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Arquivo da categoria ‘Brasil-França’

Ações da Dassault dão salto olímpico

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 | 10:45

acoesdassault2A francesa Dassault Aviation, fabricante do Rafale, como de costume, não quer comentar a informação que Lula oficializou a compra de 36 aviões de combate para substituir caças da Força Aérea Brasileira no projeto FX-2. O Palácio do Elyseé também preferiu ficar em silêncio. No mundo real, as ações da empresa deram um salto  como já não acontecia em anos, elas subiram 5,3% na Bolsa de Paris, depois da notícia. A compra dos caças é questão capital para Dassault, desde a série de anulações de pedidos, devido a crise econômica, do seu produto principal, o jato executivo Falcon.

Se no lado francês adotou-se o mutismo,  o ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou que o preço do Rafale, o mais caro entre os 3 caças concorrentes, é apenas um elemento “componente”. Quanto ao relatório da FAB, elaborado pelo Copac (Comissão Coordenadora do Programa Aeronaves de Combate), que apontou o sueco Gripen NG como a melhor opção, Jobim disse foram usados “parâmetros que não coadunam com a Estratégia Nacional de Defesa.”

Por Antonio Ribeiro

Marchinha do Rafale

domingo, 24 de janeiro de 2010 | 15:40

Qualquer semelhança é mera coincidência.

Aviso ao contribuinte: o vídeo foi retirado do filme Entrei de Gaiato.

Por Antonio Ribeiro

Rafale, caiu a ficha

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010 | 16:20

rafaleindia

A licitação sobre o reaparelhamento da FAB, a compra de 36 caças do projeto FX-2, seguia naturalíssima como águas que correm para o mar. Lembrava um passeio no pomar. O blog De Paris não tem a pretensão de considerar a relevância dada ao assunto aqui como o único responsável pela tomada de consciência de tema que por si só sempre mereceu mais atenção alhures. Trata-se da maior compra militar da história do Brasil cuja conta será paga pelo contribuinte durante os próximos 7 mandatos presidenciais.

Mas foi aqui sim que se afirmou pela primeira vez que Lula tinha feito sua escolha pelo Rafale - julho de 2009. Alguns ainda casam a evidência com verbo no condicional. Foi aqui sim, e pela primeira vez, que se ressaltou o desrespeito por regras básicas de uma licitação. Nunca neste país o resultado de uma concorrência foi tão descaradamente anunciada antes do encerramento. Foi aqui sim que se descobriu a estadia de parlamentares brasileiros em Paris pagas, na sua maior parte, pela Dassault, fabricante do Rafale. Foi aqui sim que se revelou que o “deslocamento a Saint Emilion”, como constava na agenda oficial de Nelson Jobim, era jantar do ministro da Defesa no castelo da família Dassault.

E aqui não se escreveu com menos profundidade sobre o assunto do que em qualquer outro espaço da imprensa brasileira. É fácil de constatar que, na maioria dos casos, o empenho foi bem maior.

Nota-se agora uma correria para tirar o atraso da falta de atenção inicial. Tudo bem, antes tarde do nunca. No entanto, é prudente ter cuidado para não tropeçar. A partir de um despacho da agência Indian Express - circula na internet desde abril de 2009 - deduziu-se ter chegado a uma espécie de descoberta da pólvora.

A noticia dá conta da eliminação do Rafale na concorrência para compra de 126 caças para a Força Aérea Indiana (IAF) no valor global de 10 bilhões de dólares. Pegou-se 10 bilhões e dividiu-se por 126 para chegar a 73,34 milhões de dólares o preço de cada caça. Concluiu-se que o preço do Rafale saía pela metade do que a Dassault está oferecendo ao Brasil.

Os 10 bilhões de dólares é uma estimativa de um valor que o próprio Ministério da Defesa da Índia afirma que não foi definido. A Dassault lembra, com razão, que o preço varia em função do volume do estoque de peças de reposição, do tempo do apoio logístico e das especificações do caça exigidas pelo comprador. As especificações da FAB não são as mesmas que as da IAF. A eliminação inicial do Rafale da concorrência não foi, ainda segundo a India, em razão do preço, mas por não cumprir especificações técnicas. A Dassault poderá voltar à licitação desde que atenda as especificações. O Rafale com preço equivalente ao proposto na licitação brasileira perdeu concorrência o para o F-16 (Lockheed Martin) no Marrocos e na Coréia do Sul para o F-15 (Boeing).

Mas o dobro não é muito? Dobro? A proposta de Nicolas Sarkozy a Lula é que o Brasil pague o mesmo que a Aeronáutica e Marinha francesa pagaram pelo Rafale - a única referência de preço pago Rafale até hoje. Ou seja, entre 64 e 70 milhões de euros. O preço está documentado no Livre Blanc, no Senado francês. No entanto, estima-se que o Rafale vai custar em torno 96 milhões de euros para o contribuinte brasileiro.

Portanto, a diferença de preço não está na concorrência indiana cujos dados são vagos, mas entre o que a França pagou e o que o Brasil irá pagar. Ou seja, entre a promessa de Sarkozy e a conta da Dassault. Adicione à equação o elemento que não mudou, o Rafale é mais caro que os seus dois outros concorrentes, o F-18 Super Hornet e o Gripen NG.

Por Antonio Ribeiro

Nem terremoto abala o antiamericanismo

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 | 19:36

antiamericanismo

Nicolas Sarkozy, finalmente, deu um basta à cantilena mais recente do coro formado por integrantes do seu governo. Em uma bizarra parceria estratégica com os colegas brasileiros, autoridades francesas vinham intercalando declarações contra a ação dos Estados Unidos na missão humanitária em favor do Haiti, depois do terremoto, responsável pela morte de, no mínimo, 100.000 pessoas e devastação sem precedente na capital da miséria nas Américas.

Se Celso Amorim sugeriu que o controle do espaço aéreo pelos americanos estava dificultando os pousos de aviões militares brasileiros em Porto Príncipe, o francês Alain Joyandet, secretário de estado encarregado da Cooperação Internacional e Francofonia, achou mais adequado admoestar o governo Barack Obama. “A missão é para ajudar e não ocupar o Haiti”, contribuiu no vasto sermonário francês que obstina em balizar a diplomacia mundial.

Até esta manhã, Sarkozy fez como quem não viu uma da mais inoportunas e enciumadas manifestações de antiamericanismo oficial. Sua mudança de curso materializou-se durante viagem à ilha da Reunião, território ultramarino francês. O presidente da França enalteceu a “excepcional mobilização pelo Haiti” do governo Obama, o “papel essencial” das tropas americanas e declarou sem perder a medida que imagina  ter a sua estatura: “Estou inteiramente satisfeito com a cooperação de Washington.”

O antiamericanismo francês, muitas vezes, de traços caricatos, não explica tudo. Sob o ponto de vista diplomático, qualquer país que tentar sobrepor a França em matéria de ajuda humanitária - imensa reserva moral - será considerado concorrente direto ao brilho gálico. Já há muito que a França não tem condições de impor-se como potência militar e econômica no cenário mundial. Restou a “nobreza” de converter-se em uma de espécie de Cruz Vermelha avantajada pelo formidável apoio do estado, das finanças e do dispositivo militar.

Quando os Estado Unidos empenham-se em policiar o planeta, não estão fazendo nada além da sua obrigação, pensam os franceses. Segundo o juízo local, quando o governo Bush demora no socorro às vítimas do furacão Katrina, até se admite. Afinal, os americanos são insensíveis. Desbloquear 100 milhões de dólares para as vítimas e reconstrução do terremoto? Vá lá, eles são ricos. O problema é enviar 20.000 soldados com objetivo de não dar sequer um tiro. Inadmissível a chegada de um porta-aviões com 20 helicópteros para não lançar um mísero míssil. Que diabo de comportamento é este?

Mas as explicações começam a emergir à beira do Sena. A 1.200 quilômetros de distância da Flórida, o efeito do terremoto poderá causar uma onda de refugiados, dizem. Os EUA estariam no Haiti para conter o êxodo dos aflitos. Outra razão seria a incontida compulsão intervencionista americana nos momentos de instabilidade na Hispaniola.  Destino preferencial da diáspora insular, os EUA estariam agindo sob a pressão dos 300.000 eleitores americanos de origem haitiana e de eventual revolta dos mais de 150.000  ilegais. Por último - não poderia faltar - trata-se de excelente oportunidade de se colocar em prática a “doutrina Obama”. Pronto.

Definitivamente, Asterix tem razão: “Os romanos são uns neuróticos”

Por Antonio Ribeiro

Quanto custa um Rafale?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 | 9:08

livro-brancoO leitor Alberto Semer escreveu ao blog De Paris:

Conhecendo a ética e a moral do Lula e do PT pergunto:

1) Como saber se não há superfaturamento nos preços dos caças, uma vez que, nunca antes na história deste planeta, salvo a França, ninguém comprou um caça Rafale?

2) Quem está levando a comissão dessa venda?

Resposta:

Caro Alberto,

A única referência do preço é o que a França pagou para Dassault, fabricante do Rafale. Sarkozy prometeu a Lula que o preço do Rafale para o contribuinte brasileiro seria equivalente ao pago pela Força Aérea e Marinha francesa. Diretores da Dassault disseram a Veja.com que o caça seria mais barato para o Brasil porque não há o custo de desenvolvimento do avião, ele já esta pronto para operar.

Segundo dados do Livre blanc, que trata do orçamento militar da França, o Senado francês informa que a França pagou entre 64 e 70 milhões de euros (a unidade) dependendo da versão do Rafale. O Rafale para Marinha, por exemplo, é mais caro. O caça deve pousar em porta-aviões o que requer um trem de pouso especial, reforçado. Não é o tipo de avião do projeto FX-2.

Porém, estima-se que cada avião de combate francês custará 96 milhões de euros para o contribuinte brasileiro.

Por dedução lógica, comissões - e segundo a legislação francesa, elas podem fazer parte do negócio se respeitar certos critérios - são pagas a quem facilita e decide a compra.

De Paris, um abraço

Por Antonio Ribeiro

O idílio do Monde

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010 | 8:41

Sermão da Aves: "Escutem a palavra de Deu e fiquem silenciosas enquanto eu falo."

Sermão da Aves: "Escutem a palavra de Deu e fiquem silenciosas enquanto eu falo."

No fim do ano passado, o vespertino francês Le Monde elegeu Lula, “Homem do Ano”. Foi a primeira vez que o jornal encampou no seu formato berliner a idéia dos editores da revista TIME nos anos 20 do século passado. Um leitor do blog De Paris perguntou: “Você não vai escrever nada?” A resposta foi sucinta: “Nem uma vírgula.”

O jornal tem tentado sem sucesso diversas fórmulas para conter sucessiva perda de leitores durante quase uma década. Em 2001, a tiragem do Monde era de 406.000 exemplares diários. Hoje ela gira em torno de 320.000. O vespertino francês não conseguiu um centavo de euro de lucro durante o mesmo período. Monumento da imprensa francesa - 64 anos de existência - acumulou uma dívida de mais de 160 milhões de euros.

Em desesperada tentativa de capturar leitores, o Monde focou sua principal estratégia em um público tradicionalmente fiel, agora em debandada, os leitores que apreciam as idéias da esquerda. Existe um notável temor de desagradá-los e desmedido esforço para adular, sonegando análise objetiva de figuras supostamente queridas — método mais próximo dos panfletos e longe da respeitável reputação estabelecida pelo Monde.

Entretanto, não há uma figura de proa no Partido Socialista francês, letárgico desde a eliminação do ex-primeiro-ministro Lionel Jospin no primeiro turno das eleições presidenciais de 2001. Nem com a maior boa vontade cairia bem escolher, digamos, um François Hollande, Homem do Ano. Mas a escolha poderia ser um líder da esquerda européia, não é? Poderia. Sucede que o produto está em falta. No Velho Continente, tampouco existe um político de esquerda cativante para ser louvado com alguma credibilidade. O campo dos pensadores de gauche é um vasto deserto de homens e idéias.

É neste contexto que o Monde escolheu Lula, o seu Homem do Ano, uma espécie de “Lula de cinema”. Uma opção, sobretudo, de caráter marqueteira. Na França, o mito do menino pobre, do operário que chegou a presidência não sofreu o desgaste dos casos de corrupção, da leniência com a ilegalidade nem as com as frequentes declarações estapafúrdias tão ao gosto de Lula.

O Monde não anda interessado em desmistificação  ou acha que não é boa hora. A edição com data de hoje, é um exemplo clássico. Na página 2, vai uma análise de 5.343 caracteres com espaço, cujo título é As esquerdas na América Latina confrontadas com a corrupção. O autor começa com o casal Kirchner, na Argentina, dá um pulo na Venezuela de Hugo Chaves, passa pela Bolívia e no penúltimo parágrafo, desembarca no Brasil. Ali, dedica minguados 619 caracteres e conclui o arrazoado.

O mais curioso é o conteúdo do parágrafo único. Reparem com que rapidez o autor passa pelo caso do mensalão, apenas um trampolim para mergulhar em José Sarney, “antigo líder do grupo parlamentar governamental durante a ditadura militar” e aí, nada de braçadas. Aqui está a tradução:

“No Brasil, ao escândalo do mensalão (2005) - as mensalidades pagas a parlamentares aliados ao partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - veio se acrescentar, em 2009, o caso do presidente do Senado, José Sarney, pego com a boca na botija em casos de nepotismo, de empregos fantasmas e outras indelicadezas. Antigo líder do grupo parlamentar governamental durante a ditadura militar (1964-1985), em seguida primeiro presidente civil devido a morte de Tancredo Neves antes da posse, José Sarney está à frente de uma verdadeira máfia familiar no Maranhão (Nordeste). O presidente Lula o poupou em nome da coesão da coalizão governamental, quando ele representa o que há de pior na classe política.”

Concede-se: um só paragrafo sobre o Brasil em texto a respeito da corrupção nos governos de esquerda da America Latina é quase tão alvissareiro quanto a eleição de Homem do Ano.

Semana passada, na saída do seminário “Novo Mundo, Novo Capitalismo”, na capital francesa, o blog De Paris peguntou ao ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, se ele considerava a relação estratégica com a França mais importante do que licitação e parecer técnico do Copac no caso da compra dos Rafale . A resposta foi para as primeiras páginas do jornais brasileiros. Aquela premissa do “barato sai caro”. Amorim nos sugeriu leitura de um texto no Monde Diplomatique, publicação mensal a qual o Le Monde é proprietário majoritário. “Ele trata do complexo de vira-lata.” Perguntei: “O Monde Diplomatique é uma referência, ministro?” “É uma, sou pela pluralidade”, disse ele.

Acolhemos a dica do ministro, como não? O artigo foi lido. Ele está aqui. Mas fomos um pouquinho mais longe, achamos a autora, Lamia Oualalou, que chancela as idéias do ministro. Samba!, o blog dela está aqui. O barato, fica a seu juízo, caro leitor.

Por Antonio Ribeiro

Ares de maracutaia

domingo, 10 de janeiro de 2010 | 17:49

maracutaia

O leitor deste blog sabe. A compra de 36 caças Rafale, fabricados pela francesa Dassault Aviation, para substituir os modelos obsoletos da Força Aérea Brasileira (FAB), está decidida e sacramentada desde julho de 2009. Lula, quem decide, manifestou a escolha por três vezes. Nos últimos 6 meses, acompanhou-se um jogo de cartas marcadas. Veio junto a tentativa oficial, primitiva e enfadonha, de manter aparências do que nunca foi uma licitação pública.

A questão mais interessante agora não é qual será o avião de combate do projeto FX-2, mas por que Lula escolheu o Rafale?

O governo deixa entender tratar-se de escolha política do executivo. É verdade. Justifica a opção como parte de celebrada parceria estratégica com a França cuja estampa mais colorida é manifesto anti-americanismo e na qual, envolve a compra de helicópteros, submarinos convencionais e o casco do primeiro deles de fabricação nacional à propulsão nuclear. Em horizonte mais distante, cogita-se também a construção de um porta-aviões com caças Rafale equipados de trens de pouso reforçados e por que não, perguntam eles, a substituição dos 120 caças restantes da FAB, uma vez que o avião de combate francês se presta ao serviço. O Rafale foi projetado para o desempenho de multiplas funções.

Em contrapartida ao maior gasto da história militar do país e o mais longo, 10 bilhões de reais a serem pagos durante 7 mandatos presidenciais, a França seria forte aliada às ambições brasileiras nos foros internacionais, em questões financeiras, comerciais, de segurança e ambientais. A cereja em cima do bolo proposto na bandeja francesa é o apoio à velha reivindicação brasileira de uma cadeira verde amarela e cativa no Conselho de Segurança da ONU - custa apenas retórica e mais zero euro.

A moeda de troca francesa lembra o queijo camembert - duro por fora e mole no interior - é de difícil aferição, mas sobretudo, tem valor incerto. A transação dos Rafale seria como se  decidissem comprar um apartamento à beira-mar do vizinho onde o preço do imóvel é mero detalhe e a motivação da aquisição estaria baseada na promessa de que, sempre que houvesse uma disputa na reunião de condomínio, o vendedor faria campanha para o voto no lado do comprador.

Portanto, não é por acaso que o governo Lula reforça a argumentação em favor dos franceses evidenciando a transferência de tecnologias críticas, aspecto da concorrência, no qual os felizardos eleitos por antecipação seriam os melhores candidatos. Infla-se o peito quando referem à entrega do código fonte, o cérebro do caça francês, mas há silêncio absoluto sobre o motor do avião. O Brasil não receberá nem o desenho de parafuso, porca ou ruela que integra o sistema de propulsão do Rafale, o M88 fabricado pela francesa Snecma. Sabe-se que existem mais países que possuem a bomba atômica do que aqueles que fabricam motores de aeronaves de combate.

Causa bastante estranheza o resultado de uma licitação ser anunciado antes da hora. É sem dúvida muito pouco convencional encomendar parecer técnico a quem realmente entende - e que será o usuário final - para depois considerar o estudo mero aspecto cosmético. Pior: exigir alterações no relatório para não causar constrangimentos. Se a opinião da FAB não tem influência, por que ela foi consultada? Se uma avaliação não hierarquiza os concorrentes em uma licitação, para que ela serve? Chamaram a FAB para participar do processo à condição de que os brigadeiros sonegassem a sua opinião a quem vai pagar a conta, o contribuinte brasileiro. Perguntem se a França compraria do Brasil  sequer um cartucho de carabina para caçar esquilos em gramado de base aérea sem o aval de seus militares?

Adicione a prática frequênte — e regulamentada pela legislação! — de pagamentos de comissões pelo governo francês para facilitar a venda de seus armamentos. O Rafale está exposto na prateleira há mais de uma década; salvo a França, onde é fabricado, não foi comprado por ninguém. O Brasil inicia ano eleitoral, época em que os partidos políticos procuram melhorar a tesouraria. Pode até ser uma dessas raríssimas exceções da história onde procedimentos pouco ortodoxos e a falta de transparência esconde um processo lícito. Mas desta vez, ninguém pode ser cobrado por tomar emprestado um termo sonoro do colorido vocabulário lulês. A licitação dos caças para FAB não é só um “fechem o bico, quem manda sou eu”, ela tem ares de maracutaia.”

PS - A quem se interessar pelo assunto, sugiro ler o postA conta por favor

Por Antonio Ribeiro

Amigos de infância

sábado, 14 de novembro de 2009 | 10:22

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Lula e Sarkozy, já foi escrito aqui, tornaram-se amigos de infância. A França que não se dá tão bem como gostaria com nenhum país emergente, encontrou o Brasil dando sopa. O Brasil, cuja diplomacia de Celso Amorim crê precisar de um apoio moral nas questões discutidas nos foros internacionais, descobriu a França pronta para negociar sua caução.

A relação de interesses entre os dois governos lembra certas irresistíveis paixões proibidas. É tão atrativa que não anda respeitando nem calendário de licitações públicas. O caso da compra dos Rafale, a preferência de Lula, três vezes publicamente declarada. Ou alguém ainda acredita nos entediosos relatos de que a FAB terá 36 aviões que não sejam aqueles fabricados pela francesa Dassault? (Jornalismo não é previsão do futuro, mas tampouco  é mostrar-se cego às evidências. Quem vem dizendo que a escolha esta feita desde julho? O blog De Paris e ninguém mais.)

Não surpreende a escala hoje de Lula em Paris a caminho de Roma, onde acontece reunião da FAO sobre segurança alimentar - é questão a redução dos subsídios agrícolas, domínio que a França é campeã. Os presidentes querem fechar posição comum, como tem acontecido nas vésperas das reuniões de cúpula, para a Conferência do Clima em Copenhague, daqui a três semanas.

É uma coreografia complexa desta vez. O Brasil, o quarto maior emissor de gazes responsáveis pelo efeito estufa e que acaba de propor uma redução voluntária de até 38,9%  no  horizonte do ano 2020, o que significa de 975 milhões a 1,05 bilhão de CO2 na atmosfera, quer que os países industrializados ajudem os emergentes a financiar o esforço. A União Européia fixou uma ajuda anual de 100 milhões de euros aos países pobres entre 2013 e 2020, mas até agora ninguém colocou dinheiro à mesa ou a mão no bolso.

Por Antonio Ribeiro

36 Rafale = 1/3 do Rio 2016

quinta-feira, 22 de outubro de 2009 | 12:02

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A questão não é se o Brasil precisa de caças, mas quanto paga pelo que precisa? Os 36 Rafale fabricados pela francesa Dassault Aviation vão custar para o bolso do contibuinte brasileiro em torno de 5,5 bilhões de euros, a quantia equivale à um terço do orçamento total previsto para ser gasto com as obras do Rio 2016.

Por Antonio Ribeiro

A conta, por favor

terça-feira, 20 de outubro de 2009 | 20:26

O vice-presidente Eric Trappier e os Rafale

O vice-presidente Eric Trappier e os Rafale

Em breve, o governo irá anunciar a maior despesa da história militar do país, a compra de 36 aviões de combate para Força Aérea Brasileira (FAB). A escolha passa primeiro por uma avaliação técnica do Ministério da Defesa. Questão apenas protocolar. Isso porque Lula, quem decide, já manifestou sua preferência. Entre os 3 caças, o americano F-18 Super Hornet, o sueco Gripen NG e o francês Rafale, o presidente quer o último. O mais caro. Quem pagará a conta são os contribuintes. Eles não sabem quanto nem a fabricante Dassault está disposta a dizer.

A bordo do barco fluvial Talismã, no rio Sena, próximo do gramado onde Santos Dumont fez decolar o 14 Bis, Eric Trappier, vice-presidente da Dassault Aviation, fez o possível para contornar a pergunta de Veja.com: “Quanto o Rafale irá custar aos brasileiros?” Em um primeiro instante, Trappier justificou sua posição alegando o respeito às regras da licitação. Diante da quarta insistência, deixou escapar: “Não vou dizer o nosso preço para depois o fabricante de um avião que só existe no papel melhorar a oferta.”O francês refere-se a quem ele considera o seu maior concorrente, a sueca Saab que fabrica o Gripen NG.

No mês passado, surpresos com o anúncio do resultado antes da data - ela já foi adiada 9 vezes - os suecos constrangeram Lula e os franceses. Propuseram vender dois de seus caças pelo preço de um só. A oferta deixou a direção Dassault no desconforto. Até então os franceses saboreavam o apoio que Trappier admite nunca ter recebido - “Nos tocou profundamente” - em concorrência nas quais o Rafale enfrentou pelo mundo afora. E diga-se de passagem, perdeu todas. A Dassault baixou o preço inicial da sua proposta. Agora, garante que a hora de vôo do Rafale custará para a FAB exatamente o mesmo que seus velhos caças Mirage 2000. Quer dizer, 14.000 dólares.

Estima-se que o pacote francês irá custar em torno de 5,5 bilhões de dólares - um terço do custo previsto das obras do Rio 2016. A vantagem que chega com o Rafale é a promessa de transferência de tecnologias criticas da Dassault para indústrias aeronáuticas nacionais, centros de pesquisa e universidades. Ela envolve a entrega do código fonte do caça, a formação inicial e treinamentos. Também o pacote de dados da aeronave, dos sistemas , os métodos de concepção e desenvolvimento, o know how. A principal beneficiaria será a Embraer da qual a Dassault tem 0,9% das ações.

A francesa Snecma que produz turbinas de propulsão aeroespacial, responsável pelo motor M88 do Rafale, discarta a transferência de tecnologia ao Brasil, A cooperação se restringe a manutentção. Há menos países que produzem turbinas de aviões militares no mundo que os que tem bomba atomica. A partir de 2012, a Thales promete equipar o Rafale BR, a versão brasileira do caça bimotor supersonico, com radares de última geração, o sistema  de varredura eletronica ativa, - AESA, na sigla em inglês. O radar proporciona alcance superior para detecção, rastreamento de alvos dentro e fora da aérea de busca, identificação do solo com alta resolução e permite voos em baixíssima altitude sobre terrenos não-mapeados. A empresa cuja Dassault acaba de comprar 25%, promete tansferir a tecnologia para a fabriacão da antena, a parte mais sensível do equipamento.

Se o contrato for assinado com a Dassault em 2010, a direção da empresa francesa - produz atualmente 11 Rafale por ano na sua fabrica de Mérignac com capacidade para o dobro -  afirma que o primeiro avião de combate será entregue ao Brasil em 2013. Os 6 primeiros Rafale serão fabricados inteiramente na França. Os 30 seguintes poderão ser montados na Embraer  - a partir de um kit de peças vindas da França - na unidade de Gavião Peixoto, próxima a Araraquara, interior de São Paulo. Os componentes  de produçao nacional - a Dassault afirma que eles poderão totalizar 50% do caça - serão integrados de acordo com evolução das parcerias com empresas brasileiras. Já foram formalizados 67 projetos de compensação (offests) - diferença de tensão entre a entrada e saída de componentes eletrônicos - com 38 empresas. Prevê-se a criação de mil empregos diretos e dois mil indiretos durante 10 anos.

O fabricante do Rafale é controlado por uma empresa familiar. Os Dassault cujo patriarca é o senador Serge, amigo do presidente Nicolas Sarkozy, dono do jornal Le Figaro, de vinhedos na região de Bordeaux,  de uma fabrica de carros elétricos, e da Artcurial, uma casa de leilões de objetos de arte. Em 2008 a Dassault Aviation teve um lucro de 373 milhões de euros vendendo, sobretudo, seus luxuosos jatos executivos com capacidade de 14 a 19 passageiros, a linha Falcon - fazem questão de evidenciar que não são concorrentes da Embraer, mas não gostam de lembrar que um dos seus melhres clientes é Hugo Chavez.

A crise financeira mundial fará a rentabilidade da Dassault cair para 289 milhões de euros este ano. A empresa aposta na recuperação aumentando suas vendas de aviões militares. A França, o único compador do Rafale, tem uma encomenda de 294 aeronaves para serem entregues até 2022 - 60 deles com trem de pouso reforçado para oprear nos porta-aviões seram destinados a Marinha e 234 para Força Aérea. A Dassault já entregou 75 entre os quais 2 unidades que chocaram-se sob o Mar Mediterrâneo. Os dois aviões foram encontrados. Um deles, o piloto conseguiu se ejetar e foi salvo. O segundo avião foi encontrado no fundo do mar com o piloto preso dentro do cockpit. A empresa afirma que houve erro humano.

Atualização: Luis Inácio Lula da Silva reafirmou sua preferência “política” pelo Rafale ao presidente da Assembleia Nacional da França, Bernard Accoyer, em vista ao Brasil. As manifestações de Lula antes do anúncio da licitação, o que caracteriza jogo de cartas marcadas, dá margem aos concorrentes americanos e suecos moverem ação contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio.

Por Antonio Ribeiro