
Em jogo de futebol no internato corretivo o
adolescente Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) repõe a bola em campo. O jogo
continua. Antoine dá as costas. Corre em direção a fenda do alambrado,
atravessa e escapa. Na fuga, ele elude o instrutor que o persegue. Continua
correndo pela paisagem rural até a praia. Antoine conhece a rígida educação
parental, típica da França nos anos 1950, mas não o mar — e a sensação do
imenso sem limites que ele provoca. Encharca os sapatos nas ondas e depois, olha para
câmera do seu alter ego, François Truffaut. Fim. Assim termina o longa-metragem
Os Incompreendidos
(Les Quatre Cents Coups). Assim começa a Nouvelle Vague.
A aventura efêmera de um bando de jovens
críticos da revista Cahiers du Cinéma convertidos em diretores que revolucionou a
sétima arte está comemorando seu cinquentenário no Festival de Cannes deste
ano, do dia 13 ao 24 de maio. A curta epopéia cinematográfica francesa deve
tudo ao libertino Éric Rohmer, ao polemista lírico Jean-Luc Godard e ao
romântico François Truffaut. E ao discípulo do mestre do suspense Alfred
Hitchcock, Claude Chabrol, autor de Nas Garras do Vício (Le Beau Serge) com Jean-Claude Brialy e do
primeiro sucesso comercial do movimento, Os Primos (Les Cousins). E também ao mais político do
grupo: Alain Resnais, diretor de Hirochima Meu amor (Hiroshima mon amour), baseado na obra da escritora
Marguerite Duras.
Ficou da Nouvelle Vague o mito de filmar, pela primeira vez,
livre das regras do cinema convencional e as de Hollywood, em particular. Mas sua contribuição foi, sobretudo, o talento de filmar as mulheres. Ou
de mostra-las, 24 quadros por segundo, como gostavam de vê-las. O caso de
Patrícia (Jean Seberg), jornaleira do Herald Tribune, em Acossado (À bout de souffle). E de falar de amor com prosa
cerebral para conquistá-las. Vide os diálogos de Michel Piccoli e Brigitte
Bardot tecidos por Alberto Moravia, adaptados em O Desprezo (Le mépris). Neste dominio, ninguém foi tão
bem sucedido na tela. Por conseguinte, também debaixo dos lençóis. A atriz
Bernadette Lafont, nas filmagens do curta Les Mistons, confidenciou a Truffaut: “Lembro de uma tarde
em que fomos ao cinema, não lembro do filme, mas da vontade de pegar na sua
mão, o turbilhão que sentia, o de estar ao seu lado no escuro.”
Antoine de Baecque sustenta em La Nouvelle
Vague, portrait d’une jeunesse (A Nouvelle Vague, retrato de uma juventude), publicado este mês, os
jovens cineastas como promotores de uma nova maneira de gostar da França,
diferente do país da boina e da baguete, do tradicional. Bem acolhida pelo
público, a Vague foi criticada à direita e à esquerda em um período que
precedeu grandes mudanças de comportamento e valores cujo símbolo maior foi o
movimento estudantil Maio de 68. De um lado, era criticada por não ser engajada
politicamente e do outro, de não ter nada a dizer. O roterista Michael Audiard,
ele mesmo pioneiro quando levou para o cinema as réplicas irreverentes e
rabugentas do parisiense comum, fez um julgamento bem ao seu estilo: “É mais
uma onda do que nova.”
Truffaut conta que “a máfia”, apelido do grupo
de cineastas, vivia em pleno sonho e euforia. Rohmer, o autor de O Signo de Leão (Le signe
du lion), lembra
que não viviam no senso próprio do termo. “A vida rolava na tela, tudo era
cinema” Godard cuidava da missão de rebater os críticos do movimento: “Vocês não
sabem fazer cinema porque não sabem mais o que ele é”. Para eles, o cinema era
eles. Recordes de bilheteria, a fama esmurrando a porta precocemente, belas
namoradas para escolher… A situação era, anormalmente, boa. Isto há 50 anos.
A celebração tem sentido.