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Arquivo da categoria Brasil-França

20/10/2009

às 20:26 \ Brasil-França

A conta, por favor

O vice-presidente Eric Trappier e os Rafale

O vice-presidente Eric Trappier e os Rafale

Em breve, o governo irá anunciar a maior despesa da história militar do país, a compra de 36 aviões de combate para Força Aérea Brasileira (FAB). A escolha passa primeiro por uma avaliação técnica do Ministério da Defesa. Questão apenas protocolar. Isso porque Lula, quem decide, já manifestou sua preferência. Entre os 3 caças, o americano F-18 Super Hornet, o sueco Gripen NG e o francês Rafale, o presidente quer o último. O mais caro. Quem pagará a conta são os contribuintes. Eles não sabem quanto nem a fabricante Dassault está disposta a dizer.

A bordo do barco fluvial Talismã, no rio Sena, próximo do gramado onde Santos Dumont fez decolar o 14 Bis, Eric Trappier, vice-presidente da Dassault Aviation, fez o possível para contornar a pergunta de Veja.com: “Quanto o Rafale irá custar aos brasileiros?” Em um primeiro instante, Trappier justificou sua posição alegando o respeito às regras da licitação. Diante da quarta insistência, deixou escapar: “Não vou dizer o nosso preço para depois o fabricante de um avião que só existe no papel melhorar a oferta.”O francês refere-se a quem ele considera o seu maior concorrente, a sueca Saab que fabrica o Gripen NG.

No mês passado, surpresos com o anúncio do resultado antes da data – ela já foi adiada 9 vezes – os suecos constrangeram Lula e os franceses. Propuseram vender dois de seus caças pelo preço de um só. A oferta deixou a direção Dassault no desconforto. Até então os franceses saboreavam o apoio que Trappier admite nunca ter recebido – “Nos tocou profundamente” – em concorrência nas quais o Rafale enfrentou pelo mundo afora. E diga-se de passagem, perdeu todas. A Dassault baixou o preço inicial da sua proposta. Agora, garante que a hora de vôo do Rafale custará para a FAB exatamente o mesmo que seus velhos caças Mirage 2000. Quer dizer, 14.000 dólares.

Estima-se que o pacote francês irá custar em torno de 5,5 bilhões de dólares – um terço do custo previsto das obras do Rio 2016. A vantagem que chega com o Rafale é a promessa de transferência de tecnologias criticas da Dassault para indústrias aeronáuticas nacionais, centros de pesquisa e universidades. Ela envolve a entrega do código fonte do caça, a formação inicial e treinamentos. Também o pacote de dados da aeronave, dos sistemas , os métodos de concepção e desenvolvimento, o know how. A principal beneficiaria será a Embraer da qual a Dassault tem 0,9% das ações.

A francesa Snecma que produz turbinas de propulsão aeroespacial, responsável pelo motor M88 do Rafale, discarta a transferência de tecnologia ao Brasil, A cooperação se restringe a manutentção. Há menos países que produzem turbinas de aviões militares no mundo que os que tem bomba atomica. A partir de 2012, a Thales promete equipar o Rafale BR, a versão brasileira do caça bimotor supersonico, com radares de última geração, o sistema  de varredura eletronica ativa, – AESA, na sigla em inglês. O radar proporciona alcance superior para detecção, rastreamento de alvos dentro e fora da aérea de busca, identificação do solo com alta resolução e permite voos em baixíssima altitude sobre terrenos não-mapeados. A empresa cuja Dassault acaba de comprar 25%, promete tansferir a tecnologia para a fabriacão da antena, a parte mais sensível do equipamento.

Se o contrato for assinado com a Dassault em 2010, a direção da empresa francesa – produz atualmente 11 Rafale por ano na sua fabrica de Mérignac com capacidade para o dobro -  afirma que o primeiro avião de combate será entregue ao Brasil em 2013. Os 6 primeiros Rafale serão fabricados inteiramente na França. Os 30 seguintes poderão ser montados na Embraer  - a partir de um kit de peças vindas da França – na unidade de Gavião Peixoto, próxima a Araraquara, interior de São Paulo. Os componentes  de produçao nacional – a Dassault afirma que eles poderão totalizar 50% do caça – serão integrados de acordo com evolução das parcerias com empresas brasileiras. Já foram formalizados 67 projetos de compensação (offests) – diferença de tensão entre a entrada e saída de componentes eletrônicos – com 38 empresas. Prevê-se a criação de mil empregos diretos e dois mil indiretos durante 10 anos.

O fabricante do Rafale é controlado por uma empresa familiar. Os Dassault cujo patriarca é o senador Serge, amigo do presidente Nicolas Sarkozy, dono do jornal Le Figaro, de vinhedos na região de Bordeaux,  de uma fabrica de carros elétricos, e da Artcurial, uma casa de leilões de objetos de arte. Em 2008 a Dassault Aviation teve um lucro de 373 milhões de euros vendendo, sobretudo, seus luxuosos jatos executivos com capacidade de 14 a 19 passageiros, a linha Falcon – fazem questão de evidenciar que não são concorrentes da Embraer, mas não gostam de lembrar que um dos seus melhres clientes é Hugo Chavez.

A crise financeira mundial fará a rentabilidade da Dassault cair para 289 milhões de euros este ano. A empresa aposta na recuperação aumentando suas vendas de aviões militares. A França, o único compador do Rafale, tem uma encomenda de 294 aeronaves para serem entregues até 2022 – 60 deles com trem de pouso reforçado para oprear nos porta-aviões seram destinados a Marinha e 234 para Força Aérea. A Dassault já entregou 75 entre os quais 2 unidades que chocaram-se sob o Mar Mediterrâneo. Os dois aviões foram encontrados. Um deles, o piloto conseguiu se ejetar e foi salvo. O segundo avião foi encontrado no fundo do mar com o piloto preso dentro do cockpit. A empresa afirma que houve erro humano.

Atualização: Luis Inácio Lula da Silva reafirmou sua preferência “política” pelo Rafale ao presidente da Assembleia Nacional da França, Bernard Accoyer, em vista ao Brasil. As manifestações de Lula antes do anúncio da licitação, o que caracteriza jogo de cartas marcadas, dá margem aos concorrentes americanos e suecos moverem ação contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio.

Por Antonio Ribeiro

19/10/2009

às 20:44 \ Brasil-França

A semântica do espelho

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Ao tratar das ações do crime organizado e das quadrilhas no Rio, Lula disse: “Estamos dispostos a fazer o sacrifício que for necessário para limpar a sujeira que essa gente impõe ao Brasil.” O termo “essa gente” é mais brando do que o “escória”, usado por Nicolas Sarkozy durante a onda de vandalismo nos suburbios das grandes cidades francesas, em 2005. A afirmação, no entanto, vai no mesmo sentido… e para por aí. Sarkozy não fez sacrifício, agiu com firmeza e controlou a revolta em dias. Quase no fim do segundo mandato, a criminalidade no Rio está maior do que quando Lula vestiu a faixa presidencial.

Por Antonio Ribeiro

18/10/2009

às 10:34 \ Brasil-França

Nepotismo nos cargos públicos. França igual ao Brasil? É ruim, hein?

nepostismos

É batata. Olhem no retrovisor da história. Lá no meio do segundo mandato, as fissuras do quadro começam a ficar mais evidentes. O hábito do mando contribui para diminuir o contato entre os governantes e os limites da democracia. Pela natureza apressada, o fenômeno aconteceu antes com o presidente da França, Nicolas Sarkozy. Faltando ainda dois anos para completar seu primeiro mandato, ficou evidente a tentativa de garantir o pé de meia do seu filho Jean Sarkozy instalando-o em um posto no qual carece de qualificação e de experiência. Neste aspecto, onde se perde a mão e senso do bem público, Sarkozy e Lula tem agora mais em comum. No entanto, a semelhança entre Brasil e França termina aí. A reação da população ao nepotismo nos cargos públicos lembra a linha reta de 9.000 quilômetros que mede a distância entre os dois países.

Quando tanto se vê, torna difícil perceber. Ou melhor, tem se a falsa impressão que o quisto instalado por longo processo usucapião já faz parte do corpo. Pior: nada merece ser feito para desalojá-lo. É o caso da leniência popular com os despautérios dos políticos brasileiros. Assim notou-se no caso do mensalão, do Lulinha com a Telemar, e mais recentemente, o de José Sarney, no Senado. Isto só para citar três de uma formidável coleção de episódios com vocação para entrar no esquecimento. Pondera-se que a premissa do “sempre foi assim e como tal vai continuar” fundamenta-se na prática da impunidade recorrente de instâncias criadas para justamente fazer o contrário. Os franceses perderam o direito de sediar os próximos Jogos Olímpicos em 2012 que irão acontecer em Londres, mas ainda guardam a crença em suas instituições democráticas e a esperança que, cedo ou tarde, a ficha dos políticos caia. Até porque se não cair, quem vai ao chão, na eleição seguinte, são os desprovidos de simancol.

Segundo uma pesquisa do Instituto CSA para o jornal Le Parisien, dois terços dos franceses são hostis à nomeação de Jean Sarkozy, de 23 anos e aluno do segundo ano de Direito, ao comando do EPAD, o organismo estatal com orçamento de 1,5 billhão de euros, responsável pelo urbanismo do La Defense, o distrito mais rico da França e mais próspero da Europa – mais de 3.000 empresas francesas e multinacionais que empregam 15.000 pessoas. Metade do eleitorado de Sarkozy considera que o presidente fez escolha errada. Contrário a Lula que se considera larger-than-life confortado pela popularidade, Sarkozy correu para se justificar em entrevista ao jornal Le Figaro cujo leitor típico integra a parte mais sólida da sua base eleitoral. Foi vã tentativa.

Um abaixo assinado na internet já reúne mais de 87.100 habitantes do La Defense, onde vivem 200.000 pessoas, contrários à nomeação do “Príncipe Jean” para a autarquia controlada pelo governo do pai. A maioria dos eleitos da região, entre os quais também os membros do partido de Sarkozy, são desfavoráveis. Não se trata resistência contra jovens no poder como se a capacidade dependesse exclusivamente da experiência. Alexandre, o Grande, ascendeu ao trono da Macedônia com 19 anos, aos 20 já tinha criado um império. Ao chegar a maioridade, Cleópatra já era faraó. Nem pensa-se que a juventude está dissociada do talento. Wolfgang Amadeus Mozart compôs Andante em C Maior com apenas 5 anos de idade. Orson Welles dirigiu Cidadão Kane, considerado a obra-prima maior do cinema, com 26 anos. A questão é de outra ordem. Nas democracias, os cargos públicos devem ser preenchidos de acordo com o mérito de quem os postula. Na França, além do princípio constar na Carta fundadora da República, os Direitos do Homem de 1789, o país tem uma escola especial, de rigoroso acesso, para preparar os funcionários públicos.

Mas a pergunta que se coloca é se o descontentamento popular francês tem conseqüência efetiva? Uma vez mais, olhem no retrovisor da história. A resposta é sim. No caso de Jean Sarkozy, o governo já começa procurar uma saída honrosa. O cargo de presidente do EPAD resulta da indicação de 18 membros do conselho de administração. Quatro eleitos do governo, quatro da oposição, um representante da Câmara de Comércio e nove funcionários indicados por quatro ministérios (Economia, Interior, Infra-estrutura e Cultura). Ou seja, 14 deles estão na mão do presidente Sarkozy. “Até uma cabra poderia ser eleita com este apoio” ironizou o parlamentar socialista Arnaud Montebourg. Ganha terreno a proposta do deputado socialista Gaëtan Gorce endossada por  Luc Chatel, porta-voz do governo. Ele sugere que apenas os eleitos e representante da Câmara de Cormércio participem da indicação no dia 4 de dezembro. Em todo caso, seja lá qual for o desfecho do caso, ele terá consequência nas próximas eleições. Que peso terá nas próximas eleições presidências no Brasil, a  atitude de Lula nos casos do mensalão, Lulina na Telemar e a permanência de Sarney na presidência do Senado?

Por Antonio Ribeiro

27/09/2009

às 7:31 \ Brasil-França

Asa de Rafale localizada no Mediterrâneo

doisrafale1A marinha francesa encontrou parte da  asa  de dois çaças Rafale que colidiram no  ar e caíram no Mar Mediterrâneo, na quinta-feira passada, 24 de setembro. Ela foi encontrada à 40 km do ponto onde foi resgatado o piloto Yann Beuafis, de 40 anos.

A marinha segue as buscas em uma área de 100 km quadrados ao largo do Cabo Béar na tentativa de encontrar o segundo piloto, o capitão François Duflot, de 45 anos. Os Rafales não são equipados com caixas-pretas tão complexas quando aviões de linha.

O avião de combate Rafale, fabricado pela Dassault Aviation, foi anunciado como o preferido por Lula da Silva em uma licitação de 36 caças no valor de 7 bilhões de reais. O anúncio aconteceu no dia 7 de setembro, durante a visita do presidente da França, Nicolas Sarkozy, ao Brasil.

O Ministério da Defesa brasileiro, por sua vez, deu sequência a um teatro para manter  aparências. O vencedor da licitação que envolve além do Rafale, o caça F-18 Super Hornet Americano e o Gripen NG, fabricado pela sueca Saab, será revelado no dia do 2 de outubro, dizem eles. A escolha do Rafale foi decida em julho, como foi escrito aqui, em primeira mão.

Por Antonio Ribeiro

25/09/2009

às 9:22 \ Brasil-França

Piloto do Rafale: “Houve colisão no ar.”

colisaorafale

Dois caças Rafale do porta-aviões nuclear francês Charles-de-Gaulle caíram ontem quinta-feira, 24 de setembro, no Mar Mediterrâneo. O piloto Yann Beaufils se ejetou do aparelho e foi resgatado.  Nota do Sirpa-Marine, órgão de relações públicas da marinha francesa, informou que importantes meios aéreos e náuticos – a fragata Courbert, uma lancha da polícia marítima, três helicópteros Dauphin da marinha e um Ecureuil da Polícia Nacional – continuam a operação para recuperar o segundo piloto, o capitão François Duflot, até agora desaparecido. Ele tem 45 anos e 5.000 horas de voo.

O acidente ocorreu às 13h de Brasília, a 30 km a sudoeste da cidade de Perpignan, no sul da França, durante um exercício para validar os parâmetros de catapultagem na configuração do avião. O relato do piloto resgatado, de 40 anos e 3.000 horas de voo, dá conta de uma “colisão no ar”, a hipótese mais provável para a causa do acidente.

O capitão Beaufils disse que após ter-se ejetato percebeu que o avião do colega continou voando. A marinha francesa afirma ter perdido o sinal do Rafale em e ainda não encontou nenhum destroço do caça. O relevo submarino abaixo zona da colisão varia entre 500 e 600 metros. O ministro da Defesa francês Hervé Morin ordenou a abertura de investigação sobre o “acidente de voo”.

O avião de combate Rafale, fabricado pela Dassault Aviation, foi anunciado por Lula da Silva, no dia 7 de setembro, durante a visita de Nicolas Sarkozy ao Brasil, como o preferido em uma licitação de 36 caças no valor de 7 bilhões de reais. O Rafale está a venda desde 2001, mas fora a França, a Dassault nunca encontrou comprador. A encomenda do governo Lula é capital para sobrevivência do setor militar da companhia.

O acidente ao largo de Perpignan é o segundo na história do Rafale cujo primeiro modelo voou em 2001. Em 2007, um deles caiu na Correze, região central da França. As investigações descartaram problema técnico no aparelho, atribuíram como causa da queda a “desorientação espacial” do piloto.

Parte das forças da OTAN, o Rafale vem realizando com sucesso missões no conflito afegão – despeja diariamente bombas americanas de 250 kg teleguiadas por laser. Segundo especialistas militares, o caça francês é um excelente avião de combate supersônico. O problema é o seu preço elevado se comparado aos concorrentes do mesmo nível. Quase o preço do Aerolula, o Rafale custa 50 milhões de euros.

Por Antonio Ribeiro

07/09/2009

às 13:15 \ Brasil-França

Dito e feito: Lula confirma a compra de 36 Rafale

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“Levando em conta a amplitude das transferências de tecnologia propostas e das garantias oferecidas pela parte francesa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a decisão da parte brasileira de entrar em negociações com o GIE-Rafale para a aquisição de 36 aviões de combate”, diz comunicado conjunto do governo brasileiro e francês.

O Brasil é o primeiro comprador do miais moderno caça francês. Em 2007, o Rafale esteve perto  de ser desencalhado em uma encomenda do Marrocos, mas acabou perdendo a concorrência para o rival americano F/A 18 Super Hornet. A compra dos caças franceses pelo Brasil, estimada entre 4,5 e 5 bilhões de euros, é capital para a sobrevivência da Dassault Aviation. Isto pelo volume do investimento de um projeto, iniciado em 1988, até então sem  nenhumas encomenda. A compra dos 36 Rafale para Força Aérea brasileira significa a criação de 6.000 empregos na França.

O governo francês, por sua vez, manifestou o interesse em comprar — e participar do projeto — de 10 unidades do KC 390, avião de transporte militar desenvolvido pela Embraer.

Rafale, em francês, quer dizer rajada.

Por Antonio Ribeiro

07/09/2009

às 10:48 \ Brasil-França

Vrum vrum, é baratinho.

Sarkozy: "Eu realmente gostaria de fazer tudo."

Sarkozy no futuro anterior do indicativo: "Realmente terei feito de tudo."

Plantu, o mais famoso chargista político da França, o Chico Caruso deles, ironiza na primeira página do jornal Le Monde, a blitzkrieg comercial de Nicolas Sarkozy no Brasil. O presidente francês passa mais de 26 horas no avião e menos de 24 horas em Brasília, mas leva para casa um cheque compensátório: 8,5 bilhões de euros. Ele vai chegar a mais de 10 bilhões de euros, quando o governo abandonar o pudor e anunciar o que o blog DE PARIS já adiantou, em primeira mão, no dia 16 de julho. Ou seja, a compra de 36 aviões caças Rafale, fabricados pela francesa Dassault Aviation.

Na sua segunda viagem ao Brasil em menos de um ano — e o quinto encontro com Lula em 2009 — Sarkozy não levou Carla Bruni para desfilar ao seu lado. No entanto, um destacamento do 3º regimento de infantaria da Legião Estrangeira, o celebre Bagad de Lann Bilhoué, marchará com as tropas brasileiras. A banda tem um ritmo celta de rebimba o malho, escute aqui. A Patrouille de France, equivalente francêsa da Esquadrilha da Fumaça, promete show de bola nos céus do Planalto Central.

Por Antonio Ribeiro

07/09/2009

às 5:33 \ Brasil-França

“Estão queimando um óleo firme!” Continuam até hoje, Poetinha.

viniciusetom

Carta de Vinícius de Moraes a Tom Jobim:

Porto do Havre, 7 de setembro de 1964

Tomzinho querido,

Estou aqui num quarto de hotel, que dá para uma praça, que dá para toda solidão do mundo.

São 10 horas da noite, e não se vê vivalma.

Meu navio só sai amanhã à tarde e é impossível alguém estar mais triste do que eu.

E como sempre, nestas horas, escrevo para você cartas que nunca mando.

Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente, tem o Brasil, que é uma paixão permanente em minha vida de constante exilado.

A coisa ruim é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa embaixada há uma festa, que me cairia muito bem, com o Baden mandando brasa no violão.

Há pouco telefonei para lá para cumprimentar o embaixador, e veio todo mundo ao telefone.
Estão queimando um óleo firme!

Você já passou um 7 de setembro Tomzinho, sozinho, num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer perspectivas? É fogo maestro!

Estou doido para ver você e Carlinhos e recomeçar a trabalhar. Imagine que este ano foi praticamente dedicado ao Baden, pois Paris não é brincadeira!  Mas agora o Tremendão aconteceu mesmo! A Europa teve que curvar-se! Mas ainda assim, fizemos umas músiquinhas, como “Formosa“. Você vai ver! Tudo sambão! Parece até que a saudade do Brasil quando a gente está longe, procura mais a forma do samba tradicional do que a Bossa Nova; não é engraçado? São como diria o Lucio Rangel: “as raízes!”.

Vou agora escrever para casa, pedindo dois menus diferentes para minha chegada. Para o almoço, um tutuzinho com torresmo, um lombinho de porco bem tostadinho, uma couvinha mineira e, doce de coco. Para o jantar, uma galinha ao molho pardo, com arroz bem soltinho e, papos de anjo. Mas daqueles que só a mãe da gente sabe fazer! Daqueles, que se a pessoa fosse honrada mesmo, só devia comer, metida em banho morno, em trevas totais, pensando no máximo, na mulher amada. Por aí, você vê como estou me sentindo; nem cá, nem lá!

Fiquei muito contente com o sucesso de “Garota de Ipanema“, nos Estados Unidos. E  Astrudinha, hein? Que negocio tão direito. Vamos ver se desta vez, os intermediários deixam “algum” para nós!

Fiquei muito contente também, com a noticia do sucesso de “Berimbau” aí no Brasil. Dizem que estão tocando a músiquinha “pra valer”! Isso me alegra muito pelo Baden. E pra que mentir? Por mim também! É bom saber que a gente não foi esquecido, que o povo continua cantando as nossas coisas; pois no fundo mesmo, é pra ele que a gente compõe!  Lembro-me tão bem, quando fizemos o samba, uma madrugada, há uns 3 anos atrás, por aí. Eu disse ao Baden: isso tem pinta de sucesso. E ficamos cantando e cantando o samba até o sol raiar.

“Quem é homem de bem não trai o amor que lhe quer seu bem.

Quem diz muito que vai não vai, assim como não vai, não vem.

Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém.

O dinheiro de quem não dá, é o trabalho de quem não tem.

Capoeira que bom, não cai, e se um dia ele cai, cai bem.

Capoeira me mandou, dizer que já chegou, chegou para lutar.

Berimbau me confirmou, vai ter briga de amor, tristeza, camará.”

Vinicius

Por Antonio Ribeiro

19/07/2009

às 7:47 \ Brasil-França

Dois pintos no lixo


“Se entendem tão bem como dois pintos no lixo”, assim o tradutor de francês de Lula, testemunha privilegiada das conversas com Sarkozy, descreve a relação entre o presidente francês e o brasileiro. Brasil e França encetaram um namoro firme nos últimos tempos. A relação se intensificou a tal ponto que um diplomata graduado da Embaixada do Brasil em Paris clama por reforço de funcionários no palacete Schneider, construído na 34 Cours Albert Premier, sede da representação brasileira. “Estamos estourando as horas extras, é trabalho sem fim” , diz ele. Desta vez, não se trata só de vagos e enfadonhos intercâmbios culturais, há substância política e negócios pesados na mesa.

Nunca a confluência de pontos de vista do Brasil e da França foi tão estreita, seja no que respeita temas como governança internacional (G20, FMI, Conselho de Segurança da ONU), o apreço por um mundo “multipolar”, aumento no controle dos mercados financeiros, cooperação na aérea de energia nuclear, preservação da biodiversidade e mudanças climáticas. No passado, quando evocava-se a relação entre os dois países, o principal tema era divergências no comercio agropecuário. O Brasil reclamava dos subsídios que o governo francês dava aos seu produtores e das altas taxas de importação de commodities brasileiras. Essa pendenga ainda existe, mas agora foi relegada ao segundo plano.

Em franca perda de vitalidade devido um déficit público monumental (85 bilhões de dólares por ano) e um crescimento econômico pífio (1,18% do PIB em 2008), a França precisa de novos mercados. Eles estão, sobretudo, nos países emergentes. A França não tem influência nem se dá tão bem com a China, que faz o que quer. A Índia sempre foi parceiro tradicional dos inglêses por razões históricas e culturais, e com o fim da Guerra Fria, onde mantinha uma posição de pais não alinhado, mas simpáticos aos soviéticos, aproximou-se agora dos Estados Unidos. A Rússia prefere tratar mais com a Alemanha do que com a França. Sobrou o Brasil para o governo de Nicolas Sarkozy.

É neste contexto que esta previsto para a segunda semana de agosto um parecer técnico, elaborado pela Aeronáutica, sobre a concorrência para compra de 36 aviões caças no valor de 4 bilhões de reais. O Rafale, fabricado pela francesa Dassault Aviation cujo centro de produção em Mérignac tem capacidade de produzir 30 aviões por ano, atende aos requisitos formulados pelo Ministério da Defesa. O maior atrativo não é só o desempenho do avião e adequação as necessidades da Força Aérea Brasileira (FAB), mas a transferência de tecnologia. Os franceses prometem repassar o código-fonte do caça bireator aos brasileiros. A posse da informação permite, por exemplo, fabricar o Rafale no Brasil em quase total independência.

A decisão da compra dos caças, embora passe pelo escrutínio de uma avaliação técnica, é política. Quem decide, no final, é o presidente Lula. Na sua passagem por Paris, falando a respeito dos entendimentos para os modos de financiamento entre um grupo funcionários do Ministério da Fazenda e da Defesa com o governo e bancos franceses, Nelson Jobim deu uma pista. “Queremos que tudo esteja pronto até o 7 de setembro”, disse ele. A data coincide com a visita de Nicolas Sarkozy ao Brasil para inaugurar o ano do seu país no país de Lula. A escolha do Rafale são favas contadas.

Por Antonio Ribeiro

18/07/2009

às 6:05 \ Brasil-França

A cobra vai fumar


No dia 16 de julho, Veja.com revelou, com exclusividade, que a viagem de 8 parlamentares brasileiros a Paris foi paga pelo setor aeronáutico francês. A Dassault Aviation fabricante do Rafale, um dos litigantes na concorrência para escolher os 36 novos caças da FAB, no valor de 4 bilhões de reais, foi quem mais contribuiu para cobrir as despesa durante a estadia de uma semana inteira dos congressistas.

Notem bem, quem convidou os deputados foi o governo francês através do Instituto de Altos Estudos de Defesa Nacional (IHEDN). Quem pagou a conta foi o setor privado francês, interessado na concorrência. Os jornais brasileiros talvez por estarem acostumados com tantos despautérios de seus políticos e governantes, deram nota de pé de página.

Esta coluna tem por princípio não reproduzir reportagens de outros veículos de imprensa. Mencionamos, indicamos, fazemos referência. Nosso juízo é o seguinte: se o leitor deseja ler um texto de reportagem do O Globo, por exemplo, ele pode acessar site do jornal, comprá-lo na banca ou fazer uma assinatura. Não se trata só respeito ao direito autoral, mas ao investimento que revistas, jornais, TVs fazem em jornalismo, prática capital para a boa informação e funcionamento da democracia.

Desta vez, no entanto, dadas as circunstâncias, vamos abrir uma exceção. O blog DE PARIS reproduz abaixo um texto muito pertinente do jornalista da Folha de São Paulo, Igor Gielow. Ele aborda a questão da concorrência para compra dos caças e do lobby francês.

FOLHA DE SÃO PAULO, 18 de julho de 2009

O nó dos caças

Por Igor Gielow

BRASÍLIA – Enquanto Nelson Jobim curte suas férias na Europa, no Ministério da Defesa há uma caveira de burro monumental enterrada à sua espera. Trata-se da decisão sobre a compra dos novos caças para a Força Aérea Brasileira.

Na hipótese de a FAB selecionar o preferido de Jobim, o francês Dassault Rafale, o ministro passará um bom tempo explicando os motivos da escolha. Ele terá argumentos, mas o questionamento é certo. Se os militares forem de Gripen (Saab sueca) ou Super Hornet (Boeing americana), o abacaxi será mais espinhoso. Jobim terá de acatar algo contra o que trabalhou até aqui, que é uma parceria em todas as áreas com a França, ou então irá bater de frente com os brigadeiros e forçar a escolha pelo Rafale.

Seja qual for o cenário, é saudável a visibilidade sobre uma disputa de no mínimo uns R$ 4 bilhões – provavelmente muito mais. Em qualquer lugar do mundo, compra militar é coberta por um véu de segredo. Natural: é a segurança do país em jogo. Mas mesmo isso precisa de escrutínio público, e até aqui a FAB fez um trabalho transparente nas etapas de sua seleção. Só que agora é a hora da política, e dos pequenos ou grandes detalhes da negociação.

A revelação (adendo do blog DE PARIS: faltou a menção,”da Veja.com) de que a Dassault pagou para uma comitiva de deputados passear em Paris e ouvir sobre as virtudes do Rafale é desses detalhes. Num país sério, seria um dos grandes, e os deputados teriam de se explicar. Eles não decidem nada agora, mas será o Congresso que terá de aprovar o orçamento da FAB e os prováveis créditos extraordinários para pagar a fatura a seguir. Mas aqui é o Brasil, “pas sérieux”, como não teria dito De Gaulle. Temos de ouvir o presidente da Câmara falar em “lobby elegante e saudável”. Cabe perguntar o grau de refinamento dos próximos detalhes que podem emergir. E como os afetados irão reagir.

Por Antonio Ribeiro

 

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