Detalhe edificante: o Itamaraty lamenta a perda de vidas que diz serem decorrentes do “conflito no país”, omitindo a responsabilidade do coronel Kadafi. Não é a posição de vasto consenso que sustentou a intervenção militar no norte da África. O Brasil sempre ganha  quando alinha-se claramente com a maioria contra a tirania. Desta vez, tem a singularidade de reunir na linha de frente europeus, americanos e árabes.  Nesta altura, o Brasil está em cima do muro e de costas para ela. As posições isoladas podem parecer altivas manifestações de auto afirmação e de independência, mas elas conseguem fragilizar até as grandes potencias – condição que força respeito no mundo atual não só pelo poderio bélico e econômico, mas também pela defesa de princípios e valores universais.

Para arrematar: seria bom saber se o Brasil informou ao presidente americano Barack Obama que, seguido à sua partida, o Itamaraty iria imediatamente soltar uma nota – acão coordenada nos bastidores com Rússia, China e Índia que  se abstiveram na votação do Conselho de Segurança da ONU. É verdade que ela confirma uma posição já tomada, conhecida. Mas no mínimo, denota bom tom avisar que se irá enfatizar uma posição oposta ao empenho de país amigo e aliado. Caso contrário, fica a impressão de uma rasteira por trás. Se a visita de Obama ao Brasil – os americanos creem ter sido algo semelhante a final de semana de folga – tinha como objetivo principal alavancar as relações bilaterais entre os países, seria uma pena não expulsar completamente a velha desconfiança.

A nota do Itamaraty:

Ao lamentar a perda de vidas decorrente do conflito no país, o Governo brasileiro manifesta expectativa de que seja implementado um cessar-fogo efetivo no mais breve prazo possível, capaz de garantir a proteção da população civil, e criar condições para o encaminhamento da crise pelo diálogo.

O Brasil reitera sua solidariedade com o povo líbio na busca de uma maior participação na definição do futuro político do país, em ambiente de proteção dos direitos humanos.

O Governo brasileiro reafirma seu apoio aos esforços do Enviado Especial do Secretário-Geral da ONU para a Líbia, Abdelilah Al Khatib, e do Comitê ad hoc de Alto Nível estabelecido pela União Africana na busca de solução negociada e duradoura para a crise.”

Por Antonio Ribeiro

08/12/2010

às 17:59 \ Diplomacia

Estupro, acusação ideal

O crime perfeito é um mito. No entanto, há acusação que aproxima-se do ideal para procuradores que não querem perder muito tempo com formulações mais complexas exigidas pela lei. É o caso do estupro, sobretudo nos países da União Européia. O crime não exige testemunhas para apreciação da Justiça. A declaração da suposta vítima, devido às circunstâncias da agressão, tem peso maior que em outros delitos. O estupro garante, quando é o caso, uma extradição quase automática.

Na Suécia, onde ocorrem mais denúncias sobre estupros na Europa — 53 por 100.000 habitantes — não necessariamente copulação forçada de fato, manter relações sexuais sem preservativo e sem violência física pode ser enquadrado na lei.  Ou seja, não é necessário agravantes, basta ser contra a vontade da vítima. Concidência ou não, é ter cometido estupro em jurisdição sueca, a acusação a Julian Assange, fundador do WikiLeaks, que justificou à sua detenção na Inglaterra.

Antes de continuar, faz se necessário riscar uma linha limítrofe no chão. Os 251.287 despachos confidenciais do Departamento de Estado dos EUA foram obtidos de forma ilegal. Eles foram carregados no computador do cabo Bradley Manning, um analista da inteligência do exército americano no Iraque, um entre os 854.000 indivíduos com acesso a documentos classificados como top secret depois dos atentados do 11 de setembro — corporação uma vez e meia maior que a população de Washington, capital dos EUA. O crime de Julian Assange foi aceitar receber o material sigiloso e, em seguida, divulgá-lo. Mas se alguém formular a acusação, vai enfrentar o argumento da defesa de que entre outros, 7 grandes jornais colaboram diretamente na difusão do material confidencial. O fato não impede a acusação, mas nenhuma corte digna do nome deixará de levar em conta.

Eric Holder, procurador-geral dos Estados Unidos, estuda a possibilidade de enquadrar Assange no Ato de Espionagem, criado em 1917.  Não é tarefa fácil acusar alguém que não pertence a nenhum organismo oficial americano nem é agente de país estrangeiro tendo como base a divulgação de material confidencial dos EUA. A acusação se não colidir, pode resvalar na legislação que protege a liberdade de informação, princípio constitucional entre os mais defendidos nos EUA. O mais provável é que as autoridades americanas aguardem o resultado do pedido de extradição sueco para escolher o caminho legal mais viável.  Ele deveria ser o de acusar Assange do crime o qual  ele supostamente cometeu. Buscar a acusação mais oportuna, denota impotência e fragilidade de propósitos.

Por Antonio Ribeiro

07/12/2010

às 19:51 \ Diplomacia

Teatro em Londres

O australiano Julian Paul Assange, de 39 anos, foi detido em Londres. O fundador do WikiLeaks — site responsável pela divulgação, até agora, de 1.325 despachos confidenciais do Departamento de Estado dos EUA entre os 251.287 pirateados — ficará hospedado na prisão de Wandsworth sob controle da Scotland Yard pelo menos até o dia 14 de dezembro. Não será surpresa se a detenção encadear procedimentos judiciais que farão Assange ver o sol nascer quadrado pelo resto de sua existência.

Por enquanto, Assange está sendo acusado de crimes sexuais contra duas suecas – a militante feminista Anna Ardin, de 31 anos, e a fotógrafa Sofia Wilen, de 27 anos  – que teriam recusado compartilhar prazeres debaixo dos lençóis. Em situações normais, é coisa grave. Tanto que nem fiança se admitiu — o juiz Howard Riddle recusou uma oferta de 180.000 libras, prontamente cotizada pelos simpatizantes do australiano, entre eles, o diretor de cinema, Ken Loach. Mas diante de tantos inimigos graúdos que Assange fez desde o 28 de novembro quando os segredos americanos começam a jorrar na web, é coisa pouca em relação ao que está por vir.

Mark Stephens, advogado do acusado, procurou uma saliência entre dezenas de jornalistas, subiu e inflou os pulmões para declarar: “A detenção do meu cliente é política”. Quem viu pode ter lembrado de uma dessas famosas frases que, embora singelas, tiveram força de  inscreverem-se na história da Justiça inglesa. Isso porque, mesmo se Assange tenha de fato abusado das suecas, a motivação de colocá-lo sob custódia não foi por esta razão.

A Justiça fez o que pode enquanto ainda se busca casamento mais feliz entre delito e legislação.  É o caso das autoridades americanas que cogitam enquadar Assange na lei contra espionagem de 1917 sem colidir com a legislação que garante liberdade de expressão.  Ainda: Assange não pertecence a nenhum organismo oficial americano nem é agente  de país estrangeiro.  Al Capone pagou pelos crimes que cometeu por não ter pago o devido ao fisco.

Londres assistiu cena teatral segundo a melhor tradição do torrão de William Shakespeare, o maior poeta britânico, pai espiritual de Macbeth, o autor da frase: “Eu sou um homem a quem os vis golpes e repulsas do mundo a tal ponto irritaram, que lhe é perfeitamente indiferente praticar qualquer fato que possa ofender a sociedade.” O último ato da detenção de Assange teve detalhe edificante. Quando o responsável pelas maiores revelações dos últimos tempos cruzou as câmeras, escondeu o rosto.

Por Antonio Ribeiro

06/12/2010

às 13:22 \ Diplomacia

WikiLeaks e Don Putin

Entre os poderosos, alvo dos diplomatas americanos nos 1.325 despachos revelados pelo WikiLeaks, em um total de 251.287, houve comedimento. Algumas irritações aqui, ironias ali, desdéns acolá, permeados por breves críticas. Hillary Clinton dedicou mais tempo à pirataria. Dever de ofício. Emergiu da sua jurisdição o que está sendo considerado divisor de águas e até, para os abastados em superlativos, o “11 de setembro” da diplomacia — doravante, os prudentes não conversam com funcionário do Departamento de Estado dos EUA completamente à vontade. Vladimir Putin, primeiro-ministro da Rússia, o “Batman” nos telegramas diplomáticos, ex-espião do KGB – o temido serviço secreto soviético durante a Guerra Fria – colocou um pouco mais da sua alma nas reflexões que faltaram do lado da vidraça. Conhecimento de causa.

Sentado em salão do Kremlin sob os holofotes do programa de Larry King, da CNN, Putin analisou em russo: “Alguns especialistas pensam que os vazamentos podem ter sido organizados para, em um primeiro instante, descreditar WikiLeaks.” Quem ler “eu acho” no lugar de “alguns especialistas pensam”, não corre risco de errar. Putin não precisa de ajuda no domínio da espionagem. Continuou: “Em seguida, o instrumentalizam em benefício de seus próprios objetivos políticos.” Nota-se que o primeiro-ministro russo não ataca diretamente o WikiLeaks. Seria vestir fácil a carapuça. Ele é frequentemente acusado, e com razão, de controlar a liberdade de expressão em seu país. Contudo, Putin elabora teoria de conspiração mais intricada.

Putin tenta persuadir que a “entidade” que organizou tal complô é, claramente, os EUA. Ele não é bastante ingênuo para crer que é assim, mas devolve troco em moeda equivalente, a quem negligencia controle, a quem não utiliza métodos que ele preconiza reservadamente e que não consegue dissimular quando os coloca em prática. No fundo, a cólera de Putin é bem maior em relação à porosidade do sistema diplomático americano do que foi relatado sobre ele. Putin sabe que existem críticas ao seu autoritarismo e cinismo.  Que falam à boca pequena e abertamente contra suas astúcias para driblar a democracia usando meios aparentemente democráticos, a relação de conivência com o crime organizado e a aliança com a oligarquia corrupta russa. Ele tem ciência de que elas se formalizam em memorandos. Mas deixar que venham a público não é do jogo, é demais. As potencias inimigas  jogavam baixo na Guerra Fria, mas respeitavam um certo código, não foram tão longe. O velho espião não gosta de ver a situação fora de controle em casa nem alhures.

Por Antonio Ribeiro

01/12/2010

às 16:46 \ Diplomacia

WikiLeaks e Don Corleone

Apenas 0,5% dos 251.287 despachos do Departamento de Estado dos EUA colocados em domínio público pelo site WikiLeaks são conhecidos. Quantidade ainda menor foi decantada para a melhor degustação. Os perfis dos chefes de estado, através da ótica dos diplomatas americanos, não tem a natureza das fotografias nem dos raios  X. São percepções. Valem as retinas que as operam. No caso, as de diplomatas que revelam-se mais ávidos leitores de jornais do que de depositários de informações privilegiadas e de análises profundas. Salvo poucas exceções, o que se supunha escondido não é muito diferente do exposto. No entanto, é o bastante para causar incomodo aos poderosos. A encrenca resume-se em uma frase: a prosa franca é danosa até quanto trata da notoriedade banal.

Ainda é cedo para aferir a extensão do estrago. Ele é maior nos Estados Unidos baseado na reprimenda de Don Corleone ao filho Sonny, personagens do filme  O Poderoso Chefão: “Nunca diga a alguém fora da família o que você pensa. Nunca mais!” O prejuízo não está bem no que foi dito, mas na possibilidade de, estudando o conjunto da obra, chegar à descoberta da construção do raciocínio. E, em análise subsequente, comparar o que está preto no branco com política colocada em prática depois. São elos importantes de uma corrente preciosa cuja prudência recomenda guardar atrás de sete chaves, o processo decisório na cúpula do país mais poderoso do planeta.

Embora a pirataria de Bradley Manning, 23 anos de idade, cabo do exército americano, disseminada através de um site escandinavo com a colaboração de jornais aumente a desconfiança entre os EUA e países amigos, a tendência é de que os constrangimentos se atenuem gradualmente com o tempo. Alianças sustentam-se sob os pilares de interesses comuns. Nenhum deles parece ter sido abalado. As dificuldades vão crescer nos bolsões onde o poder de convencimento americano  encontra mais resistência. Os vazamentos do WikiLeaks são fatores complicadores para diplomacia americana, mas não necessariamente determinantes. Do ponto de vista acadêmico, é uma tremenda contribuição para melhor compreensão da história contemporânea.

Por Antonio Ribeiro

17/05/2010

às 21:11 \ Diplomacia

O gol contra

De um lado, Luis Inácio Lula da Silva. À direita, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan. Os dois erguem os braços do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Olhem a imagem que ilustra o post. A julgar pela preocupante questão nuclear iraniana, a imagem de festejo durante assinatura do acordo em Teerã, equivaleria a eventual fotografia do capitão Lúcio, da Seleção, erguendo a Taça FIFA, com as duas figuras humanas esculpidas em ouro sustentando o planeta Terra. O mundo inteiro deveria estar aplaudindo, assim como farão os torcedores presentes no estádio Soccer City, em Joanesburgo, na África do Sul, dia 11 de julho. Mas não está: olha desconfiado, enquanto o grupo restrito comemora. Por que?

Em primeiro lugar, porque não assistiu-se ao jogo. Ouviu-se pelo rádio a narração feita pelos protagonistas da partida. Eles dizem ter saído vitoriosos depois de 18 horas de conversa. No entanto, a euforia não consegue afastar a suspeita geral de que, na verdade, tratou-se de uma conquista de tempo adicional. Isto para evitar sanções imediatas do Conselho de Segurança da ONU contra o país de Ahmadinejad, descumpridor reincidente de acordos. Turquia e Brasil conseguiram arrancar a promessa da República Islâmica do Irã pela qual o país entregará pouco mais da metade  (58%) de matéria-prima em sua possessão (1.200 quilos de urânio) que se 90% enriquecida, através de processo de separação, pelo isótopo Urânio-235, serve para fabricar arma atômica.

A Turquia será fiel depositária da parcela radioativa do Irã. Em contrapartida, o país se encarregará de repassar daqui um ano, 120 quilos de urânio enriquecido a 20% — na Rússia e na França — para servir de combustível atômico dos reatores iranianos com finalidade pacífica. Detalhe edificante: pelo acordo, o Irã se dá o direito de continuar enriquecendo urânio a 20% o que contraria cinco resoluções da ONU. Uma vez chegado a 20%  de enriquecimento, bastaria apenas alguns meses para atingir os 90% necessários para a arma nuclear.  Ainda: o Irã poderá romper o acordo quando bem entender. Então o que mudou? A curto termo, o Irã não terá estoque suficiente para fabricar uma arma nuclear — isso se o país tiver os 2.058 quilos de urânio estocados segundo o útimo relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Simultaneamente, o país dos aiatolás adquire uma espécie “selo verde” ou  “lavagem de dinheiro” para fazer funcionar programa nuclear, secreto desde seu relançamento nos ano 90.

A declaração de Teerã cujos termos são similares aos recusados pelo Irã, em Genebra, no mês de outubro de 2009, terá que ser ratificada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e aprovada pelo grupo de Viena (Estados Unidos, Rússia e  França). Ahmadinejad com o acordo aprovado não fica mais mais próximo de construir a bomba atômica, o país dos aiatolás fica sim, mais a vontade para construí-las mais para frente. Leia no post abaixo os 10 pontos da declaração assinada pelo Irã, Brasil e Turquia, em Teerã.

Por Antonio Ribeiro

17/05/2010

às 21:00 \ Diplomacia

Os 10 pontos do acordo assinado pelo Irã, Brasil e Turquia:

1. Nós reafirmamos nosso compromisso relativo ao Tratado de Não Proliferação (TNP) e, em acordo com os artigos relacionados do TNP, lembramos o direito de todos os Estados membros, principalmente a República Islâmica do Irã, de desenvolver pesquisa, produzir e utilizar energia nuclear (assim como um ciclo de combustível nuclear que inclua atividades de enriquecimento) para propósitos pacíficos.

2. Nós expressamos nossa forte convicção de que agora temos a oportunidade de começar um processo que criará uma atmosfera positiva, construtiva, de não confronto, que leve a uma era de interação e cooperação.

3. Nós acreditamos que a troca de combustível nuclear é instrumental para iniciar a cooperação em diferentes áreas, especialmente no que diz respeito a uma cooperação nuclear pacífica, incluindo a construção de reatores de pesquisas e usinas nucleares.

4. Baseado neste ponto, a troca de combustível nuclear é um ponto de partida para começar a cooperação e uma medida construtiva e positiva entre as nações. Tal passo deve acabar em uma cooperação e interação positivas no campo de atividades nucleares pacíficas e em evitar todos os tipos de confrontos abstendo-se de medidas, ações e declarações retóricas que possam prejudicar os direitos do Irã e obrigações decorrentes do TNP.

5. Baseado nos itens acima, para facilitar a cooperação nuclear mencionada anteriormente, a República Islâmica do Irã aceita enviar um estoque de 1.200 kg de urânio levemente enriquecido à Turquia. Enquanto estiver na Turquia, este urânio permanecerá como propriedade do Irã. O Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) poderão acionar observadores para monitorar as condições de segurança deste estoque.

6. O Irã informará a AIEA por escrito, por canais oficiais, a respeito deste acordo em sete dias após a data desta declaração. Após uma resposta positiva do grupo de Viena (Estados Unidos, Rússia, França, AIEA), os detalhes da troca de combustível serão objeto de um acordo escrito e arranjos apropriados entre o Irã e o grupo de Viena, comprometido especificamente a fornecer os 120 quilos do combustível necessários para o reator de pesquisas de Teerã (TRR).

7. Quando o grupo de Viena declarar seu comprometimento com as condições e pontos desta declaração, ambas as partes se comprometerão com a implementação do acordo mencionado. O Irã expressou estar preparado, em acordo com a declaração, para enviar seu urânio pouco enriquecido em um mês.

8. Se as condições desta declaração não forem respeitadas, a Turquia, a pedido do Irã, se compromete a devolver sem condições e rapidamente o urânio levemente enriquecido ao Irã.

9. A Turquia e o Brasil recebem favoravelmente a disposição da República Islâmica do Irã em manter as negociações com os países do grupo 5+1 (Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha) em qualquer lugar, incluindo Turquia e Brasil, a propósito das preocupações comuns.

10. Turquia e o Brasil apreciam o compromisso do Irã com o TNP e seu papel construtivo em buscar a concretização dos direitos nucleares de seus Estados membros. A Republica Islâmica do Irã, por sua vez, aprecia os esforços construtivos dos países amigos, Turquia e Brasil, em criar um ambiente condutor para a realização dos direitos nucleares do Irã.

Manucher Mottaki, ministro dos Negócios Estrangeiros da República Islâmica do Irã

Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores da República Federativa do Brasil

Ahmet Davutoglu, ministro dos Negócios Estrangeiros da República da Turquia

Por Antonio Ribeiro

 

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