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19/12/2011

às 13:56 \ Asia

O choro obrigatório

O norte-coreano aprende desde a tenra idade um curioso mecanismo de defesa ou mesmo, em última instância, de sobrevivência. Assim como, quando se inicia uma troca de tiros,  pego de surpresa, o indivíduo mais precavido se joga ao chão para evitar ser ferido por projétil. Trata-se da capacidade fenomenal de, na aproximação de uma câmera, engenhoca associada a coercitiva máquina de propaganda ditatorial, começar a chorar copiosamente sem motivo sincero. O sorriso falso também faz parte da mesma categoria, mas sua execução exige bem menos do que verter lágrimas forçadas.

Talvez a reação instintiva do norte-coreano seja a reprodução mais fiel da Síndrome de Pavlov em escala coletiva na asiática península Han. Entretanto, o choro obrigatório, seguido a morte do tirano Kim Jong-Il, é com certeza um dos exemplos mais emblemáticos do dano infligido pelas ditaduras nos sentimentos genuínos e íntimos do indivíduo. Nem ficar impassível quando pode haver razão legítima de contentamento é permitido sem que isso signifique escapar de inexorável punição. A ausência do choro no desaparecimento do “Estimado Líder” é malvisto e suspeito. Faz se necessário chorar e de preferência de maneira histérica com gestos que tentam exprimir a dor incontrolável.  Subjugado pelo medo, o indivíduo torna-se uma especie de carpideira com recompensa que deveria ser desnecessária, a que o cidadão de uma sociedade saudável se beneficia de pleno direito. Ou seja, viver sem ser constrangido, importunado, intimidado, compelido pelo estado a não ser ele mesmo, mas sim um autômato.

O livro “Sussurros”, do autor inglês Orlando Figes, que investiga o território até então inexplorado das vidas privadas na Rússia durante os anos terríveis da ditadura stalinista, lista abusos da tirania na alma do indivíduo semelhantes aos que se observa na Coréia do Norte. Jung Chang descreve em “Cisnes Selvagens” procedimentos análogos na China de Mao Tsé-tung. Mas isso pode vir com o atenuante de pertencer ao passado. O espantoso na Coréia do Norte, o pais mais opressivo e totalitário do planeta, é a atualidade. O fenômeno acontece agora. Quem assistir as imagens do funerais de Kim Jong-Il poderá perguntar se não está vendo documentário de outros tempos. Isso nos remete a outra questão. Até quando vai durar esta sandice? Aparentemente, os norte-coreanos ainda tem boas razões para continuar chorando. Desta vez de forma facultativa, mas não pública.

Leia o post do Blog de Paris: “Jacques Chirac torna-se o primeiro presidente eleito da França condenado por corrupção

Por Antonio Ribeiro

22/06/2009

às 18:44 \ Asia

A conta não fecha


Luis Inácio Lula  da Silva se outorgou, semana passada em Genebra, o posto de aiatolá tupiniquim, com declaração sobre as fraudes na eleição presidencial iraniana. “Não tem número, não tem prova. Por enquanto, é apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos.” Jenson Button da escuderia de F1 Brawn-Mercedes não teria sido mais rápido.

Agora há números. Há provas. Há mesmo mortes de quem não se rende ao roubo eleitoral. É o caso da jovem iraniana Neda Soltan assassinada pelas polícia da teocracia islamista persa. Um extenso estudo do respeitado think tank britânico dedicado à relações internacionais comparou os resultados das eleições iranianas de 2005 e 2009. O resultado é acachapante.

- Nas províncias de Mazandaran e Yazd, consideradas conservadoras, votaram mais de 100% dos eleitores registrados.

- Nos dados do interior do Irã não há correlação lógica entre o aumento de participação e os acréscimo dos votos a Mahmud Ahmadinejad. Eles invalidam a tese oficial de que os resultados do presidente se devem a uma votação oculta conservadora nunca antes detectada.

- Para aceitar os dados oficiais atribuídos a Ahmadineyad em um terço das  províncias seria necessário que este houvera logrado a totalidade do voto conservador conhecido, todos os votos centristas, a totalidade dos novos votantes e 44% dos votos reformistas.

- Em 2009, votaram 10,5 milhões de pessoas que não  fizeram em 2005. O estudo sustenta que é difícil pensar que a maioria deles eram conservadores que desta vez teriam votado massiçamente a favor de Ahmadineya

- O ex-presidente Akbar Rafsanjani, conseguiu 6,2 milhões de votos em 2005. Ele era um centrista e conservador pragmático. Naquelas eleições, mais de 10 milhões de eleitores votaram em candidatos reformistas. Este ano, Ahmadinejad teria conseguido 13 milhões de votos. Isto significa mais que a soma de todos os candidatos conservadores em 2005.

Um exemplo revelador do estudo da Chaptam House é a província de Azerbaiyan Leste. Lá os dados oficiais das eleições de 2005 foram os seguintes:

Ahmadinejad.: 198.417 votos

Ultraconservadores: 232.043

Rafsanjani: 268.965

Reformistas: 690.784

Os resultados de 2009 mostram Mahmud Ahmadinejad com 1.131.111 votos!

Por Antonio Ribeiro

16/06/2009

às 7:55 \ Asia

Lula pelos cotovelos


É questão ter havido fraudes na reeleição do presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad. Em Teerã, o líder supremo da teocracia islamista persa, o aiatolá Ali Khamenei, pediu investigação. Centenas de milhares de partidários do candidato derrotado Mir Hossein Mussavi desfilaram nas ruas da capital em protesto — 7 foram mortos pela polícia. Os 12 membros do Conselho dos Guardiões da Constituição, principal orgão legislativo do Irã, estão prontos para encetar a recontagem parcial dos votos.

Em Genebra, Luiz Inácio Lula da Silva foi no sentido contrário à prudência dos líderes europeus. Disse não haver evidencias de fraude. “Não tem número, não tem prova. Por enquanto, é apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos”, disse. Em seguida, o presidente adicionou que o Brasil deve ser amigo de todos os países. O Irã é um deles.

Contudo ser amigo do Irã significa verificar se o processo democrático foi lícito. Aliás, como deseja o aiatolá de turbante mais alto — ainda que seja para legitimar a fraude. É no mínimo respeito a lógica ou a tal amizade entre os povos na verdade constitui simples adulo ao presidente negacionista do Holocausto.

No fim das contas, a questão é iraniana. A posição de Lula não provocaria nenhum efeito colateral na diplomacia brasileira. E o Brasil parece tão acostumado a declarações desmedidas do “cara” que mais uma é apenas continuidade de bizarra tradição inconsequente. Sucede que houve também na cidade suíça romana à beira do lago Léman encontro entre Lula e Sarkozy.

Na conversa entre os dois presidentes, teria sido abordado as indenizações às famílias das 228 vítimas fatais do vôo AF 447. Lula saiu do almoço com Sarkozy afirmando que a França iria garantir o pagamento. Lorota prontamente desmentida pelo ministro dos Transportes francês e assessoria do Palácio do Elysée. Indenizações de acidentes de aviões, segundo a Convenção de Montreal de 1996, são de responsabilidade das companhias aéreas, seguradoras e eventualmente, do fabricante da aeronave.

O presidente brasileiro caminha altivo para consolidar no cenário internacional o que já é bem conhecido dos seus compatriotas. Ou seja, o valor de suas declarações coloridas, de tom jocoso e analogias pedestres, é igual a nada.

Por Antonio Ribeiro

18/05/2009

às 14:09 \ Asia

Onde está a imagem?

O Sri Lanka fica longe de Paris. Bem mais longe ainda do Brasil. No entanto, desde o início da ofensiva do governo local para a extremidade norte do país, controlada pelos Tigres de Libertação do Tamil Eelam (TLTE), o antigo Ceilão parece um vizinho. Isto pelas notícias dos jornais, TVs e na internet. Para este colunista, a capital Colombo parece ainda
mais perto do que é na verdade. Frequentemente converso com um amigo querido e saudoso que mora lá. Hoje, o governo clama ter vencido a guerra contra os rebeldes que já dura 26 anos e causou 80.000 mortes — a Índia gastou um bilhão de dólares e 10.000 soldados para forçar a paz nos anos 1980 e de lá, saiu escorraçada. Detalhe edificante: não há imagens da “vitória”. Aliás, como o governo proibiu a presença de jornalistas na região do conflito, até a notícia da “libertação” é difícil confirmar de forma independente. Mais importante: qual foi o custo em vidas entre população civil cuja maioria servia de escudo humano para os Tigres?

Na história contemporânea, a decisão de manter jornalistas longe das zonas de conflito teve origem na Guerra do Vietnam, a mais bem documentada de todos os tempos. Os militares americanos julgaram a facilidade de acesso — e suas consequências na opinião pública — mais determinantes no resultado da guerra do que a estratégia militar. Já no primeiro conflito importante depois do Vietnam em que os EUA participaram, a primeira Guerra do Golfo, o acesso dos jornalistas foi restrito. Lembra-me da brilhante jornalista Dorrit Harazim,  a época Chefe do Escritório da Editora Abril em Nova York, ter comprado uniformes do exercito americano para nós, enviados da revista VEJA, burlar o controle militar. Isto em um primeiro instante. A medida inédita tinha como objetivo chegar perto dos fatos para informar o leitor. De lá para cá, a coisa só piorou.

O lendário fotojornalista Don McCullin, de 74 anos, cobriu o início do conflito no Sri Lanka para o jornal inglês The Observer. Ele relata na edição de hoje do diário londrino Times que participou recentemente de um jantar com veteranos da Guerra das Falklands. Os milicos disseram-lhe o seguinte: “Sentimos sua falta, Don”. Não há imagens como as de Robert Capa no Dia D, nas praias da Normandia, ou as de Eugene Smith em Iwo Jima, para lembrar o que aconteceu nas Malvinas. Há enfadonhos registros visuais para ilustrar almanaques. No caso do Sri Lanka, não se trata de orgulho militar, a questão é, sobretudo, de outra ordem. A falta de imagens dá margem a suposição de que a censura do governo esconde um massacre, um crime de guerra, como já sustenta o tablóide francês Liberation, baseando em testemunhos de membros da ONG Médicos Sem Fronteiras.

Pode-se imputar na ausência de imagens e de notícias independentes a responsabilidade pela longa duração do conflito. Estima-se que
o mundo levou 20 anos para reconhecer os Tigres do Tamil como terroristas. Isto custou três décadas de atraso a um país com imensas potencialidades. É de autoria dos Tigres do Tamil a reinvenção moderna do terrorista suicida, método antigo dos zelotes contra a ocupação do Império Romano na Galiléia; da tribo árabe dos assassinos contra a invasão dos cruzados. Eles dispensavam o plano de fuga depois do crime, tal qualo no atentado das Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. O carro-bomba foi arma utilizada primeiro em Colombo. Muito antes da guerra civil no Líbano.

A cobra começa a morder sua extremidade. Se a presença de jornalistas nas zonas de conflitos pode ser incomoda, a ausência deles não garante credibilidade. É através do relato independente que os vencedores podem mostrar, claramente, ter algo melhor para oferecer do que os vencidos.

Por Antonio Ribeiro


 

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