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Arquivo da categoria Brasil-França

04/08/2010

às 12:53 \ Brasil-França

Brasileiros fazem Plaza Athénée faturar lucro recorde

Jamais um quarto de hotel foi tão rentável em Paris durante um mês. A clientela que mais contribuiu para a quebra do recorde depois da americana, foi a brasileira. Durante o mês de julho deste ano, cada hospedagem diária gerou mais de 1.000 euros no famoso 5 estrelas da Avenida Montaigne, o Plaza Athénée. A taxa de ocupação, espantosa para um hotel parisiense de tamanho luxo e conforto, chegou à marca de 95%. A Suíte Royale cuja diária é de 20.000 euros, abrigou hóspedes durante o mês inteiro. A frequência representa aumento de 10% em relação ao ano passado.

Patrick Mathivon, diretor administrativo e financeiro do Plaza, diz que o resultado  expressivo deve-se sobretudo à queda do euro em relação ao dólar e ao real. Os clientes brasileiros, em sua maioria, filhos de antigos hóspedes do hotel, têm entre 30 e 40 anos. Eles permaneceram de três a quatro dias no hotel. Amantes da boa mesa, os brasileiros lideram ainda o número de reservas do restaurante comandado pelo francês Alain Ducasse, o chef mais estrelado no mundo pelo Guia Michelin.

Por Antonio Ribeiro

04/02/2010

às 10:45 \ Brasil-França

Ações da Dassault dão salto olímpico

acoesdassault2A francesa Dassault Aviation, fabricante do Rafale, como de costume, não quer comentar a informação que Lula oficializou a compra de 36 aviões de combate para substituir caças da Força Aérea Brasileira no projeto FX-2. O Palácio do Elyseé também preferiu ficar em silêncio. No mundo real, as ações da empresa deram um salto  como já não acontecia em anos, elas subiram 5,3% na Bolsa de Paris, depois da notícia. A compra dos caças é questão capital para Dassault, desde a série de anulações de pedidos, devido a crise econômica, do seu produto principal, o jato executivo Falcon.

Se no lado francês adotou-se o mutismo,  o ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou que o preço do Rafale, o mais caro entre os 3 caças concorrentes, é apenas um elemento “componente”. Quanto ao relatório da FAB, elaborado pelo Copac (Comissão Coordenadora do Programa Aeronaves de Combate), que apontou o sueco Gripen NG como a melhor opção, Jobim disse foram usados “parâmetros que não coadunam com a Estratégia Nacional de Defesa.”

Por Antonio Ribeiro

24/01/2010

às 15:40 \ Brasil-França

Marchinha do Rafale

Qualquer semelhança é mera coincidência.

Aviso ao contribuinte: o vídeo foi retirado do filme Entrei de Gaiato.

Por Antonio Ribeiro

22/01/2010

às 16:20 \ Brasil-França

Rafale, caiu a ficha

rafaleindia

A licitação sobre o reaparelhamento da FAB, a compra de 36 caças do projeto FX-2, seguia naturalíssima como águas que correm para o mar. Lembrava um passeio no pomar. O blog De Paris não tem a pretensão de considerar a relevância dada ao assunto aqui como o único responsável pela tomada de consciência de tema que por si só sempre mereceu mais atenção alhures. Trata-se da maior compra militar da história do Brasil cuja conta será paga pelo contribuinte durante os próximos 7 mandatos presidenciais.

Mas foi aqui sim que se afirmou pela primeira vez que Lula tinha feito sua escolha pelo Rafale – julho de 2009. Alguns ainda casam a evidência com verbo no condicional. Foi aqui sim, e pela primeira vez, que se ressaltou o desrespeito por regras básicas de uma licitação. Nunca neste país o resultado de uma concorrência foi tão descaradamente anunciada antes do encerramento. Foi aqui sim que se descobriu a estadia de parlamentares brasileiros em Paris pagas, na sua maior parte, pela Dassault, fabricante do Rafale. Foi aqui sim que se revelou que o “deslocamento a Saint Emilion”, como constava na agenda oficial de Nelson Jobim, era jantar do ministro da Defesa no castelo da família Dassault.

E aqui não se escreveu com menos profundidade sobre o assunto do que em qualquer outro espaço da imprensa brasileira. É fácil de constatar que, na maioria dos casos, o empenho foi bem maior.

Nota-se agora uma correria para tirar o atraso da falta de atenção inicial. Tudo bem, antes tarde do nunca. No entanto, é prudente ter cuidado para não tropeçar. A partir de um despacho da agência Indian Express – circula na internet desde abril de 2009 – deduziu-se ter chegado a uma espécie de descoberta da pólvora.

A noticia dá conta da eliminação do Rafale na concorrência para compra de 126 caças para a Força Aérea Indiana (IAF) no valor global de 10 bilhões de dólares. Pegou-se 10 bilhões e dividiu-se por 126 para chegar a 73,34 milhões de dólares o preço de cada caça. Concluiu-se que o preço do Rafale saía pela metade do que a Dassault está oferecendo ao Brasil.

Os 10 bilhões de dólares é uma estimativa de um valor que o próprio Ministério da Defesa da Índia afirma que não foi definido. A Dassault lembra, com razão, que o preço varia em função do volume do estoque de peças de reposição, do tempo do apoio logístico e das especificações do caça exigidas pelo comprador. As especificações da FAB não são as mesmas que as da IAF. A eliminação inicial do Rafale da concorrência não foi, ainda segundo a India, em razão do preço, mas por não cumprir especificações técnicas. A Dassault poderá voltar à licitação desde que atenda as especificações. O Rafale com preço equivalente ao proposto na licitação brasileira perdeu concorrência o para o F-16 (Lockheed Martin) no Marrocos e na Coréia do Sul para o F-15 (Boeing).

Mas o dobro não é muito? Dobro? A proposta de Nicolas Sarkozy a Lula é que o Brasil pague o mesmo que a Aeronáutica e Marinha francesa pagaram pelo Rafale – a única referência de preço pago Rafale até hoje. Ou seja, entre 64 e 70 milhões de euros. O preço está documentado no Livre Blanc, no Senado francês. No entanto, estima-se que o Rafale vai custar em torno 96 milhões de euros para o contribuinte brasileiro.

Portanto, a diferença de preço não está na concorrência indiana cujos dados são vagos, mas entre o que a França pagou e o que o Brasil irá pagar. Ou seja, entre a promessa de Sarkozy e a conta da Dassault. Adicione à equação o elemento que não mudou, o Rafale é mais caro que os seus dois outros concorrentes, o F-18 Super Hornet e o Gripen NG.

Por Antonio Ribeiro

19/01/2010

às 19:36 \ Brasil-França

Nem terremoto abala o antiamericanismo

antiamericanismo

Nicolas Sarkozy, finalmente, deu um basta à cantilena mais recente do coro formado por integrantes do seu governo. Em uma bizarra parceria estratégica com os colegas brasileiros, autoridades francesas vinham intercalando declarações contra a ação dos Estados Unidos na missão humanitária em favor do Haiti, depois do terremoto, responsável pela morte de, no mínimo, 100.000 pessoas e devastação sem precedente na capital da miséria nas Américas.

Se Celso Amorim sugeriu que o controle do espaço aéreo pelos americanos estava dificultando os pousos de aviões militares brasileiros em Porto Príncipe, o francês Alain Joyandet, secretário de estado encarregado da Cooperação Internacional e Francofonia, achou mais adequado admoestar o governo Barack Obama. “A missão é para ajudar e não ocupar o Haiti”, contribuiu no vasto sermonário francês que obstina em balizar a diplomacia mundial.

Até esta manhã, Sarkozy fez como quem não viu uma da mais inoportunas e enciumadas manifestações de antiamericanismo oficial. Sua mudança de curso materializou-se durante viagem à ilha da Reunião, território ultramarino francês. O presidente da França enalteceu a “excepcional mobilização pelo Haiti” do governo Obama, o “papel essencial” das tropas americanas e declarou sem perder a medida que imagina  ter a sua estatura: “Estou inteiramente satisfeito com a cooperação de Washington.”

O antiamericanismo francês, muitas vezes, de traços caricatos, não explica tudo. Sob o ponto de vista diplomático, qualquer país que tentar sobrepor a França em matéria de ajuda humanitária – imensa reserva moral – será considerado concorrente direto ao brilho gálico. Já há muito que a França não tem condições de impor-se como potência militar e econômica no cenário mundial. Restou a “nobreza” de converter-se em uma de espécie de Cruz Vermelha avantajada pelo formidável apoio do estado, das finanças e do dispositivo militar.

Quando os Estado Unidos empenham-se em policiar o planeta, não estão fazendo nada além da sua obrigação, pensam os franceses. Segundo o juízo local, quando o governo Bush demora no socorro às vítimas do furacão Katrina, até se admite. Afinal, os americanos são insensíveis. Desbloquear 100 milhões de dólares para as vítimas e reconstrução do terremoto? Vá lá, eles são ricos. O problema é enviar 20.000 soldados com objetivo de não dar sequer um tiro. Inadmissível a chegada de um porta-aviões com 20 helicópteros para não lançar um mísero míssil. Que diabo de comportamento é este?

Mas as explicações começam a emergir à beira do Sena. A 1.200 quilômetros de distância da Flórida, o efeito do terremoto poderá causar uma onda de refugiados, dizem. Os EUA estariam no Haiti para conter o êxodo dos aflitos. Outra razão seria a incontida compulsão intervencionista americana nos momentos de instabilidade na Hispaniola.  Destino preferencial da diáspora insular, os EUA estariam agindo sob a pressão dos 300.000 eleitores americanos de origem haitiana e de eventual revolta dos mais de 150.000  ilegais. Por último – não poderia faltar – trata-se de excelente oportunidade de se colocar em prática a “doutrina Obama”. Pronto.

Definitivamente, Asterix tem razão: “Os romanos são uns neuróticos”

Por Antonio Ribeiro

15/01/2010

às 9:08 \ Brasil-França

Quanto custa um Rafale?

livro-brancoO leitor Alberto Semer escreveu ao blog De Paris:

Conhecendo a ética e a moral do Lula e do PT pergunto:

1) Como saber se não há superfaturamento nos preços dos caças, uma vez que, nunca antes na história deste planeta, salvo a França, ninguém comprou um caça Rafale?

2) Quem está levando a comissão dessa venda?

Resposta:

Caro Alberto,

A única referência do preço é o que a França pagou para Dassault, fabricante do Rafale. Sarkozy prometeu a Lula que o preço do Rafale para o contribuinte brasileiro seria equivalente ao pago pela Força Aérea e Marinha francesa. Diretores da Dassault disseram a Veja.com que o caça seria mais barato para o Brasil porque não há o custo de desenvolvimento do avião, ele já esta pronto para operar.

Segundo dados do Livre blanc, que trata do orçamento militar da França, o Senado francês informa que a França pagou entre 64 e 70 milhões de euros (a unidade) dependendo da versão do Rafale. O Rafale para Marinha, por exemplo, é mais caro. O caça deve pousar em porta-aviões o que requer um trem de pouso especial, reforçado. Não é o tipo de avião do projeto FX-2.

Porém, estima-se que cada avião de combate francês custará 96 milhões de euros para o contribuinte brasileiro.

Por dedução lógica, comissões – e segundo a legislação francesa, elas podem fazer parte do negócio se respeitar certos critérios – são pagas a quem facilita e decide a compra.

De Paris, um abraço

Por Antonio Ribeiro

13/01/2010

às 8:41 \ Brasil-França

O idílio do Monde

Sermão da Aves: "Escutem a palavra de Deu e fiquem silenciosas enquanto eu falo."

Sermão da Aves: "Escutem a palavra de Deu e fiquem silenciosas enquanto eu falo."

No fim do ano passado, o vespertino francês Le Monde elegeu Lula, “Homem do Ano”. Foi a primeira vez que o jornal encampou no seu formato berliner a idéia dos editores da revista TIME nos anos 20 do século passado. Um leitor do blog De Paris perguntou: “Você não vai escrever nada?” A resposta foi sucinta: “Nem uma vírgula.”

O jornal tem tentado sem sucesso diversas fórmulas para conter sucessiva perda de leitores durante quase uma década. Em 2001, a tiragem do Monde era de 406.000 exemplares diários. Hoje ela gira em torno de 320.000. O vespertino francês não conseguiu um centavo de euro de lucro durante o mesmo período. Monumento da imprensa francesa – 64 anos de existência – acumulou uma dívida de mais de 160 milhões de euros.

Em desesperada tentativa de capturar leitores, o Monde focou sua principal estratégia em um público tradicionalmente fiel, agora em debandada, os leitores que apreciam as idéias da esquerda. Existe um notável temor de desagradá-los e desmedido esforço para adular, sonegando análise objetiva de figuras supostamente queridas — método mais próximo dos panfletos e longe da respeitável reputação estabelecida pelo Monde.

Entretanto, não há uma figura de proa no Partido Socialista francês, letárgico desde a eliminação do ex-primeiro-ministro Lionel Jospin no primeiro turno das eleições presidenciais de 2001. Nem com a maior boa vontade cairia bem escolher, digamos, um François Hollande, Homem do Ano. Mas a escolha poderia ser um líder da esquerda européia, não é? Poderia. Sucede que o produto está em falta. No Velho Continente, tampouco existe um político de esquerda cativante para ser louvado com alguma credibilidade. O campo dos pensadores de gauche é um vasto deserto de homens e idéias.

É neste contexto que o Monde escolheu Lula, o seu Homem do Ano, uma espécie de “Lula de cinema”. Uma opção, sobretudo, de caráter marqueteira. Na França, o mito do menino pobre, do operário que chegou a presidência não sofreu o desgaste dos casos de corrupção, da leniência com a ilegalidade nem as com as frequentes declarações estapafúrdias tão ao gosto de Lula.

O Monde não anda interessado em desmistificação  ou acha que não é boa hora. A edição com data de hoje, é um exemplo clássico. Na página 2, vai uma análise de 5.343 caracteres com espaço, cujo título é As esquerdas na América Latina confrontadas com a corrupção. O autor começa com o casal Kirchner, na Argentina, dá um pulo na Venezuela de Hugo Chaves, passa pela Bolívia e no penúltimo parágrafo, desembarca no Brasil. Ali, dedica minguados 619 caracteres e conclui o arrazoado.

O mais curioso é o conteúdo do parágrafo único. Reparem com que rapidez o autor passa pelo caso do mensalão, apenas um trampolim para mergulhar em José Sarney, “antigo líder do grupo parlamentar governamental durante a ditadura militar” e aí, nada de braçadas. Aqui está a tradução:

“No Brasil, ao escândalo do mensalão (2005) – as mensalidades pagas a parlamentares aliados ao partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – veio se acrescentar, em 2009, o caso do presidente do Senado, José Sarney, pego com a boca na botija em casos de nepotismo, de empregos fantasmas e outras indelicadezas. Antigo líder do grupo parlamentar governamental durante a ditadura militar (1964-1985), em seguida primeiro presidente civil devido a morte de Tancredo Neves antes da posse, José Sarney está à frente de uma verdadeira máfia familiar no Maranhão (Nordeste). O presidente Lula o poupou em nome da coesão da coalizão governamental, quando ele representa o que há de pior na classe política.”

Concede-se: um só paragrafo sobre o Brasil em texto a respeito da corrupção nos governos de esquerda da America Latina é quase tão alvissareiro quanto a eleição de Homem do Ano.

Semana passada, na saída do seminário “Novo Mundo, Novo Capitalismo”, na capital francesa, o blog De Paris peguntou ao ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, se ele considerava a relação estratégica com a França mais importante do que licitação e parecer técnico do Copac no caso da compra dos Rafale . A resposta foi para as primeiras páginas do jornais brasileiros. Aquela premissa do “barato sai caro”. Amorim nos sugeriu leitura de um texto no Monde Diplomatique, publicação mensal a qual o Le Monde é proprietário majoritário. “Ele trata do complexo de vira-lata.” Perguntei: “O Monde Diplomatique é uma referência, ministro?” “É uma, sou pela pluralidade”, disse ele.

Acolhemos a dica do ministro, como não? O artigo foi lido. Ele está aqui. Mas fomos um pouquinho mais longe, achamos a autora, Lamia Oualalou, que chancela as idéias do ministro. Samba!, o blog dela está aqui. O barato, fica a seu juízo, caro leitor.

Por Antonio Ribeiro

10/01/2010

às 17:49 \ Brasil-França

Ares de maracutaia

maracutaia

O leitor deste blog sabe. A compra de 36 caças Rafale, fabricados pela francesa Dassault Aviation, para substituir os modelos obsoletos da Força Aérea Brasileira (FAB), está decidida e sacramentada desde julho de 2009. Lula, quem decide, manifestou a escolha por três vezes. Nos últimos 6 meses, acompanhou-se um jogo de cartas marcadas. Veio junto a tentativa oficial, primitiva e enfadonha, de manter aparências do que nunca foi uma licitação pública.

A questão mais interessante agora não é qual será o avião de combate do projeto FX-2, mas por que Lula escolheu o Rafale?

O governo deixa entender tratar-se de escolha política do executivo. É verdade. Justifica a opção como parte de celebrada parceria estratégica com a França cuja estampa mais colorida é manifesto anti-americanismo e na qual, envolve a compra de helicópteros, submarinos convencionais e o casco do primeiro deles de fabricação nacional à propulsão nuclear. Em horizonte mais distante, cogita-se também a construção de um porta-aviões com caças Rafale equipados de trens de pouso reforçados e por que não, perguntam eles, a substituição dos 120 caças restantes da FAB, uma vez que o avião de combate francês se presta ao serviço. O Rafale foi projetado para o desempenho de multiplas funções.

Em contrapartida ao maior gasto da história militar do país e o mais longo, 10 bilhões de reais a serem pagos durante 7 mandatos presidenciais, a França seria forte aliada às ambições brasileiras nos foros internacionais, em questões financeiras, comerciais, de segurança e ambientais. A cereja em cima do bolo proposto na bandeja francesa é o apoio à velha reivindicação brasileira de uma cadeira verde amarela e cativa no Conselho de Segurança da ONU – custa apenas retórica e mais zero euro.

A moeda de troca francesa lembra o queijo camembert – duro por fora e mole no interior – é de difícil aferição, mas sobretudo, tem valor incerto. A transação dos Rafale seria como se  decidissem comprar um apartamento à beira-mar do vizinho onde o preço do imóvel é mero detalhe e a motivação da aquisição estaria baseada na promessa de que, sempre que houvesse uma disputa na reunião de condomínio, o vendedor faria campanha para o voto no lado do comprador.

Portanto, não é por acaso que o governo Lula reforça a argumentação em favor dos franceses evidenciando a transferência de tecnologias críticas, aspecto da concorrência, no qual os felizardos eleitos por antecipação seriam os melhores candidatos. Infla-se o peito quando referem à entrega do código fonte, o cérebro do caça francês, mas há silêncio absoluto sobre o motor do avião. O Brasil não receberá nem o desenho de parafuso, porca ou ruela que integra o sistema de propulsão do Rafale, o M88 fabricado pela francesa Snecma. Sabe-se que existem mais países que possuem a bomba atômica do que aqueles que fabricam motores de aeronaves de combate.

Causa bastante estranheza o resultado de uma licitação ser anunciado antes da hora. É sem dúvida muito pouco convencional encomendar parecer técnico a quem realmente entende – e que será o usuário final – para depois considerar o estudo mero aspecto cosmético. Pior: exigir alterações no relatório para não causar constrangimentos. Se a opinião da FAB não tem influência, por que ela foi consultada? Se uma avaliação não hierarquiza os concorrentes em uma licitação, para que ela serve? Chamaram a FAB para participar do processo à condição de que os brigadeiros sonegassem a sua opinião a quem vai pagar a conta, o contribuinte brasileiro. Perguntem se a França compraria do Brasil  sequer um cartucho de carabina para caçar esquilos em gramado de base aérea sem o aval de seus militares?

Adicione a prática frequênte — e regulamentada pela legislação! — de pagamentos de comissões pelo governo francês para facilitar a venda de seus armamentos. O Rafale está exposto na prateleira há mais de uma década; salvo a França, onde é fabricado, não foi comprado por ninguém. O Brasil inicia ano eleitoral, época em que os partidos políticos procuram melhorar a tesouraria. Pode até ser uma dessas raríssimas exceções da história onde procedimentos pouco ortodoxos e a falta de transparência esconde um processo lícito. Mas desta vez, ninguém pode ser cobrado por tomar emprestado um termo sonoro do colorido vocabulário lulês. A licitação dos caças para FAB não é só um “fechem o bico, quem manda sou eu”, ela tem ares de maracutaia.”

PS – A quem se interessar pelo assunto, sugiro ler o postA conta por favor

Por Antonio Ribeiro

14/11/2009

às 10:22 \ Brasil-França

Amigos de infância

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Lula e Sarkozy, já foi escrito aqui, tornaram-se amigos de infância. A França que não se dá tão bem como gostaria com nenhum país emergente, encontrou o Brasil dando sopa. O Brasil, cuja diplomacia de Celso Amorim crê precisar de um apoio moral nas questões discutidas nos foros internacionais, descobriu a França pronta para negociar sua caução.

A relação de interesses entre os dois governos lembra certas irresistíveis paixões proibidas. É tão atrativa que não anda respeitando nem calendário de licitações públicas. O caso da compra dos Rafale, a preferência de Lula, três vezes publicamente declarada. Ou alguém ainda acredita nos entediosos relatos de que a FAB terá 36 aviões que não sejam aqueles fabricados pela francesa Dassault? (Jornalismo não é previsão do futuro, mas tampouco  é mostrar-se cego às evidências. Quem vem dizendo que a escolha esta feita desde julho? O blog De Paris e ninguém mais.)

Não surpreende a escala hoje de Lula em Paris a caminho de Roma, onde acontece reunião da FAO sobre segurança alimentar – é questão a redução dos subsídios agrícolas, domínio que a França é campeã. Os presidentes querem fechar posição comum, como tem acontecido nas vésperas das reuniões de cúpula, para a Conferência do Clima em Copenhague, daqui a três semanas.

É uma coreografia complexa desta vez. O Brasil, o quarto maior emissor de gazes responsáveis pelo efeito estufa e que acaba de propor uma redução voluntária de até 38,9%  no  horizonte do ano 2020, o que significa de 975 milhões a 1,05 bilhão de CO2 na atmosfera, quer que os países industrializados ajudem os emergentes a financiar o esforço. A União Européia fixou uma ajuda anual de 100 milhões de euros aos países pobres entre 2013 e 2020, mas até agora ninguém colocou dinheiro à mesa ou a mão no bolso.

Por Antonio Ribeiro

22/10/2009

às 12:02 \ Brasil-França

36 Rafale = 1/3 do Rio 2016

custo-do-rafale

A questão não é se o Brasil precisa de caças, mas quanto paga pelo que precisa? Os 36 Rafale fabricados pela francesa Dassault Aviation vão custar para o bolso do contibuinte brasileiro em torno de 5,5 bilhões de euros, a quantia equivale à um terço do orçamento total previsto para ser gasto com as obras do Rio 2016.

Por Antonio Ribeiro

 

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