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Arquivo da categoria ‘Américas’

“Falar em desaparecidos é eufemismo”

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 | 16:45

haiti1A sensibilidade, delicadeza e elegância é do ministro da Defesa, Nelson Jobim, em Porto Príncipe, capital do Haiti - imensa favela transformada pelo terremoto de efeito 35 vezes superior à bomba atômica de Hiroxima em campo de refugiados com milhares de mortos, moribundos, feridos, onde falta tudo e impera o sofrimento e o desespero.

E o ministro fez questão de esclarecer que “desaparecido é o termo técnico para corpos não encontrados”. Verborréia também é termo técnico.

Imaginem o que Vossa Excelência não diria nas horas graves em uma cadeira cativa verde e amarela do Conselho de Segurança da ONU.

Atualização: Os soldados das equipes de resgate de trinta países podem protocolar pedido canonização no Vaticano.  Basta apresentar no guichê da Santa Sé a premissa de Jobim e o seguinte: uma semana depois do terremoto no Haiti, eles conseguiram realizar mais de 100 vezes o milagre de Jesus, segundo os evangelistas, com Lázaro.

Por Antonio Ribeiro

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É o cara… de pau

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010 | 9:12

Pinocchio por Enrico Mazzanti

Pinocchio, o original, por Enrico Mazzanti

Depois de afirmar publicamente em três ocasiões diferentes a sua preferência pelo avião de combate francês Rafale na licitação do projeto FX-2, Lula pinoqueou o seguinte: “O único que ficou em silêncio até agora fui eu. E fiquei em silêncio porque tenho o poder de decidir e, quem tem o poder de decidir tem mais responsabilidade: não fala o que quer, fala o que pode.”

Embora não seja nenhuma novidade e mesmo muito frequente, o presidente se contradiz na forma e no conteúdo. Falou, mas disse ter ficado em silêncio. Falou o que quis e falou o que não deveria, contrariando com habitual desfaçatez a regra mais básica de uma licitação.

Lula não descarta levar a questão da compra para ser discutida no Congresso. Bem, se vale o que diz, desta vez, era onde tudo deveria ter começado. O maior gasto militar da história do Brasil merece, tal qual nas democracias dignas do nome, transparência e debate público entre os representantes de quem vai pagar a conta.

Por Antonio Ribeiro

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Culto à personalidade

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009 | 20:18

stalinlula2Do ponto de vista jornalístico, puramente técnico, um fato perde a relevância quando ele torna-se recorrente, corriqueiro. Informar não significa participar de um processo de comunicação, sobretudo, quando ele é propaganda oficial. Mas há algo pior. A ajuda ao culto à personalidade de um governante ainda que de forma inconsciente.

Os grandes jornais brasileiros ainda acham ser notícia quando Lula fala “merda”. Não é bem o palavrão na oratória do Presidente da República que espanta. É a frequência em que o presidente diz bobagens e que sua fala chula encontra destaque nas folhas do dia seguinte.

O Pravda, jornal oficial da União Soviética, tinha como missão primeira, cultivar a imagem de seus líderes. Se  Stalin passasse o dia dormindo, a manchete do dia seguinte poderia ser que o Pai da Pátria sonhou bom futuro para a federação comunista.

Em uma democracia não acontece assim. Mas Lula já percebeu que no Brasil, se tocado o nervo central, o sistema reage. Lula disse isso, Lula disse aquilo. E vamos comentar o que disse o Lula. Ele está nas mais irrelevantes questões. Onipresente indiscriminadamente, notícia ou não. Um sistemático automatismo pela ausência do devido recuo e  reflexão.

Um exemplo edificante com ampla ressonância. Lula diz: “Copenhague só vai ser o que vai ser porque o nosso querido país teve a coragem de, há um mês, apresentar as metas que apresentamos.” Além expressão megalomaníca fora do lugar, a afirmação é falsa e tem a importância de papo de botequim. Relevância mínima.

Muitas edições dos jornais britânicos circulam sem o nome do primeiro-ministo Gordon Brown na primeira página. Le Figaro e Le Monde fazem igual com Nicolas Sarkozy, conhecido por não perder a menor oportunidade de se mostrar. Nem Barack Obama, querido de grande parte da imprensa americana, recebe tanta “canja” quanto Lula. Não passa um só dia onde o nome do presidente brasileiro não esteja estampado no rosto dos jornais.

Não venham dizer que isso é coisa de gênio político. É apenas ocupação velhaca do espaço — e sempre sobre assunto na cirsta da onda — deixado por brutal falta de senso crítico, espírito livre e muitas vezes medo da patrulha que quando confrontada ou ignorada, revela sua real natureza, a de Tigre de Papel.

Em tempo: aqui não se fala palavrão. Não mesmo.

Por Antonio Ribeiro

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Identidade nacional II

sexta-feira, 13 de novembro de 2009 | 8:11

sarneyO presidente do Senado, José Saney, escreve hoje no jornal a Folha de São Paulo:

“Paro numa matéria que tem o instigante título “Ser francês é…”. É debate que está despertando grande rebuliço, comandado pelo ministro da Imigração, um discutido ex-socialista, Eric Besson, sobre a identidade de ser francês.

O debate prossegue, mas milhares de cidadãos nele já tomaram parte. Uns, de gozação, dizem que ser francês é cantar a Marselhesa; outro, que é “ser um cidadão livre e jamais cantar as estrofes infames e guerreiras da Marselhesa”. Mas, em grande parte, uma coisa perpassa em todos: o orgulho de uma França que tem a cultura como sua primeira preocupação.

E me deu a vontade de pensar numa enquete dessas no Brasil. Qual a identidade de ser brasileiro num mundo invadido pela globalização, em que a cultura erudita é importada em enlatados?”

(…)

Mas fico com receio de que, se alguém perguntar a um neto qual a identidade de ser brasileiro, ele responda: “É cantar o hino do Flamengo”.

Melhor enquete seria da polícia no Senado, invadido pelo nepotismo e corrupção, cujo  hino pode ser apreciado aqui.

Por Antonio Ribeiro

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A promessa perpétua concretiza

segunda-feira, 9 de novembro de 2009 | 9:04

apromessaperpetua

Se críticas fossem gotas de chuva, ao completar um ano de governo, Barack Obama estaria ensopado. Charles Krauthammer, colunista jornal Washington Post, uma das vozes mais ferinas do conservadorismo americano, por exemplo, dizia com escárnio que o presidente era o “Brasil” entre os políticos da sua geração. “Ele é o homem da promessa perpétua, obviamente, não realizou nada.” Nenhum presidente da história recente dos Estados Unidos foi tão prejulgado e julgado e em tão pouco tempo como Obama.

Certamente não aconteceu com George W. Bush cuja expectativa era baixa, continuou igual até o seu último dia na Casa Branca. Tampouco com o democrata Bill Clinton, eleito depois de três mandatos de governos republicanos sucessivos. Nem mesmo Ronald Reagam que assumiu a presidência proclamando que os EUA, finalmente, estavam amanhecendo. Pondera-se, os detratores de Obama atiram mais na sombra do alvo. Quer dizer, naquilo que os admiradores do presidente dizem que ele é sem que Obama tenha contribuído para formar a miragem.

Dadas as circunstâncias, o desempenho de Obama até agora não é ruim, mas falta muito a fazer. Ele acaba de marcar um ponto que no contexto da política americana, configura um divisor de águas no seu governo. E não só. Ao conseguir que o Congresso aprovasse uma drástica reforma no sistema de saúde com proteção quase universal para seus compatriotas, Obama fez em pouco mais de 12 meses o que seus colegas democratas não conseguiram realizar em 12 anos — um mandato de Jimmy Carter e dois de Clinton. A medida irá beneficiar 36 milhões de americanos sem seguro saúde ao custo de 1,1 trilhão de dólares em 10 anos - 7% do PIB americano. O financiamento do programa que alinha os EUA com as maiores economias do planeta virá de um aumento de 5% no Imposto de Renda de famílias que ganham mais de 1 milhão de dólares por ano e de indivíduos que sozinhos, ganham metade do montante. As empresas que não inscreverem seus empregados no novo plano de saúde estatal pagarão multa pesada, equivalente a 8% da folha de pagamento.

Evidente que haverá quem ache algum jeito de minimizar a realização efetiva da mais importante e ambiciosa promessa da campanha presidencial de Obama, um projeto acalentado durante décadas pelo Partido Democrata e nunca concretizado. Qual a graça da democracia se não permitisse o contraditório? Seria algo como a voz do trono, “eu falo, vocês escutam calados.” Uma cirurgia cardíaca pode custar 130.000 dólares nos EUA. A operação equivalente em Singapura sai por 18.000 dólares ou 10.000, na Índia. Estima-se que entre 70.000 a 75.000 americanos foram se tratar no estrangeiro no ano passado. Isso claro, os que podem pagar o chamado “turismo médico”.

Durante o tempo torrencial, houve quem viu no escuro. Bill Emmott, ex-editor chefe da revista The Economist, responsável pelo sucesso internacional de uma instituição da imprensa britânica, previu no diário londrino The Times, prematuras as críticas a Obama. Segundo ele, Obama tem duas características vitais capazes de fazer a história colocar os presidentes americanos no alto da prateleira. “Uma é resiliência”, escreveu ele. “A capacidade de ricochetear na adversidade e parecer seguro enquanto contra-ataca. Clinton tinha essa qualidade e Reagan também; Carter não.”

A outra capacidade é a de sustentar várias frentes de uma vez só sem diminuir o esforço e ou criar confusão. Enquanto vende seu plano de saúde que carece ainda de aprovação final no Senado, o governo Obama promove novas regulamentações no sistema financeiro e propostas para reduzir os efeitos das mudanças climáticas no planeta. A guerra contra o Talibã no Afeganistão ainda está no atoleiro; as ameaças nucleares do Irã e Coréia do Norte não desapareceram; o incentivo à resolução do conflito Israelo-Palestino ainda estão em ponto morto. Em casa, no entanto, Obama resumiu a situação depois da vitória apertada no Congresso (220 votos contra 215): “Este é o meu melhor momento na vida pública, ele explica por que fomos eleitos.”

Por Antonio Ribeiro

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Uma linha

quarta-feira, 30 de setembro de 2009 | 16:54

Democracias garantem ao acusado, o contraditório, a defesa e a igualdade de partes.

Por Antonio Ribeiro

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A letra fria da lei

terça-feira, 29 de setembro de 2009 | 9:32

constituicao-de-hondurasDa Constituição hondurenha:

“O cidadão que tenha ocupado o Poder Executivo não poderá ser presidente ou indicado. Quem transgredir a disposição ou propuser reformá-la, assim como aqueles que o apoiarem, direta ou indiretamente, cessarão de exercer de imediato seus respectivos cargos. Os infratores ficarão proibidos durante dez anos de exercer qualquer função pública.” (Foi o que fez Manuel Zelaya.)

“Nenhum hondurenho poderá ser expatriado nem entregue pelas autoridades a um Estado estrangeiro”. (Foi o que fez o governo interino.)

polichineloResumo da ópera-bufa: o polichinelo capaz de presuadir a existência de santo na história recente de Honduras, tem lugar garantido de contorcionista no picadeiro do Cirque du Soleil. Foi bem por isso que escrevemos aqui : “Chamar hondurenho de golpista é fácil.” (O que fazem Lula e Celso Amorim). Chamar Cuba pelo nome, de ditadura, o que é  também fato inquestionável, eles não tem coragem.

Por Antonio Ribeiro

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Filme velho

segunda-feira, 28 de setembro de 2009 | 15:03

Quem paga uma lempira para ver de novo?

Quem paga uma lempira para ver de novo?

A França, velha democracia, também tem como Honduras, um abracadabra constitucional que permite colocar o país em estado de sítio do dia para noite. É o famoso Artigo 16 do título que trata dos poderes do presidente da República. Detalhe edificante: nunca foi usado. Nem nos momentos mais graves.

O Artigo 16 data da Constituição de 1958 que inaugurou a V República francesa, vigente até hoje. Na época, o presidente da França era o general Charles de Gaulle. Seu principal opositor, o ex-presidente socialista François Mitterrand dizia, nos momentos oportunos e nos outros, que  presença do Artigo 16 na Constituição deixava a França sob ameaça permanente de um golpe de estado.

Bem, em 1981, Mitterrand assumiu o poder e governou a França durante 14 anos. Os dois mandatos de 7 anos fizeram dele o presidente francês mais longevo da história republicana francesa. Detalhe edificante: Mitterrand  deixou o Artigo 16 tal qual como o encontrou. O ex-presidentes Jacques Chirac, durante dois mandatos, e o atual, Nicolas Sarkozy, até ontem, jamais cogitaram abolir o artigo. Ele continua intacto como os arsenais nucleares da force de frappe, existe para persuadir respeito.

A tradição das velhas democracias européias demonstra que não se abre mão das instituições para governar nos momentos graves. Elas são aliadas na defesa do estado de direito. A Itália nunca aboliu a democracia para vencer o terrorismo das Brigadas Vermelhas. A Inglaterra sofreu frequentes atentados IRA irlandês, sempre na democracia. O grupo terrorista comunista Baader-Meinhof foi vencido na antiga Alemanha Ocidental sem que os cidadãos perdessem seus direitos individuais.

Estado de sitio, regime de exceção é característico das republiquetas de banana tal como Honduras, o pinico onde o governo Lula anda afogando a diplomacia brasileira.

Abaixo o Artigo 16 da Constituição francesa :

Lorsque les institutions de la République, l’indépendance de la nation, l’intégrité de son territoire ou l’exécution de ses engagements internationaux sont menacés d’une manière grave et immédiate et que le fonctionnement régulier des pouvoirs publics constitutionnels est interrompu, le Président de la République prend les mesures exigées par ces circonstances, après consultation officielle du Premier ministre, des présidents des assemblées ainsi que du Conseil constitutionnel.

Il en informe la nation par un message.

Ces mesures doivent être inspirées par la volonté d’assurer aux pouvoirs publics constitutionnels, dans les moindres délais, les moyens d’accomplir leur mission. Le Conseil constitutionnel est consulté à leur sujet.

Le Parlement se réunit de plein droit.

L’Assemblée nationale ne peut être dissoute pendant l’exercice des pouvoirs exceptionnels.

Por Antonio Ribeiro

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O Globo de hoje com título do blog… de ontem

quarta-feira, 23 de setembro de 2009 | 7:05
Em berço nasceu em Paris e cresceu no Rio

Em berço esplêndido nasceu em Paris e cresceu no Rio

Hino Nacional

Letra: Osório Duque Estrada

Música: Francisco Manoel da Silva

(…)

Deitado eternamente em berço esplêndido

Ao som do mar e à luz do céu profundo,

Fulguras, ó Brasil, florão da América,

Iluminado ao sol do Novo Mundo!

(…)

Por Antonio Ribeiro

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Chamar hondurenho de golpista é fácil

terça-feira, 22 de setembro de 2009 | 17:05
Meu herói

Meu herói na lente de Ricardo Stukert

O duro é dizer a seguinte evidência, em público: “Cuba é uma ditadura.” Faça o teste. É prova de fogo. Não dizem. Nem Lula nem Amorim nem a entourage. E o diplomata do Itamaraty que disser, coloca a cabeça a prêmio.

Por Antonio Ribeiro

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