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Arquivo da categoria Diplomacia

20/03/2013

às 15:11 \ Diplomacia

Papa é argentino, Deus é brasileiro. Ok. Mas o diabo mora no detalhe

It takes two to tango

“Em Roma como os romanos”, sustenta o dito popular. Ou seja, em terra estrangeira, comporta-se como os nativos. Mas a Presidente do Brasil é diferente. Ela tem personalidade toda própria. Faz questão de deixar claro quando Lula não está a tira-colo guiando os caminhos. Dilma Rousseff saiu do encontro com Francisco dizendo o seguinte: “Acho que vocês têm muita sorte, é um grande Papa. A Argentina está de parabéns. Mas, a gente sempre diz: o Papa é argentino, mas Deus é brasileiro.”

Cabe as seguintes perguntas, sem a menor intenção de provocar aqueles espasmos de ira que começam sempre com o falso “Meu querido…” : Vocês quem? Quem é a gente?

Seja como for, não vale a pena dissecar tanta retórica vazia, toda vez que abrem a boca para dizer bobagens.

Por Antonio Ribeiro

18/03/2013

às 14:40 \ Diplomacia

Dilma ensina o Pai Nosso ao vigário. Ave Maria. Agora vai.

Do alto de sua imensa sabedoria pontifícia, Dilma Rousseff desembarcou em Roma aconselhando o novo papa. De acordo com a Presidente do Brasil, Francisco tem uma “missão a cumprir”: não deve se restringir a defesa dos pobres e respeitar as opções de cada um. Não é nada, não é nada, trata-se de, no mínimo, um exemplo de que nem só o amor de Deus é infinito. Há casos em que a pretensão não respeita barreiras.

Embora de possibilidade remota, imagine qual seria a reação da Presidente, se Francisco dissesse que Dilma deve falar menos e fazer mais por seus compatriotas? A título de exemplo, basta lembrar a fúria de Dilma quando a revista The Economist ousou sugerir melhores caminhos – assunto que entende –  para o desempenho pífio da economia brasileira.

Cristina Kirchner foi mais oportunista. Beijou a mão do Papa, no primeiro encontro entre o novo pontífice e um chefe de estado. Isso depois de, em um primeiro instante, ter levado hora e meia para formular comunicado oficial do seu governo para saudar a eleição de um papa… argentino! É notório que as relações entre o casal Kirchner e o ex-Primaz da Argentina, Jorge Mario Bergoglio, nunca foram, por assim dizer, de afagos. Mas Papa é Papa e Presidente é Presidente. Eles não são só eles. A ficha caiu.

Seria muito pedir que Dilma ou um assessor não muito ocupado tivesse se dado ao trabalho de ler durante o voo para Roma o livro “Sobre El Cielo y La Terra”, melhor e mais extenso descritivo do que vai na cabeça de Francisco até surgir mais ações e palavras. A obra resume diálogo, um papo muito inteligente e aberto, de Bergoglio com um amigo, o rabino argentino Abraham Skorka. Mais estimulante que um River x San Lorenzo, times dos respectivos autores. Dá para comprar com um clique mais o equivalente a nove euros e uns quebrados, na Amazon.

A leitura dissipa adjetivos pré-fabricados sobre o novo papa. Há, por exemplo, uma bem humorada defesa do celibato sacerdotal: padre não tem sogra. Melhor ainda, a ciência da obra evita chover no molhado. Quer dizer, ensinar o Pai Nosso ao novo vigário de Roma. Com pouquinho de boa vontade – e baixando a bola – pode-se até colher alguns ensinamentos preciosos. Aqui, vai um de Francisco sobre política e poder:

Leia também “Francisco, simples assim

Por Antonio Ribeiro

16/12/2012

às 16:13 \ Diplomacia

O Rafale não é para o Natal

Serge Dassault: "Não estão dizendo nada."

François Hollande tentou abrir a conversa com Dilma Rousseff uma, duas, três vezes, mas não avançou um centímetro na encalacrada venda dos jatos Rafale para a FAB”, escreveu no Radar on-line, o meu amigo e colega Lauro Jardim.

O governo francês foi além das investidas de Hollande. Isso até no jantar de gala em homenagem a Dilma Rousseff, no Palácio Eliseu, para 250 convidados – menos Lula que cancelou presença no pós-Marcos Valério. O cerimonial do Quai d’Orsay, o Itamaraty francês, colocou juntos, na mesma mesa, o ministro da Defesa, Celso Amorim, Antonio Patriota, ministro das Relações Exteriores, e o dono majoritário da Dassault Aviation e do jornal Le Figaro, o ex-senador Serge Dassault. Como reforço do lado francês, também Laurence Parisot, a presidente do Medef, o sindicato dos empresários e Jean-Yves Le Drian, ministro da Defesa da França. Ali, o prato principal foi ave de aço recheada de eletrônicos, o Rafale.

No fim do jantar, preparado pelo chef Guillaume Gomez, Monsieur Dassault comentou ao Blog de Paris que a concorrência da Boeing, fabricante do caça americano Super Hornet F-18 estava difícil. E sobre as autoridades brasileiras, lamentou: “Não estão dizendo nada, acho que não será desta vez e não há previsão de quando sairá o resultado”. Nonagésimo sexto homem mais rico do mundo, segundo lista da revista Forbes, Serge Dassault, de 87 anos de idade, considera o seu avião em desvantagem na corrida por ser o mais caro. A razão de acordo com Dassault: o seu caça tem etiqueta estampada em euros enquanto o F-18 é vendido em dólares.

O caça sueco Gripen NP também tem seu preço em euros – é o mais barato dos três concorrentes. Perguntamos ao Monsieur Dassault se ele cogitava de reduzir o preço? “Não, é impossível”, respondeu. Dilma deixou claro em sua na entrevista coletiva a jornalistas franceses e brasileiros que não é momento oportuno para compra dos caças devido a situação atual da economia brasileira.

Em contrapartida, no jantar, entre os queijos e a sobremesa, torta de mousse de chocolate com nozes, François Hollande passeou com Dilma entre as mesas dos convidados. Não há almoço de graça muito menos jantar gratuito. Aliás, o segundo caso, é quase sempre mais oneroso – no particular, servido em louças Limoges e sob o lusco-fusco dos lustres de cristais Baccarat na sede do governo francês. No movimento, o presidente da França apresentou Dilma ao discretíssimo e de temperamento arisco, Jean-Charles Naouri, presidente do grupo Casino que, recentemente assumiu o comando do Pão de Açucar, a maior rede varejista do Brasil. A presidente gastou seu francês dos tempos de colégio: “Soyez le bienvenu.” E repetiu, uma vez mais, sem trocar de idioma: “Seja bem-vindo.”

 

Jantar no Eliseu: homenagem a Dilma com Rafale no cardápio – o convidado Lula ficou no hotel.

LEIA TAMBÉM:

A história da frase “O Brasil não é um país sério” que o francês Charles de Gaulle nunca disse é mais divertida

Por Antonio Ribeiro

10/12/2012

às 17:30 \ Diplomacia

Lula e Dilma em Paris: submarino e avião

Hotel Bristol: "Meia noite em Paris"

Dilma Rousseff desembarcou em Paris, hoje, às 1h27 da madrugada. No horário da França e durante o sono do presidente François Hollande. A presidente do Brasil foi acolhida no aeroporto Le Bourget pelo cerimonial do Quai d’Orsay, dispositivo do Ministério de Relacões Exteriores francês. Hospedada no Hotel Bristol, Dilma acordou “tarde”, de acordo com sua assessoria e se considerada a diferença de fuso horário entre Brasil e França – três horas a mais em Paris. No entanto, na mesma hora em que desperta no Palácio do Alvorada. E em perfeita sintonia com a atualidade brasileira. A ver.

Pouco depois do meio dia, Dilma almoçou no hotel com o ex-presidente Lula, ausente do Brasil desde que a ex-chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, foi indiciada por corrupção, tráfico de influência, falsidade ideológica e formação de quadrilha. O encontro durou mais de duas horas.

A visita de estado com duração de dois dias, a segunda de Dilma à França e a primeira durante o mandato de Hollande, começa oficialmente amanhã, 11 de dezembro, quando a presidente escoltada pela cavalaria da Guarda Republicana, percorrerá a avenida Champs Elysées decorada com bandeiras do Brasil e da França.

À tarde, Dilma volta a se encontrar com Lula em evento organizado pelo Instituto que leva o nome do ex-presidente brasileiro em parceria com a Fundação Jean-Jaures. O ex-primeiro-ministro francês Lionel Jospin encerra o colóquio que tem como objetivo refletir sobre “os desafios da globalização, das condições para um crescimento harmonioso e sustentável que anteponha o bem-estar dos cidadãos aos resultados econômicos.” Estão previstas intervenções dos ministros da área econômica, Guido Mantega e do francês Pierre Moscovici, ambos veteranos da luta inglória para aumento do Produto Interno Bruto dos seus respectivos países.

Quando a tímida luz do inverno europeu começar a se despedir, Dilma Rousseff será recebida por François Hollande no Palácio do Eliseu onde, depois do encontro, os presidentes responderão perguntas – ou algo assim – dos jornalistas credenciados. A noite, François Hollande e madame Valérie Trierweiler oferecem jantar de gala em homenagem a Dilma Rousseff na antiga residência da madame de Pompadour, amante, amiga e conselheira do rei Luiz XV, a atual sede do governo da França.

É provável que, em algum momento, Rousseff e Hollande irão abordar o assuto que o governo francês mais se interessa no que diz respeito a sua relação “bilateral” com Brasil, como se diz no jargão diplomático. Leia-se o que é de fato, “comercial”. A eventual compra dos aviões caça Rafale, fabricados pela francesa Dassault o que seria um dos maiores gastos militares da história do Brasil. Investimentos, se preferem. Uns 11 bilhões de reais para ser justo com o contribuinte do fisco.

Se depender das autoridades brasileiras temerosas que Dilma possa não aprovar suas declarações, há pouca chance de saber sobre as intenções do Brasil. O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, quando perguntado sobre o assunto, foge apressado como o diabo da cruz, diz que o negócio é com a presidente. O ministro da Defesa, Celso Amorim, outro exemplo ainda mais emblemático, afirma: “Não sei de nada.” Amorim prefere falar da fragata brasileira Liberal, a nau que lidera a Unifil nas águas do Mediterrâneo. E de submarinos. O Brasil construirá cinco deles na sua “parceria estratégica” com a França, entre os quais, um de propulsão nuclear, dito de “ataque”. Faz sentido.

Por Antonio Ribeiro

19/09/2012

às 13:31 \ Diplomacia, Religião

Caricatura ou morte, eis a questão

A liberdade de expressão é uma garantia constitucional inalienável, um dos pilares da democracia e do estado de direito. Trata-se um avanço filosófico e moral da humanidade que as socidades modernas, sobretuto, as ocidentais não querem abrir mão. Entretanto, para existir, a liberdade de expressão deve levar em conta o contexto? A resposta a meu sentir é “não”.

Em nenhum momento da história, a conciliação com o radicalismo melhorou a situação. Fosse assim, quanto mais gentileza, haveria em efeito, menos malefícios. Não é o que acontece no mundo real. Quando mais se concede a barbarie, mais a intolerância ganha terreno. No entanto, a liberdade de expressão da imprensa requer responsabilidade e, certamente, maturidade. Insultar e ofender jamais é a melhor opção. E com isso não estou dizendo que foi o caso do Charlie Hebdo. Ali, foi mais astúcia comercial do que libelo a favor da liberdade de expressão – o tabloide precisa vender, no mínimo, 30.000 exemplares por semana para fechar o mês no azul e Maomé caricaturado tem ajudado a compensar os frequentes tempos bicudos.

Cristãos e judeus tem pouco interesse e muito desprezo por imagens que ridicularizam o Papa ou anedotas com o rabinato. Se você nunca ouviu anedota cujo o enredo tem o judeu como sovina, não habita esse mundo ou tem menos de 10 anos de idade.  As manifestações são enfadonhas, primárias: poucos dão bola para a vulgaridade. É inegável prova de sabedoria. O reitor da mesquita de Bordeux, Tareq Oubrou, vai no mesmo sentido. Em artigo no jornal Le Monde, Oubrou aconselhou os muçulmanos a ignorar as caricaturas e abandonar um sentimento fora do lugar, o da vitimização. “O ignorante é mais perigoso para si mesmo do que seu pior inimigo”, escreve ele.

Evidentemente, os carolas e fundamentalistas estão sempre prontos para briga e discussão estéril. Surgiu uma questão, enxergam vermelho. Qualquer pretexto serve, sobretudo nos bolsões da penúria econômica, para atacar os “infideis”. É aí, que está o cerne da questão, a causa principal da pendenga boboca. Ou seja, nos autores das mortes e não nos autores das caricaturas. Nada justifica matar. Melhor seria ver as disputas resolvidas com guerra entre cartunistas. Haveria menos vítimas fatais, menos sofrimento para famílias e amigos, e mais diversão.

LEIA TAMBÉM:

Charlie Hebdo, tablóide satírico francês, coloca mais lenha na fogueira

Entrevista com Tariq Ramadan “Chega de destruição

Humor contra intolerância religiosa islâmica:  Eles são jovens, talentosos, desempregados e sobretudo, corajosos.

Por Antonio Ribeiro

05/03/2012

às 20:07 \ Diplomacia

As desculpas do secretário-geral da FIFA

Leia o post do Blog de Paris: “Perna de pau

Sobre o mesmo assunto e mais atualizado, leia o post do Blog de Paris: ” A dama e o vagabundo

Por Antonio Ribeiro

01/02/2012

às 10:51 \ Diplomacia

EUA e França: voto não reduz diferenças entre as velhas democracias

Naturalmente há quem queira estabelecer paralelos entre a eleição presidencial americana e a francesa, projetando Mitt Romney como vencedor das primárias do Partido Republicano depois da acachapante vitória na Florida contra Newt Gingrich, o adversário dos sonhos dos democratas. Nesta altura, o exercício de alta especulação traz mais confusão que respostas. Mais que as naturais entre os dois países, ainda que velhas democracias, de tradições e processos eleitorais distintos.

Em primeiro lugar, o combate final entre Barack Obama e o desafiante republicano ainda nem começou enquanto a campanha eleitoral francesa vai de vento em popa. A eleição americana não tem dois turnos, como a francesa e a brasileira, portanto, aí já vai uma diferença de peso que complica a comparação desprovida de análise dos meandros.

Regra geral, na eleição de dois turnos, os candidatos tentam reunir o seu campo no início e isso implica, é do jogo, uma certa radicalização. Na etapa posterior, a estratégia principal é capturar o centro a exemplo das partidas de xadrez. Tanto na França como nos Estados Unidos, países politicamente polarizados, ninguém vence se não conseguir persuadir o eleitorado, digamos, flutuante. No caso dos EUA, agregam-se ainda os independentes e os desiludidos com o desempenho de Obama.

Neste sentido, Sarkozy deveria conter a migração do seu eleitorado para extrema-direita e, simultaneamente, trazer para seu terreno, simpatizantes da novata Marine Le Pen. Isto bastaria para chegar ao segundo turno. Para ganhar as eleições, o Presidente da França deve abarcar também boa parte dos eleitores do centrista François Bayrou.

Converter socialistas franceses em conservadores de direita ou fazer o caminho inverso constitui sucesso tão improvável quanto o engajamento de um palestino na causa sionista. Perda de tempo. Ganhar os seus e parte do centro foi o que trouxe a vitória a Sarkozy em 2007. Tentar agradar a gregos e troianos fez despencar sua popularidade. Perdeu aqui e não ganhou lá.

Do ponto de vista do eleitor francês de qualquer ponto do largo espectro político, Rommey e Gingrich estariam mais próximos do ideário do Front National. Salvo talvez na questão da imigração. Um candidato americano pode até pensar como a senhorita Le Pen, mas não ousaria verbalizar  em público o slogam “Americanos Primeiro” sem correr o risco de levar o pesado adjetivo xenófobo para casa. A candidata francesa não liga muito. Ela acha que isso, ainda que de forma indizível e em última instância, ser uma vantagem. Seu eleitorado de base gosta e aplaude. Em contrapartida,  e mesmo agradando os carolas franceses, Marine Le Pen não se sentiria muito a vontade colocando em evidencia seu cristianismo como fazem os republicanos americanos, as vezes de forma fundamentalista, a menos que a posição seja para enfatizar, segundo ela, os efeitos maléficos dos muçulmanos nas tradições européias. Não houve na outra margem do Atlântico guerras religiosas tão sangrentas como no Velho Continente.

Para os socialistas franceses, Obama não chega a ser um entre deles, sobretudo no aspecto econômico, mas é o “melhor” que os EUA podem fazer para se aproximar dos seus valores. A grosso modo, a chegada do democrata de tez amorenada à presidência é vista como um “progresso” da desigual sociedade americana, assim como o metalúrgico Lula, no Brasil. Detalhe: embora estima-se que a França tenha 5,5 milhões de muçulmanos, a maior comunidade da Europa, nenhum deles tem assento na Assembléia Nacional. Os americanos acham espantoso. Aliás, o censo do INSEE, o IBGE francês, nem contabiliza “muçulmanos” nos seus formulários do censo. De acordo como os preceitos da Republique, o indivíduo é um cidadão cuja crença religiosa não diz respeito ao estado, laico por princípio pétreo.

Na França, Sarkozy é percebido pela maioria como um conservador e representante do capitalismo puro e duro. Nos EUA, o presidente francês entra facilmente na galeria dos líderes estatizantes que não medem esforços para intervir com força e excesso de regulamentações na economia além de sempre que o interesse nacional está em perigo promover medidas protecionistas sem o menor complexo.

François Hollande só encontraria uma legenda nos EUA se ingressasse na ala moderada do Communist Party USA (CPUSA). Isso porque a despeito dos socialistas espanhóis, ingleses e alemães, o Partido Socialista (PS) francês não conseguiu se reformar para adequar-se à realidade de um mundo altamente competitivo. Continua atrelado e dependente ao poder dos sindicatos franceses cuja maioria é de funcionários públicos mais especificamente de professors dos estabelecimentos públicos. Não é anodina a proposta de Hollande para aumentar seu número. Evidentemente dizer claramente de onde vai tirar dinheiro para pagar salários e encargos sociais durante 62 anos e mais aposentadoria. Isso em um país de com deficit publico de 1,7 trilhão de euros, 86% do Produto Interno Bruto (PIB).  Mas, leia-se o de sempre, “aumentar os impostos” que nos EUA, a questão muito é mais sensível do que na França.

Em resumo e no absoluto, os EUA estão mais próximos à economia de mercado e a França, é bem mais liberal no aspecto político do termo. Para que se possa estabelecer uma comparação mais justa entre as eleições francesa e americana seria necessário admitir que as prévias nos EUA equivalessem à votação do primeiro turno na França, ainda que um terceiro candidato independente americano possa influenciar na dualidade da disputa final. O certo é que tanto Obama quanto Sarkozy não estão em posições confortáveis, o último bem menos que o primeiro. E o curioso é que se os votos confirmarem as pesquisas, a dupla Hollande e Obama não irá aproximar mais as visões de mundo dominantes em seus respectivos países. É bem provável que aconteça o contrário.

Por Antonio Ribeiro

24/10/2011

às 21:25 \ Diplomacia

A última carta de Kadafi

A última carta de Kadafi foi escrita no dia 5 de agosto a Silvio Berlusconi, dezesseis dias antes dos combatentes rebeldes ocuparem Trípoli, a capital da Líbia.

Kadafi lembra ao Presidente do Conselho italiano o pacto de amizade selado entre os dois em 2008 – Berlusconi garantia investir cerca de 4 bilhões de euros durante 20 anos na Líbia e Kadafi, em contrapartida, fornecer petróleo, gás natural numa relação preferencial, além de impedir o fluxo de imigrantes líbios clandestinos para Itália. Na carta, o ditador libio, executado na semana passada, pede ao amigo que interceda junto aos seus aliados para cessar os bombardeios da Otan na Líbia. Leia a carta em seguida:

Querido Silvio.

Te envio esta carta por intermédio de seus compatriotas que vieram à Líbia trazer apoio em um momento difícil para o povo da Grande Jamahiriya*.

Fiquei surpreso com a atitude de um amigo com quem  selei um tratado de amizade favorável aos nossos dois povos. Esperava da sua parte, ao menos,  o interesse aos fatos e a tentativa de uma mediação antes de apoiar a guerra.

Não te culpo pelo que você não é responsável. Sei bem que você não é favorável a esta ação nefasta que não honra nem você nem o povo italiano. Mas creio que você ainda tem a possibilidade de fazer retroceder a situação e de fazer valer os interesses dos nossos povos.

Pare com estes bombardeios que matam nossos irmãos líbios e suas crianças. Fale com seus amigos e aliados para cessar esta agressão contra o meu país.

Espero que Alá todo poderoso possa te guiar no caminho da justiça.

Muamar Kadafi

Guia da Revolução

* Em 1977, Kadafi proclamou a “Jamahiriya”, que definiu como uma “República de Massas” governada por meio de comitês populares eleitos, e concedeu a si mesmo o título de “Guia da Revolução”.

Ao saber da morte de Kadafi, Berlusconi disse “Sic transit gloria mundi” A expressão latina significa literalmente “Assim passa a glória do mundo”. Ou, “as coisas mundanas são passageiras”.

Leia o post do Blog de Paris: “Governo que inicia com mentira não abandona a desfaçatez

Por Antonio Ribeiro

05/10/2011

às 9:41 \ Diplomacia

Queimada e fígado cru

A viagem de Dilma Rousseff à Bulgária, terra dos seus antepassados, tem motivado alguns brasileiros a reproduzir histórias contadas em casa pelos seus parentes imigrantes. Devido a sua imensa população de origem estrangeira, o Brasil está cheio delas. Eu não vou contar as minhas porque jornalista quando vira notícia, na maioria das vezes, denota a falta dela. Exatamente como ocorre agora. A escala da Presidente da República à Gabrovo é uma visita de simpática cortesia e de carácter pessoal. Impulsionar a cooperação econômica é conversa.  O comércio entre os dois países não passa de minguados 86 milhões de euros e a perspectiva de aumento é estreita devido ao minúsculo mercado consumidor  do país balcânico. O Brasil vende resúduos de cobre, fumo, café e compra… fertilizantes. A visita não vai afetar em nada de significativo a vida do brasileiro nem do búlgaro. No máximo, causará uma carga emotiva temporária. Depois, vida segue.

Acompanhei vários expedientes parecidos, entre os quais, dois me ocorrem agora. O primeiro foi a visita de Fidel Castro ao casebre onde moraram os seus pais, na Galícia. Na outra ocasião peguei carona no banco da frente do carro oficial do presidente do Líbano para seguir Paulo Maluf até Hadeth Baalbek, no Vale do Beca. Lá, da casinha original dos Maluf ficou apenas os alicerces. Construíram uma outra ao lado e penduraram os retratos dos velhos enquanto jovens nas paredes para visitas.

Na Galícia, Fidel queimou as papilas gustativas ao tomar um copo de Queimada, uma espécie de sangria fervida na qual se mistura aguardente, açúcar, limão e laranja. Diz a lenda medieval que a bebida protege contra feitiços e afasta os espíritos e demais seres do mal. O acidente não reteve a lingua do ditador cubano. Mais para frente, quando recebeu título de Cidadão Honorário do lugar, falou o tantão e o de  sempre. Em Hadeth (em árabe, quer dizer, perto) Maluf foi obrigado a comer fígado de bode cru. Fez o trajeto de volta à Beirute reclamando dos patrícios. Em português, evidentemente para não desagradar os anfitriões.

Espera-se que Dilma tenha melhor sorte na terra do seu pai Petar Roussev e do meio irmão Luben, ambos falecidos. A presidente foi condecorada logo que chegou com a ordem Stara Planina, a mais alta distinção do país, cujo Produto Interno Bruto (PIB) equivale ao do estado de Goiás, 36 bilhões de euros. A corrupção endemica da Bulgária pode ser comparada a do Maranhão sob José Sarney. A falta de combate a robalheira fez a União Européia (UE) suspender ajuda finaceira. O país não faz parte da zona do euro nem do espaço Schengen, a área de livre circulação da  UE. É o tipo de viagem pago pelo contribuinte do fisco brasileiro que, por mais que se force a barra, o governante sem uma agenda com conteúdo lembra um peixe fora d’água. A etapa seguinte e última da viagem de Dilma de sete dias de duração, a visita a Turquia, faz bem mais sentido.

Por Antonio Ribeiro

22/03/2011

às 7:09 \ Diplomacia

Alvorada e batucada

O princípio da não intervenção e respeito à soberania é posição tradicional da diplomacia brasileira. Isso vem lá de trás, dos tempos em que eram frequentes as intervenções estrangeiras nas Américas. Em um primeiro instante pelas potencias coloniais européias e depois pelos Estados Unidos. Ela foi substituída  mais recentemente no governo Lula por ações incisivas, posicionamento querido ao ex-chanceler Celso Amorim com aval do ex-presidente. Achou-se durante oito anos que se poderia resolver qualquer pendenga, em qualquer lugar e que, no final, isso traria um papel mais relevante para o Brasil no cenário internacional. Não foi isso que aconteceu. O que modificou a percepção do Brasil no exterior foi a força da sua economia movida pelo espírito empreendedor dos brasileiros, da sociedade civil e não a diplomacia aventureira e de viés ideológico de Lula-Amorim.

A abstenção do Brasil na votação do Conselho de Segurança da ONU tem as vantagens e inconvenientes da neutralidade. O país não precisa sustentar posição quando não tem lastro, mas também não estreita alianças em horas graves. É tática de jogo catalogada nos anais da diplomacia desde priscas eras. Agora é, no mínimo, bizarro lavar as mãos na iminência de um massacre, quando o mais forte está pronto para esmagar o mais fraco.  O caso de Srebrenica na Bósnia, em 1995, onde a comunidade internacional acompanhou impassível o assassinato de mais de 8.300 bósnios muçulmanos pelas tropas regulares e milícias da Serbia. Ainda com toda problemática na ação militar das forças de coalizão, evitou-se um massacre em Benghazi, reduto dos rebeldes contra  o coronel Muamar Kadafi no leste da Líbia. Isso é simplesmente i ne gá vel. Contudo, as relações entre países são distintas das relações entre pessoas. Na grande maioria das vezes, elas não são conduzidas por princípios morais, mas por interesses de cada parte.

Isso nos remete a seguinte questão: o Brasil serve melhor aos seus interesses quando defende o cessar-fogo na Líbia? Detalhe edificante: o Itamaraty lamenta a perda de vidas que diz serem decorrentes do “conflito no país”, omitindo a responsabilidade do coronel Kadafi. Não é a posição de vasto consenso que sustentou a intervenção militar no norte da África. O Brasil sempre ganha  quando alinha-se claramente com a maioria contra a tirania. Desta vez, tem a singularidade de reunir na linha de frente europeus, americanos e árabes.  Nesta altura, o Brasil está em cima do muro e de costas para ela. As posições isoladas podem parecer altivas manifestações de auto afirmação e de independência, mas elas conseguem fragilizar até as grandes potencias – condição que força respeito no mundo atual não só pelo poderio bélico e econômico, mas também pela defesa de princípios e valores universais.

Para arrematar: seria bom saber se o Brasil informou ao presidente americano Barack Obama que, seguido à sua partida, o Itamaraty iria imediatamente soltar uma nota – acão coordenada nos bastidores com Rússia, China e Índia que  se abstiveram na votação do Conselho de Segurança da ONU. É verdade que ela confirma uma posição já tomada, conhecida. Mas no mínimo, denota bom tom avisar que se irá enfatizar uma posição oposta ao empenho de país amigo e aliado. Caso contrário, fica a impressão de uma rasteira por trás. Se a visita de Obama ao Brasil – os americanos creem ter sido algo semelhante a final de semana de folga – tinha como objetivo principal alavancar as relações bilaterais entre os países, seria uma pena não expulsar completamente a velha desconfiança.

A nota do Itamaraty:

Ao lamentar a perda de vidas decorrente do conflito no país, o Governo brasileiro manifesta expectativa de que seja implementado um cessar-fogo efetivo no mais breve prazo possível, capaz de garantir a proteção da população civil, e criar condições para o encaminhamento da crise pelo diálogo.

O Brasil reitera sua solidariedade com o povo líbio na busca de uma maior participação na definição do futuro político do país, em ambiente de proteção dos direitos humanos.

O Governo brasileiro reafirma seu apoio aos esforços do Enviado Especial do Secretário-Geral da ONU para a Líbia, Abdelilah Al Khatib, e do Comitê ad hoc de Alto Nível estabelecido pela União Africana na busca de solução negociada e duradoura para a crise.”

Por Antonio Ribeiro
 

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