
Sermão da Aves: "Escutem a palavra de Deu e fiquem silenciosas enquanto eu falo."
No fim do ano passado, o vespertino francês Le Monde elegeu Lula, “Homem do Ano”. Foi a primeira vez que o jornal encampou no seu formato berliner a idéia dos editores da revista TIME nos anos 20 do século passado. Um leitor do blog De Paris perguntou: “Você não vai escrever nada?” A resposta foi sucinta: “Nem uma vírgula.”
O jornal tem tentado sem sucesso diversas fórmulas para conter sucessiva perda de leitores durante quase uma década. Em 2001, a tiragem do Monde era de 406.000 exemplares diários. Hoje ela gira em torno de 320.000. O vespertino francês não conseguiu um centavo de euro de lucro durante o mesmo período. Monumento da imprensa francesa - 64 anos de existência - acumulou uma dívida de mais de 160 milhões de euros.
Em desesperada tentativa de capturar leitores, o Monde focou sua principal estratégia em um público tradicionalmente fiel, agora em debandada, os leitores que apreciam as idéias da esquerda. Existe um notável temor de desagradá-los e desmedido esforço para adular, sonegando análise objetiva de figuras supostamente queridas — método mais próximo dos panfletos e longe da respeitável reputação estabelecida pelo Monde.
Entretanto, não há uma figura de proa no Partido Socialista francês, letárgico desde a eliminação do ex-primeiro-ministro Lionel Jospin no primeiro turno das eleições presidenciais de 2001. Nem com a maior boa vontade cairia bem escolher, digamos, um François Hollande, Homem do Ano. Mas a escolha poderia ser um líder da esquerda européia, não é? Poderia. Sucede que o produto está em falta. No Velho Continente, tampouco existe um político de esquerda cativante para ser louvado com alguma credibilidade. O campo dos pensadores de gauche é um vasto deserto de homens e idéias.
É neste contexto que o Monde escolheu Lula, o seu Homem do Ano, uma espécie de “Lula de cinema”. Uma opção, sobretudo, de caráter marqueteira. Na França, o mito do menino pobre, do operário que chegou a presidência não sofreu o desgaste dos casos de corrupção, da leniência com a ilegalidade nem as com as frequentes declarações estapafúrdias tão ao gosto de Lula.
O Monde não anda interessado em desmistificação ou acha que não é boa hora. A edição com data de hoje, é um exemplo clássico. Na página 2, vai uma análise de 5.343 caracteres com espaço, cujo título é As esquerdas na América Latina confrontadas com a corrupção. O autor começa com o casal Kirchner, na Argentina, dá um pulo na Venezuela de Hugo Chaves, passa pela Bolívia e no penúltimo parágrafo, desembarca no Brasil. Ali, dedica minguados 619 caracteres e conclui o arrazoado.
O mais curioso é o conteúdo do parágrafo único. Reparem com que rapidez o autor passa pelo caso do mensalão, apenas um trampolim para mergulhar em José Sarney, “antigo líder do grupo parlamentar governamental durante a ditadura militar” e aí, nada de braçadas. Aqui está a tradução:
“No Brasil, ao escândalo do mensalão (2005) - as mensalidades pagas a parlamentares aliados ao partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - veio se acrescentar, em 2009, o caso do presidente do Senado, José Sarney, pego com a boca na botija em casos de nepotismo, de empregos fantasmas e outras indelicadezas. Antigo líder do grupo parlamentar governamental durante a ditadura militar (1964-1985), em seguida primeiro presidente civil devido a morte de Tancredo Neves antes da posse, José Sarney está à frente de uma verdadeira máfia familiar no Maranhão (Nordeste). O presidente Lula o poupou em nome da coesão da coalizão governamental, quando ele representa o que há de pior na classe política.”
Concede-se: um só paragrafo sobre o Brasil em texto a respeito da corrupção nos governos de esquerda da America Latina é quase tão alvissareiro quanto a eleição de Homem do Ano.
Semana passada, na saída do seminário “Novo Mundo, Novo Capitalismo”, na capital francesa, o blog De Paris peguntou ao ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, se ele considerava a relação estratégica com a França mais importante do que licitação e parecer técnico do Copac no caso da compra dos Rafale . A resposta foi para as primeiras páginas do jornais brasileiros. Aquela premissa do “barato sai caro”. Amorim nos sugeriu leitura de um texto no Monde Diplomatique, publicação mensal a qual o Le Monde é proprietário majoritário. “Ele trata do complexo de vira-lata.” Perguntei: “O Monde Diplomatique é uma referência, ministro?” “É uma, sou pela pluralidade”, disse ele.
Acolhemos a dica do ministro, como não? O artigo foi lido. Ele está aqui. Mas fomos um pouquinho mais longe, achamos a autora, Lamia Oualalou, que chancela as idéias do ministro. Samba!, o blog dela está aqui. O barato, fica a seu juízo, caro leitor.