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27/11/2009

às 12:38 \ Paris

A bela adormecida

Fechada: vá a capital ao lado

Fechado: Favor ir à capital ao lado

O apagão ainda não chegou a Cidade Luz. No entanto, depois das 23h, Paris toma um tiro mortal. A vida noturna apagada da capital que mais recebe turistas no mundo, menos animada do que Berlim, Londres, Amsterdam ou Barcelona, está criando fama oposta ao famoso mote da canção New York, NewYork, hino popular da metrópole americana de mesmo nome. Agora dizem: “Paris, a cidade que dorme sempre.”

Houve um tempo em que Paris era considerada o paraíso dos boêmios. Isto porque os lugares para varar a noite até o momento quando a cidade é ainda mais esplendorosa – o lusco-fusco brilhante do amanhecer – permaneciam abertos.  Hoje, as autorizações para um estabelecimento funcionar além das 2 horas da madrugada  passam por fino conta-gotas da administração municipal. Outrora, o comportamento nos interiores e proximidades dos estabelecimentos era sujeito a regras menos restritas.

Conter o ruído em uma cidade onde a maioria das construções datam de outros séculos, quando não é impraticável, custa uma dinheirama. A vizinhança residencial recorre com frequência à intervenção policial quando sente-se incomodada pelo barulho. A lei antitabagista, em vigor desde 2008, proibindo fumar nos interiores de lugares públicos  aumentou o problema. Doravante, em frente as casas noturnas, a reunião de animados grupos de fumantes faz parte da paisagem. O dono do Batofar, um barco convertido a bar com shows de música às margens do rio Sena, foi responsabilizado judicialmente por uma briga entre seus clientes a 150 metros do ancoradouro.

A crise econômica reduziu o poder aquisitivo dos franceses. A curva da frequência de bares, restaurantes e discotecas deu um mergulho. Mas é a legislação rigorosa, uma enleada burocracia, que tem causado multas pesadas e a suspensão temporária de licenças que podem chegar até o fechamento definitivo. É o caso da eletrizante boate La Loco, vizinha ao Moulin Rouge, em Pigalle, a região da capital francesa onde a noite é mais festiva. Adicione-se que o metrô, o transporte público mais utilizados pelos parisienses para de circular à 1 hora da madrugada – nos fim de semana opera até às 2h.

No caso dos restaurantes, leis trabalhistas arcaicas como a limitação da jornada de trabalho de 35 horas, tornou à prática de horas extras proibitivas pelo alto custos dos encargos sociais. Os proprietários preferem ir dormir cedo do que contratar. Caso clássico de perda de oportunidade para criação de riqueza. Quem acometido de fome e sede tardia, já não enfrentou a rota do calvário em Paris, indo de porta em porta e ao entrar, recebeu o “Desolé, a cozinha fechou”? Resposta em francês, inglês e português: une poignée, happy few, meia dúzia de gatos pingados.

Um coletivo que tira seu sustento do divertimento noturno criou a campanha “Paris: quando a noite morre em silêncio”. Os organizadores clamam por abrandamento no quadro jurídico. “Qual o sentido de uma lei de saúde pública que no final, impede as pessoas de dançar?”, perguntam eles. Parte da iniciativa é uma petição na internet que já colheu mais de 12.000 assinaturas favoráveis.

Preocupado em desmistificar a imagem de que a sua cidade está se tornando um verdadeiro museu noturno, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, mandou seu secretário de Turismo, Jean-Bernard Bros, criar um site oficial na internet listando as atrações da noite em Paris. Nos últimos anos, a prefeitura tem promoveu também, sem muito sucesso, a Nuit Blanche (Noite ao Claro), onde acontecem várias manifestações artísticas exclusivamente durante uma madrugada.

No fim dos anos 60, o notívago cantor francês Jacques Dutronc fazia a França cantar o cenário da hora em que ele ia dormir, quando as estrelas do striptease vestiam-se, quando os amorosos estavam cansados da noitada, Il est cinq heures Paris s’eveille (São cinco horas Paris acorda). Hoje, o filho Thomas Dutronc faz sucesso com a canção J’Aime Plus Paris (Eu não amo mais Paris).

Por Antonio Ribeiro
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14 Comentários

  1. Milena Popovic

    -

    30/11/2009 às 7:38

    O comentário de Claudia Alexandra me fez lembrar de quando passei um dia em Barcelona e fui a uma ópera no Liceu. Ao sair, à meia-noite, da ópera, La Rambla estava simplesmente “bombando”, como se diz por aí. Detalhe importante: “bombando” muito civilizadamente. Até barraquinhas de flores estavam funcionando.

    Um ano antes, ao sair às 23h de uma ópera em Paris, tive a impressão de estar na noite de São José dos Campos…

    Tudo bem, foi maldade minha. Mas que, agora, olhando pra trás, tenho essa impressão, aaaaaah, isso tenho.

    Mas o tédio em Paris foi só noturno. Porque, aqui em SJC, ele continua durante o dia…

  2. Fernando Greco

    -

    29/11/2009 às 16:32

    A população de Paris é velha, e velhos não gostam de barulho além de dormir cedo.

  3. Antonio Ribeiro, de Paris

    -

    29/11/2009 às 12:25

    Caro José,

    Entendo sua confusão, o título da canção causa ambiguidade mesmo.

    Em francês, o correto seria Je n’Aime Plus Paris. Ou seja, nem o título da canção nem a correção que você sugere. Sucede que o autor escolheu o coloquial, mais especificamente, o chamado parigo, a linguagem de rua dos parisienses. Eles falam assim mesmo, sem a dupla negativa que a sintaxe exige: “J’aime plus”. Repare que o título acompanha a letra da canção, inteiramente negativa em relação à Paris. A tradução no post esta certa.

    E J’aime plus cai melhor na melodia. Em uma entrevista que fizemos para VEJA com Charles Aznavour, tremendo letrista, ele constata a dificuldade de transpor frases do francês para o ritmo do jazz, por exemplo. As frases são muito longas. No entanto, não há idioma capaz de expressar tão bem coisas subjetivas quanto o francês.

    Em tempo: o correto é n’aime e não ne aime.

    De Paris, um abraço

    Antonio Ribeiro

  4. José Olímpio

    -

    29/11/2009 às 9:39

    Caro Antonio Ribeiro,

    J Aime Plus Paris quer dizer Eu amo mais Paris. Se a tradução fosse Eu não amo mais Paris, como você escreveu, o correto seria em francês Je ne aime pas Paris.

    A propósito, viva Paris!

    José Olímpio

  5. Antonio Ribeiro, de Paris

    -

    27/11/2009 às 18:13

    Claudio,
    Caríssimo,

    Eu não sou tão jovem para saber tudo mas, receio que Paris é a capital de Honduras, país onde está sendo desenhado o destino da humanidade.

    Seu comentário, um dos melhores desde a criação do blog, lembra-me um amigo diplomata zombeteiro que perguntava ao colega alentejano: “Onde é esse Portugal que vocês falam tanto?”

    De Neverland, um abraço com pirlimpimpim

    Peter Pan

  6. Claudio Flores

    -

    27/11/2009 às 17:46

    Onde fica Paris?

  7. Claudia Alexandra

    -

    27/11/2009 às 17:20

    Até a noite no Bairo Alto, em Lisboa, está mais animada que a de Paris. Na capital da França tem glamour, mas o agito está na Espanha e em Portugal.

    Na Europa latina, o eixo Lisboa-Madri é o que há.

    Beijos

  8. Mateus Lima

    -

    27/11/2009 às 16:45

    A França virou um país arcaico e a esquerda da Europa. Aí se pensa que o densenvolvimento só vem com a ajuda do governo e com a desculpa de preservar a história ou a cultura local. Os franceses tornaram-se o povo mais atrasado da Europa Ocidental.

  9. Francisco Eloi dos Santos

    -

    27/11/2009 às 15:32

    Uma pena, afinal é a Cidade Luz. Em maio deste ano, passei um mês aí. Notei que depois das 23h, a cidade começa ir dormir. O governo pode mudar isso criando zonas de mais tolerância que facilitam a frequência de franceses e turistas pela noite adentro. Talvez revitalizando, promovendo cultura nos lugares tradicionais e apoiando o surgimento de outros. Todavia, ficar disputando quem dorme mais tarde é bobagem. Uma cidade com a fama e a tradição de Paris, deve ter locais que funcionam até a madrugada, como Belo Horizonte, Brasília, São Paulo, Rio, Salvador…

    Francisco Eloi dos Santos

    Ps – É bom notar que Paris está bem arrumada, comparada com outras capitais de mesmo porte,

  10. Joana Menezes

    -

    27/11/2009 às 15:18

    Em Paris, como os parisienses. Mudaram os hábitos? Ainda lembro de um susto a última vez que estive em uma boate aí. Se chamava Barrio Latino, na Bastilha. As 2h em ponto — o contrário de um apagão — acenderam as luzes. Foi o aviso que acabou a festa! Assim, de repente! Um choque! Que pena para os boêmios e notívagos. Agora, não ter restaurantes abertos até tarde é mesmo um pecado capital. Como ficam os que querem, ao menos, uma de uma sopinha após o espetáculo? E os amantes da gastronomia francesa? E aqueles que tem fome, tout simplement?

  11. Cesar Garibaldo Seabra

    -

    27/11/2009 às 14:45

    Amigo Monsieur,

    Paris virou uma grande roça de luxo. Perto de Berlim, Londres, Barcelona e NYC, Paris parou no tempo. Mas nessa roça eu queria viver…

    Abraço

    Cesar Garibaldo Seabra

  12. Guilherme Bittar Celestino

    -

    27/11/2009 às 14:42

    Com certeza Antonio.

    Vindo de São Paulo, foi difícil me acostumar a essa característica tipicamente parisiense. No ano que estive ai estudando, o máximo que acontecia era as famigeradas soirées na qual 15 pessoas se juntavam na casa de alguém e ficavam bebados. Super divertido rs. As 2, 3 da manhã, horário em que normalmente entro na balada em SP, já tinha acabado tudo.

    Para comer de madrugada era encarar aquele resto de kebab, no espeto desde as 10 horas da manhã do dia anterior. Melhor levar um chocolate no bolso do manteau

    O único lugar que salva, e que, por sinal, ficou fechado por um ano, devido a rigorosa legislação, era a Flèche d’Or no XXéme, o vigésimo distrito da capital. De resto…

    O problema de Paris é que a população envelheceu rápido. Se acomodou. Os jovens estão saindo daí para desbravar novos ambientes. Berlin, Londres… Foi publicada uma reportagem em 2008 sobre o êxodo de jovens franceses para Londres, onde se ganha mais e a vida é menos gris.

    Paris está a caminho de virar uma cidade museu, infestada de turistas de países “novos-ricos” sazonalmente. Na baixa temporada, a cidade fica ao Deus dará.

  13. Sheygio

    -

    27/11/2009 às 14:22

    Bem, eu sou um típico brasileiro. Nunca fui a Paris. Só posso acompanhar esses acontecimentos de forma virtual… Quanta chiqueza!

  14. Anderson Antunes

    -

    27/11/2009 às 13:37

    É por isso que gosto de morar em Paris: aqui é possível ser jovem sem necessariamente ter que sair ‘pra balada’ todas as noites. Sou muito mais um encontro com amigos, em um café, no fim do dia, do que uma noite de dança madrugada adentro. Se Berlim, Londres, Amsterdam e Barcelona são mais ‘acesas’ do que Paris no quesito vida noturna, ótimo. Quem curte esse tipo de diversão já sabe pra onde ir.


 

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